segunda-feira, 21 de junho de 2010

O fantástico mundo da leitura

A leitura alia diversão e aprendizagem, além de deixar a criança mais comunicativa e segura.

Se é fato que para ser um bom escritor é preciso ler bastante, muitas crianças podem estar traçando, até mesmo sem pensar nisso, um caminho de sucesso para tornarem-se futuros autores de obras literárias.

Na era da informação e da diversão tecnológica como a televisão e a Internet, um prazer antigo e mágico permanece em muitas crianças: o gosto pela leitura. “Entrar” na história e viajar pelo universo fascinante de personagens engraçados, aventureiros e cheios de histórias para contar parece magia, mas é isso mesmo que a leitura pode proporcionar à garotada que se encanta e se delicia com o mundo informativo e cheio de surpresas dos livros.

“Não é por obrigação, é por prazer!” Assim é a rotina de leitura de Laleska Bianca de Carvalho Targa, 11 anos. Apaixonada pela leitura desde que começou a ser alfabetizada, Laleska conta que chega a ler três livros ao mês, dependendo da quantidade de páginas. “Tudo começou quando passei a freqüentar a biblioteca e a ver muitos livros cheios de figuras coloridas. Passei a lê-los cada vez com mais freqüência e me apaixonei por esse mundo de fantasias e informações. Hoje estou lendo, por indicação de minha professora, o livro de Bernardinho “Transformando suor em ouro”, de 200 páginas. Quando leio, sinto um gostinho de quero mais”, afirma.

Preparo

De acordo com a professora doutora em literatura portuguesa, Glória Maria Palma, uma criança leitora é saudável e está preparada para enfrentar as dificuldades da vida. Com a leitura, você pode conhecer outros mundos, adquirir experiências e conhecer muitos lugares através da sua imaginação, que tende a se desenvolver cada vez mais. Quer conhecer lugares mágico? Vá até a biblioteca da escola, empreste um livro de um amiguinho ou peça para a mamãe e o papai comprarem um para você e sinta o prazer de viver as aventuras dos personagens das histórias.

Para Cauê Michelassi Lara Bortoni, 10 anos, livros com histórias engraçadas são melhores e até os ajudam a dormir mais rápido quando está sem sono. “Quando eu era menor, gostava muito de ler gibis. Comecei com esse tipo de leitura que me despertou para outros livros”, diz.

No quarto, na sala ou no quintal ao lado da piscina. E pode ser durante o dia ou à noite. Ler é uma brincadeira para o esperto garoto que chegou a ler uma coleção completa, de cinco livros, em um mês.

“Ler é como brincar, é imitar a vida”, afirma Glória Maria. Ela ensina que, quando você lê, aprende muito e passa a ter mais experiências de vida. Mesmo não vivendo realmente, você experimenta o que o livro conta por meio da sua imaginação, e isso é capaz de tornar a criança mais forte.

Imposição: o mal da escola, diz escritor

Luciana La Fortezza

Para Jorge Miguel Marinho, a grande importância é oferecer leitura sem amarras, em que as pessoas se descubram.

O grande mal da escola, inclusive no ensino superior, é a leitura impositiva, segundo e escritor e professor de literatura Jorge Miguel Marinho. De acordo com ele, a literatura deve ser livre de amarras. No entanto, atualmente, é tratada em sala de aula de modo utilitário. “A literatura não se presta a ensinar definitivamente as coisas, ela simplesmente vai dando pistas da realidade”, explica.

Ainda assim, os livros passam conhecimentos como geografia, filosofia e política. Para exemplificar, Marinho cita ‘Vidas Secas’, de Graciliano Ramos. “A grande importância é oferecer aos leitores, nas mais variadas etapas de sua vida, leituras em que eles se descubram. A relação entre livro e leitor é imprevisível. Machado de Assis é espetacular, um autor universal, mas não quer dizer que fulano vai necessariamente gostar dele”, afirma.

Antes de mais nada, a relação com literatura é de ordem emocional, destaca o professor. “Ler é uma forma de felicidade”, comenta, ao citar Jorge Luis Borges. Todo o restante do conhecimento vem depois.

“A escola ainda é o lugar privilegiado para desenvolver o gosto pela leitura. Por que não dá certo? Porque normalmente o professor utiliza a literatura para ensinar outros componentes. Ler é uma forma de devaneio. O conhecimento vem posteriormente, de forma natural. Nossa formação é muito prática”, reitera Marinho, que lançou recentemente a obra “A convite das palavras: Motivações para ler, escrever e criar” (Editora Biruta).

Um outro problema apontado pelo escritor é a tendência do professor apresentar textos muito distantes da realidade do aluno. “Os intermediários da leitura são fundamentais, a existência do professor é inestimável, tem muitos professores maravilhosos, mas eles têm que ter a sensibilidade de apresentar livros para os alunos como se fossem pratos de doce. Certamente, todo mundo gosta de ler, só não teve um exercício para descobrir sua leitura. Mesmo uma leitura sem grande qualidade literária, se o aluno gosta, a relação com as palavras é tão profunda que ele passa a exigir leituras mais aprofundadas”, afirma.

Para chegar lá, várias opções devem ser apresentadas, assim como várias interpretações devem ser aceitas, não apenas a do professor. Todas são igualmente interessantes, garante Marinho.

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‘Literatura não é ciência’, diz professora

A literatura é arte, não ciência, adverte a professora de literatura brasileira e portuguesa da Universidade do Sagrado Coração (USC) Glória Maria Palma. Os educadores, no entanto, normalmente tratam o texto literário de forma sisuda e apresentam a seus alunos uma leitura desprovida de prazer.

Na luta para abrir um espaço ao texto literário na vida de pessoas que cresceram longe dele, Glória realiza leituras coletivas e dramatizadas, por exemplo. “Faço oficinas, como literatura e gastronomia, literatura e pintura etc. Gosto do texto literário, mas tenho que abrir, que facilitar. Quando se faz um projeto legal, os alunos adoram. Eu sei que dá, mas tem que ter aquele batalhão preparando”, comenta.

As atividades elaboradas por ela para crianças de 5ª e 6ª séries contam com roupinhas, adereços de papel, enfim, uma parafernália para atrai-las. “A questão é que não estamos mais usando muito a palavra e texto é palavra. Nem a palavra oral, quanto mais a escrita. Hoje tudo é muito visual. Dizem que uma imagem diz tudo, mas diz coisa nenhuma. Tem que conhecer muito para ler bem uma imagem”, comenta a professora.

Glória ressalta que, atualmente, a educação cultural das crianças está praticamente nas mãos das escolas. Não só porque os pequenos passam o dia todo nas instituições, mas também em virtude da maioria das crianças ser oriunda de famílias carentes, que pouco podem contribuir com o repertório delas.

“Ficou a incumbência para as escolas e elas não se movimentaram para ter um projeto global de leitura. Para estimular tem que ter um professor preparado, um professor lido. E o nosso professor de língua é um professor que vem das classes populares, que não têm o hábito da leitura. A cultura da escola está se massificando. Estou falando de um grupo que se propõe a ensinar outros grupos. Eles erram”, opina a professora.

Resultado: muitos alunos chegam à graduação sem conseguir degustar um texto literário. Foram acostumados com a simplicidade da televisão, por exemplo. “Os programas gastam um dinheiro imenso para tornar o produto palatável. Em geral, os textos não são palatáveis. O professor, então, tem que o ler com eles, mostrar o vocabulário e quando os alunos dão conta do texto, acham ótimo”, informa Glória.

De acordo com ela, existe uma crise envolvendo a literatura literária porque outras mídias passaram a dar conta do conteúdo dos livros. Atualmente, ele pode ser conferido em filmes, novelas e seriados. A literatura, na sua opinião, atualmente, ficou restrita aos grupos mais intelectualizados, ligados às universidades públicas.

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Caótico

É uma inverdade dizer que as criança não leem. Elas leem, mas fazem uma leitura caótica, explica a professora DE literatura brasileira e portuguesa Glória Maria Palma, da Universidade do Sagrado Coração (USC).

“As crianças vão lendo conforme o que vai caindo nas mãos. Leem romances, best sellers. As escolas têm que ter projetos que contemplem as várias leituras. As informativas, as literárias e até usar a leitura caótica do aluno para a produção de alguma coisa interessante”, recomenda a professora.

Leitura é uma forma de felicidade...

"Leitura é uma forma de felicidade..." Jorge Luís Borges

Nossos cumprimentos ao JC pela edição de domingo, 5 de junho. A partir da sua manchete - “Para se tornar hábito, escola e pais devem associar leitura à felicidade”, complementando-a com as orientadoras matérias nas páginas 8, 9 e 10, assinadas pela jornalista Luciana La Fortezza, a quem aplaudimos, e aos entrevistados professora Glória Maria Palma e professor Jorge Miguel Marinho. Trabalho necessário e motivador neste país, em que 61% dos brasileiros adultos alfabetizados têm pouco ou nenhum contato com os livros, segundo pesquisa do “Retrato da Leitura no Brasil”.

Um país com 190 milhões de habitantes e 116 milhões de alfabetizados com pouco interesse em leitura é preocupante, considerando ainda que entre eles existam 37 milhões de “analfabetos funcionais”, leitores incapazes de interpretar um texto de quatro linhas.

A Academia Bauruense de Letras vem, há muito tempo, batalhando para minimizar tão grave problema, pelo menos em Bauru e cidades da região, proferindo palestras com enfoque sobre o incentivo à leitura desde o ensino fundamental ao superior nas escolas municipais, particulares e estaduais. E isso dentro da filosofia manifestada ao JC pelo escritor e professor Jorge Miguel Marinho, que preconiza o ensino sem imposições ou amarras.

O método utilizado pela Academia inclui conversas com alunos numa interação lúdica, destacando somente a importância da leitura na existência de qualquer cidadão que deseja crescer na vida social e profissional. Isso se encaixa na síntese do pensamento do professor Jorge: “Simplesmente dando pistas da realidade”. De fato, abolindo as imposições de obrigatoriedade, as cobranças, resta apenas a sugestão implícita de que a leitura é a única fonte de conhecimento que proporciona o progresso e a felicidade pessoal.

A professora Glória Maria Palma afirmou ao JC que “Os educadores apresentam aos seus alunos uma leitura desprovida de prazer.” “Elas (as crianças) lêem, mas fazem uma leitura caótica”.

O hábito de ler é dar asas à imaginação, viajar pelos mundos da fantasia, da realidade e da criatividade — isso é o conteúdo básico das conferências da Academia, objetivando despertar o interesse pela leitura, isto é, “dando pistas” e tornando tal hábito prazeroso e pleno de surpresas, de descobrimentos e de voos até onde a imaginação de cada aluno pode alcançar.

A ABLetras vem sendo gratificada pelo reconhecimento que tem recebido dos dirigentes e professores das escolas por onde tem passado e, principalmente, dos alunos, cujas perguntas chegam a surpreender e a demonstrar o interesses em ler e saber mais.

Para efeito de registro, a nossa Academia já proferiu palestras para mais ou menos 6.000 ouvintes em Bauru, Pederneiras, Piratininga, Avaré, Jaú, Ibitinga e outras cidades, incluindo penitenciárias, o Instituto Penal Agrícola e a Fundação Casa (antiga Febem), em Bauru.

Ultimamente, dentro dos seus limites e do número de ouvintes, ao fim de cada palestra oferece como “ferramentas” muitos livros, para que os alunos desfrutem do conteúdo e comprovem que o prazer de ler inclui aventuras e descobrimentos inesperados.

Reiteramos nossos cumprimentos ao JC, à jornalista Luciana La Fortezza, aos educadores Glória Maria Palma e Jorge Miguel Marinho, pela feliz oportunidade de produzir matéria que, temos a certeza, deve ter despertado interesse nos professores e o entusiasmo nos pais de alunos.

Como voluntários continuaremos, os membros da Academia Bauruense de Letras, a praticar o dever de qualquer entidade semelhante: contribuir para o crescimento intelectual pelas letras e, sempre que solicitada, revelar a forma da felicidade cantada nas páginas dos livros.

Munir Zalaf - presidente da Academia Bauruense de Letras

Sesc Bauru realiza sarauzinho infantil

Que ideia genial, um sarauzinho para estimular a leitura e a troca de livros

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Hoje, às 15h, no Bosque, o Sesc Bauru apresenta ao público seu mais novo projeto infantil, o “Sarauzinho”. Neste Sarau especialmente criado para crianças, será apresentada “A Arca de Noé”, importante obra de Vinicius de Moraes e Toquinho. Com muita música, poesia e brincadeiras, elas poderão ouvir canções como “A Casa”, “A Abelha”, “O Relógio”, “A Porta”, entre outras. A entrada é gratuita e os ingressos devem ser retirados uma hora antes.

A responsável pelo projeto, Maria Augusta, explica que a intenção é proporcionar um momento lúdico entre pais e filhos em que a música e a poesia se encontram para trazer encantamento, diversão e cultura. “Nosso objetivo é aproximar o público infanto-juvenil da literatura, estimular o gosto pela leitura e promover uma viagem através do jogo das palavras”, completa ela.

Ao falar sobre a ideia de produzir um trabalho como este, ela ressalta: “É um trabalho totalmente inovador. Para começar escolhemos uma obra literária cantada, pois assim fica muito mais fácil apresentar o conteúdo. É uma forma de educação informal, um dos principais objetivos do Sesc”.

As canções serão interpretadas pela Cia Chama Poética, especializada em Saraus para este tipo de público específico. “Eles tem uma linguagem super dinâmica, brincam com o jogo das palavras, além disso, possuem um currículo bem diversificado com apresentações na Biblioteca São Paulo, Museu da Língua Portuguesa e Casa das Rosas”, explica ela.

Após o “Sarauzinho”, haverá uma atividade interativa, onde as crianças poderão trazer de casa livros que foram lidos por elas e em um espaço reservado poderão trocá-los. A ideia é estimular o hábito da leitura e também mostrar a importância da troca de informações.

Leitura: o papel dos pais

A autora, Tamara de Souza Brandão Guaraldo, é colaboradora de Opinião

A manchete de capa do JC de domingo abordou um tema de grande relevância social: o hábito da leitura e a formação de leitores. Os dados da Secretaria do Estado da Educação de São Paulo, apresentados na reportagem, mostram que apenas 1 em cada 5 brasileiros tem o hábito de ler. O desafio da promoção da leitura, que possa tornar o conhecimento acessível, é dever do Ministério da Cultura e da Educação aliados aos sistemas de ensino e universidades, exigindo esforços de todos. A partir do Plano Nacional do Livro e da Leitura (PNLL) lançado pelo governo federal em 2006, a leitura passa a ser reconhecida como política pública de Estado. A educação e cultura são critérios prioritários, capazes de definir o grau de desenvolvimento socioeconômico de uma nação.

O PNLL também apresenta a necessidade da formação de mediadores, sejam educadores, bibliotecários ou outros, para atuar em projetos que fomentem a leitura, como performances poéticas, rodas literárias, oficinas de criação literária, clubes de leitura nos mais diversos espaços. Porque mesmo se há livros por perto, falta aquela iniciativa que abre as portas para as obras: estamos diante da importância dos mediadores e da mediação da leitura, principalmente no âmbito familiar e escolar, como bem destacado pela reportagem de domingo. Reforça essa tese a última edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, feita com 5.012 pessoas em 311 municípios, em 2007, com uma amostra que representou todo o universo da população brasileira com 5 anos de idade ou mais, ilustrando em números os fatos trazidos pelo JC sobre a questão. Nessa investigação, foi considerado leitor quem declarou ter lido pelo menos 1 livro nos últimos 3 meses anteriores à pesquisa e não leitor quem declarou não ter lido nenhum livro nos últimos 3 meses. A pesquisa foi coordenada pelo Observatório do Livro e da Leitura, realizada pelo Instituto Pró-livro, Organização Social Civil de Interesse Publico - OSCIP - e executada pelo Ibope Inteligência.

O leitor representou 55% (95,6 milhões) da população brasileira, e esse público confirma o que foi demonstrado na reportagem do JC: “o exemplo de prazer precisa estar em casa”. Aí se configura a importância das mediações, nesse caso a familiar, em que 49% dos entrevistados afirmaram ter se tornado leitores pela influência da mãe e 30% pela influência do pai. Do total de leitores, 60% afirmaram sempre ter visto os pais lendo em casa. Já entre os 45% (77,1 milhões) que se declararam não leitores, 63% nunca presenciaram esse hábito em casa, e 85% jamais foram presenteados com um livro em toda a infância. É importante destacar que muitos dos não leitores tiveram ou têm pais analfabetos (23%), que cursaram até a 4ª série do ensino fundamental (23%) ou têm fundamental incompleto (15%), enquanto as mães sem qualquer escolaridade são 26%, 22% fizeram até a 4ª série e 16% têm fundamental incompleto, o que dificulta a valorização do hábito da leitura.

Nesse cenário cresce a importância da escola, na tentativa de diminuir o índice de não leitores no país. A leitura, como prática dialógica, convoca a importância do professor para a construção do hábito de ler, pois 33% do total de leitores entrevistados afirmaram que foram os professores a maior influência para o seu gosto pela leitura.

A escola precisa intensificar sua ação em todas as direções que se relacionam com o caminho da leitura: a mediação da leitura é uma prática formadora, e assumir esse saber significa compreender que mediar é criar possibilidades e oferecer condições para a construção do conhecimento. Portanto, o mediador deve ter certos saberes, que não são “simplesmente transferidos”. A reportagem do JC destacou que se o professor não for ele mesmo um leitor, terá um procedimento de mediação que soará como falso. É, portanto, de maior relevância para o professor contar com uma estrutura adequada para ser leitor e mediador de leitura na escola, como o espaço das bibliotecas escolares que devem estar presentes em seu próprio local de trabalho, onde a leitura, tanto de livros clássicos e livros caros, possa ser usufruída gratuitamente tanto por ele como pelo aluno.

Uma grande parte da população brasileira tem pouco acesso a materiais de leitura, em especial, ao livro. O preço médio do livro no Brasil, em torno de 25 reais, é ainda um impedimento a disseminação da leitura. Num país em que 66% dos livros estão nas mãos de apenas 20% dos brasileiros, em que quase 10% da população não tem nenhum livro em casa, aliada a existência de poucas livrarias e a dificuldade econômica de muitos, justifica a necessidade de espaços para a efetiva mediação da leitura, como as bibliotecas comunitárias, públicas e escolares, com materiais atualizados, para apoiar as práticas dos mediadores como o professor, os pais e os bibliotecários, seja com textos literários, informativos ou de mero entretenimento.