quinta-feira, 27 de maio de 2010

Pegar emprestado. Ler. Devolver. Funciona!

São 11 estações de metrôs em cinco Estados, com acervos para emprestar aos usuários. Iniciativa inaugurada em 2004, ultrapassa todas as expectativas de sucesso. Foram emprestados mais de 600 mil livros

Quem pega metrô cruza com multidões apressadas, trens chegando e partindo, catracas girando, quiosques chamando atenção. E livros. Por empréstimo. De graça.

E o que é mais incrível, contrariando o conceito de que emprestar livro é dizer adeus a ele. Nada disso.
“Nossa proposta é colocar um livro no caminho do cidadão que não lê, pelo menos regularmente, e vive estressado com esse corre-corre. Ele precisa tropeçar no livro, do contrário, passa direto, pensa em outra coisa”.

A explicação é do presidente do Instituto Brasil Leitor, William Nacked. A entidade se dedica a ‘expandir o uso e a familiaridade com os livros, jornais, revistas e computadores entre jovens, crianças, famílias e professores, em especial os das grandes periferias, abandonadas à barbárie da urbanização selvagem’.

Nacked e o IBL falam também de ‘novo apartheid’, o apartheid da informação.

O IBL iniciou sua trajetória pelos trilhos em 2004, quando abriu uma biblioteca na estação Paraíso, em São Paulo. Entroncamento que junta duas linhas, por ali passam cerca de 500 mil transeuntes, todo dia. Gente que não quer outra coisa senão baldear, sair, embarcar. É diante desse frenesi constante que surpreende o sucesso da iniciativa ‘Embarque no Metrô’, hoje espalhada por nada menos que seis pontos, inclusive a recém-inaugurada biblioteca na estação Brás, da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos).

A meta de Nacked é montar uma dezena de pontos na malha metroviária paulistana, mas o sucesso, que começou há cinco anos, vai estourar as previsões. A própria CPTM colocou mais dois locais à disposição do IBL, Itaim Paulista e Osasco. Ambas estão em fase de instalação e vão funcionar ainda neste semestre. E a própria expansão do sistema vai levar à multiplicação rápida das unidades. Os terminais de ônibus da estatal SPTrans, mais de duas dezenas pela cidade, também serão brevemente contemplados.

A viagem pelo mágico mundo dos livros, via metrô, não pára em São Paulo. O IBL estendeu a iniciativa ao Rio, Recife, Porto Alegre e, em início de agosto, inaugurou em Belo Horizonte a primeira unidade do ‘Estação Leitura’, na estação Central do metrô, que é administrado pela CBTU (Companhia Brasileira de Trens Urbanos). Como todas as outras bibliotecas movidas a passageiros, tem patrocínio. A da capital mineira tem o apoio da Fosfértil. Outros parceiros do IBL, que investem nas instalações e nos salários dos funcionários das onze bancas, em cinco capitais, são Visa, Votorantim e Usiminas.

O êxito pode ser medido pelos quase 500 mil livros emprestados até hoje. Em um País sem tradição de leitura e, mais ainda, sem frequência de público em bibliotecas, o pulo do gato foi simplesmente inverter o processo. Em lugar do interessado buscar a biblioteca, ela é que aparece em seu caminho.

A mais antiga biblioteca de metrô, a já citada estação Paraíso, já realizou 170 mil empréstimos a seus 18 mil sócios – divididos em 12,5 mil mulheres e 5,5 mil homens. Goleada feminina nesse placar de leitura. Só em 2007 houve um incremento masculino, da ordem de 38%, mas isso se deu em função do marketing do próprio funcionário, que expôs livros sobre esporte durante a realização dos Jogos Panamericanos do Rio.

Para fazer o cadastro e receber uma carteirinha, o interessado só precisa apresentar identidade, CPF, foto 3x4 e comprovante de residência. “Essas bibliotecas instaladas nos metrôs, declara William Nacked, pai da ideia e gestor do IBL, provam que o brasileiro quer e gosta de ler. Facilitar o acesso aos livros era o que faltava para incentivar a leitura em um mundo moderno e apressado”.

Nos quiosques instalados nos metrôs das cinco capitais, o cardápio é semelhante. Um mínimo de 2 mil títulos, que oferecem de tudo um pouco: best-sellers, literatura brasileira, infanto-juvenil, autoajuda, filosofia, linguística, religião, artes, história.

Orgulhoso, Nacked lista os três mitos que as bibliotecas derrubaram, ao longo desses cinco anos de operações:

Mito nº 1: o brasileiro não gosta de ler
Mito nº 2: ele não devolve livros que toma emprestado
Mito nº 3: ele só escolhe porcaria

A perda, isto é, a taxa de não-devolução, e de 0,24% Um índice praticamente zero.

Foram emprestados, até junho passado, data do último levantamento, 617.568 livros.

O livro mais procurado é ‘Caçador de Pipas’, de Khaled Hosseini (Nova Fronteira), seguido por ‘Fortaleza Digital’, de Dan Brown (Sextante) e Marley&Eu, de John Grogan (Ediouro). Outros títulos bem cotados nas 12 bibliotecas, são ‘A menina que roubava livros’, Markus Zusak (Intrínseca); ‘O Código Da Vinci’, Dan Brown (Sextante); ‘O Monge e o Executivo’, James C. Hunter (Sextante); ‘A Pétala Vermelha’, Octávio Augusto (Lachatre); ‘O Menino do Pijama Listrado’, John Boyne (Cia. das Letras).


Números expressivos

600 mil livros emprestados, em um acervo de...

...35 mil títulos, somadas

10 estações, até junho de 2008 (agora são 11), para mais de

50 mil sócios cadastrados, com idade média entre

21 e 30 anos, sendo

65% de mulheres.

0,24% é o índice de não-retorno de livros

Ecofuturo - Projeto Biblioteca Comunitária Ler é Preciso

Conheça o projeto Biblioteca Comunitária Ler é Preciso, que contribui com a formação leitora de crianças, jovens e adultos, por meio da democratização do acesso ao livro de qualidade.



Fonte: Ecofuturo

Meta é qualidade da educação

À frente do maior império de comunicação do País com os irmãos, José Roberto Marinho diz que só o conhecimento rompe definitivamente o ciclo da pobreza

Por Celso Kinjô

José Roberto Marinho herdou uma responsabilidade e tanto. Com seus irmãos Roberto Irineu e João Roberto, dirige um conglomerado de comunicação que envolve redes de televisão (abertas e fechadas, inclusive no exterior), rádio, jornal e revista, portais de internet, produtoras de conteúdo para tv paga, gravadoras, distribuidoras de filmes.

Caçula do trio, 53 anos, vice-presidente das Organizações Globo, comanda também a Fundação Roberto Marinho, que há mais de quatro décadas tem como missão facilitar o acesso aos universos da cultura e da educação, através de seus meios de comunicação.

Na XIV Bienal Internacional do Rio, José Roberto recebeu, em nome da empresa, o troféu José Olympio, em homenagem ao empenho que a Globo vem dedicando ao livro e à leitura. Em 1993, seu pai, jornalista Roberto Marinho, foi agraciado com o mesmo prêmio.

Nesta entrevista exclusiva a Panorama Editorial, o empresário analisa o desafio estratégico que se coloca para o País, o de reduzir as desigualdades, aumentar a escolaridade e, assim, elevar a oferta e a demanda do mercado editorial.

Índice baixo de escolarização e ensino de qualidade discutível. Seriam essas as causas para o irrisório índice de leitura da população? Ou seria mais a falta de acesso ao livro?
“Ambas são verdadeiras. O número de analfabetos funcionais no país é gigantesco. E, se uma pessoa não sabe interpretar o que lê, o mundo do livro não existe para ela. Se ela estudou apenas até o primeiro ciclo do ensino fundamental, por exemplo, deixou de ler inúmeros livros didáticos e paradidáticos que seriam essenciais para a sua formação. O acesso restrito ao livro é outro fator determinante. Além da questão da renda, há problemas como a baixa proporção de bibliotecas públicas e em escolas. Sem dúvida, iniciativas públicas e privadas são fundamentais para reverter esse quadro e elevar o patamar de conhecimento, liberdade e autonomia propiciados pelo hábito da leitura.”

Em sua opinião, como o Brasil pode vencer o analfabetismo (total e funcional), e o agora reconhecido analfabetismo digital? O Sr. acha que o Governo tem feito a sua parte? E a iniciativa privada, deveria participar mais desse esforço do Estado?
“Sabemos que só o conhecimento rompe definitivamente o ciclo de pobreza e melhora de forma sustentada a vida das pessoas. Para atingirmos esse objetivo, é necessário um esforço conjunto – como é o caso do ‘Compromisso Todos pela Educação’ –, que envolve os governos, o setor privado e a sociedade civil organizada. Além de uma questão ética, o desenvolvimento humano é condição para a competitividade do país no mundo globalizado. A qualidade da educação precisa ser, de fato, a prioridade absoluta na agenda nacional, com políticas de Estado continuadas (registre-se avanços nesse sentido) e uma atuação complementar – esse é um ponto-chave para alcançarmos a escala necessária – entre os diferentes setores e atores. E, logicamente, o acesso aos bens culturais e às tecnologias de informação e comunicação precisa estar contemplado nessa busca de soluções, ou as oportunidades serão cada vez mais desiguais.”

De que maneira se pode aumentar o acesso da população ao livro e à leitura? Tão somente através de mais bibliotecas?
“É inegável a importância de se formar desde cedo nas crianças o hábito da leitura, apresentando a elas publicações que estimulem e reforcem o prazer de ler. O ideal é que esse hábito comece dentro de casa e depois tenha continuidade na escola. Para isso, os pais também devem ler – de modo a incentivar que os filhos façam a mesma coisa – e os professores devem ter condições de apresentar leituras diversificadas para os alunos. E os meios de comunicação podem ter um papel de grande relevância”. As Organizações Globo buscam contribuir com a ampliação do acesso à leitura de diferentes formas. Por exemplo, por meio do ‘Novo Telecurso’, metodologia pioneira da Fundação Roberto Marinho, foram distribuídos mais de 600 mil livros nos dois últimos anos.

Através do projeto ‘Época na Educação’, do qual já participaram mais de 1.600 escolas, os alunos e professores recebem revistas, fascículos especialmente desenvolvidos e têm acesso a conteúdos na internet, em um conjunto de atividades que ajudam a desenvolver a leitura e a pesquisa. O jornal O Globo também mantém o projeto ‘Quem Lê Jornal Sabe Mais’, de incentivo à leitura em sala de aula, e o Extra, em onze anos, distribuiu gratuitamente mais de seis milhões de livros, para citar apenas algumas iniciativas.

Recentemente, O Globo lançou ainda, associado ao caderno literário semanal Prosa & Verso, o projeto ‘O Livreiro’, a primeira rede social na internet dedicada aos livros. No campo social, o ‘Criança Esperança’ destina recursos para projetos que promovem a inclusão através da leitura, e o ‘Amigos da Escola’ estimula a participação da comunidade em atividades que têm a leitura como eixo de atuação”.

Sobre televisão: que influência exerce no estímulo à leitura da criança e do jovem? Ela inibe, estanca, estimula a vontade de ler?
“Estamos certos de que uma programação televisiva de qualidade, que busque informar, entreter e educar, com ações voltadas para a valorização do conhecimento e da nossa identidade e diversidade cultural, tem papel importante nesse sentido. Por exemplo, quantas obras de teledramaturgia adaptadas ou inspiradas na literatura nacional não impulsionaram fortemente as vendas de livros?”

O advento de novas mídias eletrônicas vai interferir e até ocupar espaços tradicionais do livro? Ou trata-se de um falso dilema?
“Acreditamos que as diversas mídias são complementares. O home vídeo ampliou a distribuição de filmes. O rádio não acabou com o surgimento da TV. As novas mídias e as novas plataformas para distribuição digital e leitura de livros ganharão espaço, mas o livro físico continuará existindo.”

Em suas diversas mídias, a Rede Globo tem apoiado de modo claro o estímulo à leitura. De que forma se pode mensurar os resultados dessa experiência? Poderia citar exemplos?
“Desde 1965, a teledramaturgia da TV Globo adaptou para o vídeo 72 obras inspiradas ou baseadas na literatura. Foram minisséries, novelas e especiais difundindo em larga escala, no Brasil e no exterior, obras e autores consagrados, assim como revelando novos talentos nacionais. Somente nos últimos quatro anos, a Rede Globo veiculou gratuitamente o equivalente a R$ 37 milhões em campanhas nacionais e regionais de apoio às feiras literárias e de incentivo à formação de novos leitores. Entre 2006 e 2009, o jornalismo da Rede Globo produziu mais de 3500 matérias nacionais e regionais sobre literatura, incluindo a cobertura das principais feiras literárias do País.

Na internet, o portal G1 mantém blogs, faz entrevistas, coberturas e transmissões sobre eventos literários. O assunto é também permanente nos mais diversos sites de programas da Rede Globo. No merchandising social, 61 cenas de incentivo à leitura estiveram presentes nas telenovelas nos últimos quatro anos, difundindo o tema em horário nobre, em todo o território nacional.

A literatura está presente também em espaços relevantes nos Canais Globosat de TV por assinatura e em todas as empresas das Organizações Globo, com ações permanentes e diversificadas.”

Qual é a orientação da empresa no que se refere à divulgação de eventos literários, como feiras, do tipo Flip ou outras mais modestas, exposições, bienais do livro?
“Além do expressivo investimento na veiculação gratuita de campanhas nacionais e regionais de apoio a feiras literárias, e de ampla cobertura jornalística, realizados pelas Organizações Globo, sobre os quais falamos, contamos com participação assídua nos principais eventos literários. E realizamos iniciativas especiais: em 2007, por exemplo, vinhetas temáticas (“plim-plins”) foram criadas para promover a edição da Bienal daquele ano na Rede Globo.

No que se refere ao Sistema Globo de Rádio, a Rede CBN monta estúdios e ancora programas das bienais, produzindo debates, entrevistas e até oficinas, como aconteceu esse ano aqui no Rio. Além da cobertura das feiras literárias, feita também pela Rádio Globo, a CBN leva ao ar reportagens dedicadas ao tema e mantém o boletim diário ‘Tempo de Letras’. Todo esse material fica também disponível no site da emissora.”

A direção da empresa estimula, especificamente, ações de merchandising em favor do livro e da leitura?
“Conforme falamos, contamos com uma quantidade significativa de ações de merchandising social na teledramaturgia que estimulam a leitura e evidenciam a importância desse hábito. É muito comum ver personagens de novelas lendo um livro, comentando sobre uma obra ou autor. É importante que o público perceba que a leitura tem que estar presente no dia a dia. É lembrete aos pais: as crianças precisam ter acesso fácil ao livro em casa. Os pais precisam contar histórias, apresentar o mundo da literatura, e dar o exemplo.”

O Sr. tem uma mensagem otimista em relação ao futuro do livro?
“O Brasil caminha – precisamos acelerar bastante o passo, claro – para se tornar uma sociedade menos desigual. Pode avançar muito nas próximas décadas no desenvolvimento econômico, sem esquecer da inclusão social e do meio ambiente. Isso significa que milhões de pessoas passarão a ter a acesso a bens culturais e à informação escrita. A escolaridade aumentará, assim como a qualidade da educação, com a convergência de prioridades em torno do tema. Isso aumentará a demanda e a oferta no mercado editorial. Temos a certeza de que com esforço conjunto podemos melhorar os índices de leitura e conhecimento no país, reforçando a democracia e a nossa identidade.”

A educação passa pela leitura

Em cada cidade, uma biblioteca. Em cada escola pública, um acervo. E livros didáticos distribuídos a todo o ciclo básico. São os pilares do ministro Fernando Haddad para recuperar a qualidade da Educação

Por Celso Kinjô

Responsável pelo maior orçamento do governo (R$ 41 bilhões, soma equivalente a 4,6% do PIB brasileiro), o ministro Fernando Haddad, professor, advogado e economista, tem, como uma de suas prioridades, o incentivo ao hábito da leitura de livros. Criou vários programas nessa direção, seu ministério vem investindo neles, com a convicção de que o retorno para o País será muito maior.

Em entrevista exclusiva a Panorama Editorial, o ministro, há quatro anos pilotando a Educação, revela seus planos até 2010, quando se encerra o segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Como o Sr. define as ações do Governo em estimular o hábito da leitura, sobretudo nas populações mais jovens?
“Estou de acordo com o diagnóstico de que a leitura é o caminho para a educação de qualidade. Ela nunca será possível se a leitura não estiver presente no dia a dia da população. Daí, derivam as ações do Governo. Não só de garantir que todo município brasileiro tenha pelo menos uma biblioteca pública, como também garantir que todas as escolas públicas recebam um acervo, no âmbito do Programa Nacional Biblioteca na Escola. E mais que isso, estendendo o programa do livro didático para toda a educação básica, e não restringi-lo ao ensino fundamental como no passado.

Até 2005, o governo não encaminhava livros didáticos para os alunos do ensino médio. Isso é uma barbaridade à luz da exigência por mais qualidade na educação. Literalmente, é impossível que alguém faça um bom ensino médio sem uma coleção didática disponível. Hoje, todas as etapas da educação básica; todas as escolas, no que diz respeito a acervos de livros; e todos os municípios, no que diz respeito a bibliotecas públicas, estão sendo contemplados.

E há outra forma de introduzir o hábito da leitura entre os jovens. Experiências empíricas comprovam que a internet é uma porta de entrada importante para que se cultive a leitura. Como a navegabilidade pressupõe a leitura – não é como a tevê, em que você muda de canal com um botão numérico –, a internet estimula a leitura, e há evidências empíricas de que isso tem impacto na proficiência de leitura, e também no consumo de livros. Uma coisa não substitui a outra. Ao contrário, são mídias que se reforçam.

Finalmente, a desoneração tributária de toda a cadeia do livro foi um ato importante do governo Lula, no sentido de tornar mais acessível o livro para a população”.

Como fazer o livro mais acessível, ministro?
“Eu penso que a leitura é conseqüência da democratização do acesso ao livro. Por isso é tão importante o programa ‘Biblioteca na Escola’. As pessoas tendem a imaginar que o cidadão não lê porque não quer, mas muitas vezes as pessoas não cultivam porque não tem acesso ao livro. São inúmeros os exemplos divulgados pela imprensa, de cidadãos comuns que tomaram a iniciativa de criar bibliotecas circulantes, e naturalmente as pessoas se aproximam do mundo da escrita.

O Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE), para 2010, foi denominado ‘PNBE do Professor’. A dúvida é: há títulos suficientes para capacitar os professores?
“É uma inovação. Estamos agregando, à biblioteca da escola, uma biblioteca didática para o professor. É uma inovação porque averiguamos que o Brasil não dispõe de número expressivo de títulos de didática especifica. Se você pesquisar essa área em língua inglesa, ou francesa, ou em espanhol, vai verificar que o número de títulos é substancialmente superior ao catálogo em língua portuguesa. Então, esse programa visa fermentar a produção de livros de didática específica. Como ensinar Física, como ensinar História. Como ensinar Filosofia. Tudo isso para as várias etapas da educação básica. É um instrumento valioso na mão do professor, que pode aprimorar a sua didática, se tiver à mão uma biblioteca desse tipo.

Não necessariamente se deve apelar para traduções. Temos professores qualificados para escrever esses livros. A produção local vai ser fomentada a partir do PNBE 2010, em pouco tempo teremos uma coleção de títulos de didática específica bastante significativa. Por que não há ainda essa variedade? Porque sem o apoio do Estado, fica difícil. Quem vai contratar alguém para escrever um livro, sem ter a menor ideia sobre seu potencial. Um livro desse tipo é muito caro, pois exige cuidados, vai chegar na mão do professor, que vai fazer uso dessa prática.

O investimento não é pequeno e sem a garantia de demanda, fica difícil para um editor investir tanto dinheiro, sem ter a menor ideia de como será o impacto do lançamento da obra. Com a garantia de que o Estado adquirirá as obras para compor o acervo das bibliotecas escolares, tudo fica facilitado.

A distribuição de livros na rede pública vai continuar e até crescer, ministro?
“Não tenha dúvida. Ninguém vai voltar atrás na decisão de entrega gratuita de livros didáticos para toda a educação básica. Seria um contra-senso. Agora que a biblioteca chegou à pré-escola, ao ensino fundamental, ao médio, não há retrocesso possível.

O necessário é que o programa ‘Biblioteca na Escola’ se expanda, mas para isso, tenho de cuidar de uma questão preliminar, que é a infraestrutura das escolas, para acomodar acervos maiores. Tem havido esforço razoável por prefeitos e governadores, para adequar instalações e há outros dois programas importantes do MEC. Um é o ProInfo, que está instalando banda larga em todas as escolas públicas urbanas, e o Biblioteca na Escola. São programas muito importantes, até para caracterizar o papel da escola na era da tecnologia da informação”.

É possível uma educação de qualidade em um País de tantas desigualdades, ministro?
“Entendo que se quisermos combater as desigualdades, não há outro meio senão investimento. As desigualdades se explicam pela falta de investimentos em educação. Está comprovado, por vários estudos econométricos, que o investimento que tem a maior taxa de retorno é o investimento em formação. Supera qualquer outro. Entendo que o Brasil despertou para isso, definitivamente.

Entendo que o Plano Nacional de Desenvolvimento da Educação deu um norte, um caminho para se trilhar, do ponto de vista de se fixar metas de qualidade, desde o ensino fundamental, passando pela graduação, o ensino médio e até a pós-graduação. O sistema brasileiro de avaliação é incomparável, eu diria que é um case a ser estudado, porque estamos avançando em todas as etapas. Há a fixação de metas, ou seja, você investe mais, mas exige que seu investimento retorne para a sociedade, em qualidade”.

O Sr. reivindica que o orçamento para Educação atinja 6% do PIB brasileiro?
“Se o próximo governo mantiver o passo do atual, eu diria que sim. Porque saltamos de um investimento de 2,9% do PIB para 4,6%. Temos toda a condição de chegar ao fim do governo beirando ou superando os 5%, mas em torno de 5%. Se o próximo governo fizer exatamente o mesmo esforço, chegaremos rapidamente a 6%. Mantendo esse patamar, até que se salde a dívida educacional, que é elevada em função da falta de investimentos que é histórica”.

No atual governo, não há cortes na educação?
“Desde 2004, não há cortes no orçamento da educação, muito ao contrário. Nosso orçamento, do ano passado para este, se elevou em cerca de R$ 10 bilhões. A previsão para o ano que vem é de um salto do mesmo porte, talvez um pouco menos. Um orçamento que vai superar os R$ 50 bilhões, tendo saído de um patamar de R$ 23 bilhões em 2004”.

E o futuro do livro, como vê?
“Uma vez que alguém tem acesso ao mundo da cultura, não abdica mais desse benefício. Creio que temos muito a fazer. O brasileiro, do adulto recém-alfabetizado, até o recém-doutor, sabe que o mundo da escrita é inalienável. Uma vez inserido nele, no universo da escrita, ninguém vai sair. Isso vale para o futuro.

A importância de contar histórias para as crianças

Cláudia Marques Cunha Silva

Como recurso psicopedagógico a história abre espaço para a alegria e o prazer de ler, compreender, interpretar a si próprio e à realidade

Por que contar histórias para as crianças?

A história é uma narrativa que se baseia num tipo de discurso calcado no imaginário de uma cultura. As fábulas, os contos, as lendas são organizados de acordo com o repertório de mitos que a sociedade produz. Quando estas narrativas são lidas ou contadas por um adulto para uma criança, abre-se uma oportunidade para que estes mitos, tão importantes para a construção de sua identidade social e cultural, possam ser apresentados a ela.

Qual a diferença entre ler e contar uma história?

São duas coisas muito diferentes, porém ambas muito importantes. Um texto escrito segue as normas da língua escrita, que são completamente diferentes daquelas da linguagem falada. Quando uma criança ouve a leitura de uma história ela introjeta funções sintáticas da língua, além de aumentar seu vocabulário e seu campo semântico. Porém, aquele que lê a história deve dominar a arte de contá-la, estar preparado suficientemente para fazê-lo com apoio no texto, sabendo utilizar o livro como acessório integrado à técnica da voz e do gesto.

Além disso, quem lê para uma criança não lhe transmite apenas o conteúdo da história; promovendo seu encontro com a leitura, possibilita-lhe adquirir um modelo de leitor e desenvolve nela o prazer de ler e o sentido de valor pelo livro.

Há opiniões divergentes neste campo: alguns autores consideram que o contador sem o livro tem mais liberdade de acentuar emoções, modificar o enredo segundo as reações da criança e portanto, melhor comunicação com o público infantil. Teria ainda mais disponibilidade para trabalhar sua voz e seu gesto.

Somos partidárias, neste aspecto de que o importante é como ler e como contar, porque é preciso que se tenha técnica e preparo para despertar o desejo e o prazer das crianças.
Para que contar histórias?

Um dos principais objetivos de se contar histórias é o da recreação. Mas a importância de contar histórias vai muito além. Por meio delas podemos enriquecer as experiências infantis, desenvolvendo diversas formas de linguagem, ampliando o vocabulário, formando o caráter, desenvolvendo a confiança na força do bem, proporcionando a ela viver o imaginário.

Além disso, as histórias estimulam o desenvolvimento de funções cognitivas importantes para o pensamento, tais como a comparação (entre as figuras e o texto lido ou narrado) o pensamento hipotético, o raciocínio lógico, pensamento divergente ou convergente, as relações espaciais e temporais( toda história tem princípio, meio e fim ) Os enredos geralmente são organizados de forma que um conteúdo moral possa ser inferido das ações dos personagens e isso colabora para a construção da ética e da cidadania em nossas crianças.

Como selecionar histórias para ler ou contar?

Segundo Luiza Lameirão, existem dois tipos de histórias: aquelas que servem de alimento para a alma, permitindo a transmissão de valores e de imagens arquetípicas fundamentais para a construção da subjetividade; e aquelas que servem para despertar o raciocínio e o interesse da criança para formas de agir e estar no mundo

- são chamadas histórias matéria - importantes para a estruturação dos aspectos objetivos de nossa personalidade. Estas últimas devem ser selecionadas de acordo com o desenvolvimento cognitivo do ouvinte porque exigem maior compreensão racional e analítica.

Como se aprende a contar histórias?

Em cursos de capacitação pode-se adquirir as competências necessárias para se contar histórias, aprendendo as técnicas básicas de voz, gesto, materiais de apoio, dentre outras.

Podemos destacar algumas orientações básicas para contar histórias:

· Escolha leituras que tenham ligação direta com o sexo, a idade, o ambiente familiar e o nível sócio econômico da clientela.

· Incentive as crianças diariamente, contando pequenas histórias sem mesmo ter o livro nas mãos.

· Use entonação de voz atraente, sem exageros, faça suspense, faça drama, se emocione, expresse sua opinião sobre o tema e dê oportunidade para que a criança também apresente sua opinião.

· Enriquecer a narração com ruídos (onomatopéias) como miau! Au! Au!

· Movimente o corpo (olhos, mãos e braços), mas sem exageros.

· Evite cacoetes como: aí... então... entenderam... não é?

· Crie a “hora da história”. Na escola, um bom horário é após o recreio para acalmar a turma; em casa pode ser à noite, antes de dormir;

· Determine um dia ou horário para cada aluno ler ou contar uma história. Não force mingúem.

· Em casa, estimule a criança a recontar a história que ouviu; compre livros, dê livros de presente em aniversários, natal e outras festividades;

· Sempre que possível sente-se no nível das crianças.

· Explique quando necessário, o significado das palavras novas.

· Preserve a atenção das crianças no local em que a história está sendo contada. (muito barulho, pessoas estranhas interrompendo, etc.).

Quais as implicações psicopedagógicas do ato de contar histórias?

A história, como já foi dito, possibilita a articulação entre objetividade e subjetividade, espaço “ entre “ no qual se situa o trabalho psicopedagógico. É, portanto, um recurso que pode ser usado tanto no diagnóstico como na intervenção psicopedagógica em instituições e na clínica. O conteúdo mítico, as ações praticadas pelos personagens, os valores morais implícitos na narrativa, permitem projeções que facilitam a elaboração de questões emocionais, muitas vezes expressas como sintomas que se apresentam na aprendizagem. A compreensão dos enredos, a análise dos conteúdos, a estrutura lingüística subjacente ao texto, permitem ao profissional investigar questões cognitivas presentes nas dificuldades do processo de aprendizagem.

Como recurso psicopedagógico a história abre espaço para a alegria e o prazer de ler, compreender, interpretar a si próprio e à realidade.

Cláudia Marques Cunha Silva - Mestra em Engenharia de Produção com ênfase em Mídia e Conhecimento pela UFSC; Psicopedagoga, coordenadora do Núcleo Sul Mineiro da ABPp; Docente de vários cursos de Pós-Graduação em Psicopedagogia no sul de Minas, tais como: UNINCOR, UNIVAS, UEG-Campus Divinópolis, UCAM, UVA (Convênio com Aprender-atividades integradas) e FEFC- Formiga.