segunda-feira, 29 de março de 2010

A edição é o livro

Chega às lojas dos Estados Unidos no próximo dia 3 de abril o iPad, o aguardado tablet da Apple, a combinação de notebook com leitor digital (e-reader). Esse aparelho, assim como outros do gênero, tenta ser uma opção à relação secular mantida pelo homem com os livros impressos desde a invenção da prensa de tipos móveis pelo alemão Johannes Gutenberg, no século XV. Com a proliferação dos livros eletrônicos, o processo de impressão física está em via de extinção? Para discutir o impacto das novas tecnologias no setor, a Câmara Brasileira do Livro, em parceria com a Imprensa Oficial, convidou especialistas no assunto para participar do 1º Congresso Internacional do Livro Digital, que ocorrerá em São Paulo de 29 a 31 de março. Um dos palestrantes é Juergen Boos, diretor da Feira de Frankfurt, o maior e o mais importante evento do mercado mundial de livros. Na semana passada, dias antes de sua visita ao Brasil, Boos falou ao repórter Luís Guilherme Barrucho.

O IMPACTO DOS E-READERS
O mercado de livros já passou por uma série de mudanças na história. O tempo em que elas ocorrem, entretanto, tem sido cada vez menor. Essas transformações sempre impuseram novos desafios ao setor, mas recentemente se tornaram mais visíveis, porque nos obrigam a encontrar maneiras de oferecer ao leitor os mais diversos conteúdos. Com os dispositivos eletrônicos móveis e compactos, temos a oportunidade de atrair um novo tipo de leitor. Existe uma complementaridade entre entretenimento e educação. A proposta dos livros digitais é, dessa maneira, diferente da dos livros físicos, que devem continuar a existir. Acredito que, daqui para a frente, haverá maior quantidade de conteúdo sendo utilizada em meios diferentes, tanto físicos quanto eletrônicos. Teremos outras plataformas para a leitura que não se restrinjam à forma impressa.
AS NOVAS LIVRARIAS
Há duas maneiras de garantir a sobrevivência das livrarias. A primeira é que elas não se limitem ao comércio de livros. É preciso transformar o espaço de venda em um centro de entretenimento com múltiplas ações de marketing. Nesses locais, seriam vendidos produtos relacionados ao autor, por exemplo. A segunda é que elas devem migrar seus negócios para a área digital, procurando oferecer serviços de alta qualidade. Qualidade é algo que ainda falta na internet. Na Amazon, por exemplo, os leitores podem postar comentários sobre os livros que compraram. Antes de qualquer coisa, entretanto, é preciso entender os assuntos de que eles mais gostam, direcioná-los para o que querem comprar e tornar essa experiência mais fácil e rápida. Uma das maneiras de assegurar essa qualidade é por meio das editoras e das livrarias. Quanto mais formas de acesso ao conteúdo, maior a necessidade de ter instâncias que filtrem esse material e assegurem ao leitor a qualidade do que está sendo produzido. Esse já é o papel atual das editoras e continuará sendo por muito tempo.

RELAÇÃO COM OS AUTORES
O conceito de autoria já não é mais o mesmo. Antigamente, somente literatos ou jornalistas podiam emitir opiniões sobre os acontecimentos mais marcantes da sociedade. Hoje, todos podem se manifestar com facilidade inédita, graças à internet. Esse processo tem sido liderado pelos mais jovens, que já nasceram na era digital. Acredito que muitos desses escritores "virtuais" formarão a nova safra de autores. Caberá às editoras identificar esses talentos. Não será surpreendente ver, com muito mais assiduidade, autores que iniciaram sua atividade na internet. Mas isso não prescinde de um forte exercício de editoração. Haverá mais autores, muitos deles amadores, que necessitarão de uma atenção especial das editoras. É preciso assegurar a confiabilidade daquilo que se lê. Por outro lado, temos visto casos em que grandes nomes dispensam a intermediação das editoras na venda de seus livros digitais. Paulo Coelho é um exemplo. O autor brasileiro negociou recentemente um contrato com a Amazon, sem interferência da editora da versão física de seus livros. Mas ainda é um caso raro. Não tenho certeza de que isso será uma tendência. Mesmo que esse tipo de relacionamento comercial vingue, acredito que somente será popular entre aqueles de maior vendagem.

PERENIDADE DOS LIVROS
Não acredito na morte dos livros em papel. Simplesmente porque o ato da leitura não é o mesmo, quando feito em leitores digitais. Ler um livro em papel requer uma habilidade especial. A começar porque se leva, pelo menos, meia hora para entender minimamente um contexto. Além disso, há uma forte conexão física entre o leitor e o livro. Essa relação se altera no mundo virtual. Na internet, é comum que se bus-quem informações bre-ves, para ser absorvidas num menor tempo possível. Essa falta de profundidade não se deve apenas ao tipo de plataforma em questão, mas também ao tipo de conteúdo produzido para esse fim. Há alguns fatores que, na minha opinião, permitem uma imersão mais profunda na leitura em papel. O primeiro deles é o próprio hábito. Em segundo lugar, a leitura significa mais do que simplesmente obter informação; representa a essência da alfabetização em seu significado amplo. Ou seja, a possibilidade de não apenas ler as palavras impressas no papel, mas entender o contexto, aprofundar-se nele, refletir e formar uma opinião. Os livros impressos exigem mais, intelectualmente, dos leitores.

O PAPEL DAS FEIRAS
As feiras de livros vão continuar a existir, mas de um jeito diferente. Elas serão mais parecidas a festivais, tais como os grandes concertos de música, e terão grande potencial de crescimento. O contato entre autores, editoras e público continua sendo vital. Os leitores querem conhecer os autores de perto. Por isso, não imagino que teremos feiras virtuais.

O BRASIL EM FRANKFURT
A cada ano, temos um país como nosso convidado de honra em Frankfurt. Na feira deste ano, em outubro, será a Argentina. O país foi escolhido, entre outros motivos, pela imigração europeia. Nossa intenção também foi pôr em destaque a língua espanhola e a cultura hispânica. O Brasil foi homenageado em 1994 e deve voltar a sê-lo em 2013. Mas isso ainda está em negociação e esperamos selar o contrato nas próximas semanas.

Fonte: Veja

domingo, 28 de março de 2010

Barca dos livros



Nas margens da Lagoa da Conceição, em Florianópolis, funciona a barca dos livros, da sociedade amantes da leitura. O projeto recebe a visita de escolas uma vez por semana. “A gente fica com eles durante uma hora mostrando o que é esse espaço, como é que ele funciona, e fazendo aquilo que a gente chama de a sedução para o livro.”, diz Tânia Piacentini, coordenadora-geral do projeto.
A biblioteca comunitária foi planejada para deixar os leitores à vontade. As crianças escolhem os livros sem a ajuda dos adultos.

“Essa biblioteca quebra realmente todos os conceitos de uma biblioteca tradicional. E é gostoso porque se há bagunça significa que as crianças gostaram do acervo, gostaram do ambiente, interagiram com ele.”, conta Katlyn Stüber, bibliotecária.

A estudante de 9 anos, Evelin Martins, diz: “Quando é interessante eu chego e leio tudo, mas quando eu não gosto muito daí eu já leio um pedacinho.”

“Se você não sabe uma palavra, pode ser que no livro tem aquele significado, daí você já pode aprender.”, conta Tifany, também de 9 anos.

“Pra criança, especialmente, o livro e a contação de histórias tem uma função complementar: aproximar a criança do livro mesmo já que todas as histórias geralmente saem de livros.”, afirma Elizabete Fernandes, bibliotecária.

Isa é voluntária como contadora de histórias e passa o que aprendeu para a nova geração. “Eu ouço histórias desde que eu nasci. Papai contava pra mim quando eu era pequena, cresci ouvindo histórias e por causa disso a paixão pelos livros, eu leio bastante, e quando os meus filhos nasceram também, eles foram amamentados ouvindo histórias.”

O projeto estimula a formação de leitores e futuros escritores, como Ananda Gonçalves de 8 anos: “Eu pego algum livro na biblioteca pra levar pra casa e leio pras minhas irmãs. E quando eu crescer eu vou ser uma boa escritora.”

O passeio é gratuito. A biblioteca também atende a comunidade com 1.800 empréstimos por mês. São 9 mil títulos catalogados.

Tânia Piacentini, coordenadora-geral conta: “ que nos interessa enquanto biblioteca comunitária, com democratização do acesso ao livro é que todos nós tenhamos um ponto de partida equivalente em todos, em todas as classes sociais.

Fonte: Ação

quinta-feira, 25 de março de 2010

O prazer de ler


A preparação para interpretar textos começa já na infância

Zailda Coirano
Aprendi a ler muito cedo e motivada pelo desejo de entender sozinha os livros de estórias infantis e gibis. Donde se conclui que fornecer livros (mesmo que só com figuras) para a criança desde cedo desenvolve nela a curiosidade e ela verá uma vantagem em saber ler e se motivará para aprender. Quando estamos fortemente motivados o aprendizado acontece de forma natural e rápida. De certa forma também eu “invejava” as pessoas que sabiam ler e dominavam aqueles “códigos” que para mim eram incompreensíveis. Essas pessoas tinham um “poder”, que as tornava auto-suficientes porque podiam ler quando queriam, não precisavam que ninguém lesse para elas. Eu, ao contrário, precisava da boa-vontade de alguém quando queria desvendar os segredos dos gibis que comprava e não era raro ter que esperar um ou até dois dias para que alguém se dispusesse a decifrá-lo para mim.

Logo que aprendi a ler comecei a ler tudo o que aparecia e logo tornei-me uma leitora rápida e voraz. Na leitura encontrei um mundo novo, povoado de sapos encantados e fadas, mas também cheio de explicações claras e úteis que me ajudavam na vida prática. Matérias escolares que vieram mais tarde, como “interpretação de textos” e “literatura”, que para os outros alunos eram um terror para mim eram uma grata novidade, pois se para os outros eram um “castigo”, para mim eram uma bênção. Estudar essas matérias para mim era como mandar uma onça sedenta beber água, e eu as estudava com muito prazer.

Naturalmente que todo aluno sabe que “terá” que ler, e quanto antes começar a fazê-lo, menos dura será sua vida escolar dali para a frente. Ler por obrigação além de pouco frutífero também transforma em castigo uma atividade que poderia facilmente tornar-se um prazer. Aprender a sentir prazer na leitura é uma das boas formas de transformar sua vida escolar – e também toda a sua vida futura, principalmente a profissional – da água para o vinho. Ela poderá ser um mar de rosas ou um mar tormentoso e difícil de transpassar, e é você quem vai escolher qual dos dois irá ser.

Leia sem precisar, leia quando puder, leia sempre que vir um livro. Imagine um livro como um mistério que só será desvendado por você se você o abrir, folhear e ler. Imagine que contém uma mensagem que foi deixada por alguém para você há muitos anos, e que convém lê-la para descobrir o que contém. Convém navegar pelas páginas do livro e imaginar tudo o que ali está exposto, e assim que você aprender a fazer isso começará a transformar obrigação em prazer, dificuldade em cultura.

Mas não adianta ler por ler, você precisa “sentir” o que está sendo descrito e imaginar o que o autor queria dizer quando escreveu aquilo. Tem que colocar-se no lugar dos personagens, tentar imaginar como você se sentiria naquela situação. Quem lê de verdade sofre com o sofrimento descrito, o coração dispara quando algo ruim está para acontecer.

Livro não é como novela. Na novela você vê o que está acontecendo e sobra pouco espaço para sua imaginação. Também não é como filme, no filme você fica apavorado com o monstro horrível, mas só quando o diretor consegue retratar um monstro horrível capaz de assustar você. No livro é diferente, quem manda é a sua imaginação e quando o autor descreve um “monstro horrível” sua mente desenha um monstro realmente horroroso, que nenhum diretor de cinema poderia criar. E então você fica com medo de verdade. Quando o autor descreve uma heroína linda, o que você vê em sua imaginação é uma heroína lindíssima, como talvez a heroína da novela por mais linda que seja não consiga ser.

Quem realmente gosta de ler e vai ver um filme baseado em um livro que já leu diz sempre a mesma coisa: o livro é muito melhor. E o livro é melhor porque contém o que falta no filme: a sua imaginação. No filme o diretor tenta recriar o que “ele” imaginou ao ler o livro, mas talvez o que você mesmo imagina vá fazer mais efeito para você do que a representação da imaginação de outra pessoa. O que você vê num filme é uma “releitura” do livro, ou seja, você está vendo o que outra pessoa imaginou e sentiu ao ler o livro, logo o impacto causado pela história já está defasado. E como quem conta um conto aumenta um ponto você nunca terá a exata impressão que teria ao ler.

Se você leu até aqui já é um bom sinal, agora vamos nos despedir, você pega um livro ou revista e já pode começar a por em prática o que leu aqui.

Boa leitura!

terça-feira, 23 de março de 2010

Leitura e construção da cidadania

Ler é um meio de se tornar melhor, mais completo, mais capaz de lidar com o mundo contemporâneo

Em dos grandes desafios deste início de século, em que um panorama de alto desenvolvimento científico-tecnológico está presente, é tornar o homem capaz de utilizar sua criatividade para gerar inovação e provocar mudanças no cenário em que está inserido. Isso implica uma postura sensível, dinâmica, responsável, independente e participativa.

A universidade, na tentativa de enfrentar essa questão, tem buscado caminhos de reestruturação/renovação de seus projetos pedagógicos, voltados à instauração de um ambiente de ensino-aprendizagem favorável à construção do perfil desse novo homem.

Ao se lançar um olhar mais acurado sobre a realidade nacional, um fato recente chama a atenção dos educadores: dados do Ministério da Educação e Cultura apontam que somente 2,5% dos cerca de 1,2 milhão de alunos que participaram do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), em 2002, conseguiram tirar uma nota acima de 70 pontos. Em relatório, o MEC afirma que "a ausência do domínio da leitura compreensiva" foi a possível causa do desempenho apresentado por esses alunos, ressaltando, em sua análise, que esse resultado indica a necessidade de se dar mais ênfase ao aprendizado da leitura.

Um ponto de grande contradição na sociedade contemporânea emerge ao se observar que, globalmente, se vive a era da complexidade enquanto, isoladamente, um aspecto de limitação do ser humano se faz presente: a dificuldade de compreender os códigos de sua língua, o que se traduz num empecilho para "ler o mundo" que está a sua volta e, conseqüentemente, se sentir parte desse todo.

Na busca de se apontar um caminho de possível interferência na realidade que se apresenta, com vistas à sua superação, acredita-se que o desenvolvimento do processo de leitura seja de fundamental importância na formação do homem durante toda a sua vida, não só nos meios acadêmicos, como forma de estruturá-lo ao bom desempenho, mas, principalmente, para sua descoberta pessoal, sua formação integral.

Nesse sentido, destacam-se alguns pontos para reflexão, ao se interrogar: Por que a leitura tem tanta importância na formação do homem?

- A leitura propicia o desenvolvimento da sensibilidade humana; é um estímulo à imaginação.

- A leitura impulsiona o potencial criativo do homem, é canal gerador e mantenedor de seu crescimento intelectual e propulsor do desenvolvimento harmonioso de sua personalidade.

- A leitura é caminho para a construção da autonomia e, conseqüentemente, da conquista da cidadania.

O ser humano é um ser dado à aventura, à curiosidade, à permanente procura.

Segundo Paulo Freire, "sonhar faz parte da natureza humana que, dentro da história, se acha em permanente processo de tornar-se". (1993, p.91).

O homem se constrói ao sonhar e projetar seus sonhos. A imaginação criadora é, pois, própria da condição humana e, vitalmente, necessária para a ampliação de sua experiência e expansão para além do circunstancial e do imediato.

Sendo assim, a leitura pode se tornar um canal de extrema importância para o desenvolvimento da sensibilidade e da criatividade do homem.

Ler estimula a imaginação, instiga o pensamento, impulsiona o sonho, que se coloca como o motor de todo o processo de construção do homem como ser histórico.

Ao se constituir uma via de diálogo, de questionamento e de descoberta, a leitura amplia e dá significado à vida do homem.

Ao estimular o pensamento dinâmico e inquieto, propicia o exercício crítico, constituindo-se como caminho de conscientização, de descoberta de sua condição de ser criador e, como conseqüência, instrumentalizando-o na construção de sua plena cidadania.

O caminho da leitura, ao estimular e dar suporte ao processo de reflexão, torna-se, pois, veículo de libertação, ao possibilitar o desenvolvimento daquilo que o homem tem de mais vital - o seu pensar.

Nos versos de uma canção de Lupicínio Rodrigues, essa idéia transparece de forma sensível: "o pensamento parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar..."

Na tentativa de justificar a importância do domínio da leitura na formação do homem, alguns pontos são destacados, em resposta à questão:

Ler para quê?

Ler para despertar o desejo de ler mais, abrindo assim um canal de superação pessoal da mente e do espírito.

Ler para se tornar melhor, mais completo, mais tolerante, mais capaz de lidar com a diversidade no complexo mundo contemporâneo.

Ler para se descobrir como "ser de abertura", sempre em busca de novas formas de compreensão de si mesmo e do mundo.

Eis algumas razões para acreditar que o caminho da leitura possa ser propulsor do processo de construção do ser autônomo e, como conseqüência, responsável pelo nascimento de sua cidadania plena.

Excesso de prazer

António Prole fala sobre o incentivo à prática leitora
Renato Mendes, de Lisboa

Há quatro anos, ao aceitar o desafio proposto pela Fundação Calouste Gulbenkian, António Prole, filósofo e assessor da Direção Geral do Livro e das Bibliotecas - órgão do Ministério da Cultura português - concebeu o projeto Casa da Leitura. Portugal começava então a ter consciência sobre a importância do letramento para o desenvolvimento da sociedade. Para o "arquiteto" da Casa os projetos similares pecam pela ênfase excessiva no prazer da leitura, em lugar do próprio ato de ler.

Como explicar o atraso de Portugal em questões ligadas à leitura?
Não só Portugal julgou que o problema da leitura estava resolvido, mas a Europa, porque os níveis de analfabetismo nos anos 60, após a 2ª Guerra Mundial, eram residuais. Os países do norte do continente tinham de 2% a 3% de analfabetos; a própria França tinha estes níveis. Eram países católicos que tinham problemas de analfabetismo e isso tem a ver com questões religiosas. Enquanto o protestantismo assentava a religião na leitura da bíblia, o catolicismo assentava a sua religiosidade na oralidade. Os altos níveis de analfabetismo aconteciam em Portugal, na Espanha e na Grécia.

Quais as principais deficiências na formação dos mediadores?
Existe um problema grave em Portugal, que é o dos bibliotecários públicos. Eles pertencem a uma rede importante de bibliotecas com grande qualidade do ponto de vista de seus acervos, de sua arquitetura e espaços. Mas continuam a ser aquilo que denomino "Docti": entendem muito de documentação e das tecnologias da informação, mas não têm nenhuma cadeira na sua formação sobre literatura infantil, sobre processos cognitivos de leitura e recepção leitora. Não possuem formação adequada para exercer a mediação de leitura.

Qual o propósito da Casa da Leitura?
A formação dos mediadores de leitura é uma questão central do projeto. Não é um curso de formação, é uma plataforma de informação que se dirige aos mediadores de leitura, aos bibliotecários, professores, estudantes universitários e todos aqueles que vão lidar com as crianças. A nossa função não é entrar na questão da formação, nosso objetivo é dar um contributo nesse sentido.

De que forma isso acontece?
Repare no próprio desenho arquitetônico da Casa. Na maior parte dos portais, até mesmo nos europeus, acontece o seguinte: ou divulgam a literatura infantil e depois sugerem algumas atividades que se podem fazer à volta, como por exemplo o dia mundial do livro, ou então são organizados nas questões sobre os processos cognitivos da leitura. O que é específico na Casa da Leitura é juntar esses dois mundos.

A convergência de informações torna o projeto inovador?
É inovador inclusive do ponto de vista da investigação teórica. No país há uma tendência para haver a separação entre a investigação sobre a literatura infantil e aquela sobre os processos cognitivos da leitura, que levam à compreensão.

Qual a semelhança entre esse conceito e o de uma biblioteca itinerante?
Idealmente, gostaríamos que esse projeto fosse uma biblioteca itinerante virtual adaptada às exigências do século 21.

Qual o principal erro cometido nos projetos de incentivo à leitura?
Há um excesso na tônica do prazer da leitura e na animação: a leitura como um êxtase, algo que nos transporta para um mundo ideal, que nos dá felicidade, enfim, como uma festa. É essa falta de sustentabilidade teórica que transforma muitos projetos num amontoado de atividades pontuais, mais ou menos lúdicas, em que sobra animação e falta atividade leitora.