segunda-feira, 22 de março de 2010

As múltiplas formas de acesso à palavra escrita

A história das letras grafadas nasceu há mais de 5 mil anos. Após um longo processo evolutivo, iniciado com os primeiros desenhos pictográficos pré-históricos, os sumérios, civilização mesopotâmica, hoje Oriente Médio, decidiram estampar em barro um código de sinais que convencionasse por escrito as palavras proferidas. Consistiam em pequenos cones que, agrupados em diferentes posições (na horizontal, na vertical e na diagonal), construíam os vocábulos. Os signos sumérios eram muito simples se comparados ao primeiro alfabeto moderno, de origem fenícia (1200 aC), que foi a base da maioria dos alfabetos ocidentais, como o latim, o cirílico (eslavo) e o grego.

Quase no mesmo período, os egípcios também desenvolveram um sistema de sinais. Mais complexo que os cuneiformes mesopotâmicos, os hieróglifos tiveram uma importância cabal na evolução da escrita. Pela primeira vez as palavras foram gravadas em um plano flexível, urdido a partir de fibras vegetais. A pedra e o barro cederam lugar ao papiro, muito mais apropriado para condicionar os documentos de época.

Com o passar de muitos séculos, percebeu-se que as fibras vegetais eram o melhor suporte para abrigar as letras. A tecnologia criada pelos egípcios culminou no emprego maciço do papel que ganhava, assim, litros de tinta despejados, principalmente, pelas penas dos abades. Havia nos monastérios, inclusive, a tarefa hercúlea do copista que, em caligrafia demorada de letras rebuscadas, transcrevia as palavras de um livro para o outro, restringindo, por motivos óbvios, a disseminação dos exemplares a alguns poucos letrados.

Em meados do século 15, a reprografia manual foi por fim abolida em decorrência da invenção da imprensa. Quando Gutenberg alinhou os tipos de madeira, reproduzindo as idéias em série e copiosamente, as letras encontraram seu lar definitivo. Impresso por mãos mecânicas, o livro, durante séculos, carregou conhecimento, provocou revoluções, desabou ideais e construiu países. Mas, a forma consagrada, engendrada pela encadernação de várias folhas encerradas por duas extremidades mais consistentes, vem sofrendo concorrência. Além das revistas e dos jornais, também confeccionados em papel, através da informática, condensam-se as letras em planos diversos. Enquanto os CD Roms as compactuam e as compõem com sons e imagens, a novíssima Internet as transmite à distância.

Suplantados 5 mil anos de vida, à beira de mais um milênio, a informação escrita se multiplica e as possibilidades de acessá-la também. Além das vetustas bibliotecas e dos tradicionais sebos, a atualidade apresenta novas maneiras de se possuir leitura. A comodidade de receber um jornal em casa, comprar um livro de madrugada, ler sobre o assunto predileto em uma revista são apenas pequenos exemplos que se agigantam diante do advento tecnológico. O contato com as letras, restrito aos ofícios religiosos tempos atrás, ampliou-se em virtude da tecnicidade do processo, da tecnologia da produção e da comodidade. Hoje, para qualquer lugar que se olhe, há uma palavra prestes a ser lida.

Visite uma Biblioteca
 
A trajetória da "casa dos livros" costuma traduzir os ideais de época. O acesso às idéias conflitantes com o pensamento dominante da ocasião era obstado. A promiscuidade literária presente em páginas ofensivas à moral e aos bons costumes permanecia devidamente vedada à curiosidade geral. Exemplo disso vem resumido no index de livros proibidos pela Igreja Católica durante a inquisição. Para se ter uma idéia, o ranço autoritário medieval influenciou, até há pouco tempo, a arquitetura dos prédios das bibliotecas. Os resquícios da mentalidade retrógrada marcaram, inclusive, a disposição da Biblioteca Municipal Mário de Andrade, projetada na década de 30. Quem afirma isso é seu diretor, José Eduardo, no cargo há dois anos. "Havia um pensamento autoritário que visava dificultar o acesso das pessoas às informações, por isso eram construídos edifícios em que os livros ficavam longe do alcance dos leitores. Essa concepção perdurou por muito tempo e a Mário de Andrade seguiu o padrão."

Inaugurada em 43, a Biblioteca Municipal foi concebida em meio à euforia cultural da Semana de Arte Moderna de 22. O projeto sofreu críticas severas da comunidade, inconformada com um edifício daquela magnitude para abastecer uma cidade de pouco mais de um milhão de habitantes. "Naquela época, havia mato onde hoje está o prédio do Diário Popular (em frente à biblioteca). Agora, no fim da década de 90, a cidade precisa de mais duas Mário de Andrade", lembra o diretor.

O acesso aos 350 mil volumes de livros e os 10 mil títulos de periódicos não é direto. "Os livros e periódicos ficam confinados na torre e o usuário pede aos atendentes para que providencie o exemplar", informa. "Ocorre, no entanto, que as obras de referências - enciclopédias, dicionários e livros didáticos - ficam à disposição do leitor e, com isso, atendemos a 60% da nossa demanda, formada por estudantes." A consulta ao acervo de obras raras, 90 mil no total, é restrito a quem demonstre inteira necessidade. Acondicionadas em salas especiais, expostas à iluminação e à temperatura adequadas, as raridades comportam a coleção completa do jornal O Estado de S. Paulo, desde 1870, gravuras do pintor francês Debret, além de uma bíblia impressa em 1492.

Apesar do acesso restrito, impedindo aos usuários o contato direto com os livros, a sala de leitura da biblioteca, com capacidade para 250 pessoas, recebe em média mil leitores por dia. Para atender o público restante, tolhido pelas limitações físicas, há a possibilidade de se tirar cópias reprográficas. "Eu abomino essa prática, pois os livros sofrem demais. No entanto, é impossível manter uma outra política, já que a biblioteca não empresta os livros. O que nós recomendamos é a microfilmagem, mas ela é muito cara", atesta o zeloso diretor.

A concepção moderna e adequada de biblioteca visa o contato direto entre o leitor e a obra. A troca física entre o papel e a pessoa desperta o interesse pela leitura. As prateleiras baixas e a organização metódica dos livros são essenciais para o bom funcionamento. O Sesc, cioso das novas tendências, mantém as bibliotecas da Pompéia e do Carmo em perfeita sintonia com o público.

Os usuários dispõem de um acervo sempre atualizado, além de atendimento exemplar. O serviço atento dos bibliotecários garante a fidelidade do público, que não mede esforços para saciar o desejo de leitura. "Nós temos um público assíduo, principalmente em busca das revistas e jornais. Há pessoas que vêm aqui diariamente há muito tempo", informa Celina Dias, técnica e bibliotecária do Sesc Carmo. O acervo da unidade gira em torno de seis mil livros, dos quais 90% são de ficção. "Os cerca de 500 associados, habilitados a retirar por empréstimo os livros, são, na maioria, idosos atrás de um passatempo. Aqui, não distinguimos os tipos de literatura, ou seja, os livros vão de encontro ao leitor. Assim, as aquisições são ecléticas, pois se privilegiássemos alguma forma de literatura em detrimento de outra, exerceríamos uma desconfortável censura."

Na unidade Pompéia, a biblioteca segue os mesmos padrões. A disputa pelos jornais e revistas é muito concorrida durante a semana. Aos sábados e domingos são as crianças quem invadem o local. Nesses dias, a gibiteca atrai um público peculiar. Alguns entusiastas dos quadrinhos são assíduos frequentadores e elogiam o acervo da unidade. "Eu vou à gibiteca há mais de cinco anos, considero o espaço muito bom. Aqui, posso encontrar a coleção completa de Asterix e do Snoopy, por exemplo", conta o arquivista e desenhista Haroldo Silva Filho, 28 anos. Como bom entendedor de quadrinhos, ressalta a qualidade da conservação dos gibis e a variedade de títulos, inclusive com publicações estrangeiras.

Mais Conforto aos Leitores
 
As bibliotecas são o local mais tradicional de abrigo para os livros. Independentemente do estilo, elas suprem boa parte das necessidades dos leitores. Atualmente, no entanto, existem inúmeras outras possibilidades muito mais confortáveis de se chegar à leitura. Além das bancas 24 horas e dos serviços em domicílio, as bibliotecas e livrarias convencionais receberam a companhia das megalojas, onde pelo menos 90% dos títulos publicados no Brasil podem ser comprados no ato (ver box). Há, ainda, a Internet que, além de oferecer na tela muitos textos e obras completas, dispõe de catálogos extensos para a compra tanto no Brasil como no exterior.

As possibilidades de acesso à informação escrita crescem a cada dia, mas a qualidade decorrente da enxurrada de palavras - impressas e eletrônicas - tende a se perder. Quem faz a ressalva é o filósofo, Roberto Romano, titular da Faculdade de Filosofia da Unicamp. "O problema da relação entre a quantidade e a qualidade é antigo. É certo que o advento das novas tecnologias contribui na obtenção de informação. Entretanto, em certa medida, o texto escrito é como o som que, a uma certa altura, fica ininteligível. Boa parte da educação passa despercebida do público e a captação lógica do conhecimento fica prejudicada. A apreensão do conhecimento não depende apenas da reprodução do que é lido. O exercício do conhecimento está relacionado à capacidade lógica de interferir no mundo."

Ainda segundo o filósofo, existe a obstrução material em forma de censura intelectual e econômica do acesso à leitura. "O preço abusivo dos livros afasta o público leigo do debate científico, mas a iniciativa de vender livros de filosofia, por exemplo, em bancas de jornais, é uma forma de ampliar o diálogo e qualificar as discussões."

Ainda que relevadas as considera-ções restritivas de Roberto Romano, torna-se inexorável concluir que hoje há opções de leitura em número suficiente. Para cada preferência surgem diversas alternativas e os canais para alcançá-las são múltiplos e bem visíveis. Claro que a plena democracia letrada só será atingida com o fim do analfabetismo que assola cerca de 20% dos brasileiros. O óbice econômico surge também como o grande empecilho. Mas, mesmo convivendo com a indecente falta de educação, as facilidades de aproximação com a leitura e o auxílio das novas tecnologias têm permitido o contato cada vez maior do brasileiro com o universo das letras escritas.

Esse é o caso das revistas que, nos últimos dois anos, ganharam 800 títulos na praça. A segmentação dos temas, visível em qualquer banca é, segundo o diretor de redação da revista Imprensa, Ari Schneider, uma estratégia de sobrevivência. "A segmentação significa a busca de um público específico. Pulverizar as revistas em diversos assuntos ajuda a fugir da concorrência." Schneider explica: "A disponibilidade dos produtos no mercado é muito grande, assim, um anunciante de fraldas vai expor o produto em uma revista que atinja o público específico interessado em fraldas. Dessa forma irá procurar uma edição sobre crianças e bebês. Quando há o interesse mútuo do anunciante e do público, a revista ganha o mercado."

O sucesso e o fracasso de uma publicação dependem, portanto, do orçamento destinado à propaganda. Para assegurar a verba publicitária e garantir sobrevivência, ela conta com a fidelidade do leitor, que vem se interessando cada vez mais pelas páginas de temas específicos. "O leitor habitual está procurando títulos particulares e, consequentemente, há um crescimento no número de revistas vendidas, principalmente quanto aos assuntos pertinentes à vida moderna."

As Novas Mídias
 
Desde que o CD Rom e, mais recentemente, a Internet começaram a se popularizar, instaurou-se a discussão sobre o futuro do papel. Há argumentos para os dois lados. Mas, passados alguns anos de convivência mútua, a maioria dos entendidos prevê vida longa para os livros e afins. A alegação mais comum (e lógica) dos apologistas do papel rechaça qualquer possibilidade de se ler um texto longo pela tela do computador.

Há uma pessoa, no entanto, que ousa levantar a voz contra a unanimidade. É Silvio Gianini, comandante da redação da Neo, a primeira e única revista brasileira editada inteiramente em CD Rom. "O papel continua tendo espaço, mas, sem dúvida, vai acabar", profetiza resoluto. "A entrada das novas tecnologias é um avanço inegável. O computador como suporte de informações é mais poderoso do que foi a TV ou o rádio. Cada um desses meios achou o seu espaço, mas no futuro o computador vai incorporar a televisão, o rádio e o livro."

A Neo participa vivamente da "revolução" eletrônica. A publicação, diferente da maioria das publicações em CD Rom, não utiliza o meio como mero banco de dados, a exemplo das enciclopédias, dicionários e códigos legais. "Para dar um exemplo: caso você esteja lendo a crítica de uma música, na Neo é possível ouvi-la também. Além disso, o leitor pode assistir ao videoclip. Em um CD Rom há possibilidade de mistura de mídias, aumentando a eficiência e a potencialidade dos meios." É o que ocorre também com o CD Rom Memórias do Comércio, produzido pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo, Sesc, Senac e Sebrae, e realizado pelo Museu da Pessoa. A história do comércio paulistano é narrada através das lembranças pessoais dos comerciantes pioneiros, reconstituíndo o mundo dos negócios, a época, os costumes e a pai-sagem da cidade nas primeiras décadas deste século.

Os recursos inerentes ao CD Rom dependem, é claro, do intermédio de um computador, que, apesar de popularizado, é inacessível à maioria da população. Mas a crescente popularidade das revistas de informática que encartam os CDs está estampada nos números. Em 1995, havia apenas três títulos com as vendas em torno de 750 mil exemplares. Em 1996, passaram a 12 publicações e 3,5 milhões de exemplares vendidos. A Neo, criada em abril de 1994, nasceu trimestral e ao preço de R$ 37. Hoje é mensal e custa R$ 12,90.

Explorar o CD Rom em seu viés educativo a fim de transmitir conhecimento foi a proposta de Jorge Caldeira para apresentar sua interpretação do cotidiano brasileiro desde o descobrimento até 1985. No livro Uma Viagem Pela História do Brasil, Caldeira traz o livro junto do CD, em um único encarte. No suporte de papel existe um guia para extrair os melhores recursos do CD Rom que instiga em detalhes de som, imagens e palavras, o leitor-espectador a percorrer 500 anos de História. "Para a argumentação que desejava enfocar da História brasileira, pouco mostrada pelos livros didáticos, o CD Rom era adequado. A integração entre as mídias é inseparável. O berço eletrônico da informação abre novas possibilidades de trabalho e de necessidades de conhecimento", explica Caldeira.

A invenção de novas tecnologias sempre contribuiu para o incremento do fluxo do conhecimento. Espraiar as informações e dinamizar o trânsito das idéias foi a intenção da prensa de tipos no fim da Idade Média. O computador abre a mesma alternativa, permitindo que o papel interaja com outros suportes. A troca de informações quase instantânea via Internet, abarcando, literalmente, o planeta inteiro, vem enriquecida de detalhes vivos, como o som e a imagem. Nesse sentido, a Internet, mais do que o CD Rom, permite o concurso de sensações, aditivando a palavra escrita que, afinal, forma a base da comunicação entre os internautas.

No plano incorpóreo dos computadores, o livro (revistas e jornais) convive em harmonia com o elemento virtual. Através da rede, textos completos, discussões acerca de obras e principalmente as livrarias eletrônicas permitem que o leitor disponha de acesso fácil, eficaz e prestativo com o livro-tátil. Em última análise, a Internet alimenta o viço do papel.

A livraria Amazon Books (americana) não existe fisicamente. Através da Internet, porém, é possível receber em casa, em qualquer lugar do mundo, por preços bem acessíveis (mesmo no Brasil), qualquer um dos 2,5 milhões de títulos do catálogo. Além da operação mercantil, há espaço para ler resenhas, comentar sobre obras e participar de debates. Nesse sentido, a Internet funciona como um painel. Uma espécie de feira onde as pessoas informam e são informadas. Esse fórum informal contribui para que os livros circulem entre os leitores, já que os sites e e-mails são um dos mais eficazes pontos de encontros do mundo.

Todo o rebuliço gerado em torno da informação acarreta uma conclusão inabalável. De alguma forma o brasileiro está lendo mais. Números da Câmara Brasileira do Livro (CBL) atestam que, entre 90 e 96, a média de livros adquiridos por brasileiro em um ano subiu de 1,6 para 2,57 (incluem-se aí os livros didáticos e os não-didáticos) e, na cidade de São Paulo, salta para 6,7. A média é baixa se comparada a outros países. Nos EUA e na Alemanha, lê-se até cinco vezes mais. Porém, os números provam, de certa maneira, que a tendência é progressiva (ver box). As novas facilidades de acesso; a iniciativa de abaixar o preços dos livros; a confluência de mídias e possibilidades, mesmo diante das mazelas econômicas, são um caminho seguro para garantir a parcela saudável de leitura aos brasileiros.

Páginas Abertas

O gesto é característico. O friccionar dos dedos, o olhar vago, deitado em um ponto fixo da estante, e a dificuldade brutal de verbalizar o sentimento gerado pelo contato físico e íntimo com as páginas são comportamentos corriqueiros quando os leitores tentam explicar a paixão pelo livro. Há algum tempo esse comportamento só era observado na intimidade de cada um: em casa, quando o indivíduo se entregava a um volume ou, no máximo, entre pessoas circunspectas e compenetradas, frequentadoras de bibliotecas e livrarias convencionais. Hoje, a obsessão pela leitura se espalha por todos os cantos. Em bancas de jornal, com livros de boa qualidade a R$ 2,00, em bares que trazem acoplada uma livraria e nas locadoras de livros que fazem serviço em domicílio. Mas são as feéricas megalojas que atraem a atenção do público e permitem que a prática da leitura atinja o máximo do prazer.

Primeiro, a Saraiva, e, depois a Ática, investindo, R$ 11 milhões, a primeira e R$ 25 milhões, a segunda, brindaram à cidade com mais de 7,5 mil metros quadrados lotados de publicações. Nesses espaços, o cliente tem oportunidade de realmente ter o livro nas mãos. Pode desfrutar bem mais do que em uma singela livraria. Ele tem ao seu dispor quase um centro de convivência. "Estamos situados entre o centro cultural, pois, além da mercadoria, oferecemos serviços, eventos e uma grande loja, já que comercializamos mais de 105 mil títulos, entre nacionais e estrangeiros. Mesmo assim, os visitantes podem abrir o livro em uma poltrona ou sobre as várias mesas e realizar um trabalho escolar", atesta o diretor da Ática Shopping Cultural, Nicolau Youssef, inaugurada no fim de junho.

O sucesso estonteante do empreendimento verifica-se pela quantidade de visitantes que lotam os corredores. "Recebemos em média quatro mil pessoas por dia. Nos finas de semana, as visitas passam de 10 mil. É impressionante como essas pessoas se portam diante do livro. Parece que estão liberando uma demanda cultural que estava reprimida até agora." Segundo Youssef, o tíquete médio de compras gira em torno de R$ 60,00 e os livros respondem por 57% das vendas da loja, que oferece CDs musicais, artigos de papelaria e multimídia. "Funcionamos como o sistema solar, em que o livro é o sol e os outros artigos os planetas", compara. A abertura de grandes lojas de livros é vista como resposta à maior aptidão do paulistano pela leitura. "Estamos desvinculados da elitização. Aqui expomos Euclydes da Cunha ao lado de Paulo Coelho, ou seja, a venda de Paulo Coelho não cai, mas passamos a vender Euclydes da Cunha. A possibilidade de se investir esse montante abrindo uma loja de livros é consequência do aumento de leitores", finaliza Youssef.

Páginas Ampliadas
 
O mercado editorial brasileiro acompanha o crescimento do número de leitores. A Câmara Brasileira do Livro (CBL) realiza pesquisas sistemáticas para aferir o desempenho do setor. Em 1996, houve um aumento de 21,48% na venda de livros em relação ao ano anterior. Foram comercializados 244,21 milhões de exemplares contra 296,701 milhões. O faturamento cresceu 18,03% (US$ 1,395 bilhão contra US$ 1,647 bilhão). Esses números referem-se apenas aos exemplares comercializados no mercado, excluindo-se os livros didáticos adquiridos pelo Ministério da Educação. A queda nesse segmento foi de 30,98%. Em 1995, o governo comprou 130,406 milhões de livros didáticos (US$ 461,664) contra apenas 90 milhões de exemplares em 1996 (US$ 219,600 milhões). Nos anos anteriores verificava-se movimento inverso, com a maior prosperidade do comércio dos livros didáticos. No total foram comercializados, em 1996, 386,701 milhões, com faturamento total de US$ 1,867 bilhão.

O negócio monumental que envolve o mercado editorial poderia ser mais proeminente, se houvesse um melhor sistema de distribuição. O diretor da CBL, Raul Wassermann, aponta falhas lamentáveis no momento de se levar o livro ao leitor. "Estamos observando uma maior vontade das pessoas lerem, mas falta apresentar o livro ao leitor. Mesmo com o aumento da média de livros por brasileiro, o produto cultural foi o que menos cresceu com a implementação do Real. Para se ter uma idéia, segundo estimativas, existem apenas 1500 livrarias no Brasil. Para reverter esse quadro deveria-se, em primeiro lugar, aumentar as campanhas de leitura, depois mudar o sistema de aquisição de livros pelo governo, dando mais liberdade às escolas. Além disso, é necessário desenvolver a rede de distribuição. As bibliotecas, por exemplo, não consomem nem 1% da produção editorial e a prática de xerocar os livros sem respeitar os direitos autorais é absurda. O preço do livro está em função direta à tiragem, portanto, se aumentarmos o sistema de vendas, o preço de capa vai cair."

O dono da Livraria Cultura, Pedro Herz, que ampliou sua loja para 1,3 mil metros quadrados e dispõe de cem mil títulos que alimentam há 50 anos a intelectualidade paulistana, não é tão otimista quanto aos dados da CBL. "O mercado está estagnado. A venda em livrarias está estagnada faz tempo e não considero o comércio de livros didáticos do governo. O que eu observo é a possibilidade de crescimento, pois está sobrando dinheiro nas classes mais baixas e existe por parte dessas pessoas um investimento em educação. Primeiro compra-se um caderno e um lápis, o passo seguinte é a aquisição de um livro".

A difusão da leitura também é preocupação do Sesc. Através das bibliotecas, dos cursos e das publicações que promove, a entidade auxilia o crescimento desse hábito saudável. É isso que explica Dante Silvestre Neto, técnico do Sesc. "Procuramos, além de fornecer a leitura, possibilitar ao iniciado desenvolver uma relação completa com o livro. Assim, incentivamos a prática da escrita através das oficinas. Apenas o consumo das idéias é insuficiente. A posterior organização das idéias e a exposição de leituras mais elaboradas são muito importantes no processo de aprendizado. Por meio da leitura, o sujeito incrementa sua própria relação com o mundo."

Será o valor da escrita e da leitura relativo?

Claudia Ortiz

Ah! Tinha uma névoa, mal víamos a trilha, as lanternas tentavam em vão iluminar as noites.Vivíamos o início dos anos oitenta. Brinca-se de Fênix, e o nosso jeito de ressurgir das cinzas foi inventar uma escola rural para alfabetizar adultos.

Sim, foi tudo meio difícil. Conseguimos um antigo galinheiro desocupado, uma velha mesa de ping-pong, bancos, um mimeógrafo e a escola estava aberta.

A notícia se espalhou de boca-em-boca. Começamos com dois alunos e em pouco tempo tínhamos mais de cinqüenta. O velho galinheiro virou um "point", de repente famílias inteiras iam até lá. Isso, depois de vencida a timidez e os constrangimentos.

Olha que concorríamos com novela das oito.

Claro, Emilia Ferrero e Paulo Freire eram a meta. A primeira frase acho que foi "hoje eu carpi" e a coisa toda foi por aí afora.

Passado o tempo da euforia, descobrimos, cabisbaixos, que as letras e as palavras não fariam parte do universo daquelas pessoas.

Não, não estou sendo radical, é verdade, a única hora em que precisavam ler era quando iam às compras - ler o ônibus - mesmo as embalagens já não interessavam muito. Mas os números..., o dinheiro era sabido pela cor, pelas figuras e assim eram roubados no troco e na vida.

Investimos na matemática. Fizemos notas. Tentamos mostrar que esse pedaço de papel, igual em tamanho a este outro, valia mais, etc.

Dia após dia tropeçávamos nos atalhos que levavam ao galinheiro-escola, e nas nossas idéias e valores sobre escrita e leitura.

Claro, conseguimos algum sucesso. Mas, tem sempre um mas e tínhamos dona Maria.

Dona Maria, que gostava de desenhar as plantas, desenhava as letras e as palavras e não conseguimos nunca abrir para ela o caminho da leitura.

Ah! sim, era uma figura única, vale a pena descrevê-la. Magrinha, baixinha, encarquilhada, lencinho na cabeça, era do tempo em que se conversava sem se olhar nos olhos. Trazia sempre sua enxada na mão. Trabalhava mais e melhor que muito homem. Tinha, acredito, uns sessenta anos, nem ela sabia ao certo. Foi nosso grande fracasso, nossa frustração.

Não, nunca tinha saído da região, nunca tinha ido a São Paulo. Talvez para acalmar nossa culpa, alguém teve a brilhante idéia de mandá-la para a capital. Foi uma festa, na verdade foi uma loucura.É, a mãe de um amigo precisava de alguém para lhe fazer companhia, fazer pequenos trabalhos, ir à padaria, à farmácia, à quitanda, tudo aqui na Vila Mariana.

Em princípio, achamos que seria simples, porque sem mudar de calçada, dando apenas a volta no quarteirão, dona Maria conseguiria resolver tudo. E assim foi feito.

Claro que não deu certo. Esta mulher da roça solta em Vila Mariana.
Assucedeu o seguinte sucedido: dona Maria foi às compras e se perdeu. A coisa se complicou. Uma volta de meia hora já passava de três. Será que já devíamos ir à polícia? O jeito foi esperar. Afinal, de quem tinha sido esta idéia?

Já começávamos a sentir saudades de dona Maria. As manchetes seriam: "procura-se cabocla franzina, analfabeta, que atende pelo nome de Maria". Nem dinheiro ela entendia, embaralhava os retratos das notas. Sabia desenhar os números porque os achava lindos, mas cadê que o mistério da leitura se abrira para ela?

- Dona Maria, e aí, como a senhora conseguiu se achar e voltar?

- Ara, eu marquei as árvores e as plantas, e aí voltei.

Boquiabertos, percebemos que foi a roça quem salvou dona Maria desta selva.

Será que toda história tem que ter moral? Se, por acaso, esta tiver uma, será: às vezes, a natureza pode mais do que a escrita e a leitura.

Claudia Ortiz é mestre em filosofia e técnica do Sesc

Entrevista Ruth Rocha


A autora de clássicos da literatura infantil diz que a infância não é tão feliz como se pensa e que tem uma relação solidária com as crianças

Seu primeiro livro foi lançado em 1976, a partir daí seus personagens passaram a povoar o imaginário de milhares de crianças: a turma do Catapimba, o Reizinho Mandão, o famoso Marcelo, com seu marmelo e seu martelo, transmitiram sempre uma mensagem de esperança e amizade.

Representante de uma geração que inovou a literatura infantil, Ruth Rocha bebeu nas tradições de Monteiro Lobato e faz da modernidade do mestre influência cabal para seus textos.

A seguir, a escritora infantil mais vendida no país fala de sua obra, de sua vida e, claro, de suas crianças queridas.

O que a motivou a escrever para crianças? Como foi o início da sua carreira?

A minha carreira começou com a revista Recreio, na qual publiquei alguns textos a convite da editora Abril. Meus primeiros livros, publicados em 1976, foram todos escritos a partir de 1969 e alguns foram previamente editados pela revista. Naquele período, publiquei treze livros em menos de um ano. Eles eram vendidos em bancas e as tiragens eram muito grandes. Meu primeiro livro, Palavras, Muitas Palavras, saiu com 35 mil exemplares, e Marcelo, Martelo, Marmelo, 20 mil.

A linguagem usada na sua obra é muito peculiar. Como foi o processo de desenvolvimento?

Eu atribuo a linguagem que utilizo a dois fatores. Um deles é o meu avô, nordestino de nascimento. Quando criança, ele me contava muitas histórias da mesma maneira que os autores nordestinos, ou seja, de uma forma muito simples, informal, recheada de músicas, brincadeiras e piadas. O outro fator é que trabalhei quinze anos como orientadora educacional, período em que tive muito contato com crianças. A minha linguagem se prende a um sentimento muito forte de solidariedade por elas. Além disso, tenho para mim que embora as crianças passem por momentos de alegria, de riso e de graça, em outros elas sofrem injustiças, infelicidade, impotência, tristeza, castigos... Sinto que as crianças não são tão felizes como muitos pensam. Daí nasceu uma grande cumplicidade entre mim e elas. Nesse sentido, acredito que eu consiga falar com elas por meio dos meus livros. Na verdade, escrevo como quem está falando, como quem está contando histórias.

A partir do fim da década de 1960, os temas abordados pela literatura infantil tornaram-se contemporâneos. Os livros passaram a tratar, inclusive, de assuntos controversos, como problemas familiares e desigualdade social. Por que isso ocorreu?

Isso se explica porque grande parte dos escritores da minha geração é leitora de Monteiro Lobato e transporta para a obra aspectos dos quais ele já tratava. Assim, eu e outros autores encaramos e transmitimos temas contemporâneos, que muitas vezes são controversos, sem problemas. Outro dado: a exemplo de Lobato, os livros desses autores são engraçados. Se você notar bem, nossas personagens são mais próximas da Emília do que das "crianças exemplares": elas reclamam, brigam, reivindicam. Lançamos mão, também, de uma certa inclinação para o "feminismo". Lobato, apesar de eu não acreditar que sua obra tenha tido essa propensão específica, criou um matriarcado no Sítio. O único homem é Pedrinho, cuja posição, na obra, é de paridade com Narizinho. A linguagem empregada por Lobato também nos inspirou muito. Sua influência foi decisiva para o aparecimento dessa nova literatura infantil, surgida no fim da década de 1960. Também não se pode esquecer que a revista Recreio foi responsável por alavancar muitos escritores. No fim dos anos 1960, por outro lado, enfrentávamos uma ditadura renhida. O regime autoritário obrigava as pessoas a se expressarem por metáforas. Nós todos, durante aquele período, falávamos por metáfora. Havia apenas dois gêneros que puderam se expressar à vontade: a história infantil e a música popular brasileira.

Em trinta anos de carreira, como a sua linguagem se adaptou às transformações da infância?

Eu acredito que ela não mudou. As histórias que faziam sucesso há trinta anos continuam fazendo sucesso até hoje. Veja o caso do Menino Maluquinho. Nossa linguagem era tão moderna que não houve alteração. Tanto que a mesma escola literária permanece atualmente, é claro que com novos autores.

Quais são os instrumentos utilizados por um escritor para transmitir um assunto controverso e delicado a uma criança?

Tudo o que é feito para a criança demanda cuidado. Mas a mensagem não precisa ser transmitida de forma tão explícita. O autor tem de ter um veículo, ou seja, uma história boa, em que personagens se movimentem de modo verossímil. Feito isso, ele pode tratar de qualquer tema. Você não pode falar de coisas abstratas para uma criança, porque ela não vai entender (a criança atinge o nível de abstração adulta com 12 ou 13 anos). Portanto, não se pode falar de egoísmo. É preciso tratar o tema de forma concreta: "Quero que você dê metade do chocolate para seu irmão". Essa mensagem ela entende. Eu, por exemplo, acho que é muito mais difícil escrever para adultos. Cada setor da literatura tem suas dificuldades e facilidades.

Como evitar que o livro infantil funcione como instrumento ideológico?

Cada escritor escreve de acordo com o que ele é. As pessoas escrevem coisas preconceituosas porque acreditam nelas.

Qual é a sua disciplina quando vai escrever um texto?

Minha casa é uma contínua bagunça. É um entra-e-sai de gente, de netos, de amigos, de jornalistas... Mas quando vem uma idéia boa na cabeça, eu sento e escrevo.

Se a qualidade do texto literário é boa, como a senhora analisa a qualidade gráfica e editorial dos livros infantis? A importação é uma boa iniciativa?

Se o livro for bom, bem traduzido, vamos importá-lo. Agora, se for ruim... O editor teria a obrigação de triar as obras importadas. Não podemos privar a criança de ler os bons livros estrangeiros. No panorama mundial, ingleses e americanos se sobressaem da média: eles têm muitos bons autores. Já outros países não têm tantos como nós. Na América Latina, a edição é prejudicada porque a indústria gráfica é muito recente. Mas há um problema: os livros estrangeiros normalmente são bem editados, têm capa dura, papel excelente, e, às vezes, a edição de autores brasileiros fica prejudicada. Os editores, a fim de não realizar um trabalho tão sofisticado, alegam que os escritores vendem de qualquer jeito.

E o preço do livro?

Para as classes desprivilegiadas é realmente caro. Agora, para a classe média... eu acho que não. Veja só, gasta-se tanto dinheiro com bobagens... Parte da classe média tem dinheiro para comprar brinquedos caríssimos, comer em restaurantes etc. O dinheiro está aí, mas infelizmente não se compram livros.

O que falta para que as pessoas passem a comprar livros em vez de brinquedos?

Falta valorização. A sociedade brasileira é pouco culta. O número de pessoas que realmente valoriza a cultura, o conhecimento, a literatura é muito pequeno. Quer um exemplo? Nas novelas, nunca aparece uma estante. Mostra-se, isso, sim, bar com uísque. As novelas, que têm tanta penetração, quase nunca incentivam o estudo, a leitura. Então, o que há é uma desvalorização daquilo que é sério, do que é culto e inteligente.

Quais são as estratégias para a formação de um público leitor?

O nosso governo distribui mais livros do que qualquer outro país do mundo, entre didáticos e paradidáticos. Por outro lado, também já existem muitas instituições privadas que estimulam a leitura. Eu sou presidente da associação Instituto Brasil Leitor, que vai instalar cem bibliotecas, cada uma com 3.500 volumes, pela periferia de São Paulo. O projeto, financiado pelo empresariado, prevê, também, a capacitação de bibliotecárias.

As crianças de 10 anos cresceram familiarizadas com um instrumento novo: a Internet e o grande desenvolvimento tecnológico. A tecnologia é uma rival da literatura infantil?

Realmente, essas crianças têm uma oportunidade a mais que as crianças da geração anterior. Mesmo assim, eu não superestimo o mundo virtual. As pessoas ainda não o compreendem bem. Eu acho que o livro de referência vai acabar, sim. Por outro lado, o livro de ficção, o livro de prazer, o livro de literatura, deve ser lido no suporte tradicional. Esse formato tem quinhentos anos e ainda não se esgotou. Ninguém vai querer chegar em casa e ler um livro no computador. Por outro lado, o computador permite que outras linguagens sejam empregadas, mas elas também não substituem o livro. Tais linguagens significam diversão, conhecimento, jogo. É outra coisa, não é literatura. O Ziraldo tem uma frase de que eu gosto muito e que sintetiza bem esse sentimento. Ele diz que no livro eletrônico não se coloca uma violeta dentro.

A televisão é tida por muitos como a grande vilã no desenvolvimento intelectual das crianças, entre outros motivos porque ela as coloca em situações constrangedoras, próprias de adultos. Qual é a sua opinião sobre a programação infantil veiculada pela tevê?

Há programas bons e programas ruins. Mas é preciso deixar claro que grande parte da programação para crianças é de má qualidade. Eu costumo elogiar um programa desprezado pela maioria das pessoas: o Chaves. Ele é excelente. O personagem é feio, pobre, velho, mas as histórias são infantis; além disso, o texto é excelente, engraçado. Nele, abordam-se assuntos de criança. Em outros casos, às vezes, coloca-se a própria criança em uma situação humilhante, parodiando os adultos. O excesso de estímulo não é adequado à sensibilidade infantil. A criança precisa de um estímulo delicado: é preciso falar baixinho com ela. Mas o vilão não é a televisão. Os pais muitas vezes ligam a tevê em programas que eles gostam e expõem os filhos a uma violência inadequada. Isso fere a sensibilidade infantil. É claro que no processo de desenvolvimento da criança ela vai tomar contato com tudo isso, mas não é necessário massacrá-la com tanta sensualidade e violência. A televisão é um veículo maravilhoso para educação, entretenimento, cultura, mas a programação, na média, é muito ruim.

Quais são seus projetos atuais?

Estou planejando escrever dois textos para adultos. Um é um livro literário, de citações comentadas, e o outro é um livro sobre educação. Estou realizando, também, uma pesquisa sobre as bandeiras para escrever um livro infantil: a história de um menino que participa da bandeira do Bartolomeu de Gusmão. Além disso, estou preparando um material didático, bonito, engraçado, com muitas sugestões de atividades e jogos.

Fonte: Revista E SESCSP

Entrevista Tatiana Belinky

A autora e crítica de livros infantis, responsável pela primeira adaptação de Sítio do Pica-Pau Amarelo para a televisão, conversa com a Revista E sobre a vida dedicada à literatura e ao universo mágico das crianças.

Nascida em São Petersburgo, Rússia, em 1919, Tatiana Belinky veio para o Brasil aos 10 anos de idade, com sua família. Começou a fazer teatro para crianças em 1948 e não parou mais. Com a chegada da televisão, seu grupo teatral foi convidado a apresentar peças na TV Tupi. Permaneceu lá por mais de 13 anos, com três espetáculos de teleteatro por semana, ao vivo, e com textos sempre baseados em livros – “nosso trabalho tinha de ser educacional, cultural e formativo”, ressalta. Entre os destaques de sua produção voltada para as crianças está a primeira a adaptação de Sítio do Pica-Pau Amarelo, da obra de Monteiro Lobato, para a televisão, uma empreitada pioneira que resultou em mais de 1.500 textos apresentados. Também tradutora e jornalista, ao longo da vida recebeu muitos prêmios de teatro, de literatura e de televisão. Em conversa com a Revista E, a autora fala de sua obra, conta como conheceu Monteiro Lobato – pessoalmente, inclusive – e relembra a infância: “Eu era uma menina esquisita, não chorava e não mentia, ficava com o choro recolhido”.
Hoje as pessoas começaram a notar as crianças, o que não se fazia alguns anos atrás. Em qual momento de sua vida você decidiu trabalhar com crianças?


Tenho 85 anos e meio, 60 de trabalho. Eu fui criança, comecei a ler muito cedo, aos 4 anos, e nunca mais parei. Tenho dois irmãos, um três anos mais novo do que eu, o outro dez anos mais novo. Minha mãe era dentista e trabalhava o dia todo, acabei sendo “irmãe” do meu irmãozinho, dava banho, comida, levava para a escola. Ainda criança aprendi a lidar com criança, sempre com prazer, ele [o irmão mais novo] era extraordinário. Ou seja, tenho uma experiência pessoal com criança. Meus pais me davam muita atenção e gostavam de cultura, cresci com poesia e música. Não procurei nada, tudo me aconteceu. Trabalhei com tradução – o que ainda faço – e como roteirista de televisão, jornalista e crítica de literatura infantil. E essas coisas todas vieram para mim, não procurei. Sempre tive interesse pelas crianças. Pelas crianças e, claro, por Monteiro Lobato, que descobri logo que cheguei ao Brasil, foi fundamental.

Como você descobriu Monteiro Lobato?

O primeiro texto em português que chegou às minhas mãos, quando eu mal falava a língua, foi um folheto com o Jeca Tatuzinho, de Monteiro Lobato, nem era um livro, na verdade. Coincidiu muito com a postura de meus pais em relação a nós, crianças: respeito, humor, informação formativa e literatura – principalmente a de contos de fadas, que adoro até hoje. Quando descobri a Emília [personagem de Sítio do Pica-Pau Amarelo, obra mais conhecida de Monteiro Lobato], foi realmente uma virada, havia humor. Minha mãe, por exemplo, tinha muito senso de humor, misturado com uma personalidade vibrante, meu pai era suavidade pura. Eles discutiam tudo, tinham opiniões divergentes, porém não brigavam. Nunca entendi por que, sendo tão diferentes, conseguiam ambos ter razão; para mim os dois estavam corretos e completamente divergentes. Eles discutiam política, educação, literatura, música, balé... Assim aprendi a ter uma visão panorâmica do mundo.

E você acabou conhecendo Lobato pessoalmente, não? Como isso aconteceu?

Foi muito engraçado. Já era casada e tinha dois filhos pequenos. Ou seja, ele um jovem médico, e eu dona de casa. Estava conversando com meu marido uma certa noite quando tocou o telefone, eu atendi, uma voz masculina pediu para falar com meu marido, perguntei quem era e o homem respondeu: “Monteiro Lobato”. Eu pensei que fosse um trote, então brinquei dizendo que era o Rei Jorge. Para que Monteiro Lobato nos telefonaria? Ele riu do outro lado do telefone e afirmou que era realmente o escritor e contou que havia lido o artigo de meu marido, Júlio Gouveia, em uma revista chamada Literatura e Arte. Júlio era psiquiatra, psicólogo e educador nato, naturalmente se interessava por crianças, e escreveu um artigo sobre a literatura infantil de Monteiro Lobato. Lobato disse ao telefone que queria conhecer “esse Júlio” porque havia gostado do artigo, pediu para ir a minha casa naquela noite. Uma hora depois ele estava lá. Ele entrou e conversamos muito – ou melhor: ele falava e ouvíamos embasbacados. Era engraçado, crítico, espirituoso e contestador, muito interessante. Isso aconteceu em 1942, acredito, não lembro exatamente. Ele já era conhecido e até muito criticado, alguns padres queimavam os livros dele por acharem que era ateu, foi até censurado. Lobato não tinha papas na língua para nada, gosto de dizer que ele era moderno em tudo, inclusive em relação à criança, tinha coragem de dizer o que pensava, e pagou caro por isso.

Você lembra qual foi o assunto naquela noite?

Literatura e criança... E política também, claro.

Na sua opinião, qual a importância da literatura para crianças de Monteiro Lobato na época em que ele a produzia?

Lobato era um revolucionário, com certeza um divisor de águas. Arrombava os preconceitos em educação, política, economia ou qualquer outra área. Possuía uma personalidade forte. O jornal O Estado de S.Paulo descobriu-o rapidamente, foi publicado um artigo dele sobre a questão agrária ligada ao caipira, assim surgiu um interesse muito grande por ele. Era muito atuante, existem biografias sobre sua vida, há muita coisa para contar, era um patriota no melhor sentido.
 
Além de precursor em material literário voltado para crianças.

Dessa nova literatura, com certeza. Freqüentei escolas primárias e antes dele havia pouca coisa para criança, apenas contos de fadas, mas nada parecido com Lobato. O que existia de literatura brasileira para criança era algo muito didático, crianças não tinham voz nem vez. Ele criou o Sítio do Pica-Pau Amarelo, que, para mim, é genial porque abriu um espaço mágico e ao mesmo tempo real, eu nunca tinha ouvido falar em um sítio, não sabia o que era. Tem uma constelação familiar, a vovó, as crianças. A Emília era o próprio Lobato – ele dizia que, enquanto escrevia suas histórias, ela ficava palpitando, fazia piadas que ele não conhecia, até que um dia ele perguntou quem era ela, a resposta foi: “Eu sou a independência ou morte”. Isso era o próprio Lobato. Tudo com um senso de humor que eu considero fundamental para a literatura e para a vida, sem isso não sobrevivemos. Quando eu era pequena, queria ser bruxa, porque bruxa tem poder e criança não. Eu até tinha uma certa liberdade em casa, mas sabia que criança “não podia”, “não devia” e essas coisas de “cala a boca”. Queria ser bruxa porque elas podem, aliás podem até ser boazinhas se quiserem – eu queria ser uma bruxa bonita, não nariguda e feia. Teve uma época em que eu queria ser Pinóquio, mas depois vi que ele era desobediente, teimoso, preguiçoso – ele era interessante, mas sempre levava a pior, não tinha graça. Já a Emília estava “por cima da carne seca”, quando a descobri não queria mais saber de ser bruxa.

E como surgiu a idéia de adaptar o Sítio do Pica-Pau Amarelo para a TV?

Nós fazíamos teatro pela prefeitura de São Paulo, e a história com o Sítio acabou acontecendo um pouco por causa de uma brincadeira que fizemos e que foi vista por uma senhora de uma sociedade literária. Fizemos uma cena de Peter Pan no aniversário da filha de um amigo, e nos pediram para aumentar o texto e apresentá-lo no Theatro Municipal, que a prefeitura cedia para certas atividades culturais. Assim começou, primeiro o Júlio foi o roteirista, depois fui eu. Fizemos um texto para uma peça de 50 minutos, que estreou no Theatro Municipal com lotação esgotada. Foi um sucesso tamanho que pouco depois o Júlio até foi convidado para dirigir um grupo de teatro amador do Sesc. Enfim, o secretário do prefeito nos pediu que repetíssemos o espetáculo porque ele gostaria de levar os netos, não havia nada de teatro para crianças, de fato, até ali. Houve uma peça grande no Rio de Janeiro, da qual não recordo o nome, mas em São Paulo a nossa realmente foi a primeira. A prefeitura nos convidou para fazer peças para crianças todos os finais de semana em todos os teatros de São Paulo – e havia muitos teatros da prefeitura naquela época. Íamos de palco em palco fazendo Peter Pan, no começo, e depois outros espetáculos. Éramos um grupo de teatro. A experiência de fazer um circuito na cidade foi uma escola, aprendemos muito. Peter Pan tem personagens muito marcantes: o Capitão Gancho, Sininho, o Crocodilo, os pais no começo da história; a aventura é intensa, havia uma grande torcida nos teatros quando a apresentávamos. A platéia era formada apenas por crianças, a prefeitura mandava buscá-las nos parques e vinham acompanhadas por monitores, ninguém para as impedir de fazer algo ou para mandá-las ficar quietas. A criançada torcia furiosamente pelo Peter Pan, e, às vezes, pelo Capitão Gancho – aliás, quase sempre os vilões são mais interessantes. O teatro começou com livros, que saíam e voltavam para as estantes, teatro é um veículo para o livro. Claro, teatro é uma coisa importantíssima. O Júlio até fez uma tese sobre teatro para apresentar no 1° Congresso Brasileiro de Teatro, no qual, aliás, nem se falava em teatro para crianças, não estava no programa, ele que fez uma tese sobre isso e apresentou.

Bem, e do teatro você foi para a televisão?

Exatamente. Depois de muito tempo fazendo teatro, apareceu a televisão. No primeiro ano as pessoas que começaram na televisão eram do rádio, sabiam como usar a voz etc. Mas teatro, onde aparece o corpo inteiro, eles não faziam e por isso não tinham experiência. Era tudo muito novo, ninguém sabia nada. Fazíamos uma segunda peça, Os Irmãos Ursos, e a direção da TV Tupi nos procurou – na época o diretor era o Cassiano Gabus Mendes – e nos convidou para levar o espetáculo do palco para o estúdio. Havia toda a estrutura, era só trazer nossos atores. E assim fizemos. Imediatamente nos pediram para continuar, muitas pessoas ligaram para a emissora dizendo que era preciso fazer algo para as crianças, pois não existia nada, ou seja, foi um sucesso. Aliás, eu digo que a Tupi foi a primeira grande emissora de televisão para a qual trabalhamos, mas antes houve uma fase experimental, para a TV Paulista – o diretor artístico nos pediu uma apresentação de 15 minutos para estúdio, algo brasileiro. O Júlio Gouveia disse que precisava ser Monteiro Lobato e, como um bom grupo de teatro amador, apresentamos então na TV Paulista duas cenas escritas por ele. Isso passou, quando nos apresentamos na TV Tupi, que já era uma grande emissora, eles logo pediram a interpretação de um pequeno texto por semana. Chamamos o programa de Fábulas Animadas, porque eram sempre fábulas com dois ou três animais, de todas as origens. Depois de dois meses, o Cassiano Gabus Mendes quis um programa de autores brasileiros, claro que lembramos do Monteiro Lobato. Infelizmente ele havia falecido. Mas Maria Pureza da Natividade, viúva dele, nos cedeu os direitos para que pudéssemos fazer o programa. A primeira Emília foi a Lúcia Lambertini.


Como foi a chegada desse universo do Monteiro Lobato à televisão?

Um sucesso imediato. Primeiro porque foi o primeiro programa para crianças, substituído pelo Sítio do Pica-Pau Amarelo. Era uma vez por semana em horário nobre, as pessoas não viajavam e mudavam os horários para poder vê-lo. Logo nos pediram mais programas, entramos com o que chamam hoje de minissérie, não existia ainda esse nome. Eu já escrevia os capítulos e o Júlio era diretor, apresentador, produtor, ele sabia como fazer. Passou a ser um romance em capítulos, duas vezes por semana, ficamos com três programas por semana e logo pediram mais. Começamos com Era uma Vez aos domingos, uma história inteira de cerca de uma hora e meia, todas mágicas, como os contos de fadas. Foi engraçado: nosso forte e grande público começou a reclamar porque o programa era de manhã e pediram para exibir durante a tarde porque as crianças não estavam querendo ir à missa. O nome mudou para Teatro da Juventude, o público-alvo ampliou, não era proibido para adultos, comecei a trabalhar a literatura realmente baseada em tudo o que eu já havia lido. Durou 13 anos sem interrupção e sem contrato, todos aceitaram, o Júlio disse que sabia o que queria, era o que chamava de teatro cultural educacional formativo, foi assim, sem nenhuma pausa, o único contrato era o da emissora com o patrocinador. Muitos se interessavam em patrocinar, mas o Júlio não aceitava qualquer um. Como educador, ele dizia que não iria promover um produto com o qual não concordava – se fosse indústria de bebidas, cigarro ou algo que ele não considerasse bom para crianças, recusava o patrocínio. O Biotônico Fontoura foi um dos patrocinadores, os chocolates Lacta também. Os contratos valiam por dois anos, uma vez tivemos um patrocinador que era uma marca de bebida maltada, só que o Sítio do Pica-Pau Amarelo não tinha intervalos, então eu tive a idéia de que na hora do lanche, com os bolinhos da Tia Nastácia, a Dona Benta chamando as crianças etc., se colocasse a bebida na mesa. O sucesso foi tamanho que a empresa depois de quatro meses avisou que não poderia continuar porque não possuía estrutura para produzir a quantidade necessária.

Como educadora, o que você acha da grande quantidade de propagandas nos programas infantis de hoje?

É horrível, nunca faríamos isso no nosso programa. Todos precisam ter o mesmo tênis e a mesma camiseta, e os anúncios chamando para o consumo aumentam cada vez mais, é uma praga. Enfim, é o que sustenta a televisão, hoje rica. Evidentemente, não era assim antes. Como falei, não tínhamos nem contrato. O Júlio Gouveia recebia uma quantia e pagava o cachê para os atores.

Durante muitos anos você escreveu sobre teatro infantil. O que você acha desse tipo de teatro no Brasil hoje?

Há muita coisa boa e medíocre, são muitas opções, você abre o jornal e sempre há mais de 30 espetáculos em cartaz – não é possível que todos sejam bons. De modo geral, o teatro não é bem tratado, não consegue estrutura, é difícil fazer uma peça bem elaborada. Mas há coisas muito boas, apesar de todas as dificuldades. Escrevi muitas peças porque, na verdade, era teatro, mas mostrado na televisão. Foi assim que aprendi, íamos conseguindo prever os imprevistos também, justamente porque era ao vivo.

Como você aprendeu, já que era um estilo de programa inédito e num veículo igualmente novo?

Eu sabia escrever diálogos, por exemplo, porque eu li e vi muito teatro desde pequena. Sabia como montar uma cena, tinha uma certa tendência para isso. Comecei brincando com o Fábulas Animadas, e já ganhei prática. E claro que o texto do Monteiro Lobato ajudava.

Qual o segredo para segurar o espectador?

No seriado, interrompíamos em um ponto importante da história. Eu tive a idéia de ter um apresentador, ele tirava o livro da estante, abria e lia o título, porque eram sempre adaptações, mesmo quando não era o que eu gostaria que fosse. O apresentador começava a contar a história, depois passava para o espetáculo e, no fim, próximo do ponto alto, voltava a aparecer, lendo o livro, e terminava falando: “Isso é uma outra história que fica para uma outra vez”. Esse era o bordão do seriado. O teatro de domingo também começava e terminava no livro, mas o apresentador falava: “Assim terminou a história, entrou por uma porta e saiu por outra, quem quiser que conte outra”. Menos nos episódios muito grandes, que ocupavam dois domingos, como foi no quarto centenário de São Paulo, quando nosso espetáculo foi escolhido para prestar uma homenagem à cidade. Achavam que o herói iria ser um bandeirante, mas o Júlio decidiu que seria um médico, o Emílio Ribas. Lembro-me que para isso precisei fazer uma pesquisa de última hora – e não havia internet. Mas, enfim, descobrimos documentos, contatamos a viúva dele, e assim produzimos um roteiro com mais de duas horas. O Júlio Gouveia dirigiu e representou. Tivemos muitas aventuras, desventuras foram poucas. Claro, alguns acidentes de percurso, mas prevíamos os imprevistos. Usávamos três câmeras jurássicas e uma mesa de som primária. Era complicado, mas muito emocionante.

Qual era a filosofia na hora de transmitir esse material?

Informar. Hoje, existe uma mensagem implícita em tudo, mas nem sempre educativa. Quando era pequena gostava de fábulas, mas odiava a moral no fim de cada história. Perguntava-me se eles achavam que eu era burra, eu sabia que podia tirar minhas conclusões sozinha. A idéia do espetáculo era oferecer entretenimento com a ética implícita, a estética no próprio formato, emoção e humor. Havia uma técnica que aprendemos. Precisava ser uma história boa para interessar. Teatro tem de ser forma e conteúdo, os dois com qualidade, se o conteúdo for ruim irá deseducar o público, mas se a forma não for eficaz não transmitirá o conteúdo. Somos todos educadores, o resultado pode ser para o bem ou para o mal. O nosso trabalho tinha de ser educacional, cultural e formativo.

Fale um pouco sobre sua poesia.

Fazer poemas é outra coisa e eu gosto muito disso, brinco com as palavras. Meu pai era poeta, desde pequena aprendi com os poetas clássicos, que têm ritmo, rima e conteúdo. Poucos poetas usavam o humor, isso conheci mais no Brasil. Faço muitos versinhos, tenho um livro chamado Caldeirão de Poemas, até com algumas traduções de poemas russos, alemães e ingleses, que fazem parte da minha infância. Quando falo que preciso de poesia na peça teatral e em livros, não estou me referindo propriamente a versos, mas à poesia da vida que encontramos nas paisagens, entre as relações humanas e em tudo.

Ultimamente você tem feito mais poesia?

Sim, muita poesia nos últimos anos, também textos e histórias, umas delas é de terror – criança gosta de se sentir apavorada. É normal e necessário que a criança chore, ria, tenha medo. Eu era uma menina esquisita, não chorava e não mentia, ficava com o choro recolhido. Mesmo que a criança tenha uma infância muito boa, como a minha, em certos momentos se sente triste e injustiçada, há necessidade de chorar às vezes. Descobri um jeito para aliviar: ler histórias tristes. Tinha uma estante para elas, lia e chorava. Rir, chorar e ter medo de faz-de-conta faz bem, criança sabe o que é isso desde 1 ano de idade. É besteira não deixar a criança ver filmes antes de dormir. Afinal, as crianças não dormem com acalantos como “Bicho papão, sai de cima do telhado...”? Elas têm pesadelos, claro, mas não acontece nada.

O que você acha dessa sensualidade excessiva na televisão?

É bobagem. A criança perde com isso muitas coisas bonitas.

Estamos formando apenas pequenos consumidores?

Estão investindo nisso e muitas vezes os pais são coniventes. Mas não devemos estimular. Em grandes cidades, onde a maioria mora em apartamentos, está cada vez mais difícil evitar, pois as crianças não podem nem sair na rua porque é perigoso, ficam o tempo todo na frente da televisão e, pior ainda, jogando videogame. Elas se tornam viciadas e não querem mais nada. Sem dúvida, a atividade desenvolve uma certa agilidade, mas meus sobrinhos e bisnetos não gostam só de videogame, também gostam de ler, passear e nadar. É preciso dar opções.

Fonte: Revista E SESCSP

Entrevista José Mindlin

Dividir-se entre múltiplas atividades sempre foi uma das principais características de José Mindlin. Advogado de formação, executivo bem-sucedido – à frente da fabricante de autopeças Metal Leve – e secretário estadual de Cultura, Ciëncia e Tecnologia do governo Paulo Egydio Martins, no final dos anos 70, membro de vários conselhos de administração, o bibliófilo, dono de um acervo de quase 40 mil títulos, entre raridades, títulos autografados e primeiras edições, é ainda um profundo conhecedor e incentivador de artes plásticas – um gosto herdado a seu pai. Em sua biblioteca, Mindlin, hoje com 91 anos, reuniu preciosidades como o original de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, e no hábito da leitura conseguiu façanhas como ter lido cinco vezes os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, do escritor francês Marcel Proust. Nada mais natural para um homem que teve a paixão pelos livros despertada ainda muito cedo, no início da adolescência, aos 12 anos. Na entrevista que concedeu com exclusividade à Revista E, em sua casa no bairro do Campo Belo, Mindlin falou dessa paixão e contou um pouco de sua trajetória. A seguir, trechos.


Como começou a sua biblioteca?

Foi sem querer. Ela começou com as minhas leituras. Comecei a ler bastante cedo e voltava às obras de autores que tinham me interessado mais. A biblioteca foi se ampliando sem ser planejada. Cresci num ambiente cultural; em casa meus pais liam, havia uma biblioteca que não era de livros raros e sim de literatura geral e alguma coisa de história e crítica literária. Eu era o terceiro dos irmãos, muito ligado a meu irmão mais velho, Henrique [Henrique Mindlin, responsável, entre outros, pelo projeto da Nova Sinagoga da Congregação Israelita de São Paulo], que depois se tornou parte da primeira geração de arquitetos modernos no Brasil. Eu o acompanhava quase como sua sombra, de modo que, apesar da diferença de quatro anos na idade, eu lia as mesmas coisas que ele. Então, as primeiras obras não infantis que eu me lembro de ter lido foram de Alexandre Herculano, as lendas e narrativas, como O Monge de Cister, Eurico, o Presbítero. Eu tratava de comprar esses livros. Depois, lembro-me de ter lido cedo O Ateneu e aos 13 anos comecei a ler o Machado [de Assis], que se tornou um companheiro de leituras da vida inteira.

Qual livro do Machado de Assis?

Os primeiros romances dele; depois é que fui ler Dom Casmurro, Quincas Borba, Memórias Póstumas [de Brás Cubas], Memorial de Aires e seus contos e crônicas. Não passa ano que eu não releia alguma coisa de Machado. Em meados do século passado entrou em cena Guimarães Rosa, que passou a ser outro ídolo. O Brasil felizmente tem muitos bons escritores, como os do Nordeste, que eu li nos anos 30: Graciliano [Ramos], Lins do Rego, Jorge Amado no período das obras de conteúdo social – que curiosamente não eram bem escritas, mas acho que são as que vão ficar por ser as mais densas e de conteúdo impressionante sobre o que é a vida do Nordeste. Os outros romances do Jorge Amado são os chamados best-sellers, já construídos com vistas ao público e não exprimindo a visão do Brasil que ele tinha naquela época. A biblioteca cresceu como uma plantinha e virou árvore, e depois, com o tempo, virou floresta. Mas não foi planejada.

Quando o senhor se deu conta de que já estava com uma árvore?

Provavelmente pelos 20 anos. Já vi que ali eu estava com uma biblioteca razoável. Mas eu me interessava muito pelo livro como objeto de arte também – a parte gráfica, a diagramação, a ilustração, a encadernação. Isso veio bastante cedo. Meu pai tinha fascínio pelas obras de arte: quadros, gravuras, desenhos. Eu também gosto, e acho que herdei a paixão que ele tinha, mas dirigida aos livros. As pessoas me perguntam por que e como eu me interessei, mas isso não tem explicação. A paixão surge sem explicação necessária ou possível. O fato é que a paixão pelos livros tem um caráter compulsivo – eu chego a dizer que é uma compulsão patológica –, mas com a característica de ser algo que faz nos sentirmos bem em vez de mal. E é incurável, de modo que eu, desde moço, tentava inocular nos colegas e nos amigos – e ainda hoje tento fazer isso com crianças e jovens – o vírus do amor ao livro e à leitura. Quem gosta de livros, gosta para o resto da vida. Não se pode imaginar um país crescendo sem leitura. O Brasil tem ainda um bom caminho a percorrer nesse sentido porque aumentou a alfabetização, mas isso ainda não significa que o alfabetizado saiba ler e o que ler. É o ponto central do desenvolvimento educacional do país. Eu considero a educação a maior prioridade brasileira, embora no Brasil possa se dizer que tudo é prioridade: a saúde, habitação, alimentação, transporte, tudo. Mas o ponto de partida é um desenvolvimento da educação que dê ao povo a possibilidade de reivindicar o que é necessário fazer para torná-lo um povo feliz. Não basta o país progredir, é preciso que o povo seja feliz, se sinta bem. No regime militar houve uma preocupação fundamental com o desenvolvimento econômico, mas a parte cultural, educacional, ficou para trás. O Brasil tentou tornar-se uma potência mundial e não chegou a esse ponto. O objetivo era esse, só que o povo não acompanhou esse crescimento como realização de felicidade pessoal. Ainda estamos nessa encruzilhada. Acho que houve progresso, mas há muito para fazer.

Quantos títulos há na biblioteca?

Mais ou menos 38 mil títulos registrados no computador. O que daria ao redor de uns 60 mil exemplares. É difícil calcular esse número de exemplares, pois o título pode ser um folheto ou a coleção do Estudo Histórico e Geográfico Brasileiro, que são quase 400 volumes. Há documentos históricos, coleções de revistas com centenas de volumes.
E qual é a tônica da biblioteca? É uma biblioteca de raridades e primeiras edições?

Isso é só uma parte. É uma biblioteca em que a leitura é o fulcro de sua existência. O gosto por primeiras edições e por exemplares autografados pelos autores veio mais tarde. Eu comecei lendo livros em edições comuns. O interesse principal da biblioteca é a literatura. Mas, logo atrás, vem a história, a crítica literária, a arte, as viagens. O meu interesse pela brasiliana [coleção de estudos, livros, publicações, material visual etc. sobre o Brasil], que representa um pouco mais da metade da biblioteca, começou com uma edição da Melhoramentos da História do Brasil, do Frei Vicente de Salvador, cronista do século 17, que eu achei fascinante. Eu li aos 13 anos e isso desencadeou o meu interesse pelas coisas sobre o Brasil. Essa edição da Melhoramentos tinha uma boa bibliografia, notas explicativas do Capistrano de Abreu, do Rodolfo Garcia. Foi uma leitura instrutiva, eu tinha recebido de presente de aniversário, mas era uma publicação comum – sem nenhuma pretensão de raridade ou qualidade editorial. Machado de Assis eu li nas edições Garnier, que foram feitas na primeira metade do século. Eram edições com muitos erros porque eram impressas e revistas na França. Posteriormente a Casa de Rui Barbosa fez uma edição quase completa das edições Garnier corrigidas. Na leitura vem o desejo de conhecer as primeiras edições para comparar textos, porque se fala de alterações no trabalho que o autor desenvolveu. As quatro primeiras edições de O Guarani foram revistas pelo José de Alencar. Tem-se a vontade de ter edições melhores. Daí se parte para as obras que se relacionam com o período, e isso vai aumentando. Viagens pelo Brasil, por exemplo, principalmente de estrangeiros que começaram com mais intensidade em 1808, na abertura dos portos – pois antes os estrangeiros que visitavam o Brasil só conheciam a Bahia ou o Rio de Janeiro, não podiam se aventurar pelo interior. É difícil sintetizar, mas os interesses vão se espraiando. Livros de arte foram coisas que me atraíram muito. Para entender melhor os livros que eu tinha lido, a crítica literária. Aí, como uma coisa quase insidiosa, o gosto pelas primeiras edições, depois pelos exemplares autografados, e entra também o conceito de raridade. É uma doença que vai progredindo até se tornar irremediável.

E para conseguir esses livros? Foram feitas viagens, visitas a sebos?

Até os 20 anos eu corria sebos todas as tardes e pedia catálogos de livreiros europeus. Com isso, fiquei conhecendo melhor o mundo dos livros e o que era mais interessante procurar. Tive de fazer muita ginástica financeira porque eu não queria pedir dinheiro a meu pai para livros que não fossem de estudo. Foi quando descobri o caminho da mina nessas visitas diárias a sebos. Eu devia ter uns 15 anos quando verifiquei que cada sebo vivia isolado, isto é, o livreiro não sabia o que o outro tinha. Cada um vendia os livros pelo preço de compra e não pelo valor estabelecido. Então, um vendia por 5 o que o outro vendia por 20, 30 e até 50. Eu comecei a comprar esses livros de 5 e levar para o outro livreiro dizendo que ia deixar em consignação e que queria que ele creditasse o saldo depois de tirada a comissão dele. Então, no fim de três meses eu estava com crédito em todos os sebos. Eu dizia que não queria ver dinheiro, que iria retirar em livros, o que agradava aos livreiros, pois eu retirava em livros o que para eles tinha custado menos. Isso foi realmente decisivo na formação da biblioteca, pois passei uns quatro anos comprando livros sem desembolsar nada. Depois o mundo foi mudando, a cidade foi mudando, os livreiros começaram a ter contato, publicavam listas. E, aí, acabou a brincadeira, mas ela teve bons resultados. Nesse meio-tempo eu me formei em direito, advoguei e já tinha mais facilidade de comprar livros por minha conta mesmo.

Quando o senhor ia nesses sebos, já chegava com uma idéia do que iria buscar ou lá dentro se perdia?

A quantidade de livros é muito grande e no meio há coisas muito boas.
Acontecem as duas coisas. Em matéria de brasiliana, eu ia listando as obras referidas nas bibliografias. E também descobrindo coisas, eu gostava muito de seguir a intuição e ver um autor que eu não conhecia. Eu comprava o livro para ver como era. Ou me apaixonava pelo autor ou desistia, punha de lado. Há muito descarte na garimpagem. Mas sempre havia obras procuradas, especificamente. Lendo as histórias de literatura, os ensaios críticos e as bibliografias, eu ia marcando coisas que eu queria conhecer. Daí veio também o gosto pela raridade. É uma compulsão que vai crescendo e que é patológica, mas nunca chegou a me preocupar. Aos 20 anos eu fiz a primeira viagem à Europa. Foi um episódio interessante. Por puro acaso, eu estava saindo da aula, na faculdade, e um advogado conhecido me perguntou se eu falava inglês e francês; eu respondi que sim. Ele me perguntou se eu queria ir para a Europa e eu disse que era claro que queria. Era um convite da Marinha para um estudante da universidade participar da viagem que ia buscar o Navio-escola Almirante Saldanha na fronteira da Inglaterra com a Escócia. Foi uma viagem de cinco meses. Em cada país – Inglaterra, França, Portugal, Espanha e Itália – eu visitei os antiquários, aí já não era tanto os sebos. Eu tinha certo conhecimento que me abriu as portas dos antiquários. Isso porque o bom antiquário não gosta de vender livro para pessoas que não tenham gosto. Então, estabeleceu-se uma relação pessoal que dura até hoje, alguns antiquários ainda existem, os sucessores continuam na Inglaterra, em Portugal, na França. Muitos foram para os Estados Unidos na guerra [a Segunda Guerra Mundial] – foi quando começaram a aparecer bons antiquários nos EUA. Esse relacionamento pessoal me ajudou muito na formação da biblioteca. Havia as coisas que eu procurava e as que seduziam sem que tivesse pensado nelas.

Então, a partir de um título, havia não só a zona de interesse desse livro como a bibliografia referida do autor, que havia sido usada para a construção desse livro?

Sim, a partir disso eu ia expandindo o meu interesse. A leitura dos catálogos me deu uma soma de informações muito grande, pois os catálogos que os antiquários europeus publicavam eram verdadeiras obras de referência. Há uma livraria inglesa, a Marx Brothers, que em 1930 fez um catálogo de livros sobre o Brasil que até hoje é uma obra de referência. Eu não tinha condição de comprar praticamente nenhum livro desse catálogo, mas fiquei conhecendo o que estava ali e foi plantada a semente para que os procurasse mais tarde, quando tivesse condições de adquirir as obras. Eles me mandavam catálogos certos de que estavam mandando para um bibliófilo de um país exótico, não imaginavam que era um menino de 15 anos que estava pedindo os catálogos. Não foi um processo planejado e bem delineado. Na minha vida, o acaso teve um papel muito importante. Eu estudei direito porque naquela época ou se estudava direito ou engenharia ou medicina. As outras profissões eram secundárias. Como eu, de criança, falava muito e as pessoas em casa me chamavam de Rui Barbosa, ficou estabelecido que eu seria advogado. Fui advogado e gostei da profissão. Eu me formei em 1936 na São Francisco.

Já era USP?

Já. Virou USP em 1934. Eu estava no terceiro ano, de modo que acompanho a vida da USP desde seu nascimento. Hoje não há muita gente que possa dizer isso. Eu conheci todos os reitores, tive contato com os professores estrangeiros que foram contratados pelo Júlio de Mesquita Filho e Paulo Duarte, franceses como o Lévi Strauss e outras figuras, que depois se tornaram intelectuais de reputação mundial, que vieram para o Brasil como jovens professores. Assisti às aulas deles. Tive a vantagem de falar inglês e francês. Falando em acaso, fiz o ginásio em condições especiais. Houve um decreto permitindo o que se chamava de “exames parcelados”. Podia-se estudar onde se quisesse e fazer os exames de toda matéria no ginásio em que se estava. Eram 12 matérias; quando saiu o decreto eu precisei fazer um exame desses para me incluir nesse sistema. Fiz geografia e depois mais cinco matérias em 1928, cinco em 1929, e só ficou faltando história. Fiz isso no Rio Branco, que era um colégio fora de série por ter professores excelentes. Lourenço Filho era um dos diretores; o Sampaio Dória também, que criou a Associação Escolar Rio Branco – era uma miniatura da república. Tinha um presidente, os secretários de Estado, equivalentes aos ministros. Cada classe mandava os seus representantes para a assembléia. Foi onde surgiu meu interesse por política. Sempre gostei muito de política, mas não partidária. Eu tive uma educação muito individualista e a idéia de outros pensarem por mim não me agradava, de modo que eu nunca pertenci a um partido.

Gostar de política e não da política.

Sim, isso mesmo. Naquela época de escola, ficou faltando apenas uma matéria de história, e eu não tinha idade suficiente para prestar o vestibular da faculdade de direito. Disse a meu pai que queria trabalhar e foi uma coisa curiosa, pois ele me perguntou o que eu queria fazer e eu disse: “Qualquer coisa”. Dali a alguns dias ele chegou dizendo que tinha um amigo, importador de frutas no mercado central, que precisava de uma pessoa que ficasse no portão de entrada dos caminhões para controlar a entrada da mercadoria.

Quantos anos o senhor tinha nessa época?

Eu tinha 15 anos e engoli em seco porque tinha dito que qualquer coisa servia. Não me atraiu, mas tive de aceitar. Quando eu disse que aceitava, meu pai falou: “Não, eu estou brincando, você vai entrar na redação do jornal O Estado de S. Paulo”. Ele era amigo do Nestor Rangel Pestana, que era um dos diretores do Estado. Entrei em maio de 1930 e em setembro de 1930, completei 16 anos. Fui o redator e repórter mais moço do Estado. Para mim foi uma escola insubstituível, porque eu aprendi a escrever, tinha de ser numa linguagem simples, clara e acessível a um público médio. Até hoje eu escrevo de uma forma coloquial, não tenho o menor resquício de pedantismo. Fiquei conhecendo os bastidores da política, das sociedades, umas relações que normalmente nessa idade a pessoa está longe de ter. Um episódio que apareceu em muitas entrevistas e que é marcante foi que um núcleo da Revolução de 30 era a redação do Estadão. O Júlio de Mesquita Filho me chamava para a sala dele para mandar instruções e informações sobre a preparação do golpe de outubro de 1930 para o Rio de Janeiro, para o Vivaldo Coaraci, que chefiava a redação do Rio. Eu mandava essas informações em inglês para driblar a censura, que era de escuta telefônica e os censores não falavam inglês. Ainda não tinha 16 anos completos e acompanhei uma parte da conspiração da Revolução de 30. É uma experiência inédita mesmo. E foi por acaso. Depois, me formei como advogado e trabalhei com um grande advogado da época, o Antônio Augusto Covelo.

Nesse momento, como o senhor vê o Estado diante da cultura? Cobra-se a questão de uma política cultural.

Sempre achei que o papel do Estado era criar condições para que a cultura se desenvolvesse. Mas o Estado não deveria ter nenhuma ação cultural, teria de criar as condições necessárias de apoio, quando fosse preciso, mas dando liberdade de criação. Eu achava que o Estado deveria financiar projetos, mas não instituições sem projetos específicos. De modo que uma instituição pequena poderia receber um financiamento grande se tivesse um bom projeto.

O senhor teve uma atuação empresarial e política. Como o senhor arrumava tempo para seu hobby e ainda para conseguir ler?

A leitura não era hobby. Fazia parte essencial da minha vida. A biblioteca era meu interesse central. Comecei a formar a biblioteca em 1927. A minha leitura sempre foi a soma de pequenos períodos. Eu lia de manhã 15 minutos, no máximo meia hora. Mas eu sempre andei com livros na mão. Pegava todas as oportunidades. O trânsito sempre foi para mim muito benéfico. Eu lia na faculdade porque os professores levavam 50 minutos para ler uma preleção que eu poderia ler em casa em 15 minutos. Eu sentava no fundo da sala, e li, dessa maneira, muita coisa de literatura.

Se o senhor tivesse de ir para uma ilha ou passar dois anos no Tibete, teria de levar apenas alguns livros e não a sua biblioteca inteira. Quais livros levaria?

Eu levaria alguns livros do Machado de Assis e do Guimarães Rosa, como literatura brasileira, e como literatura estrangeira eu levaria Proust. Mas isso é uma preferência pessoal e não é exclusiva. A literatura estrangeira é um mundo. É muito difícil de escolher um apenas, mas eu acho que o Proust é um escritor extraordinário, tanto que há, hoje, na literatura do século 20 os proustianos e os joyceanos. Eu comecei a ler o Joyce em francês porque a tradução decodifica muita coisa e ela foi acompanhada pelo Joyce. Depois eu li em inglês e depois em português, na tradução do Houaiss. Mas, até agora pelo menos, não tive a empatia que tive com Proust. Eu li Em Busca do Tempo Perdido cinco vezes com dez anos de intervalo, e cada leitura é diferente e melhor.

Fonte: Revista E SESCSP