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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Sempre leia o original

O artigo é de 2003, faz uma reflexão sobre bibliotecas, escolas, professores, alunos, livros e leitura. O tema é sempre atual. Coisas que presenciamos no cotidiano de escolas, faculdades e universidades. Boa leitura! 

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Stephen Kanitz*

*Stephen Kanitz é administrador por Harvard (http://ww.kanitz.com.br)

 "Na próxima aula em que seu professor fizer o resumo de um livro só, ou lhe entregar uma apostila mal escrita, levante-se discretamente e vá direto para a biblioteca"


Uma greve geral dos professores alguns anos atrás teve uma conseqüência interessante. Reintroduziu, para milhares de estudantes, o valor esquecido das bibliotecas. Os melhores alunos readquiriram uma competência essencial para o mundo moderno – voltaram a aprender sozinhos, como antigamente. Muitos descobriram que alguns professores nem fazem tanta falta assim. Descobriram também que nas bibliotecas estão os livros originais, as obras que seus professores usavam para dar as aulas, os grandes clássicos, os autores que fizeram suas ciências famosas. 

Muitos professores se limitam a elaborar resumos malfeitos dos grandes livros. Quantas vezes você já assistiu a uma aula em que o professor parecia estar lendo o material? Seria bem mais motivador e eficiente deixar que os próprios alunos lessem os livros. Os professores serviriam para tirar as dúvidas, que fatalmente surgiriam. 

Hoje, muitas bibliotecas vivem vazias. Pergunte a seu filho quantos livros ele tomou emprestado da biblioteca neste ano. Alguns nem saberão onde ela fica. Talvez devêssemos pensar em construir mais bibliotecas antes de contratar mais professores. Um professor universitário, ganhando 4.000 reais por mês ao longo de trinta anos (mais os cerca de vinte da aposentadoria), permitiria ao Estado comprar em torno de 130.000 livros, o suficiente para criar 130 bibliotecas. Seiscentos professores poderiam financiar 5.000 bibliotecas de 10.000 livros cada uma, uma por município do país. 

Universidades são, por definição, elitistas, para a alegria dos cursinhos. Bibliotecas são democráticas, aceitam todas as classes sociais e etnias. Aceitam curiosos de todas as idades, sete dias por semana, doze meses por ano. Bibliotecas permitem ao aluno depender menos do professor e o ajudam a confiar mais em si. 

Nunca esqueço minha primeira visita a uma grande biblioteca, e a sensação de pegar nas mãos um livro escrito pelo próprio Einstein, e logo em seguida o de cálculo de Newton. Na época, eu queria ser físico nuclear. 

Infelizmente, livros nunca entram em greve para alertar sobre o total abandono em que se encontram nem protestam contra a enorme falta de bibliotecas no Brasil. Visitei no ano passado uma escola secundária de Phillips Exeter, numa cidade americana de 30.000 habitantes, no desconhecido Estado de New Hampshire. Os alunos me mostraram com orgulho a biblioteca da escola, de NOVE andares, com mais de 145.000 obras. A Biblioteca Mário de Andrade, da cidade de São Paulo, tem 350.000. A bibliotecária americana ganhava mais do que alguns dos professores, ao contrário do que ocorre no Brasil, o que demonstra o enorme valor que se dá às bibliotecas nos Estados Unidos. 

Não quero parecer injusto com os milhares de professores que incentivam os alunos a ler livros e a freqüentar bibliotecas. Nem quero que sejam substituídos, pois são na realidade facilitadores do aprendizado, motivam e estimulam os alunos a estudar, como acontece com a maioria dos professores do primário e do colegial. Mas estes estão ficando cada vez mais raros, a ponto de se tornarem assunto de filme, como ocorre em Sociedade dos Poetas Mortos, com Robin Williams. 

Na próxima aula em que seu professor fizer o resumo de um livro só, ou lhe entregar uma apostila mal escrita, levante-se discretamente e vá direto para a biblioteca. Pegue um livro original de qualquer área, sente-se numa cadeira confortável e leia, como se fazia 500 anos atrás. Você terá um relato apaixonado, aguçado, com os melhores argumentos possíveis, de um brilhante pensador. Você vai ler alguém que tinha de convencer toda a humanidade a mudar uma forma de pensar. 

Um autor destemido e corajoso que estava colocando sua reputação, e muitas vezes seu pescoço, em risco. Alguém que estava escrevendo apaixonadamente para convencer uma pessoa bastante especial: você.

Fonte: Veja , São Paulo, ano 36, n. 19, p. 20, 14 maio 2003. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Por que professor não gosta de ler?

Matéria publicada em 10/09/2011

Ensino brasileiro ainda reproduz uma pedagogia ineficaz na valorização da leitura

Aloísio Milani

Institutos de pesquisa, entidades de classe e editoras até hoje não conseguiram aferir, mas, nos bastidores, todos sabem: professor não gosta de ler. Como toda nota vermelha no boletim, essa também chega com muitas justificativas e desculpas. As explicações vão desde a formação educacional até o preço dos livros, passando pela indefectível falta de tempo.

O baixo poder aquisitivo é uma das explicações para o pequeno volume de leitura do professorado. Em estudo de 2001, divulgado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), 41% dos docentes afirmaram ler ao menos um livro por mês, 34% deles eventualmente lêem e 25% não responderam ou não costumam ler.

O problema da leitura no Brasil - denunciado ano após ano pelos índices de aprovação em exames e vestibulares - não é novo. Alunos são massacrados pelos pais e pela escola por apresentarem péssimos rendimentos em interpretação de textos, por não compreender o que lêem, por não gostar de ler.

Segundo pesquisa publicada no livro letramento no Brasil, realizada em 2001, com 2 mil pessoas de 15 a 64 anos, 69% dos brasileiros dizem que nunca vão a bibliotecas. Quando indagados sobre as pessoas que mais influenciaram o gosto pela leitura, 37% dos entrevistados creditaram o hábito a um professor, 36%, às mães. Os dados, levantados pelo Instituto Paulo Montenegro - entidade ligada ao Ibope - e pela ONG Ação Educativa, dão uma amostra da importância do educador nesse processo.

Por mais que haja empenho em se melhorar os índices brasileiros de leitura, nenhuma campanha terá sucesso se não levar em conta que os próprios professores também não cultivam o hábito de ler por prazer - o que não inclui livros técnicos e material didático, cujas leituras são tidas como obrigação da profissão.

Poucos se dão conta de que os mestres que, hoje, apregoam a importância do hábito de ler, quando alunos, não guardaram boas lembranças dos livros e também sofreram com a leitura imposta, tratada como obrigação e treinamento.

O professor repete para o aluno a mesma visão de ensino que teve em sua formação. Muitos dos atuais mestres também tiveram de fazer os ineficazes resumos de obras clássicas; vários nunca foram sensibilizados para o prazer da leitura; outro tanto não tinha condições financeiras para comprar livros. Fica o dilema: como um professor que não gosta de ler pode estimular esse prazer em seus alunos?

"Grande parte do professorado realmente lê pouco, mas não podemos sentenciá-la como culpada. Essa parcela faz parte do contexto de aprendizagem que não coloca a leitura como categoria fundamental", expõe Edmir Perrotti, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP. Para ele, essa situação reflete uma falha profunda nas políticas educacionais.

Na prática, há uma desvalorização do livro como meio básico de educação desde o ensino fundamental. "É um círculo vicioso para o professor: estuda numa escola que não usa direito o livro; forma-se educador sem saber lidar com a biblioteca; e retorna para o ensino reproduzindo isso", explica Elizabeth Serra, diretora das bibliotecas públicas do Rio de Janeiro.
Por que os professores não lêem mais? Entre os especialistas, é consenso dizer que a questão da leitura está muito mais ligada às condições de acesso ao livro e à informação do que ao interesse das pessoas. Essa tese coloca que ler é um hábito mais próximo das camadas sociais mais ricas, em que a presença da cultura letrada é mais forte.

Luiz Percival Britto, presidente da Associação de Leitura do Brasil, explica que "ler para estar bem informado depende das condições de vida". Para Britto, o discurso que acusa o professor chega a ser preconceituoso e inocente: "Essa discussão é político-social; a leitura depende de uma política de Estado. Os professores são apenas agentes visíveis do processo."
No primeiro semestre deste ano, a CNTE divulgou um estudo feito em dez estados brasileiros que mostra que a maioria dos professores está na rede pública, tem uma experiência entre 12 e 18 anos de trabalho e ganha entre R$ 500 e R$ 1 mil.

É nesse contexto que se discute a política de incentivo da leitura do professor. Mas ler o quê? E para quê? Logicamente, os professores já lêem cotidianamente para seus planejamentos de aula. Antônio Augusto Gomes, do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), coloca que o professor "tem pouca familiaridade de utilizar textos mais literários e acadêmicos", só que está treinado e "especializado no seu método de ensino". Mais ainda. "Existe uma tensão entre o que o professor gostaria de ler e ser como profissional e como realmente é", observa Gomes.

Literatura e trabalho - A professora Deise Capitani tem 36 anos e faz dupla jornada de trabalho em São Paulo (SP). Pela manhã, ela dá aulas no ensino fundamental na Escola Estadual Walter Belian e, à tarde, na Escola Municipal Ataulfo Alves, ambas na zona leste da cidade. Deise concluiu, no ano passado, o Programa de Educação Continuada (PEC) de professores de primeira a quarta séries, que lhe deu diploma de nível superior.
No curso - uma adequação à Lei de Diretrizes e Bases que impõe a necessidade de graduação para os docentes do ensino básico -, Deise estudou as linhas pedagógicas de vários educadores, como Paulo Freire, Piaget e Perrenoud. "Nós dávamos aula, mas não sabíamos classificar e nortear a prática do ensino de acordo com os pensadores", explica.
Deise admite a dificuldade em arranjar tempo para a leitura: "No trabalho, somos cientistas, professores e psicólogos. Nem sempre sobra tempo para ler e se atualizar." Por exemplo, nas horas de trabalho pedagógico - horários pagos para o professor se aprimorar -, muitas vezes se discutem apenas problemas pontuais de sala de aula. Não há orientação de especialistas no período.

A professora lembra que, fora as exigências do PEC, os últimos livros que leu foram duas biografias: Anjo Pornográfico, de Ruy Castro, e uma biografia de Monteiro Lobato. A leitura das obras, segundo a professora, foi importante para sua didática. "Acho que o professor deveria ser mais valorizado pelas políticas públicas. Se pudéssemos ter um salário para lecionar em apenas uma escola, a situação seria diferente", analisa.
Segundo Deise, uma maneira de se estimular a leitura dos professores é o governo e as secretarias de educação investirem na assinatura de periódicos: "As revistas Época e Veja, por exemplo, trazem informações históricas com explicações atuais. São textos prazerosos. Acho imprescindível que o professor também leia por prazer."

Salários baixos - Em sintonia com o discurso da professora está a própria presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Juçara Vieira, que reconhece a escassez de tempo para investir na leitura. "Com a internet, se multiplicaram as formas de acúmulo de conhecimento, mas os trabalhadores da educação são absorvidos pelo volume de trabalho que assumem para ganhar um salário razoável", pondera.
Um levantamento feito pela Unesco em 1998 evidenciou que o salário médio inicial dos professores da rede pública brasileira chegava a ser até seis vezes menor do que na Alemanha, na Espanha e nos Estados Unidos. Na comparação, a média brasileira era menor até que os índices do Uruguai, da Malásia e da Tailândia.

Mas há vozes dissonantes. "Não há como dizer que o professor realmente lê muito mal. Sabemos que ele é intelectualizado, apesar de, como os brasileiros em geral, não ter acesso à maioria das publicações", analisa Wander Soares, presidente da Associação Brasileira de Editores de Livros (Abrelivros). "Há uma demanda reprimida da leitura no país. Se houvesse melhora econômica, haveria mais consumo de livros", acredita Soares.

Entre os livreiros, os descontos também não são a estratégia unânime. "Os descontos são mais uma forma de propaganda do que um incentivo à leitura. Há, muitas vezes, alunos de pedagogia que passam quatro anos estudando e não chegam a ler seis livros inteiros", dispara Ednilson Xavier, da Associação Nacional das Livrarias e gerente da Livraria Cortez.
Xavier coloca que, dos dez livros da área mais vendidos pela Cortez, em julho deste ano, estão quatro do pedagogo Paulo Freire e um do educador Edgar Morin. Alguns deles chegam a custar menos de R$ 11. "Depende mais do incentivo à leitura do que dos preços. Livro precisa de valor prático."

Clarisse da Silva leciona matemática na escola estadual Sérgio Leça Teixeira, em Franca, interior de São Paulo. Graduada em matemática com licenciatura plena, a professora se candidatou a uma vaga em concurso aberto pela Secretaria Estadual de Educação para lecionar no ensino básico.

Com a bibliografia do concurso em mãos, Clarisse procura estudar e ler o máximo que pode nos meses que antecedem o teste. Mesmo tendo formação universitária, a professora diz que o estudo na faculdade "não lhe deu base suficiente para concurso". Para ela, "o nível superior não cobra muita leitura e, devido à falta de tempo, os alunos só lêem o que é cobrado". Ela ainda completa: "Há muito desinteresse dos alunos e dos professores."
Antônio Augusto Gomes, do Ceale, explica que o problema da formação do professor surgiu no recrutamento em massa de professores, desde a década de 70. "No perfil social, a maioria faz parte da primeira geração, alfabetizada na família. Isso impõe um desafio enorme para a estrutura de formação", aponta.

Clarisse avalia que "nunca existiu tanto livro na escola para os professores, mas poucas vezes se usa bem o que se ganha". Sua escola, como todas as outras 3.126 do estado de São Paulo, receberá da Secretaria da Educação um pacote do programa Biblioteca do Professor com mais 219 títulos.

Mas só comprar livros não tem resolvido a questão. Nesse ponto, o professor Edmir Perrotti lembra os resultados de uma pesquisa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que apontam que o maior problema das bibliotecas não está nos recursos financeiros e, sim, no isolamento e na falta de comunicação entre acervos e salas de aula (leia mais à pág. 44).

Segundo Elizabeth Serra, diretora das bibliotecas públicas do Rio de Janeiro, o professor precisa ser formado para descobrir a literatura e com isso mudar seu ensino.
"Eu acho que a obra de Monteiro Lobato, por exemplo, pode ser usada como projeto pedagógico. Os livros são didáticos, trabalham a diversidade e são verdadeiros clássicos." Elizabeth faz questão de reforçar: "Leitura não deve ser apenas o 'fim', mas o 'meio' da educação", acredita.

A biblioteca pessoal

Leituras educadoras | Edição 177
Matéria publicada em 20/12/2011
 
Os professores precisam de quem os ensine a ensinar: os livros

Gabriel Perissé*


A leitura variada e profunda é vital para a formação docente. A educação brasileira precisa de professores que sejam leitores constantes, com repertório amplo, com linguagem atraente/convincente, com visão de mundo fortalecida pela reflexão, com sensibilidade para não prender disciplina alguma em rotinas burocráticas, em fórmulas apáticas, em métodos repetitivos.

Que em cada escola, pública ou particular, houvesse uma excelente biblioteca destinada exclusivamente aos professores. Não só com os livros de pedagogia, essenciais, e os documentos oficiais, os referenciais, as diretrizes nacionais e internacionais, e a legislação, os parâmetros, os projetos, as estatísticas. Mas também com abarrotadas estantes de história, filosofia, antropologia, literatura, arte em geral, sociologia, ciência, tecnologia e outros tantos temas e "logias" necessários para a vida intelectual.

E que na sala dos professores tivéssemos a vontade natural de superarmos as questões epidérmicas e cosméticas. Que tivéssemos tempo e espaço, estímulo e ânimo para conversar sobre temas de fundo, não apenas os (interessantes, sem dúvida) assuntos propostos ou impostos pelas revistas semanais (algumas caras, outras baratas), pelos telejornais que nos globalizam, ou pelas urgentes pautas sindicais. Podemos sempre mais!

A biblioteca professoral

Além da biblioteca coletiva da escola (iniciativa que demonstraria os verdadeiros méritos de uma prefeitura, de uma secretaria de educação, de uma diretoria), é igualmente vital para os professores terem sua biblioteca particular, com seus clássicos pessoais, com seus livros de consulta, para estudo cotidiano e também para momentos de entretenimento cultural.

De novo, não seria biblioteca restrita aos temas, às abordagens, aos autores que todos conhecemos como importantes na formação docente. Que estejam presentes Paulo Freire e John Dewey, Freinet e Piaget, Claparède e Lourenço Filho, Wallon e Morin, Anísio Teixeira e Montessori, Makarenko e Comênio, entre tantos outros. Mas que outros tantos autores, mesmo não rotulados de educadores, tenham o seu lugar assegurado na fila das nossas futuras leituras.

Autores brasileiros e estrangeiros, contemporâneos ou de muitos séculos atrás, mais racionais ou mais emocionais, materialistas ou espiritualistas, prolixos ou concisos, contundentes ou conciliadores... É praticamente infinito o espaço das escolhas. E é também o momento de saber se sabemos escolher. Montar uma biblioteca exige interesse, pesquisa, curiosidade. E a coragem de optar.

Os clássicos (claro!) são sempre referência incontestável. Devemos conhecer Dante, Homero, Balzac, Cervantes, Shakespeare, Guimarães Rosa, Fernando Pessoa, nem que seja para dizer que preferimos outros clássicos. Entra aqui a capacidade de escolher nossos clássicos pessoais, como dizia Italo Calvino. E esses clássicos podem ser nomes menos conhecidos, menos elogiados, desprezados, ou até mesmo odiados pela crítica dominante. Mas nada disso é importante. Os clássicos pessoais serão legitimados pela pessoa que os classifica como algo que valha a pena ler, reler e recomendar!

As consequências práticas e didáticas são óbvias. Um professor que tenha escolhido os seus clássicos pessoais, e que os frequente com interesse, torna-se, perante seus colegas e dirigentes, perante seus alunos, na classe, na hora da aula, um professor com personalidade intelectual, com perfil definido. Não é mero repetidor de conteúdos livrescos ou apostilescos, não é simples educador de giz e quadro-negro, de retroprojetor, flip chart, lousa eletrônica, power-point, laptop ou tablet. Sua visão e sua voz estão fundamentadas numa tecnologia antiga e insuperável - na leitura livre. Livre das modas e muletas de todo gênero!

De livro em livro

Não se cria uma biblioteca em um dia, em um ano. Biblioteca é projeto para a vida inteira. E requer amor aos livros. É uma contradição ser professor de pouca leitura. Se uma casa sem livros é uma casa sem janelas (frase atribuída a vários pensadores), uma existência de professor sem leitura é vida fechada para o aprendizado.

A biblioteca pessoal é construída livro a livro, uma aquisição hoje, outra amanhã, é feita de visitas à livraria, ao sebo. Trata-se de investimento pessoal. Não é despesa, ainda que pese no bolso. Mais pesada, porém, é uma vida sem a leveza das ideias, sem a beleza das imagens, sem a força das metáforas e dos argumentos que um livro traz.

Não pode haver maior incoerência que um professor não ler ou, até, não gostar de ler. Mas também sabemos que essa incoerência se explica pelas limitações da profissão docente no Brasil. Quando reivindicamos melhores condições de trabalho, incluímos (imagino eu) possibilidade para comprar livros e tempo livre para ler.

A poeta Adélia Prado diz... "escrevo um livro para ver se me livro". Podemos parafrasear: "eu compro um livro para ver se me livro". Para ver se nos livramos da superficialidade, dos preconceitos, dos lugares-comuns, de tudo aquilo que não condiz com a arte de ensinar.

De livro em livro a biblioteca preenche a alma. Não se trata de estabelecer quantidades para o acervo, mas serve aqui de inspiração lembrar as metáforas usadas por leitores apaixonados. Os livros são chamados de amigos constantes, sábios conselheiros, de flores perfumadas, de remédios eficazes, de alimento saudável, de amantes, de orientadores, de asas, de navios e, de modo especial, são vistos como professores.

Nós, professores, precisamos de professores que nos ensinem a ensinar. Os livros têm essa capacidade. Um poema nos ensina a ver para além das coisas opacas. Um romance nos ensina a redimensionar os dramas pessoais. Um ensaio filosófico nos torna mais reflexivos, mais ponderados. Uma biografia nos leva a compreender o valor inestimável de uma única vida. Um livro de história nos dá acesso à memória humana. Enfim, não tem fim a capacidade de um livro nos ensinar.

De livro em livro, construímos uma biblioteca. Que reflete nossos gostos, preferências e, sobretudo, aponta para o nosso futuro. Na biblioteca pessoal de um professor, vemos o futuro desse profissional.

E o futuro da educação nacional.

*Gabriel Perissé (www.perisse.com.br) é doutor em Filosofia da Educação (USP), pesquisador do NPC - Núcleo Pensamento e Criatividade

segunda-feira, 30 de maio de 2011

A influência das práticas de leitura na formação de leitores

Matéria publicada em Publicada: 25/08/2008

Por mais que se tente explicar por que o brasileiro lê muito pouco, as justificativas não são simples. Conseqüentemente, qualquer ação que possa incentivar crianças, jovens e adultos a ler mais requer uma análise profunda do atual cenário educacional. Mas uma coisa parece estar clara: se não existe motivação para desfrutar o prazer da leitura, então é preciso transformar a relação que as crianças têm com o livro para incentivar a formação de leitores. "A leitura deve ser fonte de conhecimento, mas também é fonte de emoção, de prazer e de lazer", diz Maria Alice Armelin, coordenadora do Entre na Roda do Cenpec e co-autora dos materiais didáticos do projeto, cujo foco é a formação de orientadores de leitura.

Diante desse contexto, um dos desafios é formar, de fato, pessoas que praticam a leitura e não apenas sujeitos que sabem decifrar o código da escrita. Ou seja, essa relação estritamente escolar e obrigatória que boa parte das crianças têm com a leitura precisa ser complementada com a sua prática cultural e social.

Dois atores são fundamentais para despertar nas crianças o prazer pela leitura: a família e a escola. A mãe, como maior influência na formação de leitores, deve cativar os filhos para desenvolver esse gosto. "É mais fácil que uma criança se torne leitora se ela crescer numa casa em que as pessoas manuseiam livros e lêem. Além disso, ao ler ou contar histórias, os pais estreitam vínculos com os filhos", explica Maria Alice. Por outro lado, dos 4,7 livros per capita que o brasileiro lê em um ano, 3,4 são livros didáticos ou indicados pelo colégio, o que indica que a escola pode e deve tirar proveito desse protagonismo para que crianças e jovens desenvolvam uma relação mais rica e diversa com a leitura.

Formação de professores e mediadores de leitura

Cientes de que, ao lado da família, a escola ocupa papel central para a formação de leitores, o MEC e as secretarias estaduais e municipais de educação passaram a formular políticas públicas para combater essa defasagem nos índices de leitura. Em 2000, o MEC criou o Profa, um programa de formação de professores alfabetizadores com foco bastante acentuado nas práticas de leitura.

De modo semelhante, outras iniciativas foram surgindo pelo país, como o projeto Ler e Escrever, da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo, que além de estabelecer as orientações didáticas para a prática de leitura, procura aproximar o trabalho dos diretores e coordenadores das escolas. "Uma gestão acaba em quatro anos, por isso é preciso dar autonomia e segurança aos quadros intermediários, às diretorias de ensino e aos supervisores para que eles possam dar continuidade ao trabalho", explica Claudia Aratangy, diretora de Projetos Especiais da Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE) e uma das coordenadoras do Ler e Escrever.

Segundo Maria Alice, essa aproximação com os gestores é fundamental para conscientizá-los da importância das atividades de leitura em sala de aula. "Muitas vezes, essas atividades são preteridas em função da necessidade de ensinar conteúdos específicos da disciplina, como o plural, o verbo etc. Mas a leitura permite assimilar esses mesmos conteúdos de forma viva e agradável, sem o peso de responder exercícios maçantes", conta.

Além do trabalho com professores e gestores, realizado por meio de parcerias com secretarias de educação e cultura, o Entre na Roda não se limita à escola e é voltado para educadores em geral, com diferentes níveis de formação, incluindo voluntários que realizam rodas de leitura em praças públicas, ONGs, hospitais e até penitenciárias. A idéia é que eles também atuem como mediadores, estimulando a leitura por meio de diferentes gêneros e autores. "Após participar de uma formação do projeto, uma bibliotecária de São Carlos expôs os livros de um determinado autor, fornecendo informações sobre sua vida e obra na biblioteca. Com isso, ela ampliou as retiradas de livros de 338 para 1447 naquele mês", conta Maria Alice.

Cativando os leitores

Para incentivar o debate sobre como os livros devem ser utilizados pelos professores, Claudia Aratangy participou da 20ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, apresentando a palestra "Livros na escola: basta para formar leitores?", que, como ela mesma ressalta, trata-se de uma pergunta retórica: é claro que não é suficiente. "Os livros ficam guardados na escola ou são colocados em salas de leitura pouco freqüentadas, o que dificulta o acesso dos alunos", diz. Ela não só propõe que os professores leiam para os alunos todos os dias, como enfatiza a necessidade de uma mudança nas práticas de leitura. "É preciso compartilhar com os alunos os efeitos que os textos produzem e retratar a beleza de certas expressões ou fragmentos da história. Ao explicitar essas passagens estamos ensinando o que é ser um leitor".

As rodas de leitura propostas pelo Entre na Roda, seja dentro ou fora da escola, seguem o mesmo princípio e procuram estabelecer uma relação que extrapole o simples ato de abrir um livro, com uma conversa anterior e outra posterior à leitura. "A contextualização do que se lê é muito importante para destacar aspectos interessantes do texto e do autor. Criar um clima relacionado à história é uma forma, entre outras, de sensibilizar o leitor para que ele tenha interesse em ouvir ou ler o texto. Depois, o texto dará elementos para a troca de idéias e a reflexão sobre os temas abordados. Isso ajuda a criar um vínculo e uma interação com o grupo", detalha Maria Alice.

A prática social e cotidiana da leitura pode ser estimulada com diferentes textos, adequando a modalidade aos propósitos específicos. "É preciso dialogar com o texto. Pode-se pegar o jornal para comentar as manchetes e as legendas ou estudar por que os textos publicitários utilizam o verbo no imperativo", sugere Claudia. Na opinião de Maria Alice, é necessário ampliar o repertório de leitura e reduzir a influência exclusiva do livro didático, que, muitas vezes traz apenas fragmentos de um texto. "A diversidade é importante para formar o leitor, já que abre diferentes portas de entrada para o mundo da leitura. Os gibis podem ser um bom começo, já que clássicos como Don Quixote são publicados em quadrinhos e podem estimular a criança a ler a obra original no futuro."

Fonte: Cenpec

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Construindo o Saber

O ato de ler pertence aos elementos essenciais do universo. Segundo Paulo Freire, todos somos leitores e só a partir dessa certeza é que tudo o mais no mundo cria-se e recria-se. Através da leitura, o homem forma conceitos e questiona sentidos, generaliza palavras e particulariza idéias, comunica verdades e desconstrói hipóteses.

Sem a leitura, nada no universo da linguagem é possível, e “tudo” só é possível pelo viés do universo da linguagem.

Quando um professor conta histórias em sala de aula, ele consegue levar ao seu aluno. Um dos elementos mais necessárias ao desenvolvimento do ser humano: a ação de criar, recriar, imaginar, ir além do real e conseguir ser mais sensível, mais feliz. Na verdade, todo professor deve ser um leitor, pois só assim poderá auxiliar na formação de leitores.

A seguir, sugerimos, através do texto de Linda Campbel “alguns tópicos” que servirão à reflexão sobre o assunto ora abordado.

Os professores como contadores de histórias

Quando os recursos não estão prontamente disponíveis, ou quando um professor deseja explorar o conteúdo do ensino de várias maneiras, contar histórias oferece uma opção que encanta tanto ouvintes jovens quanto adultos. Qualquer assunto ou tema adquire vida quando é narrado como uma história. Além disso, pessoas de todas as idades acham mais fácil reter uma informação quando ela é codificada em uma história. Mesmo que muitos entre nós aleguem não ser contadores de histórias, todos realmente o somos! Cada um de nós tem histórias de sua vida que gosta de compartilhar, muitos gostam de contar piadas, narrar sonhos ou até fazer “fofoca” sobre os outros - uma prática que pode ser a base para futuros contos populares ou lendas.

Histórias Temáticas

De onde podemos extrair histórias para a sala de aula? De nos-sas próprias experiências de vida. A lembrança de suas próprias reações quando criança ao se deparar com as disciplinas escolares pode proporcionar ao professor histórias da vida real para compartilhar com os alunos que estão aprendendo um conteúdo semelhante. Reelaborar um conteúdo temático como uma história é outra opção que é mais fácil do que de início pode parecer. Um enredo pode ser rapidamente criado identificando-se os personagens principais e algum desafio com os quais eles se confrontam. Os professores podem refletir sobre o conteúdo que planejam ensinar e considerar quais personagens e enredo aparecem como possibilidades para a narração de histórias. Além disso, os alunos estão quase sempre ansiosos para criar e contar histórias que incorporem o conteúdo escolar.

As Dimensões Culturais da Narração de Histórias

Contar histórias é também uma maneira poderosa de proporcionar aos alunos um insight sobre a história e sobre culturas diferentes. Os alunos podem interessar-se por saber que a narração de histórias é mais antiga do que a história escrita. Antes da leitura e da escrita serem comuns, as narrativas transmitiam a história oral de uma cultura - incluindo as esperanças, os medos, os valores e as realizações de seu povo.

Por exemplo, durante a época da escravidão nos Estados Unidos, as histórias assumiram também um outro propósito. Como os escravos não tinham permissão para se reunir em grupos com mais de cinco pessoas, nem falar ou escrever em seus idiomas africanos nativos, nem escrever em inglês, eles inventaram histórias de animais para criar um sentido de comunidade que lhes era negado. O animal que escolheram para muitas de suas histórias foi o coelho - um ser tão impotente quanto os escravos, mas que também sabia de tudo o que acontecia a seu redor, embora por necessidade per-manecesse silencioso. O coelho chamava-se Coelho Brer. Escutando as histórias do Coelho Brer, os alunos podem desenvolver empatia com os escravos que o criaram como personagem central do seu folclore.

Recursos Multiculturais da Narração de Histórias

Há muitos recursos disponíveis para o professor que deseja apresentar os alunos a outras culturas, em parte contando histórias. Quando são contadas histórias multiculturais, os professores podem pedir aos alunos que escutem e reúnam informações sobre várias culturas. Depois de escutar uma história, os professores e os alunos podem discutir a estrutura e a sua mensagem, além de suas implicações culturais. As sugestões propostas incluem:

Qual é o local da história?

Que valores a história transmite?

Como a linguagem é usada na história?

A história reforça alguns estereótipos?

A história diminui alguns estereótipos sobre essa cultura?

Os bibliotecários da escola e do município geralmente conhecem muitos recursos para a narração de histórias e estão prontos para identificar histórias para acompanhar qualquer estudo cultural.

Os alunos como contadores de histórias

Alguns alunos irão alegremente apresentar-se como voluntários para contar histórias para os colegas. Outros acharão a idéia assustadora. Escutar histórias envolve várias habilidades de escuta, enquanto contar histórias requer habilidades lingüísticas. Contar histórias, uma forma divertida e importante de comunicação lingüística, ensina aos alunos o ritmo, o tom e as nuances da linguagem. Os educadores interessados em estimular a narração de histórias em suas salas de aula podem considerar as seguintes diretrizes:

Diretrizes para a Narração de Histórias:

1. Exemplifique você mesmo a narração da história.

2. Identifique contadores de histórias locais para visitar sua classe. Você pode descobrir se há uma associação de contadores de histórias perto de você ou talvez, como na Filadélfia, um contador de histórias oficial da cidade.

3. Ajude os alunos a encontrarem histórias - a partir do conteúdo das aulas, de sonhos, acontecimentos familiares ou escolares, histórias que eles já conhecem, antologias ou entrevistas com pessoas mais velhas

4. Ensine aos alunos algumas habilidades da narração de histórias, tais como:

. começar com uma abertura interessante;

. não aumentar muito o número de personagens;

. certificar-se de que a história contém imagens que os ouvintes podem “ver” ou imaginar;

. estimular o uso de comparações e metáforas;

. animar os pontos-chave da história com efeitos sonoros, voz, gestos e movimentos corporais;

. manter a voz clara, expressiva e compassada;

. fazer contato visual com os ouvintes;

. considerar se deve ou não haver participação dos ouvintes.

5. Praticar a narração de histórias com toda a classe. O professor pode selecionar uma história e lê-la parte por parte, para a classe, pedindo aos alunos que façam sugestões pra torná-la mais viva e interessante. A classe pode ser dividida em grupos, e pode ser designada a cada grupo uma parte da história para ser aprendida e depois contada em seqüência.

6. Para contadores de histórias iniciantes, pode-se aliviar a ansiedade fazendo os alunos contarem suas histórias para pequenos grupos de quatro ou cinco colegas, em vez de contá-la para a classe toda. Os alunos que se oferecem como voluntários podem contar suas histórias para grupos maiores. Contar histórias para crianças menores, em geral, também alivia a tensão desnecessária..

CAMPBELL, Linda; CAMPBELL, Bruce; DICKINSON, Dee. Ensino e aprendizagem por meios das inteligências múltiplas. 2. ed. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.

Fonte: Construir Notícias

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Diálogo entre cultura impressa e digital responde ao desafio da formação do leitor no século XXI

29/7/2010 - Professores de ensino fundamental e médio vivem em todo mundo talvez o maior desafio da sua história: formar leitores em uma sociedade que sofreu a mudança drástica da cultura impressa para a digital e do paradigma de leitura para o de navegação. Como a escola pode formar leitores nessa contemporaneidade, quando impera uma cultura à qual os professores aderem como emigrantes, enquanto os alunos são os nativos? E como fazer desse leitor.com recém-inventado, esse adolescente zapper que ziguezagueia como um pássaro, um autor intérprete crítico e produtor de sentidos? E ainda: como potencializar as possibilidades de interatividade e multilinearidade da internet em favor da apreensão de saberes complexo em uma sociedade lan house, onde reina o sensorial, o efêmero e a superficialidade dos chats e jogos virtuais?

A busca de respostas a esse desafio reuniu três educadoras em torno da conferência “A formação do leitor no século XXI”, realizada na tarde de quarta-feira (28/7), terceiro dia da 62ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Pesquisa e Ciência, no campus da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). As pesquisadoras Maria Zaíra Turchi, da Universidade Federal de Goiás (UFG), e Marly Amarilha, da UFRN, apresentaram reflexões e saídas para esse impasse, tão urgente e emergente a ponto de constituir grupos de estudos e uma linha de pesquisa dentro da SBPC.

Alice Aurea Penteado, professora da Universidade Estadual de Maringá (UEM), complementou a discussão apresentando os critérios de compra de livros dentro do Edital de Convocação para o Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE 2011), que primam pela oferta de uma linguagem atraente para os jovens. O diálogo relacional entre gerações e linguagens diferentes, a postura do professor-aprendiz e a convicção de que nenhuma forma de leitura é superior à outra são posições compactuadas pelos palestrantes como ponto de partida para o enfrentamento da questão contemporânea da leitura.

O professor precisa suspender o preconceito contra a cultura digital e imergir no universo dos adolescentes para criar possibilidades de formação do gosto pela leitura, como Maria Zaíra. Mas também não deve se sentir inferiorizado diante das novas tecnologias e nem se acuar como se não tivesse, com sua experiência letrada e impressa, mais contribuição a dar para a formação desse leitor zappeante, conforme alertou Marly Amarilha. É justamente na tangência entre as duas culturas – digital e impressa – que reside a riqueza do momento contemporâneo e é nessa troca que se abrem novas possibilidades de ensino, como pode se abstrair do debate.

Valendo-se do conceito de hipermodernidade do filósofo Gilles Lipovetsky, Zaíra lembrou que a internet é a configuração simbólica mais poderosa da hipermodernidade, caracterizada pela hiperprofusão de imagens. Na hipermodernidade, as esferas da vida humana vivem uma escalada ilimitada em busca da velocidade e da visibilidade. Como nunca antes, a sociedade de consumo se constitui pelo signo do excesso e da exacerbação da mercadoria, marcas e serviços. Os comportamentos e os adolescentes estão imersos nessa engrenagem que coloca a própria escola em crise, uma vez que as mídias são muito mais eficazes do que ela na multiplicação dos gestos, dos comportamentos, dos valores e das linguagens, lembra a estudiosa.

Nessa sociedade de explosão de linguagens, o papel da escola é muito mais complexo, porque não se trata apenas de ensinar a ler na concepção clássica, mas de “ler além da linguagem verbal, a visual, a auditiva, olfativa, gustativa, bem como os gestos, as cores, a moda, o comportamento”. Citando Décio Pignatari, no capítulo “Você sabe ler objetos?”, do livro Semiótica e Literatura, ela enfatiza a necessidade de a escola perceber-se no tempo em que a explosão de informações seguiu-se a explosão de linguagens, na televisão, no cinema, no trânsito, na arquitetura, na publicidade, na informática, na literatura, nos códigos, enfim, da Babel cotidiana. “Consumir é comunicar-se. Não há dúvida de que a inserção do jovem no contexto histórico depende não apenas da sua capacidade de leitores de palavras, mas da sua destreza enquanto leitores de múltiplas linguagens”.

Na cena presente, a compreensão de uma gramática das imagens como estratégia de leitura é tão importante quanto a alfabetização para ler o código escrito. Navegar no espaço virtual exige dos leitores formados em outra cultura, em outro ritual, uma nova compreensão e uma nova atitude, defende. “Talvez nós professores estejamos precisando de um explicador”, diz ela, referindo-se metaforicamente à bela passagem de A linguagem secreta do cinema. Nessa obra, Jean-Claude Carrière conta que, no início do século XX, era comum nos cinemas, bem ao lado da tela, a presença de um funcionário para explicar ao público o que estava acontecendo no filme. A figura do explicador só desaparece em 1920, quando bem ou mal o público já estava alfabetizado na linguagem cinematográfica.

A formação do leitor contemporâneo deve considerar a sua participação cotidiana nas novas mídias digitais, marcada pela interatividade, acrescenta a conferencista. Ao unir, de modo sequencial, fragmentos de informações de naturezas heterogêneas, o leitor experimenta na sua interação com o potencial dialógico da hipermídia um tipo de comunicação multilinear em que está livre para estabelecer sozinho a ordem textual ou para se perder na desordem das partes. “O navegador coloca em ação habilidades de leitura distintas daquelas empregadas pelo leitor de um texto ou livro impresso”. Esse leitor imersivo atua como editor ao escolher o que ler. Nesse ponto, a professora da UFRN, Marly, complementa que, tão importante quanto ensinar a ler é ensinar a ter critérios de escolha de fontes de leitura no mundo virtual.

Zaíra propõe ainda que a escola conheça as possibilidades das novas formas de leitura interativa, sobretudo a dos blogs de escritores, que permitem a interatividade na construção da narrativa. Segundo sua pesquisa sobre a participação de adolescentes em blogs de autor, essa escrita é marcada pela brevidade dos textos, escritos em linguagem coloquial, com a grafia correta, mas sem o uso constante do internetês, como fazem os leitores de outros blogs. O prazer reside no uso das possibilidades interativas, na liberdade do comentário, da interferência imediata no texto, alterando a sequência, as conexões entre os personagens ou mesmo reescrevendo as histórias, como em um jogo textual. A popularização do escritor nos blogs, com sua presença na tela ou nas conferências virtuais, é capaz de alterar o padrão de consumo intelectual e interferir nas escolhas de livros dos leitores, acredita.

Citando a pesquisadora argentina Beatriz Sarlo, defende que a escola beneficie-se do que seus alunos aprendem em outros lugares e aproveite as habilidades hipertextuais de leitura. Mas isso “até certo ponto”, como diz Sarlo. É que, segundo a autora, essas habilidades, caracterizadas pela rapidez e o imediatismo, pela emoção do jogo, mas também pela brevidade e pelo desinteresse no pormenor ou nas entrelinhas, não fornecem capacidades suficientes para a aquisição de outros, tais como precisão verbal, interpretação e produção de argumentações escritas. “Ou seja, são insuficientes para transformar um adolescente em leitor e produtor de textos”.

É aí que entra o professor emigrante como colaborador do nativo, na nomenclatura proposta por Marly, aprendendo e ensinando com sua herança do universo impresso, não mais como um tiranossauro autoritário remanescente de eras passadas, mas como o elo de ligação do mundo da escrita com o mundo presente. Esse professor, que em um futuro próximo talvez nem receba mais esse nome, ao mesmo tempo estrangeiro e habitante dessa plataforma de bits e vídeo-games, ocupa o entrelugar privilegiado para fazer o corte na adesão eufórica e acrítica às novas tecnologias e mostrar que a própria escrita engendrou a internet não como um artefato alienígena ou futurista, mas como um invento tecnológico e cultural capaz de ajudar a construir sujeitos históricos mais livres.

Fonte: SBPC

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Projeto Entre na Roda visa a capacitação de professores

Professor que não lê não consegue passar para o aluno o prazer da leitura. O Entre na Roda permite que os professores reaprendam a gostar dos livros.

O Entre na Roda é coordenado pelo CENPEC - Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária. Participam professores de escolas públicas, bibliotecários e voluntários.

"Se uma criança lê e não entende o que ela lê, ela não pode ir bem na aula de português. Nas outras matérias também porque ela não consegue entender o exercício de matemática, não consegue entender uma prova de ciências", afirma Conceição Mirandola, diretora da Fundação Volkswagen.

São oito encontros, de oito horas cada um. Quem explica a oficina é América Marinho, formadora do CENPEC. "Cada oficina, cada encontro, a gente enfoca um gênero. A gente trabalha com conto literário, com novela, romance, teatro, poesia, jornal e com textos de divulgação científica, que é a sétima oficina. A oitava é uma mostra dos trabalhos, do que eles fizeram nas escolas ou nas instituições em que eles trabalham."

O programa já capacitou mais de 7,5 mil professores de Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro e de São Paulo. "Uma vez formado, uma vez preparado, durante toda a vida útil dele enquanto professor esteja naquele município onde ele recebeu a formação, ou se ele está concursado em outro município, ele leva o conhecimento”, completa Conceição.

A professora Ana Carolina Escobar aprova o projeto. "Eu queria passar o encantamento que já veio da minha família, com aqueles primeiros contatos com livros e todo aquele encantamento, e eu percebi, na primeira escola que eu entrei que as crianças não tinham contato com o livro, e que a biblioteca era uma sala trancada."

"Nós precisamos também que os nossos professores sejam cada vez mais bons leitores”, diz Vanda Romanha, professora.

"Eu acho que a gente tem que deixar de apresentar a leitura como uma obrigação, como uma tarefa. Muitas vezes, você dá um autor, um livro fantástico, só que você apresenta um questionário. Então, ao invés de você absorver aquela arte, aquela criação, aqueles personagens, aquela história, em outro momento, em outro contexto cultural, em outro país, não, você tem um questionário pra responder de que escola literária é aquele autor, o que determinado personagem representa dentro da história... Então o jovem ao invés de ser despertado pra isso, ele passa a ter aversão”, explica Zoara Failla, coordenadora do Instituto Pró-Livro.

No segundo encontro, os professores ganham um baú de livros. Cem títulos para o ensino fundamental, e duzentos para a educação infantil. "Sentir prazer de fato. De pegar, de ler um livro, e ver como um tesouro, que é o que a gente fala do baú, que é o nosso tesouro. Identificar e reconhecer. Segundo, pela própria escrita repertoriar as crianças, elas entenderem, compreenderem o quão importante é essa leitura, não só hoje como até o resto da vida delas”, fala Vivian Netcer, professora.

“Para os meus próprios alunos, foi riquíssimo, porque eu já tenho alunos que estão escrevendo o seu poema. Eles não têm nem sete anos ainda e já fazem poemas. Foi uma grande satisfação”, enfatiza Fátima Pazzini.

Edição do dia 09/10/2010
Fonte: Ação

Mais sobre o Projeto Entre na Roda

O que faz

O Projeto Entre na Roda, em duas modalidades Educação Infantil e Ensino Fundamental, oferece apoio a secretarias municipais, estaduais e a instituições para formar orientadores de leitura, entre educadores, bibliotecários e voluntários da comunidade, para que atuem em diferentes espaços – escolas, bibliotecas, associações, hospitais, asilos etc. –, estimulando o gosto pela leitura.

Com quem faz

O projeto é uma iniciativa da Fundação Volkswagen e integra o Programa Território Escola. O Cenpec elabora e distribui os materiais de apoio, faz o acompanhamento das ações nas escolas e em outros espaços de leitura onde o projeto foi implantado e encarrega-se do programa de formação para profissionais e voluntários que exercem o papel de orientadores.

Algumas fotos do Projeto Entre na Roda


Vídeo sobre o Projeto Entre na Roda


Fonte: Cenpec

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Formação literária do professor: nunca é tarde para gostar de ler

Muitos professores brasileiros não tiveram a chance de construir uma história como leitores de literatura. Mas sempre é tempo de criar o hábito de leitura e também inspirar seus alunos

Foto: Omar Paixão

Você terminou de ler um romance. Chega à escola e corre para compartilhar a experiência com os colegas. Fala sobre os conflitos do personagem (sem entregar o fim da história, é claro) e comenta que já viveu vários dos questionamentos narrados na história - razão pela qual a trama prendeu a atenção do começo ao fim. Outro professor aproveita para dizer que já leu algo do mesmo autor - e a conversa continua, animada, até a hora de a aula começar.

"Um mesmo livro nunca é o mesmo para duas pessoas", já disse o poeta Ferreira Gullar. Essa experiência, ao mesmo tempo pessoal e coletiva, é tão rica porque nos permite entrar em contato com uma realidade diferente da nossa - e, graças a isso, (re)construir nossa própria história dia após dia.

Porém a realidade de grande parte dos docentes brasileiros está bem longe disso. Muitos não tiveram acesso a obras literárias em casa nem construíram práticas sociais de leitura (na Educação Básica e nos cursos de graduação universitária). "O professor médio brasileiro do ensino público teve pouco acesso e estímulo a ler. Por isso, conhece poucas obras de literatura contemporânea e clássica", afirma Zoara Failla, gerente executiva de projetos do Instituto Pró-Livro. Então, o que fazer para transformar essa pessoa que tem pouca familiaridade com a literatura em um agente disseminador de boas práticas leitoras? O mais importante é saber que nunca é tarde para se deixar encantar pela literatura e começar uma trajetória como leitor - ou, quem sabe, ampliar ainda mais os conhecimentos sobre os livros. Vamos nessa?

Por que ler

O leitor literário lê por razões variadas: rir, refletir, investigar, relembrar, chorar e até sentir medo. Lê porque mergulha no que autores e personagens pensam e sentem - no passado, presente ou futuro, em lugares distantes ou que nem sequer existem. Lê porque as narrativas literárias o ajudam a refletir sobre a vida e a construir significados para ela.

Como virar um leitor

Não existe um caminho único para se tornar um leitor literário. Você pode começar por textos simples do ponto de vista linguístico e depois passar para os mais complexos - ou iniciar por temas próximos e partir para os mais distantes. "E há os que preferem os grandes desafios desde o princípio porque sabem que eles têm algo a oferecer, nem que seja a estranheza", afirma Ana Flávia Alonço Castanho, selecionadora do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10. Um bom caminho para alavancar o gosto pelos livros é procurar uma comunidade de leitores (podem ser os professores da escola, os amigos, os parentes - o importante é encontrar gente que goste de ler). Em Andar entre Livros, Teresa Colomer, professora de Literatura na Universidade Autônoma de Barcelona, na Espanha, afirma que "ao compartilhar as impressões sobre uma leitura passamos a saber os significados que a obra tem para os outros, o que enriquece nosso repertório". Outra vantagem desse diálogo permanente é a troca de indicações de textos e autores.

O livro (e outras linguagens)

Para os adultos que estão se iniciando no mundo da literatura, perceber as relações entre os livros e outras linguagens é também um caminho interessante. Ver um filme, ouvir uma música ou assistir a uma peça de teatro baseados em obras literárias e depois ler o texto original - ou vice-versa - é ótimo para entender como uma história é contada de maneiras diferentes. Cada formato tem uma especificidade e prioriza determinados elementos, como a descrição do personagem ou do cenário. É inevitável fazer algumas perguntas. O que mudou do texto para a encenação? Como o cinema traduziu em imagens uma paisagem antes descrita só em palavras? E os personagens, como foram retratados? Isso ajuda a despertar o senso crítico e, claro, querer ler mais.

Foto: Omar Paixão

Quando ler

A leitura deve ser uma atividade cotidiana, mas não precisa ter hora marcada nem deve se restringir a obras novas. Que tal retomar um livro que foi difícil de ler (ou aquele que você adorou)? Em determinada época da vida, um título pode parecer complexo ou não emocionar e, em outras, ganhar novos sentidos. Já no caso dos livros preferidos, nada melhor do que sentir novamente as sensações que a obra provocou, reler os trechos que mais gostou e relembrar as razões que o levaram a eleger aquele escritor como uma referência.

Onde ler

A leitura é um hobby e cada pessoa conhece o melhor lugar para se entregar aos livros. Há quem goste de ler deitado na cama, antes de dormir. Ou ler no ônibus, a caminho do trabalho. Outros preferem o sofá da sala. E você?

O que ler

Muita gente diz que o bom leitor é aquele que lê os grandes clássicos da literatura. Bobagem. Um leitor competente lê de tudo e passeia por gêneros variados, trilhando o próprio percurso. "Como diz o poeta brasileiro José Paulo Paes, devemos ler desde pornografia até metafísica", argumenta Heloisa Ramos, especialista em Língua Portuguesa e formadora do projeto Letras de Luz, da Fundação Victor Civita (FVC). Os best-sellers, por exemplo, recorrem a padrões narrativos simples e trazem certo conforto. "É por isso que tanta gente gosta dessas obras", afirma Celinha Nascimento, mestre em Literatura Brasileira e assessora de escolas públicas e particulares. "Mas não tenha medo de explorar outras possibilidades", sugere (confira na próxima página sugestões para aprofundar-se no mundo da literatura). Aguns livros exigem mais, pedem esforço intelectual, persistência e concentração. Em troca, costumam nos recompensar mais. "Ler Machado de Assis pode não ser fácil, mas não há dúvida de que proporciona muito mais possibilidades de reflexão", afirma Ana Flávia. Só não deixe que tudo isso vire sinônimo de sofrimento. "Fica mais fácil aceitar os percalços da leitura quando encontramos alguma satisfação", argumenta Celinha. Isso vale para você e para seus colegas. E também para seus alunos. Pode parecer difícil, mas basta dar o primeiro passo - ou melhor, abrir o primeiro livro. Boas leituras!

Publicado em Agosto 2010

Fonte: Nova Escola

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Professores devem ser incluídos em programas de leitura

Secretária do MEC defende idéia para sanar as dificuldades de leitura e escrita dos estudantes brasileiros

Priscilla Borges 22/07/2010

Os últimos dados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e da Prova Brasil, divulgados pelo Ministério da Educação, mostram que os estudantes brasileiros possuem dificuldades em ler e escrever, que persistem até o fim da educação básica. As notas obtidas pelos jovens em língua portuguesa e redação – em escolas públicas e privadas – são mais baixas que as de matemática ou ciências, por exemplo.

Mudar essa realidade, na opinião da secretária de Educação Básica do MEC, Maria do Pilar Lacerda, exige posturas diferentes não só dos alunos. Os professores precisam ser os grandes alvos das políticas de incentivo à leitura. “O problema é que as pessoas lêem pouco. As famílias da maioria dos brasileiros não são letradas e escolarizadas. Por isso, o hábito de leitura tem de ser desenvolvido pela escola. Inclusive o professor deve ser incentivado”, ressalta.

Pilar conta que, em reunião com 1,5 mil professores da cidade de Florianópolis nesta semana, ela fez um teste para checar a escolaridade deles e das famílias. Perguntou a todos, durante a palestra, quantos tinham curso superior. Ela diz que 98% levantaram a mão em resposta afirmativa. Depois, ela perguntou quantos tinham pais e mães com diploma de ensino médio. Dez por cento responderam afirmativamente. Por fim, perguntou a mesma coisa sobre os avós. Nenhum deles levantou a mão.

“O curso superior representa um salto gigantesco para essas pessoas. Mas elas também não foram criadas com hábitos de leitura. Por isso, investimos esse ano em um programa para criar bibliotecas para os professores. Queremos que cada biblioteca escolar tenha uma estante dedicada ao professor. O sucesso dos estudantes depende de um projeto consistente, que envolva toda a escola e induza até o professor a ler”, destaca.

Para a secretária, a Olimpíada Brasileira de Língua Portuguesa também pode contribuir muito para o aprendizado dos alunos na área. Além de estimular os jovens a ler, o evento faz com que os participantes aprimorem a escrita. “No ensino médio, os estudantes precisam saber argumentar para escrever. Elaboramos um jogo em que os professores e os alunos trabalham essa argumentação. Os professores recebem formação para ajudá-los”, diz.

Segundo Pilar, a leitura de estudantes e professores deve mesclar títulos clássicos da literatura com obras contemporâneas, quadrinhos, revistas, jornais e internet. O professor precisa ser o mediador entre os estudantes e as milhares de informações disponíveis atualmente.

“O papel do professor é mostrar para o aluno que os códigos que ele usa para conversar com amigos em ambientes virtuais, por exemplo, não pode ser usado em uma prova. Ele não pode ignorar essa parte da vida do aluno. Ele deve usar essas ferramentas de maneira transformadora. Por isso temos de qualificar o professor”, sentencia.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

V Seminário "O Professor e a Leitura de Jornal"


Seminário projeta a educomunicação

Encontro entre educadores em Campinas ratifica a necessidade de capacitar professores para trabalharem melhor com os veículos de comunicação

Ayne Salviano

Capacitar educadores capazes de trabalhar com a mídia para conseguir formar jovens produtores de conhecimento. Esse é o desafio e, ao mesmo tempo, a proposta firmada pelos participantes do 5o. Seminário Nacional “O Professor e a Leitura do Jornal – Educação, Mídia e Formação Docente”, realizadoentre os dias 14 e 16 de julho na Unicamp (Universidade de Campinas).

O evento foi promovido pela ALB (Associação de Leitura do Brasil), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Grupo de Pesquisa “Alfabetização, Leitura e Escrita” da Faculdade de Educação da Unicamp e a RAC (Rede Anhanguera de Comunicação).

A Folha da Região participou das conferências, mesas-redondas, oficinas e comunicações, além das reuniões extras da ANJ, entre os dias 13 e 16 de julho, para discussão e planejamento do Programa Jornal e Educação.

ÉTICA

Já na abertura oficial do seminário, no dia 14 pela manhã, durante a conferência “Ética e Multimídia”, o filósofo Mário Sérgio Cortella, doutor em Educação pela PUC/SP, ressaltou a necessidade do professor ter o que ele chamou de “humildade pedagógica” para continuar aprendendo sempre, especialmente com relação aos veículos de comunicação, suas ferramentas e plataformas.

“Para que serve a mídia?”, provocou a plateia. Para emendar: “A finalidade da mídia é ética, ela serve para evitar a nossa arrogância e soberba”, destacou. Por isso, para ele, os educadores precisam conhecer os fatos e dominar as novas tecnologias para poderem realizar melhor uma relação para a qual Cortella fez até um trocadilho usando os prefixos Doc (docente, aquele que ensina), Dic (discente, aquele que aprende) e Dec (que orna): “O que orna (dec) é o docente (doc) saber ensinar e conduzir para o discente (dic) poder realmente aprender”.

PROGRAMAÇÃO

O professor Carlos Eduardo Albuquerque Miranda, da Faculdade de Educação da Unicamp, proferiu uma conferência no dia seguinte (15) quando demonstrou trabalhos de audiovisual realizados pelos alunos do curso de pedagogia daquela universidade. Na sua opinião, os educadores formados com disciplinas inovadoras como a ministrada por ele terão mais possibilidades de transformar documentários e filmes em ferramentas importantes do ensino. Por este motivo, ele é a favor de uma grade curricular “mais moderna”.

O “pai da educomunicação”, professor Ismar de Oliveira Soares, da USP (Universidade de São Paulo) falou ao público no último dia do evento (16), e aproveitou para fazer propaganda do curso de licenciatura que aquela universidade vai oferecer a partir do ano que vem. Para ele, é impossível pensar na educação e na melhoria dos índices brasileiros sem incluir nos planos de ensino as diversas mídias disponíveis. De acordo com Ismar Soares, é preciso “trazer para a sala de aula o que os alunos já vivenciam fora dela”.

NOVIDADES

Nas mesas-redondas, educomunicadores como Wendel Freire (jornalista responsável pelo Programa Leitura e Educação no jornal O Dia, do Rio de Janeiro), Marco Silva e Edméa Santos trataram de educação, cybercultura e multimídia. A jornalista e professora Alexandra Bujokas de Siqueira (contratada da Unesco para elaborar projetos de mídia e educação) e Regina de Assis, exsecretária da Educação do Rio de Janeiro no governo César Maia, trataram sobre mídia e educação a partir de práticas e perspectivas de políticas públicas. E o autor Edvaldo Pereira Lima e Susana de Oliveira Dias, do Laboratório de Jornalismo da Unicamp, abordaram os temas jornalismo-reportagem, jornalismo literário e jornalismo científico.

Foram realizadas 10 oficinas que abordaram temas como o uso dos jornais nas salas de aula; a leitura dos diferentes tipos de mídia em sala de aula, a partir do celular; o blog como ferramenta na educação; a produção de audiovisual; a leitura crítica do Youtube; como os textos da mídia estão sendo aproveitados nas provas oficiais de avaliação; o vídeo e a rádio na escola; as histórias em quadrinhos, entre outros.

Aconteceram, ainda, mais de cem comunicações paralelas de estudantes, professores e pesquisadores de todo o país. Houve lançamentos de livros, rodas de autógrafos, sessões de cinema e exposições, com destaque para a “Exposição de Jornais e Revistas do Século XIX” realizada na Biblioteca Central da Unicamp.

A conferência de encerramento, no dia 16, foi feita pela psicóloga e escritora Rosely Sayão, colunista da Folha de S.Paulo, que traçou um perfil de quem são as novas crianças e adolescentes que desafiam os professores e os métodos tradicionais de educação hoje.

Para Norma Sandra de Almeida Ferreira, presidente da Comissão Organizadora, o evento precisa servir de divisor de águas na formação e prática docente. “Esperamos que a partir de agora, uma nova proposta seja pensada por todos nós”.


Sociedade se esforça para entender a mídia

De acordo com o professor Ismar de Oliveira Soares (USP), uma definição simples e direta da educomunicação aponta para um esforço sistemático que setores da sociedade voltados para a educação estão fazendo para ampliar as formas de expressão, garantindo, por exemplo, que novas gerações usem as tecnologias, não de forma competitiva e mercantil, mas em prol da cidadania.

“A educomunicação é o conjunto das ações voltadas a criar e consolidar – seja em uma empresa, um centro de cultura, uma escola ou mesmo na redação de um veículo de informação - ecossistemas comunicativos abertos e criativos, propiciados por fluxos cada vez mais democráticos de informação, carregados de intencionalidade educativa, tendo como objeto último a prática da cidadania”, ensina. Nesse sentido, um dos pilares da educomunicação é a responsabilidade social.

INÍCIO

A educomunicação vem se desenhando desde a década de 1970, representada pelo esforço da sociedade em se aproximar do mundo da comunicação para promover causas de seu próprio interesse. Na América Latina, especialmente, ficaram conhecidas as iniciativas dos grupos que passaram a utilizar os processos da comunicação, como o teatro, e os recursos da informação (pequenos jornais e emissoras comunitárias de rádio) numa perspectiva participativa, como sugeria o educador Paulo Freire.

O movimento ganhou respaldo da Unesco - no final da década de 1970 e início dos anos 1980 - que passava, nesse período, a discutir a urgência de se promover uma “nova ordem mundial da informação e da comunicação”, programa conhecido pela sigla Nomic.

Entre os anos de 1997 e 1999, a USP (Universidade de São Paulo) realizou uma pesquisa em 12 países da América Latina para identificar como estavam ocorrendo as práticas sociais na relação entre a comunicação e educação, envolvendo tanto os centros de cultura alternativos quanto a educação formal e a própria mídia. Estes resultados serviram de base para a elaboração do curso de licenciatura que será oferecido por aquela universidade a partir de 2011. As inscrições para o vestibular começam em agosto.

IMPACTO

“A educomunicação promove mudanças e não haverá melhoria na educação nos próximos anos se o sistema educativo não se preocupar com o universo da comunicação”, afirma o professor Ismar. Ele sugere que o sistema escolar “quebre resistências” e dialogue com os especialistas da área comunicativa.


ANJ promove cidadania pela leitura

OPrograma Jornal e Educação: Da Leitura à Cidadania da ANJ (Associação Nacional de Jornais) foi criado em 1992 com o objetivo de formar leitores críticos e autônomos. Também deseja fomentar o acesso à informação e a participação social, observados os valores da democracia e dos direitos humanos.

Hoje, aproximadamente 60 jornais ligados à entidade desenvolvem o trabalho em todas as regiões do País. São projetos voltados para a conquista da cidadania a partir do estímulo à leitura, melhoria da qualidade da educação e democratização do acesso à informação para todos os estudantes brasileiros, em todos os níveis.

Para a ANJ, a informação é capaz de gerar transformações sociais importantes, pois incentiva a reflexão sobre os processos de produção midiática, o que permite a criação de um senso crítico importante para os protagonistas sociais.
AÇÕES

As empresas de comunicação envolvidas no projeto distribuem jornais, promovem palestras, oficinas, cursos e eventos com profissionais da educação e da mídia, dentro dos conceitos da educomunicação. Pesquisa realizada pela ANJ entre 2008 e 2009 aponta que trabalhos planejados e sistemáticos conseguem atingir benefícios como a melhora do gosto pela leitura, ampliação do vocabulário, desenvoltura na produção de textos orais e escritos, melhora da argumentação, favorecimento do trabalho em grupo, aumento da imaginação, interpretação e criatividade além da facilidade de assimilação de conteúdos. A mesma pesquisa apontou que a utilização de jornais em sala de aula como complemento do livro didático tem reforçado a interdisciplinariedade e socialização entre conteúdos, professores e alunos.

ARAÇATUBA

A Folha da Região participa do Programa Jornal e Educação pelo 16º ano consecutivo. A empresa distribui gratuitamente um exemplar diário para as bibliotecas das escolas cadastradas - públicas e particulares – e lotes de 20 jornais por semana para utilização, pelo professor, em sala de aula.

Além disso, oferece curso de capacitação docente para que os profissionais possam trabalhar melhor com esta mídia em sala de aula. Em agosto, aproximadamente 30 professores da educação infantil da Secretaria Municipal da Educação vão receber os primeiros certificados. Ainda em agosto começa uma segunda capacitação para os professores municipais do ensino fundamental.

A Folha também recebe visitantes em passeios monitorados, quando os estudantes conhecem o processo de produção do jornal, além de promover concursos periódicos.

Matéria publicada em 22/07/2010

sábado, 19 de junho de 2010

Incentivo à leitura: Uma tarefa básica dos pais e um desafio aos professores

Para educadores, indicar os livros como fonte de conhecimento e opção de lazer é tarefa primária de pais e professores que, infelizmente, não vêm desempenhando suas funções satisfatoriamente. É preciso, ainda, entender que as novas mídias - como a internet e até mesmo os celulares - também podem ser vistas como meios de leitura

Julia Wiltgen

Se hoje o Brasil conta, segundo o IBGE, com uma taxa de analfabetismo de 10,4% entre pessoas com mais de 15 anos - o que ainda é um índice alto - o ensino deficiente é, também, um problema tão grave quanto a total falta de estudo. Um dos reflexos disso é a quase ausência de hábito de leitura entre os jovens em idade escolar e universitária, dizem especialistas. Para eles, se, por um lado, a prática não tem sido incentivada pela família, por outro, a escola não tem cumprido bem o seu papel, seja pela má-formação dos professores, seja pela má remuneração oferecida aos mesmos.


O presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Muniz Sodré, frisa que essa falta de hábito de leitura é uma realidade do Brasil, especificamente. “Os jovens brasileiros lêem uma média de 1,8 livro por ano, o índice mais baixo da América do Sul”. O professor chega a questionar o critério de aferição desse dado, considerando que leitura envolve também outras mídias. “O livro está perdendo a hegemonia como repositório do conhecimento. Quando se lê no computador, ou se vê um filme ou um videoclipe, também se está lendo. É preciso rever esse conceito. No entanto, a falta de leitura de livros é alarmante, de qualquer forma,” diz ele, numa referência a uma geração que, no lugar de livros, traz um mundo de informações embarcadas na tecnologia de um celular que cabe na palma da mão. Muniz crê que a formação do hábito da leitura começa em casa, quando os pais têm livros e estimulam os filhos, mas que essa é uma realidade da classe média. Portanto, o governo deve criar projetos para o incentivo à leitura. “Para as comunidades mais pobres, deveriam ser criadas bibliotecas portáteis. O governo também tem trabalhado, tentando baixar os preços dos livros e implantando bibliotecas. É preocupante que elas ainda estejam ausentes em 613 municípios brasileiros,” revela.

Família, escola e mídia jogam contra os livros

Para Leodegário de Azevedo Filho, presidente da Academia Brasileira de Filologia (Abrafil), pais e professores primários não estimulam a leitura desde a infância, mesmo a literatura infantil brasileira sendo bastante desenvolvida. “O hábito de leitura deve ser iniciado na infância. É preciso que a família e os professores tenham consciência de que a leitura é fundamental para a construção da personalidade da criança. O Brasil tem uma das melhores literaturas infantis do mundo. É só uma questão de os docentes organizarem grupos de leitura com bons autores, de acordo com a idade, para haver motivação”, acredita. O gramático e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), Evanildo Bechara, concorda, embora chame a atenção para outros fatores. Ele acredita que, sem dúvida, o hábito de leitura construído pela família influi no desempenho escolar e que, antigamente, mesmo a família mais humilde tinha livros em casa. “As crianças ganhavam livros de aniversário, e eu acho que hoje em dia isso pouco acontece”, opina. No entanto, ele afirma que os meios de comunicação e a escola também não têm colaborado. Os primeiros, em especial a televisão e a internet, são atrativos que não só não estimulam como desviam da leitura. “Não há mais, por exemplo, os suplementos literários nos jornais,” diz. Já a escola, não apresentaria mais as antologias dos grandes escritores, limitando-se a trabalhar trechos de obras e de reportagens. Para a jornalista, escritora e presidente do Conselho Estadual de Cultura, Ana Arruda Callado, a falta de leitura entre crianças e jovens se deve ao sistema de ensino deficiente. “O problema todo é do sistema de ensino. Forma-se um professorado que não lê desde pequeno e que não incentiva o aluno a ler. Afinal, se, por um lado, os livros são caros, por outro, as bibliotecas estão às moscas. Uma solução para isso seria uma reciclagem dos professores,” sugere. Numa visão ainda mais pessimista, o professor de Língua Portuguesa da Unicarioca, Sérgio Nogueira, afirma que o “brasileiro nunca teve o hábito de ler. E isso é cultural. Hoje em dia, é ainda mais difícil desenvolvê-lo, pois existem apelos mais atraentes que o livro, como a TV e a internet. Reverter esse processo seria conseqüência de uma reforma no sistema de ensino, sem falar numa mudança de mentalidade das famílias.”

Na vida profissional, conhecimento fragmentado

Entre as conseqüências da leitura e da escrita deficientes nos meios profissionais, talvez a mais marcante seja a fragmentação do conhecimento. Para o professor Sérgio Nogueira, isso acarreta uma dificuldade de compreensão mais ampla do mundo, o que é prejudicial em qualquer profissão. “A cultura adquirida pela leitura é mais sólida e permanente,” afirma. Ana Arruda Callado, entretanto, ironiza. “A falta de leitura seria prejudicial profissionalmente se alguém se importasse com isso, hoje em dia. Eu leio coisas absurdas nos meios profissionais. As pessoas estão relaxando, não se preocupam mais em escrever corretamente. E a tal ‘linguagem da internet’ também dificulta.” Mas complicações nos meios profissionais acabam sendo só a ponta do iceberg. O professor Muniz Sodré é categórico. “A consciência da cidadania passa pela educação formal.” Para ele, um analfabeto total ou alguém que não domine bem as habilidades de leitura e de escrita acaba se tornando um cidadão de segunda classe, marginalizado.

Caminhos para o incentivo da leitura e da escrita

Para estimular a leitura e a escrita entre crianças e jovens são muitos os caminhos. Ana Arruda Callado frisa a importância da produção textual em sala de aula e da prova discursiva em todas as disciplinas, inclusive com a correção do português pelo professor. Além disso, acha imprescindível a leitura dos grandes autores. “Alguém pode dizer que Guimarães Rosa é entediante? Ou Graciliano Ramos? Ou Machado de Assis, João Ubaldo Ribeiro, Antonio Callado?”, questiona. Já Muniz Sodré considera as novas tecnologias na hora de se criar o hábito de ler. “É preciso incorporar o computador, por exemplo, ao se orientar a leitura. E incluir na bibliografia não só os clássicos da literatura, mas também textos novos e mais divertidos, que despertem a curiosidade do jovem”, sugere. O presidente da Biblioteca Nacional reforça, ainda, que a escola e a universidade não devem ser voltadas apenas para o mercado, mas sim vistas como lugares de formação ampla. “É preciso haver a mentalidade de que estudar não é uma atividade com idade para acontecer, visando o mercado de trabalho. Deve ser uma prática para a vida toda,” completa.

Valorização do professor é um dos caminhos

Evanildo Bechara e Sérgio Nogueira enfatizaram, no entanto, que a desvalorização do professor, hoje, é um agravante para a falta de estímulo dos jovens para ler e escrever. Bechara afirma que o papel do docente não é só ensinar, e sim estimular a aprendizagem, para que o aluno vá além do que foi visto em sala de aula. Mas isso seria difícil, uma vez que o professor não teria nem tempo para se preparar. “A sociedade precisa dar tempo para o professor ler, se reciclar, preparar as aulas, escolher textos que despertem a curiosidade dos alunos. Esse profissional tem sido uma vítima, pois não tem tido tempo de se aperfeiçoar, devido à grande carga de trabalho, e recebe um péssimo salário, o que o desmotiva,” explica. Sérgio Nogueira vai além, afirmando que incentivar os jovens a ler e a escrever melhor não é algo que possa ser resumido a uma dica. “O professor não consegue estimular um aluno a ler o que ele próprio não conhece ou não gosta. Por outro lado, com uma remuneração tão baixa, o profissional não tem estímulo para melhorar sua formação,” declara.

sábado, 22 de maio de 2010

Entrevista com Mirta Torres, estudiosa da didática da leitura e da escrita

Pesquisadora argentina defende que, para trabalhar com produção de textual, os professores também precisam ser bons leitores e escritores

Ana Gonzaga

MIRTA TORRES
"Tal como um piloto de avião precisa acumular
horas de voo para ser hábil, um escritor precisa
somar muitas oportunidades de escrita." Foto: Axel Indik

Se ensinar as crianças a produzir textos de qualidade é um desafio, preparar os educadores para realizar essas tarefas é uma responsabilidade igualmente complexa e instigante. E é essa missão que Mirta Torres tomou para direcionar sua carreira. Especialista em didática da leitura e da escrita, ela já foi diretora de Educação primária de Buenos Aires e esteve à frente de vários programas de melhoramento pedagógico.
Atualmente, coordena um grupo que trabalha com a alfabetização de alunos que foram reprovados ou entraram na escola mais tarde e também integra o projeto Maestro + Maestro, que, prevendo dois professores para cada sala de aula, visa diminuir as dificuldades de estudantes do 1o grau, etapa em que se concentram os maiores índices de repetência no sistema argentino. Apesar da pouca afinidade com a língua portuguesa, Mirta garante que sua experiência pedagógica na Argentina pode ser bastante útil para os professores que lidam com produção de texto no Brasil. "Valem o raciocínio e as estratégias", diz ela, que concedeu esta entrevista por telefone à NOVA ESCOLA de sua residência, em Buenos Aires.

Como definir o que é uma produção de qualidade?
MIRTA O escritor tem de ter um propósito claro que o leve a escrever, tal como preparar um texto para o seminário ou um convite para uma festa.

O bom texto é aquele que cumpre o propósito de quem o produz. Para isso, o que é preciso ser ensinado aos alunos?
MIRTA Diversos aspectos colaboram para que sejam produzidos textos qualificados entre aceitáveis e bons. A turma toda deve ser incentivada a escrever de maneira habitual e frequente. Tal como um piloto de avião precisa acumular horas de voo para ser hábil, um escritor precisa somar muitas oportunidades de escrita. Na prática, quer dizer que os estudantes devem ser estimulados a elaborar perguntas sobre um tema estudado e resumir a matéria para passar a um colega que faltou. São escritos menos ambiciosos, porém também exigem escrever, ler e corrigir. Embora, em muitas situações escolares de escrita, o texto não tenha outro propósito a não ser o de escrever para aprender a escrita, é fundamental gerar condições didáticas com sentido social. Elas devem garantir a construção de produções contextualizadas, que ultrapassem os muros da escola, como uma solicitação por escrito para o diretor de um museu, de permissão para uma visita. Assim, antes de começar a escrever, aprende-se que é preciso saber quem é o leitor e as informações necessárias.

Por isso é ruim propor que se escreva sobre um tema livre ou aberto, por exemplo, "Minhas Férias"?
MIRTA A escrita nunca deve ser livre. Precisa ser produzida em um contexto, sempre. A psicolinguista argentina Emilia Ferreiro caracteriza muito bem essa questão. Ela diz que "não há nada menos livre do que um texto livre". Muitas coisas incidem sobre qualquer texto: os propósitos que guiam a escrita, os destinatários e a situação comunicativa. As crianças têm de aprender que o material deve se refletir no leitor.

Como os educadores podem ajudar os estudantes a refinar seus textos?
MIRTA Vou responder citando um caso de alunos de 7 anos que estavam reescrevendo a história de Pinóquio. Eles ditavam para a professora: "Pinóquio caiu no mar e a baleia o engoliu. A baleia ficou com Pinóquio em sua barriga durante três dias e depois de três dias jogou Pinóquio na praia". Ela leu em voz alta o parágrafo, comentou que algo soava mal e releu enfatizando o nome Pinóquio. "Fala-se muitas vezes o nome Pinóquio", concluíram. "Como poderíamos evitar isso?", ela perguntou. Os pequenos sugeriram correções: "Pinóquio caiu no mar e a baleia o engoliu. A baleia ficou com
ele em sua barriga durante três dias e depois de três dias o jogou na praia". Depois
disso, a professora sugeriu que o fragmento correspondente do conto fosse relido, o que resultou na troca de barriga por ventre. Para evitar a repetição da expressão "três dias", foram propostas algumas opções: "ao final desse tempo", "logo", "depois" e "então". As crianças escolheram "logo". Assim que se chegou à terceira versão, um menino disse que algo soava mal, repetindo a expressão que a docente já havia usado. Ele continuou: "Quando Pinóquio cai no mar, trata-se de uma baleia, uma baleia qualquer. Depois, quando ela carrega Pinóquio durante três dias na barriga, no ventre, então é a baleia porque não se trata de uma baleia qualquer". Então, foi reescrito: "Pinóquio caiu no mar e uma baleia o engoliu. A baleia ficou com ele em seu ventre durante três dias e logo o jogou na praia".

Como a professora fez para que os alunos incorporassem essa prática?
MIRTA Durante a produção, ela recordou com a turma como e por que havia sido substituído o nome Pinóquio a fim de que fosse elaborada uma regra geral, registrada no caderno: "Quando se fala em um personagem e o leitor sabe que se fala dele, não é necessário escrever seu nome. Podemos colocar 'o', 'a', 'os', 'as'".

Para escrever bem, é fundamental ser um bom leitor?
MIRTA Sim. A formação leitora ajuda na formação do escritor. A familiaridade com outros textos fornece modelos e conhecimento sobre outros gêneros e estruturas. Devemos ler como escritores: voltar ao texto para verificar de que maneira um autor resolveu um problema semelhante ao que temos em mãos, por exemplo. No mais, a leitura desperta o desejo de escrever. Cabe à escola abrir diversas possibilidades: oferecer títulos que fascinam crianças e jovens sem reforçar o que o mercado já oferece de maneira excessiva. Não precisa ofertar livros do Harry Potter, mas obras de Robert Louis Stevenson (1850-1894), como A Ilha do Tesouro, precisam ser recomendadas. Ambos são valiosos, só que, se os do segundo tipo não forem oferecidos, dificilmente os leitores vão decidir lê-los. Mas há que destacar que nem todo bom leitor é um bom escritor. Muitos de nós somos excelentes leitores, porém somente escrevemos de modo aceitável.

O que se espera de um educador como leitor?
MIRTA Ele deve desfrutar da leitura, estar atento aos gostos dos estudantes e considerar sua importância como uma ponte entre eles e os textos. Pequenas, as crianças não podem sozinhas e, já maiores, precisam de ajuda para acessar grandes obras, que não enfrentariam por iniciativa própria. É válido destacar que o docente que seja um bom leitor é capaz de descobrir a ambiguidade, a obscuridade ou a pobreza presentes nos textos e compartilhar isso com o grupo.

A partir de quando os alunos devem produzir textos?
MIRTA Essa atividade pode ser anterior à aquisição da habilidade de escrever. As discussões entre eles e o professor sobre "como fica melhor", "como se poderia dizer", "o que falta colocar" permitem refletir sobre a escrita. Assim, muitos, antes de estarem plenamente alfabetizados, já conhecem as características da linguagem escrita por terem escutado bastante leitura em voz alta. Quer dizer, já podem se dedicar à produção de textos, como ditantes. Lembro-me de um projeto chamado Cuentos de Piratas, desenvolvido com crianças de 5 anos. A professora lia para elas os contos e todos levavam os livros para casa para reler e folhear. Depois, juntamente com a docente, faziam listas de personagens, tomavam nota dos conflitos que apareciam em histórias de piratas, colocavam legendas na imagem de um barco: timão, vela, proa, popa. Finalmente, em grupo, criaram uma história de piratas.

Quais são as etapas essenciais da produção de texto?
MIRTA A escrita propriamente dita leva tempo: se escreve e se relê para saber como
prosseguir, o que falta, se está indo bem, se convém substituir algum parágrafo ou reescrever tudo. O processo de leitura e correção não é posterior à escrita, mas parte dela. Ao considerar terminado, o passo seguinte é reler ou dar para outro leitor fazer isso e opinar. Feitas as correções finais, passa-se o texto a limpo com o formato mais ou menos definitivo. Contudo, as etapas não devem ser enumeradas porque não são fixas e sucessivas. Elas constituem um processo de vai e vem.

Como o educador deve escolher o que enfocar primeiro na revisão?
MIRTA Cada texto é único. Todavia, é imprescindível - sobretudo com turmas que já têm autonomia na produção - fazer uma primeira leitura para checar a coerência. Se os alunos se concentrarem em detalhes, podem não conseguir checar a coerência geral.

Fazer intervenções enquanto os estudantes produzem é correto? Ou é melhor deixá-los terminar e revisar só ao fim do trabalho?
MIRTA As situações didáticas de escrita não são todas iguais. Em alguns casos, é interessante observar os escritos durante o processo para ajudar a turma a relê-los, a retomar o fio do relato e a corrigir uma expressão. Em outros, é melhor deixar que escrevam sem intervir. Há alguns anos, em um projeto com crianças de 7 e 8 anos, lançamos mão de um recurso didático que deu ótimos resultados. Organizávamos as aulas de modo que não houvesse tempo suficiente para terminar os textos, fazendo com que o grupo produzisse apenas uma parte dele. Na aula seguinte, a produção era lida para recordar até onde haviam chegado e decidir como continuar. Essa situação genuína da releitura permite descobrir erros, pensar formas apropriadas de expressão, enfim, ajuda a tomar distância do escrito e retomá-lo como leitor.

É válido que os próprios alunos revisem os textos dos colegas?
MIRTA Minha experiência mostra que nem sempre é produtivo que os estudantes leiam mutuamente as produções dos companheiros. Os menores não entendem a letra e os maiores nem sempre sabem o que procurar, o que faz com que fiquem detidos em detalhes que não interferem na qualidade final. A revisão dos colegas ganha valor quando o professor propõe revisar conjuntamente o texto, orientando a leitura e sugerindo opções. O texto eleito para ser revisado coletivamente deve representar os obstáculos que a maioria encontra. Uma vez descobertos no texto do companheiro os
aspectos que devem ser revistos, o professor pode sugerir que cada um revise sua própria produção.

Como ensinar gramática e as normas da língua no interior das práticas de leitura e escrita?
MIRTA Efetivamente, se recorrem à gramática e às normas da língua quando é necessário penetrar em aspectos da compreensão de um texto, como "qual é o sujeito do parágrafo?", mas principalmente para revisar. De acordo com a idade da garotada, alguns aspectos são retomados em outros momentos, dedicados só à reflexão gramatical.

É comum encontrarmos pessoas que dizem não saber escrever bem e se sentem mais seguras ao falar, o que leva a entender que a passagem do oral para o escrito é o ponto de dificuldade delas. Como isso pode ser enfrentando na escola?
MIRTA Não creio que isso se deva à passagem do oral para o escrito. A fala permite
gestos, alusões que reforçam o peso do que foi dito. Temos uma grande prática cotidiana na comunicação oral e muito menor na escrita. Quem considera mais fácil se comunicar oralmente está, sem dúvida, pensando em trocas familiares e não em apresentações orais formais, como as conferências, que exigem verbalizar e organizar todos os momentos da exposição. Nesses casos, as dificuldades encontradas são parecidas com a de escrever. Ensinar a escrever e a falar de forma aceitável exige empenho do professor, que deve guiar a turma com mãos firmes e seguras.

Fonte: Nova Escola