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domingo, 18 de novembro de 2012

As muitas águas da leitura

Publicado em Outubro/2012


Marta Morais da Costa
é especialista em leitura, professora da Universidade Federal do Paraná, integrante da Cátedra Unesco de Leitura da PUC-Rio e autora, entre outros, do livro Mapas do mundo. Vive em Curitiba (PR).

Já tratei de leitura em muitos textos, já falei para algumas plateias, já tentei esclarecer algumas conclusões que o trabalho com a formação de leitores acumulou em meu currículo. Posso afirmar, com segurança, que obtive alguns resultados positivos no convencimento da importância da leitura para as pessoas e para o grupo social em que atuam. Em outras ocasiões, a resposta não foi tão estimulante assim.

Professores me consideraram idealista demais, crianças me consideraram uma avó “se achante”, colegas de universidades não hesitaram em me denominar “especialista em leitura” — a mim, que sei que nada sei, verdade aprendida com o filósofo Sócrates —, avaliadores de meus livros julgaram-nos imperfeitos, equipes de editoras acreditam que posso prestar alguma consultoria de valor no quesito leitura. Como insegurança não é a mais perfeita de minhas qualidades pessoais, considero que julgamentos tão divergentes não me causaram maiores traumas profissionais.

Em todo caso, como não desejo, de forma alguma, motivar uma avaliação negativa de meu texto nos leitores deste espaço, quero começar declarando algumas posições ético-político-científicas a respeito da leitura. Como muitas pessoas de valor já o disseram — e com elas eu concordo — a leitura vai além da alfabetização, da capacidade de identificar palavras ou frases. A leitura tem a ver com interpretação, com a compreensão de frases e textos organizados (habilidade indispensável) e a compreensão das entrelinhas, presentes em qualquer texto, e que requerem a participação ativa do leitor.

As palavras dançam diferentes ritmos de acordo com os diferentes pares das contradanças textuais. O significado tem o dom de alterar-se dependendo dos contextos em que palavras e frases se situam. E quem vai buscar uma determinada coerência nessa flutuação semântica é o leitor. Portanto, ler não é reconhecer o código linguístico; ler é compreender contextos textuais, é escolher, entre os sentidos possíveis de um texto, aquele que para o leitor apresenta alguma coerência. Por extensão, interpretar não é estabelecer um sentido único, ou mais nocivo ainda, reproduzir o pensamento expresso pela maioria dos leitores.

Também esclareço que leitura rima perfeitamente com literatura; mas, para mim, acompanhando Drummond, a rima não é a solução. Todos nós lemos textos dos mais diferentes gêneros diariamente em nossa vida social e individual (cartazes, folhetos, embalagens, a diversidade textual dos jornais e revistas, as mensagens nas redes sociais, páginas de livros os mais variados e muitos outros). Também não nos restringimos a lidar com a linguagem exclusivamente verbal e somos envolvidos pelo visual, pelo auditivo, por suas combinações e diferentes suportes (computador, cinema, televisão). Enfim, quando eu tratar de leitura, não estou me restringindo aos livros de literatura. Essa é uma confusão frequente: pergunte a alguém se ele gosta de ler e poderá ouvir como resposta: “Gosto, sim, mas não tenho tempo — ou interesse — para ler romance”. Pergunte a outra pessoa que livros leu recentemente e ela pensará de imediato que você quer saber sobre a leitura da literatura. E pode, numa caricatura, responder: “Não perco meu tempo com histórias que não existem — ou não servem para nada”. Vou falar de leitura em sentido amplo, mas paradoxalmente preciso saber ler textos. Sem distinção de gêneros textuais.

Fui muitas vezes surpreendida — e interrompida — quando lia em filas ou salas de espera por pessoas bem intencionadas que entendiam que, se eu estava lendo um livro, é porque estava com problemas, entre eles o da solidão. Para me fazer companhia e me tirar da depressão, elas se propunham a interromper minha leitura sedutora. Como provavelmente não eram leitoras, elas não entendiam que ler não é um ato solitário ou fruto da solidão: o leitor está sempre acompanhado, não apenas do autor do texto que lê, mas de todos os leitores desse mesmo texto que o antecederam; também de todos os escritores que foram lidos para que o autor do texto presente pudesse escrever o que escreveu. Em suma, a cadeia de autores e leitores remonta a passados remotos e forma uma “trança de gente”, bela imagem criada por Ana Maria Machado. Antes de tudo, ler é uma ação solidária de integração na história da cultura. Ao ler, estou só fisicamente; mas mental, imaginária e intelectualmente, estou bem (ou mal) acompanhado. Por isso, antes de interromper, com boas intenções, a leitura de alguém embevecido, pense que pode estar cortando — temporariamente — o fio humano que tece a história da cultura.

Esclarecidas essas três linhas de compreensão, a saber, leitura não é ação exclusiva para a literatura; ler não é apenas reproduzir um texto, mas interpretá-lo, compreendê-lo; ler, é compartilhar e conviver com a história e a cultura, vou verificar como esses princípios podem orientar a formação de leitores. Convém lembrar que para desenvolver um bom trabalho de criação e formação de leitores é preciso acreditar que a leitura representa um requisito indispensável e irrecusável para o crescimento pessoal e profissional e para o desenvolvimento de um país em todos os setores de atuação da sociedade que lhe dá existência.

A necessidade de mediadores

Na origem da história de cada leitor está um mediador. Seja um parente (pais, avós, tios, irmãos), um amigo, um professor, um religioso, um jornalista, em qualquer espécie de interação social — conversas, aulas, saraus, pregações, filmes, mídia impressa. Pense comigo, leitor, nas possíveis situações em que pode nascer um leitor. A audição de um disquinho de histórias infantis, objeto do passado. Um livro eletrônico infantil ou de pano ou de plástico, objetos do presente. Uma história sussurrada no momento da chegada do sono, na voz carinhosa de quem se quer bem. A fala do amigo que se admira ou do grupo em que se busca a inclusão. Um comentário em roda de conversa sobre assunto científico ou curiosidade histórica. Em todos eles, o leitor pode estar ali, ainda desconhecido para ele mesmo, mas já apto a absorver o encantamento e a informação, a considerá-los valiosos. É o passo inicial para viver o desejo de reencontrá-los nos mais diversos objetos de leitura. Nem sempre o mediador (amigos, pais, professores...) precisa ter qualificação pedagógica ou cientifica, mas é imprescindível que ele desempenhe sua função com entusiasmo de quem foi afetado pelo assunto, pelo livro, pelo texto.

Imagine que uma pessoa deseja convencer um amigo a assistir a um filme e para tanto faz um relato aos tropeços, sem emoção, monótono. Mesmo um filme bom não resiste a uma apresentação medíocre. No entanto, um filme ruim pode ser embelezado por uma retórica emocionada. Sem deixar de ser um filme ruim. Uma entrada segura para o mundo da leitura pode estar numa mediação de qualidade. A vida do leitor em seu nascimento é, como a vida em geral, também um espaço-tempo de contradições. Reagimos ao ruim, ao mal feito, à imperícia, buscando em outras fontes a perfeição. Quem não tem livros em casa, procura entre as estantes da biblioteca. Quem não teve uma avó que lhe contasse histórias, vai em busca das crianças que a tiveram. Quem não ouviu a discussão sobre um assunto que lhe interesse, pergunta, pesquisa, incomoda (se) até encontrar quem ou o quê sacie sua curiosidade. Os textos e livros interessam porque preenchem faltas e lacunas e matam a sede de respostas.

A pluralidade da leitura

Leitores são como a vida: histórias diversificadas, ora cômicas, ora trágicas, ora monótonas, ora carregadas de aventuras. Analisando o leitor ou a leitora que somos, constatamos com facilidade o quanto somos volúveis. Gostamos hoje do que acharemos tedioso amanhã. Colocamos valor no livro ou no texto que no futuro poderemos considerar medíocre, equivocado, dispensável. Tratamos, na leitura do presente, de forma diferenciada e em categorias de importância o livro da moda, o ensaio filosófico (histórico, médico, jurídico, etc.), o clássico da literatura, os quadrinhos, a obra gastronômica, o guia de viagens, o jornal. Na verdade mais elementar da leitura, somos, cada um de nós, muitos leitores. Iniciantes nos manuais de uso da tecnologia, doutores nos assuntos que nos afetam profundamente, aprendizes nos temas que queremos dominar, satisfeitos e relaxados com as obras de fácil leitura e assim por diante. Subimos e descemos os degraus das categorias de leitores com rapidez e alguma facilidade.

O leitor, pra valer, é ao mesmo tempo como o malandro oficial de Chico Buarque — está na coluna social, deseja ser malandro federal, tem gravata e capital — e como o malandro pra valer, que tem mulher e filhos, mora longe e “chacoalha no trem da Central”. Assim, o leitor das estatísticas, genérico, impessoal, badalado ou execrado, sob domínio das classificações universais e objeto das políticas empresariais do livro, não é o único que nos habita. Somos, no exercício da leitura, “trezentos ou trezentos e cinquenta”, como Mário de Andrade se definia.

Os infinitos acervos

Essa multiplicidade permite compreender por que as portas de entrada da leitura são mui­tas e, por vezes, surpreendentes. Bruxos, vampi­ros, cabanas, números, fórmulas, imagens, sons podem estar na fonte primeira da sede saciada. O perigo não está nessa fonte, está, sim, em con­verter a fonte em único lugar onde se pode beber. Há lagos, rios, corredeiras, cascatas e oceanos, em que se apresentam e despenham as águas da lei­tura. Para beber, para banhar-se, para afogar-se, para aceitar ou recusar. O leitor pode viver sua vida leitora no mesmo lago, mas jamais compre­enderá a força do oceano. Pode ler exclusivamen­te quadrinhos a vida inteira, mas perderá as ima­gens incompletas dos grandes romances. Pode ler exclusivamente textos científicos, mas perderá o movimento intenso e prismático dos quadri­nhos e a força imaginária da literatura. Poderá ler exclusivamente a ficção, mas não aprenderá a intensa liberdade da poesia e o rigor especulativo do discurso histórico. O escritor japonês Haruki Murakami afirma: “Se você só lê os livros que todo mundo está lendo, você só pode pensar o que todo mundo está pensando” . Os infinitos acervos Essa multiplicidade permite compreender por que as portas de entrada da leitura são muitas e, por vezes, surpreendentes. Bruxos, vampiros, cabanas, números, fórmulas, imagens, sons podem estar na fonte primeira da sede saciada. O perigo não está nessa fonte, está, sim, em converter a fonte em único lugar onde se pode beber. Há lagos, rios, corredeiras, cascatas e oceanos, em que se apresentam e despenham as águas da leitura. Para beber, para banhar-se, para afogar-se, para aceitar ou recusar. O leitor pode viver sua vida leitora no mesmo lago, mas jamais compreenderá a força do oceano. Pode ler exclusivamente quadrinhos a vida inteira, mas perderá as imagens incompletas dos grandes romances. Pode ler exclusivamente textos científicos, mas perderá o movimento intenso e prismático dos quadrinhos e a força imaginária da literatura. Poderá ler exclusivamente a ficção, mas não aprenderá a intensa liberdade da poesia e o rigor especulativo do discurso histórico. O escritor japonês Haruki Murakami afirma: “Se você só lê os livros que todo mundo está lendo, você só pode pensar o que todo mundo está pensando”.

Formar leitores é oferecer às pessoas a oportunidade de descobrirem-se múltiplas na multiplicidade incontrolável dos textos.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Para aumentar número de leitores é preciso criar elo entre internet e literatura, diz professora

Publicado em 10/07/2012 Da Agência Brasil

Para a docente, os jovens também se dedicam à leitura e à escrita no ambiente virtual
 
A ampliação do hábito da leitura entre estudantes brasileiros requer a existência de mediadores preparados que entendam as novas ferramentas tecnológicas para levá-los a fazer a ligação com o mundo em que vivem por meio da literatura. Isso é o que defende a diretora adjunta da Cátedra Unesco de Leitura da PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), Eliana Yunes.

— Nós temos poucos mediadores aptos a entrar nesse diálogo, nesses suportes, nessas novas linguagens e que tragam uma herança cultural vastíssima.

Na avaliação de Eliana, os estudantes, mesmo no uso da internet, podem dedicar mais tempo à escrita e à leitura do que teriam as pessoas há cerca de 20 anos. 
— Eles são obrigados a ler, a escrever, a se comunicar.

Eliane admitiu, contudo, que sem uma mediação adequada, “existe uma simplificação do uso da língua”. A leitura dos estudantes que estão conectados às redes sociais acaba circunscrita a um universo muito estreito ao qual eles têm acesso com facilidade.

— Está na onda, está na moda. Tem a coisa da tribo, do grupo.

A professora disse que essa leitura, porém, não possui a densidade necessária para levar os alunos à formação de um pensamento crítico. Para ela, falta a esses estudantes um trabalho de ligação com a leitura criativa ( presente na literatura, por exemplo), algo que pode ser feito pelas escolas e até pelas famílias.

— Falta uma mediação que permita que esses meninos tenham acesso, mesmo via internet, a sites muito bons de poesia, de blogs, pequenas histórias, de museus, que discutem música, história.

Para ela, essa páginas na internet permitem que os alunos saiam desse “chão raso” e possam ser levados para uma experiência criativa da linguagem. 
 
— Quem não lê tem muita dificuldade de escrever, de ampliar o seu universo de escrita, de virar efetivamente um escritor. Como eles têm pouca familiaridade com a língua viva, seria necessário que os adultos se preparassem melhor, buscando conhecer essa nova tecnologia para que a mediação, tanto pela escola como pela família, pudesse ser exercida de forma a partilhar com os alunos leituras de boa qualidade.

A professora defende também que a mediação restaura o fio que liga o passado ao futuro no presente desses estudantes. Ela reiterou que a falta de conhecimento de professores e pais desses suportes modernos de comunicação e a falta de habilidade de envolver alunos em uma discussão de um universo mais rico impedem meninos e meninas de desfrutarem uma herança cultural, “da qual eles são legítimos herdeiros”.

— Acho que a questão da escola passa pelo problema da mediação. Se nós não formos leitores de várias linguagens, de vários suportes, nós perderemos realmente o passo com essa geração, que está velozmente à nossa frente, buscando outras linguagens, outras formas de comunicação. É preciso que os estudantes percebam que a literatura não é um peso ou uma obrigação. Literatura é vida.

Para Eliana, a literatura faz falta porque desloca o olhar das pessoas de uma coisa “líquida e certa”, para um lugar de reflexão, de discussão sobre o mundo e a vida humana. Isso pode ser encontrado não só no livro impresso, em papel, como também no livro digital.

— Esse jogo contemporâneo é muito rico. Quanto mais suportes a gente tiver para a palavra escrita e para abrigar a reflexão sobre a condição do ser humano, melhor a gente vai poder abraçar as várias modalidades, que estão vivas, da palavra. 
Pesquisa

De acordo com pesquisa do Instituto Mapear para a Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro com 4 mil estudantes e 1,2 mil responsáveis, 93% dos alunos do ensino médio da rede pública do estado tinham celulares em dezembro de 2011 e 78% possuíam computador, sendo que 92% tinham acesso frequente à internet.

Em contrapartida, 14% dos alunos declararam não ter lido nenhum livro nos últimos cinco anos. Entre os que não leram nada, 17% residiam no interior e 12% na região metropolitana. Um livro foi lido no período por 11% dos estudantes; dois ou três livros por 26% e quatro ou cinco livros por 17%.

Entre os alunos que leram mais que um livro em média nos últimos cinco anos, a pesquisa registrou que 14% leram entre seis e dez livros, 8% entre 11 e 20 e 10% leram mais que 20 livros em cinco anos.
 
Fonte: R7

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Papel da famíla enquanto mediadora de leitura



Há algum tempo publiquei uma postagem destacando O Papel do Professor enquanto mediador da leitura. Acontece que não é responsabilidade apenas da escola a formação de leitores. Os pais, ou melhor a família, são ótimos e importantes incentivadores para esta prática, tanto a partir do estímulo, quanto pelo seu exemplo.

Convém aos familiares:

  1. Propiciar o acesso aos livros;
  2. Oferecer o exemplo;
  3. Ter entusiasmo;
  4. Presentear com livros e não apenas com brinquedos;
  5. Buscar contextualizar a leitura;
  6. Estimular visitas a bibliotecas, exposições e projetos sociais que envolvam livros e leitura;
  7. Trabalhar as próprias aptidões de leitor;
  8. Pensar, refletir sobre a escolha dos livros;
  9. Buscar motivação pessoal e motivar os jovens leitores;
  10. Tratar as leituras com progressividade, mostrando novos temas, novas situações e novos estilos;
  11. Ter uma atitude positiva com escritores, educadores e leitores – um comentário negativo a respeito de alguma obra ou autor pode gerar um preconceito;
  12. Não subestimar a capacidade, nem o interesse das crianças para a leitura.

O que é desaconselhável fazer

  1. Reforçar para as crianças o fato delas não gostarem de ler;
  2. Obrigar a ler – não obrigue o gosto do outro, mostre o seu entusiasmo de leitor;
  3. Mandar ler um livro que não agrada – cada idade tem um amadurecimento, um despertar, mesmo sem entrar no critério do gosto;
  4. Exigir que o livro seja lido por inteiro – incentivar a mudar de leitura;
  5. Deixar a criança só com o livro – este pode ser para ela um objeto aparentemente hostil que exige um esforço excessivo;
  6. Contar todos os delhates do livro – deixar o livro falar por si só;
  7. Transformar o livro em dever de casa – o que o vincularia a uma obrigação;
  8. Transformar o livro num instrumento acadêmico – faz com que o livro perca o encantamento e o mistério, tornando-se uma mera ferramenta;
  9. Obrigar a comentar o livro lido – tem que ser espontâneo e prazeiroso;
  10. Utilizar o livro como instrumento de coerção – usá-lo como castigo, ameaça por tarefas não cumpridas.
Aprofunde-se mais em 

SOBRINO, Javier García (org.), et. al. A criança o livro: A aventura de ler, Portugal: Porto Editora, 2000.

Fonte: Livros e Afins

quinta-feira, 22 de março de 2012

Papel do professor enquanto mediador da leitura

Por Roberta Fraga

Crédito da imagem: The teacher - Mary Ellen Page Sr. (Murnie), 1967 (from the family archives)

A leitura em seus momentos iniciais ou, posteriormente, por razões diversas será mediada. Mediar leitura tem um aspecto amplo. Pode significar o simples papel de ledor, o que acontence com deficientes visuais que não dominam o Braille ou pessoas ainda não alfabetizadas; mas, também, pode significar a interpretação do texto escrito, o canal de acesso à informação e à fantasia, no caso dos textos literários.
Assim, muitas pessoas podem ser referência de mediação: os pais, professores, orientadores, bibliotecários, um amigo, um voluntário…

Quanto ao professor convém:

  1. Ter aptidão para escolher a obra apropriada, tanto em termos de adequação etária, quanto em relação às preferências do grupo;
  2. Emprego eficaz de recurso metodológico – para saber dar ritmo, reconhecer momentos de avanços ou de recuos na aprendizagem e na formação do leitor;
  3. Suscitar a verbalização acerca da compreensão da obra;
  4. Domínio acerca do conteúdo a ser ministrado;
  5. Senso de oportunidade – o mediador deve saber avançar e recuar, testar novas abordagens. O modo de construção do leitor é um processo lento e gradativo;
  6. Seleção de material  – conhecer o interesse dos alunos, o universo deles, contextualizar;
  7. Conhecimento da produção literária para crianças;
  8. Conhecimento de lançamentos recentes, ser atualizado;
  9. Atender aos princípios da Filosofia e Educação contemporâneas – “aprender a aprender e aprender a ser”;
  10. Atendimento às qualidades estéticas da literatura sem preconceito e sem moralismos – literatura é arte;
  11. Dar preferência a textos inovadores e emancipatórios – estimular o pensamento independente e o senso crítico;
  12. Cuidar pela qualidade do material – estimular esse respeito;
  13. Cuidar pela qualidade da linguagem  – por mais que a língua evolua, é bom falar e escrever corretamente;
  14. Cuidar pela variedade de temas;
  15. Ter um tratamento questionador.
Fique atento, muitas vezes, o professor precisa trabalhar nele mesmo as aptidões de leitor. Certas resistências podem advir de desconhecimento e pouco preparo.
Aprofunde-se mais em
COSTA, Marta Morais da, Metodologia do ensino da literatura infantil, Curitiba: Ibpex, 2007.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O resgate dos bibliotecários

Matéria Publicada 10/09/2011 

A mediação de leitura, entendida como ato de ler para o outro de forma a despertar seu gosto pela narrativa, é uma estratégia chave na formação de novos leitores 

Mariza Russo
 Biblioteca Municipal Monteiro Lobato, em São Paulo: 
uma das poucas redes que têm bibliotecários de ofício

Para os especialistas da área da mediação de leitura, a prática dessa atividade busca, primordialmente, introduzir o livro como rotina na vida do leitor, permitindo-lhe amplo acesso ao material impresso, para que ele se sinta atraído não só pelo seu conteúdo, como também pelo seu formato. Dessa maneira, espera-se incentivar o hábito de ler e ampliar o gosto pela leitura em si.

A atividade de mediação de leitura consiste em um ato de ler para crianças, jovens ou adultos, de uma maneira livre e prazerosa, que não exige do mediador grandes habilidades artísticas. O importante é que esse mediador demonstre um verdadeiro entusiasmo por essa atividade e compartilhe com os leitores a troca de experiências por ela ensejada.

Essa ação pode ser praticada em diversos locais, mas as bibliotecas públicas e escolares, frequentadas, predominantemente, por pessoas cujo poder aquisitivo não permite adquirir livros com frequência, são as mais adequadas para a realização dessa atividade. Com isso, seriam garantidas oportunidades de transmissão cultural entre as gerações e ampliadas as condições de desenvolvimento social dos leitores. No entanto, inúmeros estudos já realizados ao longo da história dessas bibliotecas apontam que a situação real está longe da ideal.

A área de mediação de leitura - quando devidamente praticada - torna-se, então, um espaço rico para muitos atores, mas são os familiares, os professores e os educadores os que mais se destacam nesse mister. Os familiares deveriam ser os primeiros a estabelecer o elo entre a criança e o mundo, usando a leitura como canal para levá-los a desenvolver valores morais, que servirão de base para suas atitudes no futuro; mas a situação econômica de grande parte das famílias brasileiras impede esse exercício pleno. Daí, a importância dos educadores em aproximar o estudante da leitura, que deve ocorrer de maneira a mostrar o texto de forma lúdica, evitando cobranças que podem servir como instrumento negativo do incentivo à leitura. Igualmente, se espera do bibliotecário a atuação positiva nessa área, até porque - diferentemente do professor - ele não está preso a currículos e avaliações, tendo portanto maior liberdade para dialogar com o leitor e fazer proposições sem que este se sinta pressionado a apresentar resultados. Cabe ressaltar que, na biblioteca escolar, as atividades desenvolvidas pelo bibliotecário devem estar em consonância com as atividades curriculares.

Para garantir maior sucesso nas iniciativas de mediação de leitura, recomenda-se a busca de uma sinergia entre os "saberes" dos educadores e dos bibliotecários, tanto no que diz respeito às práticas pedagógicas quanto às questões de organização de bibliotecas e leitura técnica de livros. Caso essa inter-relação se configure, a formação de novos mediadores ocorrerá com maior sucesso, podendo ser ampliada em diferentes eventos, tais como cursos, palestras e oficinas, os quais devem ser oferecidos, regularmente, a todos os públicos interessados, com o compromisso de formar outros agentes multiplicadores da atividade.

O apoio do governo a esses empreendimentos é de grande relevância, pois novas iniciativas, somadas às já existentes, poderão trazer benefícios mais amplos para a sociedade brasileira. O Programa Nacional do Livro e da Leitura (PNLL), lançado pelo governo, em 13 de março de 2006, sob a responsabilidade dos Ministérios da Cultura e da Educação, se configura como um projeto com perspectivas vitoriosas, face às suas características próprias e por se tratar de um programa de Estado, e não do governo atual, não estando dessa forma sujeito a descontinuidades devido a eventuais mudanças na política do país. Por outro lado, é preciso que sejam investidos esforços e recursos substanciais nestes e em outros projetos, que com certeza levarão a resultados positivos para a população brasileira.

Ao longo desses três anos, essa iniciativa tem se configurado como "um conjunto de projetos, programas, atividades e eventos na área do livro, da leitura, literatura e bibliotecas em desenvolvimento no país, empreendidos pelo Estado (em âmbitos federal, estadual e municipal) e pela sociedade".

A missão desse programa apresenta como prioridade transformar a qualidade da capacidade leitora do Brasil, trazendo a leitura para o dia a dia do brasileiro. Com esse escopo, o PNLL está dividido em quatro eixos temáticos: Democratização do acesso; Fomento à leitura e à formação de leitores; Valorização do livro e da leitura e Desenvolvimento à economia do livro.

Em agosto de 2009, o Programa arrola 488 ações, das quais 43% são desenvolvidas no eixo 1 (212); 36% no eixo 2 (177); 11% no eixo 3 (51) e 10% no eixo 4 (48). Essas ações são desenvolvidas pelas instâncias governamentais e pela sociedade civil, o que demonstra um comprometimento desses setores com os objetivos do programa. Espera-se com esse empreendimento modificar o cenário de leitura no país, elevando-o a ocupar patamares mais relevantes no contexto internacional.

A mediação de leitura e a biblioteconomia

A leitura está presente no processo de ensino dos cursos de graduação, na maioria das áreas acadêmicas. No caso específico da área de biblioteconomia, o livro é considerado um dos seus insumos básicos e a sua leitura técnica é vista como uma das ferramentas indispensáveis para a atuação profissional do bibliotecário. Dessa forma, a capacidade de interpretar a leitura, adequadamente, é fundamental para que esse profissional tenha sucesso em parte de suas tarefas.

Os primeiros cursos de Biblioteconomia foram criados, na França e nos Estados Unidos, no século 19 (na École des Chartes, em 1821, e no Columbia College, em 1887), mas somente no início do século 20 é que se tem informação da utilização da leitura como foco de disciplinas da área, na medida em que a partir de 1904 a biblioterapia passa a ser considerada um ramo da biblioteconomia. A biblioterapia é uma técnica que utiliza a leitura e outras atividades lúdicas como coadjuvantes no tratamento de pessoas acometidas por alguma doença física ou mental, sendo aplicada como educação e reabilitação em indivíduos de diversas faixas etárias.

A partir de então, os bibliotecários assumiram a biblioterapia como atividade recreacional e ocupacional, antes utilizada como atividade terapêutica por médicos americanos no tratamento de seus pacientes. Ao longo dos anos, os currículos dos cursos foram deixando de contemplar esse tema, para a formação dos graduandos. Um levantamento realizado no sítio de internet da Associação Brasileira de Educação em Ciência da Informação (Abecin), que relaciona 43 cursos na área de biblioteconomia e afins, aponta que menos de 30% do universo total dos cursos incluem disciplinas relacionadas à prática da leitura.

Em face desse cenário, os bibliotecários também se afastaram dessa atividade, o que, com certeza, está prejudicando sua atuação profissional no campo, visto que a leitura para eles não representa parte dos seus "fazeres". Diante da visão de que o incentivo ao hábito de ler é indispensável nos espaços das bibliotecas públicas e escolares, esses profissionais precisam estar capacitados para desenvolver essa ação com competência.

Nesse sentido, uma formação que evidencie o caráter relevante da leitura na formação do bibliotecário tornará o perfil desse profissional mais condizente com as necessidades da sociedade brasileira, tão caracterizada pelas desigualdades de oportunidades.

A mediação de leitura e o curso de biblioteconomia da UFRJ

A ideia da criação de um curso de biblioteconomia, na UFRJ, vem desde a inauguração da Biblioteca Central da Universidade, em 1950, quando se pensou em construir um prédio de oito andares - que abrigasse a biblioteca - cujo último piso seria dedicado ao curso de biblioteconomia.

Em outubro de 2001, por iniciativa da Coordenação do Sistema de Bibliotecas e Informação (SiBI), foi criada uma comissão de trabalho, composta por bibliotecários - mestres e especialistas na área - com a assessoria de docentes da UFRJ, para desenvolver a Proposta Político-pedagógica do Curso de Biblioteconomia e Gestão de Unidades de Informação (CBG), encaminhada em novembro de 2003, às instâncias competentes da Universidade, para fins de análise e aprovação.

A grade curricular do curso foi planejada com um enfoque diferenciado dos demais cursos do país, contemplando igualmente as áreas de biblioteconomia e de gestão, na medida em que os bibliotecários do século 21 precisam estar capacitados para administrar todos os recursos que integram as Unidades de Informação - quer financeiros, materiais, tecnológicos, informacionais, bem como as pessoas, que constituem o seu principal ativo. Sendo assim, a Faculdade de Administração e Ciências Contábeis (FACC), da UFRJ, foi escolhida para abrigar o curso, em virtude de sua concentração na área de gestão.

Em junho de 2005, o curso foi aprovado pelo Conselho de Ensino de Graduação (CEG) e, em julho, pelo Conselho Universitário (Consuni), para ser incorporado à grade de cursos de graduação oferecidos pela UFRJ.

A Comissão de Implantação do CBG, ao preparar a proposta pedagógica do curso, julgou de extrema importância a integração do referido curso ao PNLL, visto que este programa tem por base a necessidade de formar uma sociedade leitora como condição essencial para promover a inclusão social de brasileiros, no que diz respeito a bens, serviços e cultura, garantindo-lhes uma vida digna e a estruturação de um país economicamente viável.

A decisão da equipe do CBG fun­da­men­tou-se na importância de fazer cumprir a missão prioritária da universidade, que é a de geração de ações que resultem em benefícios para a sociedade, conforme argumenta Luis Milanesi, professor de biblioteconomia.

"A universidade é um instrumento criado pela sociedade para que dê respostas a seus problemas, que ela própria detecta e antecipa. Para isso, pesquisa e descobre as soluções imediatas ou que poderão ser úteis a longo prazo; transfere os conhecimentos aos alunos, conduzindo-os ao domínio de uma área que permita a eles o exercício de uma atividade profissional; estende à sociedade esse conhecimento ..."

Nesse contexto, a disciplina mediação de leitura é oferecida na grade curricular do CBG, no 1º período, tendo - até o presente momento - formado cerca de 120 alunos como mediadores de leitura. Essa iniciativa já criou outras oportunidades para esses alunos, como a participação em projeto de extensão aplicado no Instituto de Neurologia Deolindo Couto (INDC/UFRJ), de 2007 a 2008, no qual duas bolsistas mediavam leitura para enfermos como forma de ajudar a promover sua inserção social. A partir de 2009, outro projeto de extensão está sendo apoiado pela UFRJ - Embarcando na leitura para a Ilha de Paquetá - com vistas a levar para os visitantes da Ilha a oportunidade de acesso a livros e à leitura, despertando nos mesmos o prazer dessa atividade.

Ainda como desdobramento dessa ação, está sendo preparado o projeto de um curso de extensão sobre mediação de leitura, que será oferecido, para bibliotecários e alunos de outras universidades do Rio de Janeiro, com o objetivo de ampliar as oportunidades de resgatar esse espaço de atuação para os bibliotecários.

Considerações finais

As iniciativas aqui apresentadas não são, ainda, suficientes para transformar - em curto prazo - a situação de acesso ao livro e à leitura no país. Analisando-se, na página virtual da Abecin, o cenário dos demais cursos de biblioteconomia ministrados no país, encontrou-se a oferta de disciplinas, tais como Leitura e Sociedade (UFG); Literatura Infanto-juvenil (UFPE); Leitura, Biblioteca e Inclusão Social (UFRGS); Biblioterapia (UFSC); Leitura, Acervos e Ação Cultural e Orientação de Leitura (UFF); Leitura e Biblioteca (UFAL); História da Leitura (FURG); Leitura e Literatura Infanto-juvenil (Udesc) e Processos de Leitura e Ação Cultural (Fatea).

Essas ações, mesmo que em pequeno número, demonstram a preocupação dos organizadores dos currículos em preparar os bibliotecários para desenvolver essa tarefa, a fim de garantir um lugar nesse tão nobre nicho da formação dos brasileiros.

Espera-se que outras reflexões, como as apresentadas neste artigo, possam servir de motivação para inclusão de disciplinas com os objetivos descritos, nos cursos de biblioteconomia do país, que em sinergia com as ações emanadas do Estado venham modificar o cenário apresentado pela última pesquisa Retratos da leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro em 2008. A pesquisa aponta, entre outros resultados, que o brasileiro lê em média 5 livros por ano (caso sejam considerados os livros didáticos nesse cômputo), o que coloca o país muito distante dos índices ideais para chegar ao crescimento tão almejado.

Conclama-se que bibliotecários, educadores, políticos e demais interessados se unam para transformar o Brasil em um país de leitores.

Mariza Russo é professora do Curso de Bibliotecomia e Gestão de Unidades de Informação (CBG/FACC/UFRJ). 

segunda-feira, 30 de maio de 2011

A influência das práticas de leitura na formação de leitores

Matéria publicada em Publicada: 25/08/2008

Por mais que se tente explicar por que o brasileiro lê muito pouco, as justificativas não são simples. Conseqüentemente, qualquer ação que possa incentivar crianças, jovens e adultos a ler mais requer uma análise profunda do atual cenário educacional. Mas uma coisa parece estar clara: se não existe motivação para desfrutar o prazer da leitura, então é preciso transformar a relação que as crianças têm com o livro para incentivar a formação de leitores. "A leitura deve ser fonte de conhecimento, mas também é fonte de emoção, de prazer e de lazer", diz Maria Alice Armelin, coordenadora do Entre na Roda do Cenpec e co-autora dos materiais didáticos do projeto, cujo foco é a formação de orientadores de leitura.

Diante desse contexto, um dos desafios é formar, de fato, pessoas que praticam a leitura e não apenas sujeitos que sabem decifrar o código da escrita. Ou seja, essa relação estritamente escolar e obrigatória que boa parte das crianças têm com a leitura precisa ser complementada com a sua prática cultural e social.

Dois atores são fundamentais para despertar nas crianças o prazer pela leitura: a família e a escola. A mãe, como maior influência na formação de leitores, deve cativar os filhos para desenvolver esse gosto. "É mais fácil que uma criança se torne leitora se ela crescer numa casa em que as pessoas manuseiam livros e lêem. Além disso, ao ler ou contar histórias, os pais estreitam vínculos com os filhos", explica Maria Alice. Por outro lado, dos 4,7 livros per capita que o brasileiro lê em um ano, 3,4 são livros didáticos ou indicados pelo colégio, o que indica que a escola pode e deve tirar proveito desse protagonismo para que crianças e jovens desenvolvam uma relação mais rica e diversa com a leitura.

Formação de professores e mediadores de leitura

Cientes de que, ao lado da família, a escola ocupa papel central para a formação de leitores, o MEC e as secretarias estaduais e municipais de educação passaram a formular políticas públicas para combater essa defasagem nos índices de leitura. Em 2000, o MEC criou o Profa, um programa de formação de professores alfabetizadores com foco bastante acentuado nas práticas de leitura.

De modo semelhante, outras iniciativas foram surgindo pelo país, como o projeto Ler e Escrever, da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo, que além de estabelecer as orientações didáticas para a prática de leitura, procura aproximar o trabalho dos diretores e coordenadores das escolas. "Uma gestão acaba em quatro anos, por isso é preciso dar autonomia e segurança aos quadros intermediários, às diretorias de ensino e aos supervisores para que eles possam dar continuidade ao trabalho", explica Claudia Aratangy, diretora de Projetos Especiais da Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE) e uma das coordenadoras do Ler e Escrever.

Segundo Maria Alice, essa aproximação com os gestores é fundamental para conscientizá-los da importância das atividades de leitura em sala de aula. "Muitas vezes, essas atividades são preteridas em função da necessidade de ensinar conteúdos específicos da disciplina, como o plural, o verbo etc. Mas a leitura permite assimilar esses mesmos conteúdos de forma viva e agradável, sem o peso de responder exercícios maçantes", conta.

Além do trabalho com professores e gestores, realizado por meio de parcerias com secretarias de educação e cultura, o Entre na Roda não se limita à escola e é voltado para educadores em geral, com diferentes níveis de formação, incluindo voluntários que realizam rodas de leitura em praças públicas, ONGs, hospitais e até penitenciárias. A idéia é que eles também atuem como mediadores, estimulando a leitura por meio de diferentes gêneros e autores. "Após participar de uma formação do projeto, uma bibliotecária de São Carlos expôs os livros de um determinado autor, fornecendo informações sobre sua vida e obra na biblioteca. Com isso, ela ampliou as retiradas de livros de 338 para 1447 naquele mês", conta Maria Alice.

Cativando os leitores

Para incentivar o debate sobre como os livros devem ser utilizados pelos professores, Claudia Aratangy participou da 20ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, apresentando a palestra "Livros na escola: basta para formar leitores?", que, como ela mesma ressalta, trata-se de uma pergunta retórica: é claro que não é suficiente. "Os livros ficam guardados na escola ou são colocados em salas de leitura pouco freqüentadas, o que dificulta o acesso dos alunos", diz. Ela não só propõe que os professores leiam para os alunos todos os dias, como enfatiza a necessidade de uma mudança nas práticas de leitura. "É preciso compartilhar com os alunos os efeitos que os textos produzem e retratar a beleza de certas expressões ou fragmentos da história. Ao explicitar essas passagens estamos ensinando o que é ser um leitor".

As rodas de leitura propostas pelo Entre na Roda, seja dentro ou fora da escola, seguem o mesmo princípio e procuram estabelecer uma relação que extrapole o simples ato de abrir um livro, com uma conversa anterior e outra posterior à leitura. "A contextualização do que se lê é muito importante para destacar aspectos interessantes do texto e do autor. Criar um clima relacionado à história é uma forma, entre outras, de sensibilizar o leitor para que ele tenha interesse em ouvir ou ler o texto. Depois, o texto dará elementos para a troca de idéias e a reflexão sobre os temas abordados. Isso ajuda a criar um vínculo e uma interação com o grupo", detalha Maria Alice.

A prática social e cotidiana da leitura pode ser estimulada com diferentes textos, adequando a modalidade aos propósitos específicos. "É preciso dialogar com o texto. Pode-se pegar o jornal para comentar as manchetes e as legendas ou estudar por que os textos publicitários utilizam o verbo no imperativo", sugere Claudia. Na opinião de Maria Alice, é necessário ampliar o repertório de leitura e reduzir a influência exclusiva do livro didático, que, muitas vezes traz apenas fragmentos de um texto. "A diversidade é importante para formar o leitor, já que abre diferentes portas de entrada para o mundo da leitura. Os gibis podem ser um bom começo, já que clássicos como Don Quixote são publicados em quadrinhos e podem estimular a criança a ler a obra original no futuro."

Fonte: Cenpec

sábado, 21 de agosto de 2010

Projeto Mudando a História - Mediadores de Leitura

O Projeto
O Projeto Mudando a História faz parte do programa mundial Make a Connection, promovido pela Nokia International Youth Foundation ( IYF ) e, no Brasil, é uma parceria com a Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança. O projeto nasceu do interesse comum dos envolvidos em contribuir para a ampliação da participação juvenil na sociedade.
O Projeto Mudando a História forma jovens de 13 a 25 anos para atuarem como mediadores de leitura e multiplicadores dessa ação. Esses jovens, estudantes de escolas públicas e particulares, universitários, participantes de projetos e organizações não-governamentais vão mediar a leitura para crianças que freqüentam creches, escolas de educação infantil ou instituições de atendimento direto à infância em situação de risco.
Para ser mediador de leitura, o jovem participa de uma formação de 40 horas e de supervisões mensais. Dessa forma, ele aprende a planejar sua ação com um grupo de crianças e passa a ler semanalmente para elas, acompanhando o seu desenvolvimento.
O multiplicador é o jovem que já tem experiência como mediador de leitura e deseja formar novos mediadores. O Projeto Mudando a História oferece a esse jovem uma formação específica para que se torne multiplicador. Depois de formado, o multiplicador elabora um projeto de formação e de acompanhamento e planeja as ações necessárias para mobilizar outros jovens e instituições.

Participando do projeto, o jovem contribui para a formação de crianças leitoras e ampliar seu universo cultural. Atuando solidariamente, o jovem poderá redefinir sua participação na comunidade, contribuindo para a sua formação.
Objetivos
O projeto tem como objetivo fortalecer e disseminar a concepção de jovem como agente de intervenções e transformações sociais positivas. Através dos seguintes objetivos específicos:  

  • Aprofundar o conhecimento dos jovens e organizações parceiras sobre a formação de grupos de mediadores de leitura.

  • Fortalecer a relação entre os jovens, suas organizações e sua comunidade.

  • Promover intercâmbio e a identificação entre grupos de jovens de diferentes contextos sociais.

  • Contribuir com conhecimento para a formação de políticas e propostas na área da juventude.

  • Oferecer oportunidade de engajamento aos jovens;

  • Integrar indivíduos de diferentes contextos sociais e culturais;

  • Ampliar o acesso à leitura e ao livro de qualidade; mobilizar a sociedade para as questões da juventude.
 Instituições parceiras 
Em 2002 a Prefeitura Municipal de Manaus, através da Secretaria Municipal da Infância e Juventude - SEMINF, assinou um termo de compromisso com a Fundação Abrinq, tornando-se parceira do Projeto Mudando a História. Em março de 2005 a Fundação Abrinq inaugurou em Manaus o primeiro Pólo do Projeto Mudando a História em parceria com a SEMINF tendo sua sede localizada no CIACA Centro Sul, Av Darcy Vargas nº 378, Cep: 69050-020.  

O Pólo visa articular diferentes instituições parceiras para realizar as atividades formadoras de jovens voluntários nas situações de leitura para crianças da comunidade, ser um pólo de discussão e construção de conhecimento sobre o trabalho com a juventude, ser um centro de informações sobre o projeto, inclusão dos jovens nos processos de discussão do projeto, entre outras atribuições.
Em janeiro de 2005, já formou 46 jovens voluntários de Manaus como multiplicadores desta ação e são das seguintes instituições parceiras: 
  • SEMINF - Secretaria Municipal da Infância e Juventude 
  • Escola Estadual Professora Diana Pinheiro 
  • Escola Estadual Desembargador André Vidal de Araújo 
  • Fundação Nokia de Ensino 
  • Cia de Teatro Metamorfose 
  • INPA - Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia 
  • Biblioteca Pública do Amazonas 
  • FEPI ? Fundação Estadual de Políticas Indigenistas 
O pólo já realizou uma nova capacitação de mediadores de leitura, tem mantido o acompanhamento dos grupos de jovens mediadores formados, organizou reuniões com a comissão organizadora do Projeto em Manaus (com representantes de todas as instituições); num trabalho conjunto tem sido uma representante para a organização dos eventos promovidos pelo projeto.
Nesta visita, também acompanhou as atividades o prof. Élie Bajard , que ficou muito bem impressionado e fez as seguintes observações:
O grupo de jovens apresenta uma capacidade de análise grupal sobre o trabalho, como por exemplo:  

  • Diante das dificuldades encontradas apresentam uma preocupação em articular as diversas instituições, criam soluções diante da escassez do material.

  • A capacidade de elaborar novas propostas para ampliação do projeto no futuro. 

  • O entusiasmo manifestado em participar do projeto. 

  • O contato realizado com as crianças 

  • A construção do vídeo sobre o projeto em Manaus ? que pode servir para sensibilização de outros jovens, a capacitação e para informar os políticos pela ação desenvolvida.

  • A preocupação de relacionar o projeto com todas instituições. 
O Pólo vem desenvolvendo as atividades que consideramos necessárias para a construção mais sólida e crescente do Projeto Mudando a História.
Élie Bajard, doutor em lingüistica, professor convidado da Universidade de São Paulo, construiu uma experiência internacional de formação de professores no campo da aprendizagem da escrita através de vários países como a França, Argélia e Marrocos. No Brasil, como adido lingüistico da Embaixada da França, criou com o Ministério da Educação o Projeto Pró-Leitura. Élie está desenvolvendo uma abordagem da escrita enraizada na prática da literatura infantil e juvenil que está detalhada nos seus livros: Ler e dizer (Cortez Editora) e Caminhos da Escrita (Cortez Editora). Esta experiência entrou em convergência com o Projeto Mudando a História, da Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança e do Adolescente, para a construção da avaliação das aprendizagens da escrita construídas pelas crianças e jovens beneficiados neste projeto.
Mediadores de Leitura  
A Secretaria Municipal da Infância e da Juventude Seminf, tornou-se parceira do Projeto Mudando a História em junho de 2002. 270 agentes jovens foram capacitados a mediadores de leitura sendo que 43 tornaram-se multiplicadores do projeto. A Seminf beneficia através das mediações de leitura realizado pelos agentes jovens mediadores as seguintes instituições:  
Onde estamos mediando?  

  • Escola Municipal Amine Daou Lindoso ( Zona Sul ) ás quintas-feiras

  • Centro Educacional Francisca Gomes Mendes ( Zona Oeste ) ás quartas e quintas-feiras

  • Escola Estadual Machado de Assis( Zona Sul ) ás terças e quintas-feiras

  • Escola Municipal Maria Fernandes ( Zona Oeste ) ás quartas-feiras

  • Centro Municipal de Educação Infantil. Padre Cláudio Dalbon ( Zona Norte ) ás quintas-feiras

  • Escola Estadual Roxanna Pereira ( Zona Sul ) ás terças-feiras

  • CEMEI - Centro Municipal de Infantil Humberto Calderaro Filho ( Zona Leste ) ás segundas e terças-feiras

  • CEMECRE - Centro Educacional Maria Edna Cantoário Reis ( Zona Oeste ) ás quartas-feiras

  • Centro Municipal de Educação Infantil Tancredo Neves ( Zona Leste ) ás terças e quintas-feiras

  • Escola Municipal Beatriz Swerner ( Zona Leste ) ás quartas-feiras

  • Pastoral da Criança Menino Jesus Praga ( Zona Centro Sul ) aos 3º sábados de cada mês

  • Secretaria Municipal de Educação ? SEMED / Parintins aos sábados

  • Largo São Sebastião (atividade Pólo) aos domingos