A proposta do blog é reunir trabalhos e ideias que fomentem o incentivo a leitura.
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sexta-feira, 13 de maio de 2011
"Um Bom Livro" - Xuxa Só Para Baixinhos 8
Letra da Música "Um Bom Livro"
A leitura é o nosso avião,
Rumo a imaginação,
Um bom livro faz a gente viver,
Aventuras e ação.
Somos piratas da perna de pau,
Navegando em um vendaval,
Naquela ilha queremos parar,
Nosso navio vamos atracar.
A leitura é o nosso avião,
Rumo a imaginação,
Um bom livro faz a gente viver,
Aventuras e ação.
Tenho poderes, posso voar,
Eu tenho a força,
(Socorro! Socorro!)
Vou te salvar.
Sou um duende,
Você também,
Da natureza,
Nós cuidamos bem.
Toda alegria,
Da nossa floresta,
Vem do amor,
Que a gente tem.
A leitura é o nosso avião,
Rumo a imaginação,
Um bom livro faz a gente viver,
Aventuras e ação.
A leitura é o nosso avião,
Rumo a imaginação,
Um bom livro faz a gente viver,
Aventuras e ação.
Vivo na selva,
Com o Tarzan,
Mas essa história,
Conto amanhã.
(Vem amor)
Circulação de livros
Talita Rustichelli
vida@folhadaregiao.com.br
Projeto "Pontos de leitura" ganha novos espaços, na praça João Pessoa e pronto-socorrodo bairro São João; a ideia é distribuir exemplares para que as pessoas criem o hábito de ler.
Na maioria das vezes a literatura precisa ir até o público para fisgá-lo definitivamente. Projetos para proporcionar o acesso à leitura têm sido popularizados no mundo todo, como o BookCrossing (em português, cruzamento de livros), que surgiu nos Estados Unidos e chegou a outros países, inclusive ao Brasil.
A ideia deste projeto, por exemplo, é distribuir livros em bancos de praças e outros locais, para que as pessoas possam levar, ler e depois colocar de volta em circulação nas ruas, a fim de que outros possam fazer o mesmo.
Em Araçatuba, para fortalecer o hábito da leitura, a Secretaria de Cultura do município implantou o projeto "Pontos de Leitura". Em lugares estratégicos da cidade, são disponibilizados gratuitamente livros, revistas, jornais e afins, para que a população possa ler, levá-los, trocá-los ou devolvêlos, sem necessidade de nenhuma burocracia.
Ontem, o pronto-socorro municipal localizado no bairro São João ganhou um Ponto de Leitura. "Não é necessário fazer nenhum cadastro, tanto para utilizar quanto para doar. Quem quiser doar, basta deixar o material na estrutura que está identificada com uma placa", explica o secretário de cultura, Hélio Consolaro.
A autônoma Aliete Oliveira Cruz, 49 anos, ficou contente ao saber do projeto e ficou estimulada a fazer doações. Enquanto aguardava uma amiga ser medicada no pronto-socorro, pegou um livro e embarcou na leitura. "Eu não conhecia o projeto e era inesperado encontrar livros disponíveis aqui. É ótimo porque ajuda a colocar a mente para funcionar e incentiva as pessoas que estão ali em um momento 'ocioso' a lerem".
Na semana passada, outro novo ponto foi instalado na Praça João Pessoa, em parceria com uma comerciante apaixonada pela leitura, Madalena Carlini, 69, e com a empresa Chade & Cia, que cedeu a estrutura, uma geladeira com porta de vidro e sem motor. A estrutura foi chumbada no local no dia 28 de abril e os livros começaram a ser doados e disponibilizados a partir do dia 29.
SONHO
Madalena, que procurou a Secretaria de Cultura para propor uma parceria e foi responsável pela mobilização de alguns dos doadores, conta que tem neste projeto a realização de um sonho antigo. "Minha vontade é ver as pessoas lendo, aproximá-las do mundo da leitura. Adoro ler e creio que quem se aproxima realmente desse universo fica fascinado", afirma.
Segundo Consolaro, a cidade possui outros três pontos de leitura: um no pronto-socorro municipal do bairro Santana, um na Prefeitura (sala de espera da Secretaria da Fazenda) e outro na recepção da Secretaria de Cultura. "A ideia é expandir ainda mais o projeto, levando-o a outros bairros da cidade. Interessados em apoiar com doações de livros ou estruturas podem procurar a Secretaria", diz.
Único compromisso é passar o livro adiante ou deixar em lugar público
Diferente do projeto araçatubense Pontos de Leitura, o BookCrossing não se limita a ação de "libertar" livros na rua. Os livros são registrados no site (no Brasil, http://www.bookcrossing.com.br/) e recebem um número de identificação, o que permite uma forma de rastreamento.
Depois, o doador avisa quando e em que parte da cidade irá deixar o livro. O objetivo é que alguém o recolha e, através do número de identificação, registre no site que o encontrou. A inscrição no site é gratuita.
Derivado do BookCrossing, no Brasil foi implantando o Livro de Rua (http://www.livroderua.com.br/), cuja proposta é circular os livros também em áreas carentes e ainda instalar as "bibliotecas da liberdade" nesses locais.
Assim como o projeto araçatubense "Pontos de Leitura", qualquer pessoa pode levar quantos livros quiser, sem necessidade de fazer cadastro e sem a obrigação de devolver os exemplares. Porém, o único compromisso é passar o livro adiante ou deixar em lugar público.
O projeto teve início em 2009 no Rio de Janeiro, sob coordenação do Instituto Ciclos do Brasil, e se expandiu para outras cidades, como São Paulo, onde chegou neste mês de abril, Belo Horizonte e Brasília.
Em Brasília, há também o projeto Parada Cultural, a partir da iniciativa de um comerciante, que instalou inicialmente uma pequena biblioteca em seu açougue. Outras minibibliotecas estão disponíveis em pontos de ônibus da cidade.
Fonte: Folha da Região
Edmir Perrotti: "Biblioteca não é depósito de livros"
Idealizador de redes de leitura em escolas diz que é função do educador ajudar os estudantes a processar as informações do acervo
Márcio Ferrari
Desafios como a criação do hábito da leitura entre crianças e adolescentes, as novidades tecnológicas, a ampliação do acesso ao ensino e a sofisticação do mercado editorial levaram o professor Edmir Perrotti a uma nova concepção de biblioteca escolar e de seu papel pedagógico.
Com formação em Biblioteconomia - área que combinou com seu interesse em Educação -, ele é docente da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, conselheiro do Ministério da Educação para a política de formação de leitores e autor de livros infantis.
Perrotti orientou a implantação de redes de bibliotecas inovadoras nas escolas municipais de São Bernardo do Campo, Diadema e Jaguariúna, no estado de São Paulo. Nessas estações de conhecimento, como ele prefere chamá-las, a aprendizagem é estimulada pela presença de suportes tecnológicos, como o computador e a televisão.
Em um ambiente que convida as crianças a descobrir e aprofundar o prazer da leitura, os livros convivem com outras linguagens, como a do teatro. "Assim trabalha-se o contato com as informações e também o processamento delas", diz. Ex-professor da Universidade de Bordeaux, na França, e de escolas de Ensino Fundamental no Brasil, além de editor e crítico literário, Perrotti concedeu a seguinte entrevista a NOVA ESCOLA.
O que deve orientar a constituição de uma biblioteca escolar?
Edimir Perrotti Ela não pode restringir-se a um papel meramente didático-pedagógico, ou seja, o de dar apoio para o programa dos professores. Há um eixo educativo que a biblioteca tem de seguir, mas sua configuração deve extrapolar esse limite, porque o eixo cultural é igualmente essencial. Isso significa trazer autores para conversar, discutir livros, formar círculos de leitores, reunir grupos de crianças interessadas num personagem, num autor ou num tema. A biblioteca funciona como uma ponte entre o ambiente escolar e o mundo externo.
De que modo se realiza essa abertura para fora da escola?
Perrotti O responsável pela biblioteca tem o papel de articular programas com a biblioteca pública e fazer contato com a livraria mais próxima, além de estar atento à programação cultural da cidade. Há uma série de estratégias possíveis para inserir a criança num contexto letrado. A biblioteca precisa ter outra finalidade que não seja simplesmente a de um depósito de onde se retiram livros que depois são devolvidos. Nós não trabalhamos mais com a idéia de unidades isoladas. O ideal é formar redes, um conjunto de espaços que eu chamo de estações de conhecimento, cujo objetivo é a apropriação do saber pelas crianças.
Qual é a necessidade das redes?
Perrotti Com o atual excesso de informações e a multiplicação de suportes, nenhuma biblioteca dá conta de todas as áreas em profundidade, até porque não haveria recursos para isso. O trabalho tem de ser compartilhado com outras unidades da rede, por meio de mecanismos de busca informatizados. Por exemplo: a escola guarda um pequeno acervo inicial sobre arte, mas, se o interesse for por um conhecimento aprofundado, recorre-se a uma biblioteca especializada na área. Hoje não há mais condições de manter o antigo ideal de bibliotecas enciclopédicas, que abarcavam todas as áreas de conhecimento.
Quem deve ser o responsável pela biblioteca?
Perrotti Processar as informações e criar nexos entre elas é um ato educativo. O responsável, portanto, é um educador para a informação, que nós chamamos de infoeducador, um professor com especialização em processos documentais. Uma rede de bibliotecas tem uma plataforma de apoio técnico-especializado, que é a área do bibliotecário, um especialista em planejamento e organização da informação. Junto com ele trabalham os educadores, que são especialistas em processos de mediação de informação. Dar acesso ao acervo não basta para que o aluno saiba selecionar e processar informações e estabelecer vínculos entre elas.
De que modo se estimula a autonomia numa biblioteca?
Perrotti É preciso desenvolver programas para construir competências informacionais. Isso inclui desde ensinar a folhear um livro — para crianças bem pequenas — até manejar um computador. Antigamente imperava a idéia de que os adultos é que deveriam mexer nas máquinas e pegar os livros na estante. Hoje deve-se formar pessoas que tenham uma atitude desenvolvida, não só de curiosidade intelectual mas de domínio dos recursos de informação. Essa é uma questão essencial da nossa época.
Por que a escola tem falhado em ensinar os alunos a processar informações?
Perrotti Porque se acredita que basta escolarizar as crianças para formar leitores. De fato, a escola tem o papel de construir competências fundamentais para a leitura, mas isso não quer dizer formar atitude leitora. Hoje, o que distingue o leitor das elites do leitor das massas é que o primeiro tem um circuito de trocas. Ele participa do comércio simbólico da escrita, da produção à recepção: sabe o que é publicado, informa-se sobre os autores, encontra outros leitores etc. Já a criança da escola pública muitas vezes não tem livros em casa e só lê o que o professor pede. Ela não tem com quem comentar. Está sozinha nesse comércio das trocas simbólicas.
Qual é o mínimo necessário para o funcionamento de uma biblioteca escolar?
Perrotti Estou convencido de que é a pessoa que trabalha ali, mediando relações entre a criança, a informação e o espaço. Não precisa ser alguém superespecializado, mas que compreenda a função da escrita e da imagem e que saiba qual é a importância daquilo na vida das pessoas. Assim, a compra de livros seguirá um critério de escolha consciente. É claro que é bom construir um ambiente agradável e funcional, mas não é indispensável, porque a leitura não depende das instalações da biblioteca; ela se dá em qualquer lugar.
Quem deve escolher o acervo?
Perrotti Nós temos trabalhado um modelo em que a escolha é feita por todos os que participam dos processos de aprendizagem: professores, coordenadores, diretores e alunos. Formulários são colocados à disposição para que sejam feitas sugestões de compra. O infoeducador não só coleta esses dados como divulga, por meio dos quadros de aviso, as informações sobre lançamentos que saem na imprensa e na internet. Depois, ele vai analisar os pedidos, separá-los em categorias — livros importantes para os projetos em andamento, leituras de informação geral ou complementares etc. — e, com base nessas listas, a escolha é feita de acordo com os recursos disponíveis.
Como comprometer o aluno com a organização e a manutenção da biblioteca?
Perrotti Ele participa da escolha do acervo e também pode estar pessoalmente representado nele, por meio de livros que ele escreve e de documentos de sua passagem pela escola. Uma parte do acervo vem da indústria cultural e outra é produzida internamente, com documentos e relatos referentes à história da instituição. Formar um repertório de dados locais cria relações com as informações universais.
Descreva a biblioteca escolar ideal.
Perrotti É aquela que possui todo tipo de recurso informacional, do papel ao equipamento eletrônico. O espaço é construído especialmente para sua finalidade e de acordo com quem vai usar. Se o público majoritário é infantil, a disposição dos móveis e do acervo deve permitir que a criança se mova com autonomia. É preciso ser um local acolhedor, mas que empurre rumo à aventura, porque conhecer é sempre se deslocar.
Por que se diz que os jovens não gostam de ler?
Perrotti Os interesses mudam na passagem da infância para a adolescência e a leitura que era feita antes já não interessa tanto, mesmo porque cresce a concorrência de outras mídias. Essa é uma transição crítica e ainda não foram definidas ações específicas para promover a leitura nessa faixa etária. Os adolescentes identificam o livro com as tarefas da escola, que reforça essa percepção porque raramente sai da abordagem instrumental da leitura. E no âmbito social, entre os amigos, a leitura não está presente. Mesmo assim, essa fase é a das grandes paixões. Portanto, há um espaço enorme para promover a leitura entre os jovens.
É possível formar leitores por meio de políticas públicas?
Perrotti O problema é saber que caráter elas têm. Eu não concordo com estratégias que pretendam ensinar os alunos a gostar de ler. A função do poder público é criar ambientes que dêem condições de ler, tentar despertar as crianças para as potencialidades da escrita, prepará-las para as competências leitoras — enfim, providenciar para que seja constituída a trama que sustenta o ato de ler. Mas gostar de ler é questão de foro íntimo, não de políticas públicas.
A escola deve obrigar um aluno a ler livros e freqüentar bibliotecas mesmo que ele não goste?
Perrotti Não se pode deixar de perguntar por que esse aluno não gosta de ler. Ele teve uma relação negativa com a situação de aprendizagem? Ninguém lê em casa? Tem dificuldades de visão? Não domina o código? Não tem circuitos culturais a sua volta? Tudo isso pode e deve ser trabalhado. Agora, se ele teve apoio para experimentar a prática da leitura e prefere fazer outras coisas, não adianta forçar. É claro que não estou falando da leitura funcional, indispensável para a vida diária. Nesse caso, é obrigatório negociar com a criança o "não querer ler".
É melhor ler literatura de má qualidade do que não ler nada?
Perrotti A pergunta já supõe que de fato existe uma literatura de má qualidade. Há leitores que são capazes de voar longe com um suposto mau livro, assim como há muitos trabalhos escolares que se utilizam de grandes textos, mas sufocam o interesse de aprender. Por outro lado, não é possível deixar o gosto do leitor imperar sozinho. É fundamental operar mediações entre as crianças e uma literatura que tenha condições de produzir significações importantes.
O uso do livro em sala de aula está em decadência?
Perrotti Ele está aquém do que gostaríamos que fosse e também do que seria necessário. Mesmo assim, o livro está entrando nas escolas numa medida que não entrava, nem que seja por meio das distribuições feitas pelo Ministério da Educação e as secretarias estaduais e municipais. Há 50 anos nem sequer se sonhava com isso no Brasil. O problema maior é o de mau uso desses livros, com estratégias impositivas de leitura. Muitas vezes falta penetrar no avesso dos textos com as crianças e realmente mergulhar numa viagem de conhecimento, de imaginação.
Até que ponto as bibliotecas levam ao hábito da leitura?
Perrotti Eu participei de uma pesquisa feita com as crianças usuárias das redes de biblioteca que ajudei a implantar no estado de São Paulo. Queríamos saber se elas estão incorporando a leitura a sua prática de vida e não apenas como lição de casa. Qual é a constatação? Houve um grande avanço e as crianças se mostram muito mais familiarizadas com os livros, mas infelizmente ainda não usam as novas competências para trocas culturais. Por exemplo: não têm o hábito de comprar e emprestar livros. A prática escolar não se transferiu para a prática cultural.
Há perspectiva de mudança para essa situação?
Perrotti Eu vejo uma tendência de funcionalização. Os meios eletrônicos trouxeram, aparentemente, uma presença maior da escrita, mas o uso que se faz dela é cada vez mais abreviado. Vai-se transformando a língua no elemento mínimo para a transmissão da mensagem. Nós estamos a anos-luz de formar pessoas que, ao cabo do período de escolaridade, vão se relacionar com a escrita como uma ferramenta de conhecimento e de experiências estéticas, numa dimensão não pragmática. Restringir as ferramentas de linguagem a sua função utilitária é retirar de nós mesmos aquilo que nos humaniza — a capacidade de dizer de uma forma articulada. As novas bibliotecas têm de enfrentar essa questão.
Fonte: Nova Escola
Desordenar uma Biblioteca: comércio & indústria da leitura na escola
Miguel Sanches Neto
Conta uma lenda que, décadas atrás, certos professores puritanos de determinada universidade do Paraná, movidos por um zelo extremo, saíam, armados de impiedosas tesouras, à caça de trechos imorais dos romances. Reza ainda esta lenda que muitos livros (principalmente os de Eça de Queirós) foram “corrigidos” pelos zelosos censores.
Esta pequena história pode nos parecer bizarra. Quem hoje censuraria o moderado Eça? No entanto, diversas vezes somos surpreendidos exercendo outros tipos de censura, também injustificáveis.
Uma verdadeira biblioteca, ainda mais quando se trata de uma biblioteca escolar, deve conter todo tipo de livro. É a variedade e não a especialização que define a qualidade de um acervo. Todos os livros, dos comerciais aos sérios, devem aprender a conviver, pacificamente ou não, nas estantes. É fundamental que não tentemos impor nossas preferências, uma vez que a clientela à qual eles são destinados é um feixe de destinos virtuais. A função pedagógica que nos cabe é estimular o florescimento destas virtualidades e não tentar conduzi-las para um caminho que julgamos o melhor.
Os ditos livros de estudo, os que têm uma função reconhecida na formação do aluno, precisam estar misturados com os de ficção. Em se tratando de literatura (no sentido mais amplo da palavra), todas as divisões são restritivas. A biblioteca, como um espaço aberto, tem, desde que concebida de forma menos tradicional, o papel de apagar estas fronteiras que são movediças. José Saramago, em uma passagem de O ano da morte de Ricardo Reis (Cia. das Letras, 1993), deixa reflexões valiosas para o tema que nos ocupa: “Um homem deve ler tudo, um pouco ou o que puder, não se lhe exija mais do que tanto, vista a curteza das vidas e a prolixidade do mundo. Começará por aqueles títulos que a ninguém deveriam escapar, os livros de estudo, assim vulgarmente chamados, como se todos o não fossem” (p. 141). Concebendo todos os tipos de livros como portadores de conhecimento, de graus e espécies diferentes, estaremos evitando cair no equívoco de julgar que tais ou tais obras são mais (ou menos) adequadas ao leitor mirim.
A biblioteca escolar que se queira eficaz tem que se assumir como uma infinidade de janelas abertas para o mundo e transmitir ao aluno o direito de escollher por qual delas quer ele olhar. Os efeitos da leitura não podem ser previamente defiidos de pelo educador. Ler é sempre uma atividade cujos resultados são imprevisíveis.
Mas a formação de uma biblioteca escolar não se restringe à buca da heterogeneidade. Ela está também diretamente relacionada com alguns aspectos das instalações físicas que, não raro, são fruto duma concepção equivocada da função deste espaço. A biblioteca é sempre encarada como um anexo da escola. Mas, na verdade, ela é a sua alma. Para se atingir este local é necessário, na grande maioria das vezes, empreender uma aventura digna de Indiana Jones. Vejamos com poderia ser o “Breve guia para uma viagem à biblioteca”:
Entre no quarto corredor à esquerda, ande 20 metros, vire à direita, passe ao lado do cão de guarda que vigia a residência do caseiro, pule a pequena valeta por onde escorre a água da chuva (cuidado!, quando molhado o terreno é escorredio), ande mais 50 metros e então encontrará um barracão abandonado, que serve de depósito, atravesse-o de uma extremidade à outra, no fundo descobrirá uma porta e nela deve haver (se ainda não foi arrancada) uma placa dizendo: Biblioteca. Entre sem bater e fique em silêncio.
A biblioteca não pode ser vista como um lugar secundário do estabelecimento escolar. Ela é o cerne do ensino e como tal deve ocupar uma localização privilegiada. Tomemos como exemplo o comerciante que tem que abrir uma empresa. E não escolherá um beco sem saída, uma rua morta ou um porão para instalar seu negócio. Terá, isto sim, todo o cuidado de ver qual é a região mais movimentada e mais destacada para o seu estabelecimento. Ora, a biblioteca, como todo ponto comercial, tem que ser instalada levando em consideração estes pré-requisitos. Para que possa funcionar adequadamente, é importante que se avizinhe dos lugares mais movimentados durante os intervalos ou na entrada e saída dos alunos, que tenha suas portas dando para os pátios, estabelecendo assim uma comunicação direta com o espaço do lazer.
O que falta às pessoas que cuidam dessas bibliotecas (não ouso chamá-las de bibliotecárias) é um certo ardil comercial. Uma livraria, para vender seus produtos cria mecanismos de divulgação, de excitação da leitura. A biblioteca escolar é obrigada, se quer ter um papel ativo, a também se valer de artimanhas mercadológicas: criar vitrines (mesmo que sejam improvisadas), levando assim o livro para fora da biblioteca (para os lugares onde os alunos ficam quando não estão em aula), criar a lista dos livros de seu acervo que são os mais lidos etc. Um recurso bem simples (embora exija certa movimentação) é a mudança de parte dos volumes e da funcionária para o pátio. Os livros podem ficar expostos em algumas estantes destinadas a este fim, ou em bolsas de plástico transparente fixadas na parede, ou mesmo em panos estendidos no chão. A funcionária vai fazer o empréstimo ali mesmo, fornecendo ao aluno o acesso ao acervo de forma mais atrativa. Dessa maneira, poderíamos definir esta prática, continuando o paralelo empresarial, como uma sorte de show room.
Assim estaremos mudando o trânsito de mão única que obriga o leitor a ir até a biblioteca. É mais produtivo levar o livro até o leitor do que o inverso. Qualquer promotor de vendas sabe disso. Sou frontalmente contra, por experiência própria, as visitas obrigatórias.
Não pode ser esquecido que a biblioteca escolar tem uma função muito específica. Devemos redefinir o seu conceito tradicional de arquivo. Na escola, ela não tem a tarefa de catalogar e preservar livros. Não é um santuário onde devemos entrar em silêncio. É, isto sim, um labirinto vivo, palco e cenário de destinos múltiplos. Cada um deve percorrê-la da sua forma. O que será encontrado é de sua inteira responsabilidade. A funcionária deve apenas se manifestar quando solicitada. Sua presença tem que ser virtual. Não é ela a vigia dos livros, nem a inspetora de alunos, nem a mediadora oficial e onipotente entre o leitor e o livro.
Indo contra a concepção de arquivo, penso que a biblioteca deve ser uma livraria lúdica. É infrutífera toda e qualquer tentativa de separar, nas prateleiras, obras por género, período, país de origem do autor etc. Esta divisão visa a facilitar a localização dos volumes. Em última instância, serve apenas para diminuir o serviço da funcionária. Uma biblioteca pública, entretanto, não tem a função de servir aos funcionários, mas à sua clientela. Não estou querendo afirmar que os livros devam ficar jogados de qualquer maneira, mas sim que é contraproducente ordená-los meticulosamente por critérios altamente discutíveis. Vivemos um momento de completa indefinição de fronteiras entre ficção e história, conto e crônica, reportagem e conto etc. A biblioteca deve aceitar o parentesco entre as várias áreas, usando assim a palavra literatura na sua acepção mais ampla, tal como é feito nas áreas técnicas, onde se fala, por exemplo, na literatura sobre química orgânica. Literatura significa aqui tudo que foi escrito sobre.
A biblioteca escolar, já definida como o espaço da variedade, deve abolir estas fronteiras de área e de gênero e criar uma desordem mais produtiva, tal como, por exemplo, o agrupamento por faixa etária. Gostaria, no entanto, de pensá-la como uma coleção desordenada de livros. Acho que é a única forma possível de tentar ressuscitar a leitura na escola.
Se olharmos com atenção para as estantes onde centenas e centenas de volumes deixam à mostra apenas as suas lombadas, perceberemos que eles estão em gavetas mortuárias. A ordem e a classificação matam os livros. Separam-nos dos leitores. As estantes são apenas prateleiras com objetos mortos. É a desordem que cria condições de se manusear os livros. É através dela que estes emergem e se mostram de corpo inteiro, deixando de ser uma lombada desbotada, perdida entre infinidades de outras lombadas semelhantes.
A desordem facilita o súbito encontro com o livro esquecido, é o advento de sua ressurreição. Só neste ambiente pode nascer uma vontade, um desejo de possuir o livro via leitura. Quero citar algumas passagens de um ensaio de Walter Benjamin chamado “Desempacotando minha biblioteca”. Aviso, entretanto, que vou descontextualizar estas passagens: “Estou desempacotando minha biblioteca. Sim, estou. Os livros, portanto, ainda não estão nas estantes; o suave tédio da ordem não os envolve” (p.227).
O colecionador que espelha em seu quarto os milhares de volumes tem plena consciência de que a ordem faz com que este mar de palavras se torne monótono. Mais ainda, ele convida os leitores a habitar este anticosmos: “devo pedir-lhes que se transfiram comigo para a desordem de caixotes abertos à força, para o ar cheio de pó de madeira, para o chão coberto de papéis rasgados, por entre pilhas de volumes trazidos de novo à luz do dia”. O que nos interessa neste trecho é a revitalização dos livros pela desordem. Eles ganham vida. Passam a ter uma existência mais individualizada, mostram suas caras. Diz ainda Benjamin sobre o ato de colecionar que “toda paixão confina com o caos”.
Sobre a posse dos livros, questiona: “Pois o que é a posse senão uma desordem na que o hábito se acomodou de tal modo que ela só pode aparecer como se fosse ordem?” Se toda biblioteca é formada por peças diversas, querer implantar uma ordem muito rígida acaba acomodando os livros a uma não-existência. Romper com a ordem é a tarefa do bibliotecário autêntico, pois assim estará criando novos hábitos.
Quero agora definir o sentido que dou às palavras desorganizar e desordem. Busco nelas uma acepção bem específica. Desordenar significa aqui (e somente aqui) romper com a morte, ressuscitar. Inverto, para ilustrar minha exposição, uma célebre de Jorge Luís Borges: desorganizar uma biblioteca é uma forma silenciosa de exercer a crítica. Biblioteca em desordem significa, para mim, livros fora das estantes tradicionais. Significa livros expostos e não arquivados.
Como deve ser então o espaço interno da biblioteca? Pretendo novamente estabelecer um paralelo com o mundo empresarial.
O dono de um supermercado sabe que o seu produto precisa ficar de frente para o consumidor. Esta também é uma regra para os livreiros. EXPOR o produto numa altura adequada para que se estabeleça o contato visual sem grandes esforços. É esta a lição que nos lega o comerciante.
Trazendo estas regras de marketing para a biblioteca escolar, podemos dizer que única função deste temido lugar é PERMITIR O CONTATO COM O LIVRO. Por isso as estantes têm que ser feitas de forma que o livro possa ficar cara a cara com o leitor. É claro que isso vai exigir um novo conceito espacial da biblioteca. Mas tal mudança é imprescindível para o funcionamento pleno das atividades pedagógicas da escola.
Uma solução mais barata é a utilização de mesas, onde os volumes ficam deitados, mas com a face virada para o leitor. Outra saída são as bolsas de plástico transparente, penduradas no teto mas próximas do chão. Ou ainda através de ripas, levemente inclinadas, parafusadas na parede.
Esta nova mobília deve estar aliada a um conceito outro de espaço. Toda biblioteca tem que ter duas partes distintas. Numa ficará o acervo itinerante, destina ao empréstimo. Nesta sala os alunos devem ficar à vontade. Nenhuma imposição de silêncio, nenhuma preocupação com o manuseio dos livros. O espaço tem que ser de liberdade. Na outra sala ficará, se houver, o acervo permante (enciclopédias, dicionários, atlas, revistas etc.) ou simplesmente servirá como sala de estudo. Aqui sim o silêncio deve ser cultivado.
Esta nova biblioteca vai se valer de um recurso utilizado pela indústria livreira para despertar o interesse do consumidor: as capas. O livro brasileiro é uma verdadeira obra de arte. A sua capa atrativa fisga o leitor. Colocar os livros em ordem, um ao lado do outro, em arquivos mortos, é assassinar a sua individualidade e o seu poder de conquista.
Na biblioteca que povoa meus sonhos, o livro não nos virará o rosto.
Fonte: Revista Leitura: teoria e prática nº 26. Campinas/Porto Alegre: ALB/Mercado Aberto, dezembro de 1995. Também publicado in Revista Literária Blau – Porto Alegre, v. 4, n. 20, p. 20-24, março de 1998.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Mães costuram leitura para os filhos
Matéria publicada em 24/04/2011
David Salsa
Repórter
Arapiraca (Sucursal) – O gosto pela leitura é incentivado cada vez mais cedo em Arapiraca. Um projeto-piloto está despertando nas mães dos alunos o amor pela leitura através de um ofício que a maior parte delas aprendeu com suas avós, a arte de costurar.
A iniciativa tem o objetivo de envolver as mães dos alunos com a produção de livros de panos e de materiais acessíveis às crianças que estudam nas escolas da rede municipal de ensino e, também das creches mantidas pela prefeitura.
As oficinas tiveram inicio no último mês de março, com a participação de 33 mães de alunos que estudam na Escola de Tempo Integral Zélia Barbosa Rocha, localizada no bairro Nova Esperança, na periferia da cidade.
No estabelecimento estudam cerca de 500 alunos e a idéia é que as mães das crianças aprendam a produzir os próprios livros.
ETAPAS
Nessa primeira etapa do projeto, duas educadoras-monitoras repassam os conhecimentos nas oficinas técnicas, enquanto uma contadora de estórias estimula a criatividade das alunas.
Como parte do trabalho, a prefeitura adquiriu três máquinas de costura e todo material, incluindo tecidos, linhas, agulhas e outros produtos necessários para a viabilização do projeto.
“Nossa proposta é incentivar a prática da leitura entre mães e alunos, com muita criatividade e imaginação, além, de , num futuro próximo, estimular a criação de uma cooperativa para a geração de renda com as mães que residem na comunidade”, revela a bibliotecária Wilma Nóbrega.
Ela também adianta que o projeto inclui a instalação de bebetecas em cada escola e nas creches, com o objetivo de estimular o gosto pela leitura em crianças de até cinco anos de idade.
Para Wilma Nóbrega, o projeto vai além do ato de costurar e produzir livros.
“ Essa iniciativa permite que as mães possam interagir com a educação de seus filhos e os filhos de outras pessoas, fortalecendo ainda mais o gosto pela leitura e, conseqüentemente, a qualidade do ensino e do aprendizado”, acrescenta.
À MÁQUINA
Arte da costura já está mudando histórias de vida em Arapiraca
A dona-de-casa Cicera Souza Moraes, 28, casada e mãe de um filho menor de nove anos, acredita que o projeto pode mudar a sua própria história.
Ela conta que, antes de fazer parte do projeto, sabia pouco da arte da costura. Cicera Souza Moraes também revela que os afazeres domésticos tomavam todo o seu tempo e não sobrava tempo para ler livros ou ouvir estórias.
“Agora, resolvi mudar a minha história. Estou aprendendo novidades e quero aproveitar essa oportunidade para fazer mais coisas e ganhar algum dinheiro com a arte da costura em livros e ajudar no sustento de minha família”, comenta a dona-de-casa.
Toda a produção de livros de pano, confeccionada pelas 33 mães da Escola Zélia Barbosa Rocha, será apresentada à sociedade de Arapiraca, no próximo sábado(30), em solenidade marcada para a Praça Luiz Pereira Lima, no centro da cidade.
Após o lançamento oficial do projeto, a idéia é levar a iniciativa para as outras sete escolas de tempo integral que funcionam na área urbana e, também, na zona rural do município.
Fonte: Tribuna Independente
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Livro ilustrado para que mesmo?
Não só de beleza vive um livro infantil com ilustrações. Ali tem história contada, arte representada e referência estética sendo construída
Um dos grandes fenômenos que acontece aqui literalmente no meu cantinho na CRESCER é o aumento da quantidade de livros infantis divulgados. Vocês nem imaginam como sou cercada de exemplares para todos os lados, o que me dá vantagens como mais armários, mais caixas, etc. Mas o melhor disso tudo é que nos últimos meses eu lutei para escolher os livros que saem na edição de CRESCER impressa. Vida dura esta minha...
E o mais impressionante é como a ilustração vem garantindo seu lugar. As referências hoje estão por toda a parte. Ah, não venha me dizer que não sabe o que é um bom livro. Porque vivemos – ainda bem – uma fase que vai além do “livro mais bonito” ou do “livro melhor produzido”. Hoje as belezas estão nas propostas, na criatividade da ilustração e, claro, no projeto gráfico.
E por que temos de celebrar essa atenção merecidamente dada ao pincel (lápis, carvão, o que seja) do ilustrador? Porque é uma maneira de todos nós termos melhores encontros com a arte. O que temos à disposição não é pouco. De traduções a premiados brasileiros – como Roger Mello, Eva Furnari, Fernando Vilela, Graça Lima - estamos diante de um leque que nos oferece muito mais do que opções: nos dão poesia, aguçam a imaginação e ampliam nossa referência estética, ou seja, as possibilidades que as artes plásticas nos provocam.
Passear por isso é tão importante quanto ler histórias com as quais a criança se identifique, se emocione, se divirta, se entenda. Os livros infantis hoje compensam nossa falta de contato com essas artes de um modo geral e precisamos deixar claro às crianças.
Se ainda é surpresa o que eu estou falando, dê um pulo em uma livraria mais próxima. Pegue um livro que chame a atenção. Acaricie a capa. Observe se é capa dura ou não, como é apresentado o título, o nome do escritor e do ilustrador, se a ilustração de dentro está na capa, se é repetição ou se é pensada para a capa. Folheie. Veja se as ilustrações também contam a história se o texto não existisse. Ou vejam como elas contam a história em parceria. Leiam o livro pelo olhar da ilustração.
Agora conto a vocês um fenômeno vivido em Massachusetts, Estados Unidos, na cidade de Brookline, que li no New York Times. Em uma determinada livraria de lá, os livros fartamente ilustrados estão “sobrando” na vitrine. A ponto de serem devolvidos às editoras. Segundo a reportagem, livros com “ilustrações chamativas, cores alegres, letras de tamanho grande e capa atraente vem perdendo espaço”. E, por isso, as editoras estariam reduzindo o número de lançamentos.
Isso não é tudo. Pior é o motivo: apesar da crise econômica ter sido um fator importante, diz o jornal que os pais começaram a pressionar os filhos em idade pré-escolar e primeira série para abrir mão dos ilustrados em favor de livros com mais textos. Estão de olho na escola, com avaliações cada vez mais rigososas. Ou seja, a pressão seria dos dois lados.
A quem as crianças podem recorrer? E quem disse que menos texto é mais “fácil” de ser lido? E ler os livros com mais texto, mais cedo, é uma espécie de competição? E para chegar onde? Afinal, o que pretendemos realmente ao dar um livro para uma criança ler? Que ela leia o mais cedo possível o máximo de palavras? Ou que ela se apaixone e descubra o prazer de ler?
Cristiane Rogerio é editora de Educação e Cultura da Crescer e adora se perder entre os livros.
Fonte: Revista Crescer
Amigo-secreto de livro infantil?
Já pensou nessa ideia? Ótima maneira de incentivar a leitura a seu filho (e ao filho dos outros)
Não adianta: aproxima-se o Natal e a gente pensa mesmo em presentes e, claro, os tantos amigo-secretos por aí. E eu, claro, venho aqui chamar atenção para mais um: amigo-secreto de livros infantis, para serem trocados entre as crianças!
A ideia foi inspirada em um e-mail muito divertido da leitora Mirtes Aquino, mãe de uma menina de 4 anos. Ela contou que a filha terá um amigo-secreto na escola e que ela sugeriu que a menina desse livro de presente. Amei. Mas e que tal se a brincadeira fosse só com livros? O melhor disso é que poderia acontecer em qualquer época do ano. E que não necessariamente precisaria ser um presente ou um livro novo. Pode ser apenas uma nova forma de trocar os que temos em casa com os dos amigos. Só que com a graça do sorteio, a delícia da surpresa e o prazer de ler algo que alguém muito próximo gostou e indicou. Vai me dizer se não é um hábito bem bom de começar cedo, hein? E a festa pode continuar com uma leitura coletiva, as crianças maiores podem ler para menores!
E quais os benefícios desta troca? Bem, ler é um ato solitário, claro. Mas conversar sobre o livro é uma das coisas mais gostosas de se fazer. A criança pode começar a desenvolver senso crítico com a opinião dos colegas, que também podem apontar um detalhe que ele não tinha notado. Vai aprendendo que, sim, mesmo na cultura, “gosto não se discute” (ô coisa boa de aprender logo!). E, óbvio, a criança passa a treinar algo que não devemos perder nunca: formas de demonstrar afeto. O quê? Se livro tem a ver com amor e amizade? Mas claro!
Cristiane Rogerio é editora de Educação e Cultura da Crescer e adora se perder entre os livros.
Fonte: Revista Crescer
A lista de livros da escola
As listas de livros “obrigatórios” da escola são o alvo sempre quando a discussão é incentivar crianças e jovens a ler. Mas o que temos de bom para falar disso?
Esta semana minha sobrinha Letícia, de 7 anos, deu uma parada “superestratégica” em minha biblioteca particular de livros infantis para pegar emprestado o fabuloso A Velhinha Que Dava Nome às Coisas, escrito por Cynthia Rylant e ilustrador por Kathryn Brown, lançado aqui pela editora Brinque-Book. O motivo era ainda melhor: estava na lista feita pela escola para montar a biblioteca de classe do primeiro trimestre. Fiquei muito feliz porque é um livro que amo muito (veja a resenha no Livros Pra Uma Cuca Bacana) e que está inaugurando na vida da Letícia a lista de “leitura obrigatória” da escola, o que me faz pensar em como esta relação precisa ser cuidada. Muito cuidada.
Este foi um dos temas da minha primeira conversa com a ilustradora e escritora Eva Furnari, em 2007. Perguntei a ela sobre o fato de se obrigar uma criança a ler, e se isso seria um estímulo ou desestímulo pelo amor pela leitura. Ela disse: “A gente tem que ter uma ordenação, disciplina, se não ela não realiza nada na vida sem autodisciplina. Não acho ruim ser obrigado a ler quatro livros por ano. Mas tem que ver caso a caso. Vai ter livro que é inadequado à idade, tem que pensar nas formas de avaliação... Sempre depende do livro, do professor, da escola, do aluno.” Ou seja, para Eva, a questão é manter o ritmo da leitura e, claro, tomar cuidado com a forma. Fez-me lembrar um encontro que participei ano passado, promovido pela Editora WMFMartins Fontes, em que o professor de literatura infantil da USP José Nicolau Gregorin Filho disse uma frase bem interessante. Para ele, quando pensamos no papel do professor no incentivo ao prazer pela leitura, temos que pensar que a tarefa é árdua. Pois o amor pela leitura, é o mesmo amor pelo teatro, pelo cinema, pela música... é da característica de cada um. Gosto não se ensina. “Se você incentivar o hábito de ler já está bom demais!”, diz Gregorin Filho.
O que fazer, então? Dar oportunidades. Esta é a principal função de um educador, seja ele pai, mãe, professor, avó, tio. E insistir nelas, claro. Tem que ter treino, tem que ter disciplina. Tem que fazer parte do dia. Agora, o como fazer é que pode ser sempre melhorado. A promessa da escola à Fabiana, mãe da Letícia, é de que o livro – e os outros que outros alunos vão levar durante o ano – será lido junto, por ela, em sala de aula. Ou seja, degustado em grupo. Em casa, você pode sempre fazer o mesmo. A leitura pode ser associada à parte boa do dia e, mais para frente, conforme os livros ficarem mais densos e profundos, a criança pode ir se acostumando a sempre estar disposta a experimentar. E entender que para ter o livro dentro de si precisa de tempo e, para conseguir tempo (principalmente hoje em dia), é necessário esforço. Entendido isso, bom leitor será. E acompanhem o que ele vem lendo na escola: será uma aprendizado para os dois e uma oportunidade de divulgar algo que vocês tenham gostado.
Cristiane Rogerio é editora de Educação e Cultura da Crescer e adora se perder entre os livros.
Fonte: Revista Crescer
Livros para passear
Na bolsa, na mochila, na mão... o que vale é que eles passeiem junto com a criança
Estive dias atrás na cidade de Nuremberg, na Alemanha, para conferir a Feira Internacional de Brinquedos que eles fazem por ali. Andei pouco pela cidade mas acabei dando sorte de no dia que tive de esperar “na rua” o horário de ir para o aeroporto, ser justamente o dia que o sol resolveu aparecer depois de uma semana coberto por nuvens e neve.
Era um domingo e a cidade ganhou outras cores além do amarelo do astro-rei: estava nas roupas, nos olhares e sorrisos das crianças nas ruas, enfrentando as baixas temperaturas do rigoroso inverno europeu tanto quanto eu. Andei pelas ruas, onde o comércio todo estava fechado e sobrava somente cafés e, pasme, sorveterias! Bem, o que isso tem a ver com livros? É que em uma parada em uma cafeteria, vi uma família gigante – e linda – de pais jovens e crianças com livros nas mãos. Os pais lendo histórias para os filhos ali, no meio do lugar, da forma mais natural possível. Sei que a Alemanha tem uma tradição com leitura, mesmo assim aquela foi uma cena marcante, clara.
Pensei em ter, então, esta conversa com vocês. Dias atrás presenteei a fofíssima Helena, filha da Daniela Tófoli que trabalha aqui comigo, com o livro O Que Tem Dentro da Sua Fralda, de Guido van Genechten, lançado aqui pela Brinque-Book. No auge de seus quase dois anos ela faz questão agora de levá-lo a todo lugar: casa dos avós, restaurante, parque e, claro, para a escola. A Malu Echeverria, editora deste site, tem um bebê de quase 1 ano, Gael, e já está fazendo isso virar um hábito também. Quando sai de casa com o filho, coloca na bolsa um livro seja qual destino for. Claro que precisamos mesmo é de opções de edição em tamanhos pequenos. Pois mala de mãe a criança... nossa!
São atitudes simples como esta que podem criar a relação do livro como companheiro da criança. Eu quando viajo sempre levo. Nem sempre leio, é verdade, tudo que quero. Mas preciso de um comigo, quase como um objeto de transição! Só vai fazer bem a vocês!
Cristiane Rogerio é editora de Educação e Cultura da Crescer e adora se perder entre os livros.
Fonte: Revista Crescer
Este livro é bom?
"A gente lê, relê, se farta de resenhas (as da CRESCER, hein?), tenta conhecer os escritores e ilustradores, mas a pergunta sempre nunca nos deixa: afinal, o que é um bom livro para criança?
Desde que nascemos passamos a experimentar produtos culturais, seja na música, na literatura, cinema, artes plásticas, etc. Se nos for permitido, muito cedo já podemos ter opiniões sobre assunto e começar a trilhar nossas escolhas. E você, pai e mãe “modernos”, ficam na maior dúvida: sigo aqui a dica da Cristiane Rogerio para escolher os próximos livros do meu filho ou deixo que ele compre aquele lá do final da prateleira, que eu nem acho tão bom mas, tem o tal bicho que ele adora.
Faça-se perguntas, antes. O que você espera de um livro para o seu filho? Que ensine algo didaticamente? Que tenha moral no final? Será que ele tem que ser “bonitinho” ou fácil à primeira olhada? Poderia falar apenas de “coisas” boas e alegres?
Ou será que o livro bom para o seu filho deveria ser um que o emocione, que o divirta, que seja inesquecível, que não subestime a capacidade de discernimento, compreensão e sensibilidade da criança, seja de qual idade for.
Para mim, livro bom para criança é livro de boa qualidade. Agora, como a gente descobre isso? Fuçando. Você e seu filho. Desde bebê. Pode começar por uma mordida ou uma boa molhada nele durante o banho. Depois ele pode aprender a ler com as mãos, sentindo a textura das páginas, o contorno dos desenhos, abraçando. Mais tarde, ele se envolverá com as letras, a junção delas, o ritmo, a dança que elas fazem pelas boas edições. E tudo isso sempre guiado por você que, lendo desde cedo para o seu filho, vai fazer esta descoberta pelos gostos e preferências se transformar em um prazer contínuo.
Cristiane Rogerio é editora de Educação e Cultura da Crescer e adora se perder entre os livros.
Fonte: Revista Crescer
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Da capa para dentro do livro: estratégias para enredar o leitor na história...
Peter O’Sagae
Mestre em letras pela Universidade de São Paulo (USP)
Tem coisas que descobrimos aos poucos — e isso é bom, porque é garantia de que vamos continuar aprendendo... Mas tem coisas que aprendemos tão rapidamente que até mesmo se torna complicado para descobrir o que fizemos para fazer tudo o que fazemos! E com a leitura também acontece assim. Um dos objetivos da nossa oficina é, então, tentar driblar o tempo, congelá-lo, quem sabe fotografá-lo, para entender o que vai acontecendo quando estamos soltos, lendo um texto.
Esse exercício nasceu de minhas experiências como professor de Literatura Infantil e de Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa e como leitor dessa mesma literatura e de algumas teorias que existem por aí. Um leitor que se sente participativo, responsável pela construção de sentidos de um texto, um co-autor. Quem pensa tudo isso, poeticamente melhor do que eu, é Bartolomeu Campos Queirós (1999)
Fundamental, ao pretender ensinar a leitura, é convocar o homem para tomar da sua palavra. Ter a palavra é, antes de tudo, munir-se para fazer-se menos indecifrável. Ler é cuidar-se, rompendo com as grades do isolamento. Ler é evadir-se com o outro, sem, contudo, perder-se nas várias faces da palavra. Ler é encantar-se com as diferenças.
Ensinar e aprender a leitura, a gente aprende e ensina toda vez que nos encontramos com a diversidade de textos que existem ou, como educadores, ao promovermos o “abraço” da criança com o texto.
Embora ninguém vá suspeitar que os olhares não sejam, aqui, para o próprio texto de literatura para crianças, é bom lembrarmos a variedade existente de textos não-literários, às vezes classificados como utilitários: textos de circulação social, como o panfleto e os anúncios publicitários de rádio, televisão e revista; a notícia e a reportagem do jornal; tabelas e listas enumerativas; o bilhete, a carta e o ofício das tramas epistolares; receitas e regras de jogos da tipologia instrucional; os informativos por natureza, como o verbete de dicionário, de enciclopédia, artigos de revista especializada em um assunto; e os velhos didáticos também. São todos textos que se escrevem e se lêem, que pedem aproximação e abraço específicos, bem como a literatura. Hoje vivemos sob o signo (e o sonho) do letramento.
Vamos pensar leitura enquanto prática de interação através da linguagem, uma construção de sentidos que vai sendo erguida e confirmada ao longo do próprio processo de descortinar e desvendar o texto e que seja, de preferência, uma prática de colaboração participativa, um jogo entre adultos e crianças, em sessões de leitura compartilhada.
Nessas ocasiões, certas estratégias de leitura entram em ação pelas mãos, pelos olhos e pelas bocas do professor e do aluno, “denunciando” até mesmo como cada participante fez e faz para alcançar a compreensão do texto. Além de compreender o que diz e como diz o texto, a criança aprende, exercita e revisa suas próprias estratégias de leitura quando entra na brincadeira. O encontro com o livro, para abraçar a literatura, pode ser pensado e dividido em dois momentos, contínuos e sem interrupção: pré-leitura e pós-leitura, sempre em uma atmosfera afetiva e efetiva — quando nos ocupamos com a formação do leitor e de nós mesmos. Bem seja, diz Marisa Lajolo (2001), que
.... como você já sabe, a escola não pode se contentar com uma leitura mecânica e desestimulante. A escola pode e precisa comprometer-se com muito mais do que isso. Ela pode e precisa comprometer-se com uma leitura abrangente, crítica, inventiva. Só assim estará ensinando seus alunos a usar a leitura e os livros para viver melhor.
De todo esse circuito, nossa oficina enfoca boa parcela de estratégias de leitura, mas concentradas sobre a leitura de capa de livros para crianças. Estaremos, assim, refletindo sobre a pré-leitura do texto literário, buscando caminhos e preparando condições para a recepção da literatura.
O que ler?
Essa é a primeira pergunta-desafio para todos nós, educadores/leitores que desejamos conduzir a criança na aventura da leitura. Encontrei uma resposta (aposto que existem outras mais...) na época em que trabalhei junto ao Instituto Qualidade no Ensino. Transcrevo, compartilho:
Ler é sempre uma atividade complexa, pois envolve a conjugação de uma grande variedade de ações, admitindo até mesmo a interferência de atividades não propriamente específicas do ato de ler, mas que estão implicadas toda vez que se usa a linguagem. Atividade de conhecimento por excelência e condição para o trabalho intelectual, a leitura é o processo de compreensão multifacetado, multidimensionado, envolvendo diversas operações, como: percepção, decodificação e processamento de informações; memória, predição (antecipação), inferência, dedução, evocação, analogia, síntese, análise, avaliação e interpretação. Portanto, saber ler não é apenas conseguir decodificar, “traduzir” automaticamente um conjunto de sinais, mas mobilizar um conjunto de estratégias, fazendo interagir diversos níveis de conhecimento para construir significados.
Essa definição tem me acompanhado, partindo de um referencial cognitivista de aprendizagem. Estratégias de leitura são ações que os leitores desenvolvem, e, por força do hábito pedagógico que também trago na bagagem, essas ações correspondem aos objetivos a serem alcançados e cumpridos pelas crianças, em termos de habilidades, nas atividades em sala de aula. Porém, que a seriedade da pauta escolar não comprometa o prazer próprio da leitura literária. Ler é fazer, e mais: é fazer-se. Outra vez, a voz de Bartolomeu Campos Queirós (1999) alinhava meus pensamentos, ao afirmar que “A leitura acorda no sujeito dizeres insuspeitados, enquanto redimensiona seus entendimentos”.
Redimensionar o humano — eis o projeto da leitura! Como administrar as ações, nosso desafio... Mas antes de parecer um receituário, rígido em regras, gostaria de oferecer pontos de reflexão sobre a prática de leitura que promovemos na escola.
· Como acompanhamos o aprendizado e o encantamento da criança?
· O quanto permitimos a ela sair da esfera de reprodução da linguagem, esbaldando-se com a alegria de uma razão aventureira, produzindo sentidos por entre textos e livros?
· De que maneira laçar as vozes dos leitores co-autores para que todos sejam ouvidos e envolvidos pela leitura e pelos diálogos que se articulam antes, durante e depois dos encontros com o texto?
É importante que o professor, leitor e formador de leitores, instrua, oriente e dirija uma sessão de leitura compartilhada; que se sinta livre e seguro ao explicar como conseguiu construir sua própria leitura, apontando as pistas que foi juntando e, quanto mais solicitado, demonstrando e exemplificando o seu jeito de jogar com o texto e que saiba dar oportunidade para a criança exercitar suas estratégias de interpretação e falar sobre elas, ao monitorar as jogadas e passes livres dos alunos, negociando os sentidos, conduzindo breves atividades de releitura para a confirmação do que foi anteriormente estimado. É essencial, entre os participantes, circular uma variedade de perguntas (questionamento, e não questionário): que a dúvida do adulto seja a resposta da criança, e vice-versa, fazendo viver e reviver uma elaboração criativa de abordagens e aproximações com o texto...
Que o jogo-leitura de capa seja uma
aventura rumo à; obra, uma leitura a
quatro mãos - ou a dez, treze, vinte
mãos, olhos, bocas... - que faça brotar
cumplicidades, leituras em co-auditoria.
O livro na capa?
Já dissemos que a leitura da capa do livro é uma pré-leitura do texto e, por isso mesmo, não é uma atividade que tenha fim em si mesma nem poderá substituir a leitura literária propriamente dita. Também não é um exercício a ser realizado a todo momento, com todos os livros que serão divididos em uma leitura compartilhada. Se favorece a aprendizagem da criança quanto ao domínio das estratégias de leitura, essas ações, reciprocamente, deverão favorecer outras aprendizagens textuais.
Vamos pensar a leitura de capa como missão de espionagem, na qual o leitor/espião busca intuir relações de coerência com o texto que virá.
Assim, o título de um livro e a imagem da capa passam a compor um jogo — a leitura articula-se no desvelamento de senhas verbais, pistas visuais... Nesse processo de interação com o objeto-livro, abre-se um horizonte de expectativas em relação à história que vamos encontrar logo mais... De tal modo, a leitura de capa exige um olhar desperto e inquieto, dado à própria fantasia e ao raciocínio lógico. É, por isso, um exercício de percepção, curiosidade e imaginação sobre o material da capa em que o leitor não pode trapacear consigo mesmo, mas permitir que dúvidas, perguntas, certezas e apostas surjam, sem ceder à vontade de entrar no livro apressadamente. As pistas, isoladamente, já compõem um conjunto de significados que, ao serem somados, justapostos, confrontados pela fricção das possibilidades combinatórias, começam a produzir razões cintilantes, descobertas pela intuição e à espera de confirmação.
Título e imagem dialogam. Mas podem ser segmentados, analisados em separado, em um momento, para serem sobrepostos em outro.
O título é a nossa senha verbal, poderá ajudar tanto a revelar a imagem que se vê quanto a história que se desconhece até então. Operar sobre ele é proceder a uma rápida e ágil atividade de análise lingüística ou de epilinguagem, quando se busca interpretar o significado mais literal ou sua ambigüidade, o quanto há de sentido fechado ou traços incompletos para o leitor preencher, atualizá-lo, correlacioná-lo com outros títulos, textos, experiências vividas.
A imagem, igualmente, pode estar pronta e acabada, em plena consonância com o título, quer reproduzindo-o sem espaços generosos para uma visitação, quer tentando explicitá-lo, como sempre ocorre quando é intencional levar o leitor a um gesto associativo direto entre o texto e a imagem. Bem melhor é quando a ilustração da capa, à primeira vista, intriga o leitor, provoca-lhe um estranhamento — seja na esfera da apresentação, flagrando uma cena incomum, não rotineira, enigmática, prenhe de sugestões sobre o que acontecera pouco antes ou de expectativas sobre o que aconteceria em sua seqüência; seja em sua natureza plástica, a presença admirável da técnica.
Respeitando sempre as características e as configurações de linguagem presentes em cada exemplar da literatura para crianças, é importante que o professor crie condições favoráveis para a criança fazer–aprender–refazer o processo da leitura que se tece. Toda obra, pensada como um todo significativo, sempre revela uma intencionalidade comunicativa e estética, e esta pode vir muito bem expressa em sua capa, sintetizando os principais aspectos da narrativa que o livro transporta, ao mesmo tempo em que tenta fisgar o leitor para sua leitura.
Mas também deve ser dito: nem toda capa produz boas leituras, coisa que não depende totalmente do livro e não compromete a qualidade do texto que contém nem a invenção do ilustrador. Descobrir a boa leitura ou as possibilidades dela acontecer é outro jogo: ao selecionar uma obra, o professor deve ser apenas leitor, pesquisador e espião.
Que o jogo-leitura de capa seja uma aventura rumo à obra, uma leitura a quatro mãos — ou a dez, treze, vinte mãos, olhos, bocas... — que faça brotar cumplicidades, leituras em co-autoria. Essa seria a conduta e a condição para que todos, crianças e adultos, desenvolvessem habilidades e estratégias de leitura, como saber inferir relações, levantar hipóteses, antecipar acontecimentos, evocar outros textos de sua bagagem literária, explicitar as marcas e deduzir o obscuro, intuir sentidos, entrelaçar conhecimentos... Adiante, o projeto humano: o leitor proficiente.
Fonte: Construir Notícias
Afinal, pra que livros?
15 de abril de 2011
Marcelo Carneiro da Cunha
"Livros nos tornam melhores", defende escritor, que reivindica mais bibliotecas no País (foto: Getty Images)
Estimadíssimos leitores, fui a Belo Horizonte e voltei, com escala no aeroporto de Confins, que como o nome diz, fica em lugar algum. Lá, participei do evento Beagalê, em um debate sobre o filme do meu livro, Antes que o Mundo Acabe, junto com Eduardo Moreira, do ótimo grupo Galpão e que atua no filme. Para uma platéia atenta pude explicar o que eu sei do filme e o que autores pensam de atores: a gente se esforça pra criar a história e quem acaba no Castelo de Caras, sempre, são eles. Em outro momento do mesmo evento participei de um debate sobre a literatura e o seu espaço nesse mundo pop em que todos, menos o Bolsonaro, vivemos.
A platéia era formada por educadores, bibliotecários, gente que se importa, e muito, com o que acontece com a literatura e com os livros, e uma das questões mais presentes era "Como fazer para as pessoas lerem?".
Eu não estudei o suficiente para ser educador e admiro bibliotecários tanto quanto admiro o genial inventor do dulce crema de leche; a pergunta me pegou de lado e ao mesmo tempo em que não compreendi exatamente o sentido dela, me esforcei ao máximo para dizer algo que soasse inteligente na hora, e não consegui, como nunca consigo.
A minha pergunta inicial seria: para que ler? Por que isso seria realmente importante, e para quem? Será que eu ajudo o mundo quando convenço pessoas a ler? Quando escrevo algo que elas se disponham a ler? Elas não seriam mais felizes vendo novela da Globo? Elas não são mais felizes vendo novela da Globo?
Bons livros não fazem a gente mais feliz, estimados leitores. Eles não são feitos para isso. Eles fazem a gente mais gente, claro. Mas isso é bom? Pra todo mundo?
Nessa era pós-industrial não somos mais importantes, ou tão importantes, como quem produz coisas. Nesse sistema, somos mais úteis consumindo. Consumidores precisam ler alguma coisa além de propaganda e manual de operação de celular? Não muito.
E então acho que compreendi o que sentem aquelas pessoas tão legais reunidas em BH. Elas não querem que sejamos apenas consumidores. Elas acreditam que existe um outro projeto, maior, onde seres humanos ocupam um lugar mais central do que televisores de LCD. Elas acreditam que existe, ou deve existir um mundo onde somos o sujeito e os objetos são o objeto. Deve haver um mundo onde somos importantes, e nele, livros são importantes porque eles nos fazem pensar, sentir, ser, coisas que não são nada importantes para objetos, mas são essenciais para quem se vê como sujeito. É isso.
Então sim, livros são importantes, ler é muito importante, porque ler é o maior exercício da nossa humanidade que existe, porque ele une o que sabemos e sentimos com o que não sabemos exatamente que existe. Livros unem partes fundamentais de nossas vidas, que são o nosso imediato com o nosso essencial. E livros, diferentemente de filmes ou romarias até Aparecida, acontecem dentro da gente. Eles se constroem dentro de nós, e, ou interagem com a gente ou não acontecem. Livros dependem de nós, de nossas mãos e nossas mentes, ou eles mesmos não existem. A interdependência é plena.
Então, se livros são importantes e essenciais, se ler é o caminho mais curto entre os milhares de quilômetros que separam nós de nós mesmos, como fazer para as pessoas lerem mais e melhor? Pensei nisso em todo o trajeto desde BH até Confins, o que levou séculos. Acho que do mesmo jeito de sempre. Com bons e ótimos livros, daqueles que a gente começa e quando vê até as moléculas dos nossos ossos querem saber o que vai acontecer na página 122. Dando a cada livro 20 páginas de chance, indo além e até o final se isso parecer bom ou ótimo, dando 20 páginas a mais de chance caso a gente fique em dúvida, largando aquele e pegando outro, caso a gente se convença nas primeiras 20 que o resto vai ser igualmente tão ruim quanto um bom Paulo Coelho. Simples. Azar que somente me dei conta dessa resposta quando já estava em Confins, a capital do lugar algum, onde nem meu celular funciona.
Com mais e mais bibliotecas, para remover o obstáculo que o custo de um livro representa para muita gente. Com mais bibliotecários apaixonados como eles. Com bibliotecas nas estações do metrô e nos pontos de ônibus, com vendedores da Avon indo de casa em casa. Com os novos livros digitais aproximando as pessoas dos textos e depois, espero, das páginas em papel, que ainda são mais gostosas ao tato do que um Ipad.
Uma sugestão? Meu amigo Michel Laub acaba de lançar um livro ótimo, Diário da Queda, desses que estragam o dia, a semana da gente e por isso são tão bons. Experimentem.
Agora lembrei que aprendi a ler sozinho, apenas para impressionar uma pessoa. A consequência foi que passei a ler tudo que via pela frente, o que me impressionou muito. A pessoa para quem eu aprendi a ler é a minha maravilhosa mãe, eu sabia que ela gostava muito de ler. "A gente precisa viver grandes amores", dizia a minha mãe, aferrada a um bom romance. Hoje ela completa invisíveis 85 anos de idade e, se alguém aí precisa de mais alguma demonstração de que ler faz bem, eu posso apresentar a saltitante dona Zilah Carneiro da Cunha como prova.
Ler nos faz indestrutíveis, é o que eu penso, enquanto mando pra ela um beijo do tamanho da emoção que eu senti quando ela me viu lendo pela primeira vez, do que eu vi naquele olhar, que representa pra mim o tamanho possível da literatura. Que nos faz maiores do que somos, que nos torna melhores do que somos, e assim e por isso mesmo, melhores.
Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe", publicados pela editora Projeto.
Fale com Marcelo Carneiro da Cunha: marceloccunha@terra.com.br
ou siga @marceloccunha no Twitter
Fonte: Terra Magazine
sábado, 26 de fevereiro de 2011
Amigo
Texto: Regina Célia Melo
Ilustração: Rachel Dumont*
Numa poltrona macia,
No colo da avó,
Na cama aconchegante,
Debaixo da amiga árvore...
É avião que me leva ao
Japão, Quixadá ou Bagdá!
Se a tristeza vem,
Traz asas ligeiras, verdes de esperanças...
Se a euforia é crescente,
Tece na medida a melancolia boa pra pensar.
Se o sono não vem,
Se o medo quer brincar,
Inventa sonhos azuis
Pra eu acordar
Manhãs de sol e emoções...
Se eu quero entender, desvendar o porquê, pra quê,
Como, onde, cadê?
É você a chave que abre
As gavetas, janelas e portas!
É você: Livro Amigo!
*Regina Célia Melo e Rachel Dumont são professoras do Jardim de Infância da 114 Sul, em Brasília. O material faz parte do Projeto “Livrinho na mão”.
Ilustração: Rachel Dumont*
Numa poltrona macia,
No colo da avó,
Na cama aconchegante,
Debaixo da amiga árvore...
É avião que me leva ao
Japão, Quixadá ou Bagdá!
Se a tristeza vem,
Traz asas ligeiras, verdes de esperanças...
Se a euforia é crescente,
Tece na medida a melancolia boa pra pensar.
Se o sono não vem,
Se o medo quer brincar,
Inventa sonhos azuis
Pra eu acordar
Manhãs de sol e emoções...
Se eu quero entender, desvendar o porquê, pra quê,
Como, onde, cadê?
É você a chave que abre
As gavetas, janelas e portas!
É você: Livro Amigo!
*Regina Célia Melo e Rachel Dumont são professoras do Jardim de Infância da 114 Sul, em Brasília. O material faz parte do Projeto “Livrinho na mão”.
Literatura para bebês, livros para pais
Marli Henicka - Blumenau/SC
do Centro de Educação Infantil (CEI) Hilca Piazero Schnaider, de Blumenau (SC) fazem quando pegam um livro é colocá-lo na boca. Mas isso quando têm quatro ou cinco meses, porque com dez eles já querem ler sozinhos. De tanto que gostam das histórias, nessa fase eles nem esperam a professora terminar a leitura para tomar dela o livro e com seus próprios dedinhos apontar para as figuras e imitar os sons. “Seis meses depois do primeiro contato com os livros alguns já ficam na frente da estante apontando e pedindo para eu ler uma história”, conta a professora Valdirene Passamai Knott.
A turma atual tem 12 bebês de 0 a 2 anos. No início, eles recebem livros bem coloridos de materiais resistentes como plástico, tecido ou madeira para brincar e morder à vontade. Aos poucos, a professora começa a mostrar e a dar nome às figuras, ensina a folhear e só depois inicia a leitura. “A intenção é criar um vínculo entre a criança e o livro para que ela se torne um adulto com paixão pela leitura”, diz Maristela Pitz dos Santos, diretora do CEI.
A creche é pública e atende em período integral 80 crianças. A maioria não tem livros em casa nem o estímulo dos pais para a leitura, o único contato com a literatura acaba sendo o da sala de aula. Os cerca de 150 livros do acervo foram comprados com recursos doados pelos pais por intermédio da associação de pais e professores ou com a renda obtida na venda de materiais reciclados. Todo mês pelo menos dois novos livros comprados ou adquiridos em sebos são acrescentados. “São obras de qualidade, resistentes, que tenham ilustrações com nuances de cor, textos interessantes e histórias intrigantes, que não sejam bobinhas”, diz a diretora. A creche ainda não tem biblioteca, os livros ficam numa caixa que circula pelas salas de aula.
Já no Centro de Educação Infantil Olga Bremer, também mantido pela Prefeitura de Blumenau e que atende 250 meninos e meninas, as professoras desenvolvem um projeto com crianças de 4 e 5 anos no qual os pais são diretamente envolvidos na leitura. A partir do segundo bimestre letivo, todo final de semana, uma criança leva para casa um clássico da literatura infantil para que o pai ou a mãe leia para ela. Na segunda-feira, ela deve recontar com suas palavras a história para os colegas. “O maior objetivo é que os pais percebam a qualidade das histórias que estão sendo trabalhadas com seus filhos”, diz a professora Ilda de Carvalho Silva. O aluno que vai levar o livro é escolhido por sorteio; já a escolha da obra fica por conta do gosto da criança e não há problema se ela já tiver levado o livro antes.
Fonte: Revista Criança nº 40
sábado, 19 de fevereiro de 2011
Banco de Livros
Esta postagem complementa uma postagem anterior: Projeto Banco de Livros: proposta da Fiergs e a Câmara Rio-Grandense do Livro
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O Banco de Livros é uma das iniciativas da Fundação Gaúcha dos Bancos Sociais, que foi instituída pela Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul - FIERGS.
O Banco de Livros é uma instituição criada para garantir um maior acesso da população á cultura. Para isso, monta bibliotecas em locais de baixa renda como comunidades carentes, hospitais, escolas e asilos. Para o sucesso do projeto, era preciso mobilizar as pessoas para que doassem o maior número possível de livros.
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O Banco de Livros é uma das iniciativas da Fundação Gaúcha dos Bancos Sociais, que foi instituída pela Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul - FIERGS.
O Banco de Livros é uma instituição criada para garantir um maior acesso da população á cultura. Para isso, monta bibliotecas em locais de baixa renda como comunidades carentes, hospitais, escolas e asilos. Para o sucesso do projeto, era preciso mobilizar as pessoas para que doassem o maior número possível de livros.
Além do Banco de Livros, fazem parte dos Bancos Sociais: Banco de Alimentos, Banco de Voluntários, Banco de Computadores, Banco de Projetos Comunitários, Banco de Materiais de Construção, Banco de Medicamentos, Banco de Mobiliários, Banco de Órgãos e Transplantes, Banco de Refeições Coletivas, Banco de Resíduos, Banco de Tecido Humano e Banco de Vestuários.
6/11/2008 - O Rio Grande do Sul é o primeiro Estado do Brasil a contar com um Banco de Livros. A iniciativa é da Fundação Gaúcha dos Bancos Sociais, ligada ao Sistema FIERGS, e foi lançada na noite desta quarta-feira (05/11/2008), no Memorial RS, dentro da programação da 54ª Feira do Livro.
O projeto foi trabalhado por 18 meses até que se tornasse realidade e só durante a cerimônia, já captou mais de 5 mil títulos doados por empresas e entidades. O Banco de Livros vai funcionar nos mesmos moldes dos outros 13 Bancos Sociais existentes, transformando o desperdício em benefício social. Os volumes vão ser usados para a montagem de novas bibliotecas em comunidades carentes, presídios, cidades sem biblioteca. "A idéia é levar livro para quem quer ler. Todos nós temos livros que estão só ocupando espaço em casa. Temos que colocar todo este conhecimento para circular e o Banco de Livros é a melhor maneira de fazer isto", entusiasma-se o presidente Waldir da Silveira.
Banco de Livros já é uma realidade
6/11/2008 - O Rio Grande do Sul é o primeiro Estado do Brasil a contar com um Banco de Livros. A iniciativa é da Fundação Gaúcha dos Bancos Sociais, ligada ao Sistema FIERGS, e foi lançada na noite desta quarta-feira (05/11/2008), no Memorial RS, dentro da programação da 54ª Feira do Livro.
O projeto foi trabalhado por 18 meses até que se tornasse realidade e só durante a cerimônia, já captou mais de 5 mil títulos doados por empresas e entidades. O Banco de Livros vai funcionar nos mesmos moldes dos outros 13 Bancos Sociais existentes, transformando o desperdício em benefício social. Os volumes vão ser usados para a montagem de novas bibliotecas em comunidades carentes, presídios, cidades sem biblioteca. "A idéia é levar livro para quem quer ler. Todos nós temos livros que estão só ocupando espaço em casa. Temos que colocar todo este conhecimento para circular e o Banco de Livros é a melhor maneira de fazer isto", entusiasma-se o presidente Waldir da Silveira.
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