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sexta-feira, 1 de abril de 2011

O leitor brasileiro na visão de nossos escritores clássicos

Publicado em 1º de março de 2011
Juliana Carvalho
Professora e redatora

Em continuação ao tema explorado no minicurso Literatura, Ensino e Divulgação Cultural, oferecido pela professora doutora Muna Omram na UFF, sobre o qual falamos aqui na edição de 4 de janeiro de 2011, a formação do leitor brasileiro mereceu especial atenção. Para Antonio Candido, faz pouco tempo que as obras nacionais trabalham com base no sistema literário autor – obra – público. Para o historiador, a literatura deve valorizar um esquema comunicativo mais completo, que não isole o autor em sua produção, mas coloque-o em diálogo com outros autores, adeptos ou não da mesma tendência. Durante muito tempo, o que vimos foi uma produção literária mais ou menos consciente de seu papel e que renegava o leitor a um papel secundário. Para esses autores, o papel do leitor era apenas ocupar um lugar de destaque como receptor privilegiado dessas obras.

Formação do público leitor no Brasil

A figura do leitor começa a aparecer na produção literária nacional no Romantismo. Os autores românticos se posicionavam como professores desses leitores. Em Memórias de um Sargento de Milícias, Manuel Antônio de Almeida parece conduzir o leitor pela mão, sempre recapitulando uma ação do capítulo anterior:

Os leitores devem estar lembrados de que o nosso antigo conhecido, de quem por algum tempo nos temos esquecido, o Leonardo Pataca, apertara-se em laços amorosos com a filha da comadre e que com ela vivia em santa e honesta paz. Pois este viver santo e honesto deu, em tempo oportuno, o seu resultado. Chiquinha (era este o nome da filha da comadre) achou-se de esperanças e pronta a dar à luz.
José de Alencar fornece ao leitor uma formação engajada com o projeto político e ideológico do Romantismo na primeira geração, representado pelo indianismo. Esse projeto pretendia, por meio da literatura, fundamentar os alicerces para a construção de uma nação ideal:

O que melhor do que a história de Peri para despertar o furor nacionalista que parecia adormecido no inconsciente coletivo — na juventude brasileira que ansiosa aguardava a chegada do trem transportando as páginas folhetinescas? O sentimento solidário agrupava jovens para uma leitura em voz alta a favor de quem não possuía um exemplar.

A mais conhecida razão para a escolha do índio como herói nacional foi a resistência que impuseram aos portugueses. Mas José de Alencar tenta desmentir isso nas primeiras linhas de Iracema. A luta apresentada quando Iracema se encontra com o branco é breve e apenas consequência de um reflexo de defesa contra um estranho. Mas ao disparar sua flecha e ferir o guerreiro, logo sente remorso. Este, ao contrário, “de primeiro ímpeto, a mão lesta caiu sobre a cruz da espada; mas logo sorriu. O moço guerreiro aprendeu na religião de sua mãe, onde a mulher é símbolo de ternura e amor. Sofreu mais d’alma que da ferida” .

Um pouco mais distante dos temas políticos, Machado de Assis tomou para si a missão de fornecer cultura ao leitor. São muitos exemplos, mas o conto Missa do Galo apresenta isso de forma bem clara. Observe o trecho em que Nogueira fala a Conceição (e ao leitor) sobre o romance que está lendo:

Tinha comigo um romance, Os Três Mosqueteiros, velha tradução, creio do Jornal do Comércio. Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D'Artagnan e fui-me às aventuras. Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas (...).

— Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é o romance dos Mosqueteiros.
— Justamente: é muito bonito.
— Gosta de romances?
— Gosto.
— Já leu A Moreninha?
— Do Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba.
— Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances é que você tem lido?
Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns.

Já o conto A Cartomante tem início com uma citação de Shakespeare:

Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.
Além de sugerir listas de livros, peças, concertos e obras culturais às quais o indivíduo deve ter acesso para adquirir formação ampla, outro recurso usado por Machado de Assis é aproximar-se do leitor, fazendo-o sentir-se parte da história. Em Dom Casmurro, no capítulo 10, chama o leitor de amigo para convencê-lo:

Eu, leitor amigo, aceito a teoria do meu velho Marcolini, não só pela verossimilhança, que é muita vez toda a verdade, mas porque a minha vida se casa bem à definição, cantei um duo terníssimo, depois um trio, depois um quatuor... Mas não adiantemos; vamos à primeira tarde, em que eu vim a saber que já cantava, porque a denúncia de José Dias, meu caro leitor, foi dada principalmente a mim.

Ao ser convidado a compartilhar os pensamentos e atitudes do narrador, o leitor é levado a refletir e tomar partido na narrativa. No caso da história narrada por Bentinho, o leitor decide se acredita na veracidade dos fatos ou não. Machado tenta claramente seduzir o leitor chamando-o de amigo ou tratando-o com cordialidade, mas o considera inapto para entender as sutilezas da linguagem. Talvez por isso Capitu não tenha sido condenada pelo autor, mas sim pelo público.

Shakespeare volta a ser referência, se observarmos a estrutura e as semelhanças entre os perfis de Bentinho e Otelo. Bentinho, assim como Otelo, também reflete desajuste social, sendo descrito como um sujeito manipulado e sem decisões próprias. Fruto da autoridade matriarcal e da acomodação burguesa, vê em Capitu uma figura cuja força, exuberância e firmeza de atitude são capazes de subjugar sua própria identidade. Ambos viram como solução para a suposta infidelidade a morte de suas esposas. Otelo, em sua personalidade mais sanguínea, parte para o ato evidente, estrangulando Desdêmona, reparando sua honra numa atitude totalmente movida pela emoção, chegando à insanidade. Já Bentinho, um homem que prezava as convenções sociais, buscou solução mais racional, embora covarde, em ignorar Capitu, retirando-a aos poucos de seu convívio. O assassinato pode ser entendido na própria narrativa, em que Dom Casmurro, quase que por descuido, deixa escapar que ela morreu na Europa, sem uma observação mais relevante, distante dele e já há muito de seu coração.

No século XX, Lima Barreto cria uma personagem leitora, o major Policarpo Quaresma, que se eleva quando transforma em ideal o conteúdo de suas leituras. Ainda assim, o autor apenas indica uma lista extensa de obras, sem oferecer nenhuma explicação sobre sua importância. Isso evidencia o desprezo ao leitor presente na literatura brasileira em geral até então.

Mário de Andrade, em seu livro Amar, verbo intransitivo, conta com a ajuda do leitor na medida em que este, ao ler um texto, estabelece conexões implícitas, preenche lacunas, faz deduções, comprova suposições, e tudo isso significa o uso de um conhecimento de mundo em geral e das “regras” literárias em particular. Partindo desse princípio, o autor constrói uma obra cheia de lacunas, em que é solicitado o trabalho do leitor para interpretá-las. Apesar disso, ainda não há diálogo. O leitor realiza seu trabalho de interpretação já com base nas pistas oferecidas pelo autor, que direciona a leitura.

O conceito de metanarrativa permite ao autor guiar o leitor por meio de uma sucessão de lacunas ao fim das quais ele terá reconstruído o texto segundo a intenção do autor. A obra apresenta pistas que balizam as interpretações. A consciência de que há uma regra de montagem é que nos leva a fazê-lo corretamente.

A obra apresenta um narrador onipresente e onisciente, que interrompe a história para comunicar ao leitor que o que ali está em palavras não é algo inventado, mas efetivamente um relato. O leitor, a par das impossibilidades típicas do relato, como a onisciência e onipresença autoral, aceita a tarefa de contextualizar a ficção e torná-la verossímil. Existe uma intenção clara que solicita a cooperação do leitor, mas não se predispõe a dividir com ele o trabalho de autoria.

Talvez o primeiro autor dentro da literatura brasileira que realmente convide o leitor para ajudá-lo na construção de sua obra é Graciliano Ramos. São Bernardo, aclamado no meio acadêmico, apresenta um narrador que dialoga com o leitor com base em sua maturidade. O leitor passa a ser produtor e operário, com base no sistema de produção capitalista. Desde o início de São Bernardo, o protagonista compartilha com o leitor o processo de elaboração da obra, questiona sobre a linguagem a ser empregada, a divisão dos capítulos. Esses traços metalinguísticos tornam a obra ainda mais complexa; esse estilo pode oferecer pistas para compreender Paulo Honório, que compartilha conosco suas memórias. Já no início do livro percebemos a intenção do autor: “Antes de iniciar este livro, imaginei construí-lo pela divisão do trabalho”. Paulo Honório convida o leitor para construir a narrativa junto com ele, demonstrando solidariedade e reconhecendo a necessidade de diálogo, entretanto sem desprezá-lo ou diminuí-lo.

A partir da obra de Graciliano Ramos, outros autores passaram a respeitar a independência do leitor, já que somos nós que produzimos a leitura, construímos o personagem e geramos sentido, independente da criação do autor. Bastava aos autores apenas o reconhecimento e a elaboração da obra a partir dessa perspectiva.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Leitura literária: a escola e a isenção do prazer e da obrigação

A pesquisadora Vera Bastazin explica como a leitura dos clássicos das literaturas brasileira e portuguesa ajuda na formação mais integral do estudante e por que esse tipo de leitura se tornou obrigatória nos principais vestibulares do país

Por Vera Bastazin*

Matéria publicada em 15/09/2010

No âmbito da educação brasileira, o exame vestibular tem sido marcado como um momento de extrema tensão para aqueles que se empenham na conquista de uma vaga em uma boa universidade. Considerado quase um ritual de passagem na vida acadêmica do jovem, o vestibular é visto como um grande desafio ou mesmo um momento de competição cruel.

Afora as questões de desnível socioeconômico que marcam diferenças substanciais entre aqueles que disputam, lado a lado, as vagas oferecidas, há de se destacar também as dificuldades expressivas do estudante brasileiro com relação às habilidades de escrita e leitura de textos e a carência de repertório cultural que a maior parte de nossa população jovem expressa.

Mas o que essas considerações têm a ver com a questão das leituras literárias, hoje obrigatórias, no exame vestibular?

Já está distante o tempo em que, constatado e debatido o fraco desempenho do estudante brasileiro, principalmente em relação à leitura e produção de textos, optou-se pela exigência da leitura de obras literárias no exame de vestibular. A fórmula seria simples: obrigado a ler para enfrentar seus concorrentes na prova de maior valor em número de pontos, o aluno deveria ser preparado, com antecedência, pelas escolas, para que, ao final do ensino médio, estivesse em condições para aproveitar de forma mais substancial a vaga que iria ocupar nos bancos das boas universidades. Sem dúvida, o efeito também deveria vir em cascata, isto é, as escolas, em geral, estariam investindo, desde cedo, maiores esforços na formação de seus alunos. A leitura dos clássicos das literaturas brasileira e portuguesa tornava-se o centro das atenções na ajuda de uma formação mais integral, com o reforço ao acesso ao conhecimento via prática de leitura de bons textos, entendidos também como modelos de escrita.

Parece-nos importante lembrar aqui que a leitura da obra literária, além de melhor habilitar o indivíduo para a compreensão de textos em geral, desperta no leitor a inquietação frente ao objeto literário e a vontade de decifrá-lo, como forma de vencer a obscuridade das palavras e chegar ao que poderíamos chamar de ‘prazer’ pela descoberta de possíveis significados. No contexto linguístico, decodificar a palavra significa vencer um obstáculo que, com o passar do tempo e com a habilidade de leitura, torna-se um procedimento praticamente automatizado. No contexto literário, ao contrário, o processo de decodificação, assim como os resultados atingidos, são sempre distintos e envoltos em certa novidade de procedimentos e informações.

Na literatura, a palavra parece estar sempre pronta a surpreender o leitor; ela pode ter seu significado afirmado, negado ou sugerido em uma direção inesperada. A função do texto literário é surpreender, quebrar com o automatismo da decodificação, exigir do leitor um empenho maior, fazê-lo pensar não em significados seguros, mas em possibilidades. É nesse sentido que a contribuição da literatura pode ir além do desenvolvimento da habilidade de leitura para atingir a plasticidade da mente que arrisca interpretações de forma a aprender a conviver com a dúvida e a instabilidade significativa de um mundo que é cada vez mais plural.

Habilidades mais complexas se desenvolvem. O literário motiva e requisita a leitura intuitiva e perspicaz, aquela que aguça os sentidos, abre-se para a pluralidade de significados. Ela habilita para a leitura de um universo mais amplo, onde todas as áreas do conhecimento podem estar contempladas. Ler o literário é apreender, em concomitância, dentro do universo estético, a pulsação da história, da filosofia, das ciências matemáticas, da mitologia, das religiões, das ciências sociais, da psicologia, enfim, de todo o universo de conhecimento humano. A boa literatura propicia ao leitor a interação consigo mesmo e com o outro, assim como estimula o diálogo, ou melhor, o discurso que se desdobra e se faz crítico-reflexivo.

Os propósitos da inserção de obras literárias no vestibular, não há dúvida, eram os melhores. A realidade, todavia, desconcertou os propósitos.

O que aconteceu entre uma proposta inteligente e uma execução que, passados anos consecutivos, não trouxe resultados benéficos aos nossos jovens e tampouco ao nosso sistema de ensino em qualquer de seus níveis?

Lançar os olhos para a educação básica e fundamental, salvo pouquíssimas exceções, faz-nos perceber que o livro de literatura infantil é bandeira de luta de poucos educadores. Afinal, parece não haver clareza quanto à importância do texto literário para a formação integral do indivíduo. Temos inúmeros índices de que são poucos os que acreditam que estimular o imaginário é permitir à criança uma vivência mais rica de sensibilidade e potencial criativo. Despertar o desejo pela aventura da viagem literária para conhecer outros povos e outros costumes é fazer ver ao jovem possibilidades de experiências que redimensionariam seu olhar e sua própria mente. Incitar o homem para o cultivo permanente de novas ideias e gosto pelo desafio de sentir e pensar o mundo por formas não convencionais é algo ainda pouco associado à aproximação e vivência do literário.

As escolas não assumiram, até hoje, o papel de defensoras dos estudos literários como forma de enriquecimento do processo educativo. Elas continuam ignorando ou omitindo-se no reconhecimento da importância do literário para a formação da sensibilidade estética associada aos mecanismos da razão crítica e criativa. Os professores, com sérias deficiências em sua formação, não se sentem à vontade e nem mesmo seguros para o enfrentamento da instabilidade significativa do texto literário. Eles também, provavelmente, procuram ainda verdades que a literatura não tem para lhes oferecer. Uma alternativa, das mais comuns, encontra-se na derivação dos estudos literários para abordagens biográficas ou de contexto histórico e social. O valor estético da obra é esquecido no meio do caminho.

Os cursinhos preparatórios, por sua vez, veem-se na obrigação de recuperar o tempo perdido. Na engrenagem dos conteúdos, criam mecanismos de informação sobre as obras que, se de um lado sobrecarregam o vestibulando em suas relações extraliterárias, pouco podem investir no trabalho de análise que revela a essência dos projetos poéticos inscritos em cada obra. Os resultados são um aluno que se ilude sobre o conhecimento que tem do texto e dos movimentos estéticos e instituições de ensino que se isentam de maiores comprometimentos.

Afinal, vivenciar a leitura do literário não é função que se cumpre da noite para o dia; ao contrário, é parceria que se realiza em processo, cultivando o gosto pela busca de alternativas no ato de construir a percepção e o próprio conhecimento como objetos sempre inconclusos. Conhecer significa interferir na realidade, crescer e transformar-se com ela. É processo que se constrói a cada passo-palavra, como vivência de algo que atrai e prende nas armadilhas da palavra, tal como uma serpente que, ao movimentar-se, surpreende pela rapidez e magia do próprio movimento.

* Vera Bastazin professora e doutora em Literatura e Crítica Literária no curso de pós-graduação da PUC de São Paulo.

Fonte: Univesp

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Acender o fósforo repetidas vezes

Li e gostei da crônica do Ignácio. Compartilho com vocês a minha leitura.
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Ignácio Loyola Brandão - O Estado de S.Paulo - 19/11/2010

Depois da colisão com Monteiro Lobato, veio a escorregadela do Enem. Esse ministério não aprende que errar uma vez é humano, errar duas é burrice. Vem também o ministro dizer que os critérios para avaliação internacional do ensino brasileiro, abaixo do da Cochinchina, estão errados e que temos um alto nível. De onde será que o ministério olha? Como avalia? O que salva o ensino brasileiro são atitudes isoladas que, felizmente, existem aos borbotões. Tenho andando, sentido e testemunhado. Como esquecer as professoras que fazem da Casa Meio Norte, em Teresinha, um exemplo esplendoroso (palavra boa, sonora) de como ensinar contra todas as adversidades?

Dia desses, estive em Santo André, convidado pela Luciana Tavares, bibliotecária da Escola 221 do Sesi. Foi uma alegria chegar e ser recebido com um tapete vermelho feito de papel pardo com tiras coloridas. Símbolo afetuoso que os alunos montaram atravessando todo o pátio até a biblioteca. Comoveu ver alunos do ensino médio com o meu romance Não Verás País Nenhum - que não é fácil de ler - nas mãos, porque o livro está sendo trabalhado ali. Algum tempo atrás, quem compareceu foi o Rubem Alves, um parceiro meu em viagens deste tipo. Falar do Brasil, da literatura, da educação, abrir cabeças, abrir mundos, iluminar caminhos. Em momentos assim, tanto Rubem como eu fazemos a mala, esquecemos cachês e trabalhamos por amor. Compensa, alegra.

Há por essa imensidão do Brasil, sim, há, centenas de professores e bibliotecários idealistas lutando para realizar alguma coisa contra currículos esquisitos, diretores obsoletos, normas mal formuladas, entraves burocráticos, kafkianos, incompreensões. Porém, eles vão em frente. Comovente ver os alunos da 221 interessados em literatura, apaixonados por um livro que, tendo sido escrito há 30 anos e sendo meu livro mais traduzido, acabou mostrando a realidade que chegou à nossa porta: o aquecimento global, a angústia da falta d"água, as cidades superpovoadas, a violência, os congestionamentos, as doenças indiagnosticáveis, a miséria. Os professores que estão estudando o Não Verás avançam nas propostas, fazem uma análise abrangente, o que se vê é a própria história do Brasil e as consequências de políticas obsoletas.

Quinze dias depois, eu estava em Sorocaba, diante dos alunos do Objetivo que, orientados pela professora Marisa Telo, tinham virado de cabeça para baixo o livro de contos Cadeiras Proibidas. Metáfora do tempo da ditadura que, mais do que nunca, vem sendo adotado e lido por jovens, dado seu tom fantástico, que excita a imaginação. Ora, em lugar de uma palestra, o que se viu? Um concurso de contos. A partir da inspiração do Cadeiras, que mostra como o absurdo não existe, a realidade é mais absurda que ele, os alunos escreveram 67 contos incríveis. Disse a eles que eu assinaria qualquer um deles. Foi feito um volume, Carteiras Proibidas, que será editado como livro normal. Farei o prefácio.

Faço esta crônica para meus leitores normais, mas principalmente para professores, para dar coragem e dizer: tentem, mudem, avancem, acreditem na fantasia e na imaginação dos jovens, incentivem, arranquem o que eles têm dentro pronto a explodir. Eliminar repreensões, barreiras, cerceamentos. Na sequência, em Sorocaba, os alunos me entrevistaram, perguntaram tudo, inclusive passando pela ridícula "proibição" de Monteiro Lobato e pela polêmica que se estabeleceu em torno de meu conto Obscenidades Para Uma Dona de Casa, que está na antologia Os Cem Melhores Contos do Brasil, organizada por Ítalo Moriconi. Disse - como já tinha dito em Santo André, onde o conto encontrou resistência em uma parcela de professores e pais - que é lamentável que mentalidades inquisitoriais ainda subsistam em pleno 2010. O homem já foi à Lua, corações são transplantados, a vida humana vem sendo prolongada, a longevidade é cada dia mais extensa, a pílula anticoncepcional já existe, camisinhas são vendidas na caixa do supermercado, o mundo é globalizado, a internet está aí, o celular, o iPhone, o iPad, o iPod, o twitter, e há gente parada no tempo do ponto de vista da moral. Por que ainda há palavras que incomodam, sendo palavras da linguagem coloquial? Por que muitos pais não dialogam com os filhos para saber o que se passa em matéria de sexualidade? Por que os pais não dialogam com professores e autores? Por que atitudes hipócritas de censura, esta que foi o braço direito da ditadura, a arma de qualquer sistema totalitário de esquerda ou direita?

Nesses momentos me lembro de Érico Veríssimo em Solo de Clarineta, suas memórias: "Desde que, adulto, comecei a escrever romances, tem-me animado até hoje a ideia de que o menos que o escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos nosso posto."

É bom quando a literatura é dada com liberdade, espontaneidade, amor, sem preconceitos. Assim ela será recebida. É triste quando se faz da literatura, mesmo que poética, falando da solidão, do tédio e da angústia, algo feio, sujo, pecaminoso, condenação ao fogo do inferno. E os prazeres onde ficam? Ainda bem que existem Lucianas e Marisas no Brasil e existem aos montes. Uso sem medo o lugar-comum: por meio delas, homenageio todos os professores e bibliotecários deste País.



quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Oito ações para construir uma escola leitora

Garantir acesso a bons livros e criar um ambiente em que a leitura é rotina são maneiras eficazes de formar leitores de literatura. Veja como tornar isso realidade

1 Aproveite os mais diversos ambientes

Não é por falta de sala exclusiva que o acervo deve ficar encaixotado. "Já vi bibliotecas em corredores e até na entrada do banheiro", diz Celinha Nascimento, mestre em literatura brasileira e assessora de escolas públicas e particulares. Entre 2001 e 2009, Anália Fagundes Felipe foi diretora da EM Ivo de Tassis, em Governador Valadares, a 315 quilômetros de Belo Horizonte, e usou um carrinho para facilitar o contato com os livros. Ele passava nas salas e ficava no pátio durante o recreio (as professoras de leitura cuidavam do empréstimo). Depois, a equipe gestora instalou armários nos corredores, com portas que se abrem nos intervalos. "O espaço foi batizado pelas crianças de Ivoteca, em referência ao nome da escola", conta Anália. Perto das prateleiras, há murais com indicações dos títulos mais retirados, dados sobre os turnos que mais buscam obras - incentivando uma saudável competição - e dicas literárias feitas pelos alunos. Outra dica é decorar paredes com poemas, trechos de livros e dados sobre os autores.

PORTAS ABERTAS: Sem lugar para o acervo,
a EM Ivo de Tassis usa armários nos corredores.

2 Invista na organização do acervo

Para garantir que as obras transformem a maneira como crianças, jovens e adultos se relacionam com a literatura, não basta alinhá-las nas estantes da escola. Se o leitor precisa percorrer longas prateleiras sem entender a ordem dos livros, a busca pelo título desejado fica desanimadora. Uma das estratégias para fugir desse problema é separar as obras em literatura infantil, juvenil e adulta - bem como por tema, autor ou gênero. Uma boa inspiração é pensar em como funcionam as livrarias. Assim como elas usam estratégias para incentivar a compra, sua escola pode copiar o modelo com o objetivo de atrair leitores: expor logo na entrada os volumes mais retirados em determinado período, destacar as novidades em murais ou jornais internos, montar caixas com os livros divididos por faixa etária e colocá-las em locais de fácil acesso e deixar tudo sempre ao alcance dos estudantes - as prateleiras baixas, com itens para os pequenos, e as mais altas, para os mais velhos. "Muitas vezes, encontramos coisas maravilhosas e raras quando investimos em uma boa organização", afirma Celinha Nascimento.

3 Busque maneiras de ter (mais) livros

Toda escola tem direito a um acervo variado e atualizado. Desde 1997, o Ministério da Educação (MEC) fornece, por meio do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), livros de literatura para as instituições públicas. Algumas Secretarias de Educação contam com projetos semelhantes: no Rio de Janeiro, gestores e professores estaduais recebem dinheiro para atualizar o acervo durante o tradicional Salão do Livro. Em Santa Catarina, alunos do Ensino Fundamental ganham da Secretaria Estadual títulos de autores brasileiros. Se o acervo de sua escola está há muito tempo sem ser renovado, os especialistas sugerem organizar campanhas de arrecadação junto à comunidade ou solicitar doações a livrarias. Nesse caso, é preciso ficar atento ao que chega para escolher apenas o que tem qualidade literária e é, de fato, interessante para os alunos.
 
SEM MEDO DE USAR: Na EMEIEF Carlos
Drummond de Andrade, os livros vão até mesmo ao jardim.

4 Faça os livros circularem

Receio de que a capa estrague, as páginas se soltem ou o exemplar desapareça - eis algumas das inquietações que afligem os gestores. Antes de tudo é bom lembrar que, como todos os bens de consumo, os livros têm vida útil e, mais cedo ou mais tarde, precisam ser repostos. Por isso, nenhuma dessas preocupações pode impedir que os livros cumpram sua função: passar por alunos de todas as idades e chegar à comunidade. A equipe gestora da EMEIEF Carlos Drummond de Andrade, em Santo André, na Grande São Paulo, permite que as professoras levem exemplares para o jardim para que as crianças ouçam histórias e leiam num ambiente descontraído. Camila de Castro Alves Teixeira, da central pedagógica da Comunidade Educativa Cedac, em São Paulo, sugere campanhas educativas para ensinar os usuários a preservar os livros. Mais produtivo do que temer perdê-los é investir no controle de retirada (com programas de computador ou cadernos de registro). Um exemplar pode não ser devolvido por esquecimento ou porque o aluno quer ficar com ele. Discutir os direitos e deveres da vida em sociedade e elaborar regras de uso do acervo - prevendo a possibilidade de renovar o empréstimo da obra - pode ser um caminho. Mesmo as punições - sem exageros, por favor - são necessárias: enquanto não houver a devolução do livro atrasado, o usuário pode ficar impedido de realizar novos empréstimos.

5 Desperte o gosto pela literatura

Para formar leitores, é preciso que o professor seja, ele mesmo, um leitor, certo? O que fazer, então, quando ele não lê? Na prática, o mesmo que se faz com os alunos: criar condições para que a literatura vire um hábito. Na UME Antônio Ortega Domingues, em Cubatão, a 55 quilômetros de São Paulo, os educadores começam as reuniões com uma leitura literária coletiva e uma discussão sobre as impressões de todos a respeito do texto lido. O objetivo é aproximar a equipe da boa literatura e oportunizar momentos para que esses profissionais ampliem seu repertório e se interessem em buscar outras leituras. Algumas ações podem ser contempladas num projeto institucional que preveja a montagem de um acervo literário específico para adultos, a produção de um mural com indicações na sala dos professores e a organização de círculos de leitura. Importante: os momentos de formação do professor leitor não eliminam a necessidade de capacitá-lo na didática da leitura - fundamental para ele poder ensinar os alunos a também se tornar leitores.

6 Incentive os funcionários a ler

Fazer com que o gosto pela leitura contamine toda a escola é um desafio que rende ótimos frutos. É essencial, portanto, incentivar os funcionários a frequentar o espaço destinado à leitura. Na EM Professor Luiz de Almeida Marins, em Sorocaba, a 99 quilômetros de São Paulo, todos têm uma carteirinha da biblioteca e é comum ver merendeiras e auxiliares de limpeza escolhendo exemplares para ler em casa. Também é importante convidar os funcionários para participar de momentos de leitura coletiva, em horários previamente acordados entre todos e em local aconchegante. "O ato de ler ainda é visto por muitos como uma experiência solitária. Mas não deve ser assim. A leitura em conjunto estimula o prazer e a familiaridade com os textos", destaca Camila Teixeira, da Comunidade Educativa Cedac. Ações como essa ajudam a despertar no pessoal da equipe de apoio a vontade de se tornar um contador de histórias, por exemplo. Nesse caso, cabe a você, gestor, abrir espaço para que a atividade aconteça (sem tirar dos professores a responsabilidade de ler para as turmas).

DE CARTEIRINHA: Na EM Professor Luiz de Almeida
Marins, os funcionários também frequentam a biblioteca

7 Forme redes literárias
 
Oferecer contato com os livros exige habilidade e jogo de cintura. Mapear na vizinhança as entidades que têm potencial para ser parceiras da escola e procurar os responsáveis por equipamentos urbanos são boas pedidas. Em São João do Oeste, a 676 quilômetros de Florianópolis, duas escolas públicas se valem do acervo da biblioteca pública, no centro da cidade, para ampliar a oferta de títulos. Para atender a um acordo feito com gestoras, a coordenadora pedagógica da Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Esportes, Teresinha Staub, aproveita as visitas semanais para levar alguns livros no carro da prefeitura. As obras são eleitas pela demanda das escolas ou por indicações de Teresinha.

8 Abra as portas para os pais

Finalmente, para formar uma comunidade de leitores, nada melhor do que estreitar o contato com as famílias e oferecer a elas a possibilidade de usufruir da boa literatura. Encontros com autores, saraus e atividades de contação de histórias atraem os familiares e ajudam a tornar a leitura uma prática difundida socialmente. A realização de uma Semana Literária foi o caminho escolhido pela EMEF Professora Maria Berenice dos Santos, em São Paulo. "A experiência foi enriquecedora desde o planejamento, quando alunos e funcionários trocaram indicações de textos e de autores que queriam conhecer", conta a professora Daniela Neves, idealizadora da festa. Já na EE Jornalista Francisco Mesquita, também na capital paulista, os saraus mensais fazem sucesso por contar com um variado repertório de leitura e declamações. Outra ideia, implantada pela EE Professor Astor Vasques Lopes, em Itapetininga, a 165 quilômetros de São Paulo, é incentivar os alunos a levar para casa um livro e um caderno de anotações para que as histórias sejam lidas e comentadas com os parentes. Além disso, o acervo deve estar sempre disponível à comunidade, principalmente nos locais em que a escola é a principal fonte de acesso aos livros.

LEITURA EM FAMÍLIA: Pais e filhos são incentivados a
ler juntos na EE Professor Astor Vasques Lopes

Publicado em Agosto/Setembro 2010

Literatura do 6º ao 9º ano: ensine a teoria sem deixar de lado as práticas de leitura

Nos anos finais do Ensino Fundamental, ler sobre os livros é tão importante quanto ler os livros. A turma precisa começar a entender os diferentes estilos e recursos linguísticos usados pelos autores, sem deixar de lado as práticas de leitura


Foto: Omar Paixão

Chegou a hora de (além de ler para ampliar o repertório de obras e autores) começar a estudar a literatura. Nos anos finais do Ensino Fundamental, o ideal é que a turma analise os recursos linguísticos, os detalhes das histórias e as diferentes características dos textos literários sem se esquecer do hábito de ler (aquilo que os especialistas chamam de práticas sociais de leitura). É importante apresentar textos mais complexos aos alunos e lançar mão de conhecimentos teóricos para entendê-los melhor.

Por que ler e ensinar literatura

Para ir além do simples hábito de ler. Quando lemos um livro de poesias, elas nos emocionam e nos fazem refletir, buscar interpretações possíveis e tirar conclusões. E se alguém contar que essa obra foi escrita durante uma guerra, por exemplo, quando todos os escritores eram perseguidos? Ou chamar a nossa atenção para a estrutura do poema e nos fizer pensar por que o autor usa cada palavra, cada figura de linguagem? Com certeza, nossa visão sobre a obra vai mudar e vamos entender melhor aquele conjunto de versos. É isso que acontece quando você alia o ensino da literatura às práticas de leitura. Os alunos aproveitam a teoria para ampliar o olhar sobre os livros.

Quem lê

Nessa etapa da escolarização, o jovem precisa se acostumar à leitura autônoma. Mas algumas atividades coletivas podem ser mantidas (um bom exemplo é a leitura, pelo professor, de um texto de difícil compreensão, com o objetivo de ajudar na interpretação). Seu papel passa a ser o de orientador, que apresenta novidades e levanta questões para o desenvolvimento do senso crítico, sempre valorizando a opinião de todos. As atividades individuais de leitura são essenciais para criar uma relação pessoal com os livros, que se mantém pelo resto da vida.

Como ler

"Um segredo para formar leitores é misturar os momentos de leitura íntima, silenciosa e pessoal com outros de troca sobre como cada aluno se relaciona com o que leu", escreveu recentemente num artigo a argentina Nora Solari, especialista em Didática da Língua e da Literatura. Levar os jovens a falar sobre textos literários com os colegas é uma boa maneira de manter e ampliar seus hábitos leitores. Ao fazer com que os estudantes se aproximem de um livro que querem ler, você os coloca diante de um desafio. A turma terá de discutir e confrontar ideias para construir significados em relação à obra, terá de procurar as respostas escondidas nas entrelinhas (e esse prazer de entender melhor os livros é um dos grandes baratos da literatura).

Quando ler

A leitura continua sendo uma atividade permanente do 6º ao 9º ano. Cabe a você organizar o planejamento para incluir tanto as obras obrigatórias, estudadas nas aulas de teoria literária, como os textos escolhidos livremente pelos alunos.

Onde ler

A exemplo do que já foi dito em relação aos anos iniciais do Ensino Fundamental, não há espaços específicos para ler. O aluno que tem o hábito da leitura busca os próprios cantos.

O que ler

Na hora de ajudar a turma a escolher os livros, é importante conhecer o repertório e os interesses dos estudantes (coisas que cada um curte fazer nos fins de semana, assuntos que lhes interessam). Com base nisso, fica mais fácil sugerir leituras que farão sucesso. Segundo Rildo Cosson, autor de Letramento Literário: Teoria e Prática, indicar uma obra que dialogue com um jogo de videogame é um meio poderoso de atrair a garotada para a história. Além disso, a consolidação dos hábitos de leitura permite explorar textos mais difíceis e desafiadores, bem como conhecer novos autores e estilos (confira no quadro abaixo algumas indicações para os estudantes do 6º ao 9º ano).

Foto: Omar Paixão

Os erros mais comuns

- Analisar só os aspectos gramaticais. Deixar de lado as interpretações de um livro está muito longe de ser uma boa forma de desenvolver comportamentos leitores na turma.

- Separar forma e conteúdo. Colocar em discussão apenas os temas tratados no livro e deixar de lado a forma é um problema recorrente nas aulas de Língua Portuguesa. A interpretação completa de uma obra depende não só do que é dito, mas de como é dito. Até porque todo mundo sabe que um poema é diferente de uma crônica ou conto.

Publicado em Agosto 2010

Fonte: Nova Escola

Literatura do 1º ao 5º ano: ajude os alunos a ler com autonomia

O início do Ensino Fundamental é essencial para os alunos desenvolverem autonomia e continuarem seu percurso para se tornar leitores. Nesta etapa, o melhor é estimular a troca de livros e de opiniões sobre o que se lê


Foto: Omar Paixão

É nos anos iniciais do Ensino Fundamental que o aluno começa a construir sua autonomia como leitor. Para isso, é importante intercalar a leitura feita pelo professor com momentos em que todos devem ler sozinhos tanto na escola como em casa. Mas nada de resumos e questionários padronizados para testar os estudantes. Mais produtivo, para quem quer formar leitores, é organizar rodas para o compartilhamento de opiniões, propor trocas de livros entre os colegas e incentivá-los a seguir um autor ou um tema de que gostem.

Por que ler

Se os estudantes já estão habituados às rodas de leitura e têm contato com os livros, cabe ao professor do 1º ao 5º ano começar a colocá-los em contato com textos mais complexos para ampliar a familiaridade com a literatura. "Que tal selecionar um romance que prenda a atenção da turma e ler um capítulo por dia?", sugere Regina Scarpa, coordenadora pedagógica de NOVA ESCOLA. Numa fase da vida (e da escolarização) em que é preciso dar espaço para que as crianças ganhem autonomia e consigam ler sozinhas com mais facilidade, perder o medo dos livros maiores é fundamental - e o mesmo vale para os gêneros considerados mais difíceis, como a poesia.

Quem lê

Além do professor, as crianças (mesmo ainda não plenamente alfabetizadas) devem ser estimuladas a ler. No contato pessoal com os livros, elas começam a desenvolver a autonomia - e isso só se faz lendo. Em classe, é possível também organizar atividades em duplas e, claro, discussões coletivas sobre
as obras.

Como ler

Do 1º ao 5º ano, é importante criar uma comunidade de leitores em classe - ou seja, espaços em que todos tenham a chance de participar e opinar. Em seus livros, Delia Lerner sugere "desenvolver, em cada ano escolar, atividades permanentes ou periódicas concebidas de tal modo que cada um dos estudantes tenha a possibilidade de ler uma história para os demais ou escolher um poema para ler aos colegas". Outra sugestão é incentivar os alunos a trocar livros e indicações de autores. Eleger um tema de interesse comum (piratas ou histórias de terror, por exemplo) e ler vários textos desse tipo também costuma funcionar.

Quando ler

O ideal é que a rotina diária inclua momentos de leitura em aula e que os alunos sejam incentivados a levar exemplares para ler em casa - por hobby mesmo, sem que isso vire uma tarefa obrigatória.

Onde ler

"Não há leitor que só goste de ler num único lugar. Ele lê na cama, no sofá, no chão, na mesa do café... Por que na escola isso seria diferente?", indaga o professor de Literatura João Luís Ceccantini, da Unesp. Variar os ambientes de leitura deixa o ato de ler menos previsível. Aproveite o pátio, a grama, a sombra de uma árvore, a sala de leitura...

O que ler

Na hora de escolher os livros, fique atento ao conteúdo, evite obras moralistas ou politicamente incorretas e valorize a qualidade da edição (ilustrações, linguagem etc.). É importante trabalhar com textos de gêneros variados e a lista deve incluir obras clássicas e contemporâneas (confira abaixo sugestões de leitura para os anos iniciais do Ensino Fundamental).

Foto: Omar Paixão

Os erros mais comuns

- Transformar a leitura numa atividade entediante. Quando a literatura faz parte de uma tarefa burocrática e obrigatória, muitas crianças se afastam dela.

- Avaliar a leitura por meio de provas e resumos. Evite os questionários. Ampliar os debates sobre os textos ajuda a aumentar o envolvimento da turma.

- Ignorar os gostos de cada um. É nessa fase da escolarização que começam a se consolidar as preferências pessoais. E isso tem de ser respeitado e aproveitado.

Publicado em Agosto 2010

Fonte: Nova Escola

Literatura na Educação Infantil: para começar, muitos livros

Garantir o contato com as obras e apresentar diversos gêneros às crianças pequenas é a principal função dos professores de creche e pré-escola para desenvolver os comportamentos leitores e o gosto pela literatura desde cedo



Todos os especialistas concordam que, num país como o Brasil, a escola tem um papel fundamental para garantir o contato com livros desde a primeira infância: manusear as obras, encantar-se com as ilustrações e começar a descobrir o mundo das letras. É nas salas de Educação Infantil que você, professor, deve apresentar os diversos gêneros à turma. Nessa fase, o que importa é deixar-se levar pelas histórias sem nenhuma preocupação em "ensinar literatura". Ler para os pequenos e comentar a obra com eles é fundamental para começar a desenvolver os chamados comportamentos leitores.

Por que ler

Mesmo antes de aprender a ler, as crianças devem ser colocadas em contato com a literatura. Ao ver um adulto lendo, ao ouvir uma história contada por ele, ao observar as rimas (num poema ou numa música), os pequenos começam a se interessar pelo mundo das palavras. É o primeiro passo para se tornarem leitores literários - percurso que vai se estender até o fim do Ensino Fundamental.

Quem lê

Como a maioria das crianças de creche e pré-escola não é alfabetizada, a leitura deve ser feita pelo professor. Mas é essencial deixar que todos manipulem os exemplares. Incentive-os a folhear as páginas, observar as imagens e os textos e levar as obras para casa.

Como ler

Existem dois modelos básicos: o contato pessoal da criança com o livro, como foi explicado acima, e a roda de leitura, em que o professor lê para toda a turma. Nesse caso, é preciso sempre planejar a atividade, da escolha do texto às formas de interação. "A apresentação, a seleção e a preparação prévias, os motivos explicitados, a consideração do leitor, o incentivo aos comentários posteriores e o clima criado devem ser intencionais, e não obras do acaso", explica Virgínia Gastaldi, formadora do Instituto Avisalá, em São Paulo, no texto Quem Conhece Pode Escolher Melhor. Da mesma forma, o momento da leitura exige postura adequada, entonação de voz e uso correto das ilustrações para ajudar a conduzir a narrativa. No fim, é muito importante coletar as impressões da garotada, o que pode ser feito com perguntas simples: de qual parte da história cada um mais gostou (e por quê), o que chamou mais a atenção em cada personagem, qual ponto provocou mais alegria (ou medo, preocupação etc.). Esse momento de pensar sobre o que foi lido e expressar opiniões é um comportamento típico de quem gosta de ler - e vale para toda a vida. E não se esqueça de que essas opiniões podem (e costumam) ser diferentes. Essa troca também é boa para estimular os pequenos a aprender a ouvir o que os outros têm a dizer.

Quando ler

Já é amplamente sabido que a leitura deve ser uma atividade diária na Educação Infantil. Mas nunca é demais lembrar que as crianças pequenas não têm paciência para ficar muito tempo fazendo a mesma coisa. Portanto, reserve dez ou 15 minutos por dia no início dessa "caminhada". Sobrecarregar os pequenos pode transformar a hora da leitura num momento chato. E, aos poucos, vá aumentando esse tempo. À medida que criam o hábito da leitura, os pequenos começam a prestar atenção em histórias mais longas.

Onde guardar os livros

É muito comum cada sala de Educação Infantil ter um cantinho de leitura, com uma pequena estante. O ideal é que todo o acervo fique ao alcance das crianças (perto do chão e sem obstáculos entre obras e leitores). "Nessa fase da escolarização, o educador deve ensinar os cuidados básicos que devemos ter com o livro", diz Renata Junqueira, coordenadora do Centro de Estudos em Leitura e Literatura Infantil e Juvenil Maria Betty Coelho Silva (CELLIJ), da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), campus de Presidente Prudente.

O que ler

As histórias de ficção (como os contos de fadas) são as que mais encantam as crianças, mas é importante oferecer a elas diversas obras para que criem um repertório amplo. Como explica Renata, "os livros são um ótimo caminho para ampliar o universo cultural dos pequenos porque permitem entrar em contato com situações desconhecidas". Virgínia, em seu texto sobre a leitura na Educação Infantil, dá outra dica preciosa: "Preocupe-se com a qualidade literária, e não com o conteúdo moral". Isso não quer dizer que você pode escolher histórias amorais, mas que uma história bem escrita tem mais chances de prender a atenção de todos. Por isso, fique sempre com os textos que têm descrições ricas, misturem mistério e comédia e estimulem a imaginação, criando uma aventura interessante (no quadro abaixo, confira algumas indicações para turmas de Educação Infantil). E fuja dos materiais "escolarizados", cujo principal objetivo não é entreter a criançada, mas apenas ensinar que isso é o pato e aquilo é azul ou verde, sem nenhuma preocupação com a linguagem literária.

Os erros mais comuns

- Ignorar as opiniões das crianças. Ouvir as considerações da turma e estimular esse compartilhamento ajuda a criar o gosto pela literatura.

- Impor uma interpretação. Ao terminar o livro, o educador "resume" sua visão da história - e não percebe que ninguém é obrigado a ter a mesma opinião.

- Substituir o livro por figuras ou fantoches. Variar o modo de ler é desejável - mas não se pode esquecer que a hora de leitura precisa... de um livro.

- Ater-se aos clássicos. As crianças adoram os contos de fadas, mas é essencial apresentar outros gêneros, como a poesia.

Publicado em Agosto 2010

Fonte: Nova Escola

Literatura, muito prazer

A escola é um ambiente privilegiado para garantir muito contato com os livros. Conheça, passo a passo, os caminhos para ir além dos resumos e questionários de leitura e incentivar na garotada o gosto pelas obras literárias - mesmo que você não tenha familiaridade com esse tipo de texto


Muito se fala do poder da literatura - e de como a escola é um lugar privilegiado para estimular o gosto pela leitura. Infelizmente, porém, as salas de aula brasileiras estão longe de ser "celeiros de leitores". Salvo exceções, o contato dos estudantes com os livros costuma seguir um roteiro no mínimo enfadonho: alguns títulos (quase sempre "clássicos") são indicados (leia-se empurrados goela abaixo) e viram conteúdo avaliado (perguntas de interpretação de texto com uma única resposta correta). E só. A experiência que deveria ser desafiadora vira uma tarefa burocrática e sem graça. Os jovens se formam sem entender os benefícios da leitura e acabam não lendo mais nada. Pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) e o Instituto Pró-Livro mostra que 45% da população não lê nenhum exemplar por ano (desses, 53% dizem simplesmente "não ter interesse" e outros 42% admitem "ter dificuldade").

Mas, obviamente, é possível mudar esse quadro. Esta reportagem especial se propõe a ajudar você com dicas de especialistas e novidades do campo da didática. Para começar, é preciso compreender que, antes de analisar e refletir sobre os aspectos formais da literatura (história, linguagem etc.), os estudantes têm de gostar de ler. E isso só se faz de uma maneira: lendo, lendo, lendo. Porém ninguém nasce sabendo. Cabe à escola dar acesso às obras e ensinar os chamados comportamentos leitores: "entrar" na aventura com os personagens, comentar sobre o enredo, buscar textos semelhantes, conhecer mais sobre o autor, trocar indicações literárias. Tudo pelo prazer que a literatura proporciona, de nos levar a outros lugares e épocas. Um percurso que idealmente começa na infância - mas também pode ser iniciado mais tarde (nunca é tarde para abrir o primeiro livro).

Nas próximas páginas, você encontra um guia com sugestões para despertar esse gosto pelos livros e ensinar os comportamentos leitores, dividido em Educação Infantil, 1º ao 5º ano e 6º ao 9º ano (e também os erros mais comuns que são cometidos na escola). Em seguida, mais três páginas com uma reflexão sobre o papel do professor nessa caminhada - e como fazer para você se encantar pela literatura e/ou ampliar seu repertório. "Quando existe um espaço para discutir as leituras, com a possibilidade de inúmeras interpretações, começamos a desenvolver a curiosidade e o desejo de ir além", explica Mónica Rubalcaba, professora de Letras da Universidad Nacional de La Plata, na Argentina. Com isso, os alunos vão passar a ver a leitura não como uma tarefa escolar, mas como um hábito cotidiano. E você também.

Publicado em Agosto 2010

Fonte: Nova Escola

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Dica de leitura: "Para Ler Literatura como um Professor" - Em livro, professor ensina a compreender literatura nas entrelinhas

da Livraria da Folha
Tipos de personagens, ritmos de enredo e composição de capítulos são analisados por Thomas C. Foster em "Para Ler Literatura como um Professor", lançado neste mês pela editora Lua de Papel. O livro mostra como interpretar os diferentes pontos de vista que compõem as histórias literárias.

A partir das obras literárias, o professor de ficção contemporânea, drama e poesia da Universidade de Michigan (EUA) esclarece as simbologias dos personagens, dos objetos e de suas respectivas atitudes. O autor esmiúça as ações que compõem as entrelinhas de cada narrativa.

O livro mostra ao leitor como ele deve treinar a "linguagem de leitura", para que aproveite ao máximo os códigos e os padrões dos textos. Na abertura de cada capítulo, Foster introduz e contextualiza os autores que serão citados.

Foster afirma que os literatos aprendem a absorver os detalhes de primeiro plano somente. Para isso, o professor recomenda muita leitura e revela segredos para os interessados se aprofundarem na análise dos textos.

Tendo como exemplo a moda do "vampilirismo", o autor se utiliza do enredo das principais obras sobre o tema para demonstrar que o vampirismo não trata somente de vampiros, mas de temas como egoísmo, luxúria, dentre outros tabus sociais.


Para Foster, fantasmas e vampiros nunca são apenas fantasmas e vampiros.

Fonte: Folha on-line

segunda-feira, 22 de março de 2010

Literatura para iniciantes

Muitos especialistas dizem que a infância e a juventude são os melhores períodos da vida para o indivíduo adquirir a prática da leitura – considerada inerente ao desenvolvimento do ser humano por diversificar e ampliar a sua visão de mundo. A questão, diante desse desafio, é saber indicar o que o jovem deve ler para ingressar na literatura: a intimidade com as palavras deve ocorrer pela leitura das obras clássicas ou dos autores contemporâneos? O professor do Departamento de Teoria Literária da Unicamp, Paulo Franchetti, e o filósofo e pedagogo, Nivaldo de Carvalho, analisam o tema.

A construção do leitor
por Paulo Franchettii

Antes de refletir sobre qual o melhor caminho para ensinar literatura, penso que o melhor seja tentar responder à pergunta “por que ensinar literatura?”. E, antes de formular essa pergunta, talvez seja útil pensar em que consiste o processo da leitura.

Quando lemos um romance, por exemplo, nós nos colocamos na posição das personagens, repudiamos ou aprovamos o seu comportamento, nos identificamos ou nos indignamos com suas opções morais e movimentos espirituais. Como no cinema, experimentamos emoções que não nos pertencem originalmente, mas que sentimos até com mais intensidade do que as nossas próprias. Estamos ali mais livres. Olhamos para os dramas, os ridículos, o desespero ou a alegria do triunfo sem um interesse particular.

Usei, para destacar o ponto, uma analogia entre um romance e um filme. Mas há grandes diferenças entre eles, como há entre um poema e uma canção com letra e entre uma peça teatral escrita e suas encenações. Uma das mais evidentes é que o cinema é uma arte combinada: o efeito geral é produzido pela combinação de imagem, palavra, música, ruídos, efeitos visuais. Um romance ou um poema pode e deve produzir emoção, riso e outras respostas afetivas, mas apenas por meio da palavra.

Por depender só da palavra, a literatura tem uma força que as artes combinadas não possuem. Ela abre enorme espaço à projeção do leitor. De fato, tudo depende da sua imaginação: a forma de um rosto, por mais pormenorizadamente descrita, é uma para cada leitor. Assim também o tom da voz de uma personagem, uma paisagem, um ruído de guerra, o som de um grito ou de um encontro amoroso. E a importância disso se comprova quando vemos um filme sobre um livro que nos apaixonara. A concretização do rosto, do traço, a associação com uma voz real é perturbante. Mais ainda a presença de tudo aquilo que não aparece ou se apaga durante a leitura.
Por exemplo, quando lemos a descrição dos olhos de Capitu, não pensamos que ela tem mãos. Nem pés. Não imaginamos que vestido estaria usando, nem somos obrigados a lidar com particularidades como brincos, penteado, maquiagem etc. Não há nada senão as imagens que se juntam para dar ideia daqueles olhos. Mas, quando se filma ou se desenha Capitu com traço realista, todas as coisas não nomeadas no texto do Machado [de Assis] (partes do rosto, do corpo, do ambiente) vêm junto com os olhos, empanam o seu brilho, enfraquecem a sua força, de forma que uma representação pictórica dos olhos de Capitu nunca terá, sobre um leitor de Dom Casmurro, impacto semelhante ao dos trechos do romance em que eles são tratados.

Concentremo-nos agora no processo da leitura – na leitura de um romance, por exemplo. O que sucede ali? O leitor por acaso o decifra palavra por palavra? Não, por certo. Ele voa sobre elas, busca ao mesmo tempo o sentido do conjunto e o tom do trecho e do livro. Ele precisa entender se uma passagem é dita em tom irônico. Precisa perceber os sentidos que se formam além dela, pela alusão a eventos históricos, a outros textos, a costumes. E precisa fazer muitas outras operações complexas de interpretação, com base apenas no texto escrito, nas palavras que se sucedem nas páginas. Além de apreciar o ritmo das frases e a justeza ou o inusitado das imagens. Esse leque de capacidades não é trivial. Não é fácil dominar o conjunto complexo de habilidades que permite ao leitor ter pleno acesso ao prazer e à emoção que um bom livro lhe pode dar.

A mais rica fruição da literatura pressupõe ainda um exercício amplo da cultura, naquilo que ela tem de relação com o passado, como continuidade ou ruptura. É o passado que dá sentido ao presente da literatura. Uma obra solta no tempo não tem significação literária, no sentido que damos a essa palavra hoje. Um texto literário faz contínuas referências a outros textos que o precederam, e há alguns em que, sem o conhecimento do texto aludido ou incorporado, o sentido se perde ou, pelo menos, não se apresenta em totalidade.

A literatura é, assim, uma forma de ligação com o passado, uma forma de revivificá-lo. De aprender com ele, mas também uma forma de nos apropriarmos dele. A literatura fala pelo passado e faz o passado falar pelo presente. Ensinar literatura, portanto, em sentido amplo, é criar as condições para que o estudante, o leitor em formação, possa tornar-se ele também um herdeiro desse manancial.

Tornar-se herdeiro significa não só poder compreender, mas poder vivenciar em si mesmo o passado. Isso inclui poder deslocar a sua perspectiva temporal sobre vários assuntos, de modo a compreender que quase nada de “natural” existe no comportamento e nas instituições humanas, que quase tudo é cultural, ou seja, muda ou pode ser mudado. A literatura expõe a historicidade das formas de sensibilidade, convocando o que permanece ainda vivo em nós e o que já não permanece; o que nos rege desde o mundo dos mortos porque ainda é vivo e o que nos rege desde lá sem nenhuma razão para isso.

É certo que uma pessoa pode adquirir os instrumentos necessários para ler literariamente por meio da convivência solitária com os livros, no caso de dispor de acesso a uma biblioteca. Mas como ler literariamente é uma atividade que exige treinamento, referências culturais e repertórios específicos, faz sentido imaginar que a escola forneça meios para o estudante situar-se desde logo no campo literário.

Podemos tentar responder agora à pergunta metodológica que se apresenta, às vezes, com urgência e que foi o gatilho deste texto: deve-se começar o ensino da literatura pelos clássicos ou pelos contemporâneos?

Há quem julgue que pelos contemporâneos, tendo por princípio que se deve começar do mais fácil para o mais difícil. Do que tem mais apelo imediato para o que tem menos. Os que assim pensam acreditam que o essencial é despertar o gosto pela leitura. Entre esses, muitos creem que qualquer forma de leitura é melhor do que nenhuma e por isso não hesitam em usar os best-sellers, o livro ainda fresco da gráfica ou mesmo a adaptação cinematográfica, como degrau para a literatura.
Já os que pensam que se deva começar pelos clássicos têm, como argumento, que à escola compete fornecer a maior quantidade de experiências culturais, bem como quadros amplos de referência. Para esses, o gosto pela e na leitura deve ser construído, não apenas despertado. Esta é a posição com que simpatizo mais.

Para a maior parte das pessoas, as demandas do presente podem incentivar a leitura de best-sellers, livros de autoajuda ou romances-reportagem. Raramente, ainda mais num ambiente culturalmente pobre, um jovem será exposto à literatura de qualidade que nos é legada do passado recente, quanto mais do passado remoto.

No que toca à literatura, assim, creio que o mais interessante que a escola tem a oferecer é uma experiência da tradição viva, na qual os pontos altos de realização possam ser percebidos como tal; é a formação de um repertório de leituras que permita que o estudante, depois, pela vida afora, possa traçar o seu próprio caminho pelo campo da cultura literária, tornando a literatura, para ele, uma experiência plena e uma fonte de prazer intelectual.

Do meu ponto de vista, a questão não é atrair os jovens para a literatura, mas permitir-lhes o acesso à leitura mais refinada, que só a experiência e o repertório podem propiciar. Um jovem leitor não precisa da escola para ler um best-seller. O marketing das grandes editoras o induz a isso. Nem provavelmente para ler um romance contemporâneo sobre tema momentoso. Mas, sem a orientação e o estímulo de um leitor mais experiente, é pouco provável que esse mesmo jovem tenha acesso à beleza dos poemas homéricos, à complexidade da Divina Comédia, das tragédias gregas ou do Quixote ou de tantas outras obras que forneceram, ao longo dos séculos, padrões de gosto e matéria sempre renovada para novas obras literárias – ou mesmo a textos contemporâneos de maior complexidade ou menos investimento de publicidade.

É claro que, para isso, a escola precisa de livros e, sobretudo, de professores bem formados e que tenham vivência literária ampla e íntima. Sem isso – e, na época da explosão do acesso a textos literários pela internet, sem, sobretudo, professores educados e competentes – não há muito que fazer com a literatura na escola. Mas essa é já outra discussão.

Paulo Franchetti é professor titular do Departamento de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP).

“Ensinar literatura (...), em sentido amplo, é criar as condições para que o estudante, o leitor em formação, possa tornar-se ele também um herdeiro desse manancial”


Os jovens e a literatura
por Nivaldo de Carvalho

Atrair o interesse dos jovens para a literatura parece cada vez mais difícil numa época dominada pelas novas tecnologias da informação e da comunicação. Os jovens não parecem dispostos a trocar jogos, músicas e vídeos em celulares e computadores por um livro. Por outro lado, o lançamento de vários best-sellers, com tradução simultânea em várias línguas, hipnotiza uma legião de jovens leitores em todo o mundo. A contradição entre as duas situações se desfaz, ao se desatar o nó que amarra à força o gosto pela leitura ao prazer pela literatura.

Não há interesse pela literatura que subsista sem o incentivo à leitura, mas nem toda leitura é necessariamente literária. Há jovens que estão acostumados a ler jornais, revistas e livros, mas não apreciam literatura. Assim como saber ler e gostar de ler nem sempre coincidem, o contato com a literatura não garante a formação do gosto pelos textos literários, ainda mais quando isso ocorre sob a forma de imposições curriculares na escola.

Os jovens, depois de oito anos de leituras variadas na escola, são apresentados formalmente à literatura apenas no início do ensino médio. Esse contato tardio ocorre sob a forma de um estudo sistematizado baseado na história da literatura. Nessa perspectiva, os textos literários figuram apenas como ilustração de uma determinada estética literária situada no tempo. Excertos das obras constam do livro didático e quase sempre dispensam o contato direto com textos integrais e originais dos autores, exceção feita às leituras obrigatórias dos exames vestibulares. Além disso, os exercícios escolares propostos limitam-se à verificação da leitura realizada sem estimular a reflexão sobre os temas abordados pelo autor.
Muitos jovens terão na escola a única oportunidade de entrar em contato com textos de literatura. Mas essa oportunidade única nem sempre é encarada como uma possibilidade de discussão de valores, de questionamento moral e político e de estímulo à reflexão estética. A opção por um ensino reflexivo exige a leitura direta dos textos, além da seleção de obras e de autores que possam contribuir para a formação do gosto literário dos jovens e para sua avaliação dos produtos culturais consumidos na atualidade.

Um critério bastante utilizado para a seleção dos livros indicados para leitura leva em consideração o gosto dos jovens. A preferência recai quase sempre sobre os últimos lançamentos do mercado editorial, sem uma avaliação mais cuidadosa da qualidade literária dos livros. O perigo desse tipo de escolha não está somente na adequação e submissão ao conformismo e à trivialidade, mas em imobilizar o gosto dos jovens e tratá-los somente como consumidores de banalidades históricas e culturais.
Além desse critério, há a disputa entre autores clássicos e escritores contemporâneos como forma de acesso ao universo literário. Contra os clássicos, invoca-se a ideia de que os jovens têm muita dificuldade para ler textos complexos, considerados chatos e com um vocabulário difícil. Assim, ao invés de prazerosa, a leitura literária torna-se uma penitência interminável. A favor dos contemporâneos, pesam a proximidade da linguagem e atualidade do conteúdo, o que torna a leitura mais agradável e rápida.

Nem todas as obras clássicas são enfadonhas e desestimulantes. Insistir nessa via adia interminavelmente o contato dos jovens com a literatura clássica, privando-os de uma experiência estética insubstituível. Por outro lado, muitos autores contemporâneos são muito difíceis de serem lidos, principalmente os que fazem experimentações com a linguagem. Por isso, a seleção bibliográfica deve equilibrar prazer e desafio, levando em consideração principalmente a qualidade literária das obras e não apenas o seu conteúdo.

A qualidade literária de uma obra não se mede pela época em que foi escrita, mas por critérios estéticos. O texto literário é muito mais do que uma simples história contada por um autor. Há, no discurso literário, além do conteúdo representado pela ação e pelos personagens, a forma ou expressão, os recursos de que dispõe o autor para expor ideias morais, políticas e estéticas, num diálogo crítico com a sua época e com a tradição, visando ao futuro. A literatura ocupa-se não somente do conteúdo, mas principalmente da forma ou expressão.

O discurso literário recria os conteúdos da realidade, conferindo-lhes uma expressão não percebida antes. Portanto, não se trata de realidade reproduzida, mas recriada. O prazer proporcionado pela literatura ultrapassa o nível do entretenimento ou da diversão, pois é um processo de fruição que consiste em perceber a recriação do mundo por meio de vários recursos estilísticos. Assim, a realidade é transfigurada na literatura através da linguagem. A própria linguagem deixa de ser automática no processo de criação literária e ganha contornos inusitados.

Portanto, o gosto pela literatura não é somente gosto pela leitura, envolve também curiosidade e descoberta. Talvez seja essa a pista a ser explorada com os jovens na leitura dos textos literários. Se a juventude é a época de constituição da futura identidade, um período de turbulência e de conflitos para os jovens, a literatura pode atrair a atenção dos jovens, na medida em que apresenta perspectivas, questionamentos e modos de vida diferenciados.

Mas a escolha das obras literárias deve levar em conta a contribuição delas para a formação do gosto do jovem leitor, não somente em termos morais e políticos, mas principalmente estéticos. A leitura do texto literário deve propiciar aos jovens condições de apropriação gradativa da linguagem literária, tornando-os aptos à leitura de textos cada vez mais complexos e intrincados.

Aprende-se a gostar de literatura não somente na escola, mas também fora dela, nos próprios livros e textos, seja por indicação de amigos, seja pela leitura de uma resenha crítica ou ensaio em jornais e revistas. Embora a época atual não pareça coadunar-se com as exigências da literatura, é preciso marcar essa diferença como forma de lançar um olhar crítico para a realidade do mundo atual e das formas de produção cultural contemporânea. A leitura literária contribui também para que se desconfie de gostos moldados por índices de audiência, listas dos mais vendidos e sucessos de bilheteria.

Nivaldo de Carvalho, assessor de comunicação da Escola Vera Cruz, é graduado em Filosofia e Letras pela Universidade de São Paulo (USP)

“(...) o gosto pela literatura não é somente gosto pela leitura, envolve também curiosidade e descoberta. Talvez seja essa a pista a ser explorada com os jovens na leitura dos textos literários”

sábado, 20 de março de 2010

Literatura nas Escolas

É fato que os currículos escolares incluem matérias relacionadas ao ensino da literatura. No entanto, a questão levantada por especialistas e demais estudiosos dos processos educativos de crianças e adolescentes é: o potencial dessas aulas é suficientemente aproveitado? A doutoranda em literatura portuguesa Vivian


Steinberg lembra que as obras literárias são complexas e que, para o aprendizado dos clássicos, é necessária uma contextualização aos alunos. “A literatura é toda uma construção do universo da humanidade, é o grande patrimônio da nossa cultura”, afirma. Já a mestre em Literatura Brasileira Celinha

Nascimento argumenta que a leitura e interpretação de textos literários são fontes de conhecimento com “caminhos tortuosos”, e que as atividades propostas a partir de uma obra não devem ser vistas como algo mais importante que o livro em si. “Num mundo cada vez mais medido e sustentado pelas ações e movimentos, é preciso abrir espaço para o delírio silencioso que é a literatura”, sugere. Leia a seguir a íntegra dos artigos escritos pelas especialistas a convite da Revista E.

Sobre a literatura e a leitura: apenas uma matéria nas escolas?
por Vivian Steinberg

“Talvez não haja na nossa infância dias que tenhamos vivido tão plenamente como aqueles que pensamos ter deixado passar sem vivê-los, aqueles que passamos na companhia de um livro preferido.
(...)
Quem, como eu, não se lembra dessas leituras feitas nas férias, que íamos escondendo sucessivamente em todas aquelas horas do dia, que eram suficientemente tranqüilas e invioláveis para abrigá-las?”
Marcel Proust

Se vamos conversar sobre literatura, não tem como não abordarmos o tema leitura. A paixão pelos livros, pelos encantamentos das histórias, pelas viagens que nos proporcionam, é o que quero passar, em primeiro lugar.


Porém, a literatura não se resume à paixão pelas histórias. A literatura é toda uma construção do universo da humanidade, é o grande patrimônio da nossa cultura. Primeiro de uma civilização, depois de uma época, de um lugar, de um autor, marcada por valores históricos e geográficos. Devemos ler como se o texto diante de nós tivesse significado. Não será um significado único. Precisamos ler como se, de fato, as circunstâncias em que o texto foi escrito tivessem importância. Então, a leitura de um livro literário não é apenas o contar de uma história, é o contar de uma história a partir de um ponto de vista, porque o escritor não é isento e ele vive situações singulares. Ou seja, o autor parte de um universo particular, passa por uma esfera familiar. Depois, o lugar em que ele habita, a época e a língua materna são fatores determinantes para a construção de sua obra.

É preciso estar consciente de que uma obra literária é complexa, há todas essas informações. Por isso, é tão importante, nas escolas, a leitura de obras clássicas brasileiras e universais. Os clássicos servem para entender quem somos e aonde chegamos. Os livros clássicos brasileiros são indispensáveis, justamente para serem confrontados com os estrangeiros; e os estrangeiros, por sua vez, para serem confrontados com os brasileiros. É uma forma de conhecer melhor o povo brasileiro e nos conhecermos melhor, como brasileiros. E, porque a literatura é uma das artes, o conhecimento se dá não apenas através do intelectual, mas também do emocional e intuitivo. O conhecimento e a leitura de clássicos universais ampliam a visão do homem. Até agora falamos de dois pontos importantes ao tratarmos da literatura: os clássicos universais e os clássicos brasileiros.

Outro aspecto para trazermos à discussão é a leitura como prazer, questão fundamental na construção de um currículo coerente. É importante mesclar os clássicos com outras leituras. Não que a leitura de clássicos não possa ser prazerosa, mas é preciso mostrar “o caminho das pedras.” Para ler os clássicos, temos de definir “de onde” eles estão sendo lidos, caso contrário, tanto o livro quanto o leitor se perdem numa nuvem atemporal, o que nos adverte Ítalo Calvino. E o dia de hoje pode ser banal e mortificante, mas é sempre um ponto em que nos situamos para olhar para a frente ou para trás. Por isso a escola não perde de vista a literatura atual, a mais próxima dos alunos, a leitura na qual nos identificamos com personagens ou situações vividas.

Nos primeiros anos, após a grande descoberta na infância – o aprendizado da leitura e, conseqüentemente, da escrita –, a tarefa do educador é continuar a alimentar essa alegria, essa conquista. Na história da humanidade, Santo Agostinho resumiu assim a felicidade da descoberta da leitura: “Quando as palavras na página não apenas se ‘tornavam’ sons, quando os olhos as percebiam, elas eram sons”. A leitura de livros nessa idade é fundamental; primeiro para alimentar essa alegria e, depois, para a criança perceber a grandeza dessa conquista, perceber que a linguagem escrita não serve apenas para informar, mas também para formar, não no aspecto moral, mas estético. Em outras palavras, a criança percebe que se brinca com as palavras, as histórias nos transportam para situações diferentes do nosso cotidiano.

Mas como passar essa paixão em aulas? O trabalho é não deixar essa alegria inaugural se perder. Falar é fácil, mas na prática a situação muda, não é? Com o tempo, o aluno se acostuma com essa grande conquista, o aprender a ler passa a fazer parte do dia-a-dia, as leituras viram obrigação. Aliás, a leitura faz, de tal forma, parte do cotidiano dos moradores de grandes metrópoles, que nem mais percebemos como somos dependentes dessa atividade: a leitura.

Diferentemente dessa leitura cotidiana, há a leitura necessária nas escolas, em qualquer matéria. Trabalhamos a leitura de livros a partir da alfabetização. A criança, aos poucos, percebe que existem a leitura funcional, que traz uma informação objetiva, e a leitura de histórias, na qual a imaginação é requisitada. E há, ainda, outra matéria dos currículos escolares, que discute e apresenta histórias com personagens, narrador, imaginação, fantasia, e cujo nome acadêmico é literatura.

Precisamos de experiência de vida para aproveitar melhor uma leitura. Por isso, ao abordarmos determinado livro numa sala de aula, é importante mencionar o contexto em que essa obra nasceu, já que não somos leitores do mesmo momento, e, às vezes, o autor escreve sobre determinada época anterior a ele, então, é preciso fazer essas distinções. Por exemplo, Erico Verissimo (1905-1975), que viveu no século 20, escreveu Ana Terra, que se passa entre 1777 e 1811, no final do século 18 e começo do século 19, quando o Brasil ainda nem era o Brasil. A obra conta os primórdios da formação do Rio Grande do Sul, aponta circunstâncias injustas e grotescas da vida dos homens, salienta o papel da mulher como subalterna. Se tivesse escrito sobre a época em que viveu, ou seja, o século 20, não teria distanciamento suficiente para criticar de forma tão realista.

Há vários caminhos para ler um livro. Cada pessoa tem seus livros, suas preferências e gostos, o que é indiscutível. Precisamos despertar essas preferências nos alunos, e, a partir de leituras comuns, eles estarão aptos a procurar: temas, autores, épocas de suas preferências, distinguindo leituras mais profundas das mais consumíveis.

Outra questão controversa em relação à leitura é o aspecto intelectual que o sujeito apreciador dela exibe, ou como ele é visto. O professor é colocado num pedestal, como se tivesse lido todos os livros e soubesse de tudo, sendo detentor do saber. Não é assim. Ninguém leu todos os livros. As idéias que uma leitura provoca despertam qualquer leitor atento. O papel dos livros como algo inacessível ou difícil, pertencente à alta cultura, precisa ser desmistificado. Os livros devem ser vistos como companheiros.

O papel da escola é restrito, a idéia é fazer com que, junto às leituras acadêmicas, o aluno sinta prazer em ler e escolher suas próprias leituras, nas aulas de literatura. E que, a partir de leituras compartilhadas e silenciosas, o jovem possa compreender melhor o mundo em que vive, os outros e a si mesmo, ou apenas se questionar mais. Como disse Kafka a um amigo: “Lemos para fazer perguntas”.

"É importante mesclar os clássicos com outras leituras. Não que a leitura de clássicos não possa ser prazerosa, mas é preciso mostrar “o caminho das pedras”
Vivian Steinberg é doutoranda em literatura portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP). Professora de português e literatura do Colégio Ítaca.


 
Literatura na escola, o direito ao convívio com as palavras
por Celinha Nascimento
 
Poderíamos começar contando um tanto da história da leitura e da literatura nos bancos escolares, uma história bastante interessante que se entrelaça com a própria educação. Podemos eleger dois episódios importantes: o primeiro nos diz que a idéia de ensinar através das histórias sempre esteve presente em livros didáticos e antigos livros de leitura silenciosa, o segundo nos ensina que a leitura de obras ditas clássicas era e é obrigatória há longo tempo.


Não falaremos dessa história neste artigo, mas ela nos é importante para compreender algumas questões do tempo presente. Estamos vivendo e convivendo num tempo incrível das ações e movimentos. Tudo parece ser regido pela batuta da rapidez. Mas a literatura, ou pelo menos a boa e alta literatura, vive mais do como do que do porquê. Não importa realmente se Capitu traiu ou não Bentinho, mas sim a maneira (como) escolhida por Machado de Assis para nos contar essa história. Ou ainda, como ele não conta e deixa o segredo atormentando tantas gerações.

Como ensina Antonio Candido, importante crítico e professor de literatura da Universidade de São Paulo, “o homem precisa de uma dose diária de fantasia e realidade, e a literatura é a mais sofisticada forma de elaboração da fantasia, portanto, uma eficaz dose diária.” Num mundo cada vez mais medido e sustentado pelas ações e movimentos, é preciso abrir espaço para o delírio silencioso que a literatura, e muitas vezes somente ela, abre em nossas vidas, de todos os comos que ela nos ensina a aprender. A literatura nos convida para esse não-movimento, esse calar-se e esperar das próximas palavras, do próximo suspiro que o personagem está prometendo dar a qualquer instante. O incrível é que esse suspiro pode nem ser dado, pode não vir nunca. E encerramos a leitura sem aquilo que esperávamos, fechamos o livro e não encontramos o tal suspiro. A literatura nos convida para experiências além de nós.

A escola, evidentemente e como já dissemos, tem a preocupação antiga de formar leitores. Leitores que possam ler todo tipo de material escrito. A literatura é um desses materiais. Segundo muitos especialistas, o mais alto e o mais nobre desses materiais, mas não o único. Essa preocupação em formar leitores tem sido trabalhada de maneiras variadas ao longo do tempo. Porém, a discussão de formar leitores de literatura talvez não seja tão antiga assim. Livros paradidáticos e de leitura silenciosa estavam muito preocupados com uma leitura e um determinado tipo de texto que fosse conteudista e pragmático. O prazer da leitura demorou a chegar às escolas. Foi preciso um esforço dos educadores para que verificassem que também assim se ensinava a ler e a entender textos.

A diferença nas atividades nas quais se pede leitura e nas quais se pedem leituras literárias não é tão palpável. Herdamos, digo no plural pensando nas gerações que estudaram nos anos de 1970 e 1980, um modelo para averiguar a qualidade da leitura dos livros indicados. Essa verificação de leitura era feita através de fichas que estavam mais preocupadas em saber o que acontecia numa determinada página, que ano nasceu o autor, quanto tempo o personagem X ficou preso, o que disse o personagem Y quando caiu no chão etc. Enfim, tais fichas traziam perguntas concretas que não ajudavam a entender a obra, apenas estavam em busca de saber e constatar se o aluno realmente havia chegado ao final da leitura. Novas formas de avaliação de leitura foram construídas ao longo do tempo, na tentativa de abandonar essas fichas e colocar em seu lugar uma verdadeira discussão sobre as obras. Outra questão, bastante atrelada a essa verificação, está colocada na busca por ensinar e extrair conteúdos quando se lê uma obra literária. Alguns professores utilizam uma narrativa para ensinar matemática, ciências, geografia, história, religião. Esquecem de ensinar literatura.

É preciso ler literatura como literatura. Sem a preocupação dos conteúdos que se podem extrair dela. Aliás, extrair conteúdos pode ser tão prejudicial e desaconselhável como a prática de, ao final de cada narrativa, perguntar ao aluno “qual mensagem o autor quis nos passar?” Não penso que se deva estar preocupado com tal pergunta. Creio que os livros ensinem coisas por caminhos tortuosos e, de novo, retornamos à idéia de um contexto no qual as respostas imediatas são as mais aceitáveis e mais esperadas. A literatura é ferramenta da espera, da paciência com o texto e o autor. Existe uma verdadeira sofreguidão em fazer atividades pós-leitura: pedem-se com freqüência desenho, resumo, reescrita, novos finais. Todas essas atividades são legítimas, mas não podem tomar o lugar ou serem mais importantes que a leitura do texto. O texto deve fazer sentido por ele mesmo. A literatura também se alimenta de si mesma e pode ser entendida e analisada dessa forma. Podemos terminar uma leitura e simplesmente fechar o livro e nem mesmo perguntar se a turma gostou ou não da história. Pode parecer estranho, mas ler por puro prazer é também uma maneira de ler, é também uma forma de falar do prazer de ler.

Penso, portanto, que, além dessa maneira mais filosófica de pensar a literatura, também podemos pensar que ensinar literatura é falar de autores, editoras, ilustração, gêneros, épocas e estilos. Esses elementos se combinam e se misturam, mas não são mais urgentes ou importantes que a própria narrativa. Um bom exemplo, ou até dois, estão sendo comemorados neste ano: Machado de Assis e Guimarães Rosa criaram, à revelia de estilos e épocas, maneiras absolutamente singulares de edificar suas obras. Quando dizemos texto machadiano ou roseano, não estamos adjetivando pelo sobrenome, mas afirmando que é quase impossível enquadrá-los numa escola literária. Não são modernos, contemporâneos, realistas, são machadianos e roseanos, apenas. Também precisamos pensar a literatura que se alimenta de literatura, de autores que são leitores. Quando ofereço Harry Potter [J.K. Rowling, Editora Rocco] para meus alunos, preciso ensiná-los que a autora bebeu em fontes anteriores, então não posso me furtar de mostrar Crônicas de Nárnia [C.S. Lewis, Editora Martins Fontes], Senhor dos Anéis [J.R.R.Tolkien, Editora Martins Fontes], Escola de Magia [Michael Ende, Editora Martins Fontes] e toda a belíssima literatura oral e escrita medieval, nas quais aparecem mágicos, bruxos, lugares e animais fantásticos, enfim, todo o incrível universo utilizado e recriado pela autora do tão famoso bruxinho Harry. Ou quando tenho em mãos deliciosas narrativas que brincam com outras misturando personagens, citando outras obras e autores, preciso aproximar meu leitor dessas referências que dão ainda mais vida para a leitura.

Uma atividade de leitura muito querida pelos alunos é o Mar de Histórias. Distribuídos sobre um belo tecido, muitos livros estão disponíveis para a escolha de ávidos leitores. O convite é para que os alunos façam suas escolhas pessoais baseadas no desejo, na curiosidade, em algum tipo de necessidade, pois elas existem. Posteriormente, eles falam dessas leituras/obras escolhidas. Mas não é só o Mar de Histórias, o trabalho deve conter gêneros, autores, temas, leituras individuais e coletivas e, em especial, muito diálogo depois das leituras. O que importa em todas essas atividades é que as crianças possam, verdadeiramente, mergulhar nas leituras feitas, como num mar.

Se afirmarmos que o autor é também leitor, não podemos deixar de dizer que o professor também é modelo de leitor. Ele deve ser um apaixonado pela leitura e pela literatura e estar aberto e afiado para ouvir as leituras coletivas que surgem da análise de uma obra, das diversas leituras feitas por seus alunos.

E, como comecei meu texto citando Antonio Candido e em homenagem aos seus 90 anos completados este ano, termino citando-o novamente: “A literatura existe porque a realidade não basta”.

“É preciso ler literatura como literatura. Sem a preocupação dos conteúdos que se podem extrair dela. Aliás, extrair conteúdos pode ser tão prejudicial e desaconselhável como a prática de, ao final de cada narrativa, perguntar ao aluno “qual mensagem o autor quis nos passar?”
Celinha Nascimento é mestre em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), coordenadora dos projetos de leitura Letras de Luz (2007 e 2008), Ecoteca (2001 a 2006) e da Escola Castanheiras.


Fonte: Revista E SESCSP