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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Há uma princesa preocupada com a iliteracia

Matéria públicada em 15/10/2012

Rita Pimenta
 
Um em cada cinco europeus tem dificuldade em ler o mundo. Frase escolhida para título de um relatório sobre literacia na União Europeia. E a princesa Laurentien da Holanda, que liderou os peritos, não se conforma. "É preciso agir já", diz. Os europeus de que se fala têm 15 anos.

Ler e escrever "não são apenas competências técnicas", são "a chave para os cidadãos sentirem que fazem parte da sociedade", diz Laurentien van Orange



Na Holanda, 10 por cento da população têm problemas de iliteracia funcional. Isto é, baixo desempenho na leitura e na escrita, o que impede uma participação activa na sociedade. "Não se esperaria este tipo de problemas num país como a Holanda, pois não?", diz a princesa Laurentien, que veio a Lisboa para a VI Conferência Internacional do Plano Nacional de Leitura.

Empenhada em provar que a iliteracia não é "um exclusivo dos países em desenvolvimento", Laurentien van Oranje diz que "a Europa precisa de acordar para este problema". Por isso, dirigiu o Grupo de Peritos de Alto Nível sobre Literacia da Comissão Europeia que fez o relatório. Um em cada cinco europeus tem dificuldade em ler o mundo (publicado em Setembro) e apresentou-o no final da semana passada aos ministros da Educação da UE, no Chipre.

Antes, em Portugal, teve oportunidade de o mostrar a Nuno Crato e, durante a sua comunicação na Gulbenkian, acabou por provocar risos na plateia ao sugerir ao ministro da Educação: "Diga ao seu colega das Finanças que investir na literacia compensa. Falem disso quando forem de férias juntos." Isto porque a princesa Laurentien acredita que, "mobilizando os diferentes ministros para o assunto e pondo a literacia no centro de todas as políticas, o problema se resolverá mais facilmente".

Lembra que "é a primeira vez que a literacia é analisada a nível europeu desta forma e que a Europa tem muitas políticas segmentadas que, por não contemplarem a questão, não vão conseguir alcançar os objectivos". E dá ao PÚBLICO dois exemplos: o combate à pobreza ("se não se tiver competência para ler e escrever, torna-se quase impossível sair da sua espiral") e o investimento no digital ("não haverá pessoas conectadas se não souberem ler bem nem escrever"). Reforça a ideia de que este relatório é "um sinal de alerta". Ou seja: "Acordai." Segundo Laurentien, temos de encontrar caminhos para chegar a estas pessoas e descobrir o que precisam. Depois, há que insistir em argumentos adequados para as convencer a superarem-se e a colaborarem no seu próprio crescimento.

Mas os governos desejam mesmo uma população informada e exigente? "Todos os discursos dizem: 'Queremos uma Europa competitiva e inovadora'. Não podemos consegui-lo sem ser com base no conhecimento, no saber", disse ao PÚBLICO na véspera da conferência. "Nós falámos com os diferentes países da União e todos nos revelaram que não se tinham apercebido da importância da literacia. Há dez anos que trabalho sobre o assunto e foi muito difícil pô-lo na agenda política. Na Holanda, já conseguimos. Tem de ser passo a passo."

Mesmo quando os governos estão obcecados com o défice, o PIB, as dívidas? "Temos de fazer com que entendam que a ideia não é investir em política social 'em vez de' na literacia ou em políticas educativas 'em vez de' na literacia. A literacia é um componente de todas as áreas e tem de atravessar as diferentes políticas." Empresas, empregadores e outros actores sociais ficarão a ganhar: "Os empregadores ficarão com trabalhadores mais motivados, mais saudáveis, que faltam menos e são mais atentos à segurança. Sabemos que é assim. E precisamos de conquistar as empresas para a causa da literacia. Continua a ser o dinheiro a mover o mundo".

A influência de Laurentien multiplica-se em diversas actividades e instituições. Em 2004, criou a Fundação Ler e Escrever dos Países Baixos. Em 2009, tornou-se enviada especial da UNESCO da Literacia para o Desenvolvimento e foi patrona de Amesterdão Capital Mundial do Livro. É também presidente da Fundação Cultural Europeia e deu "uma grande ajuda no início do Plano Nacional de Leitura" português, lembrou Isabel Alçada, a primeira comissária, substituída entretanto por Fernando Pinto do Amaral.

Mas o que faz uma princesa empenhar-se tanto no combate à iliteracia? "Eu não mudei por me ter tornado princesa, por me ter casado com um príncipe [príncipe Constantino]. Sou a mesma pessoa que era antes, só que tenho mais responsabilidade. A de ser figura pública."

Laurentien, com apelido de solteira Brinkhorst, é formada em Ciências Políticas pela Universidade de Londres, fez mestrado em Jornalismo na Universidade da Califórnia e trabalhou na CNN.

Uma experiência pessoal dura, de "isolamento" e "exclusão", na juventude terá ampliado a sua sensibilidade para situações semelhantes às que sentem as pessoas "que não sabem ler o mundo". Foi assim: "Quando tinha 16 anos, fui para o Japão com os meus pais. Saí de um sistema holandês para um sistema francês e não sabia pronunciar uma única palavra. Foi muito difícil não conseguir comunicar com os meus colegas na escola, que também não estavam muito interessados em entender-me. Senti-me muito isolada. Não tive pena de mim própria, mas foi uma experiência muito forte."

A partir de então, fez tudo o que podia para que "toda a gente se sentisse incluída". E agora pode mais. "O desconhecimento de uma língua leva uma pessoa a sentir-se muito só e infeliz. O mesmo se passa com quem não sabe ler ou lê mal. Tem vergonha, esconde-se, torna-se insegura e desconfiada. Não quero isso para ninguém."

Ler pode ser uma chave

Outra história pessoal: "Alguém muito próximo de mim admitiu, há dois anos, que não conseguia ler em condições. Sentia-se tão triste que, ao revelá-lo, se desfez em lágrimas. Eu conheço-a há anos e nunca desconfiei."

A princesa Laurentien não tem dúvidas de que "ler e escrever não são apenas competências técnicas que se aprendem e pronto", são "a chave para os cidadãos sentirem que fazem parte da sociedade". Por isso continua a empenhar-se tanto. "Se de alguma forma conseguirmos passar-lhes o sentimento de que realmente importam, a sua confiança aumentará e passarão a acreditar que é possível. É isso que quero para toda a gente. Confiança e capacidade de acreditar. Mesmo do ponto de vista estratégico e político, fazem-se imensos progressos assim."

Mas não será fácil convencer um miúdo de que ler e escrever é importante e que o conhecimento é precioso quando este vê a profissão dos pais, professores ou jornalistas, por exemplo, ser completamente desvalorizada. "O que se pode dizer a esse miúdo é que, queira ele ser bombeiro, operário numa fábrica ou ter qualquer outra profissão, será sempre mais fácil conseguilo se dominar a palavra escrita. Tenho consciência da situação difícil que se atravessa, mas não podemos desistir. No momento em que começarmos a desistir da educação, estamos perdidos. A palavra escrita é central nas sociedades actuais."

Olhar a literacia a partir do berço é o caminho e já se sabe que se deve começar logo por aí. Mas há equívocos. "Os programas de leitura dirigem-se quase sempre para as crianças e no pressuposto de que haverá um adulto que lhes irá ler uma história ao deitar, por exemplo. No entanto, muitas vezes há uma percentagem elevada de adultos que não conseguem ler para as crianças. E o programa vai por água abaixo", conclui.

A justificação para a Europa se ter deixado chegar a estes níveis "inesperados" de iliteracia encontra-a na excessiva confiança que se depositou nos sistemas: "Nós pensámos que, tendo tudo a funcionar, como o acesso alargado à educação, os infantários, as creches, as escolas, os professores qualificados, o trabalho estava feito. Mas enganámo-nos." Uma série de aspectos importantes foram ignorados: "Não pensámos em qualidade, não pensámos no que fazer com culturas diferentes. Tomámos tudo por garantido. E criámos um tabu: as pessoas que começaram a ter estes problemas não falavam disso. Pensavam que eram as únicas e foram-se escondendo. Temos de acordar a Europa e derrubar esse tabu."

O poder das crianças

A terminar o encontro com o PÚBLICO, a princesa Laurentien da Holanda quer falar sobre o seu livro para crianças Mr. Finney e o Mundo de Pernas para o Ar (ilustração de Sieb Posthuma, edição da Esfera do Caos). E falou. "Se me tivesse perguntado o que espero do papel de Mr. Finney em Portugal, ter-lheia dito que espero que motive as crianças a conversar sobre problemas ambientais com os pais. Acredito no poder do discurso das crianças, é muito coerente e eficaz. Elas vão obrigar os pais a verem-se ao espelho e a questionarem-se."

Também quer levar este diálogo para as escolas, por isso visitou a Escola Francisco Arruda, em Lisboa. "Não se pode ensinar apenas como funciona a Natureza. Mr. Finney questiona mais do que explica." Conta ainda que fez um pacto com os alunos que conheceu. "Pedi-lhes que, da próxima vez que vissem lixo no chão, o apanhassem. Selámos o acordo com um aperto de mão. E eles comprometeram-se a cumpri-lo."

Nuno Crato também se comprometeu a, nas próximas férias, mostrar o relatório a Vítor Gaspar.

Fonte: Jornal "Público"

Ler ajuda a criança a entender o mundo; conheça maneiras de incentivar seu filho

Simone Sayegh
Do UOL, em São Paulo

 Ler para seu filho que ainda não se alfabetizou
fará com que ele tome gosto pela leitura

O livro infantil, antigamente limitado a raras e pouco atraentes edições, tem ganhado cada vez mais espaço nas grandes livrarias. Os lançamentos se multiplicam e as publicações tornam-se cada vez mais sofisticadas. Livro infantil virou até presente de aniversário, coisa impensada há 30 anos, quando muitas crianças só tinham acesso às histórias na escola.

Apenas uma coisa não mudou nesses anos todos: a importância da leitura na formação da criança.  De acordo com a pedagoga Clélia Cortez, orientadora da educação infantil da Escola Vera Cruz, de São Paulo, e coordenadora do programa Formar em Rede, do Instituto Avisa Lá (ONG de formação continuada de educadores), independentemente da época, os livros inserem as crianças pequenas em um mundo de sentidos e de significados que permite a ampliação e a construção da cultura. 

Dicas para formar leitores
  • Sempre que possível leia para seus filhos: mesmo crianças pequenas podem participar de situações de leitura;
  • Evite comprar o livro pela beleza da edição. Invista na escolha de narrativas que tragam questões que ajudem a lidar com sentimentos e ampliem a relação com a cultura;
  • Descubra se a escola do seu filho considera a leitura uma modalidade de ensino e procure colaborar  com as práticas de leitura desenvolvidas lá;
  • Crie o hábito de levar os filhos, desde pequenos, para passearem em livrarias;
  • Leve as crianças a eventos de contação de histórias;
  • Não restrinja as escolhas de títulos ao sexo do seu filho. Meninos e meninas podem ler os mesmos livros.
“As boas narrativas podem ajudar as crianças a pensarem muito sobre si mesmas e sobre os outros. É um ponto de encontro com a expressão humana”, afirma Clélia. Segundo a pedagoga, os valores surgem nas relações que as próprias crianças estabelecem entre essas histórias, sua cultura, casa e escola. 
 
De acordo com a psicóloga Débora Rana, coordenadora pedagógica da escola socioconstrutivista Projeto Vida, e também formadora do Instituto Avisa lá, a criança precisa ter o material escrito à disposição, assim como tem brinquedos, para entrar em contato sempre que desejar.

Os pais devem proporcionar opções de leitura variadas e evitar divisões por gênero. Assim como não existe brinquedo de menino e de menina, não existe livro para um sexo ou outro. Não ofereça à sua filha apenas histórias de princesas e a seu filho só as de piratas. “Crianças que só leem o mesmo tipo de livro acabam ficando sem repertório”, fala Débora. A variedade de assuntos contribui para o crescimento da rede de relações da criança e para o entendimento de seu próprio mundo.

Dentre os temas apresentados às crianças na literatura infantil, os contos maravilhosos –como as histórias dos Irmãos Grimm, na Alemanha, de Hans Cristian Andersen, na Dinamarca, ou de Garret e Herculano, em Portugal– sempre foram uma das narrativas mais importantes. Segundo a professora Cristiane Madanêlo de Oliveira, mestre em literatura brasileira e especialista em literatura infantil e juvenil pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), essas histórias fantasiosas exploram situações que ocorrem em locais indeterminados e apresentam fenômenos que não obedecem às leis naturais que regem o planeta.

Os clássicos originais, além de possuírem riqueza de linguagem, ajudam as crianças a pensarem sobre questões da existência humana desde muito cedo.
  
Um livro para cada criança

Faixa etária Como deve ser o texto Ilustrações Tipos de livro e formas de contar
De 1 a 2 anos As histórias devem ser rápidas e curtas Uma gravura em cada página, mostrando coisas simples e atrativas Prefira os livros de pano, madeira e de plástico. É recomendado o uso de fantoches
De 2 a 3 anos As histórias devem ser rápidas, com textos curtos que se aproximem das vivências da criança Gravuras grandes e com poucos detalhes Os fantoches continuam sendo o material mais adequado. Música exerce fascínio e pode ajudar a envolver a criança no enredo
De 3 a 6 anos Os livros devem propor vivências do cotidiano familiar. É a fase do “mãe (pai), conta outra vez” Predomínio absoluto da imagem, com textos brevíssimos Livros com dobraduras simples. O contador pode usar roupas e objetos característicos. A criança acredita que ele se transforma no personagem
A partir de 6 ou 7 anos (fase de alfabetização) Trabalho com figuras de linguagem que explorem o som das palavras. Construções enxutas. Personagens da coletividade, favorecendo a socialização. Inserção de poesia Ilustração integrada ao texto. Uso de letras ilustradas, de tamanhos e formatos diferentes O contador e a criança podem recriar passagens da história usando instrumentos musicais, massinha, tintas, lápis de cor, entre outros materiais 


“Os simbolismos ocultos nesse tipo de literatura ajudam a criança a defender suas vontades e a afirmar sua independência em relação ao poder dos pais ou à rivalidade com os irmãos ou amigos”, explica Cristiane. É nesse sentido que a literatura infantil e, principalmente, os contos de fadas podem ser decisivos para a formação da criança em relação a si mesma e ao mundo à sua volta.

Segundo a professora, a própria psicanálise se apropriou dos contos maravilhosos e seus significados simbólicos para explicar e resolver os eternos dilemas que o homem enfrenta ao longo de seu amadurecimento emocional.

De um modo geral, essas histórias apresentam personagens bons ou maus, belos ou feios, poderosos ou fracos, de maneira maniqueísta, o que facilita para a criança a compreensão de certos valores básicos da conduta humana. “Os contos de fadas trazem categorias de valor que são perenes e, segundo a psicanálise, a criança é levada a se identificar com o herói não devido à sua bondade ou à sua beleza, mas por sentir nele seu inconsciente desejo de bondade e beleza e, principalmente, sua necessidade de segurança e de proteção.”

No entanto, como as histórias fantasiosas são ricas em possibilidades, mas, ao mesmo tempo duais, é muito comum que sejam usadas por pais e educadores como pretexto para moralizar as crianças. “Muitos adultos simplesmente concluem pelas crianças e não permitem a elaboração do entendimento individual do texto, que é diferente para cada ser humano”, diz Débora.

A intenção de ensinar as crianças a se comportarem pela literatura é uma distorção do significado da formação de valores. Um exemplo disso são as provas de literatura aplicadas há algum tempo nos colégios, onde o mais importante era a criança responder de acordo com a interpretação pessoal do professor sobre o livro e não com a sua própria.  “Esse é o uso equivocado da leitura. Isso amedronta e ensina as crianças a odiarem a leitura, porque não podem participar efetivamente dela”, diz Débora.

Ambas as educadoras do Instituto Avisá Lá reforçam que o compromisso da escola deve ser o de dar sentido à experiência leitora e não padronizar comportamentos ou destruir textos, que, em sua maioria, foram escritos para ajudar as crianças a construírem por si mesmas seus pensamentos e valores.   “A escola é a grande responsável pela formação do leitor, para tanto deve ter clareza desse propósito em seu projeto educativo”, afirma Clélia.

Contar a história

A maioria das pessoas acredita que ler é uma ação para quem sabe ou consegue. Esse pensamento exclui dessa importante atividade todas as crianças abaixo de 6 anos, os analfabetos e as pessoas com deficiência visual.

“Ter contato com o texto escrito, via o próprio olhar, ou o olhar do outro, é ler”, fala Débora. Com base nesse conceito ampliado, a psicóloga ensina que a primeira inserção das pessoas no mundo da cultura é pela leitura, porta que deve ser aberta desde o momento que o bebê nasce. “Quando os pais ou cuidadores leem histórias para as crianças, eles estão fazendo com que elas leiam.”

Por fim, é importante também que o adulto demonstre prazer ao ler, porque o hábito da leitura é transmitido pelo exemplo. Adultos que leem continuamente na frente das crianças, com certeza, serão imitados no futuro. “O modelo de leitor é passado, é mais provável que, em uma família de leitores, a criança também se torne leitora”, afirma Débora.

Papel da escola

Quem quer que tenha o hábito de leitura já percebeu que o modo de ler um livro é diferente da maneira como se lê um jornal. “São comportamentos leitores distintos”, explica Débora. Enquanto a família dá o exemplo da leitura, a escola deve ensinar a criança a desenvolver os diferentes comportamentos leitores.

“Quando a escola toma para si que a leitura é uma das modalidades de ensino, as crianças podem aprender diferentes repertórios estruturantes de leitura”, fala. Para a coordenadora pedagógica, os principais erros das escolas com relação ao assunto é tratar a leitura como tapa-buraco da grade escolar e não considerá-la um valor. “Essa posição pode ser identificada em escolas que não têm um bom acervo de livros ou nem se preocupam em atualizá-lo.”

 Fonte: UOL Mulher

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Ler e contar: a formação do leitor como um triângulo amoroso

Matéria publicada em 08/08/2012
Fonte: Ecofuturo Blog

“As histórias são bálsamos medicinais. Achei as histórias interessantes desde que ouvi minha primeira. Elas têm uma força! Não exigem que se faça nada, que se seja nada, que se aja de nenhum modo – basta que prestemos atenção”.

Esta afirmação da psicanalista norte-americana Clarissa Pinkola Estés, claro, não é nenhuma novidade. Mas vale pela precisão e beleza com que nos recorda de uma atitude que a humanidade reconhece pelo menos desde que nos humanizamos. Se, como diz o filósofo espanhol Fernando Saváter, não nascemos humanos, “nos tornamos humanos por convívio e por contato”, essa sofisticada metamorfose jamais se manteria em pé, não fosse nossa capacidade de ouvir e de narrar histórias. Na mínima melodia articulada pela voz humana se identifica o DNA dos homens e mulheres que somos ou que haveremos de ser. É por isso que a imagem de nossos ancestrais em volta do fogo contando “causos” de terror ou de glória será sempre atual – ainda que a atualizemos munidos de livros, celulares e tablets.

Mas desde esse feito extraordinário e decisivo que foi a invenção da linguagem, muitas tecnologias foram desenvolvidas em favor da nossa necessidade ancestral de narrar. De todas elas, nenhuma foi tão decisiva, irreversível e transformadora da nossa relação com a palavra como a invenção da escrita. Não cabe desenvolver aqui a reviravolta que isso ocasionou na mentalidade humana, e sobre isso são escritas até hoje milhares de teses em todo o mundo. Para a nossa abordagem, entretanto, basta destacar que uma técnica (a leitura) não veio substituir a outra (contar histórias) – mas atentar para as diferenças entre uma outra é fundamental, quando queremos promover de fato a formação de leitores.


De ler e de contar

Contar história é uma maneira antiquíssima e eficaz de fortificar e perpetuar a cultura, através da transmissão de valores éticos ou morais, de técnicas essenciais à manutenção da comunidade, de ritos de passagem inerentes aos ciclos da vida, etc. Passadas de geração para geração, de boca em boca, se ajustam e se transformam conforme as necessidades. Como a palavra também cura, é “bálsamo medicinal” – pode alegrar, comover, acalentar, entreter, fazer rir, consolar –, contar histórias tem muito de improviso e adaptação ao contexto e à função a que se destina, dependendo muito da impressão que se quer imprimir na alma daquele que ouve. “Quem conta um conto aumenta um ponto”, já dizia um antigo antepassado nosso cujo nome se perdeu na história, mas que com certeza foi um grande narrador. E isso vale mesmo para histórias que foram escritas. No ato de contar, o material escrito não precisa estar presente, pois o que interessa é o enredo, a narrativa. Sendo assim, além da própria voz, podemos usar recursos diversos, como fantoches, técnicas teatrais, caracterizações de personagens, objetos, música, etc.

Agora, ler é outra história. Na leitura de um conto, mesmo o ponto permanece onde está. Até porque a função da escrita é preservar tanto a história quanto a forma como ela está registrada. Portanto, se é para acrescentar alguma coisa, isso corre por conta de quem ouve: vai depender de como a história se acomoda no espírito de quem a recebe, que é livre para interpretar. Mas àquele que se comprometeu a ler para os outros cabe respeitar cado ponto, cada vírgula e a inteireza da frase.


Ler em voz alta: um triângulo amoroso entre você, o livro e o pequeno leitor

Vale enfatizar: não se trata de substituir uma prática pela outra, nem de estabelecer que esta seja melhor do que aquela – enfim, não se trata de hierarquizar. Ambas as práticas são importantes para a aquisição da linguagem e o desenvolvimento da escrita. Mas, em se tratando de promoção de leitura e formação efetiva de leitores, a presença do livro e o respeito às particularidades da leitura são indispensáveis, e aí precisamos ficar atentos entre as diferenças entre ler e contar. Comparada à narrativa oral, a leitura é algo muito recente e ainda estamos aprendendo como é que se faz. Grandes leitores e autores, como Goethe, advertem que aprender a ler é algo que não paramos de aprender durante uma vida inteira!

Em abril de 2010, veiculamos em nosso antigo blog uma excelente entrevista com a fonoaudióloga e assessora em leitura pública Lucila Pastorello. Vale a pena reproduzir abaixo alguns trechos preciosos que nos ajudam a pensar e aperfeiçoar nossas práticas de mediadores de leitura. Vejamos.

Com a leitura a coisa é um pouco diferente. Um professor e pesquisador da USP, o Claudemir Belintane, que orientou meus estudos de doutorado, costuma dizer que na leitura há uma lei-dura. Não dá para adaptar, inventar; o leitor deve ler aquilo que está escrito, já que uma das funções da escrita é registrar um texto, em seu conteúdo e sua forma.

Se a ideia é promoção de leitura, é claro que ler em voz alta é a prática mais indicada, pois a presença do escrito (do livro, por exemplo) na atividade faz com que aqueles que ouvem e veem (crianças, normalmente, mas funciona com adultos também) fiquem interessados em saber de onde vêm as palavras, a história que envolvem a todos na voz do leitor. A criança vê o leitor vendo o escrito. O leitor, por sua vez, tem um compromisso com o texto escrito e com os ouvintes: ele testemunha a língua, está sujeito às leis da escrita, mas ao mesmo tempo pode deixar sua marca interpretativa com sua voz, fazendo o texto passar por seu corpo e atingir o corpo dos outros.

Ao lermos em voz alta, o texto escrito está presente, o que cria uma triangulação na situação: a escrita, o leitor e aquele que escuta e observa a leitura. Esta triangulação é essencial para trabalharmos o desejo pela leitura e pela escrita. A transição, falando especificamente em pessoas em processo de alfabetização, se dá naturalmente quando há desejo pelo escrito, quando o não-leitor inveja o leitor e se lança no árduo caminho de ser letrado. Está aí um bom sentido para o termo "mediador de leitura". A leitura em voz alta é uma oferta, um presente para o futuro. Ler para o outro é sempre importante, ainda mais tratando-se de um leitor em formação. Devemos lembrar que a alfabetização é o domínio de uma técnica, mas a formação de um leitor leva anos. Quantos anos? Provavelmente a vida!

Feitos esses esclarecimentos preciosos, uma pergunta não quer calar: por que ainda somos resistentes em admitir essas diferenças e por que, sempre que podemos, colocamos a contação de histórias no lugar da leitura em voz alta? Lucila esclarece.

Contar histórias tem sido uma prática mais intensa justamente por conta de suas características: liberdade para criar, resgate de elementos da cultura popular e arrebatamento do espectador através de uma cena dramática, muito próxima do teatro. Além disso, no Brasil, quando falamos aos professores sobre leitura em voz alta, é comum percebermos a associação ao controle, com a avaliação e não com a fruição do texto e a criação de sentidos interpretativos. Esta associação pode ser motivada pelo uso autoritário e normativo da leitura. Se pensarmos que ler é transformar o material gráfico em material sonoro, aí pensamos que existe uma “leitura certa” e uma “errada”. Mas, se considerarmos que ler é produzir sentidos, a leitura em voz alta passa também a ser uma forma de singularizar o discurso, de oferecer aos outros a sua leitura particular.

Se ler é algo que se exercita e se aprende pela vida toda, podemos e devemos oferecer leitura sempre e em todos os lugares, inclusive para pessoas plenamente alfabetizadas. Segundo Lucila:

Podemos ler com as crianças desde muito cedo; antes de serem alfabetizadas, elas podem “ler as imagens” enquanto você lê o escrito (a leitura imagética é uma forma interessante e importante de acesso ao sentido de um texto). Aos poucos, à medida que a criança caminha em seu processo de alfabetização, podemos variar os papéis, inventar outros. Ler para o outro é uma expressão de afeto e cuidado. E para pensar: até que idade queremos ser cuidados? Alberto Manguel, um importante escritor e pesquisador argentino, descobriu a potência da leitura em voz alta lendo para um grande escritor argentino, Jorge Luis Borges, que estava perdendo a visão. A partir daí Manguel passou a incorporar a leitura em voz alta como uma prática interativa: passou a ler em voz alta em casa, com sua companheira. Em alguns países como França e Portugal, atualmente existem sessões de leitura em voz alta abertas ao público: a leitura em voz alta é uma oferta e não necessariamente uma alternativa a cegos e analfabetos. Não se trata de suprir, mas de ofertar.


Um presente pra você, leitor

Dissemos parágrafos acima que, na contação de histórias, o que importa é a narrativa, o conteúdo que é contado – o enredo da história. Mas, quando se trata de leitura de literatura, interessa não só o que se conta, mas também a forma como o autor narra. Por exemplo, qualquer um de nós pode dizer que, do alto de um voo de avião, as coisas aqui embaixo parecem tão minúsculas que um homem, um cavalo e um boi se tornam verdadeiras formiguinhas. Mas existe um jeito de dizer isso que só pode ser dito por Guimarães Rosa. Do conto “As margens da alegria”, extraímos a seguinte pérola: “Se homens, meninos, cavalos e bois – assim insetos?”.

E não para por aí o deslumbramento desse conto. Ele inteiro é construído com pérolas, para o nosso “milmaravilhamento”. Um menino vê pela primeira vez um peru no quintal e de repente não é mais um peru, é a coisa mais deslumbrante do mundo, é uma experiência arrebatadora, é a iluminação de uma vida inteira:
“O peru, imperial, dava-lhe as costas, para receber sua admiração. Estalara a cauda, e se entufou, fazendo roda: o rapar das asas no chão – brusco, rijo, – se proclamara. Grugulejou, sacudindo o abotoado grosso de bagas rubras; e a cabeça possuía laivos de azul-claro, raro, de céu de sanhaços; e ele, completo, torneado, redondoso, todo em esferas e planos, com reflexos de verdes metais em azul-e-preto – o peru para sempre. Belo, belo! Tinha qualquer de calor, poder e flor, um transbordamento. Sua ríspida grandeza tonitruante. Sua colorida empáfia. Satisfazia os olhos, era de se tanger trombeta. Colérico, encachiado, andando, gruziou outro gluglo. O menino riu, com todo o coração. Mas só bis-viu. Já o chamavam, para passeio”.

Não é maravilhoso?! É aquele tipo de leitura para ser relida. Relida, não: translida. Não, ainda não é isso, é aquele tipo de coisa que exige ser: pro-cla-ma-da! É daqueles trechos pelos quais passamos e imediatamente queremos chamar todo o mundo para ver-ouvir-ler-se-maravilhar. Exige ser compartilhado!
Tudo bem, vocês já perceberam com toda razão que Guimarães Rosa é no mínimo o escritor de cabeceira de certas pessoas aqui no Ecofuturo... Mas, experimente ler o trecho acima em voz alta. Leu? Então, tem mais: experimente a sensação de movimentar bem os lábios, sentindo cada movimento, abrindo bem a boca, articulando cada palavra vagarosamente, sentindo o movimento da língua, conforme a exigência de cada sílaba, atento à delícia da pronúncia e à sonoridade – especialmente em: “empáfia”, “torneado”, “redondoso”, “entufou”, “ríspida grandeza tonitruante” e “abotoado grosso de bagas rubras”... Aposto que você sentiu um negócio estranho e maravilhoso no próprio corpo.
Sentiu? Então, corre e anuncie aos outros a boa nova!

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Ler não é obrigação

Publicada no jornal Gazeta do Povo em 18/09/2012

Felipe Lindoso, pesquisador e consultor de leitura

O jornalista, tradutor e consultor Felipe Lindoso tornou-se uma voz necessária ao se falar de leitura no Brasil. Por uma razão prática – ele povoou de informações seguras um setor dado a discursos inflamados e bem-intencionados a favor do livro. O resultado é flagrante. Para ele, ler é atividade lúdica e necessária, mas também é algo tão concreto quanto o mercado da soja.

Parece exagero, mas ao costurar leitura e desenvolvimento, o especialista em políticas públicas criou uma estratégia para fazer do negócio dos livros e da leitura um assunto tão sério quanto os demais. Não é uma guerra vencida. Há muito que se palmilhar para que os índices de leitura no Brasil estejam à mesma mesa de negociação em que se discute o pré-sal ou o Código Florestal. Mas o pesquisador figura entre os que trabalham para criar uma cultura que considere as letras um capital decisório no vai não vai que balança as economias emergentes.

O livro O Brasil pode ser um país de Leitores?, de 2004, é uma prova de sua ambição. A obra radiografa os maus humores nacionais com o livro e a literatura desde os princípios da Nação. Entre uma tragédia e outra, o estudo levanta fontes para outros pesquisadores – como os interessados em entender um fenômeno como Ágape, o livro de 7 milhões de exemplares do padre Marcelo Rossi. E retoma pendengas já bastante debatidas, porém crônicas, como os tropeços da escola e da família na formação dos leitores.

Felipe Lindoso é entrevistado da série “Leitura na prática”, que a Gazeta do Povo publica até 21 de outubro. Confira:

Para que tornar-se um leitor?
Quem lê e amplia seus horizontes culturais tem mais oportunidades de se desenvolver. Mas essa é uma opção individual, desde que estejam dadas as condições de escolha. O que acontece hoje é que as oportunidades de acesso ao livro são reduzidas. As famílias não são leitoras, as escolas ainda não preparam as condições para essa escolha, e o sistema de bibliotecas públicas é precário, para usar uma palavra suave. Por isso, ser leitor ou não independe de uma escolha. Na maioria dos casos, não há oportunidades.

É possível reaprender a ler?
Em uma palestra, o professor Ítalo Moriconi [organizador de Os cem melhores poemas brasileiros do século] assinalou o quanto temos que aprender, inclusive sobre as posturas necessárias para uma boa leitura. Essa postura não é “natural”, é socialmente induzida. Ler é uma questão de aprendizado e de escolha. Mas é importante destacar que ler não é obrigação. Pode ser uma necessidade, inclusive profissional. Há pessoas que desfrutam da leitura por prazer. Outras, ainda, por convicções religiosas ou políticas. Por essas características, a leitura não acontece somente nos momentos de lazer e descanso, quando concorre com a tevê, o cinema, a música e a simples conversa. A leitura depende de circunstâncias...

Aproveitando a deixa, qual o papel da escola nessa seara...
Deixar de tornar a leitura obrigatória. Deixar os livros à disposição dos alunos para que escolham o que querem ler, em literatura. Aí o professor pode motivar os alunos para ler alguns títulos, mas sem obrigação. Como diz o Ziraldo, o importante é ler, não aprender...

O que diria das bibliotecas escolares?
Salvo as proverbiais exceções, são muito ruins. Começa que na maioria das escolas não existe biblioteca, nem como “salas de leitura”. Já vi escolas nas quais as diretoras “despejaram” a biblioteca para abrigar mais alunos. Mas as bibliotecas são ruins sobretudo porque as professoras não são leitoras, não foram formadas e capacitadas para transmitir o gosto pela leitura. Daí que não ligam para as bibliotecas. As bibliotecas muitas vezes viram lugar de “castigo”: aluno mal comportado vai para a biblioteca, na qual encontra muitas vezes professoras afastadas da sala de aula, por alergia a giz, problemas nervosos e outros quetais.

O que fazer para que melhorem?
Melhorando – e muito – a qualidade dos professores. Depois, é preciso capacitar adequadamente os encarregados das bibliotecas. Não que devam ser necessariamente bibliotecários – mas um conjunto de bibliotecas escolares deveria ser supervisionado por bibliotecários. Os que ali trabalham precisam ser formados para a função, e não ocupar o lugar como um quebra-galho qualquer. Finalmente, a biblioteca escolar precisa ter um acervo amplo, com diversidade de escolhas, tanto de literatura quanto dos chamados paradidáticos. E com liberdade para os alunos escolherem o que desejam ler. Sem imposições e muito menos vigilância e censura.

Na última edição da pesquisa de Retratos da Leitura no Brasil os professores aparecem como principais incentivadores do livro, ultrapassando em influência os pais. O que diria?
O grande problema é que a maioria das famílias é de não leitores. O contato com os livros não aparece em casa, tanto por essa razão como também por questões econômicas. Livros são caros, proporcionalmente ao nível de renda dos brasileiros. Programas como o “Agentes de leitura”, que vai às casas para trabalhar com as famílias a questão da leitura, levam livros e indicam as bibliotecas. É uma possibilidade.

Em seu livro O Brasil pode ser um país de leitores? o senhor fala do papel das religiões na difusão da leitura. Continua pensado assim?
Historicamente, os países do protestantismo clássico se beneficiaram da doutrina que dá aos fiéis o contato direto com a divindade, no qual a leitura da Bíblia assumia um papel de importância. A Igreja Católica, ao contrário, sempre acreditou nos intermediários. A primeira tradução da Bíblia em português só aconteceu em meados do século 19. Entretanto, hoje, os fundamentalistas evangélicos aqui no Brasil assumem esse papel de intermediação. A compra de Bíblias é o maior fenômeno editorial do Brasil – e do mundo – mas daí a dizer que a Bíblia é lida vai um grande passo. Hoje não acredito que qualquer religião contribua positivamente para a leitura e a ilustração, e aí estão os fundamentalistas negando a ciência e a evolução.

Podemos pensar em um índice de desenvolvimento a partir da leitura?
Basta ver a quantidade de bibliotecas e os índices de leituras dos países avançados econômica e socialmente. Só nos EUA existem quase 200 mil bibliotecas públicas. Na Europa Ocidental – França, Inglaterra, Itália e mesmo a Espanha e Portugal – a questão do acesso aos livros é considerado de importância estratégica. No Brasil, quando existem, as bibliotecas geralmente estão no centro que, quando não degradado, ainda é o reduto das elites.


Divulgação /

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

4 estratégias para os pais ajudarem os filhos a aprender a ler e a escrever

25 agosto 2012
 
Só 37% dos alunos que frequentam o 4º ano são considerados proficientes em leitura. Os dados são de 2005 e reportam-se aos EUA (1).  Em Portugal, os dados não divergem.

Os professores podem fazer muito mas os pais ainda mais (2). 

As crianças não aprendem a ler naturalmente. Não é suficiente apoiá-las na leitura. É necessário instrução directa por parte de professores e de pais. Convém ter presente que nem todas as crianças aprende a ler com os métodos globais. Para muitas é mais eficaz o uso de métodos fonéticos. Aprender o abcedário e a juntar letras, perceber a diferença entre um fonema e um grafema e associar o grafema ao som são tarefas difíceis mas necessárias ao processo de aprendizagem da leitura e da escrita.

Os professores ensinam na sala de aula recorrendo a métodos de instrução directa com muito treino, repetição e correcção de erros. Os pais ensinam em casa, reforçando o trabalho dos professores.

O que é que os pais podem fazer para os filhos serem bons leitores?

#1. Estabelecer uma rotina. 

O contacto com os livros deve constituir uma actividade diária. Se os pais criarem um horário semanal de estudo, onde constem as horas de leitura, as crianças ganham o hábito de ler e a leitura torna-se uma actividade rotineira.

2#. Dar liberdade para ler

Os pais devem dar liberdade às crianças para escolherem os livros que desejam ler. Visitas regulares à biblioteca também ajudam. 

3#. Ensinar leitura activa

Não basta ler. É preciso fazer perguntas sobre a história. Quem são os personagens? O que fazem eles? Como relacionar as imagens com as palavras? Fazer resumos da história. Debater a história. Interpretar as frases.

4#.Passar da leitura à escrita

Ler é bom mas escrever ainda é melhor. Pedir à criança para resumir por escrito a história. Pedir à criança para contar uma história e escrevê-la. 

Fonte:ProfBlog A Educação em Portugal

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

“Ler ou não ler" é, uma vez mais, a questão

Filipe de Sousa
Texto publicado originalmente no jornal: GAZETA VALEPARAIBANA
Julho/2012

Nas sociedades contemporâneas, a leitura (em contexto escolar, profissional ou de lazer) assume um papel importantíssimo na promoção do desenvolvimento cultural, científico, político e, consequentemente, econômico dos povos e dos indivíduos. Por isso, tanto se tem refletido sobre a forma de incentivar e motivar as pessoas para a leitura, em especial as crianças e os jovens, que ainda não criaram e enraizaram esse hábito tão enriquecedor.

Interlocutor privilegiado, pelo tempo que partilha com os mais novos, a escola pode ajudar a criar e a sedimentar hábitos de leitura quer promovendo e explorando o livro, com temáticas adequadas e atrativas para as correspondentes faixas etárias, quer dinamizando atividades inovadoras e interessantes com livros na biblioteca escolar, quer propondo a navegação em sites diversificados que põem o aluno em contacto com a leitura de diferentes suportes, muitas vezes interativos. Estas são, fundamentalmente, as questões sobre as quais nos debruçaremos no artigo que se segue.

As crianças e os jovens aprendem muito do que sabem acerca do mundo e da vida espontaneamente, em contextos muito diversificados que abrangem o grupo familiar, o círculo de amigos, as micro-sociedades ou grupos em que se inserem e os meios de comunicação social, desde a televisão até à Internet.

Mas é, sem dúvida, na escola e, frequentemente, através do livro, que aprendem de forma mais organizada a sistematizar as informações e os conhecimentos, a pensar, a olhar com espírito crítico a realidade circundante, a problematizar o mundo, a encontrar resposta para os problemas que enfrentam, a respeitar as  diferenças étnicas, sociais e pessoais e, muitas vezes, a interiorizar os seus direitos e deveres, como pessoas e como cidadãos. Enfim, o contacto com o livro enriquece culturalmente o indivíduo e promove a sua autonomia. Para já não falar, especificamente, da importância do livro e da leitura para o melhoramento da competência linguística oral e para a aprendizagem do código escrito da sua própria língua.

De ano para ano vamos tendo cada vez a sensação mais nítida de que aumentam os problemas relacionados com a competência linguística oral e escrita dos jovens em geral, problemas esses denunciados diariamente pela própria família, pelos meios de comunicação social e, claro, amargamente constatados por todos os professores. É visível e constrangedora a dificuldade de certos adolescentes em exporem claramente um raciocínio. No âmbito da escrita já não são só os problemas ortográficos, mas é também o domínio deficiente da pontuação, da acentuação gráfica, da própria construção sintática da frase, bem como o da construção de um simples texto.

Neste contexto, afigura-se-nos óbvia a importância do livro e da leitura como fonte de saber e de cultura e como meio eficaz de aperfeiçoamento linguístico. Todavia, o difícil é ser capaz de conduzir as crianças e os jovens à leitura, quando estão rodeados de tantas e tão diversificadas solicitações e quando, por vezes, até o próprio meio familiar parece avesso a esta atividade e a tudo o que com ela diretamente se relaciona (nomeadamente, consagração efetiva de uma parcela do tempo livre à leitura, discussão de aspectos sobre os quais o livro que lemos nos fez refletir, exteriorização do prazer de ler, visita regular à biblioteca e à livraria e aquisição habitual de livros).

Não pretendemos refletir aqui sobre as razões sociológicas desta falta de tempo familiar para a leitura, senão mesmo falta de vontade, mas é certo que ela não contribui minimamente para a motivação intrínseca para ler que as crianças e os jovens deveriam ter.

Por outro lado, se a própria comunidade escolar (digo, comunidade escolar, e não só professores de Português) não conseguir mostrar aos alunos uma atitude muito positiva em relação ao prazer de ler, quer a finalidade seja informativa ou recreativa, e se não encarar a biblioteca como um espaço de cruzamentos curriculares, de modo a que a sua dinamização seja contínua e feita por todos, dificilmente conseguirá cativar os alunos para a leitura.

Primeiro de Julho dia Mundial das Bibliotecas. Vamos valorizar?

Todos pela dinamização das Bibliotecas Escolares e Públicas.

Fonte: Ofaj

Ler ou não ler? Eis a questão…

Elvis Rocha
Quem testemunha hoje a minha paixão pela comunicação escrita, esse meu prazer explícito em ler e escrever, não imagina como foram difíceis pra mim, os primeiros passos nesse sentido.Aos 7 anos, morando em um sítio, fui matriculado no primeiro ano e, depois de 6 meses, quando morreu a única professora (Dona Genília, que Deus a tenha!), que ensinava do primeiro ao quarto ano (tudo junto), eu não havia aprendido a desenhar uma única letra, sequer.

No ano seguinte fui para a casa de parentes na cidade, matriculado no SESI, permaneci 4 meses, até a morte do meu avô materno e, mais uma vez saí sabendo desenhar o nome da escola e, nada mais.
De volta ao sítio, ainda sem uma professora na escolinha, eu olhava com desgosto para o meu material escolar  e me considerava um incapaz, que queria muito saber, mas, que não conseguiria aprender nada, nunca.

Meu pai, embora soubesse um pouco, achava que era da escola e dos professores a função de  alfabetizar e ensinar, mas, minha mãe, que só sabia (e sabe) o pouco que aprendera no Mobral, arriscou-se a me ensinar e, diferentemente da didática clássica, ela me dava sílabas inteiras para juntar e formar palavras, fugindo de consoantes e vogais separadas: Ba-la, sa-pa-to, ma-ca-ca, quei-jo, pi-po-ca, etc… O resto, eu aprendi errando (muito). Quando eu já sabia formar as palavras, ela ensinou-me os números e as quatro operações básicas, sem que eu aprendesse a contento, contas de dividir (Até hoje eu apanho disso).
Ainda meio atrapalhado e inseguro, como a criança que começa a andar, eu buscava entre as coisas do patrão, no escritório dele, tudo que pudesse ler: Revistas, jornais, livros, gibis, palavras cruzadas, tudo, tudo que me trouxesse informação e assim, eu me senti, de verdade, descobrindo um novo mundo, um novo e mágico universo. Quando não entendia o sentido de uma palavra, perguntava para alguém ou apelava para o dicionário do patrão (Juiz de direito). E o próprio patrão, percebendo que eu gostava de aprender, me ensinava e corrigia, quando eu escrevia ou falava errado, além de me contar muitas histórias do Brasil, da humanidade e, dele próprio, como exemplo.

Como a letra da minha mãe é bonita e ela começou a me ensinar desenhando pontilhados pra eu sobrescrever, a minha letra também nasceu relativamente boa, a ponto de, no ano seguinte, a professora de outra escola, na cidade, duvidar de que eu não tivesse concluído o primeiro ano e insistido para que eu fosse mandado direto para o segundo, o que eu prontamente, recusei. Foi um ano fácil, de notas excelentes e muita satisfação por constatar que eu não era aquele incapaz que me julgava antes. Faltava apenas aquele primeiro empurrão da minha mãe, para que eu pegasse no tranco e seguisse em frente, sozinho.

O segundo ano eu estudei em outro sítio dos mesmos patrões dos meus pais, para onde eles haviam se mudado. A escola ficava a quatro quilômetros da minha casa, mas, era um percurso que eu fazia todos os dias, a pé, com prazer, sem jamais reclamar. Eu me desesperava sim, quando, por algum motivo, não podia ir.

Nesse novo sítio pra onde nos mudamos, morava Luiz, um rapaz de 16 anos, que nunca havia pisado em uma sala de aula e ele, vendo o meu entusiasmo com os estudos, interessou-se em aprender comigo. Do mesmo modo como minha mãe havia me ensinado, ensinei pra ele e, em pouco tempo ele já fazia algumas leituras curtas na igreja, muito orgulhoso. Se hoje ele disser pra alguém que jamais entrou em uma escola, pela maneira como é inteligente e conhecedor de muitos assuntos, poucos acreditarão nele.
Eu, depois de adulto, percebi que um sobrinho estava tendo dificuldades parecidas com as minhas, para aprender na escola. Encerrou o terceiro ano seguido de estudos sem sair do primeiro ano e, brincando, como fez minha mãe comigo, resolvi arriscar com ele e, para minha surpresa, em apenas uma semana, com muita paciência, ele já sabia desenhar, juntar as letras e formar palavras com as vogais, tipo eu, ei, oi, ui, ia, etc… e, daí pra ele sair do primeiro para os outros anos letivos sendo sempre bem aprovado, foi um pulo.

Por fim, eu acho que, independentemente de hoje as crianças já praticamente nascerem em creches e escolinhas, de terem todas as facilidades e incentivos para estudarem e aprenderem, o incentivo inicial em casa é imprescindível para uma decolagem mais fácil, na escola. O pai, a mãe ou outra pessoa que vá ensinar, precisa ter muita paciência, jamais se irritar e nunca chamar a criança de burra, lesada, incapaz… Mesmo quando o aproveitamento não parecer satisfatório, elogiar, incentivar e mostrar que e como dá para melhorar e recomendar aos instrutores de reforço, que ensinem e não façam pelo seu filho, as tarefas que ele não entender na escola; acompanhar o desempenho dele e exigir da escola, qualidade no ensino, não permitindo jamais que ele seja aprovado, sem méritos para isto, porque um boletim forjado poderá lhe abrir muitas portas no futuro, mas não garantirá que ele fique em um emprego ou que cresça como pessoa ou profissional.

Que o diploma seja a campainha que abrirá muitas portas pra ele e o aprendizado, a rodovia sem fim por onde ele seguirá com segurança e sabedoria…

Ler ou não ler: eis a questão

William Grigsby Vergara é Desenhista Gráfico, estudou na UCA, Nicarágua. Veja este artígo completo na revista Envío. Visite: www.envio.org.ni

Artigo publicado originalmente em agosto/2008
Segundo o escritor marroquino-francês Daniel Pennac, o ser humano leitor é sujeito de dez direitos. O primeiro de todos, o direito a não ler. Parece que uma maioria de jovens nicaragüenses, consciente ou inconscientemente, não conseguiram ir além desse primeiro direito. Constituem a maioria quem se concede, diariamente, o direito a não ler. Entre um bom livro e um filme de televisão de má qualidade a oferta televisiva sai ganhando com mais freqüência do que nos agradaria confessar.

Pennac afirma que o dever de "educar" consiste em ensinar meninos e meninas a lerem, em iniciá-los na literatura, em dar-lhes os meios para julgarem se sentem ou não a "necessidade dos livros". E diz também que, embora se possa admitir sem problema que alguém recuse a leitura, torna-se intolerável que qualquer um seja –ou se sinta– recusado por ela. E na Nicarágua, rejeitamos a leitura? Por quê? Estamos perante um fenômeno de apatia generalizado, nacional? Por que estamos como estamos? Porque somos como somos? Como leitor meticuloso quis acercar-me a algumas das causas da não-leitura, quis saber se a juventude na Nicarágua exerce ou não e como os exerce os famosos dez direitos que têm como leitores, segundo Pennac: o direito a não ler, o direito a folhear os livros, o direito a não terminar um livro, o direito a reler, o direito a ler qualquer coisa, o direito a emocionar-se ao ler, o direito a ler em qualquer parte, o direito a somente folhear, o direito a ler em voz alta e o direito a guardar silêncio sobre o que leram.

A UCA: UMA GRANDE MASSA DE ESTUDANTES INCOMUNICADOS COM A LEITURA

Meu primeiro "caso" a ser estudado foi realizado na Universidade onde estudei. Vejamos o que acontece por trás dos muros da bela Biblioteca José Coronel Urtecho (JCU) e em suas antigas prateleiras. Segundo um estudo recente da Universidade Centroamericana (UCA), a média de empréstimos anuais de livros é de 26 por aluno. A cifra é algo escandalosa, considerando que a UCA tem pelo menos 6 mil estudantes em suas salas de aula. Na área de sala, onde não permitem retirar os livros emprestados, a média é de 20 empréstimos anuais por aluno. Isto significa que os universitários da UCA só fazem empréstimo de dois livros em cada quadrimestre, apesar de que em cada quadrimestre têm pelo menos quatro aulas.

Procuro à Coordenadora da Direção de Pesquisa da UCA, Wendy Bellanger. Também está muito surpresa. Explica-me que a Universidade está promovendo "cursos de leitura compreensiva" tentando remediar o escasso hábito de leitura entre os jovens. Também realizam oficinas de redação com estudantes de certas carreiras e nos mestrados e doutorados incluem uma oficina de leitura compreensiva que é dada também aos professores. Wendy faz aulas na Universidade: Introdução à Antropologia. Seus alunos, sociólogos e trabalhadores sociais, são incapazes de fazer referências corretas sobre a bibliografia que empregam. "Em vez de citar o autor, dizem-me: segundo o folheto tal e tal…".

QUANDO "A VERDADE" ESTÁ NA INTERNET

Outro problema é que até chegar ao livro que deseja ler, o estudante deverá passar por toda uma parafernália burocrática de trâmites institucionais. "Um estudante da UCA sempre tem que fazer fila para encontrar seu livro –diz Wendy– e por sua vez, a instituição tem medo de emprestar abertamente os livros, porque existe a idéia de que os estudantes não cuidam deles, estragam-nos". Uma biblioteca que tem medo de que roubem ou estraguem seus livros limita a experiência de pesquisar e interagir amistosamente com os livros. Em outras ocasiões, quando o livro é muito antigo e não há edições novas que evitem a queda das folhas só com o contato das mãos do leitor, o livro resulta tão pouco atraente que o jovem estudante o rejeita.

A experiência docente de Wendy contribui com outro interessante dado ao perfil da crise: "Cria-se a falsa idéia de que "a verdade" está na Internet. Com freqüência meus alunos fazem referências a Wikipedia, a nova autoridade dos estudantes". A inovadora oferta das bibliotecas virtuais está enchendo as salas com uma raça de preguiçosos buscadores. "Não lhes ensinam a serem seletivos com a Internet", queixa-se Wendy. O fato de que os professores se colocam atualmente em ambos pólos piora a situação: aqueles que apostam na riqueza da literatura on-line, pensando que o melhor canal de informação é a Rede; e os que são críticos das novas tecnologias, temem o desaparecimento do formato físico e o plágio da informação acadêmica. Com os professores polarizados, os jovens andam um pouco perdidos, navegando nesse grande oceano de sinais e significados que é a Internet. E o lado escuro que tem toda tecnologia fomenta as rotinas ociosas dos estudantes.

Com estas realidades –uma onipresente cultura da transmissão oral nos professores, uma ausência de crítica perante os meios em massa dos estudantes e a ambigüidade das informações recebidas pela Internet sem o radar da seletividade – o que se colhe são deficiências na formação. O mundo universitário não fomenta a cultura que dá importância à transmissão escrita como veículo de informação e conhecimento. "O oral resulta mais fácil de digerir e de reter. E eu creio que isto não pode ser resolvido somente com cursos de leitura compreensiva. Para superar a apatia em relação aos livros deve-se começar a trabalhar nas escolas", conclui Wendy.

QUANDO PREFEREM A TELEVISÃO E O COMPUTADOR

Reybil Quaresma, 52 anos, motorista do Bibliobus desde o começo, conta-nos que é nos primeiros meses escolares, entre janeiro e abril, quando uma média de 200 meninos e meninas visitam diariamente o Bibliobus à procura de materiais para documentar-se e cumprir com suas tarefas escolares. Vêm das escolas que rodeiam a BAN na região de Las Brisas. Reybil parece preocupado: os moços só chegam para pesquisar temas acadêmicos, procuram textos escolares de Espanhol, Matemática, Física, Biologia e Ciências Naturais, mas não aparecem muitos leitores que procurem prazer e reflexão na leitura, apesar de que a biblioteca conte com um bom fundo bibliográfico (13 mil títulos). "Só procuram leitura-trabalho" . E Elizabeth acrescenta: "Hoje os jovens preferem a televisão e o computador".

O Bibliobus empresta uns 140 livros mensais em cada sistema penitenciário. Segundo Reybil, nos cárceres de Granada, Matagalpa, Chinandega e La Esperanza -único cárcere de mulheres no país- emprestam muitos livros de filosofia, poesia e auto-ajuda. "Cuidam dos livros, temos quatro ou cinco livros danificados durante o ano", afirma satisfeito o velho motorista desta biblioteca ambulante. O lugar onde se emprestam menos livros é no cárcere de mulheres: uns 47 livros em cada visita. "É que nem todas as detentas sabem ler, às vezes sobem ao Bibliobus só para folhear livros com ilustrações".

OS LIVROS DESAPARECERAM ALGUMA VEZ ?

Não se pode subestimar o valor de alguns jovens interessados em ler literatura como necessidade pessoal, que chegam ávidos à livraria, deixam um depósito de 20%, levam o livro que desejam e depois terminam de pagá-lo. Na maioria dos casos, estes jovens não são só leitores, são escritores novatos.

Na América Central os livros são caros em relação ao poder aquisitivo das pessoas. "Um livro que custa 13 dólares (250 córdobas) é um livro caro na Nicarágua, mas nos Estados Unidos ou na Europa não é. Na Europa um livro pode valer até 50 euros e ser acessível para quase qualquer cidadão. Nos Estados Unidos vi livros de autores nicaragüenses a 20, 25 ou 30 dólares que lá não são caros, mas aqui são", aponta Salvadora. Segundo sua experiência, há dois tipos de leitores jovens: aqueles que procuram a qualidade editorial e têm como pagá-la e os que compram na calçada da universidade ou num quiosque bem montado O amor nos tempos do cólera a 50 pesos numa versão empastada manualmente com um xerox pirateado. Consitui a maioria.

Salvadora Navas tem uma visão menos pessimista diante do eventual desaparecimento do livro em formato físico arrasado pelo boom das bibliotecas virtuais. "Eu acredito –diz– que o livro nunca desaparecerá. Desfrutar um livro é também tocá-lo. A Internet pode ser uma ferramenta para ampliar seus conhecimentos, mas é melhor ter um contato mais direto com o livro. A Internet só serve para você se atualizar e nem todos os jovens têm acesso a Internet. Para ler em profundidade um livro é preciso tempo suficiente e esse tempo você não o tem num cyber café. Creio que o livro nunca vai desaparecer. Para nós, que somos ávidos leitores, o maior prazer é que cada livro tenha marcado uma etapa de nossa vida".

O "DISCO RÍGIDO" CEREBRAL: LER COMPREENDENDO O QUE SE LÊ

Imaginando-me o sistema educativo nacional como uma grande escola cheia de professores que deveriam ser alunos, porque arrastam enormes deficiências para desenvolver sua tarefa, quero saber mais do que significa a " compreensão leitora". Como é o processo mental que, nos primeiros anos da educação primária, dá-nos a capacidade para compreender um parágrafo de linguagem escrita, condicionando assim nossa capacidade futura para compreender um livro inteiro?

Existem estudos que medem a capacidade das crianças para ler e escrever. Vanessa Castro me explica: "Este estudo, para medir a capacidade em lecto-escritura, começou a ser aplicado na África e depois no Peru, já em espanhol. Com a ajuda do RTI (Research Triangle Institute) e com fundos de USAID quisemos ver se poderia ser aplicado na Nicarágua. Conseguimos. Ele foi feito na língua mískita e em espanhol, em outubro e novembro de 2007. Visitamos 47 escolas -um dia em cada escola- fazendo uma prova curta e oral em cada uma para ter a certeza de que o aluno a compreendesse. Como projeto piloto, aplicamos esta prova em 2.200 crianças. Depois refizemos a prova com os erros já corrigidos -sempre com o apoio da USAID e RTI-, desta vez em 125 escolas".

" Sobre a prova de espanhol que fizemos em abril e maio de 2008, com 6.700 crianças, comprovamos que quanto mais pobres forem os meninos mais difícil será o domínio da lecto-escritura. Medimos a prova por letras, palavras lidas em um minuto e no final por um ditado. Depois o domínio foi medido através da compreensão leitora, fazendo perguntas sobre o que leram. Segundo o padrão mundial ideal e já fixado –sobretudo com os dados de Cuba e do Chile, que vão à cabeça–, no final do segundo grau o menino deveria estar lendo de 46 a 60 palavras por minuto, porque o processo de aprendizagem que o cérebro segue é este: em 12 segundos o cérebro humano deve processar em sua memória curta uns 7 itens, que são: primeiro as letras, depois as palavras e a seguir as orações".

OS JOVENS NICARAGÜENSES QUE LÊEM E QUE ESCREVEM

Com o que aprendi sobre o processo que se desenvolve no cérebro na compreensão leitora, noto um futuro comprometido. Não estamos à altura das exigências de um mundo competitivo, de países com musculaturas econômicas e culturais baseadas no exercício educativo que oferecem a seus estudantes, muito superior ao nosso. De todas formas, resulta-me paradoxal que um país com tantos escritores e poetas leia tão pouco.

Vou, finalmente, à procura de uma escritora de longa trajetória. Quero conhecer suas reflexões, perguntar-lhe o que fazer para que a juventude se aproxime mais da leitura, indagar por que se tornou quase moda ser escritor sendo um jovem leitor.

Vidaluz Meneses é escritora, bibliotecóloga, membro da ANIDE (Associação Nicaragüense de Escritoras) e vice-presidenta do CEN (Centro Nicaragüense de Escritores). Ela acredita que a juventude lê, mas lê na Internet. No entanto, admite que "um livro inteiro é algo excessivo para ler na Internet". "Por um lado -diz- a juventude se aproxima da Internet porque é uma das exigências do mundo moderno, e por outro lado as universidades mandam seus estudantes pesquisarem na Internet".

Será que o livro sobreviverá ?, pergunto à leitora e escritora. "O livro sempre vai existir -me diz, segura-. Não podemos negar as vantagens da Internet, mas deve-se procurar um balanço. O risco que corremos é que nem sempre há informação qualitativamente verificável na Internet. A Rede é uma excelente fonte de consulta e cada vez mais pessoas se somam à massa de internautas. A Internet tem uma graça que os livros físicos não têm : dá a você a possibilidade de interagir. Existem fóruns onde você coloca sua opinião, blogs com pontos de vista diferentes e informação multimídia de intercâmbio. Para o jovem isso é interessante, essa possibilidade torna o meio mais atraente e de alguma maneira o induz ao hábito da leitura. O que preocupa da Internet é que ela causa problemas na ortografia e empobrece a linguagem. O Chat/Bate-papo se transforma em um canal de mensagens onde a linguagem se deforma. O mesmo ocorre com o celular. Os blogs cumprem uma função interessante na afirmação da identidade juvenil. O jovem encontra ali uma maneira de se projetar para os demais, ajudando-o a se autoafirmar".

NEM TUDO ESTÁ PERDIDO

Alguma conclusão? Penso que nem tudo está perdido. Ainda que os jovens mergulhem lenta, mas profundamente nas águas virtuais da Internet, os grupos reduzidos que lêem estão exercendo seus dez direitos como leitores. Não interessa se escolhem literatura contemporânea ou se preferem os clássicos, retirando-os de suas tumbas. Não importa se acreditam que escrevendo bem jovem, influenciados pelas velhas vanguardas, e enchendo as bases de tantos concursos literários, talvez se tornem intelectuais precoces e escritores novatos. O que importa é que, segundo Daniel Pennac, o verbo ler não suporta o imperativo, uma aversão que compartilha com outros verbos: o verbo amar e o verbo sonhar. Ame-me! Sonhe! Não funciona. Leia! Leia! Você vai ter que ler, rapaz! Suba para o seu quarto e leia! Resultado? Nenhum.


Crianças e jovens lerão cada vez mais à medida que nosso sistema educativo dê espaço à literatura de todas as épocas, incluindo a moderna, e melhore as políticas dirigidas às escolas públicas. Na medida em que se levem mais a sério os indicadores dos estudos sobre lecto-escritura haverá mais participação de leitores nas bibliotecas. Se isto acontecer, os jovens encontrarão no mundo dos livros matéria-prima, para imaginar um mundo melhor do que o conhecido atualmente, entenderemos melhor o que nos espera no século 21, nosso século.

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Fonte: Amaivos
Fonte: (Fonte: Agência Brasil)

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Ler além das palavras

Junto com os meios tradicionais, as novas tecnologias estimulam a iniciação à leitura

Desde a popularização da internet, a circulação de textos e imagens alcançaram um patamar inimaginável. Com o surgimento dos tablets, novas formas de leitura e relação com o texto escrito estão se configurando. Diante desses novos suportes e tecnologias, a introdução ao hábito da leitura acontece hoje de forma muito diferente. Desde muito pequenas, as crianças têm que lidar com estímulos diversos de leitura, o que torna a interpretação e hierarquização de informações algo primordial na educação.

A chave de um bom processo de alfabetização, de acordo com o professor de literatura da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e coordenador do grupo de pesquisa Leitura e Literatura na Escola, João Ceccantini, é não se limitar a nenhum recurso específico e explorar diversas atividades de leitura e interpretação. “A alfabetização não se dá só nos livros, se dá em tudo, quando a criança vê o letreiro do ônibus, uma propaganda, uma placa”, diz. De acordo com ele, o maior desafio que a escola está vivendo é mudar sua antiga função de transmitir conteúdo para a de concentrar esforços na formação do senso crítico dos alunos, a fim de que eles sejam capazes de hierarquizar a grande quantidade de informação que têm ao alcance o tempo todo. “O papel da escola é ensinar como as crianças podem lidar com essa informação toda que está disponível nesses suportes e linguagens de uma maneira exigente, saber transitar, saber separar o que é importante do que é descartável, saber pensar, estabelecer relações, saber ser sujeito e se posicionar, porque aquele mundo de conteúdo não faz mais sentido para a escola”, destaca.

O projeto pedagógico de leitura do colégio Arquidiocesano, na Vila Mariana, em São Paulo, tem como fundamento o conceito amplo de leitura do educador Paulo Freire, que consiste na ideia de que a leitura de mundo precede a leitura da palavra e que a compreensão de um texto implica a percepção das relações entre texto e contexto. Uma das práticas pedagógicas desenvolvidas nesse sentido é o exercício do olhar e a leitura. Realizada com alunos do 1º ano do Ensino Fundamental, é baseada na premissa de que ler também é ver.

O livro O Menino que Aprendeu a Ver, de Ruth Rocha, sobre uma criança em fase de alfabetização que observa seu entorno e contexto de mundo, é o ponto de partida da atividade. Após a leitura compartilhada e discussão das situações que o protagonista vivencia, a professora propõe que os alunos fotografem com máquinas digitais textos verbais e não verbais que chamarem sua atenção no quarteirão em volta da escola. “Uma fotografia de uma caixinha de suco largada no muro é um texto que revela uma certa relação do cidadão com a cidade. Ou seja, é um projeto que desperta nas crianças essa outra possibilidade de compreensão do espaço que os rodeia e do espaço da leitura”, analisa a professora do 1º ano do Ensino Fundamental do Arquidiocesano e doutora em Linguística aplicada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Cláudia Gil Ryckebusch.

Depois, na sala, há um debate a respeito da leitura e da relação entre o sujeito e a cidade, presente nas fotografias produzidas pelos alunos. No laboratório de informática, eles escolhem juntos as melhores fotos, que serão expostas na mostra de trabalhos no final do ano. “Tem relatos de pais que dizem que, depois do projeto, as crianças começaram a ler todas as placas de rua”, diz Cláudia.
As atividades pedagógicas que envolvem imagem e leitura diferem de acordo com a fase da escolarização. Os livros exclusivos de palavras e imagens, que constituem um gênero na literatura infantil, são indicados no início da Educação Infantil, na fase de decodificação dos signos. “Sem dúvida as imagens ajudam no processo de introdução do hábito de leitura nas crianças. Nesses livros para crianças pequenas, as ilustrações trazem certos objetos que serão o cerne da história, elas acabam servindo como um suporte para a criança, estimulando à concentração, à focalização daquele signo, à atenção e à associação daquele signo a determinada palavra”, afirma Ceccantini.

Durante a alfabetização, é interessante que as ilustrações nos livros sejam trabalhadas como um texto não verbal, como uma expansão do conteúdo para o mundo das imagens, da estética, que serve para apoiar a compreensão e o interesse, mas que não pode funcionar separadamente. “A imagem atrai pela fruição estética. Quando a ilustração compõe o sentido do texto, a criança faz um esforço para interpretar. Na história em quadrinhos, por exemplo, a narrativa se faz muito pela imagem, ela vai interpretando essa imagem, pois ela tem essa capacidade de interagir tanto com textos verbais como com não verbais”, diz a professora do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e coordenadora do Centro de Estudos em Educação e Linguagem (CEEL), Telma Ferraz Leal. 
 
Leitura digital

Quando usadas a serviço de propósitos pedagógicos, as novas tecnologias e suportes também servem como aliados no processo de introdução do hábito de leitura. “Hoje, o modo de as crianças consumirem cultura passa por essa complexidade, pois elas gostam de ler o livro, depois ver o filme, ouvir a música, visitar a página, jogar o game daquele personagem. Elas fazem esse trânsito entre as linguagens e suportes todos, sem achar que um é melhor que o outro”, afirma Ceccantini. Segundo ele, atividades na internet, como a leitura de resenhas sobre obras, a busca de informações sobre o autor, entre outras referências suscitadas pela leitura, já fazem parte do cotidiano dos alunos e são enriquecedoras do ponto de vista da formação de leitor. “Se os alunos estão lendo uma releitura de Alice, por exemplo, é interessante sugerir uma pesquisa sobre como era a Alice verdadeira, como era a primeira edição do livro ou como as crianças liam Alice naquela época”, propõe.

Com a popularização dos tablets e livros digitais, a diretora pedagógica da Escola Castanheiras, em Santana do Parnaíba, Débora Vaz de Almeida acredita que eles devem ser usados em classe apenas se fizerem parte do contexto tanto dos alunos quanto dos professores. “Algumas famílias sustentam gerações de leitores só com uma boa biblioteca de papel, mas, se essas ?novas tecnologias e suportes fazem parte do contexto local, da experiência da escola e da dos pais, por que não?”, questiona. “Atualmente, podemos ler no livro, no jornal, nas livrarias, nas bibliotecas, podemos comprar ou não comprar, podemos ler nos IPads e podemos ouvir ler nos audiolivros. A tecnologia é um suporte, o que importa é a qualidade do livro.” De acordo com a pedagoga, a escola deve avaliar em quais situações o uso da tecnologia faz sentido e sempre variar os suportes e modos de uso. “Quando o aluno vai produzir um texto, é muito mais inteligente escrever em meio digital do que em papel, porque a edição é mais bem feita, posso recortar e colar, ver as várias versões. Em outros momentos, quando é só tomar nota, o bom e velho caderno dá conta”, acrescenta.

Durante um ano, os alunos do 3º ano do Ensino Fundamental do colégio Porto Seguro, na unidade Panamby, em São Paulo, dedicam-se a um projeto de elaboração de um livros digitais. Como atividade preparatória, a professora lê o livro Pergunte ao Dr. Bicudo sobre Animais, de Claire Llewellyn, para os alunos, que podem acompanhá-la por meio da projeção da obra na lousa. O livro é sobre um conselheiro sentimental que recebe cartas de diversos animais com problemas. Em seguida, há uma discussão sobre o gênero da carta e sobre características dos animais. Dividida em duplas, a turma começa a se preparar para apresentar uma miniaula sobre um animal que escolheram. Em casa, eles pesquisam, em livros e na internet, informações para preencher uma ficha técnica que auxilia a elaboração da aula. “Os alunos aprendem a pesquisar nas aulas de informática da escola. Ao buscar diferentes fontes de informação, as crianças também se exercitam para diferenciar o essencial do secundário”, afirma a coordenadora pedagógica e professora do 3º ano, Luciana Centini.

Após o planejamento e apresentação da miniaula, que deve contemplar aspectos básicos dos hábitos alimentares dos animais, os demais alunos da classe sugerem perguntas que poderiam ser feitas ao Dr. Bicudo a partir das informações pesquisadas. As sugestões são entregues à dupla, que pode utilizá-las na elaboração do texto do livros digitais. A obra consiste em uma carta com a pergunta de um animal endereçada ao Dr. Bicudo. No laboratório de informática, os alunos digitam as cartas e fazem, no programa de desenho Paint, as ilustrações para compor o livro digital. A atividade é encerrada com uma manhã de autógrafos, com a presença dos pais, para o lançamento do livro da classe. Os livros digitais estão disponíveis nos IPads e no blog do colégio para as famílias fazerem o download.

Formação do leitor

Pais que leem histórias antes de a criança dormir, professores que trabalham a leitura como prazer em vez de obrigação ou amigos que indicam títulos são fundamentais para estimular o hábito de leitura nas crianças. “É importantíssimo estabelecer o quanto antes uma relação afetiva entre a criança e o livro”, afirma Ceccantini. “Isso não significa que muita gente não se torne leitora sem esse estímulo inicial, mas ele pode significar uma relação mais duradoura com os livros ao longo da vida.”

Na escola, as práticas pedagógicas que podem ser utilizadas para introduzir o hábito são diversas, mas acima de tudo devem ser iniciadas desde antes da alfabetização. “A língua é muito mais do que um código. Antes de eu ensinar para as crianças o que a gente chama de aspectos notacionais, que são as características da representação gráfica da linguagem, ela precisa participar de situações em que essa língua esteja em uso”, afirma Débora.

A leitura compartilhada, em que os alunos acompanham o professor em seus próprios exemplares ou em cópias do texto, e as rodas de leitura, em que o professor lê parte de uma obra e em seguida promove uma discussão em classe sobre o que foi lido, são atividades centrais nessa fase. “Em função de fazer a leitura compartilhada de forma regular, as crianças começam a ajustar o que está sendo lido com o que está escrito e esta é uma situação alfabetizadora. Elas começam a perceber que nos poemas quase sempre há a presença de rimas, que os contos clássicos começam com ‘era uma vez’, ‘há muito tempo’, ‘em algum lugar’”, diz Débora. “Elas começam a conhecer a organização da linguagem escrita e perceber que tem regras, convenções e regularidades que elas quase sempre podem observar.” Segundo Telma, quando o professor realiza atividades de leitura em voz alta e conversa sobre o que foi lido, ele está ajudando a criança a desenvolver habilidades de compreensão de texto, como elaborar inferências, apreender sentidos gerais e relacionar um texto com outro, que vão ajudá-la na fase de alfabetização.

De acordo com Ceccantini, é importante que essa leitura não esteja vinculada a cumprir determinada tarefa escolar e sim que o foco da atividade seja o prazer, a vivência de emoções. “Um adulto cheio de afetividade fazendo da leitura um gesto de carinho, de alegria, de brincadeira é uma aproximação prazerosa que deixa marcas no inconsciente. Esse envolvimento afetivo é central e está muito ligado ao prazer que o homem de todas as épocas tem de ouvir histórias”, diz. “Não tem gesto mais ancestral que isso na humanidade, alguém que vai contar histórias para todos ouvirem.”

Outro aspecto importante é a escolha dos títulos. Apresentar textos muito fáceis, com poucas palavras e leque reduzido de fonemas é subestimar as crianças. “As pessoas costumam achar que elas vão gostar mais de histórias com linguagem simplificada e esquemática e isso não é verdade”, diz Telma. Segundo Débora, deve-se, independentemente da idade, ler textos de verdade, literariamente ricos, bem escritos e de gêneros variados e todos esses repertórios devem estar disponíveis na sala de aula, na biblioteca e em várias situações.

No Colégio Santa Cruz, no Alto de Pinheiros, São Paulo, a leitura compartilhada e a roda de leitura fazem parte da rotina semanal dos alunos desde a Educação Infantil até os primeiros anos do Ensino Fundamental. No 2º ano, por exemplo, a professora lê em voz alta um capítulo de O Saci, de Monteiro Lobato, a cada dia. A ideia é que ela seja a mediadora entre os alunos e os “textos difíceis”, lendo títulos que eles teriam dificuldade de ler sozinhos. “O Saci é uma leitura bastante exigente para leitores de 7 ou 8 anos, pois tem um vocabulário distante do deles, as construções são pouco usuais na fala cotidiana, além do texto ser mais extenso”, afirma a coordenadora pedagógica do Santa Cruz, Miriam Louise Sequerra. “Por meio da leitura da professora, eles também passam por dificuldades, mas, como contam com esse apoio, vão entrando na leitura, se envolvendo e, de repente, está todo mundo cativado pelo clima do livro.”

Já na atividade Aula de Leituras, os alunos retiram um livro do acervo que se encontra na sala de leitura (pequena biblioteca utilizada pelos alunos de um mesmo ciclo escolar), têm uma semana para lê-lo em casa e, depois, em classe, são estimulados a comentar a obra e indicá-la aos colegas, com a orientação da professora. “O intuito, neste caso, é desenvolver outros comportamentos associados à leitura, tais como indicar, comentar ou escolher um livro, de acordo com critérios que cada um constrói a partir de sua vivência como leitor”, comenta Miriam. “Como essa atividade ocorre desde a Educação Infantil até o 5º ano, é perceptível como os alunos vão refinando sua capacidade de escolher livros de acordo com preferências que também vão se construindo”, diz. “No início, a capa ou o colorido das imagens são os critérios. Depois, o motivo da seleção vai se transformando: o assunto, o autor, o gênero ou mesmo a indicação do colega.”

BOXE 1 – Lição de casa

É tarefa dos pais estimular uma relação ?afetiva dos filhos com a literatura em casa

Os pais desempenham papel fundamental no processo de formação do gosto pela leitura dos filhos. O ideal é que eles sejam modelos de leitores para os filhos e que a introdução do hábito de ler comece em casa e continue no colégio. “O maior incentivo à leitura em casa é ter pais efetivamente leitores, porque uma coisa é o pai que diz que ler é importante, que você tem que ler, que ler faz subir na vida, e outra é o pai que, quando tem um problema, está mexendo no jardim e não sabe o que fazer, por exemplo, vai recorrer a um livro”, diz o professor de literatura da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e coordenador do grupo de pesquisa Leitura e Literatura na Escola, João Ceccantini. No caso da população de baixa renda, em que os pais não se tornaram leitores por falta de acesso, a valoração do hábito de ler também tem efeito na formação das crianças. “É importante que as crianças tenham acesso a obras em casa, mas às vezes as famílias não têm condições de comprar. No entanto, se você for pensar, livros custam o mesmo que um brinquedo. É importante que os pais encarem o livro como brinquedo e presenteiem os filhos com livros”, afirma a professora do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e coordenadora do Centro de Estudos em Educação e Linguagem (CEEL), Telma Ferraz Leal.

Outros hábitos indicados são comprar livros junto com os filhos, ou ir a bibliotecas ou espaços comunitários de leitura, ler frequentemente para eles, ter livros em todos os cômodos da casa, incentivar as crianças a fazerem sua pequena biblioteca, de forma que o livro faça parte do cotidiano da casa. Segundo a diretora pedagógica da Escola Castanheiras, Débora Vaz de Almeida, os pais devem tentar identificar livros que fazem parte do interesse das crianças para ir construindo um acervo e uma história de leitura a partir daquilo que se tem em casa. “Tem que ter um lugar no quarto das crianças pra uma história de leitor, o livro preferido, o livro que a escola indicou, que a avó deu, mas não só ter o livro, ter e ler o livro”, diz.

BOXE 2 – Primeiros passos da leitura

O Sesc realiza várias ações direcionadas ao incentivo à leitura para crianças

O Sesc tem diversas atividades em prol da difusão do livro e formação de leitores. Na unidade Pompeia, os pais podem levar seus filhos, de 0 a 3 anos, para o Espaço de Leitura, uma sala adaptada com livros voltados para a faixa etária e com a mediação de educadores, que orientam atividades lúdicas, jogos e brincadeiras literárias. As unidades Bom Retiro, Santo Amaro e Ribeirão Preto também contam com salas de leitura para crianças. “Em várias atividades de contação de histórias, o pai é convidado a fazer ele próprio a narrativa de uma história para a criança. Esperamos que a presença de pais e filhos nesse espaço e a vivência dessa experiência estimule práticas similares em casa”, afirma o Assistente de Literatura na Gerência de Ação Cultural (GEAC) Francis Manzoni.

Já no Espaço Ler na Escola, dez malas com 85 livros da literatura infantil e juvenil e 15 publicações de história em quadrinhos circulam por escolas do ciclo 2 da Rede Estadual de Ensino de São Carlos. Antes de receberem o material, os professores e diretores passam por um treinamento que explora as possibilidades de atividades com os livros, como rodas de leitura, contação de histórias e oficinas de texto. A mala, que fica uma semana em cada sala, acompanha também uma apostila com propostas pedagógicas.  

Também na linha de projetos de difusão do livro, existe o BiblioSesc, programa que leva bibliotecas volantes, transportadas por caminhões, a 26 pontos de Itaquera, Interlagos, Osasco e São Caetano. Segundo Manzoni, a procura pelos livros é muito grande. Em um único dia, centenas de crianças retiram títulos em cada bairro visitado. Escolas, ONGs e creches realizam atividades vinculadas ao BiblioSesc. “Os professores levam as crianças para pegar livros que muitas vezes são trabalhados no contexto escolar ou são para interesse próprio. Então, o caminhão passa a se integrar à realidade cultural desses bairros atendidos”, afirma ele.

As bibliotecas das unidades Belenzinho, Bom Retiro e Santo Amaro dispõem de três equipamentos para a leitura de livros e periódicos do acervo para cegos e pessoas com baixa visão. O videoampliador possibilita às pessoas com baixa visão aumentar texto e imagem de um livro. Já o Poet Compact é um scanner que reconhece textos e os narra em português. O terceiro equipamento é a linha braile, uma espécie de régua que se acopla ao computador e ao scanner que gera eletronicamente pontos em relevo, permitindo aos cegos que leiam pelo tato. A unidade Belenzinho também conta com 240 audiolivros.

Até agosto, acontece no Sesc Pinheiros a segunda edição do seminário Conversas ao Pé da Página, que tem o objetivo de promover o intercâmbio de experiências e conhecimentos relacionados a literatura, leitura, formação de leitores e livros para crianças e jovens. Profissionais e intelectuais do Brasil e do exterior debatem sobre saraus de poesia, leituras no século 21, salas de leitura, entre outros temas. A curadoria do evento é do Centro de Estudos em Leitura, Literatura e Juventude A Cor da Letra e da Revista Emília, publicação sobre leitura, literatura e formação de leitores.

Fonte: Revista E