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quinta-feira, 17 de maio de 2012

Livros: um Brasil de poucos leitores

23/04/2012
Especialistas analisam o desafio de incentivar e leitura em país onde a maior parte da população prefere assistir à televisão nas horas livres


O resultado da última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil trouxe uma triste notícia: a de que os brasileiros estão lendo menos. Muito embora o mercado editorial tenha registrado, em 2010, um crescimento de 8,3% nas vendas de livros, entre todos os entrevistados da pesquisa, realizada pelo Instituto Pró-Livro em parceria com o Ibope Inteligência, a média de livros lidos nos últimos três meses é de 1,85 (uma queda em relação à última edição, em 2007, cuja média era de 2,4). E o que mais chama a atenção no novo resultado é que a maioria dos brasileiros não lê um livro inteiro dentro desse período.
foto: Divulgação
Monteiro Lobato, escritor - Editoria: Caderno Dois - Foto: Divulgação
Monteiro Lobato aparece em primeiro lugar nas pesquisas de 2007 e 2011  como o escritor brasileiro mais admirado pelo público
Como critério, a pesquisa definiu como leitores apenas aqueles que leram, inteiro ou em partes, pelo menos um livro nos últimos três meses. Com isso, registrou-se que, em 2011, cerca 50% da população brasileira são de leitores, o que equivale a 88,2 milhõres de pessoas. Na pesquisa realizada em 2007, o percentual era de 55% (95,6 milhões de pessoas).

Outro aspecto que chamou a atenção referiu-se aos hábitos dos entrevistados: a maioria (85%) prefere assistir à televisão durante o tempo livre. A segunda atividade fevorita é escutar música ou rádio. A leitura (de jornais, revistas, livros e textos na internet) surge apenas na sétima posição, com apenas 25% dos entrevistados (uma queda expressiva em relação a 2007, quando esse número era de 35%).

Entre as principais barreiras para a leitura, muitos entrevistados afirmaram que leem muito devagar ou não tem paciência para ler. Perguntados sobre a razão para não ter lido mais nos últimos três meses falta de tempo e falta de interesse ou de gosto pela leitura lideram.

Coordenadora da Biblioteca Municipal Adelpho Poli Monjardim, de Vitória, e mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Eugênia Magna Broseguini-Keys aponta como razões para o baixo índice de leitura o fracasso da escola como formadora de leitoes, o preço alto dos livros, a existência de poucos espaços de bibliotecas e os parcos investimentos em bibliotecas públicos e escolares (onde os acervos estão desatualizados e há poucos profissionais especializados).

Ela acrescenta que a corrupção no país é um grande entrave para o fomento da leitura, uma vez que o dinheiro que poderia ser aplicado para melhorar a qualidade da educação e investir em mais acesso aos livros e às bibliotecas acaba sendo desviado. “O livro, a leitura e a biblioteca estão no discurso político em geral, mas não na prática”, lamenta ela.

foto: Divulgação
Monteiro Lobato, escritor - Editoria: Caderno Dois - Foto: Divulgação
O best-seller “A Cabana”, do escritor William P. Young (acima),
aparece em segundo lugar, como livro mais marcante,
ficando atrás somente da Bíblia

História

O psicólogo e escritor Gerson Abarca remete à história do Brasil para explicar um problema que é crônico: “Fomos colonizados dentro de uma perspectiva exploratória e não de construção, e livro é elemento de construção. Tivemos ainda um longo período escravagista. Hoje, 70% dos brasileiros são analfabetos funcionais. Um cenário nada favorável à leitura”.

De acordo com ele, o maior desafio para a formação de leitores é fazer a escola entender que a melhor tarefa educacional é incentivar o estudante a ler, no mínimo, dois livros por mês, tendo como base um bom projeto pedagógico. “Assim, em nove meses de ano letivo, nossas crianças poderão atingir a média de 18 livros por ano, como na França.”

Gerson lamenta, contudo, o fato de professores preferirem passar tarefas de disciplinas que não têm ajudado crianças e adolescentes tomar gosto pela leitura. “Lógico que teríamos de ter bibliotecas dinâmicas. O governo está comprando muito livro para as escolas, que estão mofando. Por isso aumentou a produção e venda de livros, por que o governo comprou mais, e não por que as pessoas se interessaram pelos livros. Precisamos levar a leitura aos pais e aos professores, que leem muito pouco. Professor bom é aquele que já leu todos os livros que indica aos alunos. Tenho a impressão que estamos brincando de fazer educação neste país.”

Segundo Eugênia, para conseguir mudar o panorama atual, é preciso investir na democratização do acesso ao livro, à leitura e à biblioteca, bem como realizar continuamente ações que favoreçam a inclusão de não leitores por meio de atividades que são realizadas nas bibliotecas públicas, a fim de promover ações permanentes para que a leitura faça parte do cotidiano das pessoas.

A pesquisadora e doutoranda em Linguagem e Educação pela USP Gabriela Rodella reforça a importância do papel da escola na formação dos leitores e, por isso mesmo, é fundamental investir com rigor na formação inicial dos professores e em cursos de formação continuada bem estruturados e sérios, que tenham como objetivo levar à reflexão, e não simplesmente “treinar” o professor. “Tornar a carreira docente atrativa é fundamental para a imagem da leitura e do estudo em nossa sociedade”, acrescenta.

Políticas

Quanto às políticas públicas e programas de fomento à leitura, o Brasil parece manter uma boa imagem no exterior. Ao menos foi a impressão que passou o vice-ministro de Educação da Colômbia, Mauricio Perfetti, na última quinta-feira, dia 19, durante a 25ª Feira Internacional do Livro de Bogotá. No encontro, ele afirmou que, ao se falar de inovação, um modelo a imitar é do Brasil. “A experiência de levar escritores às aulas é excepcional, e o tema das bibliotecas para setores rurais nos parece essencial para fomentar igualdade de oportunidades”, apontou.

Gabriela Rodella observa que as políticas de distribuição de livros didáticos e de literatura desenvolvidas pelo Ministério da Educação são extremamente bem-sucedidas, o problema, analisa, é que não basta distribuir livros: é preciso desenvolver as condições necessárias para que eles sejam efetivamente lidos. Ou seja: as condições para que práticas de leitura diversas possam ser desenvolvidas por professores e alunos.

“Em várias escolas públicas do Estado de São Paulo, por exemplo, os livros ainda são mantidos em salas fechadas, pois não há profissionais que possam trabalhar na organização e na administração de bibliotecas, consideradas, muitas vezes, ‘coisa’ dos professores de português. Dessa forma, torna-se muito difícil que os livros ocupem um espaço importante na vida dos estudantes e, em última análise, da população em geral.”

Entre as políticas públicas, Eugênia Broseguini Broseguini cita as ações do Ministério da Educação (MEC), que vem se ocupando apenas da distribuição de acervos por meio do Programa Nacional Biblioteca na Escola. “Se a maioria das escolas que recebem o acervo não possui biblioteca nem bibliotecários, como está sendo dinamizado este acervo?”, questiona, ressaltando que a ausência de bibliotecas escolares ainda é um dos maiores problemas no sistema educacional.

“De outro lado, temos a Lei 12.244, que dispõe sobre a universalização das bibliotecas nas instituições de ensino do país até 2020. Se consideramos urgente a democratização do acesso, deveríamos ter priorizado a implantação em menor tempo. Isso me preocupa, pois deixou  brecha para os estados e municípios implantarem à revelia quando o prazo se esgotar.”

As críticas de Gerson Abarca às políticas de fomento à leitura são mais contundentes. Para ele, essas ações não existem. Para ele, o Brasil entrou em uma bolha de crescimento econômico e criou uma ilusão no povo. “Como haverá livros, se os escritores não possuem estímulo para escrever e publicar. Um governo que permite a produção de livros na China, para serem vendidos a preço de banana no Brasil, só vai dificultar a vida dos editores e da indústria do livro no país. E, pior, só vende livro ao governo quem for ‘amigo do rei’ ou tiver um bom trânsito de influências políticas. No dia em que entendermos que estamos subdesenvolvidos e reconhecermos ainda que nosso povo não foi sequer bem alfabetizado, aí sim poderemos pensar a partir da realidade e não da fantasia.”

Números
50% - A leitura está presente na vida de apenas metade da população (88,2 milhões de pessoas, em 2011). Houve uma queda de 5%, em relação a 2007, quando o país tinha 95,6 milhões de leitores.

57% - As mulheres são maioria entre o público considerado leitor pela pesquisa. Apenas 43% dos homens entrevistados são leitores. Entre os entrevistados, 25% gosta muito de ler, 37% gosta um pouco e 30% não gosta de ler.

85% - Esse é o percentual dos entrevistados pela pesquisa que prefere assistir à televisão. Em 2007, esse número era de 77%. A leitura (de jornais, revistas, livros e textos na internet) vem em sétimo lugar e registrou uma queda de 26%, em 2007, para 28% no ano passado.

64% - A maior parte dos entrevistados afirma que a leitura é uma “fonte de conhecimento para a vida”. Apenas 18% consideram ler uma atividade prazerosa, enquanto 12% dizem que ocupa muito tempo.

Bíblia
Na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, a Bíblia aparece em primeiro lugar na lista dos livros preferidos. Houve, no entanto, uma redução de 45% para 42% de leitores, de 2007 para 2011. Os livros didáticos vêm em segundo lugar, com 32%, e romances ocupam a terceira posição, com 31%.

Análise
O maior desafio é formar professores
A leitura é uma prática cultural. Sendo assim, é preciso aprendê-la. Não se trata de algo que se desenvolve “naturalmente”. Como grande parte de nossa população não desenvolve a prática da leitura de livros no começo de sua vida – e não se trata apenas de acesso ao objeto livro –, as novas gerações continuam crescendo sem ler. O maior desafio é, certamente, a formação de professores. Sem acesso à prática da leitura em casa, a maioria dos alunos da rede pública depende do engajamento de seus professores para que se formem leitores. A questão, no entanto, é que muitas vezes os próprios professores são leitores, digamos, rarefeitos. Eles não desenvolvem práticas de leitura que vão além das que necessitam para exercer a profissão de docente, o que tem consequências negativas na formação dos estudantes.

Gabriela Rodella, pesquisadora e doutoranda em Linguagem e Educação pela USP
Fonte: Gazeta online

segunda-feira, 12 de março de 2012

13 atitudes que mostram se você é um leitor competente


A leitura ajuda a formar referências simbólicas, afetivas e de pensamento do indivíduo. A pessoa que lê se transforma a cada livro lido e também transforma o mundo ao seu redor. Para começar essa onda de mudanças é importante saber:

Você é um leitor competente?

O leitor competente:
  1. Sabe buscar textos de acordo com seu horizonte de expectativas, selecionando obras a partir de suas preferências;
  2. Conhece locais em que os livros e demais materiais de leitura se encontram (bibliotecas, salas de leitura, livrarias, editoras, etc);
  3. Frequenta espaços de mediadores de leitura (lançamentos, exposições, palestras, encontros com escritores);
  4. Identifica livros e outros materiais nas estantes, sabendo procurar o que lhe interessa;
  5. Localiza dados na obra (editora, local, data de publicação, prefácio, sumário, índice);
  6. Segue as pistas da leitura oferecidas pelo autor;
  7. Reconhece a estrutura da obra e preenche os vazios de acordo com a sua maturidade leitora e existencial;
  8. É capaz de dialogar com novos textos, posicionando-se criticamente diante deles;
  9. Troca impressões e informações com outros leitores;
  10. Integra-se em grupos de leitores e se expressa em diferentes linguagens o que leu;
  11. Conhece e se posiciona diante da crítica de livros lidos;
  12. É receptivo a novos textos, alargando seu gosto pela leitura e seu leque de preferências;
  13. Amplia seu horizonte de expectativas por meio de leitura desafiadora; têm consciência do seu crescimento como leitor e como ser humano, propiciado pela leitura.
Aproveite e leia o artigo Como pesquisar na biblioteca.
Fonte: COSTA, Marta Morais da, Metodologia do ensino da literatura infantil, Curitiba: Ibpex, 2007.
Crédito da imagem.

Fonte: Livros e Afins

quarta-feira, 27 de abril de 2011

A nova classe leitora

Matéria publicada em 26 de abril de 2011

Willian Vieira

Maria josé Rodrigues, de 48 anos, e as amigas da associação de mães do Parque Santa Rita, na zona leste de São Paulo, descobriram que são o retrato da nova classe média – os 20 milhões de brasileiros que testemunharam, nos últimos dez anos, o avanço da renda e do crédito e agora são perfilados como classe C. Elas ganham de dois a quatro salários mínimos, têm cartões de crédito e três, quatro tevês. Mas há um item a mais nessa lista que aponta para uma ascensão social diferente, incomum a quem vem de famílias com pouca formação escolar. Elas leem. E compram os próprios livros.

“Um dia eu ia comprar um cosmético, vi o livro no catálogo e me interessei”, diz Maria. Ela comprou o exemplar da revendedora que bateu na porta de casa, fenômeno recente que traduz uma nova situação para o mercado livreiro. O bairro dela não tem livraria. Quando a opção chegou tão perto, Maria aceitou. “O título me atraiu, sobre como lidar com pessoas difíceis. Era o que eu precisava. Então comprei.”

Em um país onde a leitura é somente a quinta atividade de lazer nas pesquisas e três em cada quatro pessoas não vão a bibliotecas, a compra de Maria mostra que as coisas começam a mudar. Como o índice de leitura acompanha o aumento da educação formal, que caminha com a alta da renda, a leitura surge para esses novos consumidores. O número de livros lidos por habitante saltou de 1,8, em 2000, para 3,7, em 2007, segundo a pesquisa Retratos da Leitura, do Instituto Pró-Livro, de 2008.

O Brasil já é o 11º mercado de livros do mundo, de acordo com pesquisa divulgada nesta semana na Feira do Livro de Londres. E, segundo o mais recente levantamento da Fipe para a Câmara Brasileira do Livro, do ano passado, o mercado editorial cresceu 13,5% em volume de exemplares entre 2008 e 2009. Faturou quase o mesmo. Os livros é que estão mais baratos, graças à política de desoneração do governo e à queda do dólar.

A demanda é óbvia: segundo a pesquisa, 43% dos que dizem ler livros são da classe C, mas só 48% deles compram livros. Na classe A, são 73%. Se os outros 52% da classe C passarem a comprar, a mágica está feita. O mercado já percebeu isso. A Paulus, por exemplo, lançou uma coleção de infantis a 5 reais,- em razão “do aumento da procura- por essa classe C”, segundo o presidente, Zolferino Tonon. Fora o boom de livros de bolso e edições mais simples que a maioria que as editoras tem lançado, de olho em gente com formação e renda cada vez mais sólidas.

“Tome-se o universitário de faculdade barata: ele não vai comprar A Bíblia do Marketing, que custa 169 reais, mas, com certeza, vai comprar um livro para ajudar na carreira por 15 reais”, diz Ednil-son Xavier, presidente da Associação Nacional de Livrarias. Juliana da Costa, de 26 anos, confirma a tese. Moradora da zona leste, a 40 quilômetros das maiores livrarias da cidade, a estudante de Administração passou a comprar livros a pedido do professor. “Não tenho tempo de ir à livraria, então compro no catálogo mesmo.” Ela comprou O Monge e o Executivo, adorou e quer mais.

“O que importa é que estamos conseguindo contemplar esse público”, afirma Sônia Jardim, presidente do Sindicato Nacional de Editores de Livros. Dois elementos sinalizam isso. Primeiro, os filões que mais cresceram foram o religioso, o de autoajuda e os técnicos, além dos infantis – acessíveis e comprados- em massa pelo governo. Segundo, o tipo de venda que mais se expandiu foi o porta a porta, que cresceu perto de 13% em três anos, superando a internet.

Como as livrarias ainda se concentram nas áreas nobres das cidades, esse público compra livros em feiras, no porta a porta, em supermercados e nos catálogos, para alegria da Avon, que descobriu no clássico público que adquire seus produtos de beleza mulheres sedentas por leitura barata e com temas afins. Com fonte menor e papel simples, os livros são mais baratos. Caso do Crepúsculo nas mãos de Valdenice Barca, de 37. “Só compro em livraria se for no shopping. Mas quando abro o catálogo e acho algo, compro.” Já foram nove livros, que ela troca com as amigas, num improvisado clube de leitoras.

O que a classe C busca? “São livros de autoajuda, religiosos, receitas, romances femininos e cada vez mais literatura, mais best-sellers”, conclui Jardim.

Mas o impacto dessa nova classe de leitores no país ainda não é claro. O governo aposta que o aumento da escala barateará os livros, incentivando a leitura. Ao implantar o programa do livro popular, o objetivo é chegar a títulos abaixo de 10 reais. Seria algo como a Farmácia Popular. O MinC estuda linhas de crédito para tais livrarias. A contrapartida seria exigir, nos editais de compras para bibliotecas, o fornecimento dos títulos pelos mesmos preços no mercado. “Assim traremos o livro para a cesta básica da classe C”, diz Galeno Amorim, à frente da Fundação Biblioteca Nacional. “Mas o governo não vai interferir no que as pessoas devem ler. É o mercado que decide o que quer vender e as pessoas, o que comprar.”

Amorim contemporiza. “Claro, quando o Estado compra títulos, leva em conta critérios do que deve haver na biblioteca, incentivando a qualidade do que chega ao mercado. Mas o kit é variado e inclui a demanda dos leitores.” E tem o vale-cultura, incentivo de 50 reais aos trabalhadores para gastar com cultura, cuja aprovação no Senado é esperada pelo MinC. A cifra alcançaria 7 bilhões de reais ao ano. Se uma parte for endereçada a livros, já seria um novo boom.

Nem todos, porém, são tão ufanistas. “Existe um mercado potencial enorme, mas não há garantia de que o aumento de renda vai se refletir em leitura”, diz Milena Duchiade, diretora da Associação de Livrarias do Rio de Janeiro. “Uma livraria pequena tem 5 mil livros no catálogo. A Avon tem dezenas. Como ficam as escolhas?” Dona de livraria, Duchiade dá um exemplo da pouca diversidade da demanda. Com os vouchers recebidos pela prefeitura, professores cariocas podem comprar livros. “Mas é sempre autoajuda ou religiosos. Isso não é ruim. Mas precisamos diversificar a leitura.”

Para o antropólogo Felipe Lindoso, é natural o boom de livros religiosos. Como o tema agrada e eles são vendidos em livrarias, igrejas e supermercados, garantem-se escala, preço e acesso. “O bom livro é o que a pessoa quer ler.”

Que o diga a assistente social Giane Gouveia, de 40 anos. Quando ela entra numa livraria, busca livros sobre a profissão, autoajuda e espíritas. “Busco coisas que atendam às minhas inquietações. Já cheguei a gastar 400 reais com livros, mas eram de áreas que me interessavam.” O que importa, diz, é que as pessoas buscam respostas para seus problemas na leitura. “Assim, ganham uma perspectiva mais ampla”, diz Lindoso, autor de O Brasil Pode Ser um País de Leitores? “E pode ser, com certeza. Só não vai ser dos livros que os intelectuais querem.”

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Da capa para dentro do livro: estratégias para enredar o leitor na história...

Peter O’Sagae
Mestre em letras pela Universidade de São Paulo (USP)

Tem coisas que descobrimos aos poucos — e isso é bom, porque é garantia de que vamos continuar aprendendo... Mas tem coisas que aprendemos tão rapidamente que até mesmo se torna complicado para descobrir o que fizemos para fazer tudo o que fazemos! E com a leitura também acontece assim. Um dos objetivos da nossa oficina é, então, tentar driblar o tempo, congelá-lo, quem sabe fotografá-lo, para entender o que vai acontecendo quando estamos soltos, lendo um texto.

Esse exercício nasceu de minhas experiências como professor de Literatura Infantil e de Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa e como leitor dessa mesma literatura e de algumas teorias que existem por aí. Um leitor que se sente participativo, responsável pela construção de sentidos de um texto, um co-autor. Quem pensa tudo isso, poeticamente melhor do que eu, é Bartolomeu Campos Queirós (1999)

Fundamental, ao pretender ensinar a leitura, é convocar o homem para tomar da sua palavra. Ter a palavra é, antes de tudo, munir-se para fazer-se menos indecifrável. Ler é cuidar-se, rompendo com as grades do isolamento. Ler é evadir-se com o outro, sem, contudo, perder-se nas várias faces da palavra. Ler é encantar-se com as diferenças.

Ensinar e aprender a leitura, a gente aprende e ensina toda vez que nos encontramos com a diversidade de textos que existem ou, como educadores, ao promovermos o “abraço” da criança com o texto.

Embora ninguém vá suspeitar que os olhares não sejam, aqui, para o próprio texto de literatura para crianças, é bom lembrarmos a variedade existente de textos não-literários, às vezes classificados como utilitários: textos de circulação social, como o panfleto e os anúncios publicitários de rádio, televisão e revista; a notícia e a reportagem do jornal; tabelas e listas enumerativas; o bilhete, a carta e o ofício das tramas epistolares; receitas e regras de jogos da tipologia instrucional; os informativos por natureza, como o verbete de dicionário, de enciclopédia, artigos de revista especializada em um assunto; e os velhos didáticos também. São todos textos que se escrevem e se lêem, que pedem aproximação e abraço específicos, bem como a literatura. Hoje vivemos sob o signo (e o sonho) do letramento.

Vamos pensar leitura enquanto prática de interação através da linguagem, uma construção de sentidos que vai sendo erguida e confirmada ao longo do próprio processo de descortinar e desvendar o texto e que seja, de preferência, uma prática de colaboração participativa, um jogo entre adultos e crianças, em sessões de leitura compartilhada.

Nessas ocasiões, certas estratégias de leitura entram em ação pelas mãos, pelos olhos e pelas bocas do professor e do aluno, “denunciando” até mesmo como cada participante fez e faz para alcançar a compreensão do texto. Além de compreender o que diz e como diz o texto, a criança aprende, exercita e revisa suas próprias estratégias de leitura quando entra na brincadeira. O encontro com o livro, para abraçar a literatura, pode ser pensado e dividido em dois momentos, contínuos e sem interrupção: pré-leitura e pós-leitura, sempre em uma atmosfera afetiva e efetiva — quando nos ocupamos com a formação do leitor e de nós mesmos. Bem seja, diz Marisa Lajolo (2001), que

.... como você já sabe, a escola não pode se contentar com uma leitura mecânica e desestimulante. A escola pode e precisa comprometer-se com muito mais do que isso. Ela pode e precisa comprometer-se com uma leitura abrangente, crítica, inventiva. Só assim estará ensinando seus alunos a usar a leitura e os livros para viver melhor.

De todo esse circuito, nossa oficina enfoca boa parcela de estratégias de leitura, mas concentradas sobre a leitura de capa de livros para crianças. Estaremos, assim, refletindo sobre a pré-leitura do texto literário, buscando caminhos e preparando condições para a recepção da literatura.

O que ler?

Essa é a primeira pergunta-desafio para todos nós, educadores/leitores que desejamos conduzir a criança na aventura da leitura. Encontrei uma resposta (aposto que existem outras mais...) na época em que trabalhei junto ao Instituto Qualidade no Ensino. Transcrevo, compartilho:

Ler é sempre uma atividade complexa, pois envolve a conjugação de uma grande variedade de ações, admitindo até mesmo a interferência de atividades não propriamente específicas do ato de ler, mas que estão implicadas toda vez que se usa a linguagem. Atividade de conhecimento por excelência e condição para o trabalho intelectual, a leitura é o processo de compreensão multifacetado, multidimensionado, envolvendo diversas operações, como: percepção, decodificação e processamento de informações; memória, predição (antecipação), inferência, dedução, evocação, analogia, síntese, análise, avaliação e interpretação. Portanto, saber ler não é apenas conseguir decodificar, “traduzir” automaticamente um conjunto de sinais, mas mobilizar um conjunto de estratégias, fazendo interagir diversos níveis de conhecimento para construir significados.

Essa definição tem me acompanhado, partindo de um referencial cognitivista de aprendizagem. Estratégias de leitura são ações que os leitores desenvolvem, e, por força do hábito pedagógico que também trago na bagagem, essas ações correspondem aos objetivos a serem alcançados e cumpridos pelas crianças, em termos de habilidades, nas atividades em sala de aula. Porém, que a seriedade da pauta escolar não comprometa o prazer próprio da leitura literária. Ler é fazer, e mais: é fazer-se. Outra vez, a voz de Bartolomeu Campos Queirós (1999) alinhava meus pensamentos, ao afirmar que “A leitura acorda no sujeito dizeres insuspeitados, enquanto redimensiona seus entendimentos”.

Redimensionar o humano — eis o projeto da leitura! Como administrar as ações, nosso desafio... Mas antes de parecer um receituário, rígido em regras, gostaria de oferecer pontos de reflexão sobre a prática de leitura que promovemos na escola.

· Como acompanhamos o aprendizado e o encantamento da criança?
· O quanto permitimos a ela sair da esfera de reprodução da linguagem, esbaldando-se com a alegria de uma razão aventureira, produzindo sentidos por entre textos e livros?
· De que maneira laçar as vozes dos leitores co-autores para que todos sejam ouvidos e envolvidos pela leitura e pelos diálogos que se articulam antes, durante e depois dos encontros com o texto?

É importante que o professor, leitor e formador de leitores, instrua, oriente e dirija uma sessão de leitura compartilhada; que se sinta livre e seguro ao explicar como conseguiu construir sua própria leitura, apontando as pistas que foi juntando e, quanto mais solicitado, demonstrando e exemplificando o seu jeito de jogar com o texto e que saiba dar oportunidade para a criança exercitar suas estratégias de interpretação e falar sobre elas, ao monitorar as jogadas e passes livres dos alunos, negociando os sentidos, conduzindo breves atividades de releitura para a confirmação do que foi anteriormente estimado. É essencial, entre os participantes, circular uma variedade de perguntas (questionamento, e não questionário): que a dúvida do adulto seja a resposta da criança, e vice-versa, fazendo viver e reviver uma elaboração criativa de abordagens e aproximações com o texto...
Que o jogo-leitura de capa seja uma
aventura rumo à; obra, uma leitura a
quatro mãos - ou a dez, treze, vinte
mãos, olhos, bocas... - que faça brotar
cumplicidades, leituras em co-auditoria.

O livro na capa?

Já dissemos que a leitura da capa do livro é uma pré-leitura do texto e, por isso mesmo, não é uma atividade que tenha fim em si mesma nem poderá substituir a leitura literária propriamente dita. Também não é um exercício a ser realizado a todo momento, com todos os livros que serão divididos em uma leitura compartilhada. Se favorece a aprendizagem da criança quanto ao domínio das estratégias de leitura, essas ações, reciprocamente, deverão favorecer outras aprendizagens textuais.

Vamos pensar a leitura de capa como missão de espionagem, na qual o leitor/espião busca intuir relações de coerência com o texto que virá.

Assim, o título de um livro e a imagem da capa passam a compor um jogo — a leitura articula-se no desvelamento de senhas verbais, pistas visuais... Nesse processo de interação com o objeto-livro, abre-se um horizonte de expectativas em relação à história que vamos encontrar logo mais... De tal modo, a leitura de capa exige um olhar desperto e inquieto, dado à própria fantasia e ao raciocínio lógico. É, por isso, um exercício de percepção, curiosidade e imaginação sobre o material da capa em que o leitor não pode trapacear consigo mesmo, mas permitir que dúvidas, perguntas, certezas e apostas surjam, sem ceder à vontade de entrar no livro apressadamente. As pistas, isoladamente, já compõem um conjunto de significados que, ao serem somados, justapostos, confrontados pela fricção das possibilidades combinatórias, começam a produzir razões cintilantes, descobertas pela intuição e à espera de confirmação.

Título e imagem dialogam. Mas podem ser segmentados, analisados em separado, em um momento, para serem sobrepostos em outro.

O título é a nossa senha verbal, poderá ajudar tanto a revelar a imagem que se vê quanto a história que se desconhece até então. Operar sobre ele é proceder a uma rápida e ágil atividade de análise lingüística ou de epilinguagem, quando se busca interpretar o significado mais literal ou sua ambigüidade, o quanto há de sentido fechado ou traços incompletos para o leitor preencher, atualizá-lo, correlacioná-lo com outros títulos, textos, experiências vividas.

A imagem, igualmente, pode estar pronta e acabada, em plena consonância com o título, quer reproduzindo-o sem espaços generosos para uma visitação, quer tentando explicitá-lo, como sempre ocorre quando é intencional levar o leitor a um gesto associativo direto entre o texto e a imagem. Bem melhor é quando a ilustração da capa, à primeira vista, intriga o leitor, provoca-lhe um estranhamento — seja na esfera da apresentação, flagrando uma cena incomum, não rotineira, enigmática, prenhe de sugestões sobre o que acontecera pouco antes ou de expectativas sobre o que aconteceria em sua seqüência; seja em sua natureza plástica, a presença admirável da técnica.

Respeitando sempre as características e as configurações de linguagem presentes em cada exemplar da literatura para crianças, é importante que o professor crie condições favoráveis para a criança fazer–aprender–refazer o processo da leitura que se tece. Toda obra, pensada como um todo significativo, sempre revela uma intencionalidade comunicativa e estética, e esta pode vir muito bem expressa em sua capa, sintetizando os principais aspectos da narrativa que o livro transporta, ao mesmo tempo em que tenta fisgar o leitor para sua leitura.

Mas também deve ser dito: nem toda capa produz boas leituras, coisa que não depende totalmente do livro e não compromete a qualidade do texto que contém nem a invenção do ilustrador. Descobrir a boa leitura ou as possibilidades dela acontecer é outro jogo: ao selecionar uma obra, o professor deve ser apenas leitor, pesquisador e espião.

Que o jogo-leitura de capa seja uma aventura rumo à obra, uma leitura a quatro mãos — ou a dez, treze, vinte mãos, olhos, bocas... — que faça brotar cumplicidades, leituras em co-autoria. Essa seria a conduta e a condição para que todos, crianças e adultos, desenvolvessem habilidades e estratégias de leitura, como saber inferir relações, levantar hipóteses, antecipar acontecimentos, evocar outros textos de sua bagagem literária, explicitar as marcas e deduzir o obscuro, intuir sentidos, entrelaçar conhecimentos... Adiante, o projeto humano: o leitor proficiente.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Conversas com leitores

Publicado em 17/08/2010

Cyana Leahy-Dios
Professora universitária (UFF e UGF), escritora, tradutora, PhD em Educação Literária pela Universidade de Londres

O que eu queria aprender de verdade não passava nem perto do quadro-negro. O que me interessava – e me interessa até hoje – eram as relações humanas, e tudo de mágico e de trágico que elas representavam numa vida. No caso, a minha vida... A escola era como um país estrangeiro. Martha Medeiros

Inserida no discurso da democracia social, a leitura tem nos professores-leitores seus agentes preferenciais. Ler de modo consciente e analítico implica o exercício cotidiano da cidadania, responsabilidade sociocultural primordial da escola. As trilhas até a leitura letrada e consciente são árduas, exigindo a transformação de crenças e olhares. Com frequência, na arena pública os próprios atores e espaços de construção do letramento e da leitura dificultam o processo: escolas são mal equipadas, professores não gostam de ler, alunos são desinteressados, suas famílias são indiferentes, o sistema educacional público se encontra permanentemente em estado pré-falimentar. Nada disso é dissociado das discussões sociais e políticas (como a reforma universitária, o sistema de cotas, o processo eleitoral brasileiro, as políticas de proteção ao meio ambiente), que exigem argumentação construída através de leitura, reflexão, análise, interpretação. Raros são os adolescentes e jovens adultos conscientes de sua participação ativa na escrita da história nacional.

Pela lógica cartesiana, o propalado decréscimo do analfabetismo no Brasil deveria corresponder a índices de leitura mais elevados, ao menos nos centros urbanos, onde há livrarias e bibliotecas públicas. Infelizmente, o diálogo com dezenove jovens leitores, abaixo detalhado, não confirma essa premissa. Diversas instituições que exercem papel relevante na disseminação do livro e da leitura oferecem e/ou abrigam congressos, cursos, oficinas, projetos e programas voltados para a área da leitura. Esses encontros são marcados por debates e discussões políticas, com denúncias e apelos, queixas, exigências, atribuições unânimes de culpa (ao aluno, à família, ao Estado, ao sistema).

Em meio a tantas críticas, o processo evolui bem, até que algum palestrante ou coordenador de oficina bem intencionado peça a leitura de textos, documentos ou livros para fundamentar a argumentação, os debates e trabalhos, tentando atingir questões menos superficiais acerca dos dilemas e descaminhos das ações pedagógicas em torno da leitura. Parte considerável do corpo docente envolvido com projetos de leitura efetivamente não lê: sua disponibilidade para a leitura é mínima, e a resistência, máxima. Costuma tratar como leitura a preparação de aulas, através de manuais didáticos pré-prontos, optando frequentemente por ações de caráter prático, técnicas, estratégias, receitas prontas, dicas facilitadoras para copiar e usar em seus espaços de trabalho. Peça-lhe tudo, menos leitura, análise e discussão reflexiva de textos – um exercício cansativo, soporífico, difícil e inadequado. Há escolas cujos professores sequer leram as coleções infantis e/ou juvenis enviadas pelo Governo Federal para distribuição nas escolas. Por motivos e dificuldades diversas, estão mais interessados nos fragmentos e retalhos de informação disfarçados como leitura literária.

Atuando como palestrante e coordenadora de oficinas no interior do país, através do Proler, percebi não se tratar de resistência eletiva à leitura: muitos docentes se sentem desconfortáveis, inseguros quanto à própria competência de ler. Formados precariamente, sem domínio teórico nem metodológico dos fundamentos da análise de textos, falta-lhes o pensamento independente e dialético, a divergência crítica no tratamento do lido (letramento). Carentes de bibliotecas, sem motivos específicos que os incentivem à leitura real e cotidiana, sobrevivendo ao dia a dia pedagógico com experiência de leitura parca e escassa, não podem atuar como vetores genuínos de transformação sócio-histórica e político-cultural através da palavra escrita, criando jovens leitores em suas salas de aula, em seus círculos sociais, em suas regiões. Como, então, estar a par das últimas produções editoriais da literatura juvenil? O que nos resta fazer e o que devemos esperar? A capacidade de ler e refletir sobre o lido é que permite ao indivíduo engajar-se de modo ativo e responsável nas atividades culturais e políticas do grupo, tornando-se mais apto ao desempenho ótimo de suas funções sociais, em condições de opinar e, como dizia Gramsci, de governar – e não apenas obedecer.

Dados obtidos em entrevistas anteriores com adolescentes e jovens adultos de escolas públicas no Rio de Janeiro revelaram que a maioria afirmava “não gostar de ler”; com o fluir da conversa, mais adiante – e mais à vontade – diziam ler gibis, jornais esportivos, revistas femininas, folhetins românticos e até mesmo “alguns livros” (obviamente, best-sellers traduzidos ou livros de autoajuda, não referendados pela crítica acadêmica). Diante da contradição, percebiam a associação mental entre ler e obra indicada pela escola: leitura de fato seriam as obras pré-aprovadas pelos professores como objeto de estudo para prova ou trabalho escolar.

Anos depois, usei como campo de pesquisa a Biblioteca Estadual de Niterói, prédio histórico situado em praça central da cidade. Dado o investimento em programas de leitura, em propaganda nos meios de comunicação, com frequentes doações de coleções literárias às escolas, quis atualizar os dados, verificando a ocorrência de mudanças na relação de jovens do meio urbano com o livro e a leitura: quem estaria lendo na biblioteca, o que lia e por que, a mando da escola ou por diletantismo. Ansiava encontrar uma história de maior competência escolar/docente na mediação de leituras.

A amostragem não foi quantitativamente representativa, mas deu margem a algumas reflexões: 19 jovens foram encontrados na biblioteca em situação de leitura, 16 dos quais se ocupavam de “pesquisa escolar” ou em estudo independente. Os três jovens restantes ali aguardavam um ensaio de teatro amador, com grupo “criado na biblioteca”. Todos concordaram em relatar suas leituras eletivas em processo, seus passatempos prediletos, definindo, por fim, o papel da leitura em suas vidas. Ninguém afirmou ler literatura juvenil, infantil ou adulta; estavam todos na biblioteca a trabalho, e não por prazer/lazer. Ratificaram o discurso oficial acerca da importância da leitura, embora apenas seis tenham se revelado de fato leitores. Era clara a sensação de que leitura, escola e biblioteca pertencem a um mesmo campo semântico, como obrigação, dever, tarefa avaliável.

As falas registraram que a maioria dos jovens esperava contar com o estímulo da escola ou dos professores para ler. “Ler é chato”, “ler seria minha última opção de lazer”, “só leio obrigado/a pela escola” são expressões encontradas entre os jovens, confirmando achados de investigações anteriores. Novamente se confirmou a contradição, não percebida pelos entrevistados: vários têm hábitos de leitura consolidados, embora neguem essa prática. Gilcimar, Renan, André, Luiz Ricardo, Jorge e Natália, autoalegados não leitores, leem com frequência jornais, revistas e/ou mangás (gibis japoneses). Tatiana e Iara leem romances em casa, vão à biblioteca com frequência “buscar conhecimento”, abrir “a visão da vida” (ou seja, estudar, “pesquisar”). Amanda e Pámela veem a leitura apenas como instrumento de pesquisa, “a melhor forma de aprender”, mas “não serve para o lazer”. Marcele e Ana Carolina leem sem gostar, apenas por obrigação escolar/acadêmica. Rosane, por sua vez, leitora assídua na biblioteca e em casa, vê a possibilidade de “viajar pela leitura”, ao passado, ao futuro, ao desconhecido. Também Milena considera ler uma viagem, desde que se tenha a “disponibilidade para viajar”: leu somente dois livros até hoje, apenas para “descarregar a consciência”, pois “não tem disponibilidade” para a viagem da leitura. Paulla é a leitora ideal: apaixonada por livros como lazer, prazer, fonte central de aquisição de conhecimento, a se tornar brevemente seu objeto de estudo e interesse acadêmico-profissional: acabara de ser aprovada no vestibular para Biblioteconomia na UFF. Oriunda de uma família de leitores, Paulla declarou ler cinco livros simultaneamente; afirmou que, para ela, “a leitura é quase tudo: é informação, passatempo, meu meio de comunicação com os outros e com o mundo”.

André, leitor e apreciador do potencial da leitura (“ler abre um novo universo, estimula a mente a pensar, a ter opiniões sobre o mundo e a vida”), lamenta o distanciamento da escola, que raramente orienta a leitura ou manda ler. Luiz Ricardo vai à biblioteca estudar e pesquisar, mas a leitura não entra na sua lista de prioridades ou de prazeres. Renan e Jorge, leitores de gibis e livros que nunca leram uma obra literária, revelam curiosidade por textos literários, uma leitura até então jamais exigida, orientada ou motivada pela escola. Embora suas famílias não possuam livros, intuem ou repetem o chavão de que leitura é aprendizado, estímulo à imaginação, ensinamento moral e solução de problemas existenciais. Natália, uma declarada não-leitora, lê revistas femininas e de fofocas televisivas, já tendo lido na escola livros escolhidos pelos professores, sem significado especial para sua experiência de vida e de leitura. Afirmando “sentir falta de livros e de leitura em família”, pretende “ler para os filhos” que tiver um dia, instaurando o hábito de ler em seu futuro núcleo familiar. Luana frequenta a biblioteca, adora ler e lê de tudo; atribui esse hábito prazeroso ao fato de vir de uma família de leitores, já que a escola nunca pediu, indicou ou orientou leituras. Afirma que ler ajuda a desligar dos problemas, é o melhor lazer. E o recém-chegado Mário, cidadão da Guiné-Bissau, estava na Biblioteca Estadual por conta própria, estudando para prestar exame vestibular no Brasil. Apesar da guerra em seu país, diz-se bom leitor de poesia, ficção e temas culturais em geral, que lê por prazer. Segundo ele, não há bibliotecas públicas nem escolares na Guiné-Bissau; livros são disponíveis apenas nas bibliotecas das Embaixadas de Portugal e do Brasil. Vê a leitura como fonte de alegria e tristeza, aprendizado, informação, crítica.

Melhores futuros para todos?

Não houve a pretensão de originalidade aqui. As respostas informam a inserção socioeconômica dos jovens (bairros e zonas de residência e estudo), a frequência e objetivos ao procurar a biblioteca pública e a relação pessoal com livros e leitura. Opinativos e participativos, pertencem às camadas populares: moram em áreas de baixa renda, estudam (ou estudaram) em colégios públicos de periferia. A relação série-idade está na faixa ideal, indicando serem estudantes no mínimo medianos. A biblioteca é usada preferencialmente como local de “pesquisa” escolar e, em menor escala, de estudo independente. Descontando as poucas exceções citadas, esses jovens não relacionam leitura a prazer e/ou lazer e têm pouca intimidade com a literatura: são episódicos seus eventos de leitura de livros. Há exceções por motivação familiar, inegavelmente o melhor, mais raro e eficaz exemplo para o desenvolvimento do hábito prazeroso de ler.

Pelo visto, a escola continua falhando no cumprimento de sua tarefa mais importante, que é desenvolver a habilidade de ler textos, ler nas entrelinhas, ler eventos, situações, mensagens, de forma literal e literária, até porque falta educação literária na própria formação dos docentes, principais agentes desse processo.

Professores que não leem, alunos que nunca leram na escola são as pontas visíveis das artimanhas que inibem a emancipação e reproduzem “propostas imbecilizantes” (Demo, 2001, p. 74). O medo do argumento também faz parte dessas artimanhas, cerceando diferenças de opinião e divergências conceituais por temê-las, como a toda forma de exercício crítico. Ler, analisar e interpretar em profundidade são instrumentos de contestação da própria leitura, uma intervenção nas circunstâncias de produção dos textos em si. Ler literatura faz parte de uma agenda sociocultural determinada por compromissos ideológicos, papéis e expectativas político-culturais. O texto se esvazia se estiver a serviço da produtividade, com resultados mensuráveis – e não como campo de desenvolvimento de sensibilidades e competências literárias.

As obras literárias mencionadas pelos jovens entrevistados na Biblioteca Estadual de Niterói foram Harry Potter (Tatiana, em casa); Macunaíma e Triste fim de Policarpo Quaresma (Iara, na escola) e O iluminado (em casa); As viagens de Gulliver (Marcele, na biblioteca da escola) e Oliver Twist (em casa); Gota d’água (Ana Carolina, na biblioteca da UniRio); O Guarani (Rosane, na escola); Anjos e demônios, Quem tem medo do escuro, As brumas de Avalon 3, O físico, e Da chibata à terra-mãe (Paulla, em casa); Relato de um náufrago e Robin Hood (Luiz Ricardo, em casa); Dom Casmurro e Lolita (Milena, em casa); Porto dos Milagres (Luana, em casa).

Dessa listagem, constituíram indicações de leitura escolar Macunaíma, Triste Fim de Policarpo Quaresma e O Guarani, obras canônicas clássicas, assíduas nos finados livros didáticos de literatura e que dificilmente seriam classificadas como “literatura juvenil”. A escassez de materiais de leitura é de tal monta que alguns títulos são lidos, relidos, e lidos novamente. A maioria dos professores e os bibliotecários desconhecem as novidades editoriais do país. À escola não chegam notícias da literatura juvenil.

A realidade fica do lado de fora; porém, do lado de dentro falta não apenas leitura, mas também espaço para análise, discussão, confronto, transformação, divergências, emancipação. Se a educação literária – educar para a cidadania através da literatura – é metafórica, uma representação cultural das sociedades, a situação brasileira é preocupante. Permanece a tradição que reza que bibliotecas sejam para as escolas dos abastados e oficinas (quando muito) para as escolas das classes populares, um triste quadro do presente educacional do país.

Todo autor gostaria de fechar seu texto com um toque otimista, ajudando a manter a esperança em melhores futuros para todos. Porém, o quadro da leitura em geral – e da literária em particular – em nosso país continental não permite conclusões utópicas e ufanistas. Não há notícia de movimentação ampla e eficaz no letramento e na educação literária dos jovens das classes populares – ouvimos falar em uma ou outra iniciativa heroica, particular, de sucesso limitado. Não há “perguntas galantes” em nossos jornais e revistas, na televisão ou na internet. Há anos que a avaliação internacional da competência de leitura de nossas crianças e jovens rasteja nos últimos lugares.

Sem querer adotar uma posição extremada ou sectária, acredito que seja urgente rever todo o sistema, desde a formação escolar, acadêmica e continuada de professores-leitores até as políticas livreiras e de leitura literária, lembrando que certos significados e posições não são articulados dentro do discurso oficial. É urgente construir leitores de todas as idades, nas diversas classes socioeconômicas. Dentro e fora desse país estrangeiro, a escola.

Referências bibliográficas

BOAL, Augusto. O arco-íris do desejo: Método Boal de Teatro e Terapia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996.

DEJEAN, Joan. Antigos contra modernos: as guerras culturais e a construção de um fin de siècle. Trad. Zaida Maldonado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.

LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. São Paulo: Ática, 1993.

LEAHY-DIOS, Cyana. Educação Literária como Metáfora Social. Niterói: EdUFF, 2000. 2a edição. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

O leitor brasileiro na visão de nossos escritores clássicos

Publicado em 1º de março de 2011
Juliana Carvalho
Professora e redatora

Em continuação ao tema explorado no minicurso Literatura, Ensino e Divulgação Cultural, oferecido pela professora doutora Muna Omram na UFF, sobre o qual falamos aqui na edição de 4 de janeiro de 2011, a formação do leitor brasileiro mereceu especial atenção. Para Antonio Candido, faz pouco tempo que as obras nacionais trabalham com base no sistema literário autor – obra – público. Para o historiador, a literatura deve valorizar um esquema comunicativo mais completo, que não isole o autor em sua produção, mas coloque-o em diálogo com outros autores, adeptos ou não da mesma tendência. Durante muito tempo, o que vimos foi uma produção literária mais ou menos consciente de seu papel e que renegava o leitor a um papel secundário. Para esses autores, o papel do leitor era apenas ocupar um lugar de destaque como receptor privilegiado dessas obras.

Formação do público leitor no Brasil

A figura do leitor começa a aparecer na produção literária nacional no Romantismo. Os autores românticos se posicionavam como professores desses leitores. Em Memórias de um Sargento de Milícias, Manuel Antônio de Almeida parece conduzir o leitor pela mão, sempre recapitulando uma ação do capítulo anterior:

Os leitores devem estar lembrados de que o nosso antigo conhecido, de quem por algum tempo nos temos esquecido, o Leonardo Pataca, apertara-se em laços amorosos com a filha da comadre e que com ela vivia em santa e honesta paz. Pois este viver santo e honesto deu, em tempo oportuno, o seu resultado. Chiquinha (era este o nome da filha da comadre) achou-se de esperanças e pronta a dar à luz.
José de Alencar fornece ao leitor uma formação engajada com o projeto político e ideológico do Romantismo na primeira geração, representado pelo indianismo. Esse projeto pretendia, por meio da literatura, fundamentar os alicerces para a construção de uma nação ideal:

O que melhor do que a história de Peri para despertar o furor nacionalista que parecia adormecido no inconsciente coletivo — na juventude brasileira que ansiosa aguardava a chegada do trem transportando as páginas folhetinescas? O sentimento solidário agrupava jovens para uma leitura em voz alta a favor de quem não possuía um exemplar.

A mais conhecida razão para a escolha do índio como herói nacional foi a resistência que impuseram aos portugueses. Mas José de Alencar tenta desmentir isso nas primeiras linhas de Iracema. A luta apresentada quando Iracema se encontra com o branco é breve e apenas consequência de um reflexo de defesa contra um estranho. Mas ao disparar sua flecha e ferir o guerreiro, logo sente remorso. Este, ao contrário, “de primeiro ímpeto, a mão lesta caiu sobre a cruz da espada; mas logo sorriu. O moço guerreiro aprendeu na religião de sua mãe, onde a mulher é símbolo de ternura e amor. Sofreu mais d’alma que da ferida” .

Um pouco mais distante dos temas políticos, Machado de Assis tomou para si a missão de fornecer cultura ao leitor. São muitos exemplos, mas o conto Missa do Galo apresenta isso de forma bem clara. Observe o trecho em que Nogueira fala a Conceição (e ao leitor) sobre o romance que está lendo:

Tinha comigo um romance, Os Três Mosqueteiros, velha tradução, creio do Jornal do Comércio. Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D'Artagnan e fui-me às aventuras. Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas (...).

— Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é o romance dos Mosqueteiros.
— Justamente: é muito bonito.
— Gosta de romances?
— Gosto.
— Já leu A Moreninha?
— Do Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba.
— Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances é que você tem lido?
Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns.

Já o conto A Cartomante tem início com uma citação de Shakespeare:

Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.
Além de sugerir listas de livros, peças, concertos e obras culturais às quais o indivíduo deve ter acesso para adquirir formação ampla, outro recurso usado por Machado de Assis é aproximar-se do leitor, fazendo-o sentir-se parte da história. Em Dom Casmurro, no capítulo 10, chama o leitor de amigo para convencê-lo:

Eu, leitor amigo, aceito a teoria do meu velho Marcolini, não só pela verossimilhança, que é muita vez toda a verdade, mas porque a minha vida se casa bem à definição, cantei um duo terníssimo, depois um trio, depois um quatuor... Mas não adiantemos; vamos à primeira tarde, em que eu vim a saber que já cantava, porque a denúncia de José Dias, meu caro leitor, foi dada principalmente a mim.

Ao ser convidado a compartilhar os pensamentos e atitudes do narrador, o leitor é levado a refletir e tomar partido na narrativa. No caso da história narrada por Bentinho, o leitor decide se acredita na veracidade dos fatos ou não. Machado tenta claramente seduzir o leitor chamando-o de amigo ou tratando-o com cordialidade, mas o considera inapto para entender as sutilezas da linguagem. Talvez por isso Capitu não tenha sido condenada pelo autor, mas sim pelo público.

Shakespeare volta a ser referência, se observarmos a estrutura e as semelhanças entre os perfis de Bentinho e Otelo. Bentinho, assim como Otelo, também reflete desajuste social, sendo descrito como um sujeito manipulado e sem decisões próprias. Fruto da autoridade matriarcal e da acomodação burguesa, vê em Capitu uma figura cuja força, exuberância e firmeza de atitude são capazes de subjugar sua própria identidade. Ambos viram como solução para a suposta infidelidade a morte de suas esposas. Otelo, em sua personalidade mais sanguínea, parte para o ato evidente, estrangulando Desdêmona, reparando sua honra numa atitude totalmente movida pela emoção, chegando à insanidade. Já Bentinho, um homem que prezava as convenções sociais, buscou solução mais racional, embora covarde, em ignorar Capitu, retirando-a aos poucos de seu convívio. O assassinato pode ser entendido na própria narrativa, em que Dom Casmurro, quase que por descuido, deixa escapar que ela morreu na Europa, sem uma observação mais relevante, distante dele e já há muito de seu coração.

No século XX, Lima Barreto cria uma personagem leitora, o major Policarpo Quaresma, que se eleva quando transforma em ideal o conteúdo de suas leituras. Ainda assim, o autor apenas indica uma lista extensa de obras, sem oferecer nenhuma explicação sobre sua importância. Isso evidencia o desprezo ao leitor presente na literatura brasileira em geral até então.

Mário de Andrade, em seu livro Amar, verbo intransitivo, conta com a ajuda do leitor na medida em que este, ao ler um texto, estabelece conexões implícitas, preenche lacunas, faz deduções, comprova suposições, e tudo isso significa o uso de um conhecimento de mundo em geral e das “regras” literárias em particular. Partindo desse princípio, o autor constrói uma obra cheia de lacunas, em que é solicitado o trabalho do leitor para interpretá-las. Apesar disso, ainda não há diálogo. O leitor realiza seu trabalho de interpretação já com base nas pistas oferecidas pelo autor, que direciona a leitura.

O conceito de metanarrativa permite ao autor guiar o leitor por meio de uma sucessão de lacunas ao fim das quais ele terá reconstruído o texto segundo a intenção do autor. A obra apresenta pistas que balizam as interpretações. A consciência de que há uma regra de montagem é que nos leva a fazê-lo corretamente.

A obra apresenta um narrador onipresente e onisciente, que interrompe a história para comunicar ao leitor que o que ali está em palavras não é algo inventado, mas efetivamente um relato. O leitor, a par das impossibilidades típicas do relato, como a onisciência e onipresença autoral, aceita a tarefa de contextualizar a ficção e torná-la verossímil. Existe uma intenção clara que solicita a cooperação do leitor, mas não se predispõe a dividir com ele o trabalho de autoria.

Talvez o primeiro autor dentro da literatura brasileira que realmente convide o leitor para ajudá-lo na construção de sua obra é Graciliano Ramos. São Bernardo, aclamado no meio acadêmico, apresenta um narrador que dialoga com o leitor com base em sua maturidade. O leitor passa a ser produtor e operário, com base no sistema de produção capitalista. Desde o início de São Bernardo, o protagonista compartilha com o leitor o processo de elaboração da obra, questiona sobre a linguagem a ser empregada, a divisão dos capítulos. Esses traços metalinguísticos tornam a obra ainda mais complexa; esse estilo pode oferecer pistas para compreender Paulo Honório, que compartilha conosco suas memórias. Já no início do livro percebemos a intenção do autor: “Antes de iniciar este livro, imaginei construí-lo pela divisão do trabalho”. Paulo Honório convida o leitor para construir a narrativa junto com ele, demonstrando solidariedade e reconhecendo a necessidade de diálogo, entretanto sem desprezá-lo ou diminuí-lo.

A partir da obra de Graciliano Ramos, outros autores passaram a respeitar a independência do leitor, já que somos nós que produzimos a leitura, construímos o personagem e geramos sentido, independente da criação do autor. Bastava aos autores apenas o reconhecimento e a elaboração da obra a partir dessa perspectiva.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Semente de leitores

Renato L. -  Recife/PE

Antes de tudo, um aviso: não há um herói na “historinha” que contamos a seguir. Não existe uma professora para servir de fio condutor no relato das experiências da Sementinha do Skylab. A ausência está ligada à trajetória da própria creche: como tantas, ela surgiu em 1988 a partir da luta da comunidade, ameaçada por um projeto de reurbanização. O esforço coletivo vitorioso marcou a vida de todos – a tal ponto que os professores pediram para não serem retratados individualmente.

Essa, no entanto, foi a única exigência feita ao repórter. No restante daquela manhã de verão, só encontrei portas abertas, boa vontade e... livros expostos nas paredes das salas arejadas dos grupos 1 (crianças de 1 a 2 anos), 2 ( de 2 a 3), 3 (de 3 a 4) e do berçário. Para o visitante, não resta dúvida: o manuseio de livros é parte do cotidiano da Skylab. Todo dia, confirmam os professores, são criadas situações de leitura, ou durante "A hora do conto" – após as atividades musicais e corporais, quando crianças e/ou professoras narram histórias nas salas – ou nos períodos de livre escolha, em que há a preocupação de se reservar tempo e espaço para o ato de ler.

Tanto cuidado, claro, não surgiu do nada. Primeiro, é bom notar que as professoras têm formação superior – inclusive com cursos de formação continuada – e são leitoras. Segundo, a prefeitura da cidade do Recife, principalmente nos anos entre 1993 e 1996, elaborou políticas com ênfase na formação docente e na organização de acervos. Juntos, esses dois fatores foram decisivos nas experiências da creche nesse campo, inclusive na mais importante delas, a Mostra de Livros da Sementinha.


Sua primeira edição aconteceu em 1999, como produto de uma reavaliação do projeto pedagógico, que apontou a necessidade de se ampliar o trabalho de leitura. Crianças, pais e funcionários são incentivados a escrever. Veja bem, não é uma tática para ampliar a capacidade de escrita. É parte da estratégia de incentivo à leitura. Até hoje, a estrutura básica da Mostra permanece: as crianças são envolvidas numa série de atividades (visitas a bibliotecas públicas e a editoras; conversas com escritores, inclusive com escritores-mirins; teatro de fantoche mostrando a importância do livro, personagens narrando contos de fadas...) capazes de reforçar o prazer de ler.
 
Ao mesmo tempo, elas são convidadas a criar histórias, convite que, nas edições mais recentes, foi estendido aos funcionários e aos pais dos alunos. Esse material é transformado em livros artesanais pela Editora Sementinha, incorporado ao acervo da Skylab e, importante, trocado com outras creches. Além disso, são organizadas campanhas de doação de livros para a biblioteca (que também atende a pais e funcionários) e oficinas de leitura com os pais, tarefas básicas numa comunidade de baixa renda, onde livro é artigo de luxo.


Tudo isso deságua na própria mostra de anos), 2 ( de 2 a 3), 3 (de 3 a 4) e do berçário. Para o visitante, não resta dúvida: o manuseio de livros é parte do cotidiano da Skylab. Todo dia, confirmam os professores, são criadas situações de leitura, ou durante “A hora do conto” – após as atividades musicais e corporais, quando crianças e/ou professoras narram histórias nas salas – ou nos períodos de livre escolha, em que há a preocupação de se reservar tempo e espaço para o ato de ler.

Tanto cuidado, claro, não surgiu do nada. Primeiro, é bom notar que as professoras têm formação superior – inclusive com cursos de formação continuada – e são leitoras. Segundo, a prefeitura da cidade do Recife, principalmente nos anos entre 1993 e 1996, elaborou políticas com ênfase na formação docente e na organização de acervos. Juntos, esses dois fatores foram decisivos nas experiências da creche nesse campo, inclusive na mais importante delas, a Mostra de Livros da Sementinha.


Sua primeira edição aconteceu em 1999, como produto de uma reavaliação do projeto pedagógico, que apontou a necessidade de se ampliar o trabalho de leitura. Crianças, pais e funcionários são incentivados a escrever. Veja bem, não é uma tática para ampliar a capacidade de escrita. É parte da estratégia de incentivo à leitura. Até hoje, a estrutura básica da Mostra permanece: as crianças são envolvidas numa série de atividades (visitas a bibliotecas públicas e a editoras; conversas com escritores, inclusive com escritores-mirins; teatro de fantoche mostrando a importância do livro, personagens narrando contos de fadas...) capazes de reforçar o prazer de ler. livros. Concebida e desfrutada coletivamente pela comunidade, ela serve como exemplo de estratégia de incentivo de baixo custo e integradora, capaz de reunir ao prazer da leitura – e aí temos um dado fundamental para sua eficácia! – as delícias do ato de narrar. É assim que a comunidade do Skylab faz uma semente germinar, crescer e dar frutos: a do gosto de ler histórias, primeiro passo para que se possa criar, mais tarde, uma outra história...
 
Fonte: Revista Criança nº 40

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O leitor e a leitura: Entreveista com Flavia Goulart Mota Garcia Rosa

O leitor e a leitura: presidente da ABEU, fala a respeito dos problemas envolvendo a leitura e o consumo de livros no país

Por Enio Rodrigo

Matéria publicada em 15/09/2010

Falar sobre o hábito da leitura no Brasil parece uma questão complexa. A média anual de leitura por brasileiro acima dos 15 anos e com pelo menos três anos de estudo (4,7 livros) é abaixo da média de países vizinhos, como a Argentina (5,8 livros por ano), de acordo com dados da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, feita pelo Instituto Pró-Livro. Ainda, parte desses leitores é composta por estudantes que leem as obras indicadas pelos professores (e não é uma leitura espontânea, como no caso dos argentinos). Além disso, 17% dos leitores não compreendem o que leem.

Para Flávia Goulart Mota Garcia Rosa, diretora da Editora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e presidente da Associação Brasileira de Editoras Universitárias (ABEU), as dificuldades passam pela escola, pela falta de bibliotecas, pelo baixo poder aquisitivo – que atinge também os professores – e pela dificuldade da indústria editorial em cativar um público sem um perfil definido, que no Brasil varia entre o consumidor do livro digital e aquele que não tem acesso a livrarias em sua cidade.


Pré-Univesp: Quais são os fatores que influenciam o hábito de leitura no país e o que deve ser feito para mudar esse cenário?

Flavia Goulart Mota Garcia Rosa: A questão da leitura é um reflexo também da questão socioeconômica do país. Temos uma população muito grande com um baixo poder aquisitivo – que é o maior contingente da população brasileira –, para a qual o livro não é um objeto incorporado na sua lista de compras. Se tivéssemos ações de bibliotecas públicas de uma forma satisfatória, o quadro poderia ser diferente, no entanto o país não tem ainda um projeto nacional consolidado para mudaressa situação . Estamos começando a ter algumas ações efetivas, mas não é suficiente abrir uma biblioteca, no sentido estrito, ou seja, construir um prédio e abarrotá-lo de livros. É necessária uma ação mais ampla, de criar um hábito de leitura pelo lazer, e não apenas pela obrigatoriedade de ler algo que a escola pediu. Em um projeto assim, o bibliotecário e o profissional da educação são importantes, pois eles vão se configurar como uma espécie de (ou “intermediar a relação entre o leitor ...”) ponte entre o leitor e o livro. Eles não podem ser passivos, apenas cadastrando o livro ou replicando opiniões alheias.

Hoje nós vemos algumas poucas ações na formação daqueles que chamamos de “agentes de leitura”, focando na capacitação dos bibliotecários, dos auxiliares de biblioteca, professores, ou seja, em todos os atores que contribuem para a criação do hábito de leitura. Tal capacitação é importante, pois a maior parte da população do país está na zona de baixo poder aquisitivo, em que comprar o livro é difícil, e as bibliotecas deveriam ser a saída natural para ter contato com as obras literárias.

Pré-Univesp: Como você vê o impacto da internet no hábito da leitura entre os mais jovens?

Flavia: Eu acho que não se pode pular etapas. Não é possível falarmos de ir direto para a leitura pelo computador. Todas as fases precisam ser vivenciadas. Hoje temos uma convivência entre o analógico e o digital, o que é bom para esses iniciantes na leitura. Concordo também que existe uma geração se iniciando no computador, mas o acesso ao ambiente digital está longe de ser realidade nacional. Novamente entramos na questão socioeconômica. Imagine, se temos pessoas que não compram nem o livro, existe toda uma população que não tem acesso ao computador e à internet. As pesquisas apontam o aumento das residências com computador, e um aumento de crédito também, mas nem todos têm a possibilidade de comprar um computador. A maioria da população mais carente tem acesso a ele por intermédio da escola ou de lan houses.

Pré-Univesp: A tecnologia exclui o público com menor poder aquisitivo?

Flavia: Temos uma população diversa, com tantas particularidades, que variam de região para região. O ideal é isto que estamos vendo: quem tem acesso ao livro digital, tem uma determinada opção. Outras pessoas podem preferir o livro impresso – por questão de custo, facilidade, costume etc. Então, ter várias plataformas convivendo é extremamente rico. E, voltando às bibliotecas, é preciso que elas se adaptem a esse tipo de variedade de plataformas também. O fato de que os públicos que podem compartilhar o mesmo ambiente é extremamente interessante, já que a biblioteca é um ponto de troca de informações entre as pessoas também.

Pré-Univesp: Qual deve ser o papel da escola, dos professores e das bibliotecas públicas nesse cenário?

Flavia: Temos de pensar na biblioteca como espaço público disponível para a sociedade e cujos funcionários são capacitados para ajudar. Isso porque os usuários de internet nem sempre sabem das potencialidades que taltecnologia traz. Não se trata de apenas acessar as redes sociais e softwares de comunicação, mas de ver uma forma de agregar valor a essa “navegação”, ou seja, ir até o computador, acessar a internet e sair com informação de lá, e não ser apenas um espectador passivo. É preciso mostrar as possibilidades de acessar o jornal, ou mesmo livros digitais, como é o caso dos livros disponíveis no Portal Domínio Público, que conta com diversas obras da literatura nacional.

Além disso, as universidades também estão disponibilizando os acervos das teses e dissertações na internet. O material online fica disponível ao cidadão, mas é preciso que exista uma figura para intermediar, capacitar o usuário para lidar com essa tecnologia. Não basta ter o computador; são necessários também profissionais que auxiliem os alunos e os usuários de bibliotecas a fazer um uso mais rico dos computadores. Mesmo entre os alunos universitários, é preciso fazer tal capacitação. Eles também são agentes multiplicadores do uso das tecnologias disponíveis.

Pré-Univesp: Os indivíduos em idade universitária muitas vezes deixam a leitura por prazer em função da necessidade de leitura técnica. Existe alguma preocupação para fazer com que esse público retome o hábito de ler livros?

Flavia: Baixar os capítulos dos livros que eles precisam para acompanhar as aulas não supre a formação desses indivíduos. É uma leitura fracionada, focada no resultado de que ele precisa no final do semestre. Em um ambiente universitário, deveria se expandir o conhecimento de um determinado tema nas diversas visões e de diversos autores. Para tanto , as bibliotecas precisam estar bem equipadas, com número suficiente de volumes para atender à demanda, e, mais do que isso, são necessárias ações que estimulem o aluno a voltar a ter o hábito da leitura como prazer. Isso porque ele veio de um processo, como o vestibular, no qual os livros são indicados apenas como material para fazer a prova. Eles acabam perdendo o prazer da leitura. É preciso trabalhar para inverter esse processo.

Pré-Univesp: Você participou da última Bienal Internacional do Livro (realizada em São Paulo de 12 a 22 de agosto), um dos principais eventos literários do país, representando a ABEU. Você percebeu alguma mudança no perfil do público e dos representantes das editoras?

Flavia: Foi possível notar um aumento da representatividade entre as editoras universitárias. Praticamente todos os estados brasileiros estavam representados. Tal dado é interessante de ser observado, pois mostra que a produção de livros não está mais centralizada em alguns estados, e que pode estar se iniciando um movimento em direção a novas regiões. Isso é extremamente positivo para a produção intelectual local, que passa a ter novos canais de distribuição.

No caso do público visitante, é interessante ver os eventos – seja a Bienal do Livro, seja a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) – como “festividades”. O livro é tão excepcional para algumas pessoas que elas se mobilizam para visitar e comprar. Do ponto de vista socioeconômico, é uma oportunidade também. As pessoas esperam encontrar preços mais convidativos, o que também contribui para a visitação. Além disso, ter contato com os autores, vê-los pessoalmente, também motiva bastante.

Pré-Univesp: Em sua opinião, qual o futuro do livro e da leitura?

Flavia: Tudo dependerá da continuidade dos trabalhos e políticas públicas instauradas até agora. Se isso não for prioridade, infelizmente o trabalho pode ser interrompido. O Ministério da Cultura e o Ministério da Educação precisam se aproximar cada vez mais. A educação, as bibliotecas, o hábito de leitura, a aquisição de livros, o treinamento de profissionais fazem parte do mesmo problema. Essas ações precisam ser conjuntas e em longo prazo. Um projeto deve prever uma projeção, em termos de tempo, e não apenas números de criação de bibliotecas, quantidade de livros disponíveis, ou vendagem das editoras. Para mudar tal cenário são necessários anos ; nada ocorrerá de forma imediata.

Fonte: Univesp

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Um país em busca de leitores

Matéria publicada em 01 de Agosto de 2010

O Brasil tem cerca de 190 milhões de habitantes, dos quais 95 milhões podem ser considerados leitores; mas eles leem, em média, 1,3 livro por ano. Não se trata de rejeição à leitura; uma enquete mostrou que 75% gostam de ler. Pergunta: por que, então, os brasileiros não leem mais?

por Moacyr Scliar

 No começo do século XIX, o Rio de Janeiro tinha apenas duas livrarias e, provavelmente, sem muitos clientes: um censo realizado no final daquele século, na mesma cidade do Rio de Janeiro, então capital federal, mostrava uma porcentagem de analfabetismo girando em torno de 80%.

Não é difícil explicar essa situação de analfabetismo e de falta de leitores. No Brasil colonial, o ensino era precário e reservado a uns poucos filhos de privilegiados. Universidades não existiam: os jovens que podiam, iam estudar na Universidade de Coimbra, em Portugal. As coisas começaram a mudar quando, em 1808, a corte portuguesa, fugindo à invasão napoleônica, se transferiu para o Brasil. Foi criada a Biblioteca Real e a primeira gráfica editora, a Imprensa Régia, que tinha o monopólio da edição de livros e só publicava o que era autorizado pela Coroa. Quando esta disposição foi revogada (em 1821, às vésperas da independência e, provavelmente, anunciando-a), multiplicaram-se os jornais, folhetos e revistas.

Já as livrarias foram o resultado da enorme influência cultural que a França sempre teve sobre o Brasil. Muito importantes foram os irmãos Laemmert, Edouard e Heinrich, e Baptiste Louis Garnier. Sediados no Rio de Janeiro (a Garnier tinha filial em São Paulo), esses livreiros importavam obras da Europa e editavam autores brasileiros: Garnier lançou José Veríssimo, Olavo Bilac, Artur Azevedo, Bernardo Guimarães, Silvio Romero, João do Rio, Joaquim Nabuco; Laemmert tinha em seu catálogo, Graça Aranha e Machado de Assis. Suas livrarias tornaram-se célebres pontos de encontro de escritores. Àquela altura, começo do século XX, começava a surgir um público leitor, às vezes surpreendendo os editores: quando a Laemmert se recusou a publicar uma obra que parecia “cientificista” e extensa, o próprio autor resolveu financiá-la. E fez muito bem, Euclides da Cunha: Os sertões, magistral retrato da guerra de Canudos e do Brasil sertanejo, vendeu, em pouco mais de um ano, 6 mil exemplares. Autêntico best-seller.

O fato de que os escritores não conseguiam viver de literatura (muitos eram funcionários públicos ou profissionais liberais), não impedia a existência de uma vida literária. Em 1897, e por influência de Machado de Assis, era criada a Academia Brasileira de Letras. Com o movimento modernista de 1922 surgiram revistas literárias, como a Klaxon, para a qual escreveram Anita Malfatti, Sérgio Milliet, Mário de Andrade e Tarsila do Amaral.

Nas primeiras décadas do século XX apareceram editoras importantes: a José Olympio, que editou sucessos como Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, e Vidas secas, de Graciliano Ramos, além de Rachel de Queiroz, Gilberto Freyre e Guimarães Rosa, sem falar em clássicos da literatura mundial, como Balzac, Dostoievsky, Jack London e Tolstoi. A produção crescia; o número de editoras aumentou quase 50% entre os anos de 1936 e 1944. Em meados do século XX o país editava, por ano, cerca 4 mil títulos, representando 20 milhões de exemplares. Durante o Estado Novo, regime de exceção que ampliou os poderes de Getúlio Vargas (presidente de 1930 a 1945), a atividade cultural passou a ser controlada pelo DIP, Departamento de Imprensa; a censura estava presente no rádio, na imprensa, na música, no ensino. E foi também Vargas que, em 1937, criou o Instituto Nacional do Livro, com o objetivo de desenvolver uma política governamental na área.

A qualidade editorial melhorou muito; não era raro que as edições fossem ilustradas por artistas famosos, como Anita Malfatti, Tarsila do Amaral e Santa Rosa. Novas revistas surgiam, a Brasiliense, para a qual colaboravam intelectuais de esquerda (Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda, Sérgio Milliet, Josué de Castro e Florestan Fernandes), a Civilização Brasileira, dirigida por Enio Silveira, a Tempo Brasileiro, dirigida há 50 anos por Eduardo Portella e contando com a colaboração de Sérgio Paulo Rouanet, Marcílio Marques Moreira e José Guilherme Merquior.

E OS LEITORES?

Ainda não são muitos. O Brasil tem cerca de 190 milhões de habitantes, dos quais 95 milhões podem ser considerados leitores; mas eles leem, em média, 1,3 livro por ano. Nos Estados Unidos, esta cifra é de 11 livros por ano; na França, 7 livros por ano; e na Argentina, 3,2. Não se trata de uma rejeição à leitura; uma enquete mostrou que 75% gostam de ler. Pergunta: por que, então, os brasileiros não leem mais? O argumento mais comum é o do preço do livro, de fato ainda muito caro. Mas isso é o resultado de um círculo vicioso: o livro custa caro porque vende pouco, e vende pouco porque é caro. Dizia-se que o brasileiro não gostava de livro de bolso, que preferia edições de luxo, com capa dura, para, das prateleiras, darem a impressão que o dono da casa era pessoa culta. Agora, porém, vê-se que o livro de bolso tem um público cada vez maior.

Aumentar a venda é uma forma de baixar o preço, mas isso só acontece quando as pessoas têm o hábito da leitura. Este, por sua vez, resulta de um processo que se desenvolve por etapas. A primeira dessas etapas ocorre na infância e depende do ambiente afetivo e cultural em que vive a criança. O conceito de “famílias leitoras”, da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), não é uma realidade no Brasil: 63% dos não leitores dizem que nunca viram os pais lendo – faltou-lhes, portanto, um modelo. A TV tem sido o centro da vida familiar; aquela cena do passado, a mãe ou o pai lendo para os filhos, é uma raridade.

A etapa seguinte é a da escola. As enquetes mostram que, quanto maior o nível de escolaridade das pessoas, maior é o tempo que dedicam à leitura. Entre os entrevistados com ensino superior, apenas 2% não leem. O problema é que, no Brasil, poucos chegam à universidade: 43% dos jovens de 15 a 19 anos nem sequer concluem o ensino fundamental. Faltam bibliotecas em 113 mil escolas, ou seja, em 68,81% da rede pública de ensino.

Mas, de novo, as coisas estão mudando. Os últimos governos têm se esforçado para preencher esta lacuna; em 2008, as escolas receberam, em média, 39,6 livros cada uma, por meio do Programa Nacional de Bibliotecas Escolares. A par disto, um grande esforço está sendo desenvolvido para estimular o hábito da leitura entre os escolares. No passado, o ensino da literatura era baseado quase que exclusivamente nos clássicos. Autores importantes, decerto, mas que falam de outras épocas, de outros locais, e numa linguagem nem sempre acessível. Hoje, as escolas trabalham também com escritores contemporâneos, e a interação com o texto é a regra. Os alunos fazem dramatizações, escrevem suas próprias versões dos textos, editam jornais na escola. Os eventos literários são frequentes nas cidades brasileiras: as feiras de livros, as bienais de literatura (em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Curitiba) e os festivais literários, dos quais o de Paraty, que traz ao país nomes de destaque na literatura mundial, é um exemplo.

A indústria editorial está em franca expansão, acompanhando o crescimento da economia como um todo. O ano de 2010 mostra-se muito promissor para o mercado editorial e para o crescimento do hábito de leitura no Brasil, diz a presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), Rosely Boschini. Os números dão apoio a seu otimismo: de 2006 a 2008 foram lançados, aproximadamente, 57 mil novos títulos e impressos mais de um bilhão de exemplares. A indústria editorial atrai investidores estrangeiros, e está deixando de lado o elitismo do passado para buscar o público leitor, sobretudo o leitor jovem. Redes de livrarias estão em expansão, e também a oferta do livro de porta em porta: em 2009, quase 30 milhões de livros foram assim vendidos, sobretudo para setores mais pobres. O Brasil tem hoje 2.980 livrarias, uma para cada 64 mil habitantes. Abaixo do preconizado pela Unesco – uma livraria para cada 10 mil habitantes –, mas com aumento de 10% nos três últimos anos. E, convenhamos, o número está bem acima das duas livrarias cariocas do começo do século XIX.

“Oh! Bendito o que semeia/ livros, livros à mão cheia”, escreveu, no século XIX, o poeta Castro Alves. Abolicionista, Castro Alves lutou pela libertação dos escravos, um objetivo afinal alcançado. Mas, e com isso o poeta, sem dúvida, concordaria, libertar o povo da escravidão da ignorância não é uma causa menos importante.

Moacyr Scliar médico e escritor, já publicou dezenas de livros e integra a Academia Brasileira de Letras. Seu último romance, Manual da paixão solitária, venceu o Prêmio Jabuti em 2009.

Ilustração: Daneil Kondo

sábado, 11 de setembro de 2010

Do que depende a sobrevivência da leitura?

Lucio Carvalho

O término da 21ª Bienal do Livro de São Paulo mais uma vez colocou em evidência um espectro que ronda o mercado editorial e o universo de leitores já há alguns anos: o fantasma do livro digital. É bom lembrar, antes de mais nada, que um fantasma não é essencialmente uma entidade maléfica, assim como não o é, em essência, o livro digital, ou e-book. Mas algumas leituras muito apressadas e propagandas mais apressadas ainda tem causado reações precipitadíssimas, para o bem ou para o mal mas, sobretudo, por uma compreensão parcial de tudo o que envolve o livro digital, o próprio livro, a leitura e até mesmo a educação como ela é, pois ainda trata-se da principal fonte de formação de novos leitores.

Muitas pessoas tem confundido o conceito de livro digital com os aparelhos leitores, ou e-readers. Ao contrário do livro convencional, vendido em exemplares únicos, o livro digital tem outra forma de distribuição. Depois de adquirido, poderá ser lido nos aparelhos leitores, equipamentos portáteis capazes de reproduzir o conteúdo escrito, seja qual for o seu gênero, em telas com tecnologias diversas e alguns outros recursos como conexão remota a redes, internet, entre outros. Portanto o livro digital não é um livro, é meramente um conjunto digital de dados decodificado e exibido em um equipamento. No plano comercial, os aparelhos leitores não estão atrelados a editoras, mas a empresas de tecnologia que podem arbitrar formatos tecnológicos específicos e proprietários impedindo, inclusive, que um determinado conteúdo possa ser lido em qualquer outro dispositivo que não aquele através do qual foi comercializado. Diferentemente dos volumes impressos, cujo suporte é único, os livros digitais trazem à seara da informação escrita um fantasma ainda muito pouco conhecido no meio editorial, mas que tem poderes muito significativos. O fantasma atende por DRM, ou digital rights management, e já revela-se mesmo que disfarçadamente em muitos destes equipamentos, principalmente nos mais vendidos entre eles: o Kindle, da Amazon e o iPAD, da Apple.

DRM e o futuro dos direitos autorais

De acordo com a Free Software Foundation, o DRM seria mais apropriadamente denominado por digital restrictions management, uma vez que sua funcionalidade está muito mais para a gestão das restrições de uso do conteúdo digital do lado do usuário que do fabricante. Tratam-se de parâmetros inseridos nos conteúdos digitais com capacidade para coletar dados do uso bem como determinar padrões de durabilidade, acesso a cópias e intercâmbio de formatos. Desenvolvido inicialmente por demanda dos fabricantes e distribuidores de música, é um tipo de tecnologia utilizada na transferência de vários tipos de conteúdo digital, inclusive na transmissão televisiva em formato digital.

Ao passo em que muitos avanços e iniciativas tem ocorrido em função de ampliar e não restringir os direitos do lado dos consumidores e a sociedade procurado garantir o acesso universal à informaçao principalmente em ambientes educacionais, o mercado editorial tem se movido fundamentalmente em torno das iniciativas que podem lhe garantir a sobrevivência e sustentabilidade. A discussão recente em torno da reforma da Lei de Direitos Autorais e os interesses que aí tem se debatido comprovam que muitos rounds serão travados no sentido de deitar à lona as possibilidades concretas de um avanço num curto espaço de tempo. Como o movimento de livre distribuição e licenciamento não deixa de crescer, é de esperar que o mercado venha obrigatoriamente a reconfigurar-se em função do novo habitus de acesso à informação, e não vice-versa. A novíssima sociedade da informação, que acostumou-se a ver na informação e em sua circulação um mercado a ser explorado, tem necessitado redimensionar-se constantemente, sob pena de inadequar-se aos novos meios de troca e acesso que são criados de forma incessante.

Consumidores no lugar de leitores

Criadas como peças fundamentais na geografia urbana das cidades desde antes da idade moderna, as bibliotecas públicas encarnam desde então um espírito democrático como poucos espaços públicos tem conseguido. Seja pelo acesso franqueado como por suas características elementares, como o empréstimo domiciliar, seria muito ingenuidade imaginar que as corporações empenhadas na criação de aparelhos leitores de livros guardam esse tipo de preocupação ou, acaso, seria imaginável que a Amazon ou o iTunes venham a emprestar gratuitamente seus conteúdos digitais?

Por isso, a grande diferença entre os serviços de bibliotecas públicas e o negócio dos conteúdos digitais está em que a perspectiva lucrativa aqui se instala em definitivo entre editores e leitores. Mesmo as iniciativas de implantação de grandes bibliotecas digitais, patrocinadas muitas vezes por gigantes tecnológicos como HP ou a Google, não visam alterar em praticamente nada as relações de acesso ao conteúdo da informação. Sua revolução está nos meios e na sempre presente perspectiva de oferta de serviços comerciais agregados. Assim, tais iniciativas assentam-se sobre obras em domínio público ou criadas já dentro do espírito de livre reprodução, como as obras licenciadas através da Creative Commons. Para novas edições e conteúdos presentes e futuros não há um projeto descrito ou tão benevolente a ponto de imaginar-se que a intenção edificante destas corporações visa exclusivamente a universalização do acesso à informação.

Iniciativa pioneira e que se mantem há 40 anos de forma voluntária, o Projeto Gutenberg é o exemplo vivo de que iniciativas não comerciais emperram em limites de expansão por falta de investimento. Contando com donativos e sem o apoio de grandes bibliotecas ou de seus consórcios, mesmo assim guarda a semente de um plano ousado: reinventar em formatos não-proprietários o sonho de uma fonte livre de consulta e leitura. Mesmo iniciativas que contam com o apoio do governo no caso brasileiro, e destinado a pesquisa de ponta, como a produção científica da pós-graduação patinam ainda em dificuldades técnicas para levar a idéia de uma Biblioteca Digital de Teses a ser popularizada entre instituições menores, como faculdades do interior do Brasil.

Em 2003, o jornalista Élio Gaspari já advertia ironicamente que o único banco que não dá certo no Brasil é o banco de teses. Passados sete anos, nem o MEC nem a CAPES forneceram sequer uma explicação remota acerca das razões pelas quais o projeto mantem-se sem acesso a conteúdo integral e é realizado em separado a outras iniciativas particulares de divulgação científica. Talvez sejam razões semelhantes as que levam a Google manter indefinidamente em versão beta seu projeto Schoolar. O que pode estar custando a ser percebido é a necessidade de democratizar as fontes antes de fomentar-se o acesso e de o meio acadêmico comprometer-se a dar o exemplo abrindo mão de direitos comerciais e a sociedade, por sua vez, desconsiderar propostas que visam o monopólio ou uso terciário da informação, oferecida como subproduto de iniciativas essencialmente comerciais.

Um desenho universal para os e-readers

Reclamado principalmente pelas pessoas com deficiência visual, que vêem os livros em braille sendo progressivamente relegados à edições especiais e a perspectiva de que novos recursos tecnológicos venham a possibilitar seu acesso a conteúdos de outra maneira indisponíveis, os recursos de acessibilidade dos e-readers são duramente criticados por esta parcela da população. No Brasil, iniciativas como o MOLLA – Movimento pelo Livro e Leitura Acessíveis no Brasil , são pertinazes na denúncia de práticas editoriais discriminatórias e realizam um trabalho que procura garantir que o acesso à informação, como um direito universal, seja efetivado através de compromissos sociais que atendam às especificidades humanas como um todo, como recomenda o conceito de desenho universal. Nessa perspectiva, tem chamado atenção quanto a algumas dificuldades de uso dos e-readers, como a inacessibilidade das telas de toque (touchscreen) e incapacidade de conversão texto-áudio, fatores limitantes do acesso por pessoas com deficiência visual ou mobilidade reduzida.

Umberto Eco e a obsessão terminativa

O semiólogo e escritor italiano Umberto Eco lançou no começo deste ano o livro-entrevista “Não contem com o fim do livro” no qual discute algumas questões como a segurança de dados dos conteúdos digitais, a fidedignidade e a história da humanidade e seus registros. Em dado momento da entrevista, Eco comenta que não entende as razões pelas quais iniciou-se o que ele chamou de “obsessão” pelo fim do livro. Para ele os livros continurão a existir porque não trata-se de uma experiência, mas de um produto com uma credibilidade de 500 anos, ao passo em que os recursos tecnológicos tem sido substituidos pelo menos a cada cinco anos. No seu caso, diz que não trocaria sua biblioteca por outra digital pela simples razão de que nada o asseguraria de que as informações estivessem disponíveis a qualquer momento e a salvo de bugs. Uma leitura sem risco de bugs ou perdas maiores para Eco continua a ser um privilégio exclusivo dos impressos.

Do hipertexto à hipoleitura

É possível que estas palavras, cada uma delas, jamais sejam gravadas na celulose do papel, matéria-prima dos impressos de um modo geral, sejam livros, revistas ou jornais. A bem da verdade, nem uma prova em rascunho para revisão será impressa numa simples impressora doméstica. Seu único registro estará no meio digital, no código binário e na memória de quem, ao lê-las, decida por utilizá-las em algum tipo de raciocínio que possa somar ou contestar alguma informação previamente assimilada. O registro da informação é uma necessidade que a capacidade de atenção e memória humana exigem. A medida em que evoluiu, a humanidade foi criando mecanismos acessórios para estes fins. Dicionários, enciclopédias e outras formas sistematizadas de informação que hoje convergem, aparentemente de forma inexorável, para os recursos digitais.

A internet é formada essencialmente por recursos digitais interconectados e multiplicados em uma desrazão. Muitas das pessoas que afirmam tratar-se de bilhões de páginas não erram, mas não acertam jamais em saber o quanto de informação repetida ou informação incompleta é armazenada e acessada permanentemente. Por muito tempo soube-se que a Bíblia e o Manifesto Comunista foram os livros mais impressos do mundo. Hoje sabe-se que muitas páginas da internet superam este número em n vezes. Por muito tempo soube-se que quem lia o Novo Testamento ou o Manifesto Comunista teriam conhecido a vida de Cristo ou as idéias centrais do comunismo. Hoje é impossível saber o que todas as pessoas que acessaram determinada página da internet, como por exemplo a página de pesquisa do Google, foram até lá buscando, o que leram e o que conheceram efetivamente a partir daí. A distinção fundamental entre os exemplos supra são os suportes de inscrição. No primeiro, o texto e a estrutura convencional, circunscrita. No outro, o hipertexto e a estrutura aberta, diametral.

Seria um tipo de limite absurdo imaginar um novo recurso tecnológico capaz de fazer o processamento e exibição de um texto e ao mesmo tempo compartilhar uma conexão com a internet que não contasse com esse tipo de recurso e que não tivesse por base alguma forma derivada de hipertexto. Quando pensa-se em dispositivos capazes de ler o livro digital somente um purismo radical pensaria num dispositivo que imitasse o livro em papel. Já houve quem sugerisse que os e-readers devessem inclusive emitir o odor produzido pelos ácaros, para preservar-se a leitura como se tratassem de brochuras antigas. São devaneios curiosos mas que não interessam ao principal, que é sobrevivência da leitura, apesar das tecnologias.

Antes que o livro mudasse, a própria leitura mudou. Em uma época marcada pelo exagero do uso da imagem, a palavra está em decadência e o discurso fragmentado e cada vez mais dissociativo. Mesmo assim, o desafio da leitura continua a ser como uma busca por consistência no acesso aos bens culturais. Maiores ainda são as dificuldades de concretizar uma leitura on-line porque há sempre uma forma de que anúncios publicitários resolvam sacudir as telas de leitura e inúmeras portas de saída convocando a atenção do incauto leitor. As pessoas que estão atualmente preocupadas em saber qual tecnologia vai consolidar-se em lugar do livro nos próximos cinco anos poderiam parar de pensar um pouco em aparelhos e pensar mais em como a leitura e seu acesso poderão ser garantidos e ampliados a todas as pessoas porque, do contrário, não haverá evolução a encontrar neste processo, mas uma ainda maior elitização do que a já existente.

Publicado em 26/08/2010

Fonte: Inclusive