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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Diálogo entre cultura impressa e digital responde ao desafio da formação do leitor

Raquel Wandelli, para a SBPC

Conferencistas discutem na Reunião Anual da SBPC saídas para a formação de leitores na cultura digital, onde o professor é emigrante e o aluno é o nativo

Professores de ensino fundamental e médio vivem em todo mundo talvez o maior desafio da sua história: formar leitores em uma sociedade que sofreu a mudança drástica da cultura impressa para a digital e do paradigma de leitura para o de navegação. Como a escola pode formar leitores nessa contemporaneidade, quando impera uma cultura à qual os professores aderem como emigrantes, enquanto os alunos são os nativos?

E como fazer desse leitor.com recém-inventado, esse adolescente zapper que ziguezagueia como um pássaro, um autor intérprete crítico e produtor de sentidos? E ainda: como potencializar as possibilidades de interatividade e multilinearidade da internet em favor da apreensão de saberes complexo em uma sociedade lan house, onde reina o sensorial, o efêmero e a superficialidade dos chats e jogos virtuais?

A busca de respostas a esse desafio reuniu três educadoras em torno da conferência "A formação do leitor no século XXI", realizada na tarde de quarta-feira (28/7), terceiro dia da 62ª Reunião Anual da SBPC, no campus da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

As pesquisadoras Maria Zaíra Turchi, da Universidade Federal de Goiás (UFG), e Marly Amarilha, da UFRN, apresentaram reflexões e saídas para esse impasse, tão urgente e emergente a ponto de constituir grupos de estudos e uma linha de pesquisa dentro da SBPC.

Alice Aurea Penteado, professora da Universidade Estadual de Maringá (UEM), complementou a discussão apresentando os critérios de compra de livros dentro do Edital de Convocação para o Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE 2011), que primam pela oferta de uma linguagem atraente para os jovens. O diálogo relacional entre gerações e linguagens diferentes, a postura do professor-aprendiz e a convicção de que nenhuma forma de leitura é superior à outra são posições compactuadas pelos palestrantes como ponto de partida para o enfrentamento da questão contemporânea da leitura.

O professor precisa suspender o preconceito contra a cultura digital e imergir no universo dos adolescentes para criar possibilidades de formação do gosto pela leitura, como Maria Zaíra. Mas também não deve se sentir inferiorizado diante das novas tecnologias e nem se acuar como se não tivesse, com sua experiência letrada e impressa, mais contribuição a dar para a formação desse leitor zappeante, conforme alertou Marly Amarilha. É justamente na tangência entre as duas culturas - digital e impressa - que reside a riqueza do momento contemporâneo e é nessa troca que se abrem novas possibilidades de ensino, como pode se abstrair do debate.

Valendo-se do conceito de hipermodernidade do filósofo Gilles Lipovetsky, Zaíra lembrou que a internet é a configuração simbólica mais poderosa da hipermodernidade, caracterizada pela hiperprofusão de imagens. Na hipermodernidade, as esferas da vida humana vivem uma escalada ilimitada em busca da velocidade e da visibilidade.

Como nunca antes, a sociedade de consumo se constitui pelo signo do excesso e da exacerbação da mercadoria, marcas e serviços. Os comportamentos e os adolescentes estão imersos nessa engrenagem que coloca a própria escola em crise, uma vez que as mídias são muito mais eficazes do que ela na multiplicação dos gestos, dos comportamentos, dos valores e das linguagens, lembra a estudiosa.

Nessa sociedade de explosão de linguagens, o papel da escola é muito mais complexo, porque não se trata apenas de ensinar a ler na concepção clássica, mas de "ler além da linguagem verbal, a visual, a auditiva, olfativa, gustativa, bem como os gestos, as cores, a moda, o comportamento".

Citando Décio Pignatari, no capítulo "Você sabe ler objetos?", do livro Semiótica e Literatura, ela enfatiza a necessidade de a escola perceber-se no tempo em que a explosão de informações seguiu-se a explosão de linguagens, na televisão, no cinema, no trânsito, na arquitetura, na publicidade, na informática, na literatura, nos códigos, enfim, da Babel cotidiana.

"Consumir é comunicar-se. Não há dúvida de que a inserção do jovem no contexto histórico depende não apenas da sua capacidade de leitores de palavras, mas da sua destreza enquanto leitores de múltiplas linguagens".

Na cena presente, a compreensão de uma gramática das imagens como estratégia de leitura é tão importante quanto a alfabetização para ler o código escrito. Navegar no espaço virtual exige dos leitores formados em outra cultura, em outro ritual, uma nova compreensão e uma nova atitude, defende.

"Talvez nós professores estejamos precisando de um explicador", diz ela, referindo-se metaforicamente à bela passagem de A linguagem secreta do cinema. Nessa obra, Jean-Claude Carrière conta que, no início do século XX, era comum nos cinemas, bem ao lado da tela, a presença de um funcionário para explicar ao público o que estava acontecendo no filme. A figura do explicador só desaparece em 1920, quando bem ou mal o público já estava alfabetizado na linguagem cinematográfica.

A formação do leitor contemporâneo deve considerar a sua participação cotidiana nas novas mídias digitais, marcada pela interatividade, acrescenta a conferencista. Ao unir, de modo sequencial, fragmentos de informações de naturezas heterogêneas, o leitor experimenta na sua interação com o potencial dialógico da hipermídia um tipo de comunicação multilinear em que está livre para estabelecer sozinho a ordem textual ou para se perder na desordem das partes.

"O navegador coloca em ação habilidades de leitura distintas daquelas empregadas pelo leitor de um texto ou livro impresso". Esse leitor imersivo atua como editor ao escolher o que ler. Nesse ponto, a professora da UFRN, Marly, complementa que, tão importante quanto ensinar a ler é ensinar a ter critérios de escolha de fontes de leitura no mundo virtual.

Zaíra propõe ainda que a escola conheça as possibilidades das novas formas de leitura interativa, sobretudo a dos blogs de escritores, que permitem a interatividade na construção da narrativa. Segundo sua pesquisa sobre a participação de adolescentes em blogs de autor, essa escrita é marcada pela brevidade dos textos, escritos em linguagem coloquial, com a grafia correta, mas sem o uso constante do internetês, como fazem os leitores de outros blogs.

O prazer reside no uso das possibilidades interativas, na liberdade do comentário, da interferência imediata no texto, alterando a sequência, as conexões entre os personagens ou mesmo reescrevendo as histórias, como em um jogo textual. A popularização do escritor nos blogs, com sua presença na tela ou nas conferências virtuais, é capaz de alterar o padrão de consumo intelectual e interferir nas escolhas de livros dos leitores, acredita.

Citando a pesquisadora argentina Beatriz Sarlo, defende que a escola beneficie-se do que seus alunos aprendem em outros lugares e aproveite as habilidades hipertextuais de leitura. Mas isso "até certo ponto", como diz Sarlo. É que, segundo a autora, essas habilidades, caracterizadas pela rapidez e o imediatismo, pela emoção do jogo, mas também pela brevidade e pelo desinteresse no pormenor ou nas entrelinhas, não fornecem capacidades suficientes para a aquisição de outros, tais como precisão verbal, interpretação e produção de argumentações escritas. "Ou seja, são insuficientes para transformar um adolescente em leitor e produtor de textos".

É aí que entra o professor emigrante como colaborador do nativo, na nomenclatura proposta por Marly, aprendendo e ensinando com sua herança do universo impresso, não mais como um tiranossauro autoritário remanescente de eras passadas, mas como o elo de ligação do mundo da escrita com o mundo presente.

Esse professor, que em um futuro próximo talvez nem receba mais esse nome, ao mesmo tempo estrangeiro e habitante dessa plataforma de bits e vídeogames, ocupa o entrelugar privilegiado para fazer o corte na adesão eufórica e acrítica às novas tecnologias e mostrar que a própria escrita engendrou a internet não como um artefato alienígena ou futurista, mas como um invento tecnológico e cultural capaz de ajudar a construir sujeitos históricos mais livres.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Leitura no mundo digital - Nova tecnologia, mais leitores

Editoras universitárias debatem futuro do setor com a chegada dos e-books e destacam a importância do professor para que os brasileiros leiam mais

Nova tecnologia, mais leitores
Encontro discute impacto dos e-books no mercado editorial e importância do professor na formação dos leitores no país

Daniel Patire

O impacto dos livros em formato digital, ou e-books, gera dúvidas e também expectativas sobre novas possibilidades de negócios no mercado editorial brasileiro. Para discutir o futuro comercial desse setor e a expansão do hábito da leitura, dirigentes e profissionais da área de todo o país, além de professores e pesquisadores, encontraram-se na XXIII Reunião Anual da Abeu (Associação Brasileira de Editoras Universitárias), realizada de 7 a 10 de junho, na sede da Fundação Editora Unesp (FEU), em São Paulo.

“Pela primeira vez, abordamos esses tópicos de uma forma direta e baseada em dados de pesquisas nacionais e experiências internacionais”, afirma a presidente da associação, Flávia Garcia Rosa, professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA). “Desses debates, pretendemos gerar ações que fomentem a leitura em nossa sociedade.”

A abertura do evento aconteceu no dia 7, com a presença da professora Flávia, do secretário de Ensino Superior do Estado de São Paulo, Carlos Vogt; do vice-reitor da Unesp, Julio Cezar Durigan; do diretor-presidente da FEU, José Castilho Marques Neto; do secretário municipal da Cultura de São Paulo, Carlos Augusto Calil; do presidente da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, Hubert Alquéres; e da presidente da CBL (Câmara Brasileira do Livro), Rosely Boschini.

Livros virtuais – As novas tecnologias de informação vão impor um rearranjo na produção, comercialização e distribuição das obras, segundo o filósofo Pablo Ortellado, professor da USP. Ele coordena um grupo de pesquisa sobre os efeitos das novas tecnologias para a produção, distribuição e consumo de bens culturais e educacionais, além de temas relacionados à propriedade intelectual.


“Podemos fazer um comparativo com a indústria fonográfica, que precisou se reinventar após a digitalização da música”, ressalta Ortellado. “Os empresários utilizam a disseminação de arquivos em MP3 para divulgar o produto, e seu modelo de negócio passou por reestruturações.”

Para o filósofo, a digitalização do livro tem um impacto fundamental na difusão do conhecimento entre classes sociais que antes não conseguiriam adquirir as obras que constam da bibliografia solicitada em cursos superiores. Ele cita o exemplo de universitários argentinos, que digitalizaram toda a bibliografia dos cursos da área de Ciências Humanas.

Entretanto, o leitor brasileiro não gosta, em princípio, do livro digital, de acordo com o estudo “Os leitores brasileiros e o livro digital”, promovido pela Imprensa Oficial e pela CBL, e executado pelo Observatório do Livro e da Leitura, em 2009. Os pesquisados identificaram o e-book com a Internet, o computador e o notebook, segundo Galeno Amorim, coordenador do trabalho e diretor do Observatório.

“Os leitores reclamam que a tela do computador é muito ruim e cansativa para a leitura”, comenta Amorim. “Um outro aspecto apontado é que os e-books não permitem anotações, comentários.” O dirigente explica que, ao serem apresentados aos equipamentos apropriados, conhecidos como e-readers, os entrevistados perceberam que o manuseio do e-book fica mais fácil, e, com isso, concluíram que poderiam consumir o conteúdo digital.

Experiências – Para fundamentar as discussões, o diretor executivo da Federação de Editores da Espanha, Antonio Maria Ávila Alvarez, e a consultora de mercado editorial desse país, Inés Miret, falaram da experiência de digitalização do acervo da Biblioteca Nacional espanhola e dos catálogos das editoras locais. “Hoje, por meio da Biblioteca Hispânica Digital, o usuário pode consultar até 20% do conteúdo das obras comerciais de graça”, explica Alvarez. “Isto permite a degustação, se assim podemos dizer, do produto que poderá ser comprado.”

Em 2009, a Federação e a Fundação Germán Sánchez Ruipérez realizaram um estudo sobre o impacto do livro digital na Espanha. Com a participação de 254 editoras de diversos portes, constatou-se que os preços dos livros devem cair de 30% a 50%, em 2010, ano em que 20% dessas editoras comercializarão de 50% a 100% das suas novidades tanto no formato digital quanto em papel.

A experiência europeia é um exemplo para ações brasileiras, segundo Jézio Hernani Bomfim Gutierre, editor executivo da FEU e professor da Faculdade de Filosofia e Ciências, câmpus de Marília. “Não podemos considerar o e-book como algo que salvará a difusão e nem um sinal do fim das editoras”, acentua.

Recentemente, a FEU adotou um modelo pioneiro de digitalização do catálogo, com o lançamento, em março, de 44 títulos inéditos exclusivamente no formato eletrônico, em uma ação conjunta com a Pró-Reitoria de Pós-Graduação (Propg) (Jornal Unesp n.º 254, pág. 7). “Tivemos a ousadia de trabalhar com dois conceitos importantes: o contexto eletrônico e o acesso gratuito ao conhecimento produzido nas universidades”, afirma Marques Neto. Desde o lançamento, foram feitos mais de 35 mil downloads. Os leitores têm acesso gratuito às obras no site do selo Cultura Acadêmica. http://www.culturaacademica.com.br/

Leitura universitária – O encontro promoveu também o debate sobre a leitura nas universidades brasileiras. A intenção foi diagnosticar como estudantes e professores “consomem” o livro. Foram apresentados estudos realizados pela PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) e pela UFPR (Universidade Federal do Paraná), que compararam quantos livros os alunos leem até entrarem na universidade e o tempo gasto na leitura após alguns anos no ensino superior.

A pesquisa feita com estudantes da PUC-RJ demonstrou que, ao entrarem na universidade, eles liam pouco e tinham dificuldade em encontrar a mensagem principal do texto. Após os anos de formação, esses mesmos alunos tinham aumentado o tempo de leitura, a agilidade de compreensão dos textos e a cultura geral. “Mesmo com os resultados positivos, os alunos nos últimos anos dos cursos pediram professores que os ensinassem a ler, independentemente das áreas de formação”, salientou a professora Eliane Yunes, coordenadora do estudo e diretora da Cátedra Unesco de Leitura.

João Luiz Ceccantini, do curso de Letras da Faculdade de Ciências e Letras (FCL), câmpus de Assis, também destaca o papel dos professores na formação de um público leitor, percebendo e trabalhando a heterogeneidade de seus alunos. Ceccantinni, que recebeu o Prêmio Jabuti 2009 com o livro Monteiro Lobato: livro a livro, editado pela FEU, analisou os dados da pesquisa “Retratos da leitura no Brasil”, realizada pelo Observatório e pelo Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística), que aponta que os períodos de maior dedicação à leitura se concentram na infância e adolescência dos entrevistados (Veja gráficos). “Nessa faixa etária, eles frequentam a escola e são obrigados a ler”, avalia.

Acesso democrático – O levantamento constatou, ainda, que a leitura é prazerosa para as crianças até os 14 anos. Nessa idade, os alunos participam de várias iniciativas que os incentivam a ler. Já para os estudantes de ensino médio a leitura é uma obrigação, representando algo feito sem prazer. Para Ceccantini, essas informações reafirmam a função do chamado mediador da leitura, geralmente desempenhada pelo professor. “Essas crianças não têm o exemplo da leitura em casa e, por isso, o papel do professor passa a ser tão importante”, conclui.

De acordo com Marques Neto, os temas do livro digital e da leitura na universidade convergem para a democratização do acesso ao conhecimento e o aumento do hábito da leitura. Ele é secretário executivo do Plano Nacional do Livro e da Leitura (PNLL), ligado ao Ministério da Cultura e ao Ministério da Educação. O plano é um conjunto de atividades e eventos voltados para a área do livro, leitura, literatura e bibliotecas, focados no desenvolvimento do setor. “As nossas ações estão direcionadas à capacitação de educadores, bibliotecários e outros mediadores da leitura; a ampla utilização dos meios de educação a distância; a implantação de novas bibliotecas; e a incorporação de novas tecnologias de informação, para facilitar o acesso à produção”, enumera.

De todos os debates, duas questões se sobressaem, segundo Marques Neto: o papel central do professor na formação de leitores e o poder da digitalização para se ampliar o acesso aos livros. “Já está comprovado que, quando se tem acesso a um bem cultural, como por exemplo um livro, ele passa a ser consumido”, assegura.


quarta-feira, 7 de julho de 2010

Leituras, leitores e livros – Final

Ana Elisa Ribeiro

Leitor desde pequeno

Ler faz bem. Ler é saber. Leia, leia, leia mais. Esses são slogans que promoveram campanhas pró-leitura durante algum tempo. Em meu antigo escritório, ainda na casa dos pais, eu ostentava um cartaz imenso de uma dessas campanhas do Ministério da Educação ou da Cultura, ou de ambos, não sei. O escritório era um quartinho de dois por dois, no andar de baixo da casa, em que pus uma persiana vertical azul. Lá ficavam meus livros, minhas estantes, minhas gavetas, minha hemeroteca, mesas, impressoras e computador. Nem sei como cabia tanta coisa. E lá ficava eu durante muitas e muitas madrugadas. Vi o fade da luz do Sol pela janela várias vezes. Mais vezes ainda vi o Sol nascer. Ao subir para o quarto, cruzei minha mãe pelas escadarias. Dei bom dia e ela sorriu. Eu tinha fama de dorminhoca, mas não era. Apenas invertia o horário de trabalho. E lia, lia muito durante as noites, talvez a ponto de atrapalhar a vizinha.

Não me imagino sem os livros. O bibliófilo José Mindlin é mais contundente: não gostaria de viver em um mundo sem livros. Há quem não se imagine sem cigarros, sem bebida, sem ginástica, sem uma bolsinha de marca, sem um carrão. Eu não me imagino sem o gesto de folhear um livro. E essa mania interessante me provoca curiosidade sobre as pessoas. Na última virada de ano, resolvi saber um pouco sobre a intimidade das leituras de alguns colegas e amigos. O que estão lendo em 31 de dezembro? Estão lendo? O que procuram saber?

Comentarista contumaz do Digestivo também era o Guga Schultze, até que, de tanto vir aqui, tornou-se colunista do DC. Isso é que dá. Bom para nós. O ilustrador e pintor, que conheci nas páginas da premiada revista Graffitti, está lendo A possibilidade de uma ilha, de Michel Houellebecq, um calhamaço de mais de 400 páginas “que ostenta na capa: mais de 300 mil exemplares vendidos na França. Não quer dizer muita coisa para valorizar um livro. Mas é um livro com uma prosa rápida e uma história também ágil, mas meio inverossímil. Eu ganhei; não é um livro que eu compraria”. Fico pensando: caraca! 400 páginas de um livro que ele não compraria! É muita empolgação. Talvez Guga sofra daquela mesma obsessão que me acomete de vez em quando: se eu começar, só paro quando terminar. Sem saltos, sem truques, sem trapaça. Para comprovar a compulsão, Schultze continua: “Ninguém me falou sobre ele, não li nada a respeito e a sinopse da história não me agradou. Mas comecei e estou lendo, e, o mais importante, acho que vou terminar. Porque hoje em dia já não tenho o menor receio de abandonar um livro pelo meio. Nem pelos décimos”. Ah, Guga, então você não é obsessivo como eu. Se precisar, feche o livro e faça a fila andar.

Na lista dos livros lidos, ainda sem quantidade exata, Schultze assinala uns e eu edito outros: O almoço nu, de William Burroughs, um livro sobre os violinos Stradivarius (ele não se lembra de autor e título, viu, Áurea), Gênio, de Harold Bloom, e várias releituras de Jorge Luis Borges. Guga se declara um leitor “intermitente”, que leu mais do que isso e não se recorda de tudo. E considera algo de curioso: só se lembra das releituras, das obras que leu até pela sexta vez (Conrad, Lewis Carroll, contos de Kipling, Mary McCarthy e quadrinhos japoneses). Baixa livros da Internet (Eric Hobsbawm, Jean Baudrillard, Carl Sagan e Mencken) e pratica leitura de forma vagarosa, “trechos de um e de outro”. De maneira especial, releu “numa tarde de chuva, depois de muitos anos e talvez pela sexta vez", O pequeno príncipe, de Saint-Exupèry, e não deixou passar em branco. Escreveu essa experiência no blog. Ler para escrever.

E para que não digam que aqui só tem “gente de letras”, são oportunas as declarações do professor de matemática Onaldo Chaves, da bióloga Ana Carolina Neves e do estagiário de marketing Helemar Augusto. Cada um deles declarou sua leitura de final de ano e deu mostras de que conhecem bem as trilhas do texto.

Onaldo (assim mesmo, com O) leu, na virada do ano, o conhecido Operação Cavalo de Tróia, volume 6, do escritor espanhol J.J. Benitez, uma obra de ficção científica com 7 volumes editados (até agora). O matemático não disse, mas provavelmente leu os 5 volumes anteriores e lerá todos os que houver. O texto é sobre “uma viagem no tempo ao ano 30 da era cristã, na Palestina, acompanhando diversos aspectos da vida pública de Jesus Cristo”. Numa média parecida com a de muitos aqui, Onaldo leu aproximadamente 8 livros durante 2006.

Ana Carolina Neves esteve mais atenta à profissão. Leu muitos compêndios de biologia e, ainda assim, separou um tempo para a leitura de obras literárias. O Evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago e Memórias inventadas, de Manoel de Barros, foram os livros da virada do ano. Os planos para 2007 são de ler mais. As explicações sobre estas leituras são muitas, inclusive relacionando Jesus Cristo e a Galiléia com os rituais do final do ano. A leitura de Saramago deve-se à “deseducação religiosa que tive, por sorte. Agora, tento aprender sobre essas coisas da melhor forma que me convier, e com liberdade. E as Memórias inventadas, leio para matar saudades do Pantanal, onde passei o último ano”. A bióloga leu 20 livros (“fora os compêndios biológicos”) neste ano e avalia que esta foi a melhor marca dos últimos tempos, “porque, como leio muito no trabalho, para descansar prefiro mexer no jardim”. De qualquer forma, é belíssima a associação entre as leituras e o jardim de Ana Carolina. O historiador da cultura Michel de Certeau disse algo assim, sobre a leitura ser um jogo de caça aos sentidos, caçar em campo proibido.

Helemar Augusto também estava estudioso em 2006. Na virada, leu Administração de vendas, de Marcos Cobra. Bibliografia básica de disciplinas da faculdade, a obra lhe serve para se aprofundar, “pois trabalho com isso, é vital para mim”. Leituras vitais. Mesmo com uma lista de leituras, Helemar considera que poderia ter lido mais. Entre os livros de que recorda estavam autores como George Orwell, James C. Hunter, Mario Puzo, Stephen King e César Souza, com Você é do tamanho dos seus sonhos. “Acho muito pouco, pois, com disciplina, certamente leria mais livros. Pretendo ‘bater’ este recorde no primeiro trimenstre do ano!”.

Como se vê, Helemar sabe que ler não é atividade para escolhidos, caída do céu, emanação divina. Ler é ter disciplina, alinhavar obras, fazer esforço, começar, parar, recomeçar, ler e reler, às vezes interromper, para nunca mais. De outras vezes, mais felizes, o livro volta, releitura marcante, livro de cabeceira, marco na vida profissional, escolar ou afetiva. Livro ganhado, livro comprado, emprestado, querido. Idas e vindas de um leitor real, que não é este da linearidade obrigatória (como dizem uns e outros). Nem mesmo é o das listas de mais vendidos ou aqueles do cânone ocidental. Livros podem ser herança. O leitor sempre quis estar livre, nem sempre pôde. Quando teve chance, foi exibir seu libelo (in-oitavo ou in-doze) na rua, na praça, ao ar livre. Quando lhe foi permitido, desacorrentou os livros das bibliotecas, onde até seus olhos eram vigiados, e foi confabular nos clubes e nos cafés. Mas este é um leitor privilegiado. Fale-se, também, de um leitor virtual, que não era alfabetizado, mas pedia que lhe lessem diariamente os escritos, assim como os lector das fábricas de charutos em Cuba. Estão lá, até hoje, as cadeiras dos leitores profissionais, que faziam isso em voz alta para aqueles que não sabiam ler ou que se ocupavam em enrolar tabaco. O mais importante de tudo é existirem leitores com vontade de o serem. Aos leitores de araque, que apenas aparentam ler ou que foram alfabetizados em vão, é necessário sussurrar que não é preciso ler tudo, nem ler apenas o que mandam os figurinos, é preciso ler. Faz tempo que a atividade pode ser executada em silêncio e sem a presença dos fiscais. Não há fogueira nem cadafalso. Há liberdade.

O economista Eduardo Menicucci, também professor universitário, anda saltitando por entre os títulos de livros. Nem sempre se lembra dos nomes dos autores ou das obras, mas guarda lá suas essencialidades. O mundo é plano foi o primeiro título que ele me confessou. O autor é Thomas Friedman. Antes disso, um João Ubaldo Ribeiro. Sobre este, tece o seguinte comentário: “a gente se acostuma a tudo”. Numa carreira inteira, ele ainda cita um livro do Luís Fernando Verissimo, a Bruna Surfistinha e o “o caçador – ou empinador ou apanhador, ou algo assim – de pipas", que ganhou da sogra. Para salpicar tudo isso de aventura, um livro da família Schurman.

A trajetória de leituras de José Luiz Ribeiro é tão interessante quanto a formação dele. Engenheiro eletricista, ex-analista de sistemas da CEMIG (a companhia de energia de Minas Gerais), depois de aposentado, formou-se em Psicologia e tornou-se educador ambiental. É fundador, junto com a esposa, da ONG Centro de Ecologia Integral (CEI) e da revista Ecologia Integral. Alguém que fez todo esse percurso não pode mesmo parar de ler. José Luiz se interessa mesmo, atualmente, por textos sobre sonhos, meditação e psicologia transpessoal. Entre os livros que ele cita estão: O poder do agora, de Eckhart Tolle; O homem e seus símbolos, de Carl G. Jung e A montanha no oceano, de Jean-Yves Leloup. O resultado da conta anual gira em torno dos 15 livros/ano, mas José Luiz enfatiza: “bom é o livro que te dá ‘tesão’”.

A Ceila Santos, jornalista e editora do site Desabafo de Mãe, acha pouco ler 12 livros por ano. Essa é a marca dela para 2006. Na virada, Ceila estava lendo O segundo sexo, de Simone de Beauvoir, parte 1. Leitura bastante diversa da de Maria do Carmo, que prefere história. A passagem de 2006 para 2007 foi na companhia de Os tropeiros: diário da marcha, de José Hamilton Ribeiro. Segundo ela, a obra “Conta a façanha de refazer um dos caminhos dos tropeiros do Rio Grande do Sul a São Paulo (Sorocaba), resgata o trajeto e muito da história dos tropeiros no Brasil”.

Maria do Carmo é psicóloga e trabalha na equipe de Gestão de Pessoas do Centro Universitário UNA, em Belo Horizonte. Além de ler, ela escreve e fotografa borboletas. Sem contar os livros técnicos, ela conta ao menos um livro de literatura por mês. Marca um pouco menor do que a de Marilena Vizentin, editora assistente da Edusp, que leu em torno de 20 obras (imagino que fora as que precisa ler no trabalho, claro). “Comecei a ler logo depois do Natal a recém-publicada dissertação de mestrado de Renato Ambrósio, De Rationibus Exordiendi: Os princípios da história em Roma”. A escolha se explica pela trajetória de formação de Marilena: mestre em História Antiga pela FFLCH-USP e autora de Imagens do poder em Sêneca.

Já pensou o que é trabalhar lendo? Lendo sem parar? E parece que esses profissionais não se cansam de fazer isso. Não é porque lêem o dia inteiro que sentem preguiça ou raiva de pegar um livro em horário de almoço, em intervalos ou nas férias. É só observar os hábitos de Tânia Diniz, editora do mural poético Mulheres Emergentes, em Minas Gerais. Ela diz: “leio sempre, leio muito, leio quase tudo, não sei o quanto li em 2006, mas não foi pouco. Costumo ler de 3 a 5 livros de uma vez”. Naquele momento, Tânia lia uma cesta básica com alguns títulos: A sopa de romãs, Zorro (da Isabel Allende) e A escada de cristal.

Mais leitor ainda é José Afonso Furtado, diretor da biblioteca de arte da Fundação Calouste Gulbenkian, em Portugal. Quanta gente não teria inveja dele, que tem uma biblioteca inteira onde circular, passear, sentar ao pé das estantes e ler livros como se fossem maçãs. José Afonso lia Les Bienveillantes, de Jonathan Littell (Prix Goncourt e Prix du roman de l'Académie française 2006), editado pela Gallimard. “A batalha de Estalinegrado ou os últimos dias de Hitler no seu Bunker passam pelas cerca de mil páginas desta obra tanto mais alucinante quanto respira uma prosaica objectividade. Certamente um dos maiores romances de 2006 (e não só) que leva a extremos impensáveis a reflexão sobre a banalidade do mal.”

Quantos livros lê um diretor de biblioteca? “No que se refere à poesia e ficção, certamente mais de meia centena.” E ainda diz ele que a “marca” que atingiu em 2006 está ao mesmo nível dos anos anteriores. Difícil de contar, difícil de calcular. Ah, mas para quê saber? Melhor passear por entre as páginas sem se preocupar em numerá-las. Todas as atividades de Furtado são livrescas: formado em Filosofia, diretor da biblioteca citada, professor da pós-graduação em Edição da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa. No Brasil, é possível encontrar seu livro mais recente, O papel e o pixel: Do impresso ao digital, continuidades e transformações, e, com muita sorte, uma edição portuguesa de História do livro, para quem quer saber mais sobre a trajetória fantástica desse objeto inteligente e eficaz. Depois da invenção da prensa e do formato de bolso, você já pensou que o livro foi a primeira mídia de massas? E que é também uma das primeiras e mais eficientes mídias móveis?

Ah, e será que o que eu mesma estou lendo interessa a alguém? Para não dizerem que matei a cobra e não mostrei o pau, acuso minhas leituras de dezembro: História da leitura no mundo Ocidental, em dois volumes organizados por Guglielmo Cavallo e Roger Chartier, publicados no Brasil pela editora Ática. Um passeio pelas práticas da leitura desde a Grécia antiga até hoje, com Internet e jornais digitais e tudo. Depois, numa ida da viagem, um livro sobre projeto gráfico que foi uma bomba. Mal-escrito, superficial e esquisito. Na volta da viagem, Síntese de história da cultura brasileira, de Nelson Werneck Sodré. Quando cheguei em casa, já no conforto do meu sofá bonina, A arte de fazer um jornal diário, do jornalista Ricardo Noblat, um paradidático bem-escrito, embora eu esperasse algo um tantinho diferente. Tudo sempre tem relação com meus estudos, minha profissão, meus escritos. Eu sempre leio para escrever. É muito comum que o livro me inquiete tanto que não posso ficar sem me manifestar. E um livro sempre puxa o outro, forçam-se associações, mesmo sem querer, daí que nenhuma leitura possa ser linear, como gosta de dizer a professora Carla Coscarelli em seus artigos e aulas.

Sou uma leitora obsessiva, como já disse. Leio desde criança, muito, livrões e livrinhos, li Paulo Coelho e então posso dizer o que acho dele, sem aquela postura de quem não vê e não gosta. Não gosto, com conhecimento de causa. Escolhi, vejam bem, escolhi a minha profissão. O curso que eu fiz (porque eu quis) foi Letras. E, pasmem, depois que entrei na faculdade, li tanta coisa de formação que não pude mais ler literatura como gostaria. E depois que me especializei em lingüística, ficou pior. Mas já confesso meu gosto por ler alguns contemporâneos. O último livro literário que li talvez tenha sido da Cíntia Moscovich, e gostei muito. E mesmo que não tivesse gostado, sou uma leitora de muitas associações, mas quando pego um livro, só largo quando ele se acaba. Eis aí minha linearidade. Diferente de Guga Schultze e de vários leitores “intermitentes” citados aqui. Certo ou errado? Nada disso. Não existe. São as práticas mais confortáveis para cada um, os gestos mais satisfatórios, o modo de operar, até de pensar e sentir.

Leio muito em casa. Fico ansiosa para ler. Às vezes saio e, no bar, começo a pensar em chegar em casa para continuar aquele livro, daquela página. Coleciono marcadores de livro (se alguém quiser me mandar uns...), coleciono lápis para comentar nas margens. Sem pudor. Não consigo parar e voltar e rever e acelerar de novo. O livro eu sorvo de uma talagada. Nem muito menos consigo ler dois ou mais ao mesmo tempo. Cruz-credo. Tanto é que um sobre as mulheres mais perversas do mundo, da editora Planeta, está embaixo do rádio-relógio, esperando que minha carreira de livros de estudo se acabe ou dê um tempo.

Livros de estudo? O final do doutorado me deixa com remorsos e culpas quando leio algo fora do esquemão. Não me dói, mas me angustia um tanto. Prefiro cumprir a tarefa com determinação. Deixo as perversas para depois. Depois da defesa, talvez. Duas prateleiras e meia estão na espera. E depois que tudo isso passar, vou mexer no meu jardim.

Fotocrônica 3: O bom leitor

Lê o que aparece na frente

Publicado em 30/3/2007

Leituras, leitores e livros – Parte I

Ana Elisa Ribeiro

As lentes da xará Ana Elisa Novais miram e flagram leitores

Ler está na moda. Para quem é vivo nesta nossa época, é difícil explicar as razões desse surto de preocupação com a formação do leitor, as práticas da leitura, a produção do bom texto. Talvez, mais adiante, historiadores da quarta ou quinta geração dos Annales possam esclarecer nossa atual perplexidade ao saber que os índices de analfabetismo continuam altos no mundo (com médias mais altas aqui e ali) e que o analfabetismo dito “funcional” reina absoluto (também com médias mais altas aqui e ali, principalmente aqui).

O que é ler? Também há uma trupe imensa de pesquisadores gastando os tubos para responder a esta questão. Uns sob um ângulo mais assim, outros, mais assado, mas todos querendo desvendar os mistérios que há sob o artifício interessantíssimo de ler coisas escritas.

Por falar em “mais assim ou mais assado”, há algumas correntes de pensamento sobre ler. Desta vez, não apenas em relação às respostas para a pergunta “Como?”, mas ao “O quê?”. Há alguns anos, em Campinas, onde foi estabelecida uma das mais inteligentes e produtivas instituições de ensino superior públicas do Brasil, aconteceu um COLE (Congresso de Leitura) que levava o seguinte título: “O que lê a gente?”. Nem me lembro mais em que versão do imenso evento, o tema proposto era discutir que materiais as pessoas têm lido, não se importando com juízos de valor, elitizações, prescrições, olhos tortos, narizes torcidos. A idéia era apenas saber o que as pessoas lêem, com que materiais elas têm contato, por que razões tomam um livro (ou jornal, revista, folheto, etc.) nas mãos e iniciam uma leitura.

Gosto muito dessa perspectiva de deixar que as pessoas leiam o que querem. É claro que não excluo a possibilidade de chegarem a ler os clássicos, por exemplo, mas talvez fosse mais produtivo deixar que tomassem gosto pelas coisas antes de serem apresentadas a um universo que pode soar árido para quem está acostumado apenas às placas de ônibus da cidade.

Ler é uma prática que se “contrai” com vagar. Não se passa a ler muito da noite para o dia. É preciso que as pessoas, individualmente e às vezes em grupo, consigam construir seus percursos de leitura. Suas trajetórias dizem muito sobre elas mesmas, as companhias, as possibilidades que tiveram, as iniciativas, os deveres cumpridos.

No início desta década, o INAF (Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional) deu muitas pistas sobre as práticas da leitura no Brasil. Reparem que eu escrevi “práticas”, no plural, porque é sabido por todos nós que não se lê apenas o que a escola pede, o que o professor manda, o que o padre dita, o que o Digestivo diz que é bom, o que sai na Veja, o que a Folha de S. Paulo diz que é bonito, o que os personagens das novelas da Globo estão lendo. Saber sobre os dados do INAF pode dar a ver uma espécie de “retrato” do que acontece nas mesas de cabeceira dos brasileiros. Aliás, outra pesquisa que fez sucesso em 2001 foi a “Retratos da leitura no Brasil”, que tinha uma característica menos acadêmica e servia bastante mais ao mercado editorial.

Desde 2003, o país tem leis sobre promoção do livro e da leitura. Interessantíssimo, não? Pena que nem tudo acontece “de cima para baixo”. É preciso colher os resultados pela raiz. Pegar as plantinhas pelo talo e regar por baixo. É de criança que se torce o pepino. Mas me lembro bem de que, quando era criança, eu gostava bastante de Atari e de pique-esconde na rua. Taí: com o castigo forçado das crianças de hoje, que não podem mais brincar na rua, talvez funcionasse melhor encher a casa de livros. Mas não é bem assim. Sabemos disso. Não há fórmulas. Não há macetes. Há possibilidades. Várias.

Um leitor do Digestivo que me contacta diz, num e-mail bastante descrente, que o professor, que deveria dar o exemplo, não é leitor, não lê com fluência, não tem esse hábito, não carrega livros pelos corredores da escola (exceto o didático, que é outra conversa polêmica). Concordo, Rodrigo. Morro de pena, mas concordo. Mas para não achar que isso é tudo, é preciso ler História do Brasil. Sugeri a ele uma passadinha por alguns livros do Nelson Werneck Sodré sobre a formação cultural do nosso país. E também disse a ele que pôr a culpa, com tanta veemência, no professor é exagero. Fiz a pergunta que não me cala nunca: e cadê os pais das crianças nesta história? Cadê?

Meu pai não é leitor de livros. Uma única prateleira com livros técnicos da década de 1970 deve resumir toda a biblioteca dele. A versão de O pequeno príncipe de 1953 eu confisquei e mantive na minha estante, para garantir a conservação da edição. Mas foi com meu pai que aprendi o protocolo de ler um jornal diário. Eu e meus três irmãos aprendemos a manipular jornal, ler, escolher, navegar, fechar e guardar, até recortar, quando é o caso, mas só depois que todos tiverem lido.

Minha mãe também não é leitora de livros maçudos. Diz ela que a memória não funciona mais. Talvez o círculo comece do outro lado: a memória não funciona porque ela parou de ler. Vai saber. Mas mesmo assim não foram poucas as vezes que vi, em sua mesa de cabeceira, uns livros de psicologia ou serviço social. Sei também que ela guarda livros num baú trancado a chave. Esse sempre foi meu motivo para implicar com ela. Livro, para mim, é bicho criado solto. Nem tanto que possam ser emprestados, mas ficarem trancados não justifica nada. Foi de minha mãe que ganhei meus primeiros exemplares da coleção Vaga-lume, intróito da minha carreira de leitora.

E assim vão acontecendo as leituras, as influências. Li livros porque gostei da capa, porque era o que estava disponível na hora, porque me disseram que era bom, porque ganhei e tinha que dar satisfação, porque comprei, porque fazia coleção, porque li resenha no jornal ou na revista, porque eram argumento de filme, porque disseram que era muito ruim, porque era proibido, porque era muito vendido, porque tinha ilustração, porque era minha obrigação escolar ou profissional. Li jornal, revista, folheto, cartaz, outdoor, manual de instrução, placa de trânsito, bula de remédio, rótulo de garrafa e lata, li panfleto, catálogo de telefones, cardápio, sacola de padaria, sites de cultura, revistas em quadrinhos, li missal, poema, livro didático e lápide. E a gente lê o quê? Lê muita coisa. Talvez não passe da leitura cotidiana, que não amplia os horizontes, mas lê. O que falta então? Ler melhor, ler com mais associações entre informações, ler com mais crítica (não a gratuita, claro), ler com responsabilidade, com astúcia, ler textos mais elaborados, mais complexos, maiores, mais profundos, mais estéticos, engajados, definitivos. Falta ler para escrever. Esta última é raríssima. Esta é uma das maiores dificuldades do estudante médio universitário. Ler para transformar e escrever. Aprender a ser autor.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Escola e família: parceria na formação de leitores autônomos

Um dos principais objetivos da Escola da Ilha é contribuir para a formação de leitores autônomos. Sabemos que as práticas que geram o gosto pela leitura têm início antes da chegada da criança à escola e vão além do tempo que ela passa na escola. Entretanto, temos clareza da importância das ações desenvolvidas pela instituição escolar com relação ao ensino da leitura e ao gosto pela leitura.
Por isso, listamos algumas das atividades mais presentes no cotidiano dos nossos alunos e outras que poderão ser vivenciadas em casa ou ainda desenvolvidas em parceria entre a escola e a família:

» Garantia de horário de leitura em sala, na biblioteca ou em casa (todos lendo, sem cobrança de atividades relacionadas, mas com espaço para comentar as leituras feitas);

» Ciranda de livros com títulos propostos pelos professores;

» Ciranda de livros com livros trazidos pelos alunos;

» Leitura de livros feita pelo professor ou pelo colega;

*Leitura de livros por capítulos;

*Projetos literários com atividades diferenciadas dentro da temática do livro lido;

*Rodas de conversa sobre um livro lido por todos os alunos;

*Leitura de reportagens interessantes;

*Leitura de textos científicos (relacionados aos projetos ou conforme os interesses dos alunos);

*Oficina de poesia;

*Oficina de escrita e reescrita de textos;

*Leitura na biblioteca da escola;

*Contação de histórias;

*Reconto de histórias;

*Escolha de livro para empréstimo;

*Comentários (propagandas) sobre livros lidos, que estimulem o desejo de ler;

*Fazer um resumo do livro lido;

*Ler para a criança, quando possível, causar suspense, dramatizar, aguçar a curiosidade;

*Ler com a criança fazendo um rodízio (o adulto lê uma página e a criança outra);

*Ler sobre temas estudados;

*Ler notícias de jornais, enfatizando a parte cultural;

*Ouvir a leitura feita por outros leitores;

*Freqüentar bibliotecas, museus e galerias de arte;

*Freqüentar cinemas, teatros, eventos culturais e ler nos jornais notícias e críticas relacionadas;

*Freqüentar livrarias para conferir lançamentos, ler e comprar livros;

*Contar para os alunos/filhos experiências pessoais com a leitura vividas na infância e na adolescência;

*Deixar livros à disposição das crianças (mini-biblioteca);

*Assinar e/ou comprar jornais e revistas adequadas à faixa etária dos filhos;

*Mostrar que a leitura faz parte do seu dia-a-dia.
Concordamos com Jean Hébrard, quando ele afirma que: “... a capacidade de ler ultrapassa consideravelmente a capacidade de decifrar”.

Sendo assim, não é apenas o aprendizado do sistema de representação da língua materna que está em jogo, mas, principalmente, o uso social que os nossos alunos venham a fazer da leitura como ferramenta para conhecer, para se informar, para compartilhar, para apreciar, para se emocionar, para se encantar, para se divertir... enfim, para saber mais.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Literatura para iniciantes

Muitos especialistas dizem que a infância e a juventude são os melhores períodos da vida para o indivíduo adquirir a prática da leitura – considerada inerente ao desenvolvimento do ser humano por diversificar e ampliar a sua visão de mundo. A questão, diante desse desafio, é saber indicar o que o jovem deve ler para ingressar na literatura: a intimidade com as palavras deve ocorrer pela leitura das obras clássicas ou dos autores contemporâneos? O professor do Departamento de Teoria Literária da Unicamp, Paulo Franchetti, e o filósofo e pedagogo, Nivaldo de Carvalho, analisam o tema.

A construção do leitor
por Paulo Franchettii

Antes de refletir sobre qual o melhor caminho para ensinar literatura, penso que o melhor seja tentar responder à pergunta “por que ensinar literatura?”. E, antes de formular essa pergunta, talvez seja útil pensar em que consiste o processo da leitura.

Quando lemos um romance, por exemplo, nós nos colocamos na posição das personagens, repudiamos ou aprovamos o seu comportamento, nos identificamos ou nos indignamos com suas opções morais e movimentos espirituais. Como no cinema, experimentamos emoções que não nos pertencem originalmente, mas que sentimos até com mais intensidade do que as nossas próprias. Estamos ali mais livres. Olhamos para os dramas, os ridículos, o desespero ou a alegria do triunfo sem um interesse particular.

Usei, para destacar o ponto, uma analogia entre um romance e um filme. Mas há grandes diferenças entre eles, como há entre um poema e uma canção com letra e entre uma peça teatral escrita e suas encenações. Uma das mais evidentes é que o cinema é uma arte combinada: o efeito geral é produzido pela combinação de imagem, palavra, música, ruídos, efeitos visuais. Um romance ou um poema pode e deve produzir emoção, riso e outras respostas afetivas, mas apenas por meio da palavra.

Por depender só da palavra, a literatura tem uma força que as artes combinadas não possuem. Ela abre enorme espaço à projeção do leitor. De fato, tudo depende da sua imaginação: a forma de um rosto, por mais pormenorizadamente descrita, é uma para cada leitor. Assim também o tom da voz de uma personagem, uma paisagem, um ruído de guerra, o som de um grito ou de um encontro amoroso. E a importância disso se comprova quando vemos um filme sobre um livro que nos apaixonara. A concretização do rosto, do traço, a associação com uma voz real é perturbante. Mais ainda a presença de tudo aquilo que não aparece ou se apaga durante a leitura.
Por exemplo, quando lemos a descrição dos olhos de Capitu, não pensamos que ela tem mãos. Nem pés. Não imaginamos que vestido estaria usando, nem somos obrigados a lidar com particularidades como brincos, penteado, maquiagem etc. Não há nada senão as imagens que se juntam para dar ideia daqueles olhos. Mas, quando se filma ou se desenha Capitu com traço realista, todas as coisas não nomeadas no texto do Machado [de Assis] (partes do rosto, do corpo, do ambiente) vêm junto com os olhos, empanam o seu brilho, enfraquecem a sua força, de forma que uma representação pictórica dos olhos de Capitu nunca terá, sobre um leitor de Dom Casmurro, impacto semelhante ao dos trechos do romance em que eles são tratados.

Concentremo-nos agora no processo da leitura – na leitura de um romance, por exemplo. O que sucede ali? O leitor por acaso o decifra palavra por palavra? Não, por certo. Ele voa sobre elas, busca ao mesmo tempo o sentido do conjunto e o tom do trecho e do livro. Ele precisa entender se uma passagem é dita em tom irônico. Precisa perceber os sentidos que se formam além dela, pela alusão a eventos históricos, a outros textos, a costumes. E precisa fazer muitas outras operações complexas de interpretação, com base apenas no texto escrito, nas palavras que se sucedem nas páginas. Além de apreciar o ritmo das frases e a justeza ou o inusitado das imagens. Esse leque de capacidades não é trivial. Não é fácil dominar o conjunto complexo de habilidades que permite ao leitor ter pleno acesso ao prazer e à emoção que um bom livro lhe pode dar.

A mais rica fruição da literatura pressupõe ainda um exercício amplo da cultura, naquilo que ela tem de relação com o passado, como continuidade ou ruptura. É o passado que dá sentido ao presente da literatura. Uma obra solta no tempo não tem significação literária, no sentido que damos a essa palavra hoje. Um texto literário faz contínuas referências a outros textos que o precederam, e há alguns em que, sem o conhecimento do texto aludido ou incorporado, o sentido se perde ou, pelo menos, não se apresenta em totalidade.

A literatura é, assim, uma forma de ligação com o passado, uma forma de revivificá-lo. De aprender com ele, mas também uma forma de nos apropriarmos dele. A literatura fala pelo passado e faz o passado falar pelo presente. Ensinar literatura, portanto, em sentido amplo, é criar as condições para que o estudante, o leitor em formação, possa tornar-se ele também um herdeiro desse manancial.

Tornar-se herdeiro significa não só poder compreender, mas poder vivenciar em si mesmo o passado. Isso inclui poder deslocar a sua perspectiva temporal sobre vários assuntos, de modo a compreender que quase nada de “natural” existe no comportamento e nas instituições humanas, que quase tudo é cultural, ou seja, muda ou pode ser mudado. A literatura expõe a historicidade das formas de sensibilidade, convocando o que permanece ainda vivo em nós e o que já não permanece; o que nos rege desde o mundo dos mortos porque ainda é vivo e o que nos rege desde lá sem nenhuma razão para isso.

É certo que uma pessoa pode adquirir os instrumentos necessários para ler literariamente por meio da convivência solitária com os livros, no caso de dispor de acesso a uma biblioteca. Mas como ler literariamente é uma atividade que exige treinamento, referências culturais e repertórios específicos, faz sentido imaginar que a escola forneça meios para o estudante situar-se desde logo no campo literário.

Podemos tentar responder agora à pergunta metodológica que se apresenta, às vezes, com urgência e que foi o gatilho deste texto: deve-se começar o ensino da literatura pelos clássicos ou pelos contemporâneos?

Há quem julgue que pelos contemporâneos, tendo por princípio que se deve começar do mais fácil para o mais difícil. Do que tem mais apelo imediato para o que tem menos. Os que assim pensam acreditam que o essencial é despertar o gosto pela leitura. Entre esses, muitos creem que qualquer forma de leitura é melhor do que nenhuma e por isso não hesitam em usar os best-sellers, o livro ainda fresco da gráfica ou mesmo a adaptação cinematográfica, como degrau para a literatura.
Já os que pensam que se deva começar pelos clássicos têm, como argumento, que à escola compete fornecer a maior quantidade de experiências culturais, bem como quadros amplos de referência. Para esses, o gosto pela e na leitura deve ser construído, não apenas despertado. Esta é a posição com que simpatizo mais.

Para a maior parte das pessoas, as demandas do presente podem incentivar a leitura de best-sellers, livros de autoajuda ou romances-reportagem. Raramente, ainda mais num ambiente culturalmente pobre, um jovem será exposto à literatura de qualidade que nos é legada do passado recente, quanto mais do passado remoto.

No que toca à literatura, assim, creio que o mais interessante que a escola tem a oferecer é uma experiência da tradição viva, na qual os pontos altos de realização possam ser percebidos como tal; é a formação de um repertório de leituras que permita que o estudante, depois, pela vida afora, possa traçar o seu próprio caminho pelo campo da cultura literária, tornando a literatura, para ele, uma experiência plena e uma fonte de prazer intelectual.

Do meu ponto de vista, a questão não é atrair os jovens para a literatura, mas permitir-lhes o acesso à leitura mais refinada, que só a experiência e o repertório podem propiciar. Um jovem leitor não precisa da escola para ler um best-seller. O marketing das grandes editoras o induz a isso. Nem provavelmente para ler um romance contemporâneo sobre tema momentoso. Mas, sem a orientação e o estímulo de um leitor mais experiente, é pouco provável que esse mesmo jovem tenha acesso à beleza dos poemas homéricos, à complexidade da Divina Comédia, das tragédias gregas ou do Quixote ou de tantas outras obras que forneceram, ao longo dos séculos, padrões de gosto e matéria sempre renovada para novas obras literárias – ou mesmo a textos contemporâneos de maior complexidade ou menos investimento de publicidade.

É claro que, para isso, a escola precisa de livros e, sobretudo, de professores bem formados e que tenham vivência literária ampla e íntima. Sem isso – e, na época da explosão do acesso a textos literários pela internet, sem, sobretudo, professores educados e competentes – não há muito que fazer com a literatura na escola. Mas essa é já outra discussão.

Paulo Franchetti é professor titular do Departamento de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP).

“Ensinar literatura (...), em sentido amplo, é criar as condições para que o estudante, o leitor em formação, possa tornar-se ele também um herdeiro desse manancial”


Os jovens e a literatura
por Nivaldo de Carvalho

Atrair o interesse dos jovens para a literatura parece cada vez mais difícil numa época dominada pelas novas tecnologias da informação e da comunicação. Os jovens não parecem dispostos a trocar jogos, músicas e vídeos em celulares e computadores por um livro. Por outro lado, o lançamento de vários best-sellers, com tradução simultânea em várias línguas, hipnotiza uma legião de jovens leitores em todo o mundo. A contradição entre as duas situações se desfaz, ao se desatar o nó que amarra à força o gosto pela leitura ao prazer pela literatura.

Não há interesse pela literatura que subsista sem o incentivo à leitura, mas nem toda leitura é necessariamente literária. Há jovens que estão acostumados a ler jornais, revistas e livros, mas não apreciam literatura. Assim como saber ler e gostar de ler nem sempre coincidem, o contato com a literatura não garante a formação do gosto pelos textos literários, ainda mais quando isso ocorre sob a forma de imposições curriculares na escola.

Os jovens, depois de oito anos de leituras variadas na escola, são apresentados formalmente à literatura apenas no início do ensino médio. Esse contato tardio ocorre sob a forma de um estudo sistematizado baseado na história da literatura. Nessa perspectiva, os textos literários figuram apenas como ilustração de uma determinada estética literária situada no tempo. Excertos das obras constam do livro didático e quase sempre dispensam o contato direto com textos integrais e originais dos autores, exceção feita às leituras obrigatórias dos exames vestibulares. Além disso, os exercícios escolares propostos limitam-se à verificação da leitura realizada sem estimular a reflexão sobre os temas abordados pelo autor.
Muitos jovens terão na escola a única oportunidade de entrar em contato com textos de literatura. Mas essa oportunidade única nem sempre é encarada como uma possibilidade de discussão de valores, de questionamento moral e político e de estímulo à reflexão estética. A opção por um ensino reflexivo exige a leitura direta dos textos, além da seleção de obras e de autores que possam contribuir para a formação do gosto literário dos jovens e para sua avaliação dos produtos culturais consumidos na atualidade.

Um critério bastante utilizado para a seleção dos livros indicados para leitura leva em consideração o gosto dos jovens. A preferência recai quase sempre sobre os últimos lançamentos do mercado editorial, sem uma avaliação mais cuidadosa da qualidade literária dos livros. O perigo desse tipo de escolha não está somente na adequação e submissão ao conformismo e à trivialidade, mas em imobilizar o gosto dos jovens e tratá-los somente como consumidores de banalidades históricas e culturais.
Além desse critério, há a disputa entre autores clássicos e escritores contemporâneos como forma de acesso ao universo literário. Contra os clássicos, invoca-se a ideia de que os jovens têm muita dificuldade para ler textos complexos, considerados chatos e com um vocabulário difícil. Assim, ao invés de prazerosa, a leitura literária torna-se uma penitência interminável. A favor dos contemporâneos, pesam a proximidade da linguagem e atualidade do conteúdo, o que torna a leitura mais agradável e rápida.

Nem todas as obras clássicas são enfadonhas e desestimulantes. Insistir nessa via adia interminavelmente o contato dos jovens com a literatura clássica, privando-os de uma experiência estética insubstituível. Por outro lado, muitos autores contemporâneos são muito difíceis de serem lidos, principalmente os que fazem experimentações com a linguagem. Por isso, a seleção bibliográfica deve equilibrar prazer e desafio, levando em consideração principalmente a qualidade literária das obras e não apenas o seu conteúdo.

A qualidade literária de uma obra não se mede pela época em que foi escrita, mas por critérios estéticos. O texto literário é muito mais do que uma simples história contada por um autor. Há, no discurso literário, além do conteúdo representado pela ação e pelos personagens, a forma ou expressão, os recursos de que dispõe o autor para expor ideias morais, políticas e estéticas, num diálogo crítico com a sua época e com a tradição, visando ao futuro. A literatura ocupa-se não somente do conteúdo, mas principalmente da forma ou expressão.

O discurso literário recria os conteúdos da realidade, conferindo-lhes uma expressão não percebida antes. Portanto, não se trata de realidade reproduzida, mas recriada. O prazer proporcionado pela literatura ultrapassa o nível do entretenimento ou da diversão, pois é um processo de fruição que consiste em perceber a recriação do mundo por meio de vários recursos estilísticos. Assim, a realidade é transfigurada na literatura através da linguagem. A própria linguagem deixa de ser automática no processo de criação literária e ganha contornos inusitados.

Portanto, o gosto pela literatura não é somente gosto pela leitura, envolve também curiosidade e descoberta. Talvez seja essa a pista a ser explorada com os jovens na leitura dos textos literários. Se a juventude é a época de constituição da futura identidade, um período de turbulência e de conflitos para os jovens, a literatura pode atrair a atenção dos jovens, na medida em que apresenta perspectivas, questionamentos e modos de vida diferenciados.

Mas a escolha das obras literárias deve levar em conta a contribuição delas para a formação do gosto do jovem leitor, não somente em termos morais e políticos, mas principalmente estéticos. A leitura do texto literário deve propiciar aos jovens condições de apropriação gradativa da linguagem literária, tornando-os aptos à leitura de textos cada vez mais complexos e intrincados.

Aprende-se a gostar de literatura não somente na escola, mas também fora dela, nos próprios livros e textos, seja por indicação de amigos, seja pela leitura de uma resenha crítica ou ensaio em jornais e revistas. Embora a época atual não pareça coadunar-se com as exigências da literatura, é preciso marcar essa diferença como forma de lançar um olhar crítico para a realidade do mundo atual e das formas de produção cultural contemporânea. A leitura literária contribui também para que se desconfie de gostos moldados por índices de audiência, listas dos mais vendidos e sucessos de bilheteria.

Nivaldo de Carvalho, assessor de comunicação da Escola Vera Cruz, é graduado em Filosofia e Letras pela Universidade de São Paulo (USP)

“(...) o gosto pela literatura não é somente gosto pela leitura, envolve também curiosidade e descoberta. Talvez seja essa a pista a ser explorada com os jovens na leitura dos textos literários”

sábado, 20 de março de 2010

Sobre leitores e livros


por Plínio Martins
Nascido em 1951 na cidade de Pium, no estado de Tocantins, o professor do curso de editoração da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP) Plínio Martins construiu seu currículo com muito mais prática do que teoria. Iniciou o envolvimento com os livros aos 20 anos quando, recém-chegado a São Paulo, arrumou um emprego no depósito da Editora Perspectiva. “Ou seja, aprendi a mexer com livro desde o empacotamento e empilhamento”, contou ao Conselho Editorial da Revista E. Logo passou para o departamento de revisão e em seguida foi para a composição de linotipo – máquina que funde as linhas de caracteres tipográficos, utilizada para montar os livros antes do computador. Desde então, nunca mais largou o ramo. Em 1987, foi convidado a lecionar na USP e, dois anos depois, chamado para reestruturar a editora da universidade, a Edusp. “Tive uma oportunidade rara de criar, conceber uma editora, seu projeto gráfico, a seleção de obras, começar do zero com todas as condições que qualquer editor gostaria de ter”, revelou. Na ocasião do encontro, o convidado, cuja família é proprietária da Ateliê Editorial, falou também sobre como se desperta o hábito da leitura nos jovens, comentou a relação entre o livro e a internet e contou um pouco mais sobre os bastidores da criação da Edusp.

Criação da Edusp

Depois de 18 anos na Perspectiva fui convidado a iniciar um projeto editorial: transformar a Editora da Universidade de São Paulo [Edusp] em uma editora de fato. Digo editora de fato porque até então ela não produzia livros, apenas financiava. Era uma co-editora, e com uma situação muito peculiar: apesar de ser a Editora da Universidade de São Paulo, não publicava a produção de seus professores. O desafio era montar o departamento editorial. Fui convidado pelo professor João Alexandre Barbosa [professor de teoria literária e literatura comparada da USP falecido em 2006], que foi a pessoa que bancou essa mudança. Sim, porque imaginem uma editora com 26 anos de existência e financiando as publicações de uma porção de editores. Havia editoras com mais de 300 títulos financiados por esse sistema. Foi uma coisa muito difícil de quebrar. Pois bem, fui para a Edusp para montar o departamento editorial. Tive uma oportunidade rara de conceber uma editora, seu projeto gráfico, ajudar na seleção de suas obras, começar do zero com todas as condições que qualquer editor gostaria de ter, só que financiado – no caso, pela universidade. Foi um privilégio participar desse projeto. Acho que aplicamos bem os recursos. Hoje, 20 anos depois, nós comemoramos, no dia 25 de março, na Fiesp [Federação das Indústrias do Estado de São Paulo], o milésimo título lançado nesta nova fase.

Minha vida profissional é toda ligada ao livro, à feitura do livro. Refiro-me ao livro não só como conteúdo, mas também como forma, como produto. E mais: fazendo livros sem se preocupar com o mercado, o que é um privilégio que só uma editora pública tem. Nossa preocupação é fornecer conteúdo com qualidade para as pessoas.

Eu tentei aplicar na Edusp o conhecimento e a experiência adquiridos na Perspectiva. Coleções como a Debates e a Estudos [ambas Perspectiva/Edusp] me davam vontade de criar belos projetos gráficos para elas, valorizar as imagens. E a Edusp me liberou para fazer tudo isso.

O livro e a internet

Há a preocupação se a internet vai substituir o livro, se ele vai desaparecer etc. Acontece que o livro tem várias formas, inclusive a que está na internet. O problema não é se o livro, o objeto, vai desaparecer ou não, a questão é se a leitura vai desaparecer ou não. A grande transformação na comunicação nos últimos 500 anos foi a internet. E de vez em quando grandes empresas de informática lançam um novo produto que vai revolucionar e substituir o livro... Tudo parece uma campanha para vender aquele objeto, mas não resolve o problema da leitura. O que interessa na realidade não é tanto a forma do livro, mas se esse livro vai ser lido ou não. O índice de leitura de livros pode talvez diminuir, mas as pessoas hoje não vivem mais sem ler. Você lê no computador o dia todo, e isso é o que realmente interessa. É claro que nós que gostamos do objeto livro, que o cheiramos, o sentimos tatilmente, sabemos o quanto isso é importante. Fabulamos muito mais quando estamos lendo num livro do que lendo numa tela. Ninguém tem grandes sonhos em frente a uma tela de computador. Disseram até que a produção de papel ia diminuir [por causa do surgimento da internet], mas ela triplicou. Todo mundo imprime o que está na tela para ler. Não acho que a internet vai acabar com o livro. Ele pode mudar de forma, pode estar no CD, no DVD, mas o que interessa é que seja lido. Quanto à forma, é uma questão de adaptação. Eu acredito que essa geração que está se alfabetizando no computador vai ler muito mais na tela com uma tranqüilidade com a qual eu jamais conseguiria. Quanto ao aproveitamento dessa leitura ainda não sabemos muito, os textos serão bem menos extensos, pois não há quem suporte ler grandes textos numa tela de computador. Talvez um dia inventem uma tela que não ofereça limitações à leitura.

Formação de leitores

Sabe-se que aqueles que nasceram e vivem em meio aos livros – pais que têm hábito de leituras, autores, professores, editores – ou que tiveram um bom professor de literatura passam a ler por prazer, desenvolvem afeição pelo ato da leitura. É aquela história: se eu tiver um professor de física ruim provavelmente vou odiar física. Eu, por exemplo, não me lembro de um professor bom, sinceramente. Nunca estudei em bons colégios. Nada me fascinou até começar a trabalhar com o livro e entrar na faculdade. Trata-se de uma reação em cadeia: uma pessoa que lê bem forma outra. Ela pode fazer indicações, pode ler para essas pessoas para despertar-lhes o interesse pela leitura. O professor Ivan Teixeira, por exemplo, é capaz de convencer um adolescente a gostar até de Basílio da Gama [1740-1795, poeta luso-brasileiro] – autor que, se for lido sozinho e na hora errada, vai odiar. Mas ele [Teixeira] lê bem, entende e fala de um jeito que você começa a gostar de poesia por mais antiga que ela seja. Eu o vi lendo Os Lusíadas para um grupo de crianças de 13, 14 anos. Ele conseguiu envolvê-las na leitura. Ele dizia: “Vamos ler”. Aí os garotos liam e ele: “Não é assim que lê”. Aí ele dava a entonação certa etc., foi um show. Professor de literatura deve ser assim, tem que incentivar e ensinar os alunos a ler.

Agora, concordo que para isso é bom iniciar com aquilo que as pessoas estão vivendo [com livros contemporâneos e de temática mais adequada] e depois ir se aprimorando. Imaginem uma criança de hoje lendo Machado de Assis! O autor é excelente, mas elas não têm bagagem para isso. Daí fica aquela coisa de tentar decorar a história, as personagens etc. Ninguém fala da história, ninguém reconta a história, ficam só nas estruturas. Uma das coisas que eu acho que mais fizeram mal para a literatura foi o estruturalismo. Às vezes você lê um texto desse pessoal [dos teóricos e estudiosos] e fala: “Acho que eu sou burro, não estou entendendo nada, o que essa pessoa viu aqui?”. Isso porque eles começaram a desestruturar o texto e fazer tanta teoria que as pessoas se sentem inibidas.

“O problema não é se o livro, o objeto, vai desaparecer ou não, a questão é se a leitura vai desaparecer ou não”

O professor e editor Plínio Martins esteve presente na reunião de pauta do Conselho Editorial da Revista E em 17 de abril de 2008

Fonte: Revista E SESCSP

Em busca do jovem leitor

Na era da internet, o adolescente intensifica o contato com os textos e faz cair por terra o mito de que não tem interesse pela literatura.

A cada lançamento da saga do bruxo adolescente Harry Potter, criado pela escritora britânica J. K. Rowling, as livrarias de toda a metade ocidental do mundo se viam invadidas por um contingente extra de clientes entre os 12 e 18 anos. Isso sem contar os ansiosos que realizavam uma verdadeira caça na internet em busca de trechos, versões, comentários ou qualquer outro texto sobre o assunto que pudessem ser consumidos avidamente antes da chegada dos livros às prateleiras. A despeito da qualidade literária desse material, o sucesso desse tipo de leitura – não somente a do bruxinho, mas também de outras sagas, como O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, As Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis, e Caçadores do Crepúsculo: Vampiros em Guerra, de Darren Shan, entre outros – tem chamado a atenção de estudiosos da área da literatura e educação.


O que essa aceitação fenomenal revela? A engenhosidade marketeira dos autores e editoras ou um adolescente que mantém o hábito de ter um livro na cabeceira? “Eu não tenho dúvidas de que o jovem de hoje lê mais”, afirma a doutora em teoria e história literária Célia Regina Delácio Fernandes, especializada em literatura infantojuvenil. “Hoje a gente vive no mundo da escrita, e o que a sociedade atual demanda? Leitura. O mundo do jovem é todo rodeado de escrita. Se a gente for pensar que nos chats [salas de bate-papo], Orkut [rede de relacionamento], blogs [espécie de diário online que permite rápida atualização], e-mails, MSN [sistema de troca de mensagens online pela internet] e tudo mais, a gente vê que isso faz parte do mundo dele.”

A professora de literatura infantil e juvenil da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da Universidade de São Paulo (USP), Maria Zilda da Cunha acredita que todos esses recursos trazidos pela internet criaram um leitor jovem de múltiplos suportes. “O jovem de hoje lê formas diferentes, porque ele tem à disposição uma multiplicidade de linguagens”, explica. “Logo, nesses termos, ele lê mais. O que ocorre é que com essa disponibilidade de linguagens que ele tem à sua volta, e essa necessidade de ler tanta coisa, o tempo dele para a literatura impressa é menor, porque o tempo dele fica mais dividido.”

Célia Regina, também diretora da Faculdade de Comunicação, Artes e Letras da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), no Mato Grosso do Sul, defende a tese de que, seja no papel, seja na tela do computador, a questão a ser estudada não é a falta de interesse do jovem pela leitura, mas, sim, o que esse jovem tem lido.

“O que acontece é que o jovem não está lendo, muitas vezes, o que a escola gostaria que ele lesse, o que nós, especialistas, gostaríamos que ele lesse”, afirma. “Mas o que ocorre é que o jovem, como qualquer outra pessoa, vai ler à medida que aquela leitura tenha algum significado na vida dele, é preciso que tenha alguma finalidade.”
Qual literatura?


Com esse comentário, Célia Regina, autora do livro Leitura, Literatura Infanto-Juvenil e Educação (Eduel, 2007), expõe um antigo impasse na vida de alunos e professores: a leitura obrigatória, na sala de aula ou mesmo na preparação para o vestibular. “Geralmente nas séries iniciais, a escola consegue trabalhar melhor essa questão da leitura”, explica. “Porém, nessa passagem da adolescência, as coisas começam a se perder, porque é quando o professor quer trabalhar um tipo de leitura com que o adolescente não vê tanta proximidade, ele acaba lendo resumo ou pegando coisas na internet para dar conta das tarefas escolares.” Segundo a especialista, o perigo do fosso entre o que está na lista imposta aos alunos e o que está no seu foco de interesse nas livrarias e bibliotecas é o do distanciamento entre a escola e o jovem no âmbito da leitura. “Se o professor chega e fala que o que o jovem está lendo não presta, não é literatura, esse jovem vai pensar: ‘Poxa vida, o professor está dizendo que o que eu leio não serve, que só o que ele quer que eu leia é que serve, como é isso? Então fique aí com o seu Machado de Assis, com a sua literatura, que eu vou ficar aqui com os meus livros’.” Segundo as especialistas, é clara a barreira entre os alunos e os chamados clássicos da literatura nacional – obras de autores como Lima Barreto, José de Alencar e o próprio Machado, entre outros. “Uma opinião muito sincera minha é que, se não houvesse o vestibular, esses jovens não leriam esses livros”, afirma a professora Maria Zilda. “Eles têm um pouco de dificuldade, inclusive, de acesso à linguagem. Eles não buscam [esse tipo de leitura] com boa vontade.” A pesquisadora Célia Regina afirma que, em geral, falta maturidade para o jovem leitor brasileiro poder penetrar no universo dessas narrativas. “Entendimento pressupõe esforço”, diz. “Essas obras são mais complexas, de linguagem mais difícil, e essa complexidade é que mantém uma obra clássica perene. O texto pode até estar datado, mas as reações que isso pode provocar vão se renovar a cada leitura.” Por outro lado, segundo apontam as especialistas, a escola tem um papel fundamental de mediadora para que os jovens “façam as pazes” com os cânones da literatura nacional. “Para você ter esse prazer do texto, para ele provocar essa reação ligada à experiência, o jovem tem de ser apresentado para o clássico de uma maneira agradável, não como a escola tem feito”, analisa Célia Regina. “O professor só vai conseguir formar leitores se ele for um leitor. Ele tem que ter repertório, tem que seduzir os alunos para a leitura, ler muito em sala com eles. Mas você ainda tem um professor que coloca o aluno para ler e sai para conversar com o colega.”

Adaptações

Uma das saídas encontradas tanto pelos jovens quanto pelos professores e pelas editoras têm sido as adaptações desses livros. Na maioria dos casos, o recurso utilizado é a linguagem dinâmica das histórias em quadrinhos. O que, segundo apontam as pesquisadoras, tem seus prós e contras. “Essa questão da adaptação é bastante séria porque, quando você faz a tradução de uma mídia para outra, muda-se o código, o suporte, a linguagem, e a questão da fidelidade [com o texto original] não é a melhor”, analisa Maria Zilda. “Hoje temos muitas adaptações, que são tentativas de aproximação do jovem com os clássicos”, complementa Célia Regina.

“Do Machado de Assis, por exemplo, existe aquela série Reencontro, da [editora] Scipione, que adaptou Memórias Póstumas de Brás Cubas, mas, se você pega esse tipo de adaptação, vê que a mudança é muito radical, que não é mais Machado, é uma outra obra. Não sei em que medida esse tipo de adaptação faz com que o leitor vá depois ler o Machado.” No entanto, isso não significa que os quadrinhos sejam uma forma de leitura que deva ser desprezada. “Tenho verificado que alguns quadrinhos mostram adaptações extremamente engenhosas, que conseguem trazer aquilo que a gente chama de essência de literariedade”, afirma Maria Zilda.

Célia Regina conta que “quando os quadrinhos chegaram ao Brasil foram muito criticados”, mas que hoje se sente uma mudança de visão. “Havia um discurso, nos anos de 1950, segundo o qual não se devia deixar o aluno ler quadrinhos porque isso o afastaria da leitura, por ser uma linguagem muito facilitada etc.”, continua.

“Hoje, agora em 2009, o Ministério da Cultura (MEC) incluiu as histórias em quadrinhos na compra governamental. O governo comprando quadrinhos para distribuir para as escolas é algo inédito.”

O apelo da imagem


De acordo com o professor Elydio dos Santos Neto, do mestrado em educação da Universidade Metodista de São Paulo e que estuda o potencial das histórias em quadrinhos para a formação de educadores, de fato, durante muito tempo houve um grande preconceito por parte da academia com relação às HQs. “Elas eram vistas como um artefato cultural ‘menor’, de ‘segunda categoria’”, informa. “Mas, nas últimas décadas, [os quadrinhos] estão conquistando espaços privilegiados não apenas nas universidades, mas também nas livrarias, ampliando, inclusive, os gêneros nos quais são elaboradas.” Sobre o “potencial literário” do gênero, o professor prefere esclarecer que se trata de linguagens diferentes, cada uma com seus recursos próprios. “Os textos literários descrevem, em diversos estilos, cenas que são mentalmente recriadas pelos leitores”, explica. “Os quadrinhos apresentam, na combinação de imagem e texto, situações em que o ‘mergulho’ e a ‘viagem’ são acelerados pela provocação imagética já fornecida, mas que serão também recriadas e ressignificadas pela subjetividade do leitor.” De qualquer forma, a combinação “adolescentes e HQ”, segundo o especialista, pode tranquilamente ser vista com bons olhos. “As histórias em quadrinhos têm também potencial para a formação de leitores. Mas, mais do que isso, elas favorecem o desenvolvimento de uma maneira diferente de olhar e pensar a realidade.”

Bruxos, anéis e vampiros

Assim como as histórias em quadrinhos, outra febre entre os leitores adolescentes são os best-sellers estrangeiros, séries como O Senhor dos Anéis e o fenômeno Harry Potter. Ainda que alguns torçam o nariz para esse tipo leitura, questionando sua qualidade literária, há estudiosos que acham mais produtivo aceitar o fato de que essa tem sido a escolha de muitos jovens e que é possível, sim, usar isso a favor da educação. “Não vejo problema nesse tipo de leitura”, afirma a professora Célia Regina. “Ela tem a ver com a construção de um hábito de leitura nos jovens. Acho que a escola não pode ignorar isso, enquanto ela o fizer irá continuar com esse fosso entre ela e o jovem. E acho que esse tipo de leitura tem de ser não só respeitada como trazida para sala de aula, para a discussão. Vamos ver o que tem ali que está interessando tanto os nossos alunos.” Segundo a pesquisadora, esses livros atraem pelo universo fantástico que apresentam aos jovens. “Acho que, de certa maneira, esses livros trazem de volta a questão do encantamento, do sobrenatural, dos contos de fadas mesmo”, explica. “Se a gente for olhar para esses personagens, a gente vê que o Harry Potter, por exemplo, é um bruxo órfão de pai e mãe. Isso já cria uma empatia do leitor com relação a ele. E o tem o fato de ele ser bruxo; no caso do Crepúsculo é a saga do vampiro; enfim, a gente vê que, no fundo, existe uma retomada, um resgate do mundo mágico.” Para a professora Maria Zilda, o jovem de hoje vê nesses livros um universo de perspectivas, dado os desafios que são impostos aos personagens, que ele não consegue enxergar na sua realidade. “O jovem hoje tem poucos desafios”, coloca. “Quando se fala de proibições, eles não têm obstáculos a enfrentar. E, com isso, eles não desenvolvem aquele espírito do herói, que precisa passar por provas e realizar conquistas.” Na análise da pesquisadora, é justamente esse herói realizador que o jovem encontra nessas histórias. “O Harry Potter é um herói. Ele é um órfão que passa por mil peripécias.”

Outro ponto que se pode observar no fenômeno de aceitação desses livros é a quebra da noção de que o jovem da era da internet não teria paciência para a leitura mais atenta de narrações extensas. Afinal, os fãs do bruxinho Harry Potter têm de colocar debaixo do braço volumes que passam das 500 páginas, como é o caso do sétimo e último livro da série, Harry Potter e as Relíquias da Morte (Rocco, 2007). “Se interessar, os jovens viram noites e dão conta disso [do tamanho dos livros] rapidamente”, constata Célia Regina. “E realmente são livros bastante extensos.”

Palavras e imagens

Bibliotecas, gibitecas e exposições das unidades do Sesc São Paulo mostram ?como a leitura, em suas mais diversas formas, continua em pauta entre os jovens.

Mesmo tendo sido vistas com desconfiança no passado, as histórias em quadrinhos têm, cada vez mais, ganhado o respeito dos estudiosos de literatura e educação. E uma vez que as HQs sempre tiveram lugar cativo na cabeceira dos jovens, nunca foi tão saudável dividir um pouco o tempo e a leitura entre os livros e essas narrativas cheias de ação e imagens. “O mundo caótico em que vivemos é fruto de decisões reducionistas que temos tomado. E as histórias em quadrinhos trazem a contribuição de favorecer a atuação da sensibilidade”, explica o professor Elydio dos Santos Neto, do mestrado em educação da Universidade Metodista de São Paulo e que estuda o potencial das histórias em quadrinhos para a formação de educadores. “Isso provoca o desenvolvimento de outra maneira de ler o mundo e, conseqüentemente, de tomar decisões. Essa outra maneira tende a ser global e sensível e, contemporaneamente, somos carentes disso.” O professor esclarece, no entanto, que as HQs não dão conta dessa mudança sozinhas. Afinal, há quadrinhos e quadrinhos. “É preciso ser crítico e criterioso também na escolha de histórias em quadrinhos, como se deve ser com a escolha de qualquer artefato cultural produzido pela complexidade humana.”


Algumas unidades do Sesc São Paulo oferecem a oportunidade de tomar contato com o que há de mais rico na produção de histórias em quadrinhos. Seja no espaço da biblioteca – existente em todas as unidades – seja em projetos especiais, os “gibis” estão lá para ajudar a despertar o gosto pela leitura. No Sesc Vila Mariana, por exemplo, existe, desde 2005, o projeto Quadrinhando, que, a cada dois meses, ocupa o átrio da unidade. Lá os aficionados encontram revistas, livros especializados, participam de oficinas e trocam idéias sobre o universo desse gênero. A grade de atividades a cada edição acontece sob um tema. Já a unidade Piracicaba possui a maior gibiteca da rede Sesc. São 270 títulos, que, segundo explica o técnico Chico Galvão, buscam contar um pouco a história da HQ no Brasil e no mundo. “Privilegiamos as edições especiais”, diz Galvão. “Álbuns e edições com capa dura, que possibilitam o empréstimo ao comerciário e usuário da sala.” Aos cerca de 40 visitantes diários que a gibiteca recebe, são oferecidas também oficinas integradas com a Internet Livre, aproveitando o grande número de jovens que frequenta a sala de computadores. “A predominância é de jovens”, informa o técnico. “Mas temos também boa frequência de adultos. A faixa etária gira em torno de 7 a 16 entre os mais novos, mas temos também adultos de até 50 anos retirando gibis.”

No campo da literatura e internet, o Sesc Pinheiros apresenta, até 28 deste mês, a exposição interativa Blooks – Tribos e Letras. O nome vem da junção das palavras book (livro) e blog, união que, segundo a curadora da mostra, Heloísa Buarque de Holanda, professora titular de teoria crítica da cultura da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), representa a última palavra em produção literária: a internet como hospedeira de novas possibilidades de linguagem e suporte. “Quando eu fiz essa exposição [em 2007] eu contratei a Bruna Beber e o Omar Salomão, juvenilíssimos, blogueiros etc., para fazer a seleção dos trabalhos e depois me mostrar”, diz a professora. “Era tudo muito literário. Era fascinante porque aquilo provou que não é verdade que aquela linguagem [tradicional, do livro impresso] tenha perdido a densidade.”
 
O livro e a cidade



Coleção Ópera Urbana, voltada para o público infanto-juvenil, ?traz São Paulo como cenário e personagem das narrativas.
Resultado de uma parceira entre a Edições Sesc SP e a Editora Cosac Naify, a coleção Ópera Urbana reúne escritores e ilustradores para criar uma série de quatro volumes voltada para o público adolescente. “A coleção é composta de ficções inspiradas em espaços urbanos e cada uma delas é acompanhada por um libreto com curiosidades e informações paradidáticas”, esclarece Clívia Ramiro, coordenadora das Edições Sesc SP, vinculada à Gerência de Desenvolvimento de Produtos. “A ideia é trazer o jovem não apenas para mais perto da literatura como também de sua cidade.” Fazem parte da coleção os livros Cidade dos Deitados, de Heloísa Prieto (texto) e Elizabeth Tognato (ilustração); Montanha-russa, de Fernando Bonassi (texto) e Jan Limpens (ilustração); Surfando na Marquise (ilustração abaixo), de Paulo Bloise (texto) e Daniel Kondo (ilustração); e Avenida Paulista, de Augusto Massi (texto) e Carla Caffé (ilustração). “Foi do Augusto Massi a idéia de convidar vários autores para escrever sobre locais da cidade”, explica Heloísa Prieto, co-organizadora e idealizadora da coleção. “Pessoalmente, foi muito gratificante perceber os desdobramentos da proposta. Acabei me aproximando mais da cidade, sua história, seu cotidiano. Espero que a coleção desperte sentimentos semelhantes nos leitores”, conclui a autora.


Literatura virtual


Mesmo ainda longe de destronar o livro, a internet? tem formado uma geração de leitores digitais.
Em palestra no projeto Cartografia Literária, realizado pelo Sesc Consolação em agosto de 2008, a professora titular de teoria crítica da cultura da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Heloísa Buarque de Holanda, chamou a atenção para a volta de uma atividade literária mais vigorosa promovida pela internet. Segundo ela, foi pelo computador que se fez um resgate de uma dinâmica criada no papel. “Você tem uma vida literária de uma intensidade absurda na internet”, disse na ocasião. “Sou professora e sempre me deparo com aquelas perguntas chatas: ‘Mas isso é literatura?”, ‘não seria uma literatura menor?’. Acho que a resposta não interessa, pelo menos não para mim.”


Heloísa afirma ainda que um dos pontos mais interessantes de observar na escrita desenvolvida na rede é o diálogo que ela possibilita entre autores e leitores. “É uma conversa entre pares, entre pessoas mais ou menos da mesma idade.” Sobre o conteúdo dessa leitura na tela feita pelos jovens a professora surpreende ao revelar que tem observado uma volta aos grandes nomes da literatura universal em pleno ciberespaço. “Faço muitas entrevistas e pergunto sempre para esses novíssimos quem eles leem, eles me saem com Flaubert e outros nomes da literatura canônica”, revela. “E na periferia também. O número de jovens que procura por literatura canônica nas favelas é bem alto – inclusive porque não tem livrarias nem bibliotecas naqueles locais. Com isso, o uso da internet para leitura é muito alto.”

A professora de literatura infantil e juvenil da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da Universidade de São Paulo (USP) Maria Zilda da Cunha acrescenta que nem sempre a rapidez da internet compromete o ritmo mais reflexivo que a leitura de determinados gêneros exige. “A professora Lucia Santaella faz um estudo bastante interessante do perfil cognitivo de três tipos de leitores”, informa.

“O leitor do [surgido no] Iluminismo [período da história intelectual ocidental, no início do século 18, caracterizado pela defesa do pensamento racional em lugar das crenças religiosas], que era um contemplativo e que tinha a sua disposição o texto impresso; o leitor que ela chama de movente, pós-Revolução Industrial, e que sofre múltiplas demandas de informações; e o leitor próprio da era digital. Um tipo de leitor não elimina o outro e o leitor da era digital também tem seu momento de reflexão.”

Fonte: Revista E SESCSP