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quinta-feira, 13 de junho de 2013

Sete atitudes que formam leitores

Incentivar a leitura é um dever do governo e das escolas. Mas nós, leitores, podemos ajudar

DANILO VENTICINQUE

Danilo Venticinque é editor de livros de ÉPOCA. Conta com a revolução dos e-books para economizar espaço na estante e colocar as leituras em dia. Escreve às terças-feiras sobre os poucos lançamentos que consegue ler, entre os muitos que compra por impulso (Foto: Sidinei Lopes/ÉPOCA)

A leitura é, por natureza, um ato solitário. Podemos estar no meio de uma multidão: basta abrir um livro e, no meio do primeiro parágrafo, a realidade à nossa volta dá lugar ao universo do autor. É um grande prazer, mas também um pequeno risco. Como contagiar outras pessoas com o hábito da leitura, num país em que atividades coletivas são uma tradição, se o próprio ato de ler nos impulsiona para o isolamento?

Mesmo na solidão da leitura, cada leitor é parte de um só grupo. Seus interesses são tão múltiplos quanto a variedade de livros a seu dispor, mas todos têm em comum o prazer da leitura. Nessa multidão desunida e heterogênea, há pouca ação e muito pessimismo. Muitos dos que espalham a frase feita que diz que "o brasileiro não lê" são leitores. Em seu isolamento, não percebem que isso começou a mudar – e que eles estão deixando de cumprir um papel importante. Popularizar a leitura é uma obrigação do governo e das escolas, mas também deveria ser um esforço pessoal de cada leitor.

Um país com mais leitores é um país mais educado, com livros mais acessíveis e uma produção literária mais rica. Entre um livro e outro, com atitudes simples, qualquer leitor pode dar sua pequena contribuição para que isso se torne realidade.

1) Seja um (bom) leitor

Num mundo repleto de distrações, não faltam incentivos e desculpas para fazer qualquer outra coisa em vez de ler um livro. Sucumbir a algumas delas é inevitável. Podemos perder algumas batalhas, mas não a guerra. De distração em distração, já vi aficionados pela leitura entrarem, sem aviso, no grupo dos 50% de brasileiros que não leram um livro nos últimos três meses. Algumas pessoas estão nesse grupo porque não sabem ler, ou porque não têm acesso a livros. Porém, há os que engrossam as estatísticas por pura preguiça. Não basta ir à livraria, sucumbir às tentações do consumo e deixar os livros acumulando poeira na estante. É preciso dar um bom exemplo. O primeiro passo para formar mais leitores é formar-se leitor.

2) Converse sobre livros

Por que assistimos a tantos filmes, novelas e séries de televisão? Se dependêssemos apenas de nossa vontade e interesse, seriam poucos os espectadores fiéis. Mas recebemos recomendações de amigos, ouvimos comentários de desconhecidos, lemos sobre o assunto nas redes sociais e isso nos anima a voltar ao cinema, a sentar diante da televisão e a assistir a mais um episódio. Os fãs de filmes, novelas e séries não economizam oportunidades para demonstrar sua paixão. Dezenas de amigos me recomendaram Breaking bad antes que eu me tornasse viciado na série (que, aliás, é ótima). Sei que muitos dos meus amigos são leitores, mas poucos me recomendam os livros que acabaram de ler. Por ver a leitura como um hábito solitário, sentem-se mais à vontade para falar sobre outros assuntos – e deixam de compartilhar suas descobertas. Conversar sobre livros não é algo só para intelectuais. Não há nada de errado em ser fã de um autor e se comportar como tal. Se você acha que todos seus amigos deveriam ler o livro que você acabou de ler, diga isso. Talvez todos leiam.

3) Busque aliados

A internet é um inferno de distrações quando queremos nos concentrar e ler um livro, mas um paraíso para encontrar outros leitores. Há redes sociais dedicadas exclusivamente a isso, como a brasileira Skoob e a americana Goodreads. Também não faltam blogs e sites dedicados ao tema. No Facebook, há dezenas de grupos dedicados a amantes dos livros. Entrar num deles é uma forma de reforçar o hábito de ler, trocar recomendações e manter-se atualizado. Quanto maiores os grupos, maior a chance de atrair e manter novos leitores. Longe de ser uma inimiga da leitura, a internet pode ser uma importante aliada.

4) Presenteie

Lembro-me muito pouco das roupas, brinquedos e outras bobagens que eu ganhava de presente na minha infância. Mas não me esqueço do dia em que meu padrinho me levou a uma livraria e me presenteou com um exemplar de 20 mil léguas submarinas – o primeiro livro que eu li por vontade própria, e o primeiro a me tirar da frente da televisão e dos games. Dar livros de presente é uma bela maneira de espalhar e reforçar o hábito da leitura, não importa a idade de quem é presenteado. Preste atenção nos desejos e curiosidades das pessoas ao seu redor, e pense em livros que podem agradá-las. Quem conhece bem seus amigos e parentes saberá escolher um título adequado para animar mesmo quem não está acostumado a ler. O livro certo, na hora certa, pode ser um presente inesquecível.

5) Tenha calma

Antes de recomendar um livro, emprestá-lo ou dá-lo de presente, pense se ele é a escolha mais adequada. Para um leitor em formação, poucas coisas são mais frustrantes do que ler o livro certo na hora errada. Isso vale principalmente para crianças e adolescentes. Quantos estudantes não abandonaram o hábito da leitura após serem golpeados na cabeça, prematuramente, com livros difíceis demais? Alguns clássicos da literatura são acessíveis a qualquer um; outros, mais complexos exigem reflexão e paciência do leitor. Comece pelos mais fáceis. Há tempo suficiente para galgar, degrau a degrau, o caminho que leva a obras literárias complexas. Antes de se tornar um hábito, a leitura precisa ser um prazer.

6) Leia antes de votar

Num país em que 20% dos habitantes entre 15 e 49 anos são analfabetos funcionais, e 75% jamais pisou numa biblioteca, o esforço para popularizar a leitura passa, necessariamente, por políticas públicas. Há quanto tempo o incentivo à leitura não é abordado num debate entre candidatos a um cargo executivo? No Legislativo, há frentes parlamentares dedicadas ao tema, mas sua atuação é discreta. Entre os municípios, a maioria ainda trata a política cultural como uma política de espetáculos. Gastar milhões para reunir multidões em shows financiados pela prefeitura pode render manchetes de jornais, mas tem pouco impacto na formação cultural de cada cidadão. Organizar eventos literários para incentivar a leitura não é uma solução definitiva, mas já é um passo na direção certa. Investir na criação e manutenção de bibliotecas com uma programação cultural constante é ainda menos espetacular, mas pode ser transformador. Antes de escolher um candidato, descubra o que ele pensa a respeito disso.

7) Espalhe boas ideias

Transformar bicicletas em bibliotecas itinerantes. Arrecadar doações de livros no Natal. Distribuir livros gratuitamente em estações do metrô, ou colocá-los à venda e deixar que o comprador escolha o quanto quer pagar. Todas essas propostas são criações recentes de leitores apaixonados. Elas têm potencial para transformar a maneira como os brasileiros se relacionam com os livros, mas precisam se tornar mais conhecidas. Cabe a cada leitor a tarefa de ajudar a divulgar essas iniciativas, contribuir para seu sucesso e, quem sabe, pensar em outras boas ideias para incentivar a leitura. Abrir um livro no meio de uma multidão e se perder em suas páginas é um exercício solitário e prazeroso. Mas seria ainda melhor se fizéssemos isso no meio de uma multidão de leitores.

Fonte: Época

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Como a biblioteca ajuda na formação de jovens leitores

 A leitura para as crianças é importante para formar adultos leitores, com mais facilidade para escrever e se comunicar. Quase todos os brasileiros concordam com isso

Foto: Cintia Sanchez / Divulgação


A leitura para as crianças é importante para formar adultos leitores, com mais facilidade para escrever e se comunicar. Quase todos os brasileiros concordam com isso, mas apenas 37% costuma ler para as crianças, segundo pesquisa realizada pela Fundação Itaú em parceria com o Datafolha. Uma visita à biblioteca pode ajudar a mudar essa realidade.

Na biblioteca, há muito mais variedade de obras, além de espaços especiais para realizar a leitura. Para as crianças, ter o hábito de frequentar uma biblioteca, além de trazer grande aprendizado, pode ser uma grande diversão.

No entanto, essa também não é uma realidade no Brasil. Na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, encomendada pelo Instituto Pró-Livro, 67% dos entrevistados declararam a existência de uma biblioteca pública no bairro ou na cidade em que moram e, entre esses, 71% a classificaram como de "fácil acesso", porém apenas 24% afirmaram frequentá-las e somente 12% costumam ler em bibliotecas. Uma possível explicação para essa "impopularidade" das bibliotecas está na representação desses espaços no imaginário da população. A maioria as associa a lugares para estudar (71%) ou pesquisar (61%). Poucos veem as bibliotecas como espaços de lazer (12%) ou para passar o tempo (10%). Um outro dado que chama a atenção é que 33% afirmaram que "nada" os faria frequentar uma biblioteca.

Para falar sobre a importância e as possibilidades das bibliotecas, conversamos com Maria Antonieta Cunha, diretora do Livro, da Leitura, da Literatura e das Bibliotecas da Biblioteca Nacional, e Marcos Afonso Pontes de Souza, diretor da Biblioteca da Floresta, uma biblioteca especializada em assuntos e autores da Amazônia e do Acre, criada pelo Governo do Estado do Acre.

A função da biblioteca: O objetivo de uma biblioteca é colocar à disposição dos usuários materiais do seu interesse, mas foi-se o tempo em que as bibliotecas eram lugares chatos e empoeirados. "A biblioteca é extremamente dinâmica e progride cada vez mais com o desenvolvimento da própria ideia da ciência da informação", diz Maria Antonieta. "Em uma biblioteca, coexistem, por exemplo, o computador, a internet e outras artes que estabelecem um diálogo importante com a literatura para a formação da cabeça do cidadão".

A biblioteca não pode ser vista apenas como um lugar de consulta e pesquisa para complementar o currículo da escola.

Formando leitores: Para aproximar a população dos livros, a biblioteca não deve se limitar a suas quatro paredes. "Dá para criar uma série de atividades seja na empresa, na escola, na praça pública ou no presídio e aí a biblioteca estará cumprindo o seu papel que é ajudar a formar cidadãos leitores", explica Maria Antonieta. Para a diretora, a biblioteca cria leitores ao desenvolver neles o gosto pelo conhecimento e o gosto pela literatura e artes em geral. No entanto, no geral, as bibliotecas não estão preparadas para isso. "Os bibliotecários e os espaços que nós temos, muitas vezes, não facilitam essa ação", diz.

A biblioteca e as crianças: As crianças estão sempre em busca de conhecimento. Por isso, a biblioteca é o lugar ideal para os pequenos. Algumas bibliotecas têm atividades especiais para as crianças. A Biblioteca da Floresta, por exemplo, desenvolveu uma série de atividades na Semana da Criança, como contações de histórias e fantoches, jogos online educativos e jogos de tabuleiros, cantigas de roda e piquenique.

Fazer rodas de leitura, trazer autores de livros, inventar histórias ou até mesmo deixar a criança se movimentar livre para a biblioteca são bons exemplos de atividades, segundo Maria Antonieta. "Fazendo da biblioteca um espaço não só de leitura, mas de criação, nós conseguimos fazer a criança se interessar tanto pelo espaço da biblioteca quanto pela leitura, que é o objetivo maior", explica.

Como aproveitar a biblioteca: São os adultos, professores e pais, que despertam o interesse da criança pela biblioteca. No entanto, ir à biblioteca não deve ser um castigo ou uma obrigação. "É preciso fazer uma visita não burocrática, mas de sensibilização do espaço", diz Marcos Afonso. Para Maria Antonieta, "a biblioteca deve ser apresentada como um espaço de escolha de leituras. É um lugar para desvendar um mundo".

Pensando na comunidade: A biblioteca deve atender a comunidade. Nesse sentido, a Biblioteca da Floresta é inovadora por ser temática. O acervo é voltado para a história da região, com material sobre os índios, os seringueiros, a floresta e a trajetória da luta socioambiental da Amazônia. Maria Antonieta explica que algumas bibliotecas estão inseridas em espaços onde é importante ter essa especificidade, como é o caso de Rio Branco. "Conforme a localização e o interessa da comunidade, deve haver sim uma linha dentro do arquivo que contemple o tema que é uma grande demanda daquela comunidade". Porém, mesmo nas bibliotecas temáticas, é importante que o acervo também seja variado, para atrair e conquistar novos leitores.

domingo, 21 de outubro de 2012

30 mandamentos para ser leitor, escritor e crítico

Decalógo do leitor

Por Alberto Mussa

I - Nunca leia por hábito: um livro não é uma escova de dentes. Leia por vício, leia por dependência química. A literatura é a possibilidade de viver vidas múltiplas, em algumas horas. E tem até finalidades práticas: amplia a compreensão do mundo, permite a aquisição de conhecimentos objetivos, aprimora a capacidade de expressão, reduz os batimentos cardíacos, diminui a ansiedade, aumenta a libido. Mas é essencialmente lúdica, é essencialmente inútil, como devem ser as coisas que nos dão prazer.

II - Comece a ler desde cedo, se puder. Ou pelo menos comece. E pelos clássicos, pelos consensuais. Serão cinqüenta, serão cem. Não devem faltar As mil e uma noites, Dostoiévski, Thomas Mann, Balzac, Adonias, Conrad, Jorge de Lima, Poe, García Márquez, Cervantes, Alencar, Camões, Dumas, Dante, Shakespeare, Wassermann, Melville, Flaubert, Graciliano, Borges, Tchekhov, Sófocles, Machado, Schnitzler, Carpentier, Calvino, Rosa, Eça, Perec, Roa Bastos, Onetti, Boccaccio, Jorge Amado, Benedetti, Pessoa, Kafka, Bioy Casares, Asturias, Callado,Rulfo, Nelson Rodrigues, Lorca, Homero, Lima Barreto, Cortázar, Goethe, Voltaire, Emily Brontë, Sade, Arregui, Verissimo, Bowles, Faulkner, Maupassant, Tolstói, Proust, Autran Dourado, Hugo, Zweig, Saer, Kadaré, Márai, Henry James, Castro Alves.

III - Nunca leia sem dicionário. Se estiver lendo deitado, ou num ônibus, ou na praia, ou em qualquer outra situação imprópria, anote as palavras que você não conhece, para consultar depois. Elas nunca são escritas por acaso.

IV - Perca menos tempo diante do computador, da televisão, dos jornais e crie um sistema de leitura, estabeleça metas. Se puder ler um livro por mês, dos 16 aos 75 anos, terá lido 720 livros. Se, no mês das férias, em vez de um, puder ler quatro, chegará nos 900. Com dois por mês, serão 1.440. À razão de um por semana, alcançará 3.120. Com a média ideal de três por semana, serão 9.360. Serão apenas 9.360. É importante escolher bem o que você vai ler.

V - Faça do livro um objeto pessoal, um objeto íntimo. Escreva nele; assinale as frases marcantes, as passagens que o emocionam. Também é importante criticar o autor, apontar falhas e inverossimilhanças. Anote telefones e endereços de pessoas proibidas, faça cálculos nas inúteis páginas finais. O livro é o mais interativo dos objetos. Você pode avançar e recuar, folheando, com mais comodidade e rapidez que mexendo em teclados ou cursores de tela. O livro vai com você ao banheiro e à cama. Vai com você de metrô, de ônibus, e de táxi. Vai com você para outros países. Há apenas duas regras básicas: use lápis; e não empreste.

VI - Não se deixe dominar pelo complexo de vira-lata. Leia muito, leia sempre a literatura brasileira. Ela está entre as grandes. Temos o maior escritor do século XIX, que foi Machado de Assis; e um dos cinco maiores do século XX, que foram Borges, Perec, Kafka, Bioy Casares e Guimarães Rosa. Temos um dos quatro maiores épicos ocidentais, que foram Homero, Dante, Camões e Jorge de Lima. E temos um dos três maiores dramaturgos de todos os tempos, que foram Sófocles, Shakespeare e Nelson Rodrigues.

VII - Na natureza, são as espécies muito adaptadas ao próprio hábitat que tendem mais rapidamente à extinção. Prefira a literatura brasileira, mas faça viagens regulares. Das letras européias e da América do Norte vem a maioria dos nossos grandes mestres. A literatura hispano-americana é simplesmente indispensável. Particularmente os argentinos. Mas busque também o diferente: há grandezas literárias na África e na Ásia. Impossível desconhecer Angola, Moçambique e Cabo Verde. Volte também ao passado: à Idade Média, ao mundo árabe, aos clássicos gregos e latinos. E não esqueça o Oriente; não esqueça que literatura nenhuma se compara às da Índia e às da China. E chegue, finalmente, às mitologias dos povos ágrafos, mergulhe na poesia selvagem. São eles que estão na origem disso tudo; é por causa deles que estamos aqui.

VIII - Tente evitar a repetição dos mesmos gêneros, dos mesmos temas, dos mesmos estilos, dos mesmos autores. A grande literatura está espalhada por romances, contos, crônicas, poemas e peças de teatro. Nenhum gênero é, em tese, superior a outro. Não se preocupe, aliás, com o conceito de gênero: história, filosofia, etnologia, memórias, viagens, reportagem, divulgação científica, auto-ajuda – tudo isso pode ser literatura. Um bom livro tem de ser inteligente, bem escrito e capaz de provocar alguma espécie de emoção.

IX - A vida tem outras coisas muito boas. Por isso, não tenha pena de abandonar pelo meio os livros desinteressantes. O leitor experiente desenvolve a capacidade de perceber logo, em no máximo 30 páginas, se um livro será bom ou mau. Só não diga que um livro é ruim antes de ler pelo menos algumas linhas: nada pode ser tão estúpido quanto o preconceito.

X - Forme seu próprio cânone. Se não gostar de um clássico, não se sinta menos inteligente. Não se intimide quando um especialista diz que determinado autor é um gênio, e que o livro do gênio é historicamente fundamental. O fato de uma obra ser ou não importante é problema que tange a críticos; talvez a escritores. Não leve nenhum deles a sério; não leve a literatura a sério; não leve a vida a sério. E faça o seu próprio decálogo: neste momento, você será um leitor.
 Decálogo do autor

Por Miguel Sanches Neto

Depois de leitor, você pode se tornar, então, escritor– embora, pasme, muitos hoje pulem a leitura, por julgá-la dispensável, e já desejem publicar

I - Não fique mandando seus originais para todo mundo.Acontece que você escreve para ser lido extramuros, e deseja testar sua obra num terreno mais neutro. E não quer ficar a vida inteira escrevendo apenas para uma pessoa. O que fazer então para não virar um chato? No passado, eu aconselharia mandar os textos para jornais e revistas literárias, foi o que eu fiz quando era um iniciante bem iniciante. Mas os jovens agora têm uma arma mais democrática. Publicar na internet. Há muitos espaços coletivos, uma liberdade de inclusão de textos novos e você ainda pode criar seu próprio site ou blog, mas cuidado para não incomodar as pessoas, enviando mensagens e avisos para que leiam você.

II - Publique seus textos em sites e blogs e deixe que sigam o rumo deles. Depois de um tempo publicando eletronicamente, você vai encontrar alguns leitores. Terá de ler os textos deles, e dar opiniões e fazer sugestões, mas também receberá muitas dicas.

III - Leia os contemporâneos, até para saber onde é o seu lugar. Existe um batalhão de internautas ávidos por leitura e em alguns casos você atingirá o alvo e terá acontecido a magia de um texto encontrar a pessoa que o justifica. Mas todo texto escrito na internet sonha um dia virar livro. Sites e blogs são etapas, exercícios de aquecimento. Só o livro impresso dá status autoral. O que fazer quando eu tiver mais de dois gigas de textos literários? Está na hora de publicar um livro maior do que Em busca do tempo perdido? Bem, é nesse momento que você pode continuar sendo um escritor iniciante comum ou subir à categoria de iniciante com experiência. Você terá que reduzir essas centenas e centenas de páginas a um formato razoável, que não tome muito tempo de leitura de quem, eventualmente, se interessar por um livro de estréia. Para isso,
você terá de ser impiedoso, esquecer os elogios da mulher e dos amigos e selecionar seu produto, trabalhando duro para que fique sempre melhor.

IV - Considere apenas uma pequenina parte de toda a sua produção inicial, e invista na revisão dela, sabendo que revisar é cortar. O livro está pronto. Não tem mais do que 200 páginas, você dedicou anos a ele e ainda continua um iniciante. Mas um iniciante responsável, pois não mandou logo imprimir suas obras completas com não sei quantos tomos, logo você que talvez nem tenha completado 30 anos. Mas você quer fazer circular a sua literatura de maneira mais formal. Quer o livro impresso. E isso é hoje muito fácil. Você conhece um amigo que conhece uma gráfica digital que faz pequenas tiragens e parcela em tantas vezes. O livro está pronto. E anda sobrando um dinheirinho, é só economizar na cerveja.

V - Gaste todo seu dinheiro extra em cerveja, viagens, restaurantes e não pague a publicação do próprio livro. Se você fizer isso, ficará novamente ansioso para mandar a todo mundo o volume, esperando opiniões que vão comparar o seu trabalho ao dos mestres. O livro impresso, mesmo quando auto-impresso, dá esta sensação de poder. Somos enfim Autores. E podemos montar frases assim: Borges e eu valorizamos o universal. Do ponto de vista técnico, Borges e eu estamos no mesmo nível: produzimos obras impressas; mas a comparação não vai adiante. Então como publicar o primeiro livro se não conhecemos ninguém nas editoras? E aí começa um outro problema: procurar pessoas bem postas em editoras e solicitar apresentações. Na maioria das vezes isso não funciona. E, mesmo quando o livro é publicado, ele não acontece, pois foi um movimento artificial.

VI - Nunca peça a ninguém para indicar o seu livro a uma editora. Se por acaso um amigo conhece e gosta de seu trabalho, ele vai fazer isso naturalmente, com alguma chance de sucesso. Tente fazer tudo sozinho, como se não tivesse ninguém mais para ajudar você do que o seu próprio livro. Sim, este livro em que você colocou todas as suas fichas. E como você só pode contar com ele...

VII - Mande seu livro a todos os concursos possíveis e a editoras bem escolhidas, pois cada uma tem seu perfil editorial. É melhor gastar seu dinheiro com selos e fotocópias do que com a impressão de uma obra que não será distribuída e que terá de ser enviada a quem não a solicitou. Enquanto isso, dedique-se a atividades afins para controlar a ansiedade, porque essas coisas de literatura demoram, demoram muito mesmo. Você pode traduzir textos literários para consumo próprio ou para jornais e revistas, pode fazer resenhas de obras marcantes, ler os clássicos ou simplesmente manter um diário íntimo. O importante é se ocupar. Com sorte e tendo o livro alguma qualidade além de ter custado tanto esforço, ele acaba publicado. Até o meu terminou publicado, e foi quando me tornei um iniciante adulto. Tinha um livro de ficção no catálogo de uma grande editora. E aí tive de aprender outras coisas. Há centenas de livros de iniciantes chegando aos jornais e revistas para resenhas e uma quantidade muito maior de títulos consagrados. E a maioria vai ficar sem espaço nos jornais. E é natural que os exemplares distribuídos para a imprensa acabem nos sebos, pois não há resenhistas para tantas obras.

VIII - Não force os amigos e conhecidos a escrever sobre seu livro. Não quer dizer que eles não possam escrever, podem sim, mas mande o livro e, se eles não acusarem recebimento ou não comentarem mais o assunto, esqueça e não lhes queira mal, eles são nossos amigos mesmo não gostando do que escrevemos. Se um ou outro amigo escrever sobre o livro, festeje mesmo se ele não entender nada ou valorizar coisas que não julgamos relevantes em nosso trabalho. E mande umas palavras de agradecimento, pois você teve enfim uma apreciação. E se um amigo escrever mal de nosso livro, justamente dessa obra que nos custou tanto? Se for um desconhecido, ainda vá lá, mas um amigo, aquele amigo para quem você fez isso e aquilo.

IX - Nunca passe recibo às críticas negativas. Ao publicar você se torna uma pessoa pública. E deve absorver todas as opiniões, inclusive os elogios equivocados. Deixe que as opiniões se formem em torno de seu trabalho, e talvez a verdade suplante os equívocos, principalmente se a verdade for que nosso trabalho não é lá essas coisas. O livro está publicado, você já pensa no próximo, saíram algumas resenhas, umas superficiais, outras negativas, uma muito correta. Você é então um iniciante com um currículo mínimo. Daí você recebe a prestação de contas da editora, dizendo que, no primeiro trimestre, as devoluções foram maiores do que as vendas. Como isso é possível? Vejam quantos livros a editora mandou de cortesia. Eu não posso ter vendido apenas 238 exemplares se, só no lançamento, vendi 100, o gerente da livraria até elogiou – enfim uma vantagem de ter família grande.

X - Evite reclamar de sua editora. Uma editora não existe para reverenciar nosso talento a toda hora. É uma empresa que busca o lucro, que tem dezenas de autores iguais a nós e que quer ter lucro com nosso livro, sendo a primeira prejudicada quando ele não vende. Não precisamos dizer que é a melhor editora do mundo só porque nos editou, mas é bom pensar que ocorreu uma aposta conjunta e que não se alcançou o resultado esperado. Mas que há oportunidades para outras apostas e, um dia, quem sabe...Foi tentando seguir estas regras que consegui ser o autor iniciante que hoje eu sou.

Decálogo do crítico

Por Michel Laub

Ler por obrigação, ganhar pouco, ser odiado por autores criticados ou ignorados por você. Ante tantos dissabores, saiba para que serve, afinal, fazer crítica literária

I - Um bom começo pode ser a leitura de O imperador do vinho, de Elin McCoy, a biografia do americano Robert Parker. Trata-se da figura mais polêmica do universo milionário da enologia. Uma nota alta na The Wine Advocate, sua newsletter, é capaz de enriquecer um fabricante; uma nota baixa pode significar a falência. O olfato de Parker é segurado em cerca de US$ 1 milhão. Ao longo dos anos, percebeu-se que ele gostava de vinhos frutados. Muitas propriedades, até algumas tradicionais da França, passaram a chamar especialistas para estudar o solo, mudar a forma do plantio e da colheita, tudo para colher uvas que originassem vinhos adequados a esse gosto.

II - Saiba que esse talvez seja o exemplo máximo de crítico bem-sucedido no mundo de hoje – rico de fato, influente de fato, uma presença de fato essencial em seu meio. Quase todos os outros profissionais da categoria, trabalhem eles com música, cinema, gastronomia, televisão ou concursos de beleza, estão bem mais próximos da figura descrita por George Orwell em Confissões de um resenhista: “Trinta e cinco anos, mas aparenta cinqüenta(...) [trabalha num] conjugado frio, mas abafado (...). Dos milhares de livros que aparecem todo ano, é quase certo que existam 50 ou 100 sobre os quais teria prazer em escrever. Se for de primeira categoria na profissão, pode conseguir dez ou vinte. É mais provável que consiga dois ou três”.

III - Ou seja, prepare-se para uma atividade enfadonha e mal-remunerada. Você lerá só por obrigação. Nunca mais irá atrás de um livro indicado por um amigo. Nunca mais fechará um livro com a sensação de que, para o bem ou para o mal, não há nada a dizer sobre ele. Porque sempre haverá o que dizer. Se não houver, as contas não são pagas.

IV - Não se preocupe, porém. Há muitos truques para encher essas páginas em branco. Se você quer desancar um livro e não sabe como, recorra a alguns adjetivos algo abstratos em se tratando de literatura, mas ainda assim úteis numa resenha. A timidez, por exemplo. Argumente que o autor não explora suficientemente os conflitos de sua obra. Afinal, explorar conflitos é uma tarefa que não tem fim, e há um momento em que todo autor, por mais extrovertido que seja, precisa parar. Outros chavões sempre à mão: excesso de objetividade,excesso de subjetivismo, excesso de frieza, excesso de dramaticidade. A categoria das “idéias fora de lugar”, deslocada de seu contexto original, também ajuda bastante. Um romance correto, instigante e envolvente pode ser atacado por reproduzir um modelo “burguês” de contar histórias, incompatível com o nosso tempo. Um romance sem essas características pode ser destruído, justamente, por ser mal-escrito e não envolver o leitor.

V - Para o caso contrário, isto é, se você quer elogiar um livro que acha ruim – o das linhas finais do item IV, por exemplo –, há dois recursos clássicos: a) em relação à prosa desagradável, escatológica e/ou ilegível, diga que ela reproduz o incômodo e a irredutibilidade de sentidos do mundo contemporâneo; b) em relação à trama caótica e fragmentária, quando não se entende o que é início, o que é fim e do que é mesmo que estamos falando, afirme que a maçaroca reproduz, como uma “metáfora estrutural”, o caos fragmentário da sociedade pós-industrial.

VI - Usando desses truques, você está pronto para fazer nome devido à afinação com o vocabulário crítico de sua época. Mas se, por um desses acasos raros, você está decidido a realmente dizer o que pensa, há também dois caminhos a seguir. O primeiro é confiar cegamente nos seus juízos pessoais, não temendo a exposição de seus preconceitos íntimos em público. Assim, você terá mais chances de ser considerado um sujeito ranheta, excêntrico e/ou pervertido.

VII - O segundo caminho é considerar-se portavoz de um “sistema”, para o qual são válidas mesmo obras que não são do seu agrado (por questões sociológicas, por exemplo). Mesmo que os motivos sejam nobres – sua humildade para não se considerar o juiz definitivo sobre o que é ou não relevante em termos estéticos –, há boas probabilidades de você ser visto como um crítico sem alma, sem coragem, sem graça.

VIII - Independentemente de sua escolha, é inevitável que você seja desprezado. Todos dirão que seu desejo secreto era ser ficcionista ou poeta, que você é leviano demais, complacente demais, que tem algum interesse obscuro – ascender na carreira, agradar aos pares da universidade, arrumar um(a) namorado(a) – ou está a soldo de alguma entidade obscura – grupos literários rivais, editores, maçons, seitas religiosas, partidos políticos de esquerda (se você escrever numa pequena publicação) ou de direita (se receber salário de alguma corporação de mídia).

IX - Mais que isso: você será odiado. Pelos autores que você desanca. Pelos autores que você ignora. Pelos autores que você elogia (os motivos serão sempre os errados, na opinião deles). Pelos outros críticos. Por boa parte do público, mesmo por aquele que o lê com freqüência.

X - Mas se, apesar de tudo isso, você ainda insiste em abraçar a profissão, é bom se perguntar o motivo. Quando criança, usando o olfato, Robert Parker era capaz de listar todos os ingredientes dos pratos que estavam sendo cozinhados na vizinhança, habilidade que o tornaria um campeão absoluto dos “testes cegos” de identificação de uvas e safras. Isso se chama vocação. É o seu caso? Você se sente preparado para conjugar erudição e capacidade interpretativa em tamanha escala? Sendo a resposta afirmativa, trata-se de uma ótima notícia. Não só para você, que talvez tenha achado um modo honesto de ganhar a vida, mas para o próprio meio literário. Porque não há nada de que ele necessite mais, hoje ou em qualquer tempo: alguém que o ajude a firmar tendências, corrigir rumos, separar o joio do trigo. Diferentemente do que se diz, um crítico autêntico não é apenas o advogado do público. Ele é, em última instância, o maior defensor da própria literatura.

Fonte: Entre Livros 
 

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Ler não é obrigação

Publicada no jornal Gazeta do Povo em 18/09/2012

Felipe Lindoso, pesquisador e consultor de leitura

O jornalista, tradutor e consultor Felipe Lindoso tornou-se uma voz necessária ao se falar de leitura no Brasil. Por uma razão prática – ele povoou de informações seguras um setor dado a discursos inflamados e bem-intencionados a favor do livro. O resultado é flagrante. Para ele, ler é atividade lúdica e necessária, mas também é algo tão concreto quanto o mercado da soja.

Parece exagero, mas ao costurar leitura e desenvolvimento, o especialista em políticas públicas criou uma estratégia para fazer do negócio dos livros e da leitura um assunto tão sério quanto os demais. Não é uma guerra vencida. Há muito que se palmilhar para que os índices de leitura no Brasil estejam à mesma mesa de negociação em que se discute o pré-sal ou o Código Florestal. Mas o pesquisador figura entre os que trabalham para criar uma cultura que considere as letras um capital decisório no vai não vai que balança as economias emergentes.

O livro O Brasil pode ser um país de Leitores?, de 2004, é uma prova de sua ambição. A obra radiografa os maus humores nacionais com o livro e a literatura desde os princípios da Nação. Entre uma tragédia e outra, o estudo levanta fontes para outros pesquisadores – como os interessados em entender um fenômeno como Ágape, o livro de 7 milhões de exemplares do padre Marcelo Rossi. E retoma pendengas já bastante debatidas, porém crônicas, como os tropeços da escola e da família na formação dos leitores.

Felipe Lindoso é entrevistado da série “Leitura na prática”, que a Gazeta do Povo publica até 21 de outubro. Confira:

Para que tornar-se um leitor?
Quem lê e amplia seus horizontes culturais tem mais oportunidades de se desenvolver. Mas essa é uma opção individual, desde que estejam dadas as condições de escolha. O que acontece hoje é que as oportunidades de acesso ao livro são reduzidas. As famílias não são leitoras, as escolas ainda não preparam as condições para essa escolha, e o sistema de bibliotecas públicas é precário, para usar uma palavra suave. Por isso, ser leitor ou não independe de uma escolha. Na maioria dos casos, não há oportunidades.

É possível reaprender a ler?
Em uma palestra, o professor Ítalo Moriconi [organizador de Os cem melhores poemas brasileiros do século] assinalou o quanto temos que aprender, inclusive sobre as posturas necessárias para uma boa leitura. Essa postura não é “natural”, é socialmente induzida. Ler é uma questão de aprendizado e de escolha. Mas é importante destacar que ler não é obrigação. Pode ser uma necessidade, inclusive profissional. Há pessoas que desfrutam da leitura por prazer. Outras, ainda, por convicções religiosas ou políticas. Por essas características, a leitura não acontece somente nos momentos de lazer e descanso, quando concorre com a tevê, o cinema, a música e a simples conversa. A leitura depende de circunstâncias...

Aproveitando a deixa, qual o papel da escola nessa seara...
Deixar de tornar a leitura obrigatória. Deixar os livros à disposição dos alunos para que escolham o que querem ler, em literatura. Aí o professor pode motivar os alunos para ler alguns títulos, mas sem obrigação. Como diz o Ziraldo, o importante é ler, não aprender...

O que diria das bibliotecas escolares?
Salvo as proverbiais exceções, são muito ruins. Começa que na maioria das escolas não existe biblioteca, nem como “salas de leitura”. Já vi escolas nas quais as diretoras “despejaram” a biblioteca para abrigar mais alunos. Mas as bibliotecas são ruins sobretudo porque as professoras não são leitoras, não foram formadas e capacitadas para transmitir o gosto pela leitura. Daí que não ligam para as bibliotecas. As bibliotecas muitas vezes viram lugar de “castigo”: aluno mal comportado vai para a biblioteca, na qual encontra muitas vezes professoras afastadas da sala de aula, por alergia a giz, problemas nervosos e outros quetais.

O que fazer para que melhorem?
Melhorando – e muito – a qualidade dos professores. Depois, é preciso capacitar adequadamente os encarregados das bibliotecas. Não que devam ser necessariamente bibliotecários – mas um conjunto de bibliotecas escolares deveria ser supervisionado por bibliotecários. Os que ali trabalham precisam ser formados para a função, e não ocupar o lugar como um quebra-galho qualquer. Finalmente, a biblioteca escolar precisa ter um acervo amplo, com diversidade de escolhas, tanto de literatura quanto dos chamados paradidáticos. E com liberdade para os alunos escolherem o que desejam ler. Sem imposições e muito menos vigilância e censura.

Na última edição da pesquisa de Retratos da Leitura no Brasil os professores aparecem como principais incentivadores do livro, ultrapassando em influência os pais. O que diria?
O grande problema é que a maioria das famílias é de não leitores. O contato com os livros não aparece em casa, tanto por essa razão como também por questões econômicas. Livros são caros, proporcionalmente ao nível de renda dos brasileiros. Programas como o “Agentes de leitura”, que vai às casas para trabalhar com as famílias a questão da leitura, levam livros e indicam as bibliotecas. É uma possibilidade.

Em seu livro O Brasil pode ser um país de leitores? o senhor fala do papel das religiões na difusão da leitura. Continua pensado assim?
Historicamente, os países do protestantismo clássico se beneficiaram da doutrina que dá aos fiéis o contato direto com a divindade, no qual a leitura da Bíblia assumia um papel de importância. A Igreja Católica, ao contrário, sempre acreditou nos intermediários. A primeira tradução da Bíblia em português só aconteceu em meados do século 19. Entretanto, hoje, os fundamentalistas evangélicos aqui no Brasil assumem esse papel de intermediação. A compra de Bíblias é o maior fenômeno editorial do Brasil – e do mundo – mas daí a dizer que a Bíblia é lida vai um grande passo. Hoje não acredito que qualquer religião contribua positivamente para a leitura e a ilustração, e aí estão os fundamentalistas negando a ciência e a evolução.

Podemos pensar em um índice de desenvolvimento a partir da leitura?
Basta ver a quantidade de bibliotecas e os índices de leituras dos países avançados econômica e socialmente. Só nos EUA existem quase 200 mil bibliotecas públicas. Na Europa Ocidental – França, Inglaterra, Itália e mesmo a Espanha e Portugal – a questão do acesso aos livros é considerado de importância estratégica. No Brasil, quando existem, as bibliotecas geralmente estão no centro que, quando não degradado, ainda é o reduto das elites.


Divulgação /

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Não matem o leitor

Dezembro 2008

ANTONIO CARLOS VIANA

Nenhuma leitura deve ser obrigatória, salvo uma, a de Como um romance, de Daniel Pennac, que sai agora em edição de bolso pela L&PM, em associação com a Rocco, que o publicou pela primeira vez quinze anos atrás. Todas as comissões de vestibular deviam ser obrigadas a ler esse pequeno grande livro de apenas 150 páginas. Depois de sua leitura, talvez deixassem de se preocupar com as tão temidas listas de livros que os vestibulandos devem ler para responder àquelas perguntinhas muitas vezes sem sentido. Prestariam, assim, um grande serviço à formação de leitores no Brasil.

Pennac abre seu livro com uma afirmação que não nos abandonará mais:

O verbo ler não suporta o imperativo. Aversão que partilha com alguns outros: o verbo “amar”… o verbo “sonhar”…
Bem, é sempre possível tentar, é claro. Vamos lá: “Me ame!” “Sonhe!” “Leia!” “Leia logo, que diabo, eu estou mandando você ler!”
— Vá para o seu quarto e leia!
Resultado?
Nulo.

Assim começam os problemas de um ex-futuro leitor. Leitura obrigatória não cria leitores. Pelo contrário, afasta-os dos livros. Quantos alunos continuarão lendo com voracidade poesia e ficção depois do vestibular?

Para evitar a incidência no erro, nada melhor do que ler esse livro de título tão intrigante: Como um romance. De que romance fala Pennac? Logo, logo, o entenderemos. Sua linguagem aliciadora nada tem da monotonia dos livros de intenção pedagógica. Ele nos pega desde o primeiro instante, pois logo entendemos que ele fala da relação entre a criança que se inicia na leitura e a de seus iniciadores, os pais. Desde as primeiras historinhas, cria-se entre eles uma relação amorosa, que cresce a cada noite, antes do sono. O primeiro contato do menino com o livro se dá através dessas leituras que o deixam em permanente estado de excitação:

Sejamos justos. Nós não havíamos pensado, logo no começo, em impor a ele a leitura como dever. Havíamos pensado, a princípio, apenas no seu prazer. Os primeiros anos dele nos haviam deixado em estado de graça. O deslumbramento absoluto diante dessa vida nova nos deu uma espécie de inspiração. Para ele, nos transformamos em contador de histórias. (…) Na fronteira entre o dia e a noite, nos transformávamos em romancista, só dele.

Os pais, a criança e o livro, a trindade perfeita. Não há criança que não espere com ansiedade a hora em que os pais sentam ou deitam com ela na cama e começam a desfiar histórias, algumas lidas, outras inventadas. É um tempo de prazer, sem compromisso outro que o de viajar nas palavras. E ela quer mais, sempre mais, até que o pai ou a mãe, exaustos, a convencem a dormir. Até esse momento somos pedadogos, mas sem nenhuma preocupação com a pedagogia.

Eis que chega o dia em que a trindade se desfaz. O menino vai para a escola. Ele se entusiasma com aprender as letras, é quase um milagre juntá-las e dali sair um nome de seu mundo concreto. A primeira palavra escrita: Mamãe! “Esse grito de alegria celebra o resultado da mais gigantesca viagem intelectual que se possa conceber, uma espécie de primeiro passo na lua, a passagem da mais total arbitrariedade gráfica à significação mais carregada de emoção!”. Mas, eis que de repente…

Luta solitária

Sim, não mais que de repente, parece que tudo se esfuma: a alegria de aprender, a alegria de ler. O que todo pai ou professor observa é que a relação do menino com os livros vai se enfraquecendo. Onde foi parar aquele que gostava tanto de ouvir histórias? A leitura, que fora até então fonte de prazer, sofre uma mutação rápida, começa a se transformar num peso a carregar. Uma vez desfeita a trindade, ele terá agora de lutar solitário com um livro que parece rejeitá-lo.

Jogado o menino na escola, os pais se sentem liberados da obrigação de ler para ele como sempre faziam. Que alívio! Mal sabem que perderam seu ouvinte mais atento. Nessa hora é que deviam estar por perto, mas não estão, pois o menino cresceu, não precisa mais de sua ajuda. Finalmente, ele é capaz de se virar sozinho. Até que notam que alguma coisa não vai bem, algo está acontecendo com aquele que foi um dia leitor tão exigente. Vêm os diagnósticos: um desatento, um preguiçoso que não consegue ler um livro em quinze dias. Nunca levam em conta que o que o torna preguiçoso, desatento, é a obrigação de ler, e ler para responder a fichas de leitura, que são a morte do livro. De seu lado, os professores cobram, e caro, uma leitura que não é do interesse daquele leitor e que só faz perdê-lo. Pennac mostra o caminho:

Ele é, desde o começo, o bom leitor que continuará a ser se os adultos que o circundam alimentarem seu entusiasmo em lugar de pôr à prova sua competência, estimularem seu desejo de aprender, antes de lhe impor o dever de recitar, acompanharem seus esforços, sem se contentar de esperar na virada, consentirem em perder noites, em lugar de procurar ganhar tempo, fizerem vibrar o presente, sem brandir a ameaça do futuro, se recusarem a transformar em obrigação aquilo que era prazer, entretendo esse prazer até que ele se faça um dever, fundindo esse dever na gratuidade de toda aprendizagem cultural, e fazendo com que encontrem eles mesmos o prazer nessa gratuidade.

O que antes era prazer vira obrigação. O menino não vê mais o livro, vê o número de páginas que tem de enfrentar, sempre num prazo curto demais para ele e, o pior de tudo, para fazer uma prova. Um temor o assalta: “Como se sair bem se não o entender?” Ele está só, sente-se mais só que nunca, não há ninguém para salvá-lo. O livro passa a ser visto com inquietação, um antagonista do qual ele tem de se livrar o mais rápido possível.

Um livro não pode ser escolhido por outrem, a escolha devia ser sempre nossa. Mas há o cânone. Parece que, sem ele, as portas do futuro não se abrirão. O menino terá de ler o que professor acha que ele deve ler. O mais comum, então, é vê-lo adormecer com o livro aberto sobre o peito e, perto da prova, pedir a alguém um resumo ou, mais fácil ainda, percorrer a internet. Algo está errado. Não, não pode ser assim. Ler por obrigação nunca dará certo. Ou se chega ao livro espontaneamente ou ele será logo abandonado.

A leitura para ser boa tem de ser gratuita. Deve servir de “trégua ao combate entre os homens”, mas a escola a transforma numa guerra em que o perdedor é sempre o leitor forçado e, por conseguinte, a própria literatura. Ler devia ser sempre um presente, “um momento fora dos momentos”, um hiato de distensão dentro de um cotidiano tedioso. Quem sabe o valor da leitura não força ninguém a ler. O melhor caminho é o incentivo, ter lido e motivar o outro a procurar o livro que tanto nos entusiasmou e encheu nossas horas por dias e meses.

Daniel Pennac parte do pressuposto de que é o prazer de ler que preside todo ato de leitura e que, se ele existe, “não teme imagem, mesmo televisual e mesmo sob a forma de avalanches cotidianas”. Não adianta culpar a vida moderna, a televisão, a internet. Nada disso é empecilho para quem se habituou naturalmente à leitura. O que devemos sempre nos perguntar é : “O que fizemos daquele leitor ideal que ele (o menino) era?”. Não foi gratuitamente que o livro mágico da infância cedeu lugar ao livro hostil.

Qual a saída?

Pais, não se desesperem! Daniel Pennac traz um pouco de alento àqueles que já perderam a esperança de ver de novo o filho com um livro nas mãos, não os didáticos, mas o de um Thomas Mann, de um Dostoiévski, de um Flaubert. Se seu filho gostava de ler e não lê mais, o prazer de ler não desapareceu assim, de uma hora para outra, não se perdeu, apenas desgarrou-se e um dia será reencontrado.

Uma criança não fica muito interessada em aperfeiçoar o instrumento com o qual é atormentada; mas façais com que esse instrumento sirva a seus prazeres e ela irá logo se aplicar, apesar de vós.
A leitura deve ser algo que se oferece como ato liberador da vida insípida. Uma viagem em que não se exige nada. “A gratuidade, a única moeda da arte.”

Estimular o desejo de aprender, o entusiasmo pelo saber, seria esse o papel da escola. Ler sem cobranças, nos contentarmos em ler apenas. Abandonemos o dogma do “é preciso ler”. Ler sem alegria é não ler. As palavras pesam, o livro em breve estará fechado e, só fato de vê-lo sobre a mesa, assusta. Quando se sugere um livro é para partilhá-lo, é uma prova de amor, você quer que o outro leia aquilo que foi importante para você em certo momento da vida. A gente dá a ler aquilo que nos é mais caro. Antes de tudo, reconciliar o jovem com a leitura. Jamais fazê-lo sentir-se um pária dela.

A escola parece proscrever o prazer de seu espaço. Como se todo conhecimento fosse feito de sofrimento. Há uma dissociação entre vida e escola. “A vida está em outro lugar”, relembrando Rimbaud. Para contrariar isso, Daniel Pennac conta a história de um professor que nunca mandou um aluno ler um livro. O que ele fazia? Todo dia chegava e lia um trecho de alguma obra importante. A turma inteira ficava em suspenso, envolvida por sua leitura. Foi assim que ele despertou aqueles adolescentes para os livros. Nunca a mais leve sugestão de que fossem correndo à biblioteca, mas eles iam, voluntariamente, em busca do autor que mais os tinha tocado.

Uma aluna desse professor assim o descreve:

Ele chegava desgrenhado pelo vento e pelo frio, em sua moto azul e enferrujada. Encurvado, numa japona azul-marinho, cachimbo na boca ou na mão. Esvaziava uma sacola de livros sobre a mesa. E era a vida. (…) Ele caminhava, lendo, uma das mãos no bolso e, a outra, a que segurava o livro, estendida como se, lendo-o, ele o oferecesse a nós. Todas as suas leituras eram como dádivas. Não nos pedia nada em troca.

Ao final do ano, os alunos somavam: Shakespeare, Kafka, Beckett, Cervantes, Cioran, Valéry, Tchecov, Bataille, Strindberg. A lista era imensa. E ela continua no seu depoimento emocionado:

Quando ele se calava, esvaziávamos as livrarias de Renner e de Quimper. E quanto mais líamos, mais, em verdade, nos sentíamos ignorantes, sós sobre as praias de nossa ignorância, e face ao mar. Com ele, no entanto, não tínhamos medo de nos molhar. Mergulhávamos nos livros, sem perder tempo em braçadas friorentas.

O gosto pela leitura — é o que se depreende de Como um romance — depende do professor. Antes de tudo, ele tem de ser um apaixonado por livros. Falar que os jovens não gostam de ler é simplificar demais. Então se parte para o oposto: obrigam-nos a ler o que não querem. O resultado não podia ser outro: distância dos livros.

Então alguém se pergunta: o que fazer para colocar o livro na mão dos jovens? Se for para continuar fazendo o que estamos habituados a fazer, a melhor resposta é: NADA. Pelo grau de rejeição que eles desenvolvem em relação à leitura, vemos que as estratégias postas em prática até agora não deram resultado. Insistir nisso é burrice. O que se pode fazer é preparar melhor os professores para que transmitam sua paixão pelos livros de forma natural. Professor que não tem nos livros sua forma de viver não deveria ensinar. Professor que não tem paixão pela escrita não deveria ensinar a escrever. É preciso que sua fala transmita uma verdade que vem de dentro, nunca de fora. Sobre aquele professor do qual falei mais acima, Pennac diz:

(Ele) não inculcava o saber, ele oferecia o que sabia. Era menos um professor do que um mestre trovador (…) Ele abria os olhos. Acendia lanternas. Engajava sua gente numa estrada de livros, peregrinações sem fim nem certeza, caminhada do homem na direção do homem.

O papel do professor é o de alcoviteira. É ele que vai fazer o elo entre o aluno e o livro, casá-los para sempre. Facilitar o ato de ler, contabilizar páginas, convencê-lo de que lendo cinco páginas por dia, ao final da semana são 30 (dispensemos o domingo); no final do mês, são 120. Que lucro para quem não conseguia ler nada! O professor se transforma, assim, num estrategista da leitura.

Daniel Pennac termina seu livro listando os “direitos imprescritíveis” do leitor. Um deles é o de não ler. Não obstante, os professores de literatura e as comissões dos vestibulares ficam proibidos de exercê-lo em relação a Como um romance. Só assim será possível evitar a morte de mais leitores.

ANTONIO CARLOS VIANA
É escritor. Autor de, entre outros, Cine privé. Vive em Aracaju (SE)
 
 
Daniel PennacO autor Daniel Pennac Nasceu em Casablanca, Marrocos, em 1944, a bordo de um navio, filho de um oficial francês servindo nas colônias do país. É professor de língua francesa, em Paris, e um apaixonado pela pedagogia. O sucesso na literatura chegou com a série de romances sobre o personagem Benjamim Malaussène — O paraíso dos ogros, A pequena vendedora de prosa, Senhor Malaussène e Frutos da Paixão. Na década de 1980, Pennac morou por dois anos em Fortaleza (CE).
 
 

O leitor, onde está o leitor?

O Brasil não produz livros “demais”, o Brasil produz leitores de menos

AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

Ilustração: Ricardo Humberto

Os editores brasileiros revelam que estão publicando livros “demais”. Isso é uma verdade ou um mal-entendido? Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, disse que publica 280 títulos por ano e que “não dá para crescer mais com obras de mercado, até porque o mercado está muito competitivo. (…). Há editoras que hoje não conseguem entrar em redes de livrarias com um exemplar de algum título. Há uma superprodução. De livros, escritores, editores, um número de editoras grande surgindo”.

Sérgio Machado, da Record, informa que em 2010 o Brasil editou 55 mil títulos, numa média de 210 obras por dia útil. Só a Record coloca no mercado 80 títulos por mês. Seu proprietário revela que tem 2 milhões de livros em galpões que lhe custam uma despesa alta.

Há uma crise no ar. Uma crise paradoxal. De excesso e de carência. Excesso de livros ou carência de leitores? Assim como um copo com metade de água pode ser visto como um espaço metade cheio ou metade vazio, permitam-me examinar a questão por outro ângulo, fazendo uma correção: o Brasil não produz livros “demais”, o Brasil produz leitores de menos. Há que “produzir” o leitor. E não estou falando de alfabetização. Essa cadeia do livro não existe sem o destinatário: o leitor. Não há excesso de livros, há falta de bibliotecas, de livrarias e de leitores. Há, por outro lado, centenas de iniciativas governamentais e particulares tentando corrigir isso. Todos, não só os editores, temos que modificar o conceito de livro, livraria, biblioteca, leitor e leitura, pois na verdade todo esse sistema em torno do livro está em crise (ou metamorfose).

Mas que crise é essa? Quantas crises há dentro desta crise?

CRISE EDITORIAL

1. Atualmente os editores estão disputando um mercado de eleitos, um mercado mínino de consumidores. Ninguém sabe quantos são. Há quem ache que leitores de livro no país não cheguem a 20 milhões. Se fossem 30 milhões seria igualmente vergonhoso que haja tão poucos leitores. E mais: um lastimável desperdício econômico e cultural. E os outros 170 ou 180 milhões, onde estão? Estão anestesiados pela sociedade do espetáculo?

2. Segundo a Fundação Getúlio Vargas as classes A e B constituem 11% do país. Será que essas classes consomem realmente bens culturais como o livro, teatro, museus, etc.? Diz o vice-presidente do Ibope, Nelson Marangoni, que “o Mercado de luxo tem previsão de crescimento de 30% no próximo ano (2012) e isto é uma oportunidade dentro das classes A e B e não da C[1]”. Há aí duas coisas que nos inquietam: 1) esse crescimento dos mais ricos se reflete em número maior de leitores e consumo de livros? 2) por que a classe C emergente não aparece como consumidora de bens culturais?

Por outro lado, a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) informa que em 2009 “foram lançados 52 mil livros convencionais e vendidos 386 mil exemplares” [2]. Imagina-se que os livros comprados pelo governo estejam fora dessa lista. Donde se deduz que 386 mil exemplares não são nada em relação aos 20 milhões de pessoas das classes A e B (sem contar os de outras classes que eventualmente compram livros).

3. As estatísticas sobre leitura no Brasil variam muito. A Câmara Brasileira do Livro (CBL) considera que “o brasileiro lê, por ano, 4,7 livros. Mas se contarmos somente livros lidos espontaneamente, o número cai para 1,3 por habitante”[3]. Portanto, a conclusão é óbvia: numa estatística que considera que o brasileiro lê 4,7 livros por ano, se em 2009 foram vendidos 386 mil exemplares, então se conclui que apenas cerca de 100 mil pessoas são leitoras. Na outra opção estatística, cerca de 386 mil indivíduos seriam leitores. Ou seja, as editoras estariam disputando cerca de 386 mil pessoas (1,3 livro por pessoa), numa população de quase 200 milhões habitantes.

4. Dizem as estatísticas que as editoras produziram em 2010 23% mais livros que em 2009. Mas a perplexidade continua: tirante os best-sellers, que têm uma dinâmica específica, as edições dos livros “normais” continuam em torno de 2 mil a 3 mil exemplares. Se lembrarmos que quando o país tinha 30 milhões de habitantes (lá por 1920) as edições eram de 500 exemplares, veremos que há algo errado no nosso “progresso”. Naquele tempo cerca de 60% da população eram de analfabetos, hoje se diz que são 9%. Façam a conta com os quase 200 milhões de habitantes hoje. Portanto, há algo errado não apenas com a produção de livros mas com a “produção” de leitores.

5. A indústria editorial tem algumas características:

a) disputa um reduzidíssimo mercado de leitores;

b) algumas editoras vivem em grande parte de vender para o governo. Isso não é necessariamente ruim. Sempre se diz que nos países mais desenvolvidos as bibliotecas públicas são grandes compradoras de livros;

c) recentemente, no entanto, grupos multinacionais adquiriram editoras brasileiras e lançam aqui autores e títulos estrangeiros que competem e/ou reprimem o consumo de autores nacionais. Não se trata de ser contra ou a favor, mas uma constatação. É o preço da globalização. E o Brasil, grande exportador em outras áreas, é um grande importador de obras estrangeiras. Basta ver as listas dos mais vendidos hoje comparada com a de algumas décadas atrás e como os cadernos culturais abrem largos espaços para autores estrangeiros;

d) nossos editores e agentes literários, em geral, vão a Frankfurt e outras feiras para comprar, não para vender. Será que nossa literatura é tão precária que não é competitiva?

e) A CBL informa que na 62a Feira de Frankfurt foram vendidos US$ 1,06 milhão em direitos autorais. Ótimo. Mas quando se vai a qualquer grande livraria européia não há livro brasileiro. Em geral, só Jorge Amado traduzido em espanhol e na estante de autores latino-americanos. Quando, em Paris, se pergunta aos livreiros da “Ecume des pages” e “La Hune” sobre a ausência de uma prateleira de autores brasileiros, alegam que não há suficientes autores brasileiros.

6. Estatísticas recentes da Câmara Brasileira do Livro dizem que o número de livros vendidos no país aumentou 13,12%. Ótimo. Mas isso se insere dentro do contexto de disputa do mesmo público leitor. Começa agora uma luta pela conquista da classe C. Isso levanta outra questão: que tipo de livro está sendo vendido? O que é o “fast reading” (tipo sanduíche, “fast food”) e o que é livro com importância modificadora para a cultura? Diz Nelson Marangoni, vice-presidente do Ibope na citada entrevista, considerando a ascensão da classe C, que está havendo mobilidade financeira, não mobilidade social. Ou se poderia dizer de outro modo: as pessoas entram na sociedade de consumo e são consumidas como objeto.

7. Há alguns anos, li que o mercado do livro movimentou R$ 4,2 bilhões em 2009. Maravilha! Mas é curioso que este era então o montante da indústria de cerveja. É intrigante que se veja tanto anúncio de cerveja e quase não se veja anúncio de livro. Claro, o governo não compra cerveja, mas compra livro. E isso, se é uma solução para alguns editores, só é um elemento complicador na relação paternalista de nossa tradição.

8. No esforço para reverter a síndrome da importação cultural indiscriminada, o governo federal através da Fundação Biblioteca Nacional criou na administração de 1990/1996 programa de bolsas de tradução de obras brasileiras, trouxe ao Brasil agentes literários estrangeiros e diretores de suplementos literários dos principais jornais do mundo para divulgar nossa literatura, e começou a participar e organizar feiras internacionais de livros e a dar suporte a uma política nacional do livro, da biblioteca e da leitura[4].

Isso não é suficiente, tem que ser ampliado e melhorado.

CRISE NAS LIVRARIAS

1. O censo da Associação Nacional de Livrarias diz que em 2009 havia 2.980 livrarias no país, ou seja, uma livraria para cada 64.255 habitantes. Segundo a Unesco, deveria haver uma livraria para cada 10 mil habitantes. Façam a conta e vejam nosso débito. As livrarias, a exemplo das mega livrarias, continuam concentradas nos bairros mais prósperos das grandes cidades. Os subúrbios e maioria das cidades brasileiras não conhecem esse comércio. Em 25 de novembro de 2006, o jornal O Estado de S. Paulo informava que segundo o IBGE 69,07% das cidades não têm livraria e que as outras 30% têm livrarias misturadas com papelaria.

2. Paradoxalmente quem entra em uma das raras livrarias hoje se escandaliza com a enorme quantidade de títulos que se revezam nas estantes, livros que surgem e morrem rapidamente. Diz-se que hoje o tempo de vida útil de um livro é de três meses. Se não vendeu, desaparece. Algumas editoras até pagam ou fazem alguma forma de barganha para ter seus livros expostos em lugares privilegiados nas livrarias.

3. O chamado “excesso” e/ou “rotatividade” de livros faz com que os funcionários das livrarias não consigam informar com segurança o que há nas estantes, nos estoques ou o que está esgotado. Muitos livros procurados estão no imponderável “estoque” ou, às vezes, nem aparecem na tela do computador. O editor José Mario Pereira já relatou como isso ocorre[5].

4. Com isso, os “sebos” e “estantes virtuais” passaram a ser o lugar para se encontrar obras mais duradouras e ganharam maior espaço com a internet.

5. Com a ascensão da classe C e devido à inexistência de livrarias na maioria das cidades, a venda dos livros porta a porta aumentou. Informa a Associação Brasileira de Difusão de Livros que em 2010 os editores desse setor faturaram R$ 1,2 bilhão e que só a Editora Escala vende por mês 350 mil livros. A média de preço das coleções é de R$ 122,74. A Avon — empresa de cosméticos —, neste negócio há 18 anos, tem 1,1 milhão de revendedoras, liderando o mercado.

A questão que se levanta: que tipo de livro predomina nesse mercado?

CRISE NO ENSINO

1. Nos anos 1960 a reforma de ensino introduziu o sistema de créditos, seguindo modelo americano, e acabaram, por exemplo, os cursos de línguas neolatinas, anglo germânicas e clássicas. Um aluno de neolatinas antes estudava a literatura e a língua francesa, a espanhola, a hispano-americana, a portuguesa, a brasileira e a italiana. Escrevia trabalhos nessas línguas. Com a reforma que imitava o sistema americano, ao invés de o aluno estudar várias literaturas e escrever trabalhos em várias línguas, passou a se “especializar” só em português e em outra língua e literatura.

2. Concomitantemente, também nos anos 60, no ensino médio se substituíram o português e a literatura pela “comunicação e expressão”. Iniciou-se um processo de desprestígio da leitura e da literatura. Contaminados pela ideologia da “comunicação” que entrou na moda nesta época, chegou-se a eliminar a palavra “literatura” dos currículos. Como mostrou Luís Augusto Fischer em ensaio recente, estuda-se letra de música no lugar de poesia, e mais recorte de jornal e história em quadrinho que romance. Daí que Jim Davis (do Garfield) e Bob Thaves (da tira “Frank e Ernest”) apareçam mais que Graciliano Ramos e João Cabral[6].

3. Ao lado disso criou-se o “vestibular unificado” e uma massificação do ensino, que se generalizou a partir dos anos 70, teve duas conseqüências. Aumentou enormemente o número de alunos na universidade. O vestibular unificado acabou elegendo a “múltipla escolha” com o conseqüente desprestígio da leitura e da redação. Isso contribuiu para que o nível dos estudantes fosse mais baixo[7].

CRISE DO ESCRITOR

1. Houve sim um aumento do número de escritores nas últimas décadas, pois a sociedade da comunicação facilita a publicação. Todos querem ser lidos e vistos.

2. A partir dos anos 70 surgiu uma geração de escritores viajantes que percorrem todo o país indo ao encontro do público. Diferenciam-se das gerações anteriores, mais sedentárias, nas quais os escritores eram sobretudo funcionários públicos localizados no Rio de Janeiro que se encontravam à tarde no “Amarelinho” ou na “porta da livrara” (José Olympio, São José).

3. Há uma ligação entre os cursos de criação literária aqui e ali e o aumento do número de escritores. Às experiências feitas nos anos 60 e 70 na UNB, na UFRJ e na PUC/Rio sucederam cursos e oficinas já fora da universidade. Surgiram, ainda que timidamente, as bolsas para os escritores na tentativa de profissionalizá-los. Mas as livrarias não cresceram proporcionalmente e as bibliotecas muito pouco.

4. Nessa crise (que é de todo sistema em torno do livro), o autor está muito inconfortável. Ele passa grande tempo elaborando um livro, se o livro não dá certo, ele é o primeiro a ser prejudicado. Lá se vão três, cinco ou mais anos de trabalho pelo ralo. Já o editor, como lançou dezenas de livros, vai se safar, se compensar com os outros. Se o livreiro não vende um livro, vende outros. Não é assim com o autor.


CRISE DAS BIBLIOTECAS

1. Nos anos 90 a Fundação Biblioteca Nacional constatou que havia cerca de 3 mil municípios sem biblioteca. Foi lançada na ocasião a campanha “uma biblioteca em cada município”. Somente 15 anos depois, com Gilberto Gil/Juca Ferreira no Ministério da Cultura, conseguiu-se implantar uma biblioteca em cada município (excetuando uma meia dúzia de prefeitos que acham que biblioteca é dispensável[8]).
Dispensa lembrar que países mais desenvolvidos têm bibliotecas não apenas nos municípios, mas também nos bairros.

2. Criou-se nos anos 90 o Sistema Nacional de Bibliotecas realizando encontros e seminários nacionais, estaduais e municipais na tentativa de mudar a mentalidade de bibliotecárias e bibliotecários. Na sociedade informatizada a biblioteca e seu funcionário teriam outro papel: servidor de informação e não apenas de catalogador ou guardião de livros.

A Fundação da Biblioteca Nacional nos anos 90, tendo criado o SNB, fez uma aproximação com as bibliotecas universitárias, reuniões com o Conselho de Reitores, tentando dar organicidade a cerca de 900 bibliotecas universitárias abrindo-as também ao grande público.

3. As bibliotecas escolares constituem, por sua vez, um problema. De acordo com o Ministério da Educação “68% das escolas públicas do país não possuem bibliotecas, evidenciando a dimensão do desafio para cumprir o que determina a Lei Federal 12.244, de 24 de maio de 2010, que dispõe sobre a universalização em até dez anos, das bibliotecas nas instituições de ensino públicas e privadas do país”[9].

CRISE DO LIVRO

Crise que pode se entendida como metamorfose. Ao contrário do que os mais alarmados pensam, o livro não vai deixar de existir, apenas está assumindo outras formas, outros suportes. O livro de papel continuará a ter sua função como aliás já o demonstraram Umberto Eco e Jean-Claude Carrière[10].

Por outro lado discutir a “crise do livro” sem considerar todos os setores já aqui referidos é marchar para uma solução equivocada do problema. Estamos tratando desta questão em todo este ensaio.

CRISE, LEITURA E O PRÉ-SAL

1. Urge outra compreensão, não apenas do que seja livro, livraria, biblioteca, editor, mas sobretudo do que é leitura e leitor.

2. Leitura não se limita à “alfabetização”.

3. Leitura não se limita à escola: trata-se de formar uma sociedade leitora, condição sine qua non para o país enfrentar os desafios do século 21.

4. Por isso, é urgente uma POLÍTICA NACIONAL DE LEITURA que atravesse não só todos os ministérios, mas seja uma determinação da Presidência da República. Como se poderia dizer: LEITURA é uma questão de segurança nacional[11].

5. Considerada a leitura como algo além da escola, algo além da alfabetização, algo que vai lidar com o “analfabetismo funcional” e com o “analfabetismo tecnológico”, haverá (como já começa a haver) programas de leitura em hospitais, quartéis, fábricas, sindicatos, empresas, tribos indígenas, igrejas, condomínios, acampamentos agrários, comunidades quilombolas, favelas, programas para aposentados, para cegos, surdos, mudos e outros deficientes físicos, etc.[12]

6. Nos últimos anos, “agentes de leitura” e “mediadores de leitura” se espalharam pelo Brasil. A experiência positiva dos agentes de leitura no Ceará foi levada para o Ministério da Cultura e expande-se em vários estados. No Acre foram criadas mais de cem Casas da Leitura interagindo com uma nova maneira de ler a cultura e a natureza. Os agentes ou mediadores de leitura devem chegar a 15 mil brevemente e têm sido treinados por instituições como a Cátedra de Leitura da PUC/RJ. O ideal é que se mesclem com os “agentes de saúde” e os “médicos da família”.

7. Nessa redescoberta da leitura, onde havia apenas o Instituto Nacional do Livro, espera-se a criação do Instituto do Livro, da Leitura e da Biblioteca e a nova administração da Fundação Biblioteca Nacional planeja construir 25 mil bibliotecas populares com livro de qualidade a R$ 10.

8. Enfim, a leitura é o verdadeiro pré-sal. O petróleo em si não resolve os problemas básicos de um país. Há países que têm petróleo e têm terríveis desigualdades sociais e opressão política. Há países que não têm petróleo e estão na ponta do processo civilizatório. E todos os países que realmente se desenvolveram passaram pela leitura. A leitura torna os livros vivos e desenvolve os países.

LEITURA: EQUÍVOCOS E ACERTOS

É recente a emergência da LEITURA e do LEITOR no panorama brasileiro. O LEITOR e a LEITURA até há pouco foram elos invisíveis, não falados, diria até reprimidos ou esquecidos dentro de um sistema que parece pouco sistêmico.

Cito casos sintomáticos de como nossa elite vê a questão da leitura:

1. Edson Nery da Fonseca, conhecido bibliotecário, narra que, nos anos 50, ao questionar Lúcio Costa por que não havia projetado uma biblioteca pública para Brasília ouviu a seguinte resposta: “Esse negócio de biblioteca pública nunca deu certo no Brasil”[13].

2. Quando apresentei publicamente os projetos de leitura da Fundação Biblioteca Nacional, nos anos 90, numa reunião do MinC, ouvi do ministro Antonio Houaiss esta frase: “Leitura não é um assunto prioritário no meu ministério”.

3. Após ouvir uma conferência de Eliana Yunes — uma das maiores especialista em leitura no país —, um editor e alto dirigente da Câmara Brasileira do Livro me disse: “Quanto mais ouço a Eliana, menos entendo o que ela quer”.

4. Não estranha que o ex-ministro da Cultura Francisco Weffort (ex-genro de Paulo Freire), secundado por Eduardo Portela, tenha sabotado o Proler e os projetos de leitura em curso no país (1996) e que somente dez anos depois (em 2006) na administração Lula/Gil/Juca Ferreira a leitura voltasse a ser prioritária[14].

Contrastando com esse tipo de incompreensão, a reação de pessoas do povo é mais sábia. Há centenas, milhares de exemplos. Só o projeto “Viva Leitura”, patrocinado pela Organização dos Estados Ibero-americanos e a Fundação Santillana, listou cerca de 10 mil projetos, dos quais destaco três:

1. Luiz Amorim, dono de um açougue em Brasília, decidiu fazer dentro de seu estabelecimento uma biblioteca. Chegou a ser condenado pela Saúde Pública. Resistiu. Hoje seu projeto cresceu, a população da cidade participa do que se transformou num grande centro cultural. Além de expandir seu negócio, começou a pôr bibliotecas nos pontos de ônibus.

2. Em Sabará, Marco Túlio Damasceno criou a Borrachoteca dentro da borracharia que era de seu pai e já tem três filiais.

3. No Complexo do Alemão (Rio de Janeiro), enquanto zuniam as balas entre os traficantes e a policia, Otávio Santanna, que já era um agente de leitura e tinha uma biblioteca móvel, começou projetos para construir uma Barracoteca.

Quem quiser ir mais fundo neste assunto basta ver como funcionam os milhares de projetos de leitura em todo o país.

LEITURA: DESCOBERTA RECENTE
 
A evolução semântica e social da questão do livro no Brasil passou por algumas fases bem sintomáticas no último século:

1. Em 1918 com a experiência da edição popular do Saci, Monteiro Lobato, colaborando com o jornal O Estado de S. Paulo, cria a indústria editorial brasileira. Até então os livros eram publicados por editoras estrangeiras (Garnier e Lammert) e atendiam a 30 pontos de venda. As edições eram de 500 exemplares. Lobato levou o livro a todo o país e chegou a vender 11.500 exemplares de um único livro em um ano[15].

2. Em 1935 Rubem Borba de Moraes reinventa a biblioteca pública ao estruturar a biblioteca municipal de São Paulo, criando (com Mário de Andrade) novas seções abertas à cultura popular. Descentraliza ações programando dez bibliotecas nos diversos bairros, além de bibliotecas móveis[16].

3. Em 1937 o governo federal cria o Instituto Nacional do Livro, dirigido por Augusto Meyer, com colaboração de Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda, com o objetivo de fazer uma enciclopédia brasileira. Posteriormente o INL começou a fazer co-edições de livros que eram mandados para bibliotecas públicas[17].

4. Em 1961 Paulo Freire — diretor do Departamento de Educação, no Recife — põe em prática seu método de alfabetização — “Método Paulo Freire” —, ensinando plantadores de cana a ler em 45 dias. Essa experiência de “ler o mundo” foi interrompida pelo golpe de 64. Entre 1989 e 1991 Paulo Freire foi secretário da Educação de São Paulo e criou o programa para “Educação de Jovens e Adultos”.

5. Em torno de 1980 a universidade redescobre a leitura. Em 1981 surge a ALB (Associação Brasileira de Leitura do Brasil) e o Cole (Congresso de Leitura do Brasil), através de Ezequiel Theodoro. Cria-se a Jornada Nacional de Literatura (Universidade de Passo Fundo), coordenada pela professora Tânia Rösing. A “teoria da recepção” criada na Alemanha por Wolfgang Iser e Hans R. Jauss chega ao Brasil interessando-se academicamente pelo receptor/leitor. Mas restringe-se aos intramuros universitários.

6. A criação do Proler (1992), coordenado por Eliana Yunes e Francisco Gregório Filho, dentro da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), é o início de uma “política do livro e da leitura”. A leitura vira uma questão de estado. Já não se trata apenas de editar livros, já não se trata da alfabetização ou de uma visão acadêmica da leitura. A palavra leitura/leitor se amplia, desentranha-se do livro, da biblioteca, da alfabetização, da universidade e ganha amplitude social. Com a criação da Cátedra da Leitura PUC/Unesco (2006), a universidade leva socialmente para fora de seus muros a questão da leitura.

7. Por outro lado, em 2006 o Plano Nacional do Livro e da Leitura (PNLL) aparece formatado com José Castilho. Une sociedade civil e governo, começa articular a criação de um Instituto do Livro, da Leitura e das Bibliotecas. O Ministério da Cultura, por outro lado, propõe o “vale cultura”. E em 2011, Galeno Amorim, na FBN, retoma o PNLL e se empenha na construção de 25 mil bibliotecas populares.

INCLUSÃO DIGITAL E A LEITURA

Tem-se falado muito de “inclusão digital”. O Ministério das Comunicações informa que já existem 13.379 “telecentros” implantados em 5.564 municípios brasileiros. Eles podem ter o papel que as bibliotecas convencionais deveriam ter tido. Nesse contexto os “promotores de inclusão digital” deveriam ser encarados como irmãos gêmeos dos recentes “agentes de leitura” ou “agentes de cultura”. Os telecentros ofereceram 6.200 kits do Ministério às prefeituras. O telefone portátil, o Ipad, o Google são uma realidade. Os 200 milhões de telefones portáteis são 200 milhões de bibliotecas em potencial à espera de nossa criatividade. Assim como um viajante do século 18 tinha uma maleta de viagem em que carregava algumas dezenas de livros para ler, hoje pela internet todos podem ter uma biblioteca em suas mãos, seja nas margens do Tocantins ou nas cochilas do Sul.

Se não conseguimos em 500 anos colocar uma biblioteca em cada canto do país, por outro lado, cada cidadão hoje está se convertendo, à revelia de nossa incompetência histórica, em um “consumidor” de informação através da informática, do Google, da internet. Se temos apenas 2.600 livrarias e 2.500 cinemas, é bom que nos espantemos e rejubilemo-nos com o fato de que temos 109 mil lan houses; e que uma favela como a da Rocinha (que tem apenas uma biblioteca heroicamente construída e seguramente não tem nenhuma livraria) tem, por outro lado, 200 lan houses.

O que não foi feito em 500 anos, hoje graças ao universo digital, pode constituir-se em uma conquista rápida e numa reparação. Isso não significa que não se deva construir bibliotecas e comprar livros, apenas que há meios de acelerar o consumo de livros e promover a leitura.

Mas aqui se torna irrecusável contar uma história que narrei na recente Jornada Literária de Passo Fundo (agosto/2011) quando Alberto Manguel e Kate Wilson debatiam equivocamente sobre esse tema. Diz-se que o Marechal Rondon, no princípio do século passado, foi designado para conquistar grande parte do território brasileiro levando a comunicação através de postes e fios que conduziam mensagens telegráficas. Depois de ter instalado praticamente em todo o país esse sistema de comunicação, ao colocar o último poste na fronteira com a Bolívia, foi surpreendido com a notícia de que Marconi havia acabado de descobrir o telégrafo sem fio.

Cem anos depois a situação se repete. Conseguiremos fazer na era do livro eletrônico o que não conseguimos fazer na era do livro impresso?

O Brasil está vivenciando três fatos novos:

1. Primeiro a invasão da eletrônica em nossa vida cotidiana, nos jogando em outra era.

2. Em segundo lugar, o surgimento de outras gerações chamadas de X, Y, Z pelos especialistas em marketing: jovens que vivem zapeando. São “dispersivos”, fazem várias coisas ao mesmo tempo, não têm o sentido de “concentração” unidirecional. Nós os achamos superficiais. Mas, e se estivermos realmente diante de um fenômeno de mutação não exatamente genética, mas cultural? Um daqueles momentos de “point of no return” que remete para a metáfora que Marshall McLuhan usou: a lagarta assustada olhando uma borboleta em seu esplendor dizia: eu nunca me transformarei num monstro daqueles…

3. Em terceiro lugar, a ascensão das classes C, D e E que até agora estavam fora do mercado, da comunicação e da cultura livresca. A todo instante nos dizem de estratégias de marketing à procura desses novos “índios” que a sociedade de consumo quer incorporar, catequizando-os com o “evangelho” da sociedade do espetáculo. Os meios de comunicação certamente se preocupam com isso. Mas Fabio Mariano, da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), afirma que os jornais não conseguiram chegar a 60% das classes C, D e E, constituídas por pessoas com menos de 30 anos. “Os jornais brasileiros não entendem essa classe C, estão distantes. Quando a gente fala de classe C, falamos de um século de exclusão, sem saúde, sem saber o que é política.”

Some-se a isso o fato de haver hoje 200 milhões de celulares. São 200 milhões de bibliotecas volantes à espera de nossa criatividade. Um jovem na margem esquerda de um afluente do Amazonas pode ter, de graça, acesso aos clássicos brasileiros e estrangeiros sem precisar sair de casa.

Lembremos: o aprendizado já foi oral — o essencial era o uso da memória. Com a evolução o saber passou a ser escrito. Hoje retorna e passa pelo visual. Ou pode-se dizer: o aprendizado é oral, é escrito e também visual. O oral, o escrito e o visual se complementam.

O livro está se metamorfoseando. O leitor também tem que se metamorfosear. Como têm que se modificar o editor, o livreiro, o jornalista, o publicitário e todo o sistema da escrita e de representação simbólica. De certa maneira somos todos neo-analfabetos.

Quero dizer que os “leitores virtuais” se adiantaram. A indústria fonográfica está caçando avidamente seu público, as lojas virtuais estão pululando. Por que a indústria da produção do livro tarda tanto em descobrir a indústria da leitura? Por que disputar os mesmos minguados leitores entulhando toneladas de livros que serão rapidamente destruídos antes de serem lidos?

É como se os habitantes da Somália e da Etiópia, famintos, tivessem que assistir no seu acampamento de refugiados a alguns se banqueteando e jogando comida na lata de lixo enquanto eles morrem à mingua.

E O BRASIL NISSO?

Fomos envoltos por uma tsunami. Só que a onda (terceira, quarta, quinta?) envolve todo mundo, dá volta ao globo e causa modificações de acordo com a natureza ou acidentes geográficos e culturais de cada região.

Em tempos de feroz globalização, é bom lembrar que a antropofagia é própria dos seres vivos, e que Darwin tem razão ao falar da seleção das espécies. Temo, porém, que as espécies mais ferozes, não necessariamente as mais inteligentes, sobrevivam.

Quando me refiro à leitura, estou me referindo também à liberdade. A verdadeira leitura liberta e problematiza a própria leitura e a própria liberdade. O livro em si, ou a leitura fanática de uma única obra ou pensamento, não amadurece o indivíduo e a sociedade. Há sociedades que deram o livro ao povo, mas não deram liberdade de pensamento. Quando estive na Rússia, exatamente na semana em que o comunismo acabou, há 20 anos, naquele mês de agosto de 1991, reuni-me com editores soviéticos e soube para meu espanto que tinham mais de 200 mil bibliotecas. E nem por isso… Também as edições dos autores oficiais do partido, mesmo poesia, chegavam a milhões de exemplares. E nem por isso…
Em algumas ocasiões tenho dito que provavelmente somos a última geração letrada. Gostaria de estar equivocado, que o futuro me desmentisse. Ou que descobrisse, descobríssemos formas novas de ler. Se olharmos a história do Brasil, podemos detectar três momentos culturais e econômicos relevantes que nos forçam a uma decisão crucial no presente:

1. A febre do ouro e das pedras preciosas ocorreu aqui quando éramos colônia e essa riqueza escoou para os cofres dos dominadores. Isso foi diferente do que sucedeu com os Estados Unidos, que já eram independentes quando a “corrida do ouro” iniciou-se na costa leste.

2. Tendo perdido essa chance, perdemos também a chance da revolução industrial nos séculos 18 e 19, porque aqui predominavam a escravidão e a cultura agrária; e a coroa brasileira era apenas cliente dos produtos industrializados europeus.

3. Estamos diante da revolução digital. Se perdemos as duas revoluções anteriores, hoje há algumas coincidências: a revolução digital chega com a avassaladora globalização, no momento em que o Brasil auto-suficiente de petróleo incorpora outras classes e descobre o pré-sal.
Repito, para terminar: o verdadeiro pré-sal é a cultura e/ou a leitura. Os animais, os peixes, as árvores e até as bactérias lêem constantemente o mundo antes de tomarem qualquer decisão. Por que o ser humano insiste em andar às cegas no universo da comunicação?


[1] Revista da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) – julho/agosto 2011. Entrevista de Nelson Marangoni a Francisco Gracioso.

[2] Panorama Editorial. Câmara Brasileira do Livro, # 60, 2011.

[3] Idem, p. 37 e 38.

[4] Ver do autor deste ensaio: “Ler o Mundo”, Ed. Global, 2011.

[5] “Depois que inventaram o computador, as livrarias nem sempre compram os lançamentos, mas ficham tudo que está sendo publicado. Usam os cadernos literários para fazer o registro das novidades no computador. Então é comum acontecer o seguinte: o cliente passa numa livraria e pede um exemplar, por exemplo, de Curral de peixes: “O vendedor vai ao computador, digita o nome do autor, e em segundos tem as informações necessárias. O cliente quer o livro, mas aí o balconista diz que acabou de vender o último, e pergunta: “Quer esse livro para quando? Se mandar buscar amanhã, eu arranjo”. O cliente faz a encomenda, e só então esse funcionário telefona para a editora, ou passa um e-mail: “Mandar urgente. Se não for entregue em 24 horas, considerar anulado o pedido”. Ou seja, só nos pedem o livro com comprador certo”. Mesa redonda “A situação do livro no Brasil”, 21.11.2001, na Academia Brasileira de Letras.

[6] Em 2002 correu pela internet um manifesto de professores “contra a exclusão da literatura no Ensino Médio” no Rio de Janeiro. Na ocasião escrevi uma crônica (“Acabar com a literatura?”) que está em “Ler o mundo”, Ed. Global, 2011.

[7] Ler “Como se faz a indústria do vestibular”. Sonia Guimarães, Ed. Vozes, 1984, p. 13: “no período 1964-68 cresceu em 120% o número de inscritos nos exames vestibulares, taxa muito superior ao aumento do número de vagas oferecidas nesse mesmo período, que foi de 56%. Criou-se então o impasse e, com ele, o drama dos excedentes que cresceram 212% entre 64 e 68, 125 mil alunos, em todo o país, que passaram não conseguiram entrar na universidade por falta de vagas”.

[8] Ver “Ler o mundo”, ob cit: “Bibliotecas, alguns prefeitos são contra”.

[9] A leitura literária na Escola Pública Potiguar – IDE – Natal, 2011, p. 21.

[10] Entre tantos que escreveram sobre isto destaque-se o livro de Umberto Eco e Carrière: “Não contem com o fim do livro”. Ed. Record, Rio, 2010.

[11] No Seminário Nacional de Mediadores de Leitura, realizado em São Paulo em 2010, e que reuniu autoridades do MEC, MINC e de outros ministérios, me foi pedido que redigisse o seguinte documento aprovado pelos colegas: CARTA DO SEMINÁRIO NACIONAL DE MEDIADORES DE LEITURA
Os abaixo-assinados, escritores, professores, contadores de histórias, bibliotecários, membros de entidades ligadas à promoção da leitura, e representantes de vários ministérios, presentes no Seminário Nacional de Mediadores da Leitura, realizado em São Paulo de 12 a13 de março, discutindo questões relativas à realidade brasileira achamos por bem encaminhar às autoridades competentes as seguintes considerações:
  1. nas últimas décadas, a questão da leitura como instrumento de desenvolvimento não apenas pessoal, mas econômico e social tornou-se de tal modo evidente que vários países incrementaram estratégias para debelar tanto o analfabetismo quanto o analfabetismo funcional;
  2. no Brasil, também nas últimas décadas, foram criados inúmeros programas de promoção da leitura, que têm modificado a vida de milhares de pessoas no campo e nas cidades. A leitura deixou de ser uma preocupação apenas escolar e transformou-se em instrumento de cidadania e inclusão social sendo um agente eficaz na prevenção ao crime e à miséria;
  3. é possível realizar, e já existem, programas de leitura em quartéis, hospitais, presídios e comunidades marginalizadas. Seja entre camponeses, quilombolas e indígenas e em muitas cidades é possível se institucionalizar o ‘agente de cultura’, como quem vai topicamente desencadear ações modificadoras em todo o país;
  4. assim como o governo entende que a estabilidade do valor da moeda é uma questão de estado que transcende os governos passageiros, a leitura é a moeda, é o valor que credencia o indivíduo a ser um cidadão permitindo ao país se desenvolver. Com efeito, na modernidade, não existe nenhum pais próspero que não tenha passado pela revolução silenciosa do livro e da leitura. E a leitura, como gesto de comunicação, tornou-se a chave para o ingresso no século 21.
  5. chegou, por isso, o momento em que essa malha de manifestações existentes, pelo seu natural amadurecimento, requer uma outra dimensão na sua estratégia e na sua execução. É fundamental e recomendável que, reconhecendo a importância dessa questão, a promoção da leitura deixe de ser apenas uma preocupação do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação, para se transformar também numa ação interministerial priorizada pela Presidência da República.
[12] Em 17 de março de 2009, por exemplo, Cleide Soares, do Ministério de Desenvolvimento Agrário, informava por carta: “Ficamos muito gratas pela lembrança do Programa Arca das Letras (…) Esta semana estamos levando mais bibliotecas áreas rurais, indígenas e quilombolas de Sergipe (40), Pernambuco (13), Ceará (16) e Mato Grosso (8). 77 novas comunidades terão acesso à leitura e isso nos agrada bastante (…) Já são mais de 13 mil agentes de leitura atuando no meio rural”.

[13] “Brasília foi outra oportunidade perdia pela biblioteconomia brasileira para afirmar-se como força social. Na memória do Plano Piloto, Lúcio Costa fala vagamente de uma biblioteca no setor cultural da cidade. Perguntei uma vez ao genial urbanista e arquiteto por que as unidades de vizinhança tinham tudo — escolas, clubes, igrejas, ruas de comercio local, cinemas, bancas de revistas, postos de gasolina, supermercados, menos bibliotecas. Ele me confessou que se esquecera (sic), ‘porque esse negócio de biblioteca popular nunca funcionou no Brasil”. (in “Acertos e desacertos da biblioteconomia no Brasil”, Recife, Flamboyant, 1993). Citado também em “Ler o Mundo”.

[14] Sobre isso, para mais detalhes, ver meu depoimento em “Ler o Mundo”. Ed. Global, SP, 2011.

[15] Ver Monteiro Lobato: a recriação do livro no Brasil, Apostolo Neto – Revista Espaço Acadêmico, # 28, set 2003, citando Edgar Cavalheiro:

“É quando surge Monteiro Lobato. Tendo impresso por sua conta, nas oficinas d’O Estado de São Paulo, mil exemplares de Urupês, verificara, ao ter os volumes prontos para venda, que em todo o território nacional existiam somente trinta e poucas casas capazes de receber o livro. Não era possível, por tão poucos canais, o escoamento daquilo que se lhe afigurava um despropósito de volumes. Dirige-se, então, ao Departamento dos Correios, solicita uma agenda e constata a existência de mil e tantas agências postais espalhadas pelo Brasil. Escreve delicada carta-circular a cada agente, pedindo a indicação de firmas ou casas que pudessem receber certa mercadoria chamada ‘livro’. Com surpresa recebe respostas de quase todas as localidades. De posse de nomes e endereços assim obtidos, procura entrar em contacto com os possíveis clientes, escrevendo-lhes longa circular, portadora de original proposta: ‘Vossa Senhoria tem o seu negócio montado, e quanto mais coisas vender, maior será o lucro. Quer vender também uma coisa chamada livro? V. Sª não precisa inteirar-se do que essa coisa é. Trata-se de um artigo comercial como qualquer outro, batata, querosene ou bacalhau. E como V. Sª receberá esse artigo em consignação, não perderá coisa alguma no que propomos. Se vender os tais ‘livros’, terá uma comissão de 30%; se não vendê-los, no-los devolverá pelo Correio, com porte por nossa conta. Responda se topa ou não topa’.

Segundo Edgar Cavalheiro, o expediente lobatiano funciona perfeitamente, pois: Quase todos toparam, e Lobato passou dos trinta e poucos vendedores anteriores, que eram as livrarias, para mil e tantos postos de vendas, entre os quais havia lojas de ferragens, farmácias, bazares, bancas de jornal, papelarias. O comércio de livros, que modorravam numa rotina galega, ganha impulso insuspeitado. As edições, que antes não ultrapassavam 400 ou 500 exemplares, e assim mesmo muito espacejadas, pulam imediatamente para três mil exemplares, e começam a surgir quatro, cinco, seis e até mais livros por mês.

[16] Borba de Moraes em “Testemunha ocular”. Briquet de Lemos, Brasília, 2010, diz na p. 218: “A leitura seria feita e os estudantes seriam atendidos nos bairros, onde existiriam, para começar, dez bibliotecas localizadas de acordo com a densidade de população”.

[17] Quando assumi a Fundação da Biblioteca Nacional (1990) encontrei em Brasília 200 mil exemplares do INL encalhados, que distribuí imediatamente para as bibliotecas.
 
AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA
É poeta, cronista e ensaísta. Autor de Que país é este?, entre outros. Vive no Rio de Janeiro (RJ).