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segunda-feira, 21 de junho de 2010

Caminho da leitura passa pela felicidade

Luciana La Fortezza

Sem relação emocional e incentivo de pais e professores, é muito difícil fazer com que crianças e jovens leiam livros

“Leitura é uma forma de felicidade e nenhuma felicidade pode ser obrigatória.” A frase do escritor Jorge Luis Borges mostra o caminho a ser trilhado para reverter a preocupante realidade do País, onde apenas um em cada cinco cidadãos tem o hábito de ler. Se a literatura é um devaneio, que trata especificamente da condição humana, de seus êxitos, sonhos, amores e sofrimentos, como explicar o fato de tantos brasileiros estarem alijados desse prazer?

Seja pelo convidativo sol forte, pelo dado genético que nos propicia molejo nos quadris, pelo intenso apelo da imagem (trabalhada na televisão para ser consumida imediatamente, sem qualquer esforço) ou pela pobreza material capaz de tornar supérfluo um livro, um batalhão de pessoas jamais se encontrou ou se descobriu na literatura. Sem a relação emocional, é difícil transformar leitura em hábito.

Se encontrar um companheiro próximo ao ideal exige esforço, humildade para com o amigo interessado em apresentar uma pessoa especial, além de paciência para identificar virtudes e defeitos do outro, com os livros parece não ser muito diferente. Em alguns casos, o amor à primeira vista acontece e cedo. Para grande maioria, o enlace ocorre mais tarde, após a apresentação de vários títulos. Um dia, a identidade se dá com um deles e, finalmente, começa a história de amor com a literatura.

O trajeto, no entanto, não é fácil. Como grande parte das famílias não tem o hábito de ler, inclusive por conta do contexto socioeconômico, resta às escolas fazer a introdução. Eis aí um novo obstáculo. Parte dos professores também não é leitor. Oriunda das classes populares, muitos consumiram leitura massificada. E é com base no repertório que indicará livros aos próprios alunos.

“Na escola, praga mesmo não é o professor que não manda ler, é o professor que não lê. Quem não lê não sabe o que está perdendo e, portanto, não tem por que aconselhar ou criar oportunidades para que outros leiam. A experiência de leitor é intransferível”, afirma Sírio Possenti, doutor em linguística pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Não por acaso, muitas leituras na escola são feitas de modo impositivo, com objetivos práticos e utilitários, sem qualquer relação com a realidade dos alunos. A partir daí, fácil entender a resistência construída com o passar dos anos. Difícil é reverter a situação.

Mudar esse contexto exige do professor (muitas vezes de alunos já da graduação) habilidades múltiplas. Para cavar espaço para o texto literário, alguns promovem leituras coletivas, dramatizadas e realizam oficinas, por exemplo. Empenho para garantir ao outro um prazer que acalanta a vida e, de quebra, oferece noções como de filosofia, geografia e política.

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Exemplo de prazer precisa estar em casa

De preferência, a criança precisa ter um modelo em casa para desenvolver o hábito de leitura, diz o professor de Libras Luis Mateus da Silva Souza, da Universidade do Sagrado Coração (USC). Na opinião dele, quanto mais cedo a criança tiver acesso a livros, melhor.

“Se os pais não leem em casa, por mais que incentivem, se a criança não está vendo que é gostoso, que eles fazem também, acaba não sendo motivada. Os pais têm de ler para a criança, com a criança e ler sozinhos também. De modo geral, a leitura é importante, independentemente se for para informar, divertir ou passar o tempo. Mas é preciso ter contato com bons textos”, explica.

O quanto antes tiver acesso ao material de qualidade, mais cedo terá condição de desfrutar de clássicos literários, em que o grau de dificuldade é maior. “Na hora de premiar uma criança, deve-se fazê-lo com livro. Às vezes, a criança tem acesso a computador, videogame, mas nunca ganhou um livro”, comenta.

Não é o caso de Iara Souza Godoi, 3 anos e 9 meses. Quando ela tinha apenas 2 meses, a mãe dela entrou numa corrente de livros infantis. A partir de então, passou a construir o próprio acervo, conta Gretta Rodrigues de Souza.


Psicóloga, ela nunca deixou de lado seus próprios livros, que continuam ocupando espaço na cabeceira da cama. Não é raro quando ela e a filha Iara, cada qual com seu livro, se deitam na cama para aproveitarem, individualmente, algum conteúdo.

Atenta às fases da filha, Gretta procura histórias que possam contribuir com cada momento. Iara ainda recebe títulos das primas, Nathália, de 11 anos, e Maiah, de 6 anos, também ‘chegadas num livro’.

Por conta do gosto delas e do filho mais velho, Mateus (12 anos), a dona de casa Michelle Gaio comprou um livro com 365 histórias, uma para cada dia do ano. “Sempre leio. É uma leitura em família. Adoram”, comenta.

Atualmente, no entanto, Michelle tem se preocupado com a leitura do primogênito, considerada por ela como ‘pesada’. “Estou quase tirando”, comenta. No caso dos três irmãos, o gosto pelas palavras também vem do berço.

O pai é compositor, tem material espalhado por todos os cantos da casa. Além disso, os pais se atentam para a preferência dos filhos. Segundo especialistas, existem livros para cada faixa etária.

“Mas é importante ressaltar que não podemos levar à risca as dicas. Embora exista certo padrão de gostos e gêneros textuais para cada faixa etária, é preciso estar sensível, ter uma visão apurada para promover situações de leituras e escolher livros apropriados para cada realidade encontrada”, acrescenta o professor da USC.

De acordo com Luis Mateus, as recomendações para crianças dos 10 aos 12 anos são exemplo. “É perfeitamente possível e até um tanto quanto frequente encontrarmos crianças e pré-adolescentes que não estão tão familiarizados com o ato da leitura e, com isso, podem não apreciar livros mais densos, maiores e sem imagens”, observa.

Na visão do professor, esse aspecto pode ser relevante porque o hábito da leitura não é tão difundido, de modo geral, nas famílias brasileiras. “Algumas crianças chegam a ter contato com livros da literatura infantil e infanto-juvenil somente na escola”, conclui.

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A gente faz o livro

A estudante Nathália de Camargo Barath, 9 anos, gosta de ler. Por conta das gravuras, elegeu a “Bíblia para Crianças” como sua obra preferida. Ganhou da madrinha. Mas é no pai que se espelha para debruçar-se sobre as palavras. “A gente fez até um livro”, comenta empolgada. “Depois que pegamos o jeito, vai”, diz Willy Barath Jr, pai dela.

No ano passado, ele leu cinco títulos. Em 2010, já foram três. “Eu comento muito com a minha esposa sobre o que leio e a Nathália ouve, presta muita atenção. Incentiva. O exemplo é fundamental”, garante. Na opinião dele, o hábito passado de pai para filha deve facilitar para a pequena na elaboração de redações, por exemplo.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Ecofuturo - Projeto Biblioteca Comunitária Ler é Preciso

Conheça o projeto Biblioteca Comunitária Ler é Preciso, que contribui com a formação leitora de crianças, jovens e adultos, por meio da democratização do acesso ao livro de qualidade.



Fonte: Ecofuturo

sábado, 20 de março de 2010

O mundo em quadrinhos

Gênero popular entre crianças e jovens – e paixão de muitos adultos –, as HQs vêm conquistando cada vez mais espaço entre os leitores brasileiro

Asterix, Batman, Cebolinha, Diomedes, Elektra, Frajola, Graúna, Haroldo... O abecedário dos personagens das histórias em quadrinhos dá a dimensão da versatilidade dessa que é considerada uma forma de arte por seus adeptos. São tantas as possibilidades de criação de imagens, traços e idéias, que a história da HQ anda lado a lado com a da tecnologia e da ideologia. A trajetória dos quadrinhos no Brasil começou a engatinhar no século 19 e teve seu primeiro boom na primeira metade do século 20 (veja boxe Era uma vez...). Idolatrados por crianças e adolescentes, os quadrinhos foram por muito tempo tachados como produtos de segunda. Mauricio de Sousa, criador da Turma da Mônica, começou a publicar suas tiras em 1959, “na base da ignorância”, como diz. “Eu ignorei quando diziam que não ia dar certo, que quadrinho dava preguiça mental, que fazia a criança não ler”, conta. “Hoje temos pesquisas sérias que dizem que as crianças que lêem quadrinhos têm melhor desenvolvimento do que as que não lêem.” No fim dos anos de 1960, em plena ditadura militar, Mauricio de Sousa já publicava suas tiras em cerca de 300 veículos, de onde migrou para as revistas próprias, hoje vendidas no mundo inteiro. Com o fim da ditadura e da censura, os quadrinistas ganharam mais liberdade, embora muitos reclamem de um excesso de “politicamente correto” exigido nas publicações. “Todos sofremos um pouco da influência do politicamente correto, para bem ou para mal”, diz Mauricio de Sousa. “Mas eu concordo com algumas coisas. Por exemplo, que numa história endereçada para crianças, o Cebolinha não piche mais os muros. A Mônica quando estava com raiva arrancava árvores do chão, e o Chico Bento aparecia com um machado para cortar lenha. Hoje estamos preocupados com a conservação do meio ambiente.” O pai da Mônica conta também que antes sua “filha” aparecia batendo no travesso Cebolinha, mas que hoje restaram só os “socs”, “tuns” e pofs”. “Ou seja, só as onomatopéias e a poeira levantando”, afirma Mauricio. “Porque eu não quero mais mostrar esse tipo de agressão. Quer dizer, não é só a influência do politicamente correto, nós mudamos também”, sentencia o quadrinista, que completará 50 anos de atividade em 2009.


Para maiores


A concorrência gerada pelas novas tecnologias de comunicação e meios de entretenimento, especialmente a televisão, afetou a demanda por quadrinhos. Segundo Waldomiro Vergueiro, professor e coordenador do Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos da Universidade de São Paulo (USP), a realidade atual das HQs é a aposta na diversificação de públicos e produtos. “Só no ano passado, foram mais de 1.300 títulos lançados e com uma variedade jamais vista no Brasil”, explica. “Com destaque para novas produções no estilo underground, reedição em coletâneas e quadrinização de obras literárias.” Hoje, existem quadrinhos para crianças, jovens e adultos, com temas que vão dos super-heróis à política, do surreal à crítica social. “Os quadrinhos são espaço livre para experiências, e, passada a adolescência, os leitores buscam produtos com maior profundidade narrativa, que tratem de temas mais ousados e incluam aspectos eróticos e realistas da vida social, como acontece em várias graphic novels [como são chamadas as HQs em inglês] e mangás [estilo japonês de quadrinhos]”, afirma Vergueiro.

Segundo José Alberto Lovetro, mais conhecido como Jal, quadrinista na ativa há 35 anos e criador do Troféu HQMix (veja boxe E o prêmio vai para...), o maior mercado do mundo de quadrinhos é o japonês, no qual um único título semanal chega a vender de 5 a 8 milhões de exemplares – o que faz do quadrinho uma mídia tão forte quanto a televisão. Já o Brasil, ainda segundo Jal, tem um potencial muito grande. “Nós temos os melhores desenhistas do mundo, e muitos publicando para fora do Brasil. O Ivan Reis é um que desenha para os Estados Unidos e ganhou, no ano passado, o prêmio de melhor desenhista norte-americano, embora seja brasileiro e more aqui em São Bernardo”, revela o quadrinista.
No Brasil, os já consagrados Angeli, Laerte, Glauco, Adão Iturrusgarai e Fernando Gonsales dão continuidade à herança de Henfil na crítica de costumes, crônica de experiências pessoais, humor irreverente e exploração de temáticas sexuais por meio dos quadrinhos. Por outro lado, uma nova geração de artistas começa a incorporar outras referências e experimentar linguagens. Um exemplo são os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, que há uma década publicam a série 10 Pãezinhos. As histórias são sobre amizades, amores e ilusões, recheadas de autobiografia e metalinguagem. Os gêmeos e seu traço característico são conhecidos também por sua versatilidade. Além dos personagens próprios, a dupla já quadrinizou a obra O Alienista, de Machado de Assis, e Rock’n’Roll, com Bruno D’Angelo e Kako, duas outras novas caras do quadrinho nacional.

Na mesma linha underground, mas com uma temática mais densa, Lourenço Mutarelli tem uma galeria de personagens tomados pela depressão urbana. O criador de O Dobro de Cinco, Transubstanciação, Mundo Pet e O Cheiro do Ralo – levado às telas em filme homônimo de 2007 dirigido por Heitor Dhalia – é muitas vezes personagem de suas histórias. Para Mutarelli, criar “é catarse, exumação de fantasmas interiores”. Tudo por meio de um realismo fantástico, grotesco, instável e trágico. Para o quadrinista Jal, mesmo com o fim de algumas séries, a HQ adulta “está em efervescência”. Por outro lado, ainda falta incentivo. “Embora pequenas editoras estejam investindo, ainda falta acreditar nos nossos novos artistas”, conclui.

Saiba mais:
http://www.terra.com.br/jovem/
http://www.portaldarte.com.br/


Era uma vez...

As primeiras páginas da história da HQ no Brasil
 
A história em quadrinho no Brasil começa em 1869 com As Aventuras de Nhô Quim, de Ângelo Agostini, considerado o precursor da linguagem gráfica seqüencial no país. Embora se possa pensar que os quadrinhos começaram direcionados para o público infantil, esse primeiro personagem era um caipira que viajava à capital do Império e entrava em conflito com os costumes urbanos. Mas essa história toma forma mesmo no início do século 20:


Anos 1900

O Tico-Tico é a primeira revista infantil brasileira a publicar histórias em quadrinhos, e reinou sozinha por vários anos. A maioria dos personagens e tramas, porém, são reproduções de originais estrangeiros.


Anos 1930
O jornalista Adolfo Aizen começa a publicar o Suplemento Juvenil, como era o modelo norte-americano. Para concorrer com ele, Roberto Marinho lançou o Globo Juvenil. No entanto, os personagens ainda eram importados, como os norte-americanos Flash Gordon, Mandrake, Tarzan, Popeye e Mickey.

Anos 1940

Lançamento da revista Gibi, nome que virou sinônimo de revista em quadrinhos aqui no Brasil. Entre as HQs apresentadas, ainda estão os gringos – Ferdinando, de Al Capp, e Barney Baxter, de Frank Miller –, mas Adolfo Aizen pela primeira vez investe na quadrinização de romances clássicos brasileiros.




Anos 1950

O time brasileiro dos quadrinhos entra em campo. São os adultos O Amigo da Onça (desenho), de Péricles Maranhão, e o Pererê, de Ziraldo, com mensagens ecológicas. Carlos Zéfiro corre por fora, desenvolvendo e vendendo seus, hoje clássicos, quadrinhos eróticos clandestinamente.

 
 
 
Anos 1960

Mauricio de Sousa começa a publicar as tirinhas do que viria a se tornar a Turma da Mônica, grande sucesso editorial no Brasil e no exterior, e Ziraldo lança seu “gibi” mais famoso: o Pererê (desenho).






Anos 1970

A censura do período militar não poupa os quadrinhos, que ficaram mais restritos, dispersos e sem regularidade. De qualquer forma, publicações como O Pasquim, com suas tiras sociais de Jaguar e de Henfil, criador da Graúna e dos Fradinhos (desenho), conseguem driblar a tesoura da ditadura. Na mesma época, o fanzine O Balão, criado por Laerte e Luiz Gê, revela autores consagrados até hoje, como os irmãos Paulo e Chico Caruso, e ainda Kiko e Angeli.

Anos 1980

Com a redemocratização, a imprensa abre espaço para os quadrinhos de Laerte, com os Piratas do Tietê (desenho), Angeli, com Chiclete com Banana, Glauco, com Geraldão, Chico e Paulo Caruso, com Avenida Brasil e Fernando Gonsales, com Níquel Náusea. Laerte, Angeli e Glauco criam ainda a célebre Los Três Amigos, HQ que satiriza, por meio de temas brasileiros, o clima western dos Estados Unidos.




Anos 1990/2000

A editora Devir começa a publicar quadrinhos importados e a investir em novos autores brasileiros, como Lourenço Mutarelli e os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá (desenho), para serem vendidos em livrarias. Saindo da segregação das bancas de jornal, os quadrinhos ganham novo impulso.

E o prêmio vai para...

Já na sua 20ª edição, o HQMix premiou os melhores do mundo dos quadrinhos




 
 
 
 
 
Na onda dos quadrinhos, o Sesc Pompéia sediou, em julho, o 20º Troféu HQMix, premiação reconhecida internacionalmente. Apresentado pelo televisivo Serginho Groisman, o evento foi realizado no 23 de julho e presidido pela professora e escritora Sonia Bibe Luyten. A votação foi feita em maio baseada nas indicações da comissão de organização formada pela Associação dos Cartunistas do Brasil (ACB) e pelo Instituto Memorial das Artes Gráficas do Brasil (Imag). Foram cerca de 1.200 profissionais da área que votaram nas mais de 40 categorias, sendo as principais as de desenhistas e roteiristas. A cada ano, novas categorias surgem, mostrando a efervescência do mercado brasileiro de quadrinhos.


Aproveitando o mote, a unidade incrementou sua programação de julho com o HQ Férias. Foram várias atividades gratuitas, incluindo a exposição A História dos Quadrinhos no Brasil, recriada por Gualberto Costa, o Gual, e José Alberto Lovetro, o Jal, criadores do HQMix. Aconteceram também apresentações de peças de teatro, que se misturaram com a linguagem dos quadrinhos, e o Cine Teatro HQ, uma mostra de animação com vários curtas e longas-metragens. “Os ingressos esgotaram”, conta Lúcia Lopes, técnica do Sesc Pompéia. “Fez sucesso também a grande área de interação que a gente fez para as crianças desenharem, brincarem e descobrirem a linguagem do HQ.”

No Sesc Ipiranga o quadrinho aparece para lembrar um dos maiores compositores da história contemporânea da MPB. Como parte das atividades do projeto Cazuza – O Tempo Não Pára, em cartaz até 31 de agosto, que mistura música, cinema e poesia, aposta na versatilidade da HQ para homenagear os 50 anos de nascimento do poeta e vocalista ícone dos anos de 1980. “Nós queríamos fazer algo original, jovial e que pudesse ser colocado na voz do Cazuza, incorporando o que ele pensava das coisas, suas tristezas e alegrias”, diz Suzana Garcia, técnica da unidade e idealizadora do projeto. A partir dessa idéia e baseada em depoimentos do próprio compositor compilados pelo produtor Ezequiel Neves, grande amigo de Cazuza, o coletivo O Contínuo desenvolveu uma HQ com os pensamentos e memórias do cantor. São frases sobre a vida, a família, a música e a política do complicado contexto social que o país atravessava nos loucos anos de 1980. Os desenhos são de Alcimar Frazã e o roteiro de Pedro Felício e Dalton Correa. “Eu sou fã do Cazuza e nós d’O Contínuo sempre tivemos uma predileção por misturar música e quadrinhos”, diz Pedro Felício. “Passamos dois meses fazendo uma pesquisa de imagens dele e de suas referências, e encontramos soluções muito legais de como colocar tudo aquilo em desenho.”

Em busca do jovem leitor

Na era da internet, o adolescente intensifica o contato com os textos e faz cair por terra o mito de que não tem interesse pela literatura.

A cada lançamento da saga do bruxo adolescente Harry Potter, criado pela escritora britânica J. K. Rowling, as livrarias de toda a metade ocidental do mundo se viam invadidas por um contingente extra de clientes entre os 12 e 18 anos. Isso sem contar os ansiosos que realizavam uma verdadeira caça na internet em busca de trechos, versões, comentários ou qualquer outro texto sobre o assunto que pudessem ser consumidos avidamente antes da chegada dos livros às prateleiras. A despeito da qualidade literária desse material, o sucesso desse tipo de leitura – não somente a do bruxinho, mas também de outras sagas, como O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, As Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis, e Caçadores do Crepúsculo: Vampiros em Guerra, de Darren Shan, entre outros – tem chamado a atenção de estudiosos da área da literatura e educação.


O que essa aceitação fenomenal revela? A engenhosidade marketeira dos autores e editoras ou um adolescente que mantém o hábito de ter um livro na cabeceira? “Eu não tenho dúvidas de que o jovem de hoje lê mais”, afirma a doutora em teoria e história literária Célia Regina Delácio Fernandes, especializada em literatura infantojuvenil. “Hoje a gente vive no mundo da escrita, e o que a sociedade atual demanda? Leitura. O mundo do jovem é todo rodeado de escrita. Se a gente for pensar que nos chats [salas de bate-papo], Orkut [rede de relacionamento], blogs [espécie de diário online que permite rápida atualização], e-mails, MSN [sistema de troca de mensagens online pela internet] e tudo mais, a gente vê que isso faz parte do mundo dele.”

A professora de literatura infantil e juvenil da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da Universidade de São Paulo (USP), Maria Zilda da Cunha acredita que todos esses recursos trazidos pela internet criaram um leitor jovem de múltiplos suportes. “O jovem de hoje lê formas diferentes, porque ele tem à disposição uma multiplicidade de linguagens”, explica. “Logo, nesses termos, ele lê mais. O que ocorre é que com essa disponibilidade de linguagens que ele tem à sua volta, e essa necessidade de ler tanta coisa, o tempo dele para a literatura impressa é menor, porque o tempo dele fica mais dividido.”

Célia Regina, também diretora da Faculdade de Comunicação, Artes e Letras da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), no Mato Grosso do Sul, defende a tese de que, seja no papel, seja na tela do computador, a questão a ser estudada não é a falta de interesse do jovem pela leitura, mas, sim, o que esse jovem tem lido.

“O que acontece é que o jovem não está lendo, muitas vezes, o que a escola gostaria que ele lesse, o que nós, especialistas, gostaríamos que ele lesse”, afirma. “Mas o que ocorre é que o jovem, como qualquer outra pessoa, vai ler à medida que aquela leitura tenha algum significado na vida dele, é preciso que tenha alguma finalidade.”
Qual literatura?


Com esse comentário, Célia Regina, autora do livro Leitura, Literatura Infanto-Juvenil e Educação (Eduel, 2007), expõe um antigo impasse na vida de alunos e professores: a leitura obrigatória, na sala de aula ou mesmo na preparação para o vestibular. “Geralmente nas séries iniciais, a escola consegue trabalhar melhor essa questão da leitura”, explica. “Porém, nessa passagem da adolescência, as coisas começam a se perder, porque é quando o professor quer trabalhar um tipo de leitura com que o adolescente não vê tanta proximidade, ele acaba lendo resumo ou pegando coisas na internet para dar conta das tarefas escolares.” Segundo a especialista, o perigo do fosso entre o que está na lista imposta aos alunos e o que está no seu foco de interesse nas livrarias e bibliotecas é o do distanciamento entre a escola e o jovem no âmbito da leitura. “Se o professor chega e fala que o que o jovem está lendo não presta, não é literatura, esse jovem vai pensar: ‘Poxa vida, o professor está dizendo que o que eu leio não serve, que só o que ele quer que eu leia é que serve, como é isso? Então fique aí com o seu Machado de Assis, com a sua literatura, que eu vou ficar aqui com os meus livros’.” Segundo as especialistas, é clara a barreira entre os alunos e os chamados clássicos da literatura nacional – obras de autores como Lima Barreto, José de Alencar e o próprio Machado, entre outros. “Uma opinião muito sincera minha é que, se não houvesse o vestibular, esses jovens não leriam esses livros”, afirma a professora Maria Zilda. “Eles têm um pouco de dificuldade, inclusive, de acesso à linguagem. Eles não buscam [esse tipo de leitura] com boa vontade.” A pesquisadora Célia Regina afirma que, em geral, falta maturidade para o jovem leitor brasileiro poder penetrar no universo dessas narrativas. “Entendimento pressupõe esforço”, diz. “Essas obras são mais complexas, de linguagem mais difícil, e essa complexidade é que mantém uma obra clássica perene. O texto pode até estar datado, mas as reações que isso pode provocar vão se renovar a cada leitura.” Por outro lado, segundo apontam as especialistas, a escola tem um papel fundamental de mediadora para que os jovens “façam as pazes” com os cânones da literatura nacional. “Para você ter esse prazer do texto, para ele provocar essa reação ligada à experiência, o jovem tem de ser apresentado para o clássico de uma maneira agradável, não como a escola tem feito”, analisa Célia Regina. “O professor só vai conseguir formar leitores se ele for um leitor. Ele tem que ter repertório, tem que seduzir os alunos para a leitura, ler muito em sala com eles. Mas você ainda tem um professor que coloca o aluno para ler e sai para conversar com o colega.”

Adaptações

Uma das saídas encontradas tanto pelos jovens quanto pelos professores e pelas editoras têm sido as adaptações desses livros. Na maioria dos casos, o recurso utilizado é a linguagem dinâmica das histórias em quadrinhos. O que, segundo apontam as pesquisadoras, tem seus prós e contras. “Essa questão da adaptação é bastante séria porque, quando você faz a tradução de uma mídia para outra, muda-se o código, o suporte, a linguagem, e a questão da fidelidade [com o texto original] não é a melhor”, analisa Maria Zilda. “Hoje temos muitas adaptações, que são tentativas de aproximação do jovem com os clássicos”, complementa Célia Regina.

“Do Machado de Assis, por exemplo, existe aquela série Reencontro, da [editora] Scipione, que adaptou Memórias Póstumas de Brás Cubas, mas, se você pega esse tipo de adaptação, vê que a mudança é muito radical, que não é mais Machado, é uma outra obra. Não sei em que medida esse tipo de adaptação faz com que o leitor vá depois ler o Machado.” No entanto, isso não significa que os quadrinhos sejam uma forma de leitura que deva ser desprezada. “Tenho verificado que alguns quadrinhos mostram adaptações extremamente engenhosas, que conseguem trazer aquilo que a gente chama de essência de literariedade”, afirma Maria Zilda.

Célia Regina conta que “quando os quadrinhos chegaram ao Brasil foram muito criticados”, mas que hoje se sente uma mudança de visão. “Havia um discurso, nos anos de 1950, segundo o qual não se devia deixar o aluno ler quadrinhos porque isso o afastaria da leitura, por ser uma linguagem muito facilitada etc.”, continua.

“Hoje, agora em 2009, o Ministério da Cultura (MEC) incluiu as histórias em quadrinhos na compra governamental. O governo comprando quadrinhos para distribuir para as escolas é algo inédito.”

O apelo da imagem


De acordo com o professor Elydio dos Santos Neto, do mestrado em educação da Universidade Metodista de São Paulo e que estuda o potencial das histórias em quadrinhos para a formação de educadores, de fato, durante muito tempo houve um grande preconceito por parte da academia com relação às HQs. “Elas eram vistas como um artefato cultural ‘menor’, de ‘segunda categoria’”, informa. “Mas, nas últimas décadas, [os quadrinhos] estão conquistando espaços privilegiados não apenas nas universidades, mas também nas livrarias, ampliando, inclusive, os gêneros nos quais são elaboradas.” Sobre o “potencial literário” do gênero, o professor prefere esclarecer que se trata de linguagens diferentes, cada uma com seus recursos próprios. “Os textos literários descrevem, em diversos estilos, cenas que são mentalmente recriadas pelos leitores”, explica. “Os quadrinhos apresentam, na combinação de imagem e texto, situações em que o ‘mergulho’ e a ‘viagem’ são acelerados pela provocação imagética já fornecida, mas que serão também recriadas e ressignificadas pela subjetividade do leitor.” De qualquer forma, a combinação “adolescentes e HQ”, segundo o especialista, pode tranquilamente ser vista com bons olhos. “As histórias em quadrinhos têm também potencial para a formação de leitores. Mas, mais do que isso, elas favorecem o desenvolvimento de uma maneira diferente de olhar e pensar a realidade.”

Bruxos, anéis e vampiros

Assim como as histórias em quadrinhos, outra febre entre os leitores adolescentes são os best-sellers estrangeiros, séries como O Senhor dos Anéis e o fenômeno Harry Potter. Ainda que alguns torçam o nariz para esse tipo leitura, questionando sua qualidade literária, há estudiosos que acham mais produtivo aceitar o fato de que essa tem sido a escolha de muitos jovens e que é possível, sim, usar isso a favor da educação. “Não vejo problema nesse tipo de leitura”, afirma a professora Célia Regina. “Ela tem a ver com a construção de um hábito de leitura nos jovens. Acho que a escola não pode ignorar isso, enquanto ela o fizer irá continuar com esse fosso entre ela e o jovem. E acho que esse tipo de leitura tem de ser não só respeitada como trazida para sala de aula, para a discussão. Vamos ver o que tem ali que está interessando tanto os nossos alunos.” Segundo a pesquisadora, esses livros atraem pelo universo fantástico que apresentam aos jovens. “Acho que, de certa maneira, esses livros trazem de volta a questão do encantamento, do sobrenatural, dos contos de fadas mesmo”, explica. “Se a gente for olhar para esses personagens, a gente vê que o Harry Potter, por exemplo, é um bruxo órfão de pai e mãe. Isso já cria uma empatia do leitor com relação a ele. E o tem o fato de ele ser bruxo; no caso do Crepúsculo é a saga do vampiro; enfim, a gente vê que, no fundo, existe uma retomada, um resgate do mundo mágico.” Para a professora Maria Zilda, o jovem de hoje vê nesses livros um universo de perspectivas, dado os desafios que são impostos aos personagens, que ele não consegue enxergar na sua realidade. “O jovem hoje tem poucos desafios”, coloca. “Quando se fala de proibições, eles não têm obstáculos a enfrentar. E, com isso, eles não desenvolvem aquele espírito do herói, que precisa passar por provas e realizar conquistas.” Na análise da pesquisadora, é justamente esse herói realizador que o jovem encontra nessas histórias. “O Harry Potter é um herói. Ele é um órfão que passa por mil peripécias.”

Outro ponto que se pode observar no fenômeno de aceitação desses livros é a quebra da noção de que o jovem da era da internet não teria paciência para a leitura mais atenta de narrações extensas. Afinal, os fãs do bruxinho Harry Potter têm de colocar debaixo do braço volumes que passam das 500 páginas, como é o caso do sétimo e último livro da série, Harry Potter e as Relíquias da Morte (Rocco, 2007). “Se interessar, os jovens viram noites e dão conta disso [do tamanho dos livros] rapidamente”, constata Célia Regina. “E realmente são livros bastante extensos.”

Palavras e imagens

Bibliotecas, gibitecas e exposições das unidades do Sesc São Paulo mostram ?como a leitura, em suas mais diversas formas, continua em pauta entre os jovens.

Mesmo tendo sido vistas com desconfiança no passado, as histórias em quadrinhos têm, cada vez mais, ganhado o respeito dos estudiosos de literatura e educação. E uma vez que as HQs sempre tiveram lugar cativo na cabeceira dos jovens, nunca foi tão saudável dividir um pouco o tempo e a leitura entre os livros e essas narrativas cheias de ação e imagens. “O mundo caótico em que vivemos é fruto de decisões reducionistas que temos tomado. E as histórias em quadrinhos trazem a contribuição de favorecer a atuação da sensibilidade”, explica o professor Elydio dos Santos Neto, do mestrado em educação da Universidade Metodista de São Paulo e que estuda o potencial das histórias em quadrinhos para a formação de educadores. “Isso provoca o desenvolvimento de outra maneira de ler o mundo e, conseqüentemente, de tomar decisões. Essa outra maneira tende a ser global e sensível e, contemporaneamente, somos carentes disso.” O professor esclarece, no entanto, que as HQs não dão conta dessa mudança sozinhas. Afinal, há quadrinhos e quadrinhos. “É preciso ser crítico e criterioso também na escolha de histórias em quadrinhos, como se deve ser com a escolha de qualquer artefato cultural produzido pela complexidade humana.”


Algumas unidades do Sesc São Paulo oferecem a oportunidade de tomar contato com o que há de mais rico na produção de histórias em quadrinhos. Seja no espaço da biblioteca – existente em todas as unidades – seja em projetos especiais, os “gibis” estão lá para ajudar a despertar o gosto pela leitura. No Sesc Vila Mariana, por exemplo, existe, desde 2005, o projeto Quadrinhando, que, a cada dois meses, ocupa o átrio da unidade. Lá os aficionados encontram revistas, livros especializados, participam de oficinas e trocam idéias sobre o universo desse gênero. A grade de atividades a cada edição acontece sob um tema. Já a unidade Piracicaba possui a maior gibiteca da rede Sesc. São 270 títulos, que, segundo explica o técnico Chico Galvão, buscam contar um pouco a história da HQ no Brasil e no mundo. “Privilegiamos as edições especiais”, diz Galvão. “Álbuns e edições com capa dura, que possibilitam o empréstimo ao comerciário e usuário da sala.” Aos cerca de 40 visitantes diários que a gibiteca recebe, são oferecidas também oficinas integradas com a Internet Livre, aproveitando o grande número de jovens que frequenta a sala de computadores. “A predominância é de jovens”, informa o técnico. “Mas temos também boa frequência de adultos. A faixa etária gira em torno de 7 a 16 entre os mais novos, mas temos também adultos de até 50 anos retirando gibis.”

No campo da literatura e internet, o Sesc Pinheiros apresenta, até 28 deste mês, a exposição interativa Blooks – Tribos e Letras. O nome vem da junção das palavras book (livro) e blog, união que, segundo a curadora da mostra, Heloísa Buarque de Holanda, professora titular de teoria crítica da cultura da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), representa a última palavra em produção literária: a internet como hospedeira de novas possibilidades de linguagem e suporte. “Quando eu fiz essa exposição [em 2007] eu contratei a Bruna Beber e o Omar Salomão, juvenilíssimos, blogueiros etc., para fazer a seleção dos trabalhos e depois me mostrar”, diz a professora. “Era tudo muito literário. Era fascinante porque aquilo provou que não é verdade que aquela linguagem [tradicional, do livro impresso] tenha perdido a densidade.”
 
O livro e a cidade



Coleção Ópera Urbana, voltada para o público infanto-juvenil, ?traz São Paulo como cenário e personagem das narrativas.
Resultado de uma parceira entre a Edições Sesc SP e a Editora Cosac Naify, a coleção Ópera Urbana reúne escritores e ilustradores para criar uma série de quatro volumes voltada para o público adolescente. “A coleção é composta de ficções inspiradas em espaços urbanos e cada uma delas é acompanhada por um libreto com curiosidades e informações paradidáticas”, esclarece Clívia Ramiro, coordenadora das Edições Sesc SP, vinculada à Gerência de Desenvolvimento de Produtos. “A ideia é trazer o jovem não apenas para mais perto da literatura como também de sua cidade.” Fazem parte da coleção os livros Cidade dos Deitados, de Heloísa Prieto (texto) e Elizabeth Tognato (ilustração); Montanha-russa, de Fernando Bonassi (texto) e Jan Limpens (ilustração); Surfando na Marquise (ilustração abaixo), de Paulo Bloise (texto) e Daniel Kondo (ilustração); e Avenida Paulista, de Augusto Massi (texto) e Carla Caffé (ilustração). “Foi do Augusto Massi a idéia de convidar vários autores para escrever sobre locais da cidade”, explica Heloísa Prieto, co-organizadora e idealizadora da coleção. “Pessoalmente, foi muito gratificante perceber os desdobramentos da proposta. Acabei me aproximando mais da cidade, sua história, seu cotidiano. Espero que a coleção desperte sentimentos semelhantes nos leitores”, conclui a autora.


Literatura virtual


Mesmo ainda longe de destronar o livro, a internet? tem formado uma geração de leitores digitais.
Em palestra no projeto Cartografia Literária, realizado pelo Sesc Consolação em agosto de 2008, a professora titular de teoria crítica da cultura da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Heloísa Buarque de Holanda, chamou a atenção para a volta de uma atividade literária mais vigorosa promovida pela internet. Segundo ela, foi pelo computador que se fez um resgate de uma dinâmica criada no papel. “Você tem uma vida literária de uma intensidade absurda na internet”, disse na ocasião. “Sou professora e sempre me deparo com aquelas perguntas chatas: ‘Mas isso é literatura?”, ‘não seria uma literatura menor?’. Acho que a resposta não interessa, pelo menos não para mim.”


Heloísa afirma ainda que um dos pontos mais interessantes de observar na escrita desenvolvida na rede é o diálogo que ela possibilita entre autores e leitores. “É uma conversa entre pares, entre pessoas mais ou menos da mesma idade.” Sobre o conteúdo dessa leitura na tela feita pelos jovens a professora surpreende ao revelar que tem observado uma volta aos grandes nomes da literatura universal em pleno ciberespaço. “Faço muitas entrevistas e pergunto sempre para esses novíssimos quem eles leem, eles me saem com Flaubert e outros nomes da literatura canônica”, revela. “E na periferia também. O número de jovens que procura por literatura canônica nas favelas é bem alto – inclusive porque não tem livrarias nem bibliotecas naqueles locais. Com isso, o uso da internet para leitura é muito alto.”

A professora de literatura infantil e juvenil da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da Universidade de São Paulo (USP) Maria Zilda da Cunha acrescenta que nem sempre a rapidez da internet compromete o ritmo mais reflexivo que a leitura de determinados gêneros exige. “A professora Lucia Santaella faz um estudo bastante interessante do perfil cognitivo de três tipos de leitores”, informa.

“O leitor do [surgido no] Iluminismo [período da história intelectual ocidental, no início do século 18, caracterizado pela defesa do pensamento racional em lugar das crenças religiosas], que era um contemplativo e que tinha a sua disposição o texto impresso; o leitor que ela chama de movente, pós-Revolução Industrial, e que sofre múltiplas demandas de informações; e o leitor próprio da era digital. Um tipo de leitor não elimina o outro e o leitor da era digital também tem seu momento de reflexão.”

Fonte: Revista E SESCSP

terça-feira, 9 de março de 2010

Leitura: Jovens ‘dominam’ prateleiras

Pesquisa mostra que crianças e adolescentes estão lendo mais do que adultos, com uma média de quase sete livros por ano

LIDERANÇA
Obras infantis estão na lista das
preferidas pelo público

Sérgio Teixeira

As editoras estão cada vez mais atentas ao público infantojuvenil. Um levantamento divulgado pela CBL (Câmara Brasileira do Livro) mostra que aumentou em quase 5% a publicação de livros voltados para crianças e adolescentes.

Esse crescimento pode ser explicado pelo fato de que os jovens estão lendo mais do que os adultos. A pesquisa "Retratos da Leitura no Brasil", de 2007, último levanmento feito sobre o assunto, revelou que cerca de 39% dos 95,6 milhões de leitores brasileiros têm entre cinco e 17 anos. São 37,2 milhões de pessoas nesta faixa etária.

Entre os entrevistados de até dez anos de idade, a média de leitura foi de 6,9 livros por ano. Infelizmente, a maior parte das leituras é feita por exigência da escola: somente um livro é escolhido a cada ano por iniciativa própria entre os leitores de até dez anos.

De acordo com a presidente da CBL, Rosely Boschini, para estimular as crianças e os jovens a lerem por prazer e não por obrigação, algumas medidas são importantes. "A primeira delas consiste em facilitar o acesso
às obras literárias. Isso significa construir mais e melhores bibliotecas", afirma.

HÁBITOS

Ler é muito importante para o desenvolvimento do ser humano, mas saiba que é preciso estudar da forma certa. É comum vermos estudantes lendo livros num canto do sofá, com a coluna torta e a TV ligada.

A psicóloga e psicopedagoga Ana Cássia Maturano afirma que tentar fazer as duas coisas juntas, ler e ver televisão, não traz bons resultados. Em outras palavras: na hora de ler um livro, desligue a TV ou saia da frente do monitor.

"Estudar exige muito do indivíduo, principalmente da sua atenção e concentração", afirma Ana Cássia.

PREFERIDOS

Uma pesquisa do Instituto Pró-Livro mostrou quais são os livros e autores preferidos do público brasileiro. O criador do Sítio do Pica-Pau-Amarelo, Monteiro Lobato, é o primeiro no gosto da população.

Dos dez primeiros livros preferidos pelos leitores, seis foram escritos para o público infantojuvenil: Harry Potter, Pequeno Príncipe, Três Porquinhos, Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho e Sítio do Pica-Pau-Amarelo.

Fonte: Folha da Região