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segunda-feira, 25 de junho de 2012

Hábito de ler está além dos livros, diz um dos maiores especialistas em leitura do mundo

Francês Roger Chartier esteve no Brasil para participar de evento realizado pela UEM

Um dos maiores especialistas em leitura do mundo, o francês Roger Chartier destaca que o hábito de ler está muito além dos livros impressos e defende que os governos têm papel importante na promoção de uma sociedade mais leitora.

O historiador esteve no Brasil para participar do 2º Colóquio Internacional de Estudos Linguísticos e Literários, realizado pela UEM (Universidade Estadual de Maringá). Em entrevista à Agência Brasil, o professor e historiador avaliou que os meios digitais ampliam as possibilidades de leitura, mas ressaltou que parte da sociedade ainda está excluída dessa realidade.

— O analfabetismo pode ser o radical, o funcional ou o digital.

Agência Brasil: Uma pesquisa divulgada recentemente indicou que o brasileiro lê em média quatro livros por ano (a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada pelo Instituto Pró-Livro em abril). Podemos considerar essa quantidade grande ou pequena em relação a outros países?
Roger Chartier: Em primeiro lugar, me parece que o ato de ler não se trata necessariamente de ler livros. Essas pesquisas que peguntam às pessoas se elas leem livros estão sempre ignorando que a leitura é muito mais do que ler livros. Basta ver em todos os comportamentos da sociedade que a leitura é uma prática fundamental e disseminada. Isso inclui a leitura dos livros, mas muita gente diz que não lê livros e de fato está lendo objetos impressos que poderiam ser considerados [jornais, revistas, revistas em quadrinhos, entre outras publicações]. Não devemos ser pessimistas, o que se deve pensar é que a prática da leitura é mais frequente, importante e necessária do que poderia indicar uma pesquisa sobre o número de livros lidos.

ABr: Hoje a leitura está em diferentes plataformas?
Chartier: Absolutamente, quando há a entrada no mundo digital abre-se uma possibilidade de leitura mais importante que antes. Não posso comparar imediatamente, mas nos últimos anos houve um recuo do número de livros lidos, mas não necessariamente porque as pessoas estão lendo pouco. É mais uma transformação das práticas culturais. É gente que tinha o costume de comprar e ler muitos livros e agora talvez gaste o mesmo dinheiro com outras formas de diversão.

ABr: A mesma pesquisa que trouxe a média de livro lidos pelos brasileiros aponta que a população prefere outras atividade à leitura, como ver televisão ou acessar a internet.
Chartier: Isso não seria próprio do brasileiro. Penso que em qualquer sociedade do mundo [a pesquisa] teria o mesmo resultado. Talvez com porcentagens diferentes. Uma pesquisa francesa do Ministério da Cultura mostrou que houve uma redistribuição dos gastos culturais para o teatro, o turismo, a viagem e o próprio meio digital.

ABr: Na sua avaliação, essa evolução tecnológica da leitura do impresso para os meios digitais tem o papel de ampliar ou reduzir o número de leitores?
Chartier: Representa uma possibilidade de leitura mais forte do que antes. Quantas vezes nós somos obrigados a preencher formulários para comprar algo, ler e-mails. Tudo isso está num mundo digital que é construído pela leitura e a escrita. Mas também há fronteiras, não se pode pensar que cada um tem um acesso imediato [ao meio digital]. É totalmente um mundo que impõe mais leitura e escrita. Por outro lado, é um mundo onde a leitura tradicional dos textos que são considerados livros, de ver uma obra que tem uma coerência, uma singularidade, aqui [nos meios digitais] se confronta com uma prática de leitura que é mais descontínua. A percepção da obra intelectual ou estética no mundo digital é um processo muito mais complicado porque há fragmentos e trechos de textos aparecendo na tela.

ABr: Na sua opinião, a responsabilidade de promover o hábito da leitura em uma sociedade é da escola?
Chartier: Os sociólogos mostram que, evidentemente, a escola pode corrigir desigualdades que nascem na sociedade mesmo [para o acesso à leitura]. Mas ao mesmo tempo a escola reflete as desigualdades de uma sociedade. Então me parece que, também, é um desafio fundamental que as crianças possam ter incorporados instrumentos de relação com a cultura escrita e que essa desigualdade social deveria ser considerada e corrigida pela escola que normalmente pode dar aos que estão desprovidos os instrumento de conhecimento ou de compreensão da cultura escrita. É uma relação complexa entre a escola e o mundo social. E é claro que a escola não pode fazer tudo.

ABr: Esse é um papel também dos governos?
Chartier: Os governos têm um papel múltiplo. Ele pode ajudar por meio de campanhas de incentivo à leitura, de recursos às famílias mais desprovidas de capital cultural e pode ajudar pela atenção ao sistema escolar. São três maneira de interação que me parecem fundamentais.

ABr: No Brasil ainda temos quase 14 milhões de analfabetos e boa parte da população tem pouco domínio da leitura e escrita – são as pessoas consideradas analfabetas funcionais. Isso não é um entrave ao estímulo da leitura?
Chartier: É preciso diferenciar o analfabetismo radical, que é quando a pessoa está realmente fora da possibilidade de ler e escrever da outra forma que seria uma dificuldade para uma leitura. Há ainda uma outra forma de analfabetismo que seria da historialidade no mundo digital, uma nova fronteira entre os que estão dentro desse mundo e outros que, por razões econômicas e culturais, ficam de fora. O conceito de analfabetismo pode ser o radical, o funcional ou o digital. Cada um precisa de uma forma de aculturação, de pedagogia e didática diferente, mas os três também são tarefas importantes não só para os governos, mas para a sociedade inteira.

ABr: Na sua avaliação, a exclusão dos meios digitais poderia ser considerada uma nova forma de analfabetismo?
Chartier: Me parece que isso é importante e há uma ilusão que vem de quem escreve sobre o mundo digital, porque já está nele e pensa que a sociedade inteira está digitalizada, mas não é o caso. Evidente há muitos obstáculos e fronteiras para entrar nesse mundo. Começando pela própria compra dos instrumentos e terminando com a capacidade de fazer um bom uso dessas novas técnicas. Essa é uma outra tarefa dada à escola de permitir a aprendizagem dessa nova técnica, mas não somente de aprender a ler e escrever, mas como fazer isso na tela do computador.

Fonte: Estadão

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Onde comprar estantes de livros?

Autor(es): Cláudio de Moura Castro

Veja - 10/01/2012

Em 1970, voltando do meu doutoramento, comecei a montar casa no Rio de Janeiro. Logo notei que as lojas não ofereciam estantes de livros. Havia estames de tudo, menos de livros. Diante do orçamento apertado, descobri uma solução. Por serem feitas em série, escadas de subir em postes de luz são muito baratas. Com elas e mais tábuas - para colocar os livros - resolvi o problema. Quando fui morar em Brasília, em 1980, foi a mesma coisa, pois nas lojas só havia estantes profundas, para jarras ou processos administrativos. Para livros, nem pensar. Comprei sólidas tábuas de mogno e fiz minha linda estante. Recentemente, com mudanças de escritório, precisei novamente de estantes. Debalde, peregrinei por Tok & Stok, Ema, Walmart e Leroy Merlin. Eram as mesmas de antes, para bibelôs e jarros. Para livros, ou são horrendas e mal-acabadas (para bibliotecas públicas e feitas de chapa de metal) ou são os precários trilhos verticais, com mãos francesas de encaixe duvidoso. Acabei comprando gôndolas de quitanda, no mesmo gênero, mas um pouquinho mais robustas. Por desfastio, busquei também no site do Magazine Luiza, encontrando centenas de estantes mas nem uma só para livros (a maioria era para TV).

Como os donos dessas empresas não são tontos, é inevitável concluir que, se não oferecem boas estantes, é porque não há compradores. Ou seja, o brasileiro frequentador dessas lojas não possui o volume de livros que provocaria a demanda por elas. Os poucos que precisam de estantes mais avantajadas se entendem com seu marceneiro e pagam as comas, também mais avantajadas. Triste constatação, pois não? E como será no mundo mais rico? Apenas para ter gosto. Digitando a palavra bookcase, aparecem 725 itens. Há um número para cada cor, aparecendo também acessórios e modelos menos apropriados para livros. Por seguro, digamos que•existem mais de 300 modelos de estantes para livros. A comparação é escandalosa.

Falando de estantes de livros, em uma área rural da Islândia, uma casa de camponeses modestíssimos foi transformada em um museu sobre os hábitos e os estilos de vida locais. Mostra a casa como estaria por volta de 1920, austera e espartana, como tudo no país. Chamou atenção a biblioteca do dono. A estante, mais alta do que eu e com um bom metro e meio de largura, estava repleta de livros, com o desgaste que corresponde ao uso frequente. Quem já viu estante de livros nas aristocráticas fazendas brasileiras? Na realidade, os islandeses estão entre os leitores mais furiosos, comprando oito livros por pessoa/ano e os domicílios abrigando uma média de 338 livros. Na Austrália e na Nova Zelândia, acima da metade dos lares tem mais de 100 livros.

Como serão os hábitos de leitura dos brasileiros? Os resultados não são nada lisonjeiros. A média brasileira é de 1,8 livro lido por habitante/ ano. Isso se compara com 2,4 para nossos vizinhos colombianos, cinco para os americanos e sete para os franceses.

Diriam os cínicos, e daí? Um passatempo como outro qualquer. Infelizmente, não é assim. Uma pesquisa em 27 países mostrou que a biblioteca familiar se correlaciona mais com bons resultados na educação do que a própria escolaridade dos pais.

Uma biblioteca de 500 livros se associa a acréscimos de escolaridade que vão de três a sete anos. Segundo os autores, "uma casa onde os livros são valorizados fornece às crianças ferramentas que são diretamente úteis no aprendizado escolar...". E tem mais, leitores mais assíduos visitam mais museus, fotografam mais e, surpresa, praticam mais esportes.

A revista The Economist inventou uma brincadeira que era avaliar o realismo das taxas de câmbio pela diferença de preço dos hambúrgueres no McDonald"s, já que em todos os países ele é o mesmo sanduíche detestável. Surpresa! O "índice do hamburguer" revelou-se uma medida respeitável e tem vida longa. Quem sabe, além do Pisa, não poderíamos passar a medir educação e hábitos de leitura por uma simples pesquisa nos sites das lojas de móveis? Bastam alguns minutos. Isso é fácil, difícil será mudar essa triste situação.

Fonte: Veja

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Sobrevida para o hábito de ler

05/11/2011

Mesmo com tanta tecnologia, ferramentas e meios digitais de disseminação da informação, os livros ainda são apreciados por muitos na busca pelo conhecimento

Patrícia Emiliano

Desde o final do último século, especialistas ao redor do mundo vêm prevendo o sumiço dos livros e o declínio do hábito da leitura em impressos. O apego ao cinema, televisão, videogames e o fascinante mundo da internet são alguns dos elementos responsáveis por essa “profecia”. Aliados a essa tendência, o pouco apreço à instrução como valor social, a pobreza e a falta das bibliotecas públicas, além do corre-corre da vida cotidiana, poderiam conspirar para que o livro como objeto de desejo estivesse fadado ao desaparecimento. Mas, contrariando as expectativas, jovens e crianças itabiranas cultivam o prazer da leitura e reconhecem que um bom texto ainda é imprescindível para o crescimento na vida pessoal e profissional.

Aarão Moreira de Castro Almeida, 10, apesar da pouca idade, rapidamente tomou gosto pelos livros. O garoto já perdeu a conta de quantos leu. Atualmente, lê “Coração de Tinta”, da escritora alemã Cornelia Funke, de 456 páginas. A vontade de devorar histórias começou graças aos pais, que o incentivavam dando livros de presente, mesmo antes de ele saber ler. “Eles traziam livros com histórias curtas e liam para mim e eu fui gostando”, lembra o pequeno leitor.

Em casa, Aarão tem um balcão de livros. Quando há algum de que goste mais, logo pede para os pais toda a coleção do autor. “Às vezes, leio o mesmo livro mais de uma vez. Se começo um e não gosto, troco para outro e depois volto nele, mas nunca deixo um livro pela metade. Muitas vezes eu prefeito ler do que ver televisão ou ficar no computador”. Para Aarão não importa o tamanho do livro, mas o conteúdo que ele oferece. Se lhe interessar, com certeza será lido. O estudante, de dez anos, pega emprestado um livro por semana na biblioteca da escola e o maior livro lido por ele até hoje foi “Ilíadas: Odisseia Original”, de 1.003 páginas.

Para o pai de Aarão, o técnico de automação industrial, Antônio Rubens de Castro Almeida, ter apresentado a leitura ao filho desde criança fez com que hoje ele entenda e tenha uma percepção melhor da vida e do mundo. “O hábito de ler ajuda as crianças a se relacionar melhor com os outros, a aprender mais facilmente e a gostar de descobrir coisas novas”, diz o pai.

Além do incentivo dos pais, o garoto também recebe incentivo na escola onde estuda. Para a professora e coordenadora de Português da Fide, Maria Ruth de Castro Almeida, é dever de todas as instituições de ensino investir em livros e impressos. Ambos requerem habilidades que favorecem o foco, leitura linear, concentração e conhecimento de mundo. “A linguagem é rica e, através da leitura, a pessoa adquire poder de argumentação, melhora a escrita e sabe se expressar melhor. Nada que a tecnologia substitua”, opina a professora.

Na escola em que Ruth trabalha, os alunos do 2º ano, com idade de 7 anos, levam livros para casa semanalmente. Eles também têm, uma vez por semana, aula de Literatura. Os alunos ainda trabalham com as obras de Carlos Drummond de Andrade e de outro autor que escolherem. Ruth considera imprescindível que o hábito de ler seja incentivado na base e tenha início em casa, sendo complementado e reforçado na escola.

Outra amante da leitura é Beatriz Leite Pessoa, também de dez anos. Assim como o menino Aarão, ela teve o incentivo à leitura em casa, por meio dos pais. Hoje, o hábito é continuado e estimulado pelos projetos literários da escola que constantemente apresenta novidades aos alunos. “O livro distrai, me ensina e imagino tudo o que leio. Às vezes leio até no recreio”, conta Beatriz. A garota entende que a leitura a ajuda na escola, principalmente quando precisa usar a imaginação para fazer redações. Entre os preferidos estão os romances e obras de ficção, como as sagas Crepúsculo e Harry Potter. Todos já foram lidos.

Já a colega Amanda, de 11 anos, gosta de ler de tudo. O seu interesse se estende a revistas, jornais, livros e impressos em geral. Como a mãe é professora, em casa sempre tem acesso a livros e a assinaturas de revistas e jornais. Começou a ler por curiosidade e logo se apaixonou. Amanda diz que hoje tenta influenciar o irmão mais novo, de sete anos, “mas ele prefere mesmo é ficar no computador”. No entanto, ela não desiste e quer aproveitar junto do irmão os três armários repletos de livros que a família tem em casa. Hoje, ele só é usufruído pela irmã mais velha, de 16 anos.

Conhecimento à disposição

A biblioteca Luiz Camillo de Oliveira Netto, da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, única biblioteca pública de Itabira, conta, atualmente, com um acervo de cerca de 30 mil livros. Lá podem ser encontradas obras de literatura infanto-juvenil e para adultos, obras de referência e obras informativas de todas as áreas do conhecimento. Tem também acervo em Braille, que inclui obras de diferentes escritores, como Machado de Assis, Victor Hugo e também de autores de Best Sellers, como Dan Brown. Nela também é possível ter acesso a periódicos, como jornais e revistas, e também à internet.

Segundo a bibliotecária Elisabete Tércio dos Santos, os livros disponíveis são bastante utilizados e a biblioteca frequentada, ao contrário do que muita gente pensa. O público, em sua maioria, é formado por estudantes e jovens em geral. Os adultos procuram mais livros de auto-ajuda e romance. Por semana, de acordo com Elisabete, passam pelo local cerca de 600 usuários. Somente em agosto foram emprestados, exatamente, 1.089 livros.

Como forma de incentivar a leitura na cidade, a Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade promove alguns projetos como o “Pegue, leia e repasse”, e “Leia mais”, no qual um lote de 913 livros é distribuído em sete pontos da cidade. Quem queira ter acesso aos livros da Biblioteca Pública deve fazer um cadastro mediante taxa única de R$ 2,00.

Livros e cinema

A proprietária de uma livraria em Itabira, Juliana Cássia Naves Araújo, atribui o resgate do interesse dos jovens pela leitura aos livros cujos roteiros basearam filmes no cinema. É o caso das sagas Harry Potter, Crepúsculo, Percy Jackson, Senhor dos Anéis e Crônicas de Nárnia, verdadeiros fenômenos de vendas. “Muitos jovens que não gostavam de ler adquiriram o hábito por meio dos livros de Harry Potter, por exemplo. Foi uma febre de vendas”, conta a empresária.

De acordo com Juliana, as pessoas compram mais os livros divulgados pela mídia. O que escapa dessa onda de mercado são os livros infantis, escolhidos, normalmente, por um impulso afetivo das crianças. “É importante que os pais deixem seus filhos optar pelo que eles querem ler. Claro que é necessário orientar naquilo que é adequado para a idade. No entanto, vejo aqui muitos pais querendo que os filhos leem literatura, obras que eles consideram de qualidade. Neste momento cria-se uma antipatia entre a criança e o livro”, explica Juliana.

Com o know how de quem vive do mercado literário, a empresária avalia, ainda, que em Itabira falta incluir o hábito de ir a uma livraria como cultura e como forma de lazer. “Nos grandes centros, levar os filhos à livraria é uma forma de diversão. Hoje, os livros também estão evoluindo, ganhando maneiras, texturas, formas diferenciadas, sons, línguas estrangeiras. Ele deve ser dado como presente, incentivando a leitura. Um livro pode ser muito mais divertido que um brinquedo e é muito mais barato e didático”.

Livros para educar

Há quem tenha paixão por livros e não abra mão de estar sempre atualizado frente às novidades oferecidas no mercado, como é o caso da empresária Carolina Lage e Silva, de 33 anos. Toda semana, ela vai à livraria em busca de novidades previamente pesquisadas. Ela conta que sua casa se tornou uma biblioteca para amigos e parentes e exibe entusiasmada a estante com centenas de livros.

O seu amor pelos livros surgiu na escola, quando ainda estava na 4ª série. Toda semana, a professora pedia que os alunos levassem um livro para casa e, assim, ela se apaixonou por eles. “Quando comecei a trabalhar, passei a comprar livros. São meus companheiros. Não consigo dormir sem ler. E, como viajo muito a trabalho, sempre tem um na minha bolsa. Até nas viagens de férias sempre levo um comigo”, diz a empresária.

O hobby de Carolina já influencia a filha Luíza, de três anos e meio. De tanto receber livros de presente, a pequena já se sente confortável transformando o cenário de casa em biblioteca. No momento em que a mãe era entrevistada, Luíza se mantinha entretida com livros aos montes, espalhados pela sala, e contando histórias para a coleguinha Laura a partir das gravuras que via em seus livrinhos.

Para a pedagoga Leir Lage, quando os pais leem para os filhos pequenos, mais que um incentivo, o gesto representa um ato de carinho. “A criança se sente acolhida e associa essa sensação a coisas boas. É um ganho para a vida toda, fazendo com que ela sinta essa relação com o livro. A criança só se tornará um leitor no futuro se conseguir adquirir o hábito desde cedo”, conclui a pedagoga. 








sexta-feira, 30 de setembro de 2011

12 dicas que facilitam o hábito da leitura

PublishNews - 29/09/2011
 
Confira as 12 dicas que podem dar uma forcinha para quem deseja inserir os livros em sua rotina

Leitura, além de gosto, é hábito. E pra estimular esse hábito, o Blog Livros e Afins, de Alessandro Martins, dá 12 dicas que podem dar uma forcinha para quem deseja inserir os livros em sua rotina. A primeira delas é: busque o prazer de ler, em seguida, tenha sempre um livro consigo, não esqueça de cuidar dos seus olhos, tenha meios alternativos de leitura, procure aperfeiçoar sua leitura e aprenda, de uma vez por todas, como funciona um agregados de feeds. Pra conferir as dicas detalhadamente.

  1.  Em primeiro lugar, busque o prazer de ler: ainda que seja uma leitura densa, dolorosa e triste, há prazer em compartilhar esses sentimentos todos em comunhão artística com o autor e os outros leitores. Descubra como ter a leitura como objetivo e manter o seu prazer.
  2. Tenha sempre um livro consigo: sempre surge a oportunidade de avançar na leitura de um livro, seja na fila do banco, no ônibus ou em algum outro momento inesperado. Atenção: não vá se tornar uma pessoa anti-social. Às vezes uma boa conversa pode ser melhor para passar o tempo. Para esse item, prefira livros pequenos, fáceis de carregar.
  3. Cuide de seus olhos: a não ser que você já domine o braille, vai preferir manter seus olhos em ótimo funcionamento. Esteja atento e faça exames periodicamente. Se precisar usar óculos, use. Fique bem informado sobre seus olhos.
  4. Tenha meios alternativos de leitura: a tecnologia fornece diversas alternativas para atualizar as leituras. Ler na tela do computador pode ser desconfortável, mas já existem formas de ler bons livros, um pouco de cada vez, recebendo pequenos trechos de cinco minutos por em seu email diariamente. Você sabia que até mesmo em seu celular você pode ler livros?
  5. Aperfeiçoe a sua leitura: de que adianta ler se você mal lembra da história um mês depois? Para ler um livro velho como se fosse novo? Bem, a idéia não é má e reler um bom livro sempre é bom, mas se você quer reter mais de tudo aquilo que lê, escolha uma maneira de fazer isso.
  6. Aprenda de uma vez por todas como funciona um agregador de feeds: vamos assumir que, se você está lendo este artigo, você lê blogs. Se lê blogs e ainda não sabe usar um agregador de feeds está muito atrasado e está perdendo tempo ao ter sempre que acessar os seus sites preferidos para saber se eles já foram atualizados ou não. Possivelmente, está perdendo até mesmo textos interessantes. E, muito provavelmente, de blogs que falam de livros, literatura ou que fazem literatura propriamente dita. Aprenda de uma vez a utilizar um agregador de feeds.
  7. Prefira livrarias com bom atendentes: nem sempre os vendedores de livrarias são as melhores pessoas para indicar livros, mas sempre há aquele profissional que se destaca. É aquele que conhece seus gostos e sabe indicar de forma certeira um livro de que você vai gostar. Ou ao menos lhe avisar quando aquela edição que você tanto espera chegou na loja. Em geral, essas pessoas estão nos sebos. Mas há também livrarias com profissionais assim como, em Curitiba, a do Chain e a, infelizmente fechada, do Eleotério.
  8. Saiba fazer pequenos reparos em livros: nem sempre vale a pena. Livros são feitos hoje como um produto qualquer e muitos não valem um centésimo da árvore de onde saiu sua celulose. Mas o bom leitor tem sempre uma ou outra edição rara ou feita com aquela arte que mais não há. Para esses, saiba fazer pequenos reparos e como secá-los no caso de molhados. Mas para evitar esses problemas…
  9. Saiba como guardar seus livros: a melhor maneira de conservar um livro é não o guardando, mas fazendo com que ele circule de mão em mão. O objetivo de um livro é conservar o conhecimento para que esse conhecimento se propague. Guardá-lo em uma estante para o resto da vida é o mesmo que queimá-lo. Mas se você não for capaz de tal generosidade, aprenda a conservar seus livros.
  10. Tenha ao menos um desafio para cada ano: escolha uma grande obra que ainda não tenha lido e comprometa-se a lê-la.
  11. Leia menos para ler mais: se você lê até o ponto de ficar cansado ou de passar os olhos sobre a página sem que se lembre ou tenha consciência do que acabou de ler, algo está errado. Você precisa aprender a parar de ler antes que isso aconteça para que seu horizonte de leitura se amplie e para que a leitura sempre esteja associada a uma atividade prazerosa. Lembre-se: para ler mais, leia menos, mas com mais qualidade.
  12. Saiba onde conseguir livros grátis: livros não são baratos. Você pode conseguir livros grátis na internet com facilidade. Ler na tela ainda é desconfortável, mas esteja ciente das mudanças tecnológicas. É possível que os eBook Readers se popularizem ou, então, alguma outra forma de leitura. Mudanças vão acontecer, não há dúvida. De outra forma, você estaria lendo ainda em papiros e tendo que aprender o funcionamento do livro, essa tecnologia tão recente.
Fonte: Livros e Afins

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Edmir Perrotti: "Biblioteca não é depósito de livros"

Idealizador de redes de leitura em escolas diz que é função do educador ajudar os estudantes a processar as informações do acervo

Márcio Ferrari

Desafios como a criação do hábito da leitura entre crianças e adolescentes, as novidades tecnológicas, a ampliação do acesso ao ensino e a sofisticação do mercado editorial levaram o professor Edmir Perrotti a uma nova concepção de biblioteca escolar e de seu papel pedagógico.

Com formação em Biblioteconomia - área que combinou com seu interesse em Educação -, ele é docente da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, conselheiro do Ministério da Educação para a política de formação de leitores e autor de livros infantis.

Perrotti orientou a implantação de redes de bibliotecas inovadoras nas escolas municipais de São Bernardo do Campo, Diadema e Jaguariúna, no estado de São Paulo. Nessas estações de conhecimento, como ele prefere chamá-las, a aprendizagem é estimulada pela presença de suportes tecnológicos, como o computador e a televisão.

Em um ambiente que convida as crianças a descobrir e aprofundar o prazer da leitura, os livros convivem com outras linguagens, como a do teatro. "Assim trabalha-se o contato com as informações e também o processamento delas", diz. Ex-professor da Universidade de Bordeaux, na França, e de escolas de Ensino Fundamental no Brasil, além de editor e crítico literário, Perrotti concedeu a seguinte entrevista a NOVA ESCOLA.

O que deve orientar a constituição de uma biblioteca escolar?
Edimir Perrotti Ela não pode restringir-se a um papel meramente didático-pedagógico, ou seja, o de dar apoio para o programa dos professores. Há um eixo educativo que a biblioteca tem de seguir, mas sua configuração deve extrapolar esse limite, porque o eixo cultural é igualmente essencial. Isso significa trazer autores para conversar, discutir livros, formar círculos de leitores, reunir grupos de crianças interessadas num personagem, num autor ou num tema. A biblioteca funciona como uma ponte entre o ambiente escolar e o mundo externo.

De que modo se realiza essa abertura para fora da escola?
Perrotti O responsável pela biblioteca tem o papel de articular programas com a biblioteca pública e fazer contato com a livraria mais próxima, além de estar atento à programação cultural da cidade. Há uma série de estratégias possíveis para inserir a criança num contexto letrado. A biblioteca precisa ter outra finalidade que não seja simplesmente a de um depósito de onde se retiram livros que depois são devolvidos. Nós não trabalhamos mais com a idéia de unidades isoladas. O ideal é formar redes, um conjunto de espaços que eu chamo de estações de conhecimento, cujo objetivo é a apropriação do saber pelas crianças.

Qual é a necessidade das redes?
Perrotti Com o atual excesso de informações e a multiplicação de suportes, nenhuma biblioteca dá conta de todas as áreas em profundidade, até porque não haveria recursos para isso. O trabalho tem de ser compartilhado com outras unidades da rede, por meio de mecanismos de busca informatizados. Por exemplo: a escola guarda um pequeno acervo inicial sobre arte, mas, se o interesse for por um conhecimento aprofundado, recorre-se a uma biblioteca especializada na área. Hoje não há mais condições de manter o antigo ideal de bibliotecas enciclopédicas, que abarcavam todas as áreas de conhecimento.

Quem deve ser o responsável pela biblioteca?
Perrotti Processar as informações e criar nexos entre elas é um ato educativo. O responsável, portanto, é um educador para a informação, que nós chamamos de infoeducador, um professor com especialização em processos documentais. Uma rede de bibliotecas tem uma plataforma de apoio técnico-especializado, que é a área do bibliotecário, um especialista em planejamento e organização da informação. Junto com ele trabalham os educadores, que são especialistas em processos de mediação de informação. Dar acesso ao acervo não basta para que o aluno saiba selecionar e processar informações e estabelecer vínculos entre elas.

De que modo se estimula a autonomia numa biblioteca?
Perrotti É preciso desenvolver programas para construir competências informacionais. Isso inclui desde ensinar a folhear um livro — para crianças bem pequenas — até manejar um computador. Antigamente imperava a idéia de que os adultos é que deveriam mexer nas máquinas e pegar os livros na estante. Hoje deve-se formar pessoas que tenham uma atitude desenvolvida, não só de curiosidade intelectual mas de domínio dos recursos de informação. Essa é uma questão essencial da nossa época.

Por que a escola tem falhado em ensinar os alunos a processar informações?
Perrotti Porque se acredita que basta escolarizar as crianças para formar leitores. De fato, a escola tem o papel de construir competências fundamentais para a leitura, mas isso não quer dizer formar atitude leitora. Hoje, o que distingue o leitor das elites do leitor das massas é que o primeiro tem um circuito de trocas. Ele participa do comércio simbólico da escrita, da produção à recepção: sabe o que é publicado, informa-se sobre os autores, encontra outros leitores etc. Já a criança da escola pública muitas vezes não tem livros em casa e só lê o que o professor pede. Ela não tem com quem comentar. Está sozinha nesse comércio das trocas simbólicas.

Qual é o mínimo necessário para o funcionamento de uma biblioteca escolar?
Perrotti Estou convencido de que é a pessoa que trabalha ali, mediando relações entre a criança, a informação e o espaço. Não precisa ser alguém superespecializado, mas que compreenda a função da escrita e da imagem e que saiba qual é a importância daquilo na vida das pessoas. Assim, a compra de livros seguirá um critério de escolha consciente. É claro que é bom construir um ambiente agradável e funcional, mas não é indispensável, porque a leitura não depende das instalações da biblioteca; ela se dá em qualquer lugar.

Quem deve escolher o acervo?
Perrotti Nós temos trabalhado um modelo em que a escolha é feita por todos os que participam dos processos de aprendizagem: professores, coordenadores, diretores e alunos. Formulários são colocados à disposição para que sejam feitas sugestões de compra. O infoeducador não só coleta esses dados como divulga, por meio dos quadros de aviso, as informações sobre lançamentos que saem na imprensa e na internet. Depois, ele vai analisar os pedidos, separá-los em categorias — livros importantes para os projetos em andamento, leituras de informação geral ou complementares etc. — e, com base nessas listas, a escolha é feita de acordo com os recursos disponíveis.

Como comprometer o aluno com a organização e a manutenção da biblioteca?
Perrotti Ele participa da escolha do acervo e também pode estar pessoalmente representado nele, por meio de livros que ele escreve e de documentos de sua passagem pela escola. Uma parte do acervo vem da indústria cultural e outra é produzida internamente, com documentos e relatos referentes à história da instituição. Formar um repertório de dados locais cria relações com as informações universais.

Descreva a biblioteca escolar ideal.
Perrotti É aquela que possui todo tipo de recurso informacional, do papel ao equipamento eletrônico. O espaço é construído especialmente para sua finalidade e de acordo com quem vai usar. Se o público majoritário é infantil, a disposição dos móveis e do acervo deve permitir que a criança se mova com autonomia. É preciso ser um local acolhedor, mas que empurre rumo à aventura, porque conhecer é sempre se deslocar.

Por que se diz que os jovens não gostam de ler?
Perrotti Os interesses mudam na passagem da infância para a adolescência e a leitura que era feita antes já não interessa tanto, mesmo porque cresce a concorrência de outras mídias. Essa é uma transição crítica e ainda não foram definidas ações específicas para promover a leitura nessa faixa etária. Os adolescentes identificam o livro com as tarefas da escola, que reforça essa percepção porque raramente sai da abordagem instrumental da leitura. E no âmbito social, entre os amigos, a leitura não está presente. Mesmo assim, essa fase é a das grandes paixões. Portanto, há um espaço enorme para promover a leitura entre os jovens.

É possível formar leitores por meio de políticas públicas?
Perrotti O problema é saber que caráter elas têm. Eu não concordo com estratégias que pretendam ensinar os alunos a gostar de ler. A função do poder público é criar ambientes que dêem condições de ler, tentar despertar as crianças para as potencialidades da escrita, prepará-las para as competências leitoras — enfim, providenciar para que seja constituída a trama que sustenta o ato de ler. Mas gostar de ler é questão de foro íntimo, não de políticas públicas.

A escola deve obrigar um aluno a ler livros e freqüentar bibliotecas mesmo que ele não goste?
Perrotti Não se pode deixar de perguntar por que esse aluno não gosta de ler. Ele teve uma relação negativa com a situação de aprendizagem? Ninguém lê em casa? Tem dificuldades de visão? Não domina o código? Não tem circuitos culturais a sua volta? Tudo isso pode e deve ser trabalhado. Agora, se ele teve apoio para experimentar a prática da leitura e prefere fazer outras coisas, não adianta forçar. É claro que não estou falando da leitura funcional, indispensável para a vida diária. Nesse caso, é obrigatório negociar com a criança o "não querer ler".

É melhor ler literatura de má qualidade do que não ler nada?
Perrotti A pergunta já supõe que de fato existe uma literatura de má qualidade. Há leitores que são capazes de voar longe com um suposto mau livro, assim como há muitos trabalhos escolares que se utilizam de grandes textos, mas sufocam o interesse de aprender. Por outro lado, não é possível deixar o gosto do leitor imperar sozinho. É fundamental operar mediações entre as crianças e uma literatura que tenha condições de produzir significações importantes.

O uso do livro em sala de aula está em decadência?
Perrotti Ele está aquém do que gostaríamos que fosse e também do que seria necessário. Mesmo assim, o livro está entrando nas escolas numa medida que não entrava, nem que seja por meio das distribuições feitas pelo Ministério da Educação e as secretarias estaduais e municipais. Há 50 anos nem sequer se sonhava com isso no Brasil. O problema maior é o de mau uso desses livros, com estratégias impositivas de leitura. Muitas vezes falta penetrar no avesso dos textos com as crianças e realmente mergulhar numa viagem de conhecimento, de imaginação.

Até que ponto as bibliotecas levam ao hábito da leitura?
Perrotti Eu participei de uma pesquisa feita com as crianças usuárias das redes de biblioteca que ajudei a implantar no estado de São Paulo. Queríamos saber se elas estão incorporando a leitura a sua prática de vida e não apenas como lição de casa. Qual é a constatação? Houve um grande avanço e as crianças se mostram muito mais familiarizadas com os livros, mas infelizmente ainda não usam as novas competências para trocas culturais. Por exemplo: não têm o hábito de comprar e emprestar livros. A prática escolar não se transferiu para a prática cultural.

Há perspectiva de mudança para essa situação?
Perrotti Eu vejo uma tendência de funcionalização. Os meios eletrônicos trouxeram, aparentemente, uma presença maior da escrita, mas o uso que se faz dela é cada vez mais abreviado. Vai-se transformando a língua no elemento mínimo para a transmissão da mensagem. Nós estamos a anos-luz de formar pessoas que, ao cabo do período de escolaridade, vão se relacionar com a escrita como uma ferramenta de conhecimento e de experiências estéticas, numa dimensão não pragmática. Restringir as ferramentas de linguagem a sua função utilitária é retirar de nós mesmos aquilo que nos humaniza — a capacidade de dizer de uma forma articulada. As novas bibliotecas têm de enfrentar essa questão.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Hábito da leitura pode ser adquirido em qualquer idade; quer tentar?

Ligia Sanchez

Experiências de programas de incentivo à leitura mostram que o primeiro passo é cativar o potencial leitor, o que se faz com uma proposta desafiadora. "Depois da aproximação, as pessoas são capazes de apreciar a leitura e se interessar por diferentes gêneros”, afirma Maria Alice Armelin, do Cenpec - Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária.

Para aqueles que acabaram criando aversão a ler, Silvia Colello afirma que é possível reverter este quadro com a própria magia da leitura. “Um exemplo foi o fenômeno que aconteceu há pouco tempo, da série de livros do Harry Poter, que atraiu milhões de crianças que não liam para a leitura. O importante é embarcar na grande aventura de ler”. Silvia é professora da Faculdade de Psicologia da USP e autora do livro “Textos em Contextos – Reflexões sobre o ensino da língua escrita".

Incentivo na infância é importante

Adquirir o hábito da leitura é um investimento a longo prazo, que se inicia muito cedo na vida das pessoas. "Sem prejuízo da atividade oral de se contar histórias sem livros, é importante ler para crianças desde muito pequenas. E não deve ser abandonada quando ela aprende a ler na escola", afirma a família tem papel crucial na formação do hábito de leitura. A maioria das pessoas que gostam de ler dizem que os pais foram quem mais as influenciou a tomar gosto pela coisa, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. “Isso nos leva a explorar a importância do exemplo, lendo na frente das crianças e para elas, mostrando os conhecimentos que foram adquiridos e a contribuição para sua formação profissional”, afirma Zoara Failla, gerente de projetos do Instituto Pró-Livro.

A pesquisa também mostra que as pessoas preferem ver TV, ouvir música ou simplesmente descansar em seu tempo livre. Como estimular a leitura em um ambiente dominado pela televisão, rádio e internet? Segundo Silvia Colello, a leitura não concorre com outras linguagens, é complementar. “Mesmo na TV aparecem coisas escritas. A leitura acaba enriquecendo e é enriquecida pelas outras linguagens, isso faz parte da pluralidade em que aparece no cotidiano.”

Confira dicas para estimular o hábito da leitura
  • Escolha um assunto que seja interessante para você. Não adianta brigar com as nossas preferências - se você não tem o costume de ler, não adianta tentar começar com O Banquete, de Platão. Gosta de futebol? Que tal começar pela biografia de um grande jogador? Se você ama gatos, talvez um belo exemplar sobre a vida e os hábitos dos bichanos seja sua melhor pedida 
  • Não gostou do livro que começou? Troque! Por que insistir num título que já desagradou nas primeiras páginas. Não se force a nada - pelo menos quando estiver tentando entrar no mundo da leitura
  • Se você prestar atenção, a escrita está em todo canto. É importante mostrar para as crianças o que os educadores chamam de ''função social da escrita''. Faça a lista de supermercado, deixe bilhetes, mostre o letreiro dentro do elevador...
  • Revista de fofoca, bula de remédio, embalagem de alimento, gibi, manual de celular. Vale tudo para iniciar o hábito de ler: a dica não é apenas para os temas, mas também para os tipos de ''obras''
  • Descubra quando, onde e como você gosta de ler. Toda forma é válida: em silêncio, deitado, no ônibus, ouvindo música... Cada um tem uma preferência. Pode ser até um exercício de autoconhecimento
  • É de pequenino... que se forma o hábito da leitura. Se você tem filhos ou convive com crianças, dê uma forcinha: leia com elas, leia para elas, peça para elas lerem. Tudo isso, lógico, de acordo com o conhecimento delas, a idades e os temas que interessem
  • Essa é para os educadores: na escola, a leitura não pode ser apenas por obrigação. Reserve espaço no cronograma para que os estudantes possam escolher os livros que preferem (adequando o grau de complexidade). Você vai perceber que eles começarão a desenvolver critérios para as escolhas e tendem a ser tornam bons leitores quando adultos
  • Frequente bibliotecas. Livro de papel é caro e ocupa espaço - pegar títulos emprestados pode ser uma boa opção para quem está começando. Outra dica são sites que disponibilizam obras para serem baixadas (de graça), como o Cult Vox 

terça-feira, 26 de abril de 2011

Iniciação à leitura

Matéria publicada no Jornal Folha de São Paulo, 26 de abril de 2011

ROSELY SAYÃO

'Criar o hábito da leitura' já perdeu o sentido. Queremos que as crianças leiam por prazer ou por costume?

CRIANÇA PODE adorar livros e histórias, desde que os adultos não atrapalhem. E como temos atrapalhado o que poderia ser uma verdadeira paixão pelos livros!

Ler é bom, precisamos formar leitores, a vida sem a literatura não teria graça, temos de incentivar o hábito da leitura nas crianças e nos jovens etc. Afirmações como essas brotam da boca de pais e de professores assim, sem mais nem menos.

Temos gosto em pegar frases e repeti-las muito, até que elas percam seu sentido, não é verdade? Assim aconteceu com essas e outras afirmações que tratam da importância da leitura na vida dos mais novos: tanto fizemos que conseguimos esvaziar o que elas dizem.

Primeiramente quero falar dessa expressão horrorosa: "Criar o hábito da leitura". Ah! Vamos aproveitar e lembrar outra semelhante: "Criar hábito de estudo".

Nós queremos que as crianças tenham prazer com livros e histórias ou queremos que adquiram um hábito?

Leitura, tanto quanto estudo, não deve ser tratada assim. Um hábito se instala e pouco -quase nada- acrescenta à vida de uma pessoa.

Já o amor, o prazer, o gosto verdadeiro pela leitura ou pelo estudo são capazes de mudar a nossa vida. Ler e estudar devem ser uma escolha, uma vontade, uma busca por algo que não se tem.

O bebê já pode ser introduzido ao mundo dos livros e da leitura. Pais e professores podem começar contando histórias e oferecendo livros para que ele manuseie, explore, se entretenha com esse objeto. E não precisa ser livro de plástico, que produza som ou coisa semelhante. Livro de verdade mesmo, de papel, com figuras bonitas e letras, encanta o bebê.

O escritor Ilan Brenman, apaixonado pela literatura, afirma que um requisito importante para iniciar as crianças no universo da leitura é a beleza do livro. Sim: uma capa bonita já chama a atenção da criança, tanto quanto as ilustrações. Aliás, muitos livros sem palavras são lidos pelas crianças com a maior atenção.

Ainda falando de bebês e crianças muito pequenas: o papel do livro, suas diferentes texturas, odores e cores também já são alvo da curiosidade delas e objeto de pesquisa concentrada.

E o que dizer de livros de histórias que crianças já conhecem e adoram -"Peter Pan" e "Alice no País das Maravilhas", por exemplo- com adaptação em "pop-up"? Imperdíveis, já que encantam crianças e adultos.

Não devemos menosprezar as crianças quando o assunto é história: elas não gostam apenas daquelas que foram escritas para as crianças. Toda a literatura, principalmente a clássica, pode ser oferecida, sem censura.

Tornar a leitura um ato obrigatório é uma dessas manias que nós adotamos com as crianças que prejudicam a descoberta que elas poderiam fazer do prazer da leitura. Tudo bem: isso pode ser feito como tarefa escolar, mas depois, bem depois de oferecer a elas a oportunidade de ler por gosto e não por obrigação, no fim do ensino fundamental, por exemplo.

Finalmente: a literatura não deve servir para moralizar a vida dos mais novos.

Nada de contar histórias que só servem para tentar "ensinar" a criança a ter bons modos, escovar os dentes etc. A educação moral e para a higiene, por exemplo, deve usar outros recursos.

Que tal um programa com seu filho? Visitar uma biblioteca ou uma livraria para procurar um livro bonito e gostoso de ler e de ouvir?

Certamente você e seus filhos irão aprender muito sobre a vida e sobre vocês mesmos nesse programa. E boa viagem!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Internet desperta para o prazer de ler, diz pedagoga

17 de abril de 2011

Entrevista com Cybele Meyer, psicóloga e autora do livro 'Menina Flor'

A internet é capaz de despertar o interesse pela leitura?

Sim. Os jovens leem e escrevem muito na internet, abrindo um canal para a leitura de livros no papel. Infelizmente, as pessoas têm o hábito de querer substituir e não somar. Quando surgiu a TV, disseram que era o fim do rádio e do cinema. E com o passar do tempo o que vemos foi que a televisão é mais um recurso para o entretenimento das pessoas.

O jovem está lendo mais?

O jovem de hoje lê muito mais do que o jovem de décadas passadas. Ele iniciou o hábito com a internet de forma motivadora, sem imposição. No passado, a leitura era imposta de forma punitiva. Aquele que não soubesse falar sobre determinado clássico tiraria nota baixa. Ele era obrigado a ler os livros que o professor indicava, normalmente clássicos com linguagem erudita, se deparando com inúmeras palavras que não conhecia, gerando uma "repulsa" pela leitura em geral. Agora, o jovem lê toda a coleção do Harry Potter sem que ninguém precise mandar.

Muitas bibliotecas estão disponibilizando livros mais populares, como os de autoajuda. Isso é bom?

A pessoa que procura um livro de autoajuda está querendo se tornar uma pessoa melhor. E essa é a principal intenção do livro: acrescentar algo em sua vida e te levar à reflexão. Quem se torna leitor vai navegar em outros mares para formar sua opinião. Quem inicia a leitura pela autoajuda vai abrindo para outros focos à medida que se sentir motivada para isto.

Adultos podem começar a gostar de ler sem nunca terem esse incentivo desde cedo?

Sim. Acredito mesmo nisso e já presenciei vários exemplos de mulheres que, tendo os filhos criados e lhe sobrando mais tempo para fazer o que gosta, leem muito tentando recuperar o tempo perdido. O incentivo à leitura é válido para qualquer idade.

Quais são os benefícios para quem desenvolve o hábito de ler, tanto na vida pessoal quanto na vida profissional?

Nos livros o leitor enxerga lugares, pessoas, situações que muitas vezes não teria oportunidade de vivenciar no seu cotidiano. O hábito da leitura faz com que a pessoa passe a se expressar melhor tanto na linguagem oral quanto na escrita. Seu vocabulário aumenta e seu raciocínio é estimulado. O melhor é que todas estas mudanças são espontâneas.

Fonte: Estadão

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Como despertar o interesse pela leitura

Matéria publicada em 25/01/2011

Redação Pritt

Foto: Jack Horst

Iniciar as crianças no mundo da leitura é papel dos pais e dos professores. A psicopedagoga Marcia Zebini, de São Paulo, explica que narrar histórias, interpretar, passear por bibliotecas e livrarias pode ser um ótimo começo para construir, tijolinho por tijolinho, um leitor apaixonado

Contar histórias é uma boa forma de incentivar a leitura?
Sim. Os pais devem ler para os filhos desde que são bebês. Isso estimula a parte criativa, percepção auditiva.

Na idade escolar, a partir de 6 anos, quando a criança tem contato com o livro, é importante que o adulto ajude no entendimento do que é lido.

Em muitos casos, a criança tem dificuldade de compreensão. Ler como eles motiva muito. Outra coisa que dá muito resultado é levar os filhos a bibliotecas, eventos com presença de autores e espaços infantis nas livrarias, onde elas possam escolher os livros.

Se os pais tiverem o hábito de ler pode ajudar?
Sim, porque você educa pelo exemplo. Muitas vezes, as crianças têm problemas na escola e com a leitura porque tem problemas familiares e emocionais. E quando os pais mudam a conduta e lêem junto com os filhos, melhora também o relacionamento entre eles. A partir do momento que o adulto para a correria, lê com o filho e interpreta, ele dá atenção, carinho, amor.

Como o livro deve ser trabalhado na escola?
Nas salas de aula, tem que ter um cantinho da leitura para que os alunos possam pegar um livro quando terminarem os exercícios. Se o professor sugerir uma leitura, faça um círculo, peça para cada um ler um trecho, faça perguntas, interprete. Isso vai desenvolver o senso crítico dos alunos. Caso contrário, eles não saberão interpretar o que estão nas entrelinhas do texto.

Você é a favor de ter uma avaliação sobre o livro?
Sou contra. Existem muitas maneiras de verificar se o aluno leu ou não o livro e acho que a prova desestimula. Nas primeiras séries, acho importante leitura em grupo, em círculo. Depois do sexto ano em diante, concordo que possa ter uma avaliação, mas isso não deve ter um peso muito grande. Pedir para dramatizar uma obra, por exemplo, é uma boa atividade.

Como estimular os alunos a freqüentarem mais a biblioteca?
Para tudo, a gente precisa de um modelo. Então, primeiro o pai e a mãe devem levá-los. Tem bibliotecas que podem ser um ótimo passeio. Eles podem ir, levar o livro para casa, ler com o filho e devolver depois. Dá trabalho, mas é uma forma de conhecer o espaço. Tem que mostrar para a criança que a biblioteca é um lugar que ela possa recorrer. O professor deve ir com a turma para a biblioteca, explicar como é o espaço, estimular os alunos a pegarem livros. Só assim eles vão conhecer o espaço e passar a frequentá-lo.

Fonte: Blog Pritt

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Hábito da leitura se aprende desde bem pequeno

Rodas de Leitura, atividades em grupo, colagens e peças de fantoche estimulam gosto pelos livros desde cedo

“É que nem futebol”. Ao usar uma metáfora do universo do esporte que é paixão nacional dos brasileiros – e talvez, sem saber, imitando o presidente Lula -, o pequeno Luca Bezerra, 9 anos, resume o que é, para ele, a leitura. Explica-se: na opinião do estudante do Colégio COC Sartre, em Salvador, o hábito de ler livros pode ser cansativo (“às vezes, tenho preguiça”), mas também pode ser muito prazeroso.

Para Luca, que já leu “alguns livros bem grossões”, é preciso começar devagar e ter paciência. Ou seja: ler também exige treino.

Nessa importante modalidade, o corpo técnico é formado pelas escolas e famílias.

A coordenadora pedagógica da Escola Tempo de Criança, Luciane Souza, acredita na importância da realização de um trabalho conjunto. Na escola onde trabalha, os estudantes trazem, sempre no início do ano escolar, dois livros de literatura. Semanalmente, as professoras organizam rodas nas salas de aula e as próprias crianças decidem o que irão ler. Sete dias depois, é hora de compartilhar impressões.

“Não é só dizer se gosta ou não: é preciso dizer o porquê”, afirma Luciane, acrescentando que no processo de incentivo à leitura as professoras também perguntam aos alunos sobre o autor do livro e o dono do exemplar, para mostrar a importância do zelo pelas coisas dos outros colegas.

Contação Uma atividade bastante difundida entre associações de bairro e bibliotecas comunitárias são as rodas de leitura.

Nelas, as crianças se reúnem para ouvir as histórias contadas por educadores, que muitas vezes são voluntários.

É o caso de Ladailza Gonçalves, que desde 2008 lê para crianças – inclusive integrantes de famílias sem-teto – atendidas por uma Ong no bairro de Escada, no subúrbio ferroviário. “Algumas já demonstraram interesse em aprender a ler depois de algumas sessões de contação”, diz, orgulhosa, Ladailza.

“A educação infantil deve, sim, trabalhar com diversas linguagens, como o gestual, o oral, a escrita, a dramatização e outras”, observa Gizele Souza, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Infância e Educação Infantil da Universidade Federal do Paraná.

A criança, quando ouve a história, não se torna “preguiçosa” e desinteressada pela leitura solitária. Ao contrário: desenvolve uma série de aptidões importantes no processo de formação e no gosto pela leitura.
A médica veterinária Karina Tenisi é mãe de dois meninos (sete e cinco anos) e é entusiasta da leitura. “Leio e mostro tudo para eles, até revista de consultório”, diz Karina.

O mais velho, João, aprendeu a ler recentemente, e já “usa” o menor, Enzo, como plateia. Sobre o “salto no aprendizado” dado por João agora que aprendeu a ler, Karina resume: “Parece mágica”.

E assim como a magia – e o futebol -, a leitura costuma encantar a muitos.

Fonte: A Tarde

Ler também é exercício!

Por Carolina Abranches

Hábito de ler age como uma musculação para o cérebro

O hábito de ler proporciona muitos benefícios à saúde. A leitura ajuda a reduzir o estresse e estimular a memória. Sua prática age como uma musculação para o cérebro e os médicos recomendam que se leia um livro por mês. Ao acompanhar um texto, exige-se do cérebro um conhecimento dos sistemas de linguagem, obrigando o leitor a realizar um trabalho ativo de compreensão e interpretação de texto. E isso ajuda a manter a funcionalidade intelectual ao longo da vida, mantendo a mente ativa e prevenindo déficits de memória e declínios das funções cognitivas.

O ato de ler envolve quatro processadores: o processador ortográfico, que diz respeito à maneira de escrever as palavras; o processador de palavras refere-se ao sentido de uma palavra; o processador fonológico refere-se à unidade menor que forma uma sílaba ou uma palavra; e o processador de contexto que se refere à sintaxe, ao papel de cada palavra numa frase, formando uma estrutura com um significado maior que a palavra, desenvolve noções linguística e regras gramaticais.

Estudos mostram que hábeis leitores não necessitam mais do processador fonológico para entender o significado de uma palavra escrita. Já maus leitores apresentam dificuldades nos processadores visuais e/ou auditivos, cometendo distorções, inversões, trocas e omissões, as chamadas dislexias. Conforme os tipos de dislexia, estudos mostraram lesões nas áreas, occipital, temporal ou ainda parietal.

Fonte: BemStar

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Leitura na era digital

Como os novos modos de ler na atualidade afetam os hábitos de leitura no Brasil e o público jovem

Por Flávia Gouveia


Matéria publicada em 15/09/2010

A primeira das quatorze definições do dicionário Houaiss da língua portuguesa para o verbete “ler” é bastante objetiva: ‘percorrer com a vista um texto, interpretando-o por uma relação estabelecida entre as sequências dos sinais gráficos escritos e os sinais linguísticos próprios de uma língua natural’. Assim definido, esse processo elementar de comunicação humana parece imutável. Mas, do ponto de vista dos desenvolvimentos (e dos entraves) relacionados à vida em sociedade, à economia e à tecnologia, o ato de ler sofre variações importantes de acordo com as pessoas, localidades e tempos considerados. “No Brasil, o processo de letramento sistematizado atrasou pelo menos um século. Hoje a situação da leitura no país é muito melhor, mas essa defasagem ainda se faz sentir”, afirma a professora de Sociologia da Cultura e da Literatura da Universidade Federal de São Carlos, Tânia Pellegrini.

Assim, o perfil do “leitor médio” no Brasil difere daqueles observados em outros países, da mesma forma que os hábitos de leitura de um brasileiro diferem dos de outro leitor de diferente classe social ou faixa etária, também nascido no Brasil. De acordo com a pesquisa encomendada pelo Instituto Pró-Livro, Retratos da Leitura no Brasil, lançada em maio de 2008 e coordenada pelo Observatório do Livro e da Leitura (OLL), a maior parcela de brasileiros não-leitores (que não leram um livro nos três meses anteriores à pesquisa) está entre os adultos de 30 a 39 anos (15%) e de 40 a 49 (15%). A pesquisa constatou também que o número de não-leitores diminui quanto maior é a renda familiar e mais alta é a classe social. Quase não se encontram não-leitores na classe A, e há apenas 1% de não-leitores quando a renda familiar é de mais de 10 salários mínimos. Mas, no que se refere à dimensão tecnológica, houve uma mudança importante observável através do tempo.

Texto e hipertexto

A leitura na atualidade também não é como no passado, quando não se imaginava que um dia leríamos na tela de um computador, por onde se acessa um labirinto cibernético de textos e hipertextos, ou de um artefato próprio para leitura de livros digitais. Para o linguista, poeta e professor titular de semântica argumentativa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Carlos Vogt, há hoje uma dispersão da leitura causada pelas novas tecnologias e a forma eletrônica de tratamento do texto. “No meio eletrônico, de textos permeados por hipertextos, o leitor passa a ter diante de si várias ‘portas’ que levam a outros textos. A progressão linear da leitura tradicional dá lugar a uma miríade de mosaicos de fontes novas e inesperadas de informação”, comenta.

A professora Tânia Pellegrini lembra que já presenciamos uma grande mudança nos modos de ler no passado, quando foi inventada a imprensa. “Se na Idade Média tínhamos os imensos códices (manuscritos gravados em madeira), o advento da imprensa tornou o livro portátil. E bem antes disso, no Egito antigo, inventou-se o papel, suporte até hoje insuperável. Com os computadores, criou-se um suporte técnico antes inimaginável”, diz.

Vogt e Pellegrini concordam que o presente seja de revelação de uma transformação crucial e de certo modo arriscada nos modos de ler. “Ler em uma tela é muito diferente de ler em um livro, muitíssimo diferente de ler pergaminhos ou papiros. A leitura na tela tende a ser mais rápida, apressada e fragmentada, pois a organização dos textos obedece às possibilidades que o suporte oferece: procurar relações com outros textos, imagens, sons”, afirma a professora. Carlos Vogt aponta dois riscos que aumentam com a leitura de textos na internet: a limitação da imaginação e a dispersão da concentração. Para o linguista, “a leitura no computador leva ao esmaecimento da tensão entre a horizontalidade dispersiva e a verticalidade da semântica que leva à concentração, invertendo assim a ‘planitude’ do texto”.

Mercado tecnológico

Da perspectiva do mercado, a digitalização de livros e a venda de livros digitais têm crescido constantemente, ganhando adeptos que parecem não se importar com os possíveis riscos da leitura digital, mas sim com seus atrativos e funcionalidades, como a possibilidade de “aproximar” o texto e a imagem por meio de recursos de zoom, entre tantas outras. O livro digital também não é um produto caro, se comparado ao livro em papel. Muitas vezes é até mais barato. Mas sua leitura é mais apropriada se realizada em aparelhos desenvolvidos para essa finalidade - os chamados e-readers - e esses sim são bastante caros, comparativamente ao preço dos livros tradicionais. Ainda pouco conhecidos no Brasil, os aparelhos para leitura do livro digital conferem à palavra escrita oportunidades de acesso inéditas, permitindo ao leitor carregar na palma da mão uma biblioteca inteira.

Mas as opiniões sobre o futuro do livro digital não convergem para sua supremacia. Pelo menos não no curto prazo. Para Vitor Tavares, presidente da Associação Nacional de Livrarias, o livro digital é mais uma alternativa para quem gosta de ler, e pode incentivar a criação de novos leitores. “Mas não vai substituir o livro em papel, que ainda é bem mais acessível e democrático”, afirma. Pellegrini também não aposta na superação do livro em papel: “o novo suporte digital é volátil, evanescente, fungível e talvez não possa durar tanto. Mas isso ainda não se sabe”.

A revista Panorama Editorial, em sua edição de fevereiro e março de 2010, fez um levantamento dos aparelhos e-readers e compilou dezoito tipos (marcas) diferentes (com informações sobre preços). O mais conhecido é o Kindle, vendido na livraria digital Amazon e exclusivo leitor de seus livros digitais. Entre os mais cobiçados está o i-Pad, da Apple, que agrega múltiplas funções (como operações de notebook e telefone), além da leitura eletrônica.

Existe ainda outra forma de associação entre livros e tecnologia: os totens de produção instantânea de livros em papel, que já existem em livrarias na Europa. “O cliente escolhe o livro que vai comprar, faz seu pedido numa máquina, e, enquanto toma um café, seu livro é impresso e encadernado. É o fim dos estoques”, diz Tavares. Mas essa alternativa ainda parece distante do Brasil, onde a maioria das livrarias, embora tenha diversificado seus atrativos com a venda de outros produtos e serviços, afora os livros, ainda sequer oferece vendas pela internet (56%, segundo pesquisa da ANL).

Jovens leitores

No que diz respeito ao público leitor, Pellegrini e Tavares compartilham a opinião de que os leitores dos livros digitais serão, em princípio, majoritariamente os jovens, por sua familiaridade com as novas tecnologias. Mas há que se ressaltar uma mudança no hábito de leitura dos jovens brasileiros que não tem relação direta com a digitalização de textos ou conteúdos de livros. Na atualidade, muitos jovens percorrem com empolgação volumes grandes, com quatrocentas, quinhentas páginas, quando se trata de séries de aventuras surrealistas, com personagens fabulosos em lugares fantásticos. Os exemplos mais marcantes são Harry Potter e Crepúsculo, que se tornaram também filmes de grande sucesso.

Fenômenos como esses não eram comuns até pouco tempo atrás. A boa adesão do jovem à prática da leitura já é observada na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, segundo a qual crianças e jovens de até vinte e quatro anos leem mais que os leitores mais velhos, conforme ilustra o gráfico abaixo (para detalhes sobre gêneros lidos e faixa etária, ver infográfico nesta edição).


A relevância do público jovem também ficou evidente na 21ª Bienal do Livro de São Paulo, que aconteceu na capital entre os dias 12 e 22 de agosto. Segundo a pesquisa do Datafolha, contratada pelos organizadores da feira, grande parte do público era formada por jovens (33% com até 25 anos; 33% de 26 a 40 anos; 25% de 41 a 55 anos, e 8% de pessoas com 56 ou mais anos).

Vitor Tavares chama de “geração Harry Potter” os jovens que leem preferencialmente livros com temas de bruxarias e vampiros, que aguçam seu imaginário. Mas a leitura das obras literárias clássicas ainda fica por conta da pressão dos vestibulares, que nem sempre é acompanhada dos efeitos esperados sobre a compreensão de textos em geral ou o estímulo ao ‘prazer’ pela descoberta de seus possíveis significados por parte do jovem leitor (ver artigo de Vera Bastazin nesta revista). No tocante às preferências de leitura de forma geral, sem considerar alguma segmentação etária, o destaque fica com os livros de autoajuda (ver box a seguir).

Livros de autoajuda entre os mais vendidos

O pesquisador Arnaldo Cortina, da Faculdade de Ciências e Letras, da Unesp de Araraquara, tentou estabelecer um perfil do leitor brasileiro a partir de um levantamento nas listas de livros mais vendidos do Jornal do Brasil e do jornal Leia entre 1966 e 2004. “O que pude constatar é que os livros de autoajuda foram ganhando força a partir dos anos 1980”, afirma. O crescimento desse tipo de literatura, segundo ele, faz com que o “estilo de autoajuda” se dissemine em diversos campos de leitura, como a literatura médica, a psicológica, a nutricional, a de administração de negócios etc. “Chegamos a um ponto em que não conseguimos mais distinguir o que é ou o que não é aquilo que chamávamos inicialmente de ‘autoajuda’, tal como ela apareceu nos anos 1960 nos EUA, quando se voltava para a questão do ‘mentalismo’, do ‘pensamento positivo’ etc”. Arnaldo encaixa na categoria de autoajuda livros como O alquimista e Brida, ambos de Paulo Coelho, Amar pode dar certo, de Roberto Shinyashiki, e O sucesso não ocorre por acaso, de Lair Ribeiro. “Essa foi a grande mudança no panorama da leitura de massa contemporânea”, diz. Para ele a autoajuda cresce porque as pessoas perderam as certezas. As grandes crenças religiosas e políticas entram em crise, e o homem contemporâneo precisa se apegar a algo que substitua isso. “Por essa razão temos o esoterismo, a afirmação de valores de determinados grupos sociais, o individualismo, a aceleração do consumo nessa atual fase do capitalismo”, finaliza.

Motivos e motivações

O leitor no Brasil lê, em média, menos de dois livros por ano (1,3), sem contar os livros didáticos usados nas escolas, de acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. Bem menos que na Argentina (5), no Chile (3) e na Colômbia (2,5). E a explicação para o ainda baixo índice de leitura passa por questões tanto socioculturais quanto econômicas.

“Ainda hoje temos um índice de analfabetismo não desprezível [no Brasil], sem mencionar os chamados analfabetos funcionais, que leem, mas não sabem explicar o que leram”, diz Tânia Pellegrini. Outra questão colocada pela professora é a do preço dos livros. “O livro no Brasil sempre foi muito caro em relação aos salários”, diz. Para Tavares, no entanto, o problema de hábito de leitura no país não é justificado pelo preço dos livros, pois há alternativas à compra, como bibliotecas, feiras, livrarias, e mesmo a internet, onde se pode ler de graça. “É a família a grande incentivadora do hábito”, comenta.

Para os leitores que desejam ler e veem o preço dos livros como um obstáculo, vale lembrar que muitos livros estão disponíveis gratuitamente (e legalmente) na internet. Sites de bibliotecas digitais, como o Domínio Público e o Brasiliana USP, oferecem milhares de obras para download gratuito, de importantes autores, como Machado de Assis, Eça de Queiroz, Lima Barreto, José de Alencar, Fernando Pessoa, Shakespeare, Dante Alighieri e muitos outros (box a seguir).

O Portal Domínio Público, lançado em 2004 pelo Ministério da Educação (MEC), já conta com um acervo de mais de 171 mil obras. Até agosto de 2010 já foram baixadas 31,3 milhões de cópias, entre textos, imagens, sons e vídeos. Já a Brasiliana, uma iniciativa da Universidade de São Paulo, em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e com o Ministério da Cultura (MinC), já disponibiliza de forma online parte do acervo de 17 mil títulos doado pelo bibliófilo José Mindlin em 2006. Entre os dias 13 e 15 de outubro, durante o Seminário Mindlin 2010 – O Futuro das Bibliotecas, será lançada a versão 2.0 da Brasiliana Digital.


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Saiba mais:


•Associação Nacional de Livrarias: www.anl.org.br/web/index.php
•Câmara Brasileira do Livro: http://www.cbl.org.br/
•Revista Panorama Editorial: http://www.panoramaeditorial.com.br/
•Biblioteca Brasiliana USP: http://www.brasiliana.usp.br/
•Portal Domínio Público: http://www.dominiopublico.gov.br/

Fonte: Univesp

domingo, 26 de dezembro de 2010

Família é fundamental na criação do hábito de ler

Mariana Mandelli - O Estado de S. Paulo
Publicada em 13 de dezembro de 2010

Os educadores afirmam que o segredo para despertar o gosto pelos livros nas crianças e jovens está muito mais no comportamento dos pais que nas orientações da escola.

Foto: Evelson de Freitas/AE
Irmãos. Dora está sempre conectada e Paulo adora ler


“Os pais devem ler junto com os filhos, mantendo o canal de comunicação aberto, sem censurar o que as crianças querem ler”, aconselha José Manuel Moran, diretor de Educação a Distância da Anhanguera Educacional e professor aposentado da ECA-USP.

“Ler mostrando o quanto isso pode ser gostoso deve ser encarado como uma tarefa pelos pais”, opina Teresa Ferreira, psicopedagoga da Unifesp. “É mais fácil despertar o gosto pela leitura no jovem dessa forma do que pela imposição que a escola e os vestibulares fazem.”

A importância de incentivarem a leitura formal em casa decorre principalmente do fato de que, hoje, desde muito cedo, as crianças já têm contato com o computador. “Atualmente, os brinquedos são quase todos eletrônicos. Poucos são pedagógicos”, aponta Sylvia van Enck, psicóloga do Programa de Dependência da Internet do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso (Amiti) da USP.

Os livros sempre entraram na casa dos irmãos Dora e Paulo Galvão Amaral, de 14 e 11 anos, respectivamente. Dora passa cerca de três horas por dia na internet e gosta de ler, mas acaba tendo mais contato com as obras que a escola indica. “Se não for livro obrigatório, só vou até o fim se a história me cativar”, conta.

Paulo é um aficionado por letras. “Li duas coleções de livros neste ano e muitos gibis. Também gosto de ler jornal, principalmente quando meu pai me mostra alguma matéria legal de ciências”, conta. “Minha mãe sempre incentivou a gente a ler. É só eu comentar que quero tal livro que ela aparece com ele.”

Adaptações. O dilema entre barrar o uso das novas tecnologias – para evitar distrações – e usufruir das possibilidades digitais já assola o cotidiano das escolas. No Colégio Santo Américo, na zona sul paulista, a direção vai proibir o celular na sala de aula em 2011 – antes a orientação era de não usar. “Percebemos alguns abusos”, conta Cesar Pazinatto, coordenador do ensino fundamental II. “É complicado lidar com tudo isso, porque as novas tecnologias têm um potencial enorme para ser explorado em classe.”

Para o professor da área de educação e ciência da computação da Universidade de Stanford,Paulo Blikstein, o grande desafio da escola é a motivação. “É preciso direcionar o aprendizado para coisas interessantes. Aí entra o papel dos pais e professores: apontar obras e criar condições para que os alunos se interessem de forma genuína”, afirma. “Conversar com amigos pelo celular é ótimo, mas isso não vai necessariamente levar ninguém a ler Machado de Assis.”

REALIDADE

“A internet não foi planejada para ajudar na concentração. Mas a solução não é proibir as crianças de usar o chat e o Facebook.” Paulo Bliksten, professor de Stanford

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Ler para os bebês aumenta vocabulário

Cáren Nakashima, 18/09/2010

A partir dos seis meses, hábito de ler para os bebês ajuda a formar melhor vocabulário e facilita alfabetização mais tarde

Foto: Getty Images
A partir dos seis meses, bebês já se beneficiam da leitura de livros

Quem pensa que ler livros e contar histórias é importante só para crianças maiores se engana. Ler para os bebês os deixa receptivos a palavras e sentenças mais complexas, além de apresentá-los aos livros como objetos e à ideia da linguagem escrita. No futuro, eles desenvolverão melhor linguagem, capacidade de interpretar histórias, começarão a ler com facilidade e associarão os livros a uma imagem positiva – e não à obrigação de estudar. “Bebês que ‘leem’ com os pais crescem entendendo que livros são fontes de prazer e informação, porque estão com eles em uma situação gostosa – seja nos seus braços ou no colo, ouvindo a sua voz favorita”, resume a americana Perri Klass, pediatra, jornalista e escritora.

A Academia Americana de Pediatria recomenda a leitura diária para as crianças desde os seis meses de idade. Na última Bienal do Livro, o impacto da leitura sobre o desenvolvimento cognitivo e da linguagem dos bebês foi tema de um seminário, que apontou conclusões de estudos internacionais. Entre os dados, ao entrar na escola, as crianças de três anos que já possuem o hábito de leitura em família apresentam um vocabulário 300% maior que aquelas que não cresceram entre as brochuras.

“Embora ainda não existam pesquisas nacionais sobre o tema, os estudos que vêm sendo desenvolvidos em outros países se aplicam para o Brasil, afinal a natureza humana e o processo de desenvolvimento são universais”, diz o psicólogo e educador João Batista Oliveira, presidente do IAB (Instituto Alfa e Beto), que dissemina e promove políticas e práticas de educação. João fala de evidências científicas que provam que o hábito da leitura, se desenvolvido desde cedo, tem influência positiva não apenas sobre a alfabetização, mas também sobre o desenvolvimento cognitivo em geral – o que é fundamental para o sucesso na escola.

Vantagens

Ler desde cedo para o seu filho o ajuda na familiarização com as letras, características da escrita, sons, segmentação das palavras em sílabas. “Mais adiante, a criança identificará fonemas e compreenderá como funciona o sistema alfabético”, diz.

Os benefícios não param por aí. Cultivar o hábito da leitura desde cedo estreita os laços entre mãe e filho. “Os laços se fortalecem por meio de interações regulares, sensíveis e amorosas. Esta aproximação positiva reforça a saúde emocional, o que ajudará a criança, no futuro, a se empenhar na escola”, conta o professor e pesquisador americano da Universidade de Vanderbilt, David Dickinson.

Para o especialista, quanto mais cedo a capacidade de linguagem é desenvolvida por leituras regulares, mais cedo os pequenos começarão a ler. “Além do mais, com a leitura frequente a criança aprende a ter foco e concentração, uma vez que a mãe a mantém prestando atenção no livro”, completa.