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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Como criar um ambiente leitor

Para promover a formação de leitores, o espaço da escola precisa estar repleto de textos e a rotina deve contemplar momentos reservados à leitura de qualidade e a conversas sobre livros


"Dentre os instrumentos inventados pelo homem, o mais impressionante é, sem dúvida, o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da visão; o telefone, uma extensão da voz e, finalmente, temos o arado e a espada, ambos extensões do braço. O livro, porém, é outra coisa. O livro é uma extensão da memória e da imaginação." Foi assim, no ensaio O Livro, publicado em Cinco Visões Pessoais, que o escritor argentino Jorge Luis Borges (1898-1986) resumiu a importância da literatura. Por meio dela, é possível conhecer personagens e culturas que fazem revelações sobre a natureza humana (e, portanto, sobre nós mesmos). Quem nunca se identificou com o protagonista de um romance e, tomando contato com as emoções vividas por ele, descobriu os próprios sentimentos? Quem, pelas frases de um conto, não viajou para outros lugares - reais ou fictícios - e criou em sua cabeça um mundo novo, único?

Mas não basta folhear as páginas de romances, contos, crônicas, fábulas, novelas e poesias para chorar, rir, recordar. É preciso aprender a ser um leitor literário. Infelizmente, na escola, esse é um conteúdo que vem sendo deixado de lado. Os textos são usados quase exclusivamente como um instrumento de estudo (sobre as figuras de linguagem, a pontuação e outros usos da língua ou a história da literatura, por exemplo). Esses, é claro, continuam sendo conteúdos curriculares importantes, que ajudam a desfrutar dos prazeres da leitura. Só que, sem o trabalho de ensinar a ler textos literários, eles são insuficientes. E como se faz isso? Lendo livros de literatura e mostrando às crianças e aos jovens como agem os adultos que já têm esse hábito. Alguns pontos de partida desse percurso são:

- Garantir o acesso ao acervo de livros,

- Permitir que os alunos possam escolher os gêneros e os autores que desejam ler,

- Mostrar a importância de trocar indicações de leituras e opiniões com amigos e colegas,

- Destacar que é possível ler em qualquer lugar, desde que a pessoa se sinta confortável.

Valorizar a literatura requer mudanças nos espaços e na rotina

Como gestor, talvez você precise mudar alguns aspectos da rotina e dos espaços da escola para oferecer esse aprendizado a todos os estudantes. O ideal é pensar em como criar um "ambiente leitor", envolvendo gestores, professores, funcionários e pais nessa tarefa (afinal, o exemplo dos adultos como modelos de leitor é fundamental para estimular a garotada e atingir os objetivos). Isso não significa que seja obrigatória a montagem de uma biblioteca "oficial", com pelo menos um título por aluno matriculado e um bibliotecário formado cuidando das obras. Ao contrário, qualquer espaço pode ser adaptado para a montagem do acervo. "O que está em jogo é a importância que se dá à leitura. De nada adianta ter um local razoavelmente estruturado se esse valor não é parte da cultura do grupo", resume Roberta Panico, consultora de NOVA ESCOLA GESTÃO ESCOLAR. Até porque, segundo o Censo Escolar de 2009, apenas um terço das escolas públicas de Ensino Fundamental e Médio tem biblioteca (nas particulares, esse número sobe para 78%) - razão pela qual o governo federal aprovou, em maio, uma lei que define o prazo de dez anos para que todas as instituições de Educação Básica passem a ter uma (se você já tem uma biblioteca em sua escola, leia o quadro abaixo com dicas para melhor geri-la).

Na reportagem de capa da edição de agosto/setembro de 2010 da revista NOVA ESCOLA GESTÃO ESCOLAR, apresentamos as oito ações mais eficazes para construir e manter viva a cultura de escola leitora. Elas estão divididas em quatro áreas da gestão (espaço, materiais, equipe e comunidade) para ajudar você, gestor, nesse trabalho. Como diz a espanhola Teresa Colomer, professora da Universidade Autônoma de Barcelona e especialista em literatura infantil e juvenil, "as maneiras para chegar lá são variadas, mas o objetivo final é sempre o mesmo: promover um entorno povoado de textos, tempos de leitura e conversações sobre eles".

Biblioteca para todos
De olho na equipe e no horário de funcionamento

Mesmo as escolas que têm biblioteca podem sofrer com outros problemas. Um deles é a falta de bibliotecário, pois há menos profissionais formados do que espaços para eles trabalharem. Nesse caso, é possível preparar um professor para ser o responsável pelo local - ou alunos-monitores e estagiários. Outra atribuição do gestor é manter o espaço aberto em períodos e tempos adequados para melhor atender o público. No CMET Paulo Freire, em Porto Alegre, cinco educadores se revezam para que a sala fique aberta das 8 às 22h30, para as turmas dos três períodos. Vale lembrar que a biblioteca é um lugar de leituras individuais e de interação. "É ali que os alunos vão aprender a pedir indicações e dividir opiniões. Por isso, não se deve exigir o silêncio absoluto", completa Roberta Panico.

Publicado em Agosto 2010

Fonte: Nova Escola

Oito ações para construir uma escola leitora

Garantir acesso a bons livros e criar um ambiente em que a leitura é rotina são maneiras eficazes de formar leitores de literatura. Veja como tornar isso realidade

1 Aproveite os mais diversos ambientes

Não é por falta de sala exclusiva que o acervo deve ficar encaixotado. "Já vi bibliotecas em corredores e até na entrada do banheiro", diz Celinha Nascimento, mestre em literatura brasileira e assessora de escolas públicas e particulares. Entre 2001 e 2009, Anália Fagundes Felipe foi diretora da EM Ivo de Tassis, em Governador Valadares, a 315 quilômetros de Belo Horizonte, e usou um carrinho para facilitar o contato com os livros. Ele passava nas salas e ficava no pátio durante o recreio (as professoras de leitura cuidavam do empréstimo). Depois, a equipe gestora instalou armários nos corredores, com portas que se abrem nos intervalos. "O espaço foi batizado pelas crianças de Ivoteca, em referência ao nome da escola", conta Anália. Perto das prateleiras, há murais com indicações dos títulos mais retirados, dados sobre os turnos que mais buscam obras - incentivando uma saudável competição - e dicas literárias feitas pelos alunos. Outra dica é decorar paredes com poemas, trechos de livros e dados sobre os autores.

PORTAS ABERTAS: Sem lugar para o acervo,
a EM Ivo de Tassis usa armários nos corredores.

2 Invista na organização do acervo

Para garantir que as obras transformem a maneira como crianças, jovens e adultos se relacionam com a literatura, não basta alinhá-las nas estantes da escola. Se o leitor precisa percorrer longas prateleiras sem entender a ordem dos livros, a busca pelo título desejado fica desanimadora. Uma das estratégias para fugir desse problema é separar as obras em literatura infantil, juvenil e adulta - bem como por tema, autor ou gênero. Uma boa inspiração é pensar em como funcionam as livrarias. Assim como elas usam estratégias para incentivar a compra, sua escola pode copiar o modelo com o objetivo de atrair leitores: expor logo na entrada os volumes mais retirados em determinado período, destacar as novidades em murais ou jornais internos, montar caixas com os livros divididos por faixa etária e colocá-las em locais de fácil acesso e deixar tudo sempre ao alcance dos estudantes - as prateleiras baixas, com itens para os pequenos, e as mais altas, para os mais velhos. "Muitas vezes, encontramos coisas maravilhosas e raras quando investimos em uma boa organização", afirma Celinha Nascimento.

3 Busque maneiras de ter (mais) livros

Toda escola tem direito a um acervo variado e atualizado. Desde 1997, o Ministério da Educação (MEC) fornece, por meio do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), livros de literatura para as instituições públicas. Algumas Secretarias de Educação contam com projetos semelhantes: no Rio de Janeiro, gestores e professores estaduais recebem dinheiro para atualizar o acervo durante o tradicional Salão do Livro. Em Santa Catarina, alunos do Ensino Fundamental ganham da Secretaria Estadual títulos de autores brasileiros. Se o acervo de sua escola está há muito tempo sem ser renovado, os especialistas sugerem organizar campanhas de arrecadação junto à comunidade ou solicitar doações a livrarias. Nesse caso, é preciso ficar atento ao que chega para escolher apenas o que tem qualidade literária e é, de fato, interessante para os alunos.
 
SEM MEDO DE USAR: Na EMEIEF Carlos
Drummond de Andrade, os livros vão até mesmo ao jardim.

4 Faça os livros circularem

Receio de que a capa estrague, as páginas se soltem ou o exemplar desapareça - eis algumas das inquietações que afligem os gestores. Antes de tudo é bom lembrar que, como todos os bens de consumo, os livros têm vida útil e, mais cedo ou mais tarde, precisam ser repostos. Por isso, nenhuma dessas preocupações pode impedir que os livros cumpram sua função: passar por alunos de todas as idades e chegar à comunidade. A equipe gestora da EMEIEF Carlos Drummond de Andrade, em Santo André, na Grande São Paulo, permite que as professoras levem exemplares para o jardim para que as crianças ouçam histórias e leiam num ambiente descontraído. Camila de Castro Alves Teixeira, da central pedagógica da Comunidade Educativa Cedac, em São Paulo, sugere campanhas educativas para ensinar os usuários a preservar os livros. Mais produtivo do que temer perdê-los é investir no controle de retirada (com programas de computador ou cadernos de registro). Um exemplar pode não ser devolvido por esquecimento ou porque o aluno quer ficar com ele. Discutir os direitos e deveres da vida em sociedade e elaborar regras de uso do acervo - prevendo a possibilidade de renovar o empréstimo da obra - pode ser um caminho. Mesmo as punições - sem exageros, por favor - são necessárias: enquanto não houver a devolução do livro atrasado, o usuário pode ficar impedido de realizar novos empréstimos.

5 Desperte o gosto pela literatura

Para formar leitores, é preciso que o professor seja, ele mesmo, um leitor, certo? O que fazer, então, quando ele não lê? Na prática, o mesmo que se faz com os alunos: criar condições para que a literatura vire um hábito. Na UME Antônio Ortega Domingues, em Cubatão, a 55 quilômetros de São Paulo, os educadores começam as reuniões com uma leitura literária coletiva e uma discussão sobre as impressões de todos a respeito do texto lido. O objetivo é aproximar a equipe da boa literatura e oportunizar momentos para que esses profissionais ampliem seu repertório e se interessem em buscar outras leituras. Algumas ações podem ser contempladas num projeto institucional que preveja a montagem de um acervo literário específico para adultos, a produção de um mural com indicações na sala dos professores e a organização de círculos de leitura. Importante: os momentos de formação do professor leitor não eliminam a necessidade de capacitá-lo na didática da leitura - fundamental para ele poder ensinar os alunos a também se tornar leitores.

6 Incentive os funcionários a ler

Fazer com que o gosto pela leitura contamine toda a escola é um desafio que rende ótimos frutos. É essencial, portanto, incentivar os funcionários a frequentar o espaço destinado à leitura. Na EM Professor Luiz de Almeida Marins, em Sorocaba, a 99 quilômetros de São Paulo, todos têm uma carteirinha da biblioteca e é comum ver merendeiras e auxiliares de limpeza escolhendo exemplares para ler em casa. Também é importante convidar os funcionários para participar de momentos de leitura coletiva, em horários previamente acordados entre todos e em local aconchegante. "O ato de ler ainda é visto por muitos como uma experiência solitária. Mas não deve ser assim. A leitura em conjunto estimula o prazer e a familiaridade com os textos", destaca Camila Teixeira, da Comunidade Educativa Cedac. Ações como essa ajudam a despertar no pessoal da equipe de apoio a vontade de se tornar um contador de histórias, por exemplo. Nesse caso, cabe a você, gestor, abrir espaço para que a atividade aconteça (sem tirar dos professores a responsabilidade de ler para as turmas).

DE CARTEIRINHA: Na EM Professor Luiz de Almeida
Marins, os funcionários também frequentam a biblioteca

7 Forme redes literárias
 
Oferecer contato com os livros exige habilidade e jogo de cintura. Mapear na vizinhança as entidades que têm potencial para ser parceiras da escola e procurar os responsáveis por equipamentos urbanos são boas pedidas. Em São João do Oeste, a 676 quilômetros de Florianópolis, duas escolas públicas se valem do acervo da biblioteca pública, no centro da cidade, para ampliar a oferta de títulos. Para atender a um acordo feito com gestoras, a coordenadora pedagógica da Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Esportes, Teresinha Staub, aproveita as visitas semanais para levar alguns livros no carro da prefeitura. As obras são eleitas pela demanda das escolas ou por indicações de Teresinha.

8 Abra as portas para os pais

Finalmente, para formar uma comunidade de leitores, nada melhor do que estreitar o contato com as famílias e oferecer a elas a possibilidade de usufruir da boa literatura. Encontros com autores, saraus e atividades de contação de histórias atraem os familiares e ajudam a tornar a leitura uma prática difundida socialmente. A realização de uma Semana Literária foi o caminho escolhido pela EMEF Professora Maria Berenice dos Santos, em São Paulo. "A experiência foi enriquecedora desde o planejamento, quando alunos e funcionários trocaram indicações de textos e de autores que queriam conhecer", conta a professora Daniela Neves, idealizadora da festa. Já na EE Jornalista Francisco Mesquita, também na capital paulista, os saraus mensais fazem sucesso por contar com um variado repertório de leitura e declamações. Outra ideia, implantada pela EE Professor Astor Vasques Lopes, em Itapetininga, a 165 quilômetros de São Paulo, é incentivar os alunos a levar para casa um livro e um caderno de anotações para que as histórias sejam lidas e comentadas com os parentes. Além disso, o acervo deve estar sempre disponível à comunidade, principalmente nos locais em que a escola é a principal fonte de acesso aos livros.

LEITURA EM FAMÍLIA: Pais e filhos são incentivados a
ler juntos na EE Professor Astor Vasques Lopes

Publicado em Agosto/Setembro 2010

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Diálogo entre cultura impressa e digital responde ao desafio da formação do leitor

Raquel Wandelli, para a SBPC

Conferencistas discutem na Reunião Anual da SBPC saídas para a formação de leitores na cultura digital, onde o professor é emigrante e o aluno é o nativo

Professores de ensino fundamental e médio vivem em todo mundo talvez o maior desafio da sua história: formar leitores em uma sociedade que sofreu a mudança drástica da cultura impressa para a digital e do paradigma de leitura para o de navegação. Como a escola pode formar leitores nessa contemporaneidade, quando impera uma cultura à qual os professores aderem como emigrantes, enquanto os alunos são os nativos?

E como fazer desse leitor.com recém-inventado, esse adolescente zapper que ziguezagueia como um pássaro, um autor intérprete crítico e produtor de sentidos? E ainda: como potencializar as possibilidades de interatividade e multilinearidade da internet em favor da apreensão de saberes complexo em uma sociedade lan house, onde reina o sensorial, o efêmero e a superficialidade dos chats e jogos virtuais?

A busca de respostas a esse desafio reuniu três educadoras em torno da conferência "A formação do leitor no século XXI", realizada na tarde de quarta-feira (28/7), terceiro dia da 62ª Reunião Anual da SBPC, no campus da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

As pesquisadoras Maria Zaíra Turchi, da Universidade Federal de Goiás (UFG), e Marly Amarilha, da UFRN, apresentaram reflexões e saídas para esse impasse, tão urgente e emergente a ponto de constituir grupos de estudos e uma linha de pesquisa dentro da SBPC.

Alice Aurea Penteado, professora da Universidade Estadual de Maringá (UEM), complementou a discussão apresentando os critérios de compra de livros dentro do Edital de Convocação para o Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE 2011), que primam pela oferta de uma linguagem atraente para os jovens. O diálogo relacional entre gerações e linguagens diferentes, a postura do professor-aprendiz e a convicção de que nenhuma forma de leitura é superior à outra são posições compactuadas pelos palestrantes como ponto de partida para o enfrentamento da questão contemporânea da leitura.

O professor precisa suspender o preconceito contra a cultura digital e imergir no universo dos adolescentes para criar possibilidades de formação do gosto pela leitura, como Maria Zaíra. Mas também não deve se sentir inferiorizado diante das novas tecnologias e nem se acuar como se não tivesse, com sua experiência letrada e impressa, mais contribuição a dar para a formação desse leitor zappeante, conforme alertou Marly Amarilha. É justamente na tangência entre as duas culturas - digital e impressa - que reside a riqueza do momento contemporâneo e é nessa troca que se abrem novas possibilidades de ensino, como pode se abstrair do debate.

Valendo-se do conceito de hipermodernidade do filósofo Gilles Lipovetsky, Zaíra lembrou que a internet é a configuração simbólica mais poderosa da hipermodernidade, caracterizada pela hiperprofusão de imagens. Na hipermodernidade, as esferas da vida humana vivem uma escalada ilimitada em busca da velocidade e da visibilidade.

Como nunca antes, a sociedade de consumo se constitui pelo signo do excesso e da exacerbação da mercadoria, marcas e serviços. Os comportamentos e os adolescentes estão imersos nessa engrenagem que coloca a própria escola em crise, uma vez que as mídias são muito mais eficazes do que ela na multiplicação dos gestos, dos comportamentos, dos valores e das linguagens, lembra a estudiosa.

Nessa sociedade de explosão de linguagens, o papel da escola é muito mais complexo, porque não se trata apenas de ensinar a ler na concepção clássica, mas de "ler além da linguagem verbal, a visual, a auditiva, olfativa, gustativa, bem como os gestos, as cores, a moda, o comportamento".

Citando Décio Pignatari, no capítulo "Você sabe ler objetos?", do livro Semiótica e Literatura, ela enfatiza a necessidade de a escola perceber-se no tempo em que a explosão de informações seguiu-se a explosão de linguagens, na televisão, no cinema, no trânsito, na arquitetura, na publicidade, na informática, na literatura, nos códigos, enfim, da Babel cotidiana.

"Consumir é comunicar-se. Não há dúvida de que a inserção do jovem no contexto histórico depende não apenas da sua capacidade de leitores de palavras, mas da sua destreza enquanto leitores de múltiplas linguagens".

Na cena presente, a compreensão de uma gramática das imagens como estratégia de leitura é tão importante quanto a alfabetização para ler o código escrito. Navegar no espaço virtual exige dos leitores formados em outra cultura, em outro ritual, uma nova compreensão e uma nova atitude, defende.

"Talvez nós professores estejamos precisando de um explicador", diz ela, referindo-se metaforicamente à bela passagem de A linguagem secreta do cinema. Nessa obra, Jean-Claude Carrière conta que, no início do século XX, era comum nos cinemas, bem ao lado da tela, a presença de um funcionário para explicar ao público o que estava acontecendo no filme. A figura do explicador só desaparece em 1920, quando bem ou mal o público já estava alfabetizado na linguagem cinematográfica.

A formação do leitor contemporâneo deve considerar a sua participação cotidiana nas novas mídias digitais, marcada pela interatividade, acrescenta a conferencista. Ao unir, de modo sequencial, fragmentos de informações de naturezas heterogêneas, o leitor experimenta na sua interação com o potencial dialógico da hipermídia um tipo de comunicação multilinear em que está livre para estabelecer sozinho a ordem textual ou para se perder na desordem das partes.

"O navegador coloca em ação habilidades de leitura distintas daquelas empregadas pelo leitor de um texto ou livro impresso". Esse leitor imersivo atua como editor ao escolher o que ler. Nesse ponto, a professora da UFRN, Marly, complementa que, tão importante quanto ensinar a ler é ensinar a ter critérios de escolha de fontes de leitura no mundo virtual.

Zaíra propõe ainda que a escola conheça as possibilidades das novas formas de leitura interativa, sobretudo a dos blogs de escritores, que permitem a interatividade na construção da narrativa. Segundo sua pesquisa sobre a participação de adolescentes em blogs de autor, essa escrita é marcada pela brevidade dos textos, escritos em linguagem coloquial, com a grafia correta, mas sem o uso constante do internetês, como fazem os leitores de outros blogs.

O prazer reside no uso das possibilidades interativas, na liberdade do comentário, da interferência imediata no texto, alterando a sequência, as conexões entre os personagens ou mesmo reescrevendo as histórias, como em um jogo textual. A popularização do escritor nos blogs, com sua presença na tela ou nas conferências virtuais, é capaz de alterar o padrão de consumo intelectual e interferir nas escolhas de livros dos leitores, acredita.

Citando a pesquisadora argentina Beatriz Sarlo, defende que a escola beneficie-se do que seus alunos aprendem em outros lugares e aproveite as habilidades hipertextuais de leitura. Mas isso "até certo ponto", como diz Sarlo. É que, segundo a autora, essas habilidades, caracterizadas pela rapidez e o imediatismo, pela emoção do jogo, mas também pela brevidade e pelo desinteresse no pormenor ou nas entrelinhas, não fornecem capacidades suficientes para a aquisição de outros, tais como precisão verbal, interpretação e produção de argumentações escritas. "Ou seja, são insuficientes para transformar um adolescente em leitor e produtor de textos".

É aí que entra o professor emigrante como colaborador do nativo, na nomenclatura proposta por Marly, aprendendo e ensinando com sua herança do universo impresso, não mais como um tiranossauro autoritário remanescente de eras passadas, mas como o elo de ligação do mundo da escrita com o mundo presente.

Esse professor, que em um futuro próximo talvez nem receba mais esse nome, ao mesmo tempo estrangeiro e habitante dessa plataforma de bits e vídeogames, ocupa o entrelugar privilegiado para fazer o corte na adesão eufórica e acrítica às novas tecnologias e mostrar que a própria escrita engendrou a internet não como um artefato alienígena ou futurista, mas como um invento tecnológico e cultural capaz de ajudar a construir sujeitos históricos mais livres.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Veja lista completa de livros infantis indicados por especialistas

A lista é de 14/04/2007, não custa nada relembrar
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da Folha de S.Paulo

No dia 18 de abril, é também o aniversário do livro infantil. Para comemorar essa data tão especial, a Folhinha pediu que 17 especialistas em literatura indicassem obras que não podem faltar na sua biblioteca. Ou seja, são livros que toda criança deve ler antes de virar adulto! A tarefa não foi nada fácil, mas conheça, abaixo, os mais votados.

"Alice no País das Maravilhas"
De Lewis Carroll, com tradução de Ana Maria Machado
Editora Ática

"Bisa Bia, Bisa Bel"
Escrito por Ana Maria Machado, com ilustração de Regina Yolanda
Editora Salamandra

"O Bichinho da Maçã"
De Ziraldo
Editora Melhoramentos

"A Bolsa Amarela"
De Lygia Bojunga, com ilustrações de Marie Louise Nery
Casa Lygia Bojunga

"Chapeuzinho Amarelo"
De Chico Buarque, com ilustrações de Ziraldo
Editora José Olympio

"O Gênio do Crime"
De João Carlos Marinho, com ilustrações de Maurício Negro
Editora Global

"Histórias Maravilhosas de Andersen"
De Hans Christian Andersen, com tradução de Heloisa Jahn
Companhia das Letrinhas

"História Meio ao Contrário"
De Ana Maria Machado, com ilustração de Renato Alarcão
Editora Ática

"Menina Bonita do Laço de Fita"
De Ana Maria Machado, com ilustrações de Claudius
Editora Ática

"Ou Isto ou Aquilo"
De Cecília Meireles, com ilustrações de Thais Linhares
Editora Nova Fronteira

"O Mágico de Oz"
De Lyman Frank Baum
Editora Ática

"Reinações de Narizinho"
De Monteiro Lobato, com ilustrações de Manoel Victor Filho
Editora Brasiliense

"Fábulas"
De Monteiro Lobato, com ilustrações de Manoel Victor Filho
Editora Brasiliense

"Marcelo, Marmelo, Martelo e Outras Histórias"
De Ruth Rocha, com ilustrações de Adalberto Cornavaca
Editora Salamandra

"Sua Alteza, a Divinha - Um Conto do Nosso Folclore"
De Angela-Lago
Editora RHJ

"O Menino Maluquinho"
De Ziraldo
Editora Melhoramentos

"As Aventuras de Tom Sawyer"
De Mark Twain, com tradução de Carlos Heitor Cony
Editora Ediouro

"A Arca de Noé"
De Vinícius de Moraes, com ilustrações de Nelson Cruz
Da Companhia das Letrinhas

"A Fada que Tinha Idéias"
De Fernanda Lopes de Almeida, com ilustrações de Edu
Editora Ática

"Exercícios de Ser Criança"
De Manoel de Barros, com bordados de Antônia Zulma Diniz, Ângela, Marilu, Martha e Sávia Dumont sobre desenhos de Demóstenes
Editora Salamandra

"A Bruxinha Atrapalhada"
De Eva Furnari
Editora Global

"Contos de Grimm"
De Wilhelm e Jacob Grimm, com tradução de Heloisa Jahn
Companhia das Letrinhas

"Contos de Perrault"
De Perrault, com tradução de Regina Regis Junqueira e ilustrações de Gustave Doré
Editora Villa Rica

"Corda Bamba"
De Lygia Bojunga, com ilustrações de Regina Yolanda
Casa Lygia Bojunga

"De Não em Não"
De Bartolomeu Campos de Queiróz, com ilustrações de Gloria Campos e Paulo Bernardo Vaz
Editora Ibep Nacional

"Dengos e Carrancas de um Pasto"
De Jorge Miguel Marinho

"Diário de um Gato Assassino"
De Anne Fine, com tradução de Mariana Rodrigues e ilustrações de Sofía Balzola
Edições SM

"Doze Reis e a Menina no Labirinto do Vento"
De Marina Colasanti
Editora Global

"Os Doze Trabalhos de Hércules"
De Monteiro Lobato, com ilustrações de Manoel Victor Filho
Editora Brasiliense

"É Isso Ali"
De José Paulo Paes, com ilustrações Walter Vasconcelos
Editora Salamandra

"Faca Afiada"
De Bartolomeu Campos de Queiróz, com ilustrações de Odilon Moraes
Editora Moderna

"A Flor do Lado de Lá"
De Roger Mello
Editora Global

"Histórias de Bobos, Bocós, Burraldos e Trapalhões"
De Ricardo Azevedo
Projeto Editora

"Um Homem no Sótão"
De Ricardo Azevedo
Editora Ática

"Indez"
De Bartolomeu Campos de Queirós
Editora Global

"Indo Não Sei Aonde Buscar Não Sei O Quê"
De Angela-Lago
Editora RHJ

"Lin e o Outro Lado do Bambuzal"
De Lúcia Hiratsuka
Edições SM

"A Maior Flor do Mundo"
De José Saramago, com ilustrações de João Caetano
Companhia das Letrinhas

"Mania de Explicação"
De Adriana Falcão, com ilustrações de Mariana Massarani
Editora Moderna

"Memórias da Emília"
De Monteiro Lobato, com ilustrações de Manoel Victor Filho
Editora Brasiliense

"O Menino que Espiava pra Dentro"
De Ana Maria Machado, com ilustrações de Flávia Savary
Editora Nova Fronteira

"O Menino Quadradinho"
De Ziraldo
Editora Melhoramentos

"Meninos do Mangue"
De Roger Mello
Companhia das Letrinhas

"Meu Livro de Folclore"
De Ricardo Azevedo
Editora Ática

"As Mil e Uma Noites - Volumes 1 e 2"
Versão de Antoine Galland, com tradução de Alberto Diniz
Editora Ediouro

"Os Miseráveis"
De Victor Hugo, com tradução de Walcyr Carrasco
Editora FTD

"A Moça Tecelã"
De Marina Colasanti, com ilustrações de Demóstenes Vargas
Editora Global

"Não Olhe Atrás da Porta"
De Lia Neiva
Editora Livro Técnico

"As Narrativas Preferidas de um Contador de Histórias"
De Ilan Brenman, com ilustrações de Fernando Vilela
Editora Landy

"No Olho da Rua"
De Georgina Martins, com ilustrações de Nelson Cruz
Editora Ática

"Nossa Rua Tem um Problema"
De Ricardo Azevedo
Editora Ática

"O Olho de Vidro do Meu Avô"
De Bartolomeu Campos de Queirós, com ilustrações de Pimenta Design
Editora Moderna

"Onde Tem Bruxa Tem Fada"
De Bartolomeu Campos Queirós, com ilustrações de Suppa
Editora Moderna

"Palavras, Palavrinhas e Palavrões"
De Ana Maria Machado, com ilustrações de Fê
Editora FTD

"Um Passarinho Me Contou"
De José Paulo Paes
Editora Ática

"Pé de Pilão"
De Mário Quintana
Editora Ática

"O Pequeno Nicolau"
De René Goscinny, com tradução de Luís Lorenzo Rivera e ilustrações de Jean-Jacques Sempé
Editora Martins Fontes

"Pererêêê Pororóóó"
De Lenice Gomes, com ilustrações de André Neves
Editora DCL

"Peter Pan"
De James Barrie, com tradução de Ana Maria Machado
Editora Salamandra

"O Picapau Amarelo"
De Monteiro Lobato, com ilustrações de Manoel Victor Filho
Editora Brasiliense

"Poemas para Brincar"
De José Paulo Paes
Editora Ática

"Poesia Fora da Estante" (volumes 1 e 2)
De Vera Aguiar, Sissa Jacoby e Simone Assumpção (org.), com ilustrações de Laura Castilho (vol. 1) e Tatiana Sperhacke (vol.2)
Projeto Editora

"(O) que os Olhos Não Vêem"
De Ruth Rocha, com ilustrações de Carlos Brito
Editora Salamandra

"Raul da Ferrugem Azul"
De Ana Maria Machado, com ilustrações de Rosane Faria
Editora Salamandra

"Restos de Arco-Íris"
De Sérgio Capparelli
Editora L&PM

"Os Rios Morrem de Sede"
De Wander Piroli, com ilustrações de Rogério Borges
Editora Moderna

"Sabedoria das Águas"
De Daniel Munduruku, com ilustrações de Fernando Vilela
Editora Global

"Seis Vezes Lucas"
De Lygia Bojunga
Casa Lygia Bojunga

"O Sofá Estampado"
De Lygia Bojunga Nunes, com ilustrações de Peter
Casa Lygia Bojunga

"A Televisão da Bicharada"
De Sidônio Muralha, com ilustrações de Cláudia Scatamacchia
Editora Global

"Todo Cuidado é Pouco!"
De Roger Mello
Companhia das Letrinhas

"Viagem ao Céu"
De Monteiro Lobato, com ilustrações de Manoel Victor Filho
Editora Brasiliense

"A Vida Íntima de Laura"
De Clarice Lispector, com ilustrações de Mariana Massarani
Editora Rocco

"A Vida e Outra Vida de Roberto do Diabo"
De Ricardo Azevedo
(fora de catálogo)

Quem escolheu os livros:

Adriana Silene Vieira, 34, doutora em letras pela Unicamp (Universidade
Estadual de Campinas); Ana Mariza Filipouski, 58, doutora em teoria
literária e pesquisadora da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul); Cecil Jeanine Albert Zinani, coordenadora do curso de pós-graduação em literatura infanto-juvenil da Universidade de Caxias do Sul; Flávia Brocchetto Ramos, 40, professora doutora da Universidade de Caxias do Sul e da Universidade de Santa Cruz do Sul; Gloria Pimentel Correia Botelho de Souza, 53, especialista em literatura infanto-juvenil brasileira pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e autora de "A Literatura Infanto-Juvenil Brasileira Vai Muito Bem, Obrigada!" (DCL); Juliana Loyola, 42, professora de literatura infanto-juvenil da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo); Juracy Assmann Saraiva, 60, pós-doutora em teoria literária e autora de "Literatura na Escola" (Artmed); Laura Sandroni, 73, mestre em literatura brasileira com especialização em literatura infantil, fundadora e membro da FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil); Maria das Graças Monteiro Castro, 45, jurada da FNLIJ; Maria dos Prazeres Mendes, 58, professora doutora da USP (Universidade de São Paulo); Maria José Palo, professora da PUC-SP e co-autora e "Literatura Infantil: Voz de Criança" (Ática); Maria Rosa Duarte de Oliveira, professora da PUC-SP e co-autora de "Literatura Infantil: Voz de Criança" (editora Ática); Milena Ribeiro Martins, 34, doutora em literatura brasileira pela Unicamp; Peter O'Sagae, 37, assessor do PNLL (Plano Nacional do Livro e Leitura) e criador do site Dobras da Leitura (www.dobrasdaleitura.com); Regina Zilberman, 58, autora de "Como e Por Que Ler a Literatura Infantil Brasileira" (Objetiva); Rosa Maria Cuba Riche, 56, doutora em teoria literária pela UFRJ e professora da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro); Tania Rösing, 59, coordenadora das Jornadas Literárias de Passo Fundo (RS).

Cada especialista indicou uma lista com dez livros que julga importante para a formação dos pequenos leitores

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Escola e família: parceria na formação de leitores autônomos

Um dos principais objetivos da Escola da Ilha é contribuir para a formação de leitores autônomos. Sabemos que as práticas que geram o gosto pela leitura têm início antes da chegada da criança à escola e vão além do tempo que ela passa na escola. Entretanto, temos clareza da importância das ações desenvolvidas pela instituição escolar com relação ao ensino da leitura e ao gosto pela leitura.
Por isso, listamos algumas das atividades mais presentes no cotidiano dos nossos alunos e outras que poderão ser vivenciadas em casa ou ainda desenvolvidas em parceria entre a escola e a família:

» Garantia de horário de leitura em sala, na biblioteca ou em casa (todos lendo, sem cobrança de atividades relacionadas, mas com espaço para comentar as leituras feitas);

» Ciranda de livros com títulos propostos pelos professores;

» Ciranda de livros com livros trazidos pelos alunos;

» Leitura de livros feita pelo professor ou pelo colega;

*Leitura de livros por capítulos;

*Projetos literários com atividades diferenciadas dentro da temática do livro lido;

*Rodas de conversa sobre um livro lido por todos os alunos;

*Leitura de reportagens interessantes;

*Leitura de textos científicos (relacionados aos projetos ou conforme os interesses dos alunos);

*Oficina de poesia;

*Oficina de escrita e reescrita de textos;

*Leitura na biblioteca da escola;

*Contação de histórias;

*Reconto de histórias;

*Escolha de livro para empréstimo;

*Comentários (propagandas) sobre livros lidos, que estimulem o desejo de ler;

*Fazer um resumo do livro lido;

*Ler para a criança, quando possível, causar suspense, dramatizar, aguçar a curiosidade;

*Ler com a criança fazendo um rodízio (o adulto lê uma página e a criança outra);

*Ler sobre temas estudados;

*Ler notícias de jornais, enfatizando a parte cultural;

*Ouvir a leitura feita por outros leitores;

*Freqüentar bibliotecas, museus e galerias de arte;

*Freqüentar cinemas, teatros, eventos culturais e ler nos jornais notícias e críticas relacionadas;

*Freqüentar livrarias para conferir lançamentos, ler e comprar livros;

*Contar para os alunos/filhos experiências pessoais com a leitura vividas na infância e na adolescência;

*Deixar livros à disposição das crianças (mini-biblioteca);

*Assinar e/ou comprar jornais e revistas adequadas à faixa etária dos filhos;

*Mostrar que a leitura faz parte do seu dia-a-dia.
Concordamos com Jean Hébrard, quando ele afirma que: “... a capacidade de ler ultrapassa consideravelmente a capacidade de decifrar”.

Sendo assim, não é apenas o aprendizado do sistema de representação da língua materna que está em jogo, mas, principalmente, o uso social que os nossos alunos venham a fazer da leitura como ferramenta para conhecer, para se informar, para compartilhar, para apreciar, para se emocionar, para se encantar, para se divertir... enfim, para saber mais.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Literatura para iniciantes

Muitos especialistas dizem que a infância e a juventude são os melhores períodos da vida para o indivíduo adquirir a prática da leitura – considerada inerente ao desenvolvimento do ser humano por diversificar e ampliar a sua visão de mundo. A questão, diante desse desafio, é saber indicar o que o jovem deve ler para ingressar na literatura: a intimidade com as palavras deve ocorrer pela leitura das obras clássicas ou dos autores contemporâneos? O professor do Departamento de Teoria Literária da Unicamp, Paulo Franchetti, e o filósofo e pedagogo, Nivaldo de Carvalho, analisam o tema.

A construção do leitor
por Paulo Franchettii

Antes de refletir sobre qual o melhor caminho para ensinar literatura, penso que o melhor seja tentar responder à pergunta “por que ensinar literatura?”. E, antes de formular essa pergunta, talvez seja útil pensar em que consiste o processo da leitura.

Quando lemos um romance, por exemplo, nós nos colocamos na posição das personagens, repudiamos ou aprovamos o seu comportamento, nos identificamos ou nos indignamos com suas opções morais e movimentos espirituais. Como no cinema, experimentamos emoções que não nos pertencem originalmente, mas que sentimos até com mais intensidade do que as nossas próprias. Estamos ali mais livres. Olhamos para os dramas, os ridículos, o desespero ou a alegria do triunfo sem um interesse particular.

Usei, para destacar o ponto, uma analogia entre um romance e um filme. Mas há grandes diferenças entre eles, como há entre um poema e uma canção com letra e entre uma peça teatral escrita e suas encenações. Uma das mais evidentes é que o cinema é uma arte combinada: o efeito geral é produzido pela combinação de imagem, palavra, música, ruídos, efeitos visuais. Um romance ou um poema pode e deve produzir emoção, riso e outras respostas afetivas, mas apenas por meio da palavra.

Por depender só da palavra, a literatura tem uma força que as artes combinadas não possuem. Ela abre enorme espaço à projeção do leitor. De fato, tudo depende da sua imaginação: a forma de um rosto, por mais pormenorizadamente descrita, é uma para cada leitor. Assim também o tom da voz de uma personagem, uma paisagem, um ruído de guerra, o som de um grito ou de um encontro amoroso. E a importância disso se comprova quando vemos um filme sobre um livro que nos apaixonara. A concretização do rosto, do traço, a associação com uma voz real é perturbante. Mais ainda a presença de tudo aquilo que não aparece ou se apaga durante a leitura.
Por exemplo, quando lemos a descrição dos olhos de Capitu, não pensamos que ela tem mãos. Nem pés. Não imaginamos que vestido estaria usando, nem somos obrigados a lidar com particularidades como brincos, penteado, maquiagem etc. Não há nada senão as imagens que se juntam para dar ideia daqueles olhos. Mas, quando se filma ou se desenha Capitu com traço realista, todas as coisas não nomeadas no texto do Machado [de Assis] (partes do rosto, do corpo, do ambiente) vêm junto com os olhos, empanam o seu brilho, enfraquecem a sua força, de forma que uma representação pictórica dos olhos de Capitu nunca terá, sobre um leitor de Dom Casmurro, impacto semelhante ao dos trechos do romance em que eles são tratados.

Concentremo-nos agora no processo da leitura – na leitura de um romance, por exemplo. O que sucede ali? O leitor por acaso o decifra palavra por palavra? Não, por certo. Ele voa sobre elas, busca ao mesmo tempo o sentido do conjunto e o tom do trecho e do livro. Ele precisa entender se uma passagem é dita em tom irônico. Precisa perceber os sentidos que se formam além dela, pela alusão a eventos históricos, a outros textos, a costumes. E precisa fazer muitas outras operações complexas de interpretação, com base apenas no texto escrito, nas palavras que se sucedem nas páginas. Além de apreciar o ritmo das frases e a justeza ou o inusitado das imagens. Esse leque de capacidades não é trivial. Não é fácil dominar o conjunto complexo de habilidades que permite ao leitor ter pleno acesso ao prazer e à emoção que um bom livro lhe pode dar.

A mais rica fruição da literatura pressupõe ainda um exercício amplo da cultura, naquilo que ela tem de relação com o passado, como continuidade ou ruptura. É o passado que dá sentido ao presente da literatura. Uma obra solta no tempo não tem significação literária, no sentido que damos a essa palavra hoje. Um texto literário faz contínuas referências a outros textos que o precederam, e há alguns em que, sem o conhecimento do texto aludido ou incorporado, o sentido se perde ou, pelo menos, não se apresenta em totalidade.

A literatura é, assim, uma forma de ligação com o passado, uma forma de revivificá-lo. De aprender com ele, mas também uma forma de nos apropriarmos dele. A literatura fala pelo passado e faz o passado falar pelo presente. Ensinar literatura, portanto, em sentido amplo, é criar as condições para que o estudante, o leitor em formação, possa tornar-se ele também um herdeiro desse manancial.

Tornar-se herdeiro significa não só poder compreender, mas poder vivenciar em si mesmo o passado. Isso inclui poder deslocar a sua perspectiva temporal sobre vários assuntos, de modo a compreender que quase nada de “natural” existe no comportamento e nas instituições humanas, que quase tudo é cultural, ou seja, muda ou pode ser mudado. A literatura expõe a historicidade das formas de sensibilidade, convocando o que permanece ainda vivo em nós e o que já não permanece; o que nos rege desde o mundo dos mortos porque ainda é vivo e o que nos rege desde lá sem nenhuma razão para isso.

É certo que uma pessoa pode adquirir os instrumentos necessários para ler literariamente por meio da convivência solitária com os livros, no caso de dispor de acesso a uma biblioteca. Mas como ler literariamente é uma atividade que exige treinamento, referências culturais e repertórios específicos, faz sentido imaginar que a escola forneça meios para o estudante situar-se desde logo no campo literário.

Podemos tentar responder agora à pergunta metodológica que se apresenta, às vezes, com urgência e que foi o gatilho deste texto: deve-se começar o ensino da literatura pelos clássicos ou pelos contemporâneos?

Há quem julgue que pelos contemporâneos, tendo por princípio que se deve começar do mais fácil para o mais difícil. Do que tem mais apelo imediato para o que tem menos. Os que assim pensam acreditam que o essencial é despertar o gosto pela leitura. Entre esses, muitos creem que qualquer forma de leitura é melhor do que nenhuma e por isso não hesitam em usar os best-sellers, o livro ainda fresco da gráfica ou mesmo a adaptação cinematográfica, como degrau para a literatura.
Já os que pensam que se deva começar pelos clássicos têm, como argumento, que à escola compete fornecer a maior quantidade de experiências culturais, bem como quadros amplos de referência. Para esses, o gosto pela e na leitura deve ser construído, não apenas despertado. Esta é a posição com que simpatizo mais.

Para a maior parte das pessoas, as demandas do presente podem incentivar a leitura de best-sellers, livros de autoajuda ou romances-reportagem. Raramente, ainda mais num ambiente culturalmente pobre, um jovem será exposto à literatura de qualidade que nos é legada do passado recente, quanto mais do passado remoto.

No que toca à literatura, assim, creio que o mais interessante que a escola tem a oferecer é uma experiência da tradição viva, na qual os pontos altos de realização possam ser percebidos como tal; é a formação de um repertório de leituras que permita que o estudante, depois, pela vida afora, possa traçar o seu próprio caminho pelo campo da cultura literária, tornando a literatura, para ele, uma experiência plena e uma fonte de prazer intelectual.

Do meu ponto de vista, a questão não é atrair os jovens para a literatura, mas permitir-lhes o acesso à leitura mais refinada, que só a experiência e o repertório podem propiciar. Um jovem leitor não precisa da escola para ler um best-seller. O marketing das grandes editoras o induz a isso. Nem provavelmente para ler um romance contemporâneo sobre tema momentoso. Mas, sem a orientação e o estímulo de um leitor mais experiente, é pouco provável que esse mesmo jovem tenha acesso à beleza dos poemas homéricos, à complexidade da Divina Comédia, das tragédias gregas ou do Quixote ou de tantas outras obras que forneceram, ao longo dos séculos, padrões de gosto e matéria sempre renovada para novas obras literárias – ou mesmo a textos contemporâneos de maior complexidade ou menos investimento de publicidade.

É claro que, para isso, a escola precisa de livros e, sobretudo, de professores bem formados e que tenham vivência literária ampla e íntima. Sem isso – e, na época da explosão do acesso a textos literários pela internet, sem, sobretudo, professores educados e competentes – não há muito que fazer com a literatura na escola. Mas essa é já outra discussão.

Paulo Franchetti é professor titular do Departamento de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP).

“Ensinar literatura (...), em sentido amplo, é criar as condições para que o estudante, o leitor em formação, possa tornar-se ele também um herdeiro desse manancial”


Os jovens e a literatura
por Nivaldo de Carvalho

Atrair o interesse dos jovens para a literatura parece cada vez mais difícil numa época dominada pelas novas tecnologias da informação e da comunicação. Os jovens não parecem dispostos a trocar jogos, músicas e vídeos em celulares e computadores por um livro. Por outro lado, o lançamento de vários best-sellers, com tradução simultânea em várias línguas, hipnotiza uma legião de jovens leitores em todo o mundo. A contradição entre as duas situações se desfaz, ao se desatar o nó que amarra à força o gosto pela leitura ao prazer pela literatura.

Não há interesse pela literatura que subsista sem o incentivo à leitura, mas nem toda leitura é necessariamente literária. Há jovens que estão acostumados a ler jornais, revistas e livros, mas não apreciam literatura. Assim como saber ler e gostar de ler nem sempre coincidem, o contato com a literatura não garante a formação do gosto pelos textos literários, ainda mais quando isso ocorre sob a forma de imposições curriculares na escola.

Os jovens, depois de oito anos de leituras variadas na escola, são apresentados formalmente à literatura apenas no início do ensino médio. Esse contato tardio ocorre sob a forma de um estudo sistematizado baseado na história da literatura. Nessa perspectiva, os textos literários figuram apenas como ilustração de uma determinada estética literária situada no tempo. Excertos das obras constam do livro didático e quase sempre dispensam o contato direto com textos integrais e originais dos autores, exceção feita às leituras obrigatórias dos exames vestibulares. Além disso, os exercícios escolares propostos limitam-se à verificação da leitura realizada sem estimular a reflexão sobre os temas abordados pelo autor.
Muitos jovens terão na escola a única oportunidade de entrar em contato com textos de literatura. Mas essa oportunidade única nem sempre é encarada como uma possibilidade de discussão de valores, de questionamento moral e político e de estímulo à reflexão estética. A opção por um ensino reflexivo exige a leitura direta dos textos, além da seleção de obras e de autores que possam contribuir para a formação do gosto literário dos jovens e para sua avaliação dos produtos culturais consumidos na atualidade.

Um critério bastante utilizado para a seleção dos livros indicados para leitura leva em consideração o gosto dos jovens. A preferência recai quase sempre sobre os últimos lançamentos do mercado editorial, sem uma avaliação mais cuidadosa da qualidade literária dos livros. O perigo desse tipo de escolha não está somente na adequação e submissão ao conformismo e à trivialidade, mas em imobilizar o gosto dos jovens e tratá-los somente como consumidores de banalidades históricas e culturais.
Além desse critério, há a disputa entre autores clássicos e escritores contemporâneos como forma de acesso ao universo literário. Contra os clássicos, invoca-se a ideia de que os jovens têm muita dificuldade para ler textos complexos, considerados chatos e com um vocabulário difícil. Assim, ao invés de prazerosa, a leitura literária torna-se uma penitência interminável. A favor dos contemporâneos, pesam a proximidade da linguagem e atualidade do conteúdo, o que torna a leitura mais agradável e rápida.

Nem todas as obras clássicas são enfadonhas e desestimulantes. Insistir nessa via adia interminavelmente o contato dos jovens com a literatura clássica, privando-os de uma experiência estética insubstituível. Por outro lado, muitos autores contemporâneos são muito difíceis de serem lidos, principalmente os que fazem experimentações com a linguagem. Por isso, a seleção bibliográfica deve equilibrar prazer e desafio, levando em consideração principalmente a qualidade literária das obras e não apenas o seu conteúdo.

A qualidade literária de uma obra não se mede pela época em que foi escrita, mas por critérios estéticos. O texto literário é muito mais do que uma simples história contada por um autor. Há, no discurso literário, além do conteúdo representado pela ação e pelos personagens, a forma ou expressão, os recursos de que dispõe o autor para expor ideias morais, políticas e estéticas, num diálogo crítico com a sua época e com a tradição, visando ao futuro. A literatura ocupa-se não somente do conteúdo, mas principalmente da forma ou expressão.

O discurso literário recria os conteúdos da realidade, conferindo-lhes uma expressão não percebida antes. Portanto, não se trata de realidade reproduzida, mas recriada. O prazer proporcionado pela literatura ultrapassa o nível do entretenimento ou da diversão, pois é um processo de fruição que consiste em perceber a recriação do mundo por meio de vários recursos estilísticos. Assim, a realidade é transfigurada na literatura através da linguagem. A própria linguagem deixa de ser automática no processo de criação literária e ganha contornos inusitados.

Portanto, o gosto pela literatura não é somente gosto pela leitura, envolve também curiosidade e descoberta. Talvez seja essa a pista a ser explorada com os jovens na leitura dos textos literários. Se a juventude é a época de constituição da futura identidade, um período de turbulência e de conflitos para os jovens, a literatura pode atrair a atenção dos jovens, na medida em que apresenta perspectivas, questionamentos e modos de vida diferenciados.

Mas a escolha das obras literárias deve levar em conta a contribuição delas para a formação do gosto do jovem leitor, não somente em termos morais e políticos, mas principalmente estéticos. A leitura do texto literário deve propiciar aos jovens condições de apropriação gradativa da linguagem literária, tornando-os aptos à leitura de textos cada vez mais complexos e intrincados.

Aprende-se a gostar de literatura não somente na escola, mas também fora dela, nos próprios livros e textos, seja por indicação de amigos, seja pela leitura de uma resenha crítica ou ensaio em jornais e revistas. Embora a época atual não pareça coadunar-se com as exigências da literatura, é preciso marcar essa diferença como forma de lançar um olhar crítico para a realidade do mundo atual e das formas de produção cultural contemporânea. A leitura literária contribui também para que se desconfie de gostos moldados por índices de audiência, listas dos mais vendidos e sucessos de bilheteria.

Nivaldo de Carvalho, assessor de comunicação da Escola Vera Cruz, é graduado em Filosofia e Letras pela Universidade de São Paulo (USP)

“(...) o gosto pela literatura não é somente gosto pela leitura, envolve também curiosidade e descoberta. Talvez seja essa a pista a ser explorada com os jovens na leitura dos textos literários”

sábado, 20 de março de 2010

Sobre leitores e livros


por Plínio Martins
Nascido em 1951 na cidade de Pium, no estado de Tocantins, o professor do curso de editoração da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP) Plínio Martins construiu seu currículo com muito mais prática do que teoria. Iniciou o envolvimento com os livros aos 20 anos quando, recém-chegado a São Paulo, arrumou um emprego no depósito da Editora Perspectiva. “Ou seja, aprendi a mexer com livro desde o empacotamento e empilhamento”, contou ao Conselho Editorial da Revista E. Logo passou para o departamento de revisão e em seguida foi para a composição de linotipo – máquina que funde as linhas de caracteres tipográficos, utilizada para montar os livros antes do computador. Desde então, nunca mais largou o ramo. Em 1987, foi convidado a lecionar na USP e, dois anos depois, chamado para reestruturar a editora da universidade, a Edusp. “Tive uma oportunidade rara de criar, conceber uma editora, seu projeto gráfico, a seleção de obras, começar do zero com todas as condições que qualquer editor gostaria de ter”, revelou. Na ocasião do encontro, o convidado, cuja família é proprietária da Ateliê Editorial, falou também sobre como se desperta o hábito da leitura nos jovens, comentou a relação entre o livro e a internet e contou um pouco mais sobre os bastidores da criação da Edusp.

Criação da Edusp

Depois de 18 anos na Perspectiva fui convidado a iniciar um projeto editorial: transformar a Editora da Universidade de São Paulo [Edusp] em uma editora de fato. Digo editora de fato porque até então ela não produzia livros, apenas financiava. Era uma co-editora, e com uma situação muito peculiar: apesar de ser a Editora da Universidade de São Paulo, não publicava a produção de seus professores. O desafio era montar o departamento editorial. Fui convidado pelo professor João Alexandre Barbosa [professor de teoria literária e literatura comparada da USP falecido em 2006], que foi a pessoa que bancou essa mudança. Sim, porque imaginem uma editora com 26 anos de existência e financiando as publicações de uma porção de editores. Havia editoras com mais de 300 títulos financiados por esse sistema. Foi uma coisa muito difícil de quebrar. Pois bem, fui para a Edusp para montar o departamento editorial. Tive uma oportunidade rara de conceber uma editora, seu projeto gráfico, ajudar na seleção de suas obras, começar do zero com todas as condições que qualquer editor gostaria de ter, só que financiado – no caso, pela universidade. Foi um privilégio participar desse projeto. Acho que aplicamos bem os recursos. Hoje, 20 anos depois, nós comemoramos, no dia 25 de março, na Fiesp [Federação das Indústrias do Estado de São Paulo], o milésimo título lançado nesta nova fase.

Minha vida profissional é toda ligada ao livro, à feitura do livro. Refiro-me ao livro não só como conteúdo, mas também como forma, como produto. E mais: fazendo livros sem se preocupar com o mercado, o que é um privilégio que só uma editora pública tem. Nossa preocupação é fornecer conteúdo com qualidade para as pessoas.

Eu tentei aplicar na Edusp o conhecimento e a experiência adquiridos na Perspectiva. Coleções como a Debates e a Estudos [ambas Perspectiva/Edusp] me davam vontade de criar belos projetos gráficos para elas, valorizar as imagens. E a Edusp me liberou para fazer tudo isso.

O livro e a internet

Há a preocupação se a internet vai substituir o livro, se ele vai desaparecer etc. Acontece que o livro tem várias formas, inclusive a que está na internet. O problema não é se o livro, o objeto, vai desaparecer ou não, a questão é se a leitura vai desaparecer ou não. A grande transformação na comunicação nos últimos 500 anos foi a internet. E de vez em quando grandes empresas de informática lançam um novo produto que vai revolucionar e substituir o livro... Tudo parece uma campanha para vender aquele objeto, mas não resolve o problema da leitura. O que interessa na realidade não é tanto a forma do livro, mas se esse livro vai ser lido ou não. O índice de leitura de livros pode talvez diminuir, mas as pessoas hoje não vivem mais sem ler. Você lê no computador o dia todo, e isso é o que realmente interessa. É claro que nós que gostamos do objeto livro, que o cheiramos, o sentimos tatilmente, sabemos o quanto isso é importante. Fabulamos muito mais quando estamos lendo num livro do que lendo numa tela. Ninguém tem grandes sonhos em frente a uma tela de computador. Disseram até que a produção de papel ia diminuir [por causa do surgimento da internet], mas ela triplicou. Todo mundo imprime o que está na tela para ler. Não acho que a internet vai acabar com o livro. Ele pode mudar de forma, pode estar no CD, no DVD, mas o que interessa é que seja lido. Quanto à forma, é uma questão de adaptação. Eu acredito que essa geração que está se alfabetizando no computador vai ler muito mais na tela com uma tranqüilidade com a qual eu jamais conseguiria. Quanto ao aproveitamento dessa leitura ainda não sabemos muito, os textos serão bem menos extensos, pois não há quem suporte ler grandes textos numa tela de computador. Talvez um dia inventem uma tela que não ofereça limitações à leitura.

Formação de leitores

Sabe-se que aqueles que nasceram e vivem em meio aos livros – pais que têm hábito de leituras, autores, professores, editores – ou que tiveram um bom professor de literatura passam a ler por prazer, desenvolvem afeição pelo ato da leitura. É aquela história: se eu tiver um professor de física ruim provavelmente vou odiar física. Eu, por exemplo, não me lembro de um professor bom, sinceramente. Nunca estudei em bons colégios. Nada me fascinou até começar a trabalhar com o livro e entrar na faculdade. Trata-se de uma reação em cadeia: uma pessoa que lê bem forma outra. Ela pode fazer indicações, pode ler para essas pessoas para despertar-lhes o interesse pela leitura. O professor Ivan Teixeira, por exemplo, é capaz de convencer um adolescente a gostar até de Basílio da Gama [1740-1795, poeta luso-brasileiro] – autor que, se for lido sozinho e na hora errada, vai odiar. Mas ele [Teixeira] lê bem, entende e fala de um jeito que você começa a gostar de poesia por mais antiga que ela seja. Eu o vi lendo Os Lusíadas para um grupo de crianças de 13, 14 anos. Ele conseguiu envolvê-las na leitura. Ele dizia: “Vamos ler”. Aí os garotos liam e ele: “Não é assim que lê”. Aí ele dava a entonação certa etc., foi um show. Professor de literatura deve ser assim, tem que incentivar e ensinar os alunos a ler.

Agora, concordo que para isso é bom iniciar com aquilo que as pessoas estão vivendo [com livros contemporâneos e de temática mais adequada] e depois ir se aprimorando. Imaginem uma criança de hoje lendo Machado de Assis! O autor é excelente, mas elas não têm bagagem para isso. Daí fica aquela coisa de tentar decorar a história, as personagens etc. Ninguém fala da história, ninguém reconta a história, ficam só nas estruturas. Uma das coisas que eu acho que mais fizeram mal para a literatura foi o estruturalismo. Às vezes você lê um texto desse pessoal [dos teóricos e estudiosos] e fala: “Acho que eu sou burro, não estou entendendo nada, o que essa pessoa viu aqui?”. Isso porque eles começaram a desestruturar o texto e fazer tanta teoria que as pessoas se sentem inibidas.

“O problema não é se o livro, o objeto, vai desaparecer ou não, a questão é se a leitura vai desaparecer ou não”

O professor e editor Plínio Martins esteve presente na reunião de pauta do Conselho Editorial da Revista E em 17 de abril de 2008

Fonte: Revista E SESCSP