Mostrando postagens com marcador escola. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador escola. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 18 de abril de 2011

A lista de livros da escola

As listas de livros “obrigatórios” da escola são o alvo sempre quando a discussão é incentivar crianças e jovens a ler. Mas o que temos de bom para falar disso?


Esta semana minha sobrinha Letícia, de 7 anos, deu uma parada “superestratégica” em minha biblioteca particular de livros infantis para pegar emprestado o fabuloso A Velhinha Que Dava Nome às Coisas, escrito por Cynthia Rylant e ilustrador por Kathryn Brown, lançado aqui pela editora Brinque-Book. O motivo era ainda melhor: estava na lista feita pela escola para montar a biblioteca de classe do primeiro trimestre. Fiquei muito feliz porque é um livro que amo muito (veja a resenha no Livros Pra Uma Cuca Bacana) e que está inaugurando na vida da Letícia a lista de “leitura obrigatória” da escola, o que me faz pensar em como esta relação precisa ser cuidada. Muito cuidada.

Este foi um dos temas da minha primeira conversa com a ilustradora e escritora Eva Furnari, em 2007. Perguntei a ela sobre o fato de se obrigar uma criança a ler, e se isso seria um estímulo ou desestímulo pelo amor pela leitura. Ela disse: “A gente tem que ter uma ordenação, disciplina, se não ela não realiza nada na vida sem autodisciplina. Não acho ruim ser obrigado a ler quatro livros por ano. Mas tem que ver caso a caso. Vai ter livro que é inadequado à idade, tem que pensar nas formas de avaliação... Sempre depende do livro, do professor, da escola, do aluno.” Ou seja, para Eva, a questão é manter o ritmo da leitura e, claro, tomar cuidado com a forma. Fez-me lembrar um encontro que participei ano passado, promovido pela Editora WMFMartins Fontes, em que o professor de literatura infantil da USP José Nicolau Gregorin Filho disse uma frase bem interessante. Para ele, quando pensamos no papel do professor no incentivo ao prazer pela leitura, temos que pensar que a tarefa é árdua. Pois o amor pela leitura, é o mesmo amor pelo teatro, pelo cinema, pela música... é da característica de cada um. Gosto não se ensina. “Se você incentivar o hábito de ler já está bom demais!”, diz Gregorin Filho.

O que fazer, então? Dar oportunidades. Esta é a principal função de um educador, seja ele pai, mãe, professor, avó, tio. E insistir nelas, claro. Tem que ter treino, tem que ter disciplina. Tem que fazer parte do dia. Agora, o como fazer é que pode ser sempre melhorado. A promessa da escola à Fabiana, mãe da Letícia, é de que o livro – e os outros que outros alunos vão levar durante o ano – será lido junto, por ela, em sala de aula. Ou seja, degustado em grupo. Em casa, você pode sempre fazer o mesmo. A leitura pode ser associada à parte boa do dia e, mais para frente, conforme os livros ficarem mais densos e profundos, a criança pode ir se acostumando a sempre estar disposta a experimentar. E entender que para ter o livro dentro de si precisa de tempo e, para conseguir tempo (principalmente hoje em dia), é necessário esforço. Entendido isso, bom leitor será. E acompanhem o que ele vem lendo na escola: será uma aprendizado para os dois e uma oportunidade de divulgar algo que vocês tenham gostado.

Cristiane Rogerio é editora de Educação e Cultura da Crescer e adora se perder entre os livros.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Leitura literária: a escola e a isenção do prazer e da obrigação

A pesquisadora Vera Bastazin explica como a leitura dos clássicos das literaturas brasileira e portuguesa ajuda na formação mais integral do estudante e por que esse tipo de leitura se tornou obrigatória nos principais vestibulares do país

Por Vera Bastazin*

Matéria publicada em 15/09/2010

No âmbito da educação brasileira, o exame vestibular tem sido marcado como um momento de extrema tensão para aqueles que se empenham na conquista de uma vaga em uma boa universidade. Considerado quase um ritual de passagem na vida acadêmica do jovem, o vestibular é visto como um grande desafio ou mesmo um momento de competição cruel.

Afora as questões de desnível socioeconômico que marcam diferenças substanciais entre aqueles que disputam, lado a lado, as vagas oferecidas, há de se destacar também as dificuldades expressivas do estudante brasileiro com relação às habilidades de escrita e leitura de textos e a carência de repertório cultural que a maior parte de nossa população jovem expressa.

Mas o que essas considerações têm a ver com a questão das leituras literárias, hoje obrigatórias, no exame vestibular?

Já está distante o tempo em que, constatado e debatido o fraco desempenho do estudante brasileiro, principalmente em relação à leitura e produção de textos, optou-se pela exigência da leitura de obras literárias no exame de vestibular. A fórmula seria simples: obrigado a ler para enfrentar seus concorrentes na prova de maior valor em número de pontos, o aluno deveria ser preparado, com antecedência, pelas escolas, para que, ao final do ensino médio, estivesse em condições para aproveitar de forma mais substancial a vaga que iria ocupar nos bancos das boas universidades. Sem dúvida, o efeito também deveria vir em cascata, isto é, as escolas, em geral, estariam investindo, desde cedo, maiores esforços na formação de seus alunos. A leitura dos clássicos das literaturas brasileira e portuguesa tornava-se o centro das atenções na ajuda de uma formação mais integral, com o reforço ao acesso ao conhecimento via prática de leitura de bons textos, entendidos também como modelos de escrita.

Parece-nos importante lembrar aqui que a leitura da obra literária, além de melhor habilitar o indivíduo para a compreensão de textos em geral, desperta no leitor a inquietação frente ao objeto literário e a vontade de decifrá-lo, como forma de vencer a obscuridade das palavras e chegar ao que poderíamos chamar de ‘prazer’ pela descoberta de possíveis significados. No contexto linguístico, decodificar a palavra significa vencer um obstáculo que, com o passar do tempo e com a habilidade de leitura, torna-se um procedimento praticamente automatizado. No contexto literário, ao contrário, o processo de decodificação, assim como os resultados atingidos, são sempre distintos e envoltos em certa novidade de procedimentos e informações.

Na literatura, a palavra parece estar sempre pronta a surpreender o leitor; ela pode ter seu significado afirmado, negado ou sugerido em uma direção inesperada. A função do texto literário é surpreender, quebrar com o automatismo da decodificação, exigir do leitor um empenho maior, fazê-lo pensar não em significados seguros, mas em possibilidades. É nesse sentido que a contribuição da literatura pode ir além do desenvolvimento da habilidade de leitura para atingir a plasticidade da mente que arrisca interpretações de forma a aprender a conviver com a dúvida e a instabilidade significativa de um mundo que é cada vez mais plural.

Habilidades mais complexas se desenvolvem. O literário motiva e requisita a leitura intuitiva e perspicaz, aquela que aguça os sentidos, abre-se para a pluralidade de significados. Ela habilita para a leitura de um universo mais amplo, onde todas as áreas do conhecimento podem estar contempladas. Ler o literário é apreender, em concomitância, dentro do universo estético, a pulsação da história, da filosofia, das ciências matemáticas, da mitologia, das religiões, das ciências sociais, da psicologia, enfim, de todo o universo de conhecimento humano. A boa literatura propicia ao leitor a interação consigo mesmo e com o outro, assim como estimula o diálogo, ou melhor, o discurso que se desdobra e se faz crítico-reflexivo.

Os propósitos da inserção de obras literárias no vestibular, não há dúvida, eram os melhores. A realidade, todavia, desconcertou os propósitos.

O que aconteceu entre uma proposta inteligente e uma execução que, passados anos consecutivos, não trouxe resultados benéficos aos nossos jovens e tampouco ao nosso sistema de ensino em qualquer de seus níveis?

Lançar os olhos para a educação básica e fundamental, salvo pouquíssimas exceções, faz-nos perceber que o livro de literatura infantil é bandeira de luta de poucos educadores. Afinal, parece não haver clareza quanto à importância do texto literário para a formação integral do indivíduo. Temos inúmeros índices de que são poucos os que acreditam que estimular o imaginário é permitir à criança uma vivência mais rica de sensibilidade e potencial criativo. Despertar o desejo pela aventura da viagem literária para conhecer outros povos e outros costumes é fazer ver ao jovem possibilidades de experiências que redimensionariam seu olhar e sua própria mente. Incitar o homem para o cultivo permanente de novas ideias e gosto pelo desafio de sentir e pensar o mundo por formas não convencionais é algo ainda pouco associado à aproximação e vivência do literário.

As escolas não assumiram, até hoje, o papel de defensoras dos estudos literários como forma de enriquecimento do processo educativo. Elas continuam ignorando ou omitindo-se no reconhecimento da importância do literário para a formação da sensibilidade estética associada aos mecanismos da razão crítica e criativa. Os professores, com sérias deficiências em sua formação, não se sentem à vontade e nem mesmo seguros para o enfrentamento da instabilidade significativa do texto literário. Eles também, provavelmente, procuram ainda verdades que a literatura não tem para lhes oferecer. Uma alternativa, das mais comuns, encontra-se na derivação dos estudos literários para abordagens biográficas ou de contexto histórico e social. O valor estético da obra é esquecido no meio do caminho.

Os cursinhos preparatórios, por sua vez, veem-se na obrigação de recuperar o tempo perdido. Na engrenagem dos conteúdos, criam mecanismos de informação sobre as obras que, se de um lado sobrecarregam o vestibulando em suas relações extraliterárias, pouco podem investir no trabalho de análise que revela a essência dos projetos poéticos inscritos em cada obra. Os resultados são um aluno que se ilude sobre o conhecimento que tem do texto e dos movimentos estéticos e instituições de ensino que se isentam de maiores comprometimentos.

Afinal, vivenciar a leitura do literário não é função que se cumpre da noite para o dia; ao contrário, é parceria que se realiza em processo, cultivando o gosto pela busca de alternativas no ato de construir a percepção e o próprio conhecimento como objetos sempre inconclusos. Conhecer significa interferir na realidade, crescer e transformar-se com ela. É processo que se constrói a cada passo-palavra, como vivência de algo que atrai e prende nas armadilhas da palavra, tal como uma serpente que, ao movimentar-se, surpreende pela rapidez e magia do próprio movimento.

* Vera Bastazin professora e doutora em Literatura e Crítica Literária no curso de pós-graduação da PUC de São Paulo.

Fonte: Univesp

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Projeto Ler e Pensar lança livro sobre a importância da leitura na escola

Objetivo é contribuir para que outros educadores tenham novas ideias e também estimulem a leitura em suas salas de aula.

Leitura: o mundo além das palavras, é primeiro livro do projeto Ler e Pensar, do jornal Gazeta do Povo (PR) e do Instituto RPC. Lançado em outubro, a publicação é a grande inovação do projeto em 2010: relaciona práticas desenvolvidas em sala de aula, por diversos professores do Ler e Pensar, com ensaios escritos por especialistas que contribuiram com o projeto ao longo dos últimos dez anos.

Desde 2001, afinal, o Ler e Pensar sempre procurou estimular a leitura como prática cotidiana de professores, vendo nesta iniciativa o caminho para a formação de cidadãos críticos e alunos melhor formados e informados. Utilizando o jornal como um recurso para isso, a experiência do Ler e Pensar oferece aos professores uma revisão de metodologias e aprendizado de novas formas de trabalho.

Agora, muito dessa história foi transformado em um livro no qual teoria e prática estão relacionadas em temas inovadores – como a Ciberleitura – e desafiadores – como a leitura no período de alfabetização, ou a formação de leitores críticos. A pequena edição, distribuída aos presentes no evento e enviada às Secretarias Municipais de Educação participantes do Ler e Pensar, serve para reconhecer boas iniciativas de professores, que fazem do incentivo à leitura uma missão de vida.

Confira, a seguir, os temas apresentados no livro e descubra, você também o mundo além das palavras. Para ler o livro em PDF basta acessar o link:

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Oito ações para construir uma escola leitora

Garantir acesso a bons livros e criar um ambiente em que a leitura é rotina são maneiras eficazes de formar leitores de literatura. Veja como tornar isso realidade

1 Aproveite os mais diversos ambientes

Não é por falta de sala exclusiva que o acervo deve ficar encaixotado. "Já vi bibliotecas em corredores e até na entrada do banheiro", diz Celinha Nascimento, mestre em literatura brasileira e assessora de escolas públicas e particulares. Entre 2001 e 2009, Anália Fagundes Felipe foi diretora da EM Ivo de Tassis, em Governador Valadares, a 315 quilômetros de Belo Horizonte, e usou um carrinho para facilitar o contato com os livros. Ele passava nas salas e ficava no pátio durante o recreio (as professoras de leitura cuidavam do empréstimo). Depois, a equipe gestora instalou armários nos corredores, com portas que se abrem nos intervalos. "O espaço foi batizado pelas crianças de Ivoteca, em referência ao nome da escola", conta Anália. Perto das prateleiras, há murais com indicações dos títulos mais retirados, dados sobre os turnos que mais buscam obras - incentivando uma saudável competição - e dicas literárias feitas pelos alunos. Outra dica é decorar paredes com poemas, trechos de livros e dados sobre os autores.

PORTAS ABERTAS: Sem lugar para o acervo,
a EM Ivo de Tassis usa armários nos corredores.

2 Invista na organização do acervo

Para garantir que as obras transformem a maneira como crianças, jovens e adultos se relacionam com a literatura, não basta alinhá-las nas estantes da escola. Se o leitor precisa percorrer longas prateleiras sem entender a ordem dos livros, a busca pelo título desejado fica desanimadora. Uma das estratégias para fugir desse problema é separar as obras em literatura infantil, juvenil e adulta - bem como por tema, autor ou gênero. Uma boa inspiração é pensar em como funcionam as livrarias. Assim como elas usam estratégias para incentivar a compra, sua escola pode copiar o modelo com o objetivo de atrair leitores: expor logo na entrada os volumes mais retirados em determinado período, destacar as novidades em murais ou jornais internos, montar caixas com os livros divididos por faixa etária e colocá-las em locais de fácil acesso e deixar tudo sempre ao alcance dos estudantes - as prateleiras baixas, com itens para os pequenos, e as mais altas, para os mais velhos. "Muitas vezes, encontramos coisas maravilhosas e raras quando investimos em uma boa organização", afirma Celinha Nascimento.

3 Busque maneiras de ter (mais) livros

Toda escola tem direito a um acervo variado e atualizado. Desde 1997, o Ministério da Educação (MEC) fornece, por meio do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), livros de literatura para as instituições públicas. Algumas Secretarias de Educação contam com projetos semelhantes: no Rio de Janeiro, gestores e professores estaduais recebem dinheiro para atualizar o acervo durante o tradicional Salão do Livro. Em Santa Catarina, alunos do Ensino Fundamental ganham da Secretaria Estadual títulos de autores brasileiros. Se o acervo de sua escola está há muito tempo sem ser renovado, os especialistas sugerem organizar campanhas de arrecadação junto à comunidade ou solicitar doações a livrarias. Nesse caso, é preciso ficar atento ao que chega para escolher apenas o que tem qualidade literária e é, de fato, interessante para os alunos.
 
SEM MEDO DE USAR: Na EMEIEF Carlos
Drummond de Andrade, os livros vão até mesmo ao jardim.

4 Faça os livros circularem

Receio de que a capa estrague, as páginas se soltem ou o exemplar desapareça - eis algumas das inquietações que afligem os gestores. Antes de tudo é bom lembrar que, como todos os bens de consumo, os livros têm vida útil e, mais cedo ou mais tarde, precisam ser repostos. Por isso, nenhuma dessas preocupações pode impedir que os livros cumpram sua função: passar por alunos de todas as idades e chegar à comunidade. A equipe gestora da EMEIEF Carlos Drummond de Andrade, em Santo André, na Grande São Paulo, permite que as professoras levem exemplares para o jardim para que as crianças ouçam histórias e leiam num ambiente descontraído. Camila de Castro Alves Teixeira, da central pedagógica da Comunidade Educativa Cedac, em São Paulo, sugere campanhas educativas para ensinar os usuários a preservar os livros. Mais produtivo do que temer perdê-los é investir no controle de retirada (com programas de computador ou cadernos de registro). Um exemplar pode não ser devolvido por esquecimento ou porque o aluno quer ficar com ele. Discutir os direitos e deveres da vida em sociedade e elaborar regras de uso do acervo - prevendo a possibilidade de renovar o empréstimo da obra - pode ser um caminho. Mesmo as punições - sem exageros, por favor - são necessárias: enquanto não houver a devolução do livro atrasado, o usuário pode ficar impedido de realizar novos empréstimos.

5 Desperte o gosto pela literatura

Para formar leitores, é preciso que o professor seja, ele mesmo, um leitor, certo? O que fazer, então, quando ele não lê? Na prática, o mesmo que se faz com os alunos: criar condições para que a literatura vire um hábito. Na UME Antônio Ortega Domingues, em Cubatão, a 55 quilômetros de São Paulo, os educadores começam as reuniões com uma leitura literária coletiva e uma discussão sobre as impressões de todos a respeito do texto lido. O objetivo é aproximar a equipe da boa literatura e oportunizar momentos para que esses profissionais ampliem seu repertório e se interessem em buscar outras leituras. Algumas ações podem ser contempladas num projeto institucional que preveja a montagem de um acervo literário específico para adultos, a produção de um mural com indicações na sala dos professores e a organização de círculos de leitura. Importante: os momentos de formação do professor leitor não eliminam a necessidade de capacitá-lo na didática da leitura - fundamental para ele poder ensinar os alunos a também se tornar leitores.

6 Incentive os funcionários a ler

Fazer com que o gosto pela leitura contamine toda a escola é um desafio que rende ótimos frutos. É essencial, portanto, incentivar os funcionários a frequentar o espaço destinado à leitura. Na EM Professor Luiz de Almeida Marins, em Sorocaba, a 99 quilômetros de São Paulo, todos têm uma carteirinha da biblioteca e é comum ver merendeiras e auxiliares de limpeza escolhendo exemplares para ler em casa. Também é importante convidar os funcionários para participar de momentos de leitura coletiva, em horários previamente acordados entre todos e em local aconchegante. "O ato de ler ainda é visto por muitos como uma experiência solitária. Mas não deve ser assim. A leitura em conjunto estimula o prazer e a familiaridade com os textos", destaca Camila Teixeira, da Comunidade Educativa Cedac. Ações como essa ajudam a despertar no pessoal da equipe de apoio a vontade de se tornar um contador de histórias, por exemplo. Nesse caso, cabe a você, gestor, abrir espaço para que a atividade aconteça (sem tirar dos professores a responsabilidade de ler para as turmas).

DE CARTEIRINHA: Na EM Professor Luiz de Almeida
Marins, os funcionários também frequentam a biblioteca

7 Forme redes literárias
 
Oferecer contato com os livros exige habilidade e jogo de cintura. Mapear na vizinhança as entidades que têm potencial para ser parceiras da escola e procurar os responsáveis por equipamentos urbanos são boas pedidas. Em São João do Oeste, a 676 quilômetros de Florianópolis, duas escolas públicas se valem do acervo da biblioteca pública, no centro da cidade, para ampliar a oferta de títulos. Para atender a um acordo feito com gestoras, a coordenadora pedagógica da Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Esportes, Teresinha Staub, aproveita as visitas semanais para levar alguns livros no carro da prefeitura. As obras são eleitas pela demanda das escolas ou por indicações de Teresinha.

8 Abra as portas para os pais

Finalmente, para formar uma comunidade de leitores, nada melhor do que estreitar o contato com as famílias e oferecer a elas a possibilidade de usufruir da boa literatura. Encontros com autores, saraus e atividades de contação de histórias atraem os familiares e ajudam a tornar a leitura uma prática difundida socialmente. A realização de uma Semana Literária foi o caminho escolhido pela EMEF Professora Maria Berenice dos Santos, em São Paulo. "A experiência foi enriquecedora desde o planejamento, quando alunos e funcionários trocaram indicações de textos e de autores que queriam conhecer", conta a professora Daniela Neves, idealizadora da festa. Já na EE Jornalista Francisco Mesquita, também na capital paulista, os saraus mensais fazem sucesso por contar com um variado repertório de leitura e declamações. Outra ideia, implantada pela EE Professor Astor Vasques Lopes, em Itapetininga, a 165 quilômetros de São Paulo, é incentivar os alunos a levar para casa um livro e um caderno de anotações para que as histórias sejam lidas e comentadas com os parentes. Além disso, o acervo deve estar sempre disponível à comunidade, principalmente nos locais em que a escola é a principal fonte de acesso aos livros.

LEITURA EM FAMÍLIA: Pais e filhos são incentivados a
ler juntos na EE Professor Astor Vasques Lopes

Publicado em Agosto/Setembro 2010

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Biblioteca investe na parceria da escola com as famílias e conquista leitores

Ao invés de frequentadores passivos, leitores criativos e que vestem a camisa da biblioteca. Esse sonho, embalado aberta ou veladamente por todo bibliotecário escolar, tem sido uma conquista gratificante para a bibliotecária Tânia Garcia, em seu trabalho na Biblioteca Infantil Miriam Mangelli, da escola Professor Jairo Grossi, em Caratinga, Minas Gerais, onde os 360 alunos alcançam uma média anual que supera os 30 mil empréstimos.

“É muito explícita a diferença do que se pode conseguir por meio do carinho, da dedicação e da parceria entre escola e família, realizando um trabalho em sintonia também com a direção da escola”, avalia Tânia, ao descrever sua alegria ao ver “no rostinho de cada criança o prazer de estar em contato com os livros, a magia das novas descobertas, a sede de aprender e principalmente o desenvolvimento delas neste grande laboratório chamado escola”.

Graduada pela Escola de Biblioteconomia de Formiga, Minas Gerais, em 1984, Tânia Garcia (CRB 6 1089) reside em Caratinga desde 1985, onde trabalha também na FUNEC, mantenedora do Centro Universitário de Caratinga (UNEC).

Ela conta que seu primeiro objetivo foi transformar a biblioteca em um lugar agradável, divertido e colorido. “Lembro que o meu primeiro painel dizia 'Biblioteca, lugar de ser feliz'. Isso tinha o intuito de tirar as amarras, pois precisamos parar de impor silêncio. As crianças querem se expressar, perguntar, viver as histórias no teatrinho de fantoches improvisado a cada visita”, relata.

Um dos projetos desenvolvidos por Tânia é o de brindes de materiais reciclados, que consiste em confeccionar e
distribuir brinquedinhos, fazer tatuagens, desenhos, minilivros. “Isso faz com que as crianças sintam que são bemvindas”, afirma. Assim, segundo ela, logo se interessam pelos livros, que a cada dias estão mais atrativos.

O trabalho com os pais dá sequência à tarefa de conquistas os novos leitores. “Através dos empréstimos domiciliares, e com a finalidade resgatar o hábito de contar histórias, desenvolvemos o projeto Leitura em família, um carinho a mais, que consta de uma bolsinha com livro selecionado e uma apostila com atividade de interpretação, desenhos e o ponto que considero o clímax do projeto, que é a pergunta 'O que aprendi com este livro'. O projeto é adaptado para alunos do maternal ao 5º ano”, explica a bibliotecária.

Para continuar motivando a frequência, ela utiliza também os projetos Leitor destaque, Campeões de leitura, Artistas da semana (que consiste em expor desenhos realizados na biblioteca ou mesmo em casa) e Hora do conto, além de teatrinhos de fantoches, teatro improvisado pelos alunos durante a aula de literatura, pesquisas feitas pelos alunos do 3º ao 5º anos. Nesse caso, na hora do recreio, os alunos, usam fantasias para divulgar trabalhos realizados na biblioteca.

Para motivar o respeito e os bons hábitos dentro da biblioteca, Tânia implantou também os projetos Bibliotecário
do dia e Montagem do regulamento da biblioteca. No primeiro, as salas da educação infantil recebem duas viseiras que são usadas pelos alunos são responsáveis por ajudar na organização do acervo após a visita da sala. No Montagem do regulamento da biblioteca, alunos das séries mais adiantadas visitam as salas da educação infantil, também devidamente fantasiados, e fazem duas perguntas básicas: “O que pode e o que não pode fazer na biblioteca?” Com base nas respostas, é montado o regulamento anual.

“Para motivar redação e o gosto pela arte desenvolvemos diversos projetos, como o Utilizando a poesia Convite de José Paulo Paes onde trocamos poesias por pirulitos e também fazemos a exposição dos trabalhos realizados”, conta a bibliotecária, ao citar também o Projeto escritor mirim para alunos do 2º ao 5ª ano – concurso em que o aluno redige um livro com o tema sugerido pela biblioteca, e são selecionados três ganhadores, que recebem cestas de chocolates e publicação dos livros. “Eles também têm direito à promoção da tarde de autógrafos, onde distribuímos os livros gratuitamente para todos os alunos e funcionários da escola, e para os familiares dos escritores. Este ano levaremos a distribuição desses livros gratuitamente para a praça da
cidade, com o objetivo de divulgar o nosso trabalho e motivar a leitura e a escrita na comunidade caratinguense”, diz Tânia Garcia.

O Projeto ilustrador mirim também é um concurso que seleciona os três melhores trabalhos, com direto a prêmios e divulgação dos desenhos. Já o projeto Recadinho do coração tem por objetivo motivar a frequência à biblioteca, bem como a redação ea troca de carinho entre pais, filhos, professores, alunos, funcionários e colegas. “Todos esses são projetos desenvolvidos pela biblioteca, mas temos muitos outros desenvolvidos pelos professores, com a finalidade de motivar a leitura, como o passaporte do leitor, resumo de obras, apresentação teatral, onde eles apresentam para os familiares, geralmente no sábado à tarde, apresentação de obras, jornal literário e indicação de obras”, destaca a bibliotecária.

“Quero deixar registrado que não conheço um método para criar o hábito da leitura, e creio que o verbo 'ler' nunca deve ser usado no imperativo. O que acredito é na motivação e no acompanhamento por parte dos professores, bibliotecários e principalmente da família para despertar esse estímulo. O carinho e o hábito de contar histórias desde muito cedo vai fazer toda a diferença na formação dos futuros leitores”, comenta Tânia Garcia, que destaca seu agradecimento pelo envolvimento da direção da escola onde trabalha. “Nossa principal atividade, como bibliotecários, é o atendimento aos nossos clientes, que são o principal objetivo da existência e sucesso de qualquer empreendimento. Tenho sempre em mente o nosso poeta maior Carlos Drummond de Andrade: 'O leitor é o meu objetivo... para cada leitor existe um livro e para cada livro encontrarei o seu leitor'.“

Matéria publicada em 17/07/2010

sábado, 31 de julho de 2010

DIREITO À LEITURA - Lei manda uma biblioteca em cada escola

Para atingir a meta no prazo determinado, que é de 10 anos, será preciso construir 25 bibliotecas por dia no País

Ana Paula Nascimento

Parecia ser o óbvio, mas só agora o País ganha uma lei determinando que todas as escolas públicas e privadas tenham uma biblioteca e um acervo mínimo de pelo menos um livro por aluno matriculado. A Lei 12.244, de autoria do deputado federal Lobbe Neto (PSDB-SP), foi publicada no dia 25 de maio no Diário Oficial e prevê o prazo de 10 anos para as instituições se adequarem. Com a estimativa do Ministério da Educação de que 37% das 200 mil escolas brasileiras de educação básica ainda não têm biblioteca (Censo/2008), o desafio é grande: seria necessário construir 25 bibliotecas por dia para atingir a meta.

Na biblioteca da Escola Municipal Carlos
da Costa Branco o acervo de mais de 3 mil
livros inclui dicionários, enciclopédias, revistas e gibis

Em Londrina, praticamente todas as 80 escolas municipais (incluindo as rurais), que atendem aproximadamente 37 mil alunos, possuem um bom acervo de livros, mas a Secretaria Municipal de Educação não soube precisar quantas ainda não têm um espaço adequado para biblioteca. É o caso da Escola Municipal América Sabino Coimbra, no Jardim Paulista (Região Norte). Com 110 alunos atendidos em dois turnos, o pequeno espaço improvisado de cerca de nove metros quadrados não comporta de forma confortável mais do que seis crianças por vez.

O local é um dos espaços preferidos dos alunos,
com boa iluminação, mesas, cadeiras e prateleiras
adequadas ao tamanho das crianças

Em prateleiras altas, o acesso aos 600 livros do acervo não é facilitado e a professora regente de biblioteca, Kátia Valéria Rodrigues Monteiro, se desdobra para atender as crianças. A Hora do Conto é feita na sala de aula, assim como o empréstimo dos livros, que são levados em baús. ‘‘Sabemos que isso não é o ideal, que os alunos perdem por não terem um espaço adequado para a leitura, o acesso ao computador e um ambiente mais lúdico’’, lamenta a diretora Marly Guagnini Sander. Recentemente, devido a um problema de infiltração no telhado, cerca de 500 livros novos ficaram estragados.

Por causa da falta de espaço, a Hora do
Conto é feita na sala de aula, assim como o
empréstimo dos livros, que são levados em baús

Segundo a assessoria de planejamento da Secretaria Municipal da Educação, está prevista para o ano que vem a reconstrução da escola – que ainda mantém a estrutura de madeira da sua fundação em 1968 – com a instalação de uma biblioteca adequada.

Ao ser informado sobre esta possibilidade, os olhos do aluno Rafael Alves da Silva, 7 anos, brilharam. ‘‘Sério? Que legal! Eu estava querendo mesmo isso’’, comemora. A aluna Gabriela Moraes Guise, 8 anos, também aprova a iniciativa: ‘‘Eu gosto muito de ler e seria muito bom ter uma biblioteca maior e mais confortável, onde nós mesmos pudéssemos pegar os livros nas prateleiras’’.

Em época de Copa do Mundo, a professora
Maria de Cássia lê um livro que fala das
riquezas da cultura africana

Na Escola Municipal Professor Carlos da Costa Branco, no Jardim Piza (Região Sul), esse sonho já é realidade há seis anos. Inaugurada em 1977, a pequena escola de madeira com cinco salas foi reconstruída em 2004 e, desde então, tem mais salas de aula e uma biblioteca bem estruturada. O acervo de mais de 3 mil livros infantis e infantojuvenis, ainda conta com 14 enciclopédias, 74 dicionários ilustrados, revistas e gibis para o deleite dos 450 alunos que frequentam a instituição.

Na Escola Municipal América Sabino Coimbra a
biblioteca ainda está em um espaço apertado e improvisado

Arejada, com boa iluminação, ventiladores, mesas, cadeiras e prateleiras adequadas ao tamanho das crianças, o local é um dos espaços preferidos delas. A professora regente de biblioteca Maria de Cássia Zamaia Zendrini confirma que o local é ideal para a contação de histórias. Em época de Copa do Mundo ela está trabalhando com os alunos o livro ‘‘A África, Meu Pequeno Chaka...’’ (Cia das Letrinhas), que explora de forma afetiva, através do diálogo entre um avô e seu neto, as riquezas da cultura africana. ‘‘Procuro complementar nas leituras o conteúdo que está sendo trabalhado em sala de aula e também aspectos da vida cotidiana dos alunos através das mensagens dos livros. Eles prestam atenção, gostam da atividade, lêem mais e ficam curiosos’’, comenta a professora.

Na opinião do diretor de bibliotecas do município Rovilson José da Silva a nova lei é um passo importante para a valorização das bibliotecas escolares. ‘‘O ideal é que não fosse necessário ter uma lei para isso, mas ela ajuda a reforçar o compromisso do Estado, da União, com esse intrumento de educação. Não é só mandar livros; é preciso ter espaços adequados para o incentivo à leitura, à educação’’, ressalta.

Segundo ele, até pouco tempo a biblioteca escolar era considerada o ‘‘patinho feio’’ e a prioridade dos investimentos ficava por conta das bibliotecas públicas e universitárias.

A nova lei prevê ainda um bibliotecário atuando nas bibliotecas escolares. ‘‘Isso pode gerar uma mudança até na grade curricular do curso de Biblioteconomia. É preciso um olhar diferenciado na capacitação desse profissional que vai atuar diretamente com crianças. Há todo um processo de mediação da leitura, que é fundamental e vai além do aspecto técnico da manutenção do acervo’’, avalia.

Ao saber que sua escola vai ganhar uma biblioteca nova,
Rafael se anima: ‘Sério? Eu estava querendo mesmo isso

Lançado em 2002, o projeto Palavras Andantes, idealizado por Silva, conseguiu modernizar mais de 60% das bibliotecas municipais e impulsionou o incentivo à leitura na rede municipal – de 72 mil livros emprestados em 2002 passou para 650 mil em 2008 (último levantamento realizado). O projeto prevê formação continuada de professores, contação de história e empréstimos de livros semanais, além de revitalização de acervo e infraestrutura das bibliotecas. Há um ano sem coordenadoria, depois que Silva assumiu seu cargo atual, uma nova coordenação deverá ser confirmada ainda nesta semana.

Matéria publicada em 22/06/2010

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Leituras e prazer na escola

Como horas na biblioteca podem fazer a diferença na vida do aluno

por Galeno Amorim*

Passar uma hora inteira, ao menos uma vez por semana, dentro de uma biblioteca folheando e lendo livros, ou simplesmente de papo pro ar, é tão fundamental para o desenvolvimento dos alunos que deveria fazer parte da grade curricular das escolas. A ideia, que ainda arrepia muita gente, ganha, no entanto, cada vez mais adeptos. E também o apoio, dentro e fora dos estabelecimentos de ensino, de especialistas e de gente importante do mundo dos livros e da educação, mas também de pais, gestores de projetos e, naturalmente, educadores.

Mas a verdade é que não é tão simples assim. A inclusão de pelo menos uma hora semanal na grade das escolas do Ensino Médio e Fundamental consta até da Lei do Livro, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003. Mas, em função das controvérsias em torno do assunto, até hoje a legislação não foi regulamentada.

Há quem diga, por exemplo, que não se pode estipular uma hora única e obrigatória para ler. Isto porque, de acordo com esses argumentos, os livros devem estar presentes durante todo o período escolar e em todas as disciplinas, e não haver uma só matéria para a leitura. Na essência, está absolutamente correto. Só que na vida real não é bem assim que as coisas acontecem.

Os defensores da criação de um espaço permanente no horário escolar para aproximar livros e possíveis leitores e fomentar o hábito e, sobretudo, o gosto e o prazer de ler, pensam diferente. Não se trata, de acordo com esses, de abrir uma nova e única disciplina para confinar e concentrar ali tudo o que for leitura na vida de uma escola.

Mesmo porque, concordam, os livros são fundamentais em qualquer projeto pedagógico e caminho poderoso para a apropriação do conhecimento acumulado pela humanidade. Assim, estão, evidentemente, presentes em todas as disciplinas.

A grande preocupação desses adeptos de maior presença da leitura de literatura na educação brasileira é que, por ausência de políticas mais claras nesse sentido, milhares de escolas brasileiras ainda mantém suas portas fechadas para os livros em geral. A única exceção, naturalmente, fica por conta dos livros didáticos, que são distribuídos gratuitamente pelo governo e costumam ancorar os projetos pedagógicos e as próprias aulas nas diferentes redes de ensino.

Porém, aprender a ler e a gostar de ler livros – ou, no mínimo, tornar essa prática um hábito permanente – continua passando ao largo de boa parte das nossas escolas.

Isso talvez ajude a compreender o atual comportamento da população brasileira, que, com o passar dos anos, simplesmente foge dos livros. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, os maiores índices de leitura estão justamente entre crianças e jovens em idade escolar. Chegam a ser três ou quatro vezes maiores do que na fase adulta, assim como a frequência às bibliotecas, que despenca, até praticamente inexistir, acima dos 30 anos. Este é o caso de nove entre cada dez brasileiros, que deixaram de ir a alguma delas.

Esse mesmo estudo – uma iniciativa do Instituto Pró-Livro e coordenado pelo Observatório do Livro e da Leitura – mostrou, ainda, que os leitores que estão nas escolas chegam a ler duas vezes mais do que aqueles que já saíram de lá. O que mostra que as escolas estão, de certa forma, cumprindo o papel de facilitar o acesso de parte da população aos livros e o de fomentar a leitura entre seus alunos. E, surpresa: enquanto leem, esses leitores acabam associando o ato de ler muito mais a prazer do que propriamente à obrigação, como o senso comum costuma dizer.

Qual é, então, o problema?
Ao mesmo tempo em que tem contribuído, verdadeiramente, para aumentar os índices nacionais de leitura – os brasileiros liam, no início da década, 1,8 livro por habitante/ano, número que saltou para 4,7 em 2008 – a educação brasileira ainda não consegue enfrentar um dilema. Um dilema, por sinal, muito simples e direto, porém de respostas aparentemente nada fáceis: como as escolas, afinal, podem formar leitores que gostem de ler e façam isso pela vida afora, mesmo quando estiverem distantes delas?

Com ou sem obrigação legal, a verdade é que muitas escolas estão, de fato, tentando. E toda diferença, nos mais diversos casos, tem sido feita por uma pequena legião de educadores que acreditam pra valer no valor social da leitura e mesmo nos livros como ferramentas eficazes para seu trabalho na sala de aula e na vida futura de seus alunos.

Não por outra razão, estão sempre animados e dispostos a criar ações simples, porém ousadas, para mudar o quadro atual. E – ainda bem! – eles estão por toda parte. Por sinal, tenho visto muitos deles tanto no site que mantenho sobre esse tema – o http://www.blogdogaleno.com.br/, cuja revista eletrônica é enviada, semanalmente, para 80 mil educadores, escritores, jornalistas, editores, livreiros, bibliotecários e outros interessados no assunto – e em todas as regiões do país onde tenho feito palestras em escolas sobre o poder extraordinariamente transformador da leitura na sociedade.

Sempre com muita criatividade e o esforço pessoal dos professores e dirigentes, um bom número de escolas vem inventando, nos quatro cantos do país, variadas formas para ampliar o acesso aos livros e outros materiais de leitura e, sobretudo, para que esses leitores – no mínimo, leitores em potencial – se sintam estimulados e com vontade de ler. O próximo passo, quem sabe, pode ser aprenderem a gostar de ler – é isso fica pra vida toda.

Em Sinop, no interior do Mato Grosso, por exemplo, uma escola estadual do Ensino Médio motivou a comunidade escolar com uma medida aparentemente simples, e que não exigiu nenhum investimento suplementar. Uma vez por semana, ela simplesmente interrompe as aulas e demais atividades para que todo mundo leia.

Não importa o que estejam fazendo: todo mundo para e, por instantes, entra no mundo mágico da leitura. Para uns, é um mergulho inicialmente raso, para outros, às vezes mais profundo – mesmo porque cada um encontra-se em um estágio e muitos ainda nem aprenderam a nadar.

Sejam professores ou alunos, funcionários ou mesmo pais e outras pessoas que estiverem por lá. Vale tudo: todo e qualquer gênero da literatura, e revistas, jornais, gibis... Seja lá o que for. O que importa, afinal, é ler. Ainda que alguns torçam o nariz, dar os primeiros passos nessa direção é algo sempre muito bem-vindo.

O que se diz por lá é que tudo ficou melhor: o desempenho escolar, a autoestima dos estudantes, funcionários e professores e as próprias relações pessoais entre eles. Até a leitura fora da escola teria evoluído. Ao que parece, as pessoas entenderam a mensagem: que ler é mesmo um valor, e tanto é assim que a escola inteira até para tudo por causa disso.

Os depoimentos que tenho ouvido em outras cidades sobre esse tipo de experiência são igualmente positivos. É bem verdade que os livros de literatura disponíveis nas escolas ainda são insuficientes. Ou que para cada escola que possui uma biblioteca escolar, há outras duas que não têm nada disso – isto vai ser objeto de uma outra conversa, para tratar, de forma específica, da necessidade de uma vigorosa e urgente política nacional de bibliotecas públicas, sejam elas municipais, estaduais, escolares, universitárias ou comunitárias.

Afinal, a leitura tem papel fundamental na formação do ser humano. A capacidade de ler, compreender e processar as informações de um texto é adquirida de uma maneira: lendo. Proporcionar o aprendizado dessa atividade com prazer depende de todos nós – começa na família, em casa (as mães, por sinal, são vistas pelas crianças como aquelas pessoas que mais influenciam no gosto de ler). O resultado de todos os esforços e investimentos será, com toda certeza, uma sociedade de cidadãos plenos.

Com a implantação do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), do governo federal, em 2006, passou a existir maior articulação entre Ministério da Cultura e Ministério da Educação para fortalecer as políticas públicas nos estados e municípios para investir mais na formação de leitores e, para tanto, na formação dos chamados agentes mediadores de leitura: professores, bibliotecários, gestores de projetos de leitura. Afinal, quem não gosta de ler, dificilmente conseguirá fazer alguma outra pessoa gostar.

Esta década talvez entre para a história como aquela em que, até hoje, mais se avançou no sentido de tornar esse tema uma política de estado no Brasil. Agora, no entanto, é preciso avançar mais, para que nos estados e municípios exista uma maior percepção por parte de autoridades e lideranças políticas e comunitárias sobre a função social e estratégica dos livros na sociedade. E que podem fazer um grande bem para suas cidades e estados e para seus próprios governos.

Os livros já foram, um dia, objeto sagrado cujo acesso era permitido a poucos. Mais tarde, passou a ser tratado como fonte de prazer e lazer de qualidade. Sem perder uma e outra condição, a verdade é que a leitura também é um meio eficaz para o desenvolvimento pessoal e profissional do indivíduo e para ampliar sua visão de mundo e suas possibilidades de intervenção no lugar em que vive. Mas também para melhorar seu emprego e renda.

Dessa forma, tem um novo e importante papel na educação e na sociedade de forma geral, algo que nunca foi muito claro na cabeça das pessoas. Se houve um tempo em que, na economia primitiva, a água e, mais tarde, o petróleo, na era da industrialização, possuíam importância estratégica para as nações, hoje é o conhecimento que faz toda a diferença. É o conhecimento que se constrói com as várias leituras: dos livros, jornais e das diferentes estéticas culturais, com o tempero e fermento das vivências e experiências do cotidiano.

Os livros fazem toda a diferença!

*Galeno Amorim (http://www.blogdogaleno.com.br/) é diretor do Observatório do Livro e da Leitura e foi o criador e primeiro coordenador do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL). É autor de 12 livros, entre os quais Retratos da Leitura no Brasil.

sábado, 17 de julho de 2010

Pais, escolas e livros

Quando este trio estreita laços, sabemos que o incentivo à leitura está acontecendo para valer
Eu, a turma de crianças do Universitas e Flávia Poletto

Cristiane Rogerio

Vivi uma experiência muito bacana há algumas semanas. Fui convidada a um encontro com um grupo de pais na escola Universitas, na cidade de Santos, Baixada Paulista. O tema que levei para conversa foi Livro Infantil não É Livrinho: por que devemos valorizar a leitura com as crianças desde cedo. O convite nasceu de uma gentil conversa com a leitora de CRESCER Flávia Poletto, mãe de dois filhos e uma leitora assídua.

A ideia, claro, era bater um papo geral sobre literatura infantil e – nem teria como evitar – falar da minha paixão sobre o tema. E explicar que esta foi uma paixão conquistada, dia a dia, na leitura dos livros lançamentos, na conversa que tenho com escritores, ilustradores e especialistas no gênero. Uma paixão que se renova porque literatura infantil hoje ocupa um espaço enorme em minha vida.

E eu achei mesmo que ia explicar, explicar, explicar.

E, realmente, falei por uns 40 minutos sem parar sobre a importância de ler desde cedo e que livros para bebês – os de pano, os de plástico, os de poucas palavras – são um começo da relação de amor pelos livros, que curtir os livros com os filhos é uma delícia e fundamental, o perigo dos livros politicamente corretos para a formação das crianças... E os pais me olhando firmes, reagindo às minhas palavras e, o principal: atentos. Este foi um presente. Porque acreditei em cada olhar que vi ali. Afinal, somente o fato de eles terem escolhido o tema para conversar, mostra que são pais dedicados, que entendem seu papel na educação dos filhos. Parece fácil, mas não é.

Eu, cheia de informação de jornalista, livros lidos e amor pela literatura infantil voltei de Santos com um presente. Aquele encontro se tornou uma lembrança incrível. Houve muita boa conversa e as crianças (que entraram depois de serem “ocupadas” com aulas atividades físicas enquanto os pais estavam comigo) também curtiram depois, experimentando os livros que levei. Foi maravilhoso porque o que contou ali foi a intenção. Este grupo de pais foi um exemplo de como é possível e gostoso conversar sempre sobre o assunto. Seja entre eles, seja com os filhos, seja com eles mesmos, seja lendo CRESCER. Aceitem este convite sempre que puderem.

Cristiane Rogerio é editora de Educação e Cultura da Crescer e adora se perder entre os livros.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Para gostar de ler... na escola

Encontrar o prazer na leitura depende de estímulos certos na idade certa. Entenda melhor como funciona a escolha dos títulos indicados para as crianças e as estratégias de educadores para estimular esse hábito

Denise Mirás

Em tempos como estes, em que a criança é cercada de informações e apelos dos mais diversos meios de comunicação, a formação do hábito de ler exige cada vez mais dos professores a aplicação de estratégias que despertem o gosto pelos livros, de forma que ele se mantenha por toda a vida – na verdade, pelo estímulo da imaginação, driblando o argumento dos adolescentes de que é “chato”. E, se a família tem papel fundamental nesta tarefa, a batalha dos responsáveis pelo ensino de literatura nas escolas é diária - e é dura. Ainda mais no caso do trato com jovens que se agitam em grupos, conectados à internet, que se preparam para o vestibular reclamando dos clássicos, da linguagem “difícil” e dos longos trechos descritivos que escapam à sua realidade.

Mas, se essa luta exige um arsenal de táticas pedagógicas, que inclui discussão de obras em blogs, por exemplo, existem soluções criativas e baratas que também estão ajudando a formar e manter leitores, daqueles que carregam os livros para cima e para baixo e não largam as “viagens da imaginação” nem em viagens reais, durante as férias.

Silvia Fichmann, pedagoga com especialização em tecnologias da comunicação aplicadas à educação, trabalha na Escola do Futuro, da USP, e vai direto ao ponto: “Muitas vezes, em vez de a escola estimular o aluno à leitura, se dá o contrário. Dependendo do professor, a criança sai de lá odiando isso.” Silvia observa que, na infância, normalmente a criança gosta muito de ir a livrarias e feiras, atraída pelos livros com muitas imagens, coloridos. Mas, com o tempo, pode deixar de gostar. Como driblar essa situação? “É preciso criar estratégias diferentes em vez de impor. Por que todos têm de ler determinada obra? Podemos selecionar dez, de estilos diferentes, e dar chance ao aluno de escolher um. Depois, cada um pode ‘apresentar’ o que leu de forma criativa, seja por slides, imagens, dramatização, trocando experiências e se motivando por outros estilos.” Para Silvia, há ferramentas mais recentes a serem utilizadas. “A internet motiva a ler mais sobre todos os assuntos em diferentes formatos. Podemos pensar em um mix: as crianças leem e depois criam blogs para discutir aspectos das obras.”

Não existe imposição de livros pelo Ministério da Educação, ou por uma Secretaria Estadual como a de São Paulo. Existem, sim, os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais), com orientações à formação do leitor, do ensino fundamental ao médio, “menos sistemática e mais como ajuda do ponto de vista das escolhas”, “privilegiando a base da literatura brasileira – não só de tradição literária, mas também as contemporâneas significativas” e mesmo de outras nacionalidades.

Para Silvia, que coordena o Linca (Laboratório de Investigação de Novos Cenários de Aprendizagem), na Escola do Futuro, é possível motivar a leitura trabalhando com criatividade. Os gêneros contam, sim, para a criança ou o adolescente ser motivado. Conta também a adequação à idade e à personalidade da criança. “O segredo é o equilíbrio”, diz Silvia.

CLÁSSICOS: A FUVEST MANDA

Assim, as decisões cabem a cada escola – e, em última instância, a cada professor. Seguindo o interesse da maioria (escola, pais e alunos), no entanto, muito da literatura que se estuda, especialmente no último ano do ensino médio, visa à aprovação no vestibular. Assim, na prática, a escolha de obras passa, quase obrigatoriamente, pela lista da Fuvest/Unicamp.

Fábio Zapata Moreno, professor de português e literatura do Colégio Santa Maria, em São Paulo, é sincero: “Não dá para fugir da Fuvest porque há cobrança nesse sentido – dos pais, da escola e dos próprios alunos. Os livros são intercalados com outros, mas são títulos que merecem ser lidos. Clássicos que carregam o imaginário de toda uma cultura, que dão respaldo para a vida”.

A cada aula, Fábio procura mostrar o que há de interessante no que está sendo lido pela classe, de forma que o aluno fique curioso, que fale de surpresas e dúvidas. “Digo que também achava ‘chato’, quando era adolescente... Para eles, ler O ateneu, de Raul Pompeia, é ‘um absurdo’. Querem ‘morrer’ quando se fala de A cidade e as serras, de Eça de Queirós... Mas não tem negociação.”

Em 2008, seu segundo ano do ensino médio leu Budapeste, de Chico Buarque; Amor de perdição, de Camilo Castelo Branco; Iracema, de José de Alencar; Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida; Dom Casmurro, de Machado de Assis; O cortiço, de Aluísio Azevedo; e Niketche – Uma história de poligamia, da moçambicana Paulina Chiziane. Agora, em 2009, os alunos do terceiro ano vão ler Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago; O último vôo do flamingo, do moçambicano Mia Couto; Vidas secas, de Graciliano Ramos; Capitães de areia, de Jorge Amado; Nova antologia poética, de Vinicius de Moraes; e Sagarana, de Guimarães Rosa.

A lista da Fuvest 2009 traz: Memórias de um sargento de milícias, Iracema, Vidas secas, Sagarana, Dom Casmurro e ainda Auto da barca do inferno, de Gil Vicente, A cidade e as serras, A rosa do povo, de Carlos Drummond de Andrade e Poemas completos, de Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa).

Como o professor Fábio, José Ruy Lozano, professor de literatura e redação do Colégio Santo Américo, em São Paulo, critica os resumos mastigados de cursinhos, por conta da “indústria do vestibular”, também espalhados pela internet. O professor procura mesclar autores de língua portuguesa com obras de escritores como o alemão Goethe, por exemplo (adota O sofrimento do jovem Werther, marco do início do Romantismo, para ser lido antes de Iracema). “O colégio procura variar, para criar o gosto pela leitura. Adotamos clássicos luso-brasileiros e de outras culturas. Mas também é preciso mediação, ler com o aluno – e não ‘para’ ele” – na sala de aula, para que sejam identificados pensamentos subentendidos, a riqueza do texto, para que o livro passe de ‘chato’ a ‘interessante’. Tratamos também de temas mais atuais – como Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel García Márquez, que discorre sobre violência e mandonismo político”, diz Lozano.

QUANDO GINA ERA UM ESCÂNDALO

Maria José Dupré, ou Sra. Leandro Dupré como assinava seus livros, dividiu a vida de Gina em três fases no romance homônimo. Com fama de “devassa”, a personagem era proibida para moças “de família”, mas nada segurava garotas apaixonadas por literatura... e curiosas.

Quem conta é Stael Martinez de Camargo, modista que, aos 75 anos, segue firme nas leituras desde que aprendeu a ler na cartilha, aos seis anos de idade, em um grupo escolar no bairro paulistano do Ipiranga, nos anos 1940, nos passos da mãe, Cândida Árias Martinez. O pai, Ángel Martinez Marques, tinha um bar e, para sorte da filha Stael, deixava o Chico Jornaleiro guardar ali seus jornais, revistas e gibis. Em troca, tinha permissão para ler tudo: revistas, gibis, Capitão América, Mandrake, almanaques de fim de ano.... “Não havia banca. O jornaleiro vendia na rua, no máximo em cima de caixote. Subia nos estribos dos bondes abertos e ali, pendurado, ia vendendo. Às vezes minha mãe cismava que gibi ‘dava mau exemplo’, mas eu lia. Atrás da porta da cozinha, escondido.” Ao lado do bar, a madrinha Giacomina tinha um bazar, onde vendia de xícaras a livros. “Eu pedia de joelhos para ler as revistas de romance água com açúcar. Para mim, ler as aventuras era como estar vivendo uma vida diferente da minha.”

Stael foi estudar Educação Doméstica e continuou atrás de livros na biblioteca do colégio – leu a vida de todos os santos, um por um. E o proibidíssimo Gina. Por conta de algumas obras, até levou surra... Na escola das 8h às 17h30, estudava todas as matérias, além de polidez, costura, bordado, cozinha. Na aula de bordado, as meninas se revezavam a cada dia, para ler capítulos em voz alta, enquanto as outras trabalhavam. Jamais títulos de Monteiro Lobato, “comunista”... Em Histórias do mundo para crianças (esgotado), o autor explicava a origem da Terra, da vida, dos dinossauros. Nada de Adão e Eva no Paraíso. “Não se podia nem falar dos livros dele, todos proibidos, sob pena de ir para o castigo.” Stael leu todos!

NOS PASSOS DA MÃE

Décadas depois, outra garota, Ingrid Biesemeyer-Bellinghausen, vivia querendo ir até a única livraria do centro de São Bernardo do Campo (SP). Como a pequena Stael, também acompanhava o gosto da mãe. “O objeto ‘livro’ me atraía. Eu ficava pensando: que será que tem lá dentro?” Ingrid lia um atrás do outro. Também desenhava e se formou em artes plásticas. Quando ficou grávida de Michelle, passou a desenhar pensando em um mundo melhor para criar os filhos... Por insistência de amigos, levou colagens e uma historinha para a editora DCL em 1998. Foi com O mundinho que iniciou sua carreira de autora de obras infantis – escritora e ilustradora com mais de 30 títulos publicados, entre eles Um mundinho para todos, com caracteres também em braile.

“É um conjunto de coisas que envolve a criança que irá despertar os pequeninhos que começam a ser alfabetizados. Nesta idade, é muito importante imagens convidativas – e as histórias precisam encantar. O Nicholas [seu segundo filho, que está com 4 anos], quando vai dormir, quer que eu leia para ele. E não pode ser ‘só’ um capítulo; ele já quer ler tudo. A Michelle, com 10 anos, parece que já pegou gosto. Anda lendo livros mais grossos, até juvenis.”

MUITO ALÉM DO “CAIR NA PROVA”

Maria Helena Costa, professora de língua portuguesa do ensino fundamental na Escola Nossa Senhora das Graças (o “Gracinha”), em São Paulo, trabalha com formação de professores e também fala do ambiente familiar como fundamental na formação do leitor. “Muitos alunos leem apenas porque a escola exige. Há concorrência com computador, internet, jogos eletrônicos e até celular. Mas, para a formação do leitor, é fundamental ter livros e leitores em casa, que possibilitem à criança criar uma cultura de leitura.”

Lena Costa, autora de obras didáticas de língua portuguesa (com Ana Paula Torres, orientadora pedagógica no Gracinha, recebeu o Prêmio Jabuti em 1998 pela coleção “Tantas palavras”), explica que parte da estratégia para tornar os livros mais “palatáveis” para determinadas idades passa pelas diversas edições de uma obra: texto integral, adaptado, edição renovada, obra original.

Para Lena, é importante que a criança já entre em contato com obras clássicas em textos adaptados, como As aventuras de Pinóquio, de Carlo Collodi, com tradução de Marina Colasanti, que costuma colocar na lista de férias do sétimo ano. “É o texto integral, sim, mas adaptado.” E por que, então, não dar apenas títulos que já são escritos originalmente para tal idade? “Além desses, ao trabalharmos com clássicos, por exemplo, com linguagem adaptada, temos um ganho pedagógico. É enriquecedor para a criança ter contato com as mais variadas versões, mesmo com um original em dois volumes com 500 páginas cada um! O professor pode mostrar para a criança, para ela pegar, ver. E ela pode comparar com o que está lendo, ver o filme, se for o caso, ser levada a comparar as duas linguagens. Isso é muito positivo. Quando se tornar adulta, não terá problemas para ler aquela obra, por exemplo, no original. Pelo contrário: vai querer fazer isso.”

Das estratégias, Lena também cita a leitura compartilhada na sala de aula, de forma que o aluno saiba a quê dar mais atenção, o que anotar. Assim, é possível, também, assinalar trechos que a criança poderá “pular”, como sequências descritivas de As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain, ou partes muito filosóficas do Frankenstein, de Mary Shelley, sempre explicando os porquês.”

É preciso criar situações em torno da obra, faze-la significativa para os alunos, e não apenas algo que “vai cair na prova”. “Certamente é trabalhoso para o professor procurar diferentes versões e linguagens... Exige tempo, repertório, infraestrutura na escola.” E que o professor esteja motivado e informado. Se não existe mais sentido em proibir livros por serem “mais picantes”, como se dizia, por exemplo, de A carne, de Júlio Ribeiro, Lena lembra da reação negativa recente a O estranho caso do cachorro morto, de Mark Haddon, por causa de “palavrões”, com pais fazendo queixa formal contra a professora, e a direção da escola e alguns professores considerando a obra inadequada, sem que ninguém argumentasse quanto a sua qualidade literária.

CRIATIVIDADE E MOTIVAÇÃO

Um exemplo de trabalho bem simples e criativo, que está levando crianças pequenas à leitura, é citado por Maria Aparecida Cheruti Frare, que, em Catanduva (SP), dirige uma das Regionais de Ensino da Secretaria Estadual de Educação. Começou na Escola Antônio Maximiano Rodrigues, em que cada aluno recebia uma cartolina, com seu nome e a carinha de uma centopéia. A cada livrinho lido e fichado, a criança ganhava uma parte do corpo da centopéia para colar na cartolina. A história se espalhou por 15 municípios.

“Inicialmente, se pensou que cada aluno leria 10, 15 livros, mas teve criança que leu mais de 200. Elas foram para as bibliotecas e, lá, colocamos cartazes sugerindo mais títulos, descrevendo seus temas. À medida que lê e gosta, vai entrando em vários mundos e tem prazer, a criança quer mais”, diz a dirigente. “A ideia é que se mostre o ideal, mas que eles mesmos também selecionem suas leituras, de forma a não abandonar os livros.”

O ensino público ainda está engatinhando com relação a formas de motivação, mas há algum andamento. A Escola Estadual Fernão Dias Paes, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, distribuirá para cada aluno, por iniciativa da Secretaria de Educação, kits contendo três clássicos, “que alguns alunos gostam e outros detestam”, como observa Maria Regina Cortez, coordenadora do colégio. Se não existe obrigatoriedade de os professores adotarem estas obras, existe o costume, pela lista do vestibular. De qualquer maneira, o professor trabalhará de forma a desenvolver o interesse dos alunos, “o que não significa que todos irão adorar”, como diz Regina. “Mas explicamos que para não gostar é preciso, antes, conhecer... O adolescente pode até ‘escapar’, por um período, da leitura, mas, se tiver sido levado a gostar de ler desde pequeno, certamente voltará para os livros.”


LER É BOM

“Eu gosto de ler porque é bom. Deixa eu pensar um pouco... Quando começo, entro em uma história; começo a imaginar e viver nela. É como um filme, só que usando o livro e a imaginação. Gosto mais de aventura e terror, obras que têm ação. Minha série preferida é a de terror Goosebumps. São crianças de 12, 13, 14 anos, que têm uma vida normal, mas aí viajam e vivem experiências inesperadas, encontram coisas bem diferentes, monstros... Já li vários, que foram comprados ou que pedi emprestados. Também gosto muito do Harry Potter. Não vai ter mais, mas tem outro personagem (Os contos de Beedle, o bardo), e eu ainda tenho dois para ler. Acabei o número 5. Também gosto do Tintin. O último livro que lemos na escola no ano passado foi A invenção de Hugo Cabret. Começa com um menino pobre que tem um pai que é bom de consertar coisas. Tinha uma máquina, que projetava imagens, só que o menino não sabia. E o pai morre antes de ele saber, no meio da história. Mas ele descobre que é uma máquina de projetar filmes. Foi um dos que mais gostei. Na escola, depois que a gente lê, a gente conversa, faz comentários sobre o que mais gostou. Depois, tem meio que uma prova, oral ou por escrito.”
Éric Yves Wuilleumier, 12 anos, 7º ano do ensino fundamental

LIVROS PARA APRENDER

“Não gosto nem desgosto de ler. Se eu entender o livro, aí gosto. Os últimos que a escola pediu para ler foram Ilíada e A odisséia. Achei os dois meio chatos, com muitas palavras difíceis. Se a história for legal e tiver palavra difícil, tudo bem, é até bom para aprender novas palavras. Mas, se a história não for muito legal e tiver palavra difícil, você se desprende dela, perde o interesse. Tenho muitos amigos que pegaram birra de leitura. Não peguei porque, quando era menor, me divertia com títulos cheios de desenhos. Pode ser legal se for o livro certo. O professor de português é que manda ler para a gente aprender mais sobre o assunto que está estudando. A escola não dá obra legal, dá livro para a gente aprender. O mais legal que já li foi O guia do mochileiro das galáxias. Meu irmão tinha lido e resolvi ler. Adorei, a história era muito maluca, do jeito que eu gosto. O mais chato foi O menino do dedo verde. Entre A Ilíada e A Odisséia, preferi a Ilíada, pois falava de guerra. Mas eu sei que estes livros são importantes para aprender. Se pensar no que aprendo com a literatura que a escola recomenda e no que aprendo com os que pego, como O guia e Harry Potter, os da escola dão de um milhão a zero.”
Lourenço Costa Biselli, 11 anos, 7º ano do ensino fundamental

Matéria publicada em Março/2009

quarta-feira, 30 de junho de 2010

A leitura e a escola

Aldenira Silva de Oliveira - Jornalista

Diversas pesquisas têm apontado que são poucos os brasileiros, principalmente os mais jovens, que cultivam o hábito da leitura. Esse fato é atribuído, segundo alguns estudiosos da literatura, à falta de incentivo dos pais e dos professores. Outros admitem que a diminuição do número de leitores deve-se à revolução tecnológica que oferece informações “mastigadas”, e que, pela velocidade como são divulgadas, não permitem interpretações ou maiores reflexões sobre os temas abordados.

Há ainda aqueles que justificam o fato esclarecendo que os brasileiros não gostam de ler porque lhes falta concentração, ou porque acreditam que a mídia televisiva é suficiente fonte de informação para o seu dia-a-dia.

Apesar de toda essa polêmica, entretanto, em um aspecto os estudiosos têm opinião unânime: a mídia, de um modo geral, exerce grande influência na sociedade e é considerada essencial para fortalecer os processos de formação de opinião pública e da prática da cidadania. No entanto, as informações obtidas via eletrônica devem ser aprofundadas por aquelas veiculadas em livros e jornais, ainda por muito tempo insubstituíveis. E, por isso, tema recorrente quando a discussão é a leitura.

Escritores e professores têm estimulado essa discussão. Para eles, é preciso que o brasileiro, desde criança, entenda que a leitura é indispensável para o seu aprimoramento pessoal e profissional.

Na escolaridade, a leitura está veiculada à alfabetização, à decifração de um código escrito. Assim sendo, passa a ser compreendida como um processo que envolve expressões formais e simbólicas que se dão a conhecer através de várias linguagens. Ou seja, aprende-se a ler quando se estabelece uma ligação afetiva entre o sujeito que lê e o texto que o desafia.

Saber ler é, pois, saber o que o texto diz e o que não diz. É tanto decodificar quanto compreender, pois “decodificar sem compreender é inútil; compreender sem decodificar é impossível”. O ato de ler e registrar o que é lido mecanicamente sem que haja criticidade não leva o leitor à geração de novos significados nem à conscientização do que está sendo assimilado. Ler não é simplesmente reter ou memorizar, mas compreender e criticar.

Dessa maneira, à medida que a leitura vai se desenvolvendo, perguntas e respostas vão ocorrendo, simultaneamente, formando um processo criativo, crítico e pessoal, atingindo contextos (político, econômico e social) aos quais o leitor está inserido. É imprescindível, pois, que na fase inicial da leitura, quer de livros, quer de jornais ou de revistas, o leitor conte não só com o apoio dos pais, mas também de professores, educadores de um modo geral.

Assim, partindo-se do pressuposto de que a escola é uma instituição estabelecida pela sociedade moderna para a transmissão da cultura às novas gerações e por meio da qual são trabalhados determinados estímulos que visam ao desenvolvimento de potencialidades, é difícil concebê-la sem leitura. Logo, é dever das instituições de ensino criar um ambiente propício para a formação do leitor brasileiro.

Mas o que as escolas vêm fazendo para facilitar esse processo?

Sabe-se que, atualmente, algumas escolas já incluem em seu programa anual atividades que priorizam a leitura, inclusive de jornais e revistas informativas, por meio de atividades para os alunos e através de palestra-oficina para os seus pais. Essa iniciativa parte do princípio de que para uma criança habituar-se à leitura é preciso ter pais que também gostem de ler.

Acredita-se que, agindo desse modo, será possível desfaze-se a percepção disseminada de que a geração atual não gosta de ler ou não sabe interpretar o que ler.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Imposição: o mal da escola, diz escritor

Luciana La Fortezza

Para Jorge Miguel Marinho, a grande importância é oferecer leitura sem amarras, em que as pessoas se descubram.

O grande mal da escola, inclusive no ensino superior, é a leitura impositiva, segundo e escritor e professor de literatura Jorge Miguel Marinho. De acordo com ele, a literatura deve ser livre de amarras. No entanto, atualmente, é tratada em sala de aula de modo utilitário. “A literatura não se presta a ensinar definitivamente as coisas, ela simplesmente vai dando pistas da realidade”, explica.

Ainda assim, os livros passam conhecimentos como geografia, filosofia e política. Para exemplificar, Marinho cita ‘Vidas Secas’, de Graciliano Ramos. “A grande importância é oferecer aos leitores, nas mais variadas etapas de sua vida, leituras em que eles se descubram. A relação entre livro e leitor é imprevisível. Machado de Assis é espetacular, um autor universal, mas não quer dizer que fulano vai necessariamente gostar dele”, afirma.

Antes de mais nada, a relação com literatura é de ordem emocional, destaca o professor. “Ler é uma forma de felicidade”, comenta, ao citar Jorge Luis Borges. Todo o restante do conhecimento vem depois.

“A escola ainda é o lugar privilegiado para desenvolver o gosto pela leitura. Por que não dá certo? Porque normalmente o professor utiliza a literatura para ensinar outros componentes. Ler é uma forma de devaneio. O conhecimento vem posteriormente, de forma natural. Nossa formação é muito prática”, reitera Marinho, que lançou recentemente a obra “A convite das palavras: Motivações para ler, escrever e criar” (Editora Biruta).

Um outro problema apontado pelo escritor é a tendência do professor apresentar textos muito distantes da realidade do aluno. “Os intermediários da leitura são fundamentais, a existência do professor é inestimável, tem muitos professores maravilhosos, mas eles têm que ter a sensibilidade de apresentar livros para os alunos como se fossem pratos de doce. Certamente, todo mundo gosta de ler, só não teve um exercício para descobrir sua leitura. Mesmo uma leitura sem grande qualidade literária, se o aluno gosta, a relação com as palavras é tão profunda que ele passa a exigir leituras mais aprofundadas”, afirma.

Para chegar lá, várias opções devem ser apresentadas, assim como várias interpretações devem ser aceitas, não apenas a do professor. Todas são igualmente interessantes, garante Marinho.

------------------

‘Literatura não é ciência’, diz professora

A literatura é arte, não ciência, adverte a professora de literatura brasileira e portuguesa da Universidade do Sagrado Coração (USC) Glória Maria Palma. Os educadores, no entanto, normalmente tratam o texto literário de forma sisuda e apresentam a seus alunos uma leitura desprovida de prazer.

Na luta para abrir um espaço ao texto literário na vida de pessoas que cresceram longe dele, Glória realiza leituras coletivas e dramatizadas, por exemplo. “Faço oficinas, como literatura e gastronomia, literatura e pintura etc. Gosto do texto literário, mas tenho que abrir, que facilitar. Quando se faz um projeto legal, os alunos adoram. Eu sei que dá, mas tem que ter aquele batalhão preparando”, comenta.

As atividades elaboradas por ela para crianças de 5ª e 6ª séries contam com roupinhas, adereços de papel, enfim, uma parafernália para atrai-las. “A questão é que não estamos mais usando muito a palavra e texto é palavra. Nem a palavra oral, quanto mais a escrita. Hoje tudo é muito visual. Dizem que uma imagem diz tudo, mas diz coisa nenhuma. Tem que conhecer muito para ler bem uma imagem”, comenta a professora.

Glória ressalta que, atualmente, a educação cultural das crianças está praticamente nas mãos das escolas. Não só porque os pequenos passam o dia todo nas instituições, mas também em virtude da maioria das crianças ser oriunda de famílias carentes, que pouco podem contribuir com o repertório delas.

“Ficou a incumbência para as escolas e elas não se movimentaram para ter um projeto global de leitura. Para estimular tem que ter um professor preparado, um professor lido. E o nosso professor de língua é um professor que vem das classes populares, que não têm o hábito da leitura. A cultura da escola está se massificando. Estou falando de um grupo que se propõe a ensinar outros grupos. Eles erram”, opina a professora.

Resultado: muitos alunos chegam à graduação sem conseguir degustar um texto literário. Foram acostumados com a simplicidade da televisão, por exemplo. “Os programas gastam um dinheiro imenso para tornar o produto palatável. Em geral, os textos não são palatáveis. O professor, então, tem que o ler com eles, mostrar o vocabulário e quando os alunos dão conta do texto, acham ótimo”, informa Glória.

De acordo com ela, existe uma crise envolvendo a literatura literária porque outras mídias passaram a dar conta do conteúdo dos livros. Atualmente, ele pode ser conferido em filmes, novelas e seriados. A literatura, na sua opinião, atualmente, ficou restrita aos grupos mais intelectualizados, ligados às universidades públicas.

---------------------

Caótico

É uma inverdade dizer que as criança não leem. Elas leem, mas fazem uma leitura caótica, explica a professora DE literatura brasileira e portuguesa Glória Maria Palma, da Universidade do Sagrado Coração (USC).

“As crianças vão lendo conforme o que vai caindo nas mãos. Leem romances, best sellers. As escolas têm que ter projetos que contemplem as várias leituras. As informativas, as literárias e até usar a leitura caótica do aluno para a produção de alguma coisa interessante”, recomenda a professora.

sábado, 19 de junho de 2010

A leitura no contexto escolar

Cassiane Schmidt

A leitura é fundamental para o desenvolvimento intelectual do ser humano, uma leitura de qualidade representa a oportunidade de ampliar a consciência, a visão do mundo. O desenvolvimento tecnológico contribuiu e vem contribuindo para agravar o abissal distanciamento do homem com o livro, comprometendo a saudável relação do leitor com o livro.

A leitura representa uma ferramenta eficaz nos processos de aprendizagem, há vista, que através da leitura é possível criar uma série de conceitos e significações acerca do objeto estudado. O contato com livro torna-se um encontro sagrado, comprometimento cultural, é possibilidade de voar, de encarnar personagens, de sonhar, de manifestação, reconhecimento com aquilo que se lê.

No século XX, o consumo e a produção de livros aumentaram progressivamente, sem dúvida a palavra escrita é considerada uma das mais importantes heranças culturais da humanidade. A palavra escrita dominou os tempos, e o livro colaborou para a universalização do conhecimento, devido à facilidade de acesso.

Mas nem sempre foi assim, até o século XV tinha acesso aos livros somente uma pequena minoria de sábios e estudiosos que formavam a classe intelectual da sociedade (reservados em mosteiros durante o começo da Idade Média), somente eles tinham acesso às bibliotecas.

Hoje as facilidades em relação ao acesso aos livros, às bibliotecas constituem fator importante para o crescimento intelectual, significa o livro gratuito na mão do povo, simboliza o acesso efetivo do público de baixo poder aquisitivo.

Mas parece-me que na mesma proporção das facilidades nasceu o distanciamento do brasileiro com o livro. Contudo é importante ressaltar, a fim de não cometer injustiças e nem se aliciar ao radicalismo, que há alguns casos de pessoas que não lêem porque não têm dinheiro para gastar com livros, ou moram em cidades onde não existem livrarias e bibliotecas. Pesquisas apontam que os brasileiros lêem pouco e mal.

Todavia é importante destacar que o perfil dos leitores tem uma relação direta com os fatores escolaridade e classe econômica, evidenciando que, quanto maior a escolaridade, maiores são os índices de todos os tipos de leitores e que os maiores percentuais de leitores são encontrados nas classes sociais economicamente mais privilegiados.

A leitura é fundamental para o desenvolvimento intelectual do ser humano, uma leitura de qualidade representa a oportunidade de ampliar a consciência, a visão do mundo. O desenvolvimento tecnológico contribuiu e vem contribuindo para agravar o abissal distanciamento do homem com o livro, comprometendo a saudável relação do leitor com o livro.

Segundo Paulo Freire a leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra. O ato de ler se veio dando na sua experiência existencial. Primeiro, a “leitura” do mundo do pequeno mundo em que se movia; depois, a leitura da palavra que nem sempre, ao longo da sua escolarização, foi a leitura da “palavra mundo”. Na verdade, aquele mundo especial se dava a ele como o mundo de sua atividade perspectiva, por isso, mesmo como o mundo de suas primeiras leituras.

Os “textos”, as “palavras”, as “letras” daquele contexto em cuja percepção experimentava e, quando mais o fazia, mais aumentava a capacidade de perceber se encarnavam numa série de coisas, de objetos, de sinais, cuja compreensão ia aprendendo no seu trato com eles, na sua relação com seus irmãos mais velhos e com seus pais.

A leitura do seu mundo foi sempre fundamental para a compreensão da importância do ato de ler, de escrever ou de reescrevê-lo, e transformá-lo através de uma prática consciente.

Esse movimento dinâmico é um dos aspectos centrais do processo de alfabetização que deveriam vir do universo vocabular dos grupos populares, expressando a sua real linguagem, carregadas da significação de sua experiência existencial e não da experiência do educador.

A alfabetização é a criação ou a montagem da expressão escrita da expressão oral. Assim as palavras do povo vinham através da leitura do mundo. Depois voltavam a eles, inseridas no que se chamou de codificações, que são representações da realidade.

No fundo esse conjunto de representações de situações concretas possibilitava aos grupos populares uma “leitura da leitura” anterior do mundo, antes da leitura da palavra. O ato de ler implica na percepção crítica, interpretação e “reescrita” do lido.

A internet com suas falsas facilidades tornou-se a patrocinadora, a madrinha de milhões de jovens semi-analfabetos, que estão desaprendendo o pouco de que sabiam escrever, e abandonando quase completamente o habito de ler. Quem não lê, não pensa, não sabe, não vive, não formula, não diferencia.

O trecho a seguir foi retirado prova de vestibular no RJ (Universidade Gama Filho) a questão proposta: Faça uma análise sobre a importância do Vale do Paraíba.
Resposta do candidato:

“O Vale do Paraíba é de suma importância, pois não podemos discriminar esses importantes cidadãos. Já que existe o vale transporte, o vale do idoso, por que não existir também o Vale do Paraíba??!!! Além disso, sabemos que os Paraíbas, de um modo geral, trabalham em obras e portarias de edifícios e ganham pouco. Então, o dinheiro que entra no meio do mês – que é o vale- é muito importante para ele equilibrar sua economia familiar”.

É lamentável pensar no futuro do nosso País ao ler tamanha barbárie, e chamam isso de pérolas? Nossos jovens estão perdidos, casmurros sem instrução, lançando-se ao degredo voluntário da ignorância. Segundo pesquisas do IBGE o índice de analfabetismo no Brasil vem caindo nos últimos anos, no entanto a qualidade de leitura não corresponde a este índice, não basta saber assinar o nome, ler palavras isoladas entre si.

Sabe-se, contudo, que é preciso muito mais para formação cultural de um povo, para efetiva compreensão global do que se lê, exige interpretação, assimilação, para a efetiva compreensão da leitura que se faz. Alfabetizado é aquele que consegue ler um texto e interpretá-lo, aquele que consegue redigir um texto conseguindo expressar sua opinião de forma ordenada e coerente.


O contato com livro torna-se um encontro sagrado, comprometimento cultural, é possibilidade de voar, de encarnar personagens, de sonhar, de manifestação, reconhecimento com aquilo que se lê. Neste contexto, faz-se urgente a conscientização de pais e professores, pois eles irão constituir os preclaros mediadores no encontro da criança com a leitura.

A infância, terreno fértil para a formação de bons leitores depende da mediação inteligente de pais e professores. Muitas vezes a leitura é apresentada aos pequenos infantes de maneira impositiva e obrigatória, o que por sua vez, compromete a relação, o nascimento do encantamento necessário para todo bom futuro leitor.

Através do hábito da leitura, é possível acreditar que a sociedade se transforme em um varal literário, uma sociedade composta de leitores conscientes, de bons escritores, de gente que pensa, de gente que fala, de gente que faz a diferença.

As crianças devem encontrar nos livros encantamento, liberdade, harmonia, pois assim será possível pensar em uma sociedade constituída de bons leitores, por conseguinte, excelentes escritores. A leitura é pura liberdade, a escrita maturidade.

A importância dos livros assume uma oportunidade impar na promoção da leitura, o livro é um mecanismo através do qual os alunos encontrarão a possibilidade de pesquisar sobre determinado assunto ou tema, descobre afinidades com as idéias do autor, desenvolve o senso crítico, enriquece seu vocabulário, enfim, inúmeros são os benefícios da leitura no quotidiano escolar.

Ler é saber. O primeiro resultado da leitura é o aumento de conhecimento geral ou específico. Ler é trocar. Ler não é só receber. Ler é comparar as experiências próprias com as narradas pelo escritor, comparar o próprio ponto de vista com o dele, recriando idéias e revendo conceitos.

Ler é dialogar. Quando lemos, estabelecemos um diálogo com a obra, compreendendo intenções do autor. Somos levados a fazer perguntas e procurar respostas. Ler é exercitar o discernimento. Quando lemos, colocamo-nos de modo favorável ou não aos pontos de vista, pesamos argumentos e argumentamos dentro de nós mesmos, refletimos sobre opções dos personagens ou sobre as idéias defendidas pelo autor.

Ler é ampliar a percepção. Ler é ser motivado à observação de aspectos da vida que antes nos passavam despercebidos. Ler bons livros é capacitar-se para ler a vida. Penso em um futuro formado por uma sociedade alfabetizada intelectualmente, que consiga refletir, pensar criticamente, abandonar a consciência ingênua, assumindo uma postura crítica dentro do contexto social brasileiro.

A leitura é um caminho promissor capaz de transformar a realidade, é a vacina contra a ignorância e o conformismo, este filho daquela. Que a sociedade se transforme em um varal literário, uma sociedade composta de leitores conscientes, de bons escritores, de gente que pensa, de gente que fala, de gente que faz a diferença.

Ganhar o gosto pela leitura é como provar o vinho pela primeira vez, a princípio parece-nos amargo, mas depois habituamo-nos ao gosto e, passado algum tempo, quem não sente um enorme prazer em saborear um bom cálice de vinho?
Ler um livro na sociedade em que vivemos é lutar por encontrar a calma, a paz e a serenidade que ganhamos ao passar doce e calmamente mais uma página, é enriquecer constantemente a nossa cultura, o nosso mundo interior, é dar espaço ao sonho, à magia, à procura do nosso tão nobre e individual "Eu"

Concluí-se que para os educadores melhorarem sua prática, devem começar a avalizar a importância do ato de ler, assumindo o papel de incentivadores da leitura. Sabemos que, ao mudar a postura sobre o ato de ler, ter-se-á condições de formar alunos leitores, e conseqüentemente ótimos escritores.

O contato com livro amplia o trabalho do professor em sala de aula, estende o processo de aprendizagem para fora da escola, pois a leitura começa a fazer parte da rotina do aluno, uma espécie de comprometimento cultural, é possibilidade de voar, de encarnar personagens, de sonhar, de manifestação, reconhecimento com aquilo que se lê.

Conclui-se, portanto, que os pais e professores desempenham papel fundamental na aproximação da criança/aluno com o livro. O contexto, nesta perspectiva, é algo decisivo no hábito da leitura. A criança precisa ver livros, toca-los, manuseá-los, tê-los ao alcance!

Os pais devem começar a presentear seus filhos com livros e não apenas com brinquedos, a partir de pequenas mudanças diárias, começa-se a construção de uma nova fase, quiçá a construção de uma nova identidade no perfil dos leitores brasileiros.


REFERENCIAS

FREIRE, Paulo. A Importância do Ato de Ler: em três artigos que se completam. 22 Ed. São Paulo: Cortez, 1988. 80 p.


Fonte: Overmundo