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segunda-feira, 7 de junho de 2010

Ter livros em casa aumenta o grau de educação


Foto: Getty Images
Pesquisadores descobriram que ter livros em casa pode ser mais benéfico aos filhos do que o grau de educação dos pais

Camila de Lira, iG São Paulo

Por muito tempo se acreditou que o grau de estudos dos pais era um fator importante e determinante para a formação acadêmica dos filhos, mas, segundo uma pesquisa da Universidade de Nevada, a questão foi posta em dúvida. Segundo os pesquisadores, ter livros em casa é crucial para o aumento do grau de escolaridade dos filhos – e é mais importante do que o nível educacional dos pais.

Durante 20 anos, os pesquisadores analisaram hábitos de pais e crianças, assim como seus currículos, e chegaram à conclusão que as crianças que tiveram livros em casa avançaram pelo menos 3 anos no grau de escolaridade em comparação ao dos pais. De acordo com a psicopedagoga Maria Cristina Natel, a existência de livros é altamente benéfica para as crianças. “Nesta atmosfera, a criança tem uma imersão no ambiente da cultura e das letras, e isso faz com que ela se habitue ao universo da leitura, até mesmo antes de entrar na escola”, explica.

A pedagoga Célia Abicalil, coordenadora do Grupo de Pesquisa do Letramento Literário da Faculdade de Educação da UFMG, diz que a leitura forma o sujeito para a sociedade, porque faz com que ele tenha uma visão mais ampla de tudo que o cerca. “Uma criança que lê se torna um adulto mais inteiro no seu modo de olhar para o mundo”, diz.

Abicalil completa que o primeiro passo para incentivar a leitura é proporcionar o acesso aos livros, mas também aponta a importância de criar o hábito nos filhos. “Isso é fundamental para que eles se acostumem com o trabalho da leitura”, diz. Natel explica que os pais têm um papel importante nesta formação. “Não basta ter o livro em casa, o adulto precisa mediar o objeto de conhecimento”, diz.

Veja algumas dicas das especialistas que podem ser benéficos para estimular seu filho a ler

- Ler para a criança e contar histórias para ela é o primeiro passo. Tal hábito, segundo as pedagogas, pode começar desde a gravidez

- Ler em casa. O hábito de leitura dos pais influencia os pequenos a procurarem também os livros

- Criar um ambiente para a criança ler: um local com prateleiras baixas e com espaço para ela sentar

- Levar a criança em bibliotecas e livrarias

- Quando mais velhas, apresentar livros de assuntos que despertem o interesse e conversar com elas sobre os enredos dos livros

Fonte: IG Delas

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Meta é qualidade da educação

À frente do maior império de comunicação do País com os irmãos, José Roberto Marinho diz que só o conhecimento rompe definitivamente o ciclo da pobreza

Por Celso Kinjô

José Roberto Marinho herdou uma responsabilidade e tanto. Com seus irmãos Roberto Irineu e João Roberto, dirige um conglomerado de comunicação que envolve redes de televisão (abertas e fechadas, inclusive no exterior), rádio, jornal e revista, portais de internet, produtoras de conteúdo para tv paga, gravadoras, distribuidoras de filmes.

Caçula do trio, 53 anos, vice-presidente das Organizações Globo, comanda também a Fundação Roberto Marinho, que há mais de quatro décadas tem como missão facilitar o acesso aos universos da cultura e da educação, através de seus meios de comunicação.

Na XIV Bienal Internacional do Rio, José Roberto recebeu, em nome da empresa, o troféu José Olympio, em homenagem ao empenho que a Globo vem dedicando ao livro e à leitura. Em 1993, seu pai, jornalista Roberto Marinho, foi agraciado com o mesmo prêmio.

Nesta entrevista exclusiva a Panorama Editorial, o empresário analisa o desafio estratégico que se coloca para o País, o de reduzir as desigualdades, aumentar a escolaridade e, assim, elevar a oferta e a demanda do mercado editorial.

Índice baixo de escolarização e ensino de qualidade discutível. Seriam essas as causas para o irrisório índice de leitura da população? Ou seria mais a falta de acesso ao livro?
“Ambas são verdadeiras. O número de analfabetos funcionais no país é gigantesco. E, se uma pessoa não sabe interpretar o que lê, o mundo do livro não existe para ela. Se ela estudou apenas até o primeiro ciclo do ensino fundamental, por exemplo, deixou de ler inúmeros livros didáticos e paradidáticos que seriam essenciais para a sua formação. O acesso restrito ao livro é outro fator determinante. Além da questão da renda, há problemas como a baixa proporção de bibliotecas públicas e em escolas. Sem dúvida, iniciativas públicas e privadas são fundamentais para reverter esse quadro e elevar o patamar de conhecimento, liberdade e autonomia propiciados pelo hábito da leitura.”

Em sua opinião, como o Brasil pode vencer o analfabetismo (total e funcional), e o agora reconhecido analfabetismo digital? O Sr. acha que o Governo tem feito a sua parte? E a iniciativa privada, deveria participar mais desse esforço do Estado?
“Sabemos que só o conhecimento rompe definitivamente o ciclo de pobreza e melhora de forma sustentada a vida das pessoas. Para atingirmos esse objetivo, é necessário um esforço conjunto – como é o caso do ‘Compromisso Todos pela Educação’ –, que envolve os governos, o setor privado e a sociedade civil organizada. Além de uma questão ética, o desenvolvimento humano é condição para a competitividade do país no mundo globalizado. A qualidade da educação precisa ser, de fato, a prioridade absoluta na agenda nacional, com políticas de Estado continuadas (registre-se avanços nesse sentido) e uma atuação complementar – esse é um ponto-chave para alcançarmos a escala necessária – entre os diferentes setores e atores. E, logicamente, o acesso aos bens culturais e às tecnologias de informação e comunicação precisa estar contemplado nessa busca de soluções, ou as oportunidades serão cada vez mais desiguais.”

De que maneira se pode aumentar o acesso da população ao livro e à leitura? Tão somente através de mais bibliotecas?
“É inegável a importância de se formar desde cedo nas crianças o hábito da leitura, apresentando a elas publicações que estimulem e reforcem o prazer de ler. O ideal é que esse hábito comece dentro de casa e depois tenha continuidade na escola. Para isso, os pais também devem ler – de modo a incentivar que os filhos façam a mesma coisa – e os professores devem ter condições de apresentar leituras diversificadas para os alunos. E os meios de comunicação podem ter um papel de grande relevância”. As Organizações Globo buscam contribuir com a ampliação do acesso à leitura de diferentes formas. Por exemplo, por meio do ‘Novo Telecurso’, metodologia pioneira da Fundação Roberto Marinho, foram distribuídos mais de 600 mil livros nos dois últimos anos.

Através do projeto ‘Época na Educação’, do qual já participaram mais de 1.600 escolas, os alunos e professores recebem revistas, fascículos especialmente desenvolvidos e têm acesso a conteúdos na internet, em um conjunto de atividades que ajudam a desenvolver a leitura e a pesquisa. O jornal O Globo também mantém o projeto ‘Quem Lê Jornal Sabe Mais’, de incentivo à leitura em sala de aula, e o Extra, em onze anos, distribuiu gratuitamente mais de seis milhões de livros, para citar apenas algumas iniciativas.

Recentemente, O Globo lançou ainda, associado ao caderno literário semanal Prosa & Verso, o projeto ‘O Livreiro’, a primeira rede social na internet dedicada aos livros. No campo social, o ‘Criança Esperança’ destina recursos para projetos que promovem a inclusão através da leitura, e o ‘Amigos da Escola’ estimula a participação da comunidade em atividades que têm a leitura como eixo de atuação”.

Sobre televisão: que influência exerce no estímulo à leitura da criança e do jovem? Ela inibe, estanca, estimula a vontade de ler?
“Estamos certos de que uma programação televisiva de qualidade, que busque informar, entreter e educar, com ações voltadas para a valorização do conhecimento e da nossa identidade e diversidade cultural, tem papel importante nesse sentido. Por exemplo, quantas obras de teledramaturgia adaptadas ou inspiradas na literatura nacional não impulsionaram fortemente as vendas de livros?”

O advento de novas mídias eletrônicas vai interferir e até ocupar espaços tradicionais do livro? Ou trata-se de um falso dilema?
“Acreditamos que as diversas mídias são complementares. O home vídeo ampliou a distribuição de filmes. O rádio não acabou com o surgimento da TV. As novas mídias e as novas plataformas para distribuição digital e leitura de livros ganharão espaço, mas o livro físico continuará existindo.”

Em suas diversas mídias, a Rede Globo tem apoiado de modo claro o estímulo à leitura. De que forma se pode mensurar os resultados dessa experiência? Poderia citar exemplos?
“Desde 1965, a teledramaturgia da TV Globo adaptou para o vídeo 72 obras inspiradas ou baseadas na literatura. Foram minisséries, novelas e especiais difundindo em larga escala, no Brasil e no exterior, obras e autores consagrados, assim como revelando novos talentos nacionais. Somente nos últimos quatro anos, a Rede Globo veiculou gratuitamente o equivalente a R$ 37 milhões em campanhas nacionais e regionais de apoio às feiras literárias e de incentivo à formação de novos leitores. Entre 2006 e 2009, o jornalismo da Rede Globo produziu mais de 3500 matérias nacionais e regionais sobre literatura, incluindo a cobertura das principais feiras literárias do País.

Na internet, o portal G1 mantém blogs, faz entrevistas, coberturas e transmissões sobre eventos literários. O assunto é também permanente nos mais diversos sites de programas da Rede Globo. No merchandising social, 61 cenas de incentivo à leitura estiveram presentes nas telenovelas nos últimos quatro anos, difundindo o tema em horário nobre, em todo o território nacional.

A literatura está presente também em espaços relevantes nos Canais Globosat de TV por assinatura e em todas as empresas das Organizações Globo, com ações permanentes e diversificadas.”

Qual é a orientação da empresa no que se refere à divulgação de eventos literários, como feiras, do tipo Flip ou outras mais modestas, exposições, bienais do livro?
“Além do expressivo investimento na veiculação gratuita de campanhas nacionais e regionais de apoio a feiras literárias, e de ampla cobertura jornalística, realizados pelas Organizações Globo, sobre os quais falamos, contamos com participação assídua nos principais eventos literários. E realizamos iniciativas especiais: em 2007, por exemplo, vinhetas temáticas (“plim-plins”) foram criadas para promover a edição da Bienal daquele ano na Rede Globo.

No que se refere ao Sistema Globo de Rádio, a Rede CBN monta estúdios e ancora programas das bienais, produzindo debates, entrevistas e até oficinas, como aconteceu esse ano aqui no Rio. Além da cobertura das feiras literárias, feita também pela Rádio Globo, a CBN leva ao ar reportagens dedicadas ao tema e mantém o boletim diário ‘Tempo de Letras’. Todo esse material fica também disponível no site da emissora.”

A direção da empresa estimula, especificamente, ações de merchandising em favor do livro e da leitura?
“Conforme falamos, contamos com uma quantidade significativa de ações de merchandising social na teledramaturgia que estimulam a leitura e evidenciam a importância desse hábito. É muito comum ver personagens de novelas lendo um livro, comentando sobre uma obra ou autor. É importante que o público perceba que a leitura tem que estar presente no dia a dia. É lembrete aos pais: as crianças precisam ter acesso fácil ao livro em casa. Os pais precisam contar histórias, apresentar o mundo da literatura, e dar o exemplo.”

O Sr. tem uma mensagem otimista em relação ao futuro do livro?
“O Brasil caminha – precisamos acelerar bastante o passo, claro – para se tornar uma sociedade menos desigual. Pode avançar muito nas próximas décadas no desenvolvimento econômico, sem esquecer da inclusão social e do meio ambiente. Isso significa que milhões de pessoas passarão a ter a acesso a bens culturais e à informação escrita. A escolaridade aumentará, assim como a qualidade da educação, com a convergência de prioridades em torno do tema. Isso aumentará a demanda e a oferta no mercado editorial. Temos a certeza de que com esforço conjunto podemos melhorar os índices de leitura e conhecimento no país, reforçando a democracia e a nossa identidade.”

A educação passa pela leitura

Em cada cidade, uma biblioteca. Em cada escola pública, um acervo. E livros didáticos distribuídos a todo o ciclo básico. São os pilares do ministro Fernando Haddad para recuperar a qualidade da Educação

Por Celso Kinjô

Responsável pelo maior orçamento do governo (R$ 41 bilhões, soma equivalente a 4,6% do PIB brasileiro), o ministro Fernando Haddad, professor, advogado e economista, tem, como uma de suas prioridades, o incentivo ao hábito da leitura de livros. Criou vários programas nessa direção, seu ministério vem investindo neles, com a convicção de que o retorno para o País será muito maior.

Em entrevista exclusiva a Panorama Editorial, o ministro, há quatro anos pilotando a Educação, revela seus planos até 2010, quando se encerra o segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Como o Sr. define as ações do Governo em estimular o hábito da leitura, sobretudo nas populações mais jovens?
“Estou de acordo com o diagnóstico de que a leitura é o caminho para a educação de qualidade. Ela nunca será possível se a leitura não estiver presente no dia a dia da população. Daí, derivam as ações do Governo. Não só de garantir que todo município brasileiro tenha pelo menos uma biblioteca pública, como também garantir que todas as escolas públicas recebam um acervo, no âmbito do Programa Nacional Biblioteca na Escola. E mais que isso, estendendo o programa do livro didático para toda a educação básica, e não restringi-lo ao ensino fundamental como no passado.

Até 2005, o governo não encaminhava livros didáticos para os alunos do ensino médio. Isso é uma barbaridade à luz da exigência por mais qualidade na educação. Literalmente, é impossível que alguém faça um bom ensino médio sem uma coleção didática disponível. Hoje, todas as etapas da educação básica; todas as escolas, no que diz respeito a acervos de livros; e todos os municípios, no que diz respeito a bibliotecas públicas, estão sendo contemplados.

E há outra forma de introduzir o hábito da leitura entre os jovens. Experiências empíricas comprovam que a internet é uma porta de entrada importante para que se cultive a leitura. Como a navegabilidade pressupõe a leitura – não é como a tevê, em que você muda de canal com um botão numérico –, a internet estimula a leitura, e há evidências empíricas de que isso tem impacto na proficiência de leitura, e também no consumo de livros. Uma coisa não substitui a outra. Ao contrário, são mídias que se reforçam.

Finalmente, a desoneração tributária de toda a cadeia do livro foi um ato importante do governo Lula, no sentido de tornar mais acessível o livro para a população”.

Como fazer o livro mais acessível, ministro?
“Eu penso que a leitura é conseqüência da democratização do acesso ao livro. Por isso é tão importante o programa ‘Biblioteca na Escola’. As pessoas tendem a imaginar que o cidadão não lê porque não quer, mas muitas vezes as pessoas não cultivam porque não tem acesso ao livro. São inúmeros os exemplos divulgados pela imprensa, de cidadãos comuns que tomaram a iniciativa de criar bibliotecas circulantes, e naturalmente as pessoas se aproximam do mundo da escrita.

O Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE), para 2010, foi denominado ‘PNBE do Professor’. A dúvida é: há títulos suficientes para capacitar os professores?
“É uma inovação. Estamos agregando, à biblioteca da escola, uma biblioteca didática para o professor. É uma inovação porque averiguamos que o Brasil não dispõe de número expressivo de títulos de didática especifica. Se você pesquisar essa área em língua inglesa, ou francesa, ou em espanhol, vai verificar que o número de títulos é substancialmente superior ao catálogo em língua portuguesa. Então, esse programa visa fermentar a produção de livros de didática específica. Como ensinar Física, como ensinar História. Como ensinar Filosofia. Tudo isso para as várias etapas da educação básica. É um instrumento valioso na mão do professor, que pode aprimorar a sua didática, se tiver à mão uma biblioteca desse tipo.

Não necessariamente se deve apelar para traduções. Temos professores qualificados para escrever esses livros. A produção local vai ser fomentada a partir do PNBE 2010, em pouco tempo teremos uma coleção de títulos de didática específica bastante significativa. Por que não há ainda essa variedade? Porque sem o apoio do Estado, fica difícil. Quem vai contratar alguém para escrever um livro, sem ter a menor ideia sobre seu potencial. Um livro desse tipo é muito caro, pois exige cuidados, vai chegar na mão do professor, que vai fazer uso dessa prática.

O investimento não é pequeno e sem a garantia de demanda, fica difícil para um editor investir tanto dinheiro, sem ter a menor ideia de como será o impacto do lançamento da obra. Com a garantia de que o Estado adquirirá as obras para compor o acervo das bibliotecas escolares, tudo fica facilitado.

A distribuição de livros na rede pública vai continuar e até crescer, ministro?
“Não tenha dúvida. Ninguém vai voltar atrás na decisão de entrega gratuita de livros didáticos para toda a educação básica. Seria um contra-senso. Agora que a biblioteca chegou à pré-escola, ao ensino fundamental, ao médio, não há retrocesso possível.

O necessário é que o programa ‘Biblioteca na Escola’ se expanda, mas para isso, tenho de cuidar de uma questão preliminar, que é a infraestrutura das escolas, para acomodar acervos maiores. Tem havido esforço razoável por prefeitos e governadores, para adequar instalações e há outros dois programas importantes do MEC. Um é o ProInfo, que está instalando banda larga em todas as escolas públicas urbanas, e o Biblioteca na Escola. São programas muito importantes, até para caracterizar o papel da escola na era da tecnologia da informação”.

É possível uma educação de qualidade em um País de tantas desigualdades, ministro?
“Entendo que se quisermos combater as desigualdades, não há outro meio senão investimento. As desigualdades se explicam pela falta de investimentos em educação. Está comprovado, por vários estudos econométricos, que o investimento que tem a maior taxa de retorno é o investimento em formação. Supera qualquer outro. Entendo que o Brasil despertou para isso, definitivamente.

Entendo que o Plano Nacional de Desenvolvimento da Educação deu um norte, um caminho para se trilhar, do ponto de vista de se fixar metas de qualidade, desde o ensino fundamental, passando pela graduação, o ensino médio e até a pós-graduação. O sistema brasileiro de avaliação é incomparável, eu diria que é um case a ser estudado, porque estamos avançando em todas as etapas. Há a fixação de metas, ou seja, você investe mais, mas exige que seu investimento retorne para a sociedade, em qualidade”.

O Sr. reivindica que o orçamento para Educação atinja 6% do PIB brasileiro?
“Se o próximo governo mantiver o passo do atual, eu diria que sim. Porque saltamos de um investimento de 2,9% do PIB para 4,6%. Temos toda a condição de chegar ao fim do governo beirando ou superando os 5%, mas em torno de 5%. Se o próximo governo fizer exatamente o mesmo esforço, chegaremos rapidamente a 6%. Mantendo esse patamar, até que se salde a dívida educacional, que é elevada em função da falta de investimentos que é histórica”.

No atual governo, não há cortes na educação?
“Desde 2004, não há cortes no orçamento da educação, muito ao contrário. Nosso orçamento, do ano passado para este, se elevou em cerca de R$ 10 bilhões. A previsão para o ano que vem é de um salto do mesmo porte, talvez um pouco menos. Um orçamento que vai superar os R$ 50 bilhões, tendo saído de um patamar de R$ 23 bilhões em 2004”.

E o futuro do livro, como vê?
“Uma vez que alguém tem acesso ao mundo da cultura, não abdica mais desse benefício. Creio que temos muito a fazer. O brasileiro, do adulto recém-alfabetizado, até o recém-doutor, sabe que o mundo da escrita é inalienável. Uma vez inserido nele, no universo da escrita, ninguém vai sair. Isso vale para o futuro.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Comentários sobre o pré-leitor e a educação do ato de ler

[Janeiro/2010]
Autor: Adriano Messias

Introdução

Tem-se, desde algum tempo, o costume de dividir em fases o desenvolvimento do leitor e existe uma interpenetração destas fases com as do desenvolvimento cognitivo e emocional da criança, de acordo com estudiosos da psicologia infantil. Costumamos encontrar as seguintes divisões: “pré-leitor” para o período que abrange a primeira infância (dos 15/18 meses aos 3 anos de idade) e a segunda infância (dos 2/3 anos até 6 anos); depois, surgem as fases do “leitor iniciante”, aos 6/7 anos, do “leitor em processo”, a partir dos 8/9 anos, do “leitor fluente”, a partir dos 10/11 anos, e, por fim, do “leitor crítico”, a partir dos 12/13 anos. Os estudiosos também costumam tornar estas fases interdependentes, as quais não podem ser “saltadas”, ou seja, uma se torna base para a outra. Estas divisões, obviamente, não são rígidas e dependem de vários fatores, dentre eles a maturidade cognitiva e emocional da criança e o ambiente no qual ela se insere.

Apesar de entendermos que estas fases têm uma finalidade didática e estruturalista, decidimos abordá-las neste artigo visando a oferecer um panorama que pode ser útil a educadores, professores diversos, bibliotecários e profissionais das ciências da informação.

Diversos estudos sociológicos já discutiram que o leitor infantil passa a ser considerado a partir dos séculos XVII e XVIII, grosso modo. Até então, acreditava-se, na Europa, que a criança era um ser à semelhança de um adulto em miniatura. Suas especificidades de desenvolvimento e maturidade não eram entendidas como hoje. Naqueles tempos, a partir do novo projeto social e econômico, os filhos da classe social que se fortalecera desde o fim de Idade Média – a chamada burguesia – se tornam alvo das preocupações educacionais e, só então, surge a perspectiva de um leitor ainda não adulto, para o qual deveriam desenvolver um mundo de literatura e referências bastante específico.

Foi naquele momento, juntamente com as escolas e com os métodos de ensino, que surgiram os chamados livros para crianças. Inicialmente, tratavam-se de obras adaptadas de livros para adultos ou de “contos populares” (contos de fadas, contos maravilhosos, fábulas, mitos e lendas). Havia os que também eram “encomendados” por instituições a determinados escritores, com o objetivo de ensinar “virtudes” e “comportamentos adequados” às crianças da nova classe dominante. Nascia a chamada literatura infantil que, nos séculos seguintes, cresceria e tomaria um espaço só para si – apesar de, historicamente, ter sido menos valorizada do que a considerada “literatura para adultos”.

Além do progresso social e econômico, as pesquisas na área das ciências humanas também colaboraram para que a leitura, os livros e a infância passassem a receber atenção mais ampla. O desenvolvimento da psicologia infantil contribuiu bastante para a reformulação do entendimento sobre a literatura na infância. Hoje, sabe-se que a leitura não começa e não deve começar somente na fase de alfabetização. Pelo contrário, o contato com os livros é bem-vindo sempre, desde o útero, quando a mãe pode ler em voz alta para o filho.

Os códigos que envolvem o ato de ler e o objeto livro podem ser descobertos muito cedo pela criança, tal a profusão de publicações para todas as faixas etárias e a precocidade com que os filhos de pais de classe média e alta são colocados em escolas maternais. Infelizmente, sabemos que boa parte da população ainda fica à mercê desta realidade.

Para estudiosos como Sigmund FREUD e Jean PIAGET, a base do desenvolvimento afetivo e da interpretação do mundo residiam na primeira e na segunda infância. Portanto, se os três primeiros anos de vida são fundamentais para o futuro do indivíduo, não podemos ignorar, justamente neste período, a extrema importância que os livros terão. O mau leitor pode nascer de experiências desagradáveis ou nulas nesta faixa etária.

A criança pequena e o livro - A criança sente uma curiosidade inata por tudo e, consequentemente, pelos livros. Porém, isso só se efetivará em sua vida se eles estiverem presentes em seu universo: na casa, na escola, nos passeios. O livro deve ser mostrado à criança como um brinquedo especial, como uma forma de descobrir o mundo. Esta abordagem tem se tornado cada vez mais necessária, de modo que vários programas de governo e de ONGs se preocupam em criar espaços em comunidades para que o livro seja acessível. Não apenas presentes, os livros infantis devem estar ao alcance das crianças, a uma altura manuseável por elas, e não no alto das prateleiras.

Leitura para bebês - Desde bebê, a criança pode ter contato com os livros e com a leitura. O ato de decodificar o livro tem relação direta com o desenvolvimento da linguagem oral e escrita, da criatividade imaginativa e artística, do desenvolvimento da sensibilidade para o escutar e o olhar, e com a educação do ato de ler. É evidente que os bebês não entenderão a história, mas uma leitura em voz alta, com o adulto folheando o livro, é essencial para seu desenvolvimento global. Crianças de colo já são capazes de perceber que os adultos falam diferente ao contarem uma história. Elas começam a desconfiar que existe uma maneira de se falar quando se vai contar, pedir, oferecer, zangar. Elas notam que o ritmo e a emoção se alteram quando um personagem passa por uma dificuldade ou chega ao final feliz.

Os bebês também começam a perceber que existem “coisas” dentro dos livros além das imagens. Eles veem uma árvore, um ursinho de pelúcia, mas também percebem coisas que, mais tarde, saberão serem as letras que formam as palavras. Por conseguinte, em uma creche com berçário, as educadoras devem, sim!, ler para os bebês. Devem contar histórias com emoção, devem mostrar as imagens, devem deixar os bebês tocarem, cheirarem, sentirem o livro.

Além dos livros “indestrutíveis” para a hora do banho, para as idas ao parquinho, os educadores devem orientar a manipulação dos livros feita por crianças bem pequenas, deixando-as perceber que existem formas de se chegar ao livro, de estarem com ele, de se despedirem dele.

Como neste artigo, porém, nos interessa mais a criança a partir dos seus 18 meses, vamos abordar, nos parágrafos a seguir, como é a criança entre o 1º e o 6º ano de vida.

Entre 1 e 2 anos de vida – Nesta fase, a criança geralmente já anda sozinha, descobre seu ambiente e expressa seus desejos por gestos e por balbucios, ou mesmo por palavras completas. Ela começa a conquistar uma autonomia que exigirá estímulos, mas também limites. Não poderá subir em todos os lugares, nem comer o que quiser e quando quiser, tampouco derrubar, quebrar ou destruir objetos. As primeiras tentativas de se estabelecer o limite podem desencadear uma reação contrária da criança. É a birra ou pirraça, em que ela comumente costuma se jogar no chão, espernear e começar um choro monótono e, muitas vezes, sem lágrimas.

Como o mundo se abre repentinamente ao alcance de suas mãos – literalmente –, ela não tem paciência para ficar assentada na hora do almoço ou não quer dormir na hora devida. Isso mostra que o contato com os livros, neste momento, sofrerá também reflexos deste comportamento sem concentração. A criança pode manipular rapidamente o livro, para abandoná-lo em seguida e trocá-lo por outra coisa. Contudo, os pais e educadores podem estimular a sua relação com os livros, mostrando que eles têm sempre mais a revelar do que se supõe.

Nesta idade, as brincadeiras ainda são bastante egocêntricas. Quando em grupo, uma criança poderá brincar nas proximidades de outras crianças, mas a sociabilidade ainda é bastante inicial. Meninos e meninas podem até brincar do mesmo jogo ou atividade, mas cada um em seu mundo.

É aqui que surge também o período de imitação: imita-se o adulto, seu comportamento; surge o desejo de brincar de usar roupas e calçados de “gente grande”. Este é um dos termômetros para que se saiba que as maravilhosas portas do faz-de-conta estão abertas. A criança faz de conta que é o pai ou a mãe ao brincar de casinha e bonecas, faz de conta que está falando no celular, faz de conta que está passeando no bosque, faz de conta que está no castelo encantado.

Na primeira infância, o pré-leitor desenvolve sua relação com a leitura e os livros por meio da afetividade e dos sentidos. A responsabilidade do adulto “mediador da leitura” nesta fase é essencial para a forma como a criança se relacionará com os livros no futuro. Esse mediador geralmente é a mãe ou a professora da escola maternal, mas também pode ser o pai, os avós, um arte-educador, um amigo da família ou até mesmo um personagem apresentador de um programa educativo da TV. É este sujeito que mostra o livro à criança e faz com que ela se sinta atraída por este objeto. Desta forma, toda vez que a criança vir um livro, ela vai saber que de dentro sairão histórias. Ela saberá que existem imagens e também a possibilidade de tocá-las e descobri-las. Por isso, defendemos a ideia de que o livro tem de ser apresentado como um brinquedo especial, que tem a característica de desenrolar enredos, de encantar a imaginação e de embalar os sonhos.

Não podemos nos esquecer também que a criança é mais observadora do que pensamos. Com alguns meses de vida, ela já terá visto os adultos manipulando livros de papel e já saberá que tais objetos existem. A maneira como os adultos próximos lidam com os livros fará toda a diferença para a criança – que aprende muito pela imitação. Uma casa sem livros com certeza não será um bom exemplo em um lar em que se deseje filhos criativos e leitores felizes.

A manipulação do livro pela criança de até 3 anos - Até os três anos, a criança pega o livro de uma maneira mais bruta, sem muita coordenação motora e, quanto mais nova, mais levará aquele objeto à boca, como faz com qualquer outro. A influência da fase oral em seu desenvolvimento ainda determina parte desta atitude. Por isso, os livros que são deixados à manipulação da criança costumam ser de material não-rasgável, como livros emborrachados e de material plástico ou pano. Além de levá-los à boca e correr o risco de ingerir pedaços de papel com tinta, a criança costuma rasgar os livros feitos de papel.

Entre 3 e 5/6 anos de vida – Este é, em geral, um período de mais calmaria para os pais e educadores. A sociabilidade está em progresso e a criança depende menos dos seus responsáveis. A agitação do “pega tudo e derruba tudo” passou. O entendimento do uso de símbolos e de conceitos como idade, espaço, tempo, certo e errado, já se aprimora. Este é um período de compreensão muito maniqueísta do mundo, em que as situações, pessoas e bichos são vistos como totalmente bons ou totalmente ruins – não há meio termo. Nos contos de fadas, a fada é sempre boa, enquanto a bruxa é sempre malvada. O sapo é sempre feio, a não ser quando se transforma em príncipe. O lobo e a cobra são sempre perigosos. A criança não entende, neste período, que os personagens – assim como as pessoas e ela mesma – às vezes são legais, às vezes não, às vezes querem ajudar, às vezes não, e que atributos como a beleza e a feiura podem ser relativos e ter fundamentos culturais...

Nesta idade, a criança está completamente dentro de seu mundo mágico. É a doce fase da infância em que acreditamos em Papai Noel, em duendes, em fadinhas e em bicho-papão de uma forma mais imaginativa. Aqui também costumam aparecer amigos imaginários, pois a realidade e a fantasia frequentemente se confundem.

A manipulação do livro pela criança de 3 a 5/6 anos - Na segunda infância, a musculatura fina começa a amadurecer. A criança tem mais entendimento do que é o livro, de que não deve rasgá-lo e de que ele continuará à disposição sempre que desejá-lo. A linguagem e a sociabilidade estão mais aprimoradas e as rodas de leitura costumam ser uma excelente atividade.

Como são os livros voltados à primeira infância – Até os três anos de idade, a criança não deveria manusear livros de papel sozinha para não se ferir ou mesmo intoxicar. Quanto à temática, livros para esta faixa etária praticamente não têm texto escrito. Eles são imagéticos e versam em torno de situações comuns ao universo da criança: a hora do banho, a papinha, o brinquedo, o gatinho, a família... Junto aos enredos simples, o adulto deve levar à criança o sentimento que envolve cada imagem ou situação. As gravuras costumam ser grandes, com poucos elementos.

Como são os livros voltados à segunda infância – Nesta idade, a compreensão da criança está mais aprimorada e os enredos podem ser mais ricos e longos. A famosa “reiteração” ou “repetição” faz parte deste momento, quando a criança pede ao contador para repetir (quantas vezes ela sentir necessário) uma mesma história ou a exibição de um mesmo filme. O adulto não deve se preocupar com isso. Esta demanda por repetições faz parte da construção interna do mundo da criança. Ela se sente segura ao ouvir uma história cujos momentos principais já conhece de cor e salteado (o conhecido “conte outra vez”...). É aqui que a criança também entende melhor a estrutura narrativa: as histórias têm um início, um meio e um fim. O fim, nesta idade, quase sempre é positivo e estimulante. É o “e viveram felizes para sempre” e similares.

Os livros manuseados pelas crianças, porém, ainda devem ter o predomínio da imagem sobre a grafia, mas as gravuras já costumam ter mais elementos do que as da fase anterior.

Como esta é a idade dos porquês, a criança vai fazer muitas perguntas em torno de uma história e o adulto deve estar preparado para dar as respostas conforme for conveniente.

Nesta fase, a criança assimila muitos valores simbólicos que existem nas histórias. O adulto não deve se preocupar de forma alguma com aquilo que ele considera “violento” ou “agressivo” em um conto de fadas, por exemplo. A criança não será violentada ou agredida ao ouvir a história de um lobo que engole uma vovozinha. Isso é perfeitamente assimilável em seu mundo de faz-de-conta. Pelo contrário, a criança precisa da compreensão dessa “violência simbólica” para se fortalecer emocionalmente. Ela entende, à sua maneira, todos os elementos que existem em uma narrativa, vivenciando a morte, a dor, a separação, mas também a conquista, o amor e a amizade nas mais diferentes histórias.

Crianças de 3 a 6 anos respondem muito bem à “hora do conto”, que deve ser criada na escola ou em casa. Uma criança que ouve uma história antes de dormir tem o carinho e a socialização dos pais junto a um sono melhor e mais produtivo.

Conclusão – O ato de ler é algo que se educa. Assim como se educa o ato de se apreciar um quadro ou uma escultura dentro de um museu, ou mesmo as árvores de um jardim, educa-se a maneira de ler, a forma de se lidar com o livro. Educa-se, sobretudo, pela interferência do adulto e por seus exemplos na fase que é, para a criança, como já enfatizei, uma fase muitíssimo importante. Diríamos mesmo decisiva, pois a maneira como a criança entenderá o livro e as histórias, neste período, irá acompanhá-la pelo resto de sua vida.

Notas

1 - No século XIX, a teoria da evolução de Charles DARWIN teve reflexos em várias áreas, dentre elas a do desenvolvimento infantil. Inicialmente, o foco estava nas formas de a criança se adaptar ao ambiente e na influência das heranças dos pais em seu comportamento. Só em 1916 é que Lewis TERMAN criou o teste que passou a ser chamado “teste de Stanford–Binet”, voltado ao desenvolvimento intelectual infantil. Nos anos 20, Arnold GESELL estudou o comportamento infantil filmando o comportamento de crianças de diversas faixas etárias. Foi quando surgiram as primeiras abordagens do desenvolvimento intelectual, dividindo-o em etapas, como já tinham feito em relação ao desenvolvimento do corpo físico. Muitas contribuições ao entendimento da infância surgiram depois com renomados psicanalistas e filósofos, como Melanie KLEIN, Donald Woods WINNICOTT, Jacques LACAN, Gilles DELEUZE e Jacques DERRIDA, por exemplo. Alguns contribuíram de forma mais direta, outros, de forma mais indireta.

Adriano Messias - Escritor, tradutor e adaptador. Fez graduação em letras, jornalismo e concluiu mestrado em comunicação. Dentre seus livros voltados para crianças e jovens, estão: A Vaca Fotógrafa (Positivo), Que bicho está no verso? (Positivo), Telefante sem fio (Positivo); Histórias mal-assombradas em volta do fogão de lenha; Histórias mal-assombradas do tempo da escravidão, Histórias mal-assombradas de um espírito da floresta, Histórias mal-assombradas do Caminho Velho de São Paulo (Biruta), O Elefante Infante (da obra de Rudyard Kipling) (Musa), Antes de Colombo chegar/ Antes de la llegada de Colón (Alis), Minha tia faz doce no tacho (Cuca Fresca), 20 Histórias de Bichos do Brasil (Cuca Fresca), O mestre cuca fresca: receitas divertidas para gente feliz (Cuca Fresca). Contatos com o autor podem ser feitos pelo email: adrianoescritor@yahoo.com.br

Fonte: Blog do Autor: http://adrianomessiasescritor.blogspot.com/

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Educar é contar histórias

17/06/2009 Veja

Texto: Claudio de Moura Castro

Bons professores eletrizam seus alunos com narrativas interessantes ou curiosas, carregando nas costas as lições que querem ensinar

De que servem todos os conhecimentos do mundo, se não somos capazes de transmiti-los aos nossos alunos? A ciência e a arte de ensinar são ingredientes críticos no ensino, constituindo-se em processos chamados de pedagogia ou didática. Mas esses nomes ficaram poluídos por ideologias e ruídos semânticos. Perguntemos quem foram os grandes educadores da história. A maioria dos nomes decantados pelos nossos gurus faz apenas "pedagogia de astronauta". Do espaço sideral, apontam seus telescópios para a sala de aula. Pouco enxergam, pouco ensinam que sirva aqui na terra.


Tenho meus candidatos. Chamam-se Jesus Cristo e Walt Disney. Eles pareciam saber que educar é contar histórias. Esse é o verdadeiro ensino contextualizado, que galvaniza o imaginário dos discípulos fazendo-os viver o enredo e prestar atenção às palavras da narrativa. Dentro da história, suavemente, enleiam-se as mensagens. Jesus e seus discípulos mudaram as crenças de meio mundo. Narraram parábolas que culminavam com uma mensagem moral ou de fé. Walt Disney foi o maior contador de histórias do século XX. Inovou em todos os azimutes. Inventou o desenho animado, deu vida às histórias em quadrinhos, fez filmes de aventura e criou os parques temáticos, com seus autômatos e simulações digitais. Em tudo enfiava uma mensagem. Não precisamos concordar com elas (e, aliás, tendemos a não concordar). Mas precisamos aprender as suas técnicas de narrativa.

Há alguns anos, professores americanos de inglês se reuniram para carpir as suas mágoas: apesar dos esplêndidos livros disponíveis, os alunos se recusavam a ler. Poucas semanas depois, foi lançado um dos volumes de Harry Potter, vendendo 9 milhões de exemplares, 24 horas após o lançamento! Se os alunos leem J.K. Rowling e não gostam de outros, é porque estes são chatos. Em um gesto de realismo, muitos professores passaram a usar Harry Potter para ensinar até física. De fato, educar é contar histórias. Bons professores estão sempre eletrizando seus alunos com narrativas interessantes ou curiosas, carregando nas costas as lições que querem ensinar. É preciso ignorar as teorias intergalácticas dos "pedagogos astronautas" e aprender com Jesus, Esopo, Disney, Monteiro Lobato e J.K. Row-ling. Eles é que sabem.

Poucos estudantes absorvem as abstrações, quando apresentadas a sangue-frio: "Seja X a largura de um retângulo...". De fato, não se aprende matemática sem contextualização em exemplos concretos. Mas o professor pode entrar na sala de aula e propor a seus alunos: "Vamos construir um novo quadro-negro. De quantos metros quadrados de compensado precisaremos? E de quantos metros lineares de moldura?". Aí está a narrativa para ensinar áreas e perímetros. Abundante pesquisa mostra que a maioria dos alunos só aprende quando o assunto é contextualizado. Quando falamos em analogias e metáforas, estamos explorando o mesmo filão. Histórias e casos reais ou imaginários podem ser usados na aula. Para quem vê uma equação pela primeira vez, compará-la a uma gangorra pode ser a melhor porta de entrada. Encontrando pela primeira vez a eletricidade, podemos falar de um cano com água. A pressão da coluna de água é a voltagem. O diâmetro do cano ilustra a amperagem, pois em um cano "grosso" flui mais água. Aprendidos esses conceitos básicos, tais analogias podem ser abandonadas.

É preciso garimpar as boas narrativas que permitam empacotar habilmente a mensagem. Um dos maiores absurdos da doutrina pedagógica vigente é mandar o professor "construir sua própria aula", em vez de selecionar as ideias que deram certo alhures. É irrealista e injusto querer que o professor seja um autor como Monteiro Lobato ou J.K. Rowling. É preciso oferecer a ele as melhores ferramentas - até que apareçam outras mais eficazes. Melhor ainda é fornecer isso tudo já articulado e sequenciado. Plágio? Lembremo-nos do que disse Picasso: "O bom artista copia, o grande artista rouba ideias". Se um dos maiores pintores do século XX achava isso, por que os professores não podem copiar? Preparar aulas é buscar as boas narrativas, exemplos e exercícios interessantes, reinterpretando e ajustando (é aí que entra a criatividade). Se "colando" dos melhores materiais disponíveis ele conseguir fazer brilhar os olhinhos de seus alunos, já merecerá todos os aplausos.

Fonte: Veja

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Educar é contar histórias

Texto
Claudio de Moura Castro

Bons professores eletrizam seus alunos com narrativas interessantes ou curiosas, carregando nas costas as lições que querem ensinar

De que servem todos os conhecimentos do mundo, se não somos capazes de transmiti-los aos nossos alunos? A ciência e a arte de ensinar são ingredientes críticos no ensino, constituindo-se em processos chamados de pedagogia ou didática. Mas esses nomes ficaram poluídos por ideologias e ruídos semânticos. Perguntemos quem foram os grandes educadores da história. A maioria dos nomes decantados pelos nossos gurus faz apenas "pedagogia de astronauta". Do espaço sideral, apontam seus telescópios para a sala de aula. Pouco enxergam, pouco ensinam que sirva aqui na terra.

Tenho meus candidatos. Chamam-se Jesus Cristo e Walt Disney. Eles pareciam saber que educar é contar histórias. Esse é o verdadeiro ensino contextualizado, que galvaniza o imaginário dos discípulos fazendo-os viver o enredo e prestar atenção às palavras da narrativa. Dentro da história, suavemente, enleiam-se as mensagens. Jesus e seus discípulos mudaram as crenças de meio mundo. Narraram parábolas que culminavam com uma mensagem moral ou de fé. Walt Disney foi o maior contador de histórias do século XX. Inovou em todos os azimutes. Inventou o desenho animado, deu vida às histórias em quadrinhos, fez filmes de aventura e criou os parques temáticos, com seus autômatos e simulações digitais. Em tudo enfiava uma mensagem. Não precisamos concordar com elas (e, aliás, tendemos a não concordar). Mas precisamos aprender as suas técnicas de narrativa.

Há alguns anos, professores americanos de inglês se reuniram para carpir as suas mágoas: apesar dos esplêndidos livros disponíveis, os alunos se recusavam a ler. Poucas semanas depois, foi lançado um dos volumes de Harry Potter, vendendo 9 milhões de exemplares, 24 horas após o lançamento! Se os alunos leem J.K. Rowling e não gostam de outros, é porque estes são chatos. Em um gesto de realismo, muitos professores passaram a usar Harry Potter para ensinar até física. De fato, educar é contar histórias. Bons professores estão sempre eletrizando seus alunos com narrativas interessantes ou curiosas, carregando nas costas as lições que querem ensinar. É preciso ignorar as teorias intergalácticas dos "pedagogos astronautas" e aprender com Jesus, Esopo, Disney, Monteiro Lobato e J.K. Row-ling. Eles é que sabem.

Poucos estudantes absorvem as abstrações, quando apresentadas a sangue-frio: "Seja X a largura de um retângulo...". De fato, não se aprende matemática sem contextualização em exemplos concretos. Mas o professor pode entrar na sala de aula e propor a seus alunos: "Vamos construir um novo quadro-negro. De quantos metros quadrados de compensado precisaremos? E de quantos metros lineares de moldura?". Aí está a narrativa para ensinar áreas e perímetros. Abundante pesquisa mostra que a maioria dos alunos só aprende quando o assunto é contextualizado. Quando falamos em analogias e metáforas, estamos explorando o mesmo filão. Histórias e casos reais ou imaginários podem ser usados na aula. Para quem vê uma equação pela primeira vez, compará-la a uma gangorra pode ser a melhor porta de entrada. Encontrando pela primeira vez a eletricidade, podemos falar de um cano com água. A pressão da coluna de água é a voltagem. O diâmetro do cano ilustra a amperagem, pois em um cano "grosso" flui mais água. Aprendidos esses conceitos básicos, tais analogias podem ser abandonadas.

É preciso garimpar as boas narrativas que permitam empacotar habilmente a mensagem. Um dos maiores absurdos da doutrina pedagógica vigente é mandar o professor "construir sua própria aula", em vez de selecionar as ideias que deram certo alhures. É irrealista e injusto querer que o professor seja um autor como Monteiro Lobato ou J.K. Rowling. É preciso oferecer a ele as melhores ferramentas - até que apareçam outras mais eficazes. Melhor ainda é fornecer isso tudo já articulado e sequenciado. Plágio? Lembremo-nos do que disse Picasso: "O bom artista copia, o grande artista rouba ideias". Se um dos maiores pintores do século XX achava isso, por que os professores não podem copiar? Preparar aulas é buscar as boas narrativas, exemplos e exercícios interessantes, reinterpretando e ajustando (é aí que entra a criatividade). Se "colando" dos melhores materiais disponíveis ele conseguir fazer brilhar os olhinhos de seus alunos, já merecerá todos os aplausos.

Fonte: Veja