Mostrando postagens com marcador criança. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador criança. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Como a biblioteca ajuda na formação de jovens leitores

 A leitura para as crianças é importante para formar adultos leitores, com mais facilidade para escrever e se comunicar. Quase todos os brasileiros concordam com isso

Foto: Cintia Sanchez / Divulgação


A leitura para as crianças é importante para formar adultos leitores, com mais facilidade para escrever e se comunicar. Quase todos os brasileiros concordam com isso, mas apenas 37% costuma ler para as crianças, segundo pesquisa realizada pela Fundação Itaú em parceria com o Datafolha. Uma visita à biblioteca pode ajudar a mudar essa realidade.

Na biblioteca, há muito mais variedade de obras, além de espaços especiais para realizar a leitura. Para as crianças, ter o hábito de frequentar uma biblioteca, além de trazer grande aprendizado, pode ser uma grande diversão.

No entanto, essa também não é uma realidade no Brasil. Na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, encomendada pelo Instituto Pró-Livro, 67% dos entrevistados declararam a existência de uma biblioteca pública no bairro ou na cidade em que moram e, entre esses, 71% a classificaram como de "fácil acesso", porém apenas 24% afirmaram frequentá-las e somente 12% costumam ler em bibliotecas. Uma possível explicação para essa "impopularidade" das bibliotecas está na representação desses espaços no imaginário da população. A maioria as associa a lugares para estudar (71%) ou pesquisar (61%). Poucos veem as bibliotecas como espaços de lazer (12%) ou para passar o tempo (10%). Um outro dado que chama a atenção é que 33% afirmaram que "nada" os faria frequentar uma biblioteca.

Para falar sobre a importância e as possibilidades das bibliotecas, conversamos com Maria Antonieta Cunha, diretora do Livro, da Leitura, da Literatura e das Bibliotecas da Biblioteca Nacional, e Marcos Afonso Pontes de Souza, diretor da Biblioteca da Floresta, uma biblioteca especializada em assuntos e autores da Amazônia e do Acre, criada pelo Governo do Estado do Acre.

A função da biblioteca: O objetivo de uma biblioteca é colocar à disposição dos usuários materiais do seu interesse, mas foi-se o tempo em que as bibliotecas eram lugares chatos e empoeirados. "A biblioteca é extremamente dinâmica e progride cada vez mais com o desenvolvimento da própria ideia da ciência da informação", diz Maria Antonieta. "Em uma biblioteca, coexistem, por exemplo, o computador, a internet e outras artes que estabelecem um diálogo importante com a literatura para a formação da cabeça do cidadão".

A biblioteca não pode ser vista apenas como um lugar de consulta e pesquisa para complementar o currículo da escola.

Formando leitores: Para aproximar a população dos livros, a biblioteca não deve se limitar a suas quatro paredes. "Dá para criar uma série de atividades seja na empresa, na escola, na praça pública ou no presídio e aí a biblioteca estará cumprindo o seu papel que é ajudar a formar cidadãos leitores", explica Maria Antonieta. Para a diretora, a biblioteca cria leitores ao desenvolver neles o gosto pelo conhecimento e o gosto pela literatura e artes em geral. No entanto, no geral, as bibliotecas não estão preparadas para isso. "Os bibliotecários e os espaços que nós temos, muitas vezes, não facilitam essa ação", diz.

A biblioteca e as crianças: As crianças estão sempre em busca de conhecimento. Por isso, a biblioteca é o lugar ideal para os pequenos. Algumas bibliotecas têm atividades especiais para as crianças. A Biblioteca da Floresta, por exemplo, desenvolveu uma série de atividades na Semana da Criança, como contações de histórias e fantoches, jogos online educativos e jogos de tabuleiros, cantigas de roda e piquenique.

Fazer rodas de leitura, trazer autores de livros, inventar histórias ou até mesmo deixar a criança se movimentar livre para a biblioteca são bons exemplos de atividades, segundo Maria Antonieta. "Fazendo da biblioteca um espaço não só de leitura, mas de criação, nós conseguimos fazer a criança se interessar tanto pelo espaço da biblioteca quanto pela leitura, que é o objetivo maior", explica.

Como aproveitar a biblioteca: São os adultos, professores e pais, que despertam o interesse da criança pela biblioteca. No entanto, ir à biblioteca não deve ser um castigo ou uma obrigação. "É preciso fazer uma visita não burocrática, mas de sensibilização do espaço", diz Marcos Afonso. Para Maria Antonieta, "a biblioteca deve ser apresentada como um espaço de escolha de leituras. É um lugar para desvendar um mundo".

Pensando na comunidade: A biblioteca deve atender a comunidade. Nesse sentido, a Biblioteca da Floresta é inovadora por ser temática. O acervo é voltado para a história da região, com material sobre os índios, os seringueiros, a floresta e a trajetória da luta socioambiental da Amazônia. Maria Antonieta explica que algumas bibliotecas estão inseridas em espaços onde é importante ter essa especificidade, como é o caso de Rio Branco. "Conforme a localização e o interessa da comunidade, deve haver sim uma linha dentro do arquivo que contemple o tema que é uma grande demanda daquela comunidade". Porém, mesmo nas bibliotecas temáticas, é importante que o acervo também seja variado, para atrair e conquistar novos leitores.

domingo, 21 de outubro de 2012

5 dicas para despertar o desejo de ler nas crianças

Matéria publicada em 23/04/2012

Hoje, 2 de Abril, é comemorado o "Dia Mundial do Livro Infantil". Esta data foi escolhida como forma de homenagear um dos maiores ícones deste categoria, o autor dinamarquês, Hans Christian Andersen, que nasceu neste dia no ano de 1805. Andersen, dentre outros clássicos, escreveu "O Patinho Feio", "A Pequena Sereia" e "O Pequeno Soldadinho de Chumbo". Aproveitando a data e atendendo ao pedido da leitora da nossa Fan Page, Fátima Carvalho, vamos dar 5 dicas para lhe ajudar a despertar o desejo de ler no seu filho e nas crianças em geral.
"Antes de continuar lendo a postagem, siga O Vendedor de Livros no Twitter e curta nossa Fan Page no Facebook, e mantenha-se informado e atualizado sobre o que de melhor acontece no Mundo Literário". 
Não sei se sabem, mas os livros destinados a crianças e adolescentes, em volume de vendas, era o segundo nicho editorial mais vendido no Brasil, só perdia para as obras didáticas adquiridas pelo governo. Hoje, segundo pesquisas, caiu para terceiro, pois também foi ultrapassado pelos livros de auto-ajuda.

Independente da posição, os livros infantis sempre foram muito bem vendidos, muitas editoras aproveitaram o momento e criaram selos e equipes específicas para atenderem esta demanda que cresce ano-a-ano.

Mesmo vendendo milhões de livros por ano, os livros infantis ainda estão longe de fazerem parte da realidade de muitas crianças Brasil a fora. Os principais responsáveis (tirando o governo, que não investe em políticas para propagar e divulgar os benefícios da leitura no Brasil) são os pais e educadores, que por negligência, falta de interesse e preparo ou talvez por não acharem importante o ato de ler, podam seus filhos e alunos deste prazer e oportunidade de terem acesso a um Universo, até então, desconhecido. 

Mas tem o outro lado da moeda, existem aqueles pais e professores que gostariam que suas crianças lessem, mas não sabem como fazerem isso. Se você se enquadra nesta categoria, leia abaixo estas 5 dicas, tenho certeza que vão lhe ajudar:

1 - Ler histórias: na minha opinião, esta é a dica principal, pois você começa pelo exemplo (a criança ver você lendo) e interação que o ato de ler gera nas outras pessoas, pois possibilita, além da leitura, a dramatização da história com mímicas, diferentes entonações na voz, desenhos, ilustrações, e tudo isso, com a participação da criança;

2 - Criar um ambiente: compre livros, pode ser até aqueles de pintar, e espalhe pelo quarto dela ou no espaço onde ela costuma brincar, faça com que os livros comecem a fazer parte do dia-a-dia do seu filho;

3 - Respeite o gosto dela: não force nada, deixe as coisas acontecerem naturalmente e com o tempo. Tente perceber aqueles livros, histórias e personagens que mais chamam a atenção deles, e a partir daí, direcione o interesse dos seus filhos ou alunos para estes livros, a chance deles gostarem é bem maior;

4 - Frequente livrarias e bibliotecas: como você quer que seu filho se torne um leitor, se você não o chama para ir a uma livraria ou biblioteca contigo. Crie este hábito, se ele disser não, que não está afim, insista um pouco, porém sem ser agressivo. Fale que lá tem um espaço só para "gente da idade dele" (a maioria das livrarias o possuem), repleto de brinquedos, livros e outras crianças para ele brincar e ler junto;


5 - Associe a leitura com brincadeiras: sempre que for ler para seus filhos, pegue também bonecos, carrinhos, bichos de pelúcia e outros materiais, e crie encenações das histórias. Escolha um personagem e faça-o escolher outro (caso ele já saiba ler), e juntos, encenem a drama, criando assim um pequeno teatro da narrativa. Existem outras ideias, tais como: promover jogos, leituras em voz alta, rodas de leitura, e aquilo que a sua imaginação quiser fazer, para brincar e aprender, não há limites. Lembre-se que os brinquedos e as atividades lúdicas fazem parte da vida e mundo das crianças.

Creio que com estas 5 iniciativas, já será possível conseguirmos plantar a "semente" do desejo e interesse nos livros e leitura dentro do coraçãozinho dos nossos pequenos. Tudo vai depender de como estas dicas serão aplicadas, e principalmente da proatividade dos pais em monitorar, acompanhar e encorajarem seus filhos conforme a evolução e desenvolvimento de cada um. Só lembrando que, dica não é regra e muito menos lei, portanto, adapte-as de acordo com a sua necessidade, condição e ambiente.  Você, e principalmente seu filho, só tem a ganhar.
Ah, e se você quiser algumas indicações, estou às ordens.

Amigo leitor, o que você achou destas ideias, já pratica alguma delas com seu filho, tem alguma outra que você tentou e deu certo? 

Deixe um comentário e compartilhe as suas experiências e opiniões conosco, elas são muito importantes para mim.

Um abraço e boas leituras!

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Há uma princesa preocupada com a iliteracia

Matéria públicada em 15/10/2012

Rita Pimenta
 
Um em cada cinco europeus tem dificuldade em ler o mundo. Frase escolhida para título de um relatório sobre literacia na União Europeia. E a princesa Laurentien da Holanda, que liderou os peritos, não se conforma. "É preciso agir já", diz. Os europeus de que se fala têm 15 anos.

Ler e escrever "não são apenas competências técnicas", são "a chave para os cidadãos sentirem que fazem parte da sociedade", diz Laurentien van Orange



Na Holanda, 10 por cento da população têm problemas de iliteracia funcional. Isto é, baixo desempenho na leitura e na escrita, o que impede uma participação activa na sociedade. "Não se esperaria este tipo de problemas num país como a Holanda, pois não?", diz a princesa Laurentien, que veio a Lisboa para a VI Conferência Internacional do Plano Nacional de Leitura.

Empenhada em provar que a iliteracia não é "um exclusivo dos países em desenvolvimento", Laurentien van Oranje diz que "a Europa precisa de acordar para este problema". Por isso, dirigiu o Grupo de Peritos de Alto Nível sobre Literacia da Comissão Europeia que fez o relatório. Um em cada cinco europeus tem dificuldade em ler o mundo (publicado em Setembro) e apresentou-o no final da semana passada aos ministros da Educação da UE, no Chipre.

Antes, em Portugal, teve oportunidade de o mostrar a Nuno Crato e, durante a sua comunicação na Gulbenkian, acabou por provocar risos na plateia ao sugerir ao ministro da Educação: "Diga ao seu colega das Finanças que investir na literacia compensa. Falem disso quando forem de férias juntos." Isto porque a princesa Laurentien acredita que, "mobilizando os diferentes ministros para o assunto e pondo a literacia no centro de todas as políticas, o problema se resolverá mais facilmente".

Lembra que "é a primeira vez que a literacia é analisada a nível europeu desta forma e que a Europa tem muitas políticas segmentadas que, por não contemplarem a questão, não vão conseguir alcançar os objectivos". E dá ao PÚBLICO dois exemplos: o combate à pobreza ("se não se tiver competência para ler e escrever, torna-se quase impossível sair da sua espiral") e o investimento no digital ("não haverá pessoas conectadas se não souberem ler bem nem escrever"). Reforça a ideia de que este relatório é "um sinal de alerta". Ou seja: "Acordai." Segundo Laurentien, temos de encontrar caminhos para chegar a estas pessoas e descobrir o que precisam. Depois, há que insistir em argumentos adequados para as convencer a superarem-se e a colaborarem no seu próprio crescimento.

Mas os governos desejam mesmo uma população informada e exigente? "Todos os discursos dizem: 'Queremos uma Europa competitiva e inovadora'. Não podemos consegui-lo sem ser com base no conhecimento, no saber", disse ao PÚBLICO na véspera da conferência. "Nós falámos com os diferentes países da União e todos nos revelaram que não se tinham apercebido da importância da literacia. Há dez anos que trabalho sobre o assunto e foi muito difícil pô-lo na agenda política. Na Holanda, já conseguimos. Tem de ser passo a passo."

Mesmo quando os governos estão obcecados com o défice, o PIB, as dívidas? "Temos de fazer com que entendam que a ideia não é investir em política social 'em vez de' na literacia ou em políticas educativas 'em vez de' na literacia. A literacia é um componente de todas as áreas e tem de atravessar as diferentes políticas." Empresas, empregadores e outros actores sociais ficarão a ganhar: "Os empregadores ficarão com trabalhadores mais motivados, mais saudáveis, que faltam menos e são mais atentos à segurança. Sabemos que é assim. E precisamos de conquistar as empresas para a causa da literacia. Continua a ser o dinheiro a mover o mundo".

A influência de Laurentien multiplica-se em diversas actividades e instituições. Em 2004, criou a Fundação Ler e Escrever dos Países Baixos. Em 2009, tornou-se enviada especial da UNESCO da Literacia para o Desenvolvimento e foi patrona de Amesterdão Capital Mundial do Livro. É também presidente da Fundação Cultural Europeia e deu "uma grande ajuda no início do Plano Nacional de Leitura" português, lembrou Isabel Alçada, a primeira comissária, substituída entretanto por Fernando Pinto do Amaral.

Mas o que faz uma princesa empenhar-se tanto no combate à iliteracia? "Eu não mudei por me ter tornado princesa, por me ter casado com um príncipe [príncipe Constantino]. Sou a mesma pessoa que era antes, só que tenho mais responsabilidade. A de ser figura pública."

Laurentien, com apelido de solteira Brinkhorst, é formada em Ciências Políticas pela Universidade de Londres, fez mestrado em Jornalismo na Universidade da Califórnia e trabalhou na CNN.

Uma experiência pessoal dura, de "isolamento" e "exclusão", na juventude terá ampliado a sua sensibilidade para situações semelhantes às que sentem as pessoas "que não sabem ler o mundo". Foi assim: "Quando tinha 16 anos, fui para o Japão com os meus pais. Saí de um sistema holandês para um sistema francês e não sabia pronunciar uma única palavra. Foi muito difícil não conseguir comunicar com os meus colegas na escola, que também não estavam muito interessados em entender-me. Senti-me muito isolada. Não tive pena de mim própria, mas foi uma experiência muito forte."

A partir de então, fez tudo o que podia para que "toda a gente se sentisse incluída". E agora pode mais. "O desconhecimento de uma língua leva uma pessoa a sentir-se muito só e infeliz. O mesmo se passa com quem não sabe ler ou lê mal. Tem vergonha, esconde-se, torna-se insegura e desconfiada. Não quero isso para ninguém."

Ler pode ser uma chave

Outra história pessoal: "Alguém muito próximo de mim admitiu, há dois anos, que não conseguia ler em condições. Sentia-se tão triste que, ao revelá-lo, se desfez em lágrimas. Eu conheço-a há anos e nunca desconfiei."

A princesa Laurentien não tem dúvidas de que "ler e escrever não são apenas competências técnicas que se aprendem e pronto", são "a chave para os cidadãos sentirem que fazem parte da sociedade". Por isso continua a empenhar-se tanto. "Se de alguma forma conseguirmos passar-lhes o sentimento de que realmente importam, a sua confiança aumentará e passarão a acreditar que é possível. É isso que quero para toda a gente. Confiança e capacidade de acreditar. Mesmo do ponto de vista estratégico e político, fazem-se imensos progressos assim."

Mas não será fácil convencer um miúdo de que ler e escrever é importante e que o conhecimento é precioso quando este vê a profissão dos pais, professores ou jornalistas, por exemplo, ser completamente desvalorizada. "O que se pode dizer a esse miúdo é que, queira ele ser bombeiro, operário numa fábrica ou ter qualquer outra profissão, será sempre mais fácil conseguilo se dominar a palavra escrita. Tenho consciência da situação difícil que se atravessa, mas não podemos desistir. No momento em que começarmos a desistir da educação, estamos perdidos. A palavra escrita é central nas sociedades actuais."

Olhar a literacia a partir do berço é o caminho e já se sabe que se deve começar logo por aí. Mas há equívocos. "Os programas de leitura dirigem-se quase sempre para as crianças e no pressuposto de que haverá um adulto que lhes irá ler uma história ao deitar, por exemplo. No entanto, muitas vezes há uma percentagem elevada de adultos que não conseguem ler para as crianças. E o programa vai por água abaixo", conclui.

A justificação para a Europa se ter deixado chegar a estes níveis "inesperados" de iliteracia encontra-a na excessiva confiança que se depositou nos sistemas: "Nós pensámos que, tendo tudo a funcionar, como o acesso alargado à educação, os infantários, as creches, as escolas, os professores qualificados, o trabalho estava feito. Mas enganámo-nos." Uma série de aspectos importantes foram ignorados: "Não pensámos em qualidade, não pensámos no que fazer com culturas diferentes. Tomámos tudo por garantido. E criámos um tabu: as pessoas que começaram a ter estes problemas não falavam disso. Pensavam que eram as únicas e foram-se escondendo. Temos de acordar a Europa e derrubar esse tabu."

O poder das crianças

A terminar o encontro com o PÚBLICO, a princesa Laurentien da Holanda quer falar sobre o seu livro para crianças Mr. Finney e o Mundo de Pernas para o Ar (ilustração de Sieb Posthuma, edição da Esfera do Caos). E falou. "Se me tivesse perguntado o que espero do papel de Mr. Finney em Portugal, ter-lheia dito que espero que motive as crianças a conversar sobre problemas ambientais com os pais. Acredito no poder do discurso das crianças, é muito coerente e eficaz. Elas vão obrigar os pais a verem-se ao espelho e a questionarem-se."

Também quer levar este diálogo para as escolas, por isso visitou a Escola Francisco Arruda, em Lisboa. "Não se pode ensinar apenas como funciona a Natureza. Mr. Finney questiona mais do que explica." Conta ainda que fez um pacto com os alunos que conheceu. "Pedi-lhes que, da próxima vez que vissem lixo no chão, o apanhassem. Selámos o acordo com um aperto de mão. E eles comprometeram-se a cumpri-lo."

Nuno Crato também se comprometeu a, nas próximas férias, mostrar o relatório a Vítor Gaspar.

Fonte: Jornal "Público"

Ler ajuda a criança a entender o mundo; conheça maneiras de incentivar seu filho

Simone Sayegh
Do UOL, em São Paulo

 Ler para seu filho que ainda não se alfabetizou
fará com que ele tome gosto pela leitura

O livro infantil, antigamente limitado a raras e pouco atraentes edições, tem ganhado cada vez mais espaço nas grandes livrarias. Os lançamentos se multiplicam e as publicações tornam-se cada vez mais sofisticadas. Livro infantil virou até presente de aniversário, coisa impensada há 30 anos, quando muitas crianças só tinham acesso às histórias na escola.

Apenas uma coisa não mudou nesses anos todos: a importância da leitura na formação da criança.  De acordo com a pedagoga Clélia Cortez, orientadora da educação infantil da Escola Vera Cruz, de São Paulo, e coordenadora do programa Formar em Rede, do Instituto Avisa Lá (ONG de formação continuada de educadores), independentemente da época, os livros inserem as crianças pequenas em um mundo de sentidos e de significados que permite a ampliação e a construção da cultura. 

Dicas para formar leitores
  • Sempre que possível leia para seus filhos: mesmo crianças pequenas podem participar de situações de leitura;
  • Evite comprar o livro pela beleza da edição. Invista na escolha de narrativas que tragam questões que ajudem a lidar com sentimentos e ampliem a relação com a cultura;
  • Descubra se a escola do seu filho considera a leitura uma modalidade de ensino e procure colaborar  com as práticas de leitura desenvolvidas lá;
  • Crie o hábito de levar os filhos, desde pequenos, para passearem em livrarias;
  • Leve as crianças a eventos de contação de histórias;
  • Não restrinja as escolhas de títulos ao sexo do seu filho. Meninos e meninas podem ler os mesmos livros.
“As boas narrativas podem ajudar as crianças a pensarem muito sobre si mesmas e sobre os outros. É um ponto de encontro com a expressão humana”, afirma Clélia. Segundo a pedagoga, os valores surgem nas relações que as próprias crianças estabelecem entre essas histórias, sua cultura, casa e escola. 
 
De acordo com a psicóloga Débora Rana, coordenadora pedagógica da escola socioconstrutivista Projeto Vida, e também formadora do Instituto Avisa lá, a criança precisa ter o material escrito à disposição, assim como tem brinquedos, para entrar em contato sempre que desejar.

Os pais devem proporcionar opções de leitura variadas e evitar divisões por gênero. Assim como não existe brinquedo de menino e de menina, não existe livro para um sexo ou outro. Não ofereça à sua filha apenas histórias de princesas e a seu filho só as de piratas. “Crianças que só leem o mesmo tipo de livro acabam ficando sem repertório”, fala Débora. A variedade de assuntos contribui para o crescimento da rede de relações da criança e para o entendimento de seu próprio mundo.

Dentre os temas apresentados às crianças na literatura infantil, os contos maravilhosos –como as histórias dos Irmãos Grimm, na Alemanha, de Hans Cristian Andersen, na Dinamarca, ou de Garret e Herculano, em Portugal– sempre foram uma das narrativas mais importantes. Segundo a professora Cristiane Madanêlo de Oliveira, mestre em literatura brasileira e especialista em literatura infantil e juvenil pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), essas histórias fantasiosas exploram situações que ocorrem em locais indeterminados e apresentam fenômenos que não obedecem às leis naturais que regem o planeta.

Os clássicos originais, além de possuírem riqueza de linguagem, ajudam as crianças a pensarem sobre questões da existência humana desde muito cedo.
  
Um livro para cada criança

Faixa etária Como deve ser o texto Ilustrações Tipos de livro e formas de contar
De 1 a 2 anos As histórias devem ser rápidas e curtas Uma gravura em cada página, mostrando coisas simples e atrativas Prefira os livros de pano, madeira e de plástico. É recomendado o uso de fantoches
De 2 a 3 anos As histórias devem ser rápidas, com textos curtos que se aproximem das vivências da criança Gravuras grandes e com poucos detalhes Os fantoches continuam sendo o material mais adequado. Música exerce fascínio e pode ajudar a envolver a criança no enredo
De 3 a 6 anos Os livros devem propor vivências do cotidiano familiar. É a fase do “mãe (pai), conta outra vez” Predomínio absoluto da imagem, com textos brevíssimos Livros com dobraduras simples. O contador pode usar roupas e objetos característicos. A criança acredita que ele se transforma no personagem
A partir de 6 ou 7 anos (fase de alfabetização) Trabalho com figuras de linguagem que explorem o som das palavras. Construções enxutas. Personagens da coletividade, favorecendo a socialização. Inserção de poesia Ilustração integrada ao texto. Uso de letras ilustradas, de tamanhos e formatos diferentes O contador e a criança podem recriar passagens da história usando instrumentos musicais, massinha, tintas, lápis de cor, entre outros materiais 


“Os simbolismos ocultos nesse tipo de literatura ajudam a criança a defender suas vontades e a afirmar sua independência em relação ao poder dos pais ou à rivalidade com os irmãos ou amigos”, explica Cristiane. É nesse sentido que a literatura infantil e, principalmente, os contos de fadas podem ser decisivos para a formação da criança em relação a si mesma e ao mundo à sua volta.

Segundo a professora, a própria psicanálise se apropriou dos contos maravilhosos e seus significados simbólicos para explicar e resolver os eternos dilemas que o homem enfrenta ao longo de seu amadurecimento emocional.

De um modo geral, essas histórias apresentam personagens bons ou maus, belos ou feios, poderosos ou fracos, de maneira maniqueísta, o que facilita para a criança a compreensão de certos valores básicos da conduta humana. “Os contos de fadas trazem categorias de valor que são perenes e, segundo a psicanálise, a criança é levada a se identificar com o herói não devido à sua bondade ou à sua beleza, mas por sentir nele seu inconsciente desejo de bondade e beleza e, principalmente, sua necessidade de segurança e de proteção.”

No entanto, como as histórias fantasiosas são ricas em possibilidades, mas, ao mesmo tempo duais, é muito comum que sejam usadas por pais e educadores como pretexto para moralizar as crianças. “Muitos adultos simplesmente concluem pelas crianças e não permitem a elaboração do entendimento individual do texto, que é diferente para cada ser humano”, diz Débora.

A intenção de ensinar as crianças a se comportarem pela literatura é uma distorção do significado da formação de valores. Um exemplo disso são as provas de literatura aplicadas há algum tempo nos colégios, onde o mais importante era a criança responder de acordo com a interpretação pessoal do professor sobre o livro e não com a sua própria.  “Esse é o uso equivocado da leitura. Isso amedronta e ensina as crianças a odiarem a leitura, porque não podem participar efetivamente dela”, diz Débora.

Ambas as educadoras do Instituto Avisá Lá reforçam que o compromisso da escola deve ser o de dar sentido à experiência leitora e não padronizar comportamentos ou destruir textos, que, em sua maioria, foram escritos para ajudar as crianças a construírem por si mesmas seus pensamentos e valores.   “A escola é a grande responsável pela formação do leitor, para tanto deve ter clareza desse propósito em seu projeto educativo”, afirma Clélia.

Contar a história

A maioria das pessoas acredita que ler é uma ação para quem sabe ou consegue. Esse pensamento exclui dessa importante atividade todas as crianças abaixo de 6 anos, os analfabetos e as pessoas com deficiência visual.

“Ter contato com o texto escrito, via o próprio olhar, ou o olhar do outro, é ler”, fala Débora. Com base nesse conceito ampliado, a psicóloga ensina que a primeira inserção das pessoas no mundo da cultura é pela leitura, porta que deve ser aberta desde o momento que o bebê nasce. “Quando os pais ou cuidadores leem histórias para as crianças, eles estão fazendo com que elas leiam.”

Por fim, é importante também que o adulto demonstre prazer ao ler, porque o hábito da leitura é transmitido pelo exemplo. Adultos que leem continuamente na frente das crianças, com certeza, serão imitados no futuro. “O modelo de leitor é passado, é mais provável que, em uma família de leitores, a criança também se torne leitora”, afirma Débora.

Papel da escola

Quem quer que tenha o hábito de leitura já percebeu que o modo de ler um livro é diferente da maneira como se lê um jornal. “São comportamentos leitores distintos”, explica Débora. Enquanto a família dá o exemplo da leitura, a escola deve ensinar a criança a desenvolver os diferentes comportamentos leitores.

“Quando a escola toma para si que a leitura é uma das modalidades de ensino, as crianças podem aprender diferentes repertórios estruturantes de leitura”, fala. Para a coordenadora pedagógica, os principais erros das escolas com relação ao assunto é tratar a leitura como tapa-buraco da grade escolar e não considerá-la um valor. “Essa posição pode ser identificada em escolas que não têm um bom acervo de livros ou nem se preocupam em atualizá-lo.”

 Fonte: UOL Mulher

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Leitura - Conselhos às famílias


  Faça da leitura um momento agradável no dia-a-dia da sua família   
 
1 - Incluir os livros no dia-a-dia das crianças
  • À noite quando as crianças já estão na cama, leia-lhes antes de adormecerem. Os livros acalmam e dão serenidade.
  • Aproveite alguns momentos de pausa ou de convívio para ler.
  • O momento do banho pode incluir livros de plástico ou de borracha.
2 - Tornar a leitura uma actividade divertida
  • As crianças pequenas gostam de descobrir as imagens e as histórias dos livros. E começam muito cedo a querer aprender a ler.
  • Faça das imagens e das histórias dos livros uma espécie de brinquedos. As crianças adoram descobrir imagens, letras palavras e adoram ouvir ler histórias.
  • Deixe a criança escolher o livro que quer ler consigo. Pode propor outros livros, mas não force. É importante que leia ou oiça ler com prazer.
3 - Guardar alguns minutos para ler
  • Reserve sempre alguns minutos do dia para ler, observar e conversar sobre os livros que a criança aprecia.
  • Torne os momentos de leitura alegres e carinhosos. O tempo passará a correr.
  • As crianças pequenas não aguentam muito tempo, quando está cansada ou desinteressada, não se deve forçar. À medida que as crianças vão crescendo passam a gostar de ver livros e ouvir ler histórias durante mais tempo.
 4 - Visitar as Bibliotecas
  • No nosso país as bibliotecas públicas são muito acolhedoras e estão cheias de livros interessantes, para todas as idades. Visite a que fica mais perto da sua casa, ou do seu local de trabalho. O atendimento é muito agradável e o empréstimo é gratuito!
  • Experimente ir com os seus filhos. Nas bibliotecas há sempre uma zona própria para crianças.
  • As bibliotecas escolares também emprestam livros para as crianças lerem em casa. Encoraje os seus filhos a usar mais a biblioteca da escola.
  • Requisite livros para ler em casa com os seus filhos. Vai ver que toda a família ficará cliente.
 5 - Oferecer livros às crianças
  • Habitue a criança a escolher um livro para dar aos amigos como presente.
  • Visite livrarias, supermercados e feiras do livro e deixe a criança mexer nos livros expostos. Valorize o livro e a leitura oferecendo livros aos seus filhos.
  • Convide-a a observar, folhear e escolher um ou alguns para levar para casa ou para oferecer.
Fonte: Plano Nacional de Leitura - Portugal

Como ler com as crianças


Mostre a capa, mostre os livros e fale sobre as ilustrações.   
 
Deixe a criança virar a página, se ela quiser.   
 
Leia as frases e mostre-as com o dedo.   
 
Torne a história viva, faça uma voz diferente para cada personagem e use mímica para contar a história.   
 
Quando a criança começa a saber ler deixe-a ler palavras e frases.   
 
Quando já sabe ler, distribua papéis e leia a par.   
 
Faça perguntas e converse sobre a história, sobre as informações e sobre as imagens.   
 
Verifique se está a compreender bem.   
 
Deixe a criança comentar o livro, contar a história ou partes da história.   
 
Se a criança não mostrar interesse não insista. 
 
Leia outra história ou leia a mesma história noutra altura.   
 
Se a criança pedir, volte a ler a mesma história uma ou várias vezes. 
 
É frequente as crianças quererem ouvir muitas vezes uma história que lhes agrada.
 
Fonte: Plano Nacional de Leitura - Portugal

terça-feira, 31 de julho de 2012

Os 10 passos para amar livros

Dad Squarisi


Matéria publicada em 24/08/2010

O louco por livros não nasce por geração espontânea. Cultiva-se. Pais, avós, tios, amigos, professores contribuem para a formação e desenvolvimento da habilidade de ler. Como? O Instituto EcoFuturo dá 10 dicas. Ei-las:



1 – Leia em voz alta com as crianças . Explore com elas os livros e outros materiais de leitura – revistas, jornais, folhetos, almanaques, manuais de instruções, cartazes, placas… Todo material impresso pode ocasionar momento de troca centrado na leitura.

2 – Ofereça a elas ambiente rico em termos de letramento : faça atividades com leitura, mesmo com bebês e crianças bem pequenas. Continue fazendo com as crianças e jovens que estão na escola.

3 – Converse com elas e escute-as quando falam . O diálogo ajuda muito no desenvolvimento da linguagem oral.

4 – Peça-lhes que recontem histórias ou informações que você leu em voz alta . Cuidado para que a atividade não acabe virando aula. Não é esse o espírito da proposta. O encontro precisa ser agradável e descontraído.

5 – Incentive-as a desenhar e fazer de conta que escrevem histórias que ouviram . Peça, depois, que "leiam" em voz alta. Parece absurdo? Pois não é. Afinal, elas passam o tempo fazendo de conta que cozinham, que dirigem carros, que lutam com inimigos perigosos, que são médicos e professores. Não se esqueça: a ideia é brincar de ler.

6 – Dê o exemplo : faça que elas vejam você lendo e escrevendo. E, por favor, não faça a bobagem de dizer que elas devem aprender a ser diferentes de você, que não gosta de ler. O que conta não é o que você discursa sobre leitura, escrita, estudo. É o que você oferece como exemplo.

7 – Vá à biblioteca regularmente com as crianças . Se for uma biblioteca de empréstimo, é bom cada uma ter a própria ficha de inscrição.

8 – Crie uma biblioteca em casa e uma biblioteca pessoal para a criança, onde ela se acostume a guardar os livros e a buscá-los . Na hora de comprar presentes para seu filho, lembre-se dos livros. De quebra, ele ganha competência para lidar com o mundo e abertura da imaginação.

9 – Faça mistério para aguçar a curiosidade . Por exemplo: você tem três livros na mão e diz à criança que ela pode escolher entre dois. Ela certamente vai dizer que são três, não dois. Você faz de conta que se enganou e põe um deles de lado. Adivinha qual deles ela vai querer… Use a imaginação. É jogo. O resultado é que a criança ganha sempre – e para toda a vida.

10 – Leve as crianças sempre que houver hora do conto, teatro infantil e atividades similares na comunidade

Fonte: Blog da Dad

quarta-feira, 2 de maio de 2012

A ajuda que vem do papel

Matéria publicada em 23/04/2012

E8-9 01 PJ
O sofrimento é algo universal. Até mesmo as crianças passam por dores e angústias. Mas para 
O sofrimento é algo universal. Até mesmo as crianças passam por dores e angústias. Mas para aliviar o sofrimento dos pequenos, o mercado editorial está investindo agora em livros de autoajuda infantil. Indicados para crianças a partir de 2 anos de idade, os livros do gênero se propõem a ajudar as crianças por meio de orientações sobre como lidar com problemas emocionais e de relacionamento.

Os autores buscam tratar de assuntos complexos, como a perda de um ente querido, a separação dos pais, a timidez, entre outros, de uma forma simples e atrativa. O gênero literário chega agora às salas de aula e causa polêmica.

Para a diretora da Faculdade de Educação da PUC-SP, Neide Aquino Noffs, nada deveria superar o convívio e o apoio da família. “A melhor autoajuda infantil é o relacionamento interpessoal saudável. Deve existir uma relação familiar e escolar forte porque a criança está num mundo de 'faz de conta' e é muito complexo transformar essa fantasia em realidade”, ressalta ela.

A escritora e professora da UFG (Universidade Federal de Goiás), Diane Valdez também não vê com bons olhos esse tipo de literatura. Ela analisou a coleção de livros Se Liga em Você, assinada pelo Tio Gaspa que, na verdade, se chama Luiz Gasparetto.

Valdez diz que não gostou do que leu. “O erro começa já na proposta de identificar o autor como um tio. Ele não é tio, ele é autor. Nos livros, ele cria um personagem e diz coisas como 'você é seu melhor amigo' e chega ao ponto de afirmar que 'você não precisa de ninguém'. Na minha opinião, isso é pavoroso!”, considera.

Já Roberta Gazzarolli, coordenadora da Vida e Consciência, editora que publica os títulos do Tio Gaspa, acredita que a mensagem do livro foi mal interpretada pela escritora.
Para ela, o leitor tem que entender a metodologia de Gasparetto que, além de psicólogo, escritor e locutor, também é médium e trabalha com muitas questões ligadas à espiritualidade.
“É tudo voltado para o ser, mas não de modo egoísta, não é isso! É trabalhar primeiro você, ser amigo de você mesmo. Aí você consegue entender melhor os teus problemas e o nível de depressão é muito menor porque você sabe quem você é! Isso começa por você, ninguém pode fazer por você e é essa mensagem que o autor tenta passar. Não é que você não precisa de ninguém”, defende.

Para Roberta, as crianças de hoje tê não só a capacidade de digerir a informação presente nos livros de autoajuda infantil, mas também precisam desse conteúdo.

“Um adulto depressivo começa na infância. Hoje temos crianças também depressivas e precisamos aprender a lidar com essas questões desde cedo. Essa geração de hoje é mais consciente, mais evoluída. As crianças de 6 anos hoje são completamente diferentes das de 50 anos atrás. Hoje elas estão recebendo muito mais comunicação externa e processando isso muito mais rapidamente”, argumenta ela.

A coordenadora destaca também que os livros da coleção não são “educacionais”, mas que isso não impede que eles sejam trabalhados em sala de aula. “Eu acho isso importante porque desde cedo você aprende dentro da escola. O pai vê a escola e o professor como referências e se esse professor consegue ensinar esse tipo de conteúdo, ele está fazendo o seu papel de educador, pois a criança vai crescer bem orientada”, ressalta.
Participação familiar
 
Ainda assim, a escritora Diane Valdez se mostra desanimada com o crescimento nas vendas das publicações do gênero. Como não tem como fugir do boom editorial, o importante, para ela, é a presença do adulto na seleção dessas leituras.

A professora de Literatura do Colégio Anglo de Campinas, Claudine Faleiro Gill, concorda que a escola tem um papel fundamental nessa questão. “Não adianta colocar o livro de autoajuda nas mãos da criança e falar: 'lê e aprende a viver'; tem que haver mediação. E a escola tem um papel importante, especialmente porque há um excesso de lançamentos nessa área”, esclarece Claudine.

A professora alerta também para o fato de que os pais têm imputado a esses livros uma responsabilidade que é deles. “Tem pais que delegam aos livros de autoajuda o papel de conversar com a criança, mas nós vemos isso como um problema, pois sentimos nessa carência de discutir temas polêmicos, que elas têm uma liberdade com os professores da escola que não encontram em casa”.

Claudine ministra aulas para turmas do 6° ao 8° ano do Ensino Fundamental e tem inserido alguns textos de autoajuda em sua disciplina. Para ela, a literatura não tem a função de educar e ela não tem efeito imediato. “Ninguém aprende na primeira lição, é a vivência que ensina. Mas o que foi lido fica no inconsciente da criança e, com o tempo, ela vai incorporando isso no dia a dia”, defende.

Foi assim com a aluna do 6° ano, Mariana Garcia Lacerda, 10. Ela gosta de todo tipo de literatura, mas afirma que aprendeu a se relacionar melhor em casa e na escola a partir do momento em que começou a ler os livros de autoajuda. “Eu aprendi com ele (o livro) que nós não podemos mandar nas pessoas; elas não gostam disso”, explica.

Entrevista
O sofrimento é um bom professor
Para Yvanna Samert, psicóloga clínica da UnB (Universidade de Brasília), os livros de autoajuda somam no desenvolvimento emocional da criança, mas eles devem ser adotados como um recurso complementar, pois o sofrimento está presente em todas as fases da vida e, por isso, não deve ser eliminado, mas apreendido
Qual o papel do sofrimento na infância?
O sofrimento faz parte da vida, não tem como evitar. É ele que nos faz querer avançar, que nos ensina a resolver os problemas, ter motivação para seguir em frente. Ele é uma coisa necessária que faz crianças e adultos evoluírem como pessoas.
Muitos pais e escolas têm adotado livros de autoajuda infantil para tentar amenizar o sofrimento dos pequenos. Para a senhora, essa é uma alternativa válida?
São recursos úteis para trabalhar questões importantes para o desenvolvimento emocional da criança. É relevante como forma de ensinar a criança a lidar com os problemas do dia a dia, com as próprias emoções, mas ela sozinha com o livro não produz tão bem quanto quando está com o adulto que conversa sobre aquilo. Mais importante do que o conteúdo do livro é a forma como ele é utilizado. Então ele não pode ser considerado um recurso isolado, tem que ser associado a muitos outros para favorecer o desenvolvimento da criança.
Antes a literatura, através de metáforas, trabalhava diversas questões emocionais e até morais em sala de aula. Agora, muitas escolas tem inserido na disciplina de literatura os livros de autoajuda que trazem um outro tipo de linguagem, mais simples e direta. Essa mudança é favorável?
Depende muito do caso. Não dá para substituir a psicoterapia pelos livros de autoajuda nem para as crianças nem para os adultos. Os livros sozinhos não trazem o benefício que eles podem trazer sem o olhar do pedagogo. Acho que mesmo essas crianças que não têm nenhum problema emocional diagnosticado podem se beneficiar desse conhecimento. Eu não acho que seja prudente retirar um livro de literatura convencional e substituir por outro de autoajuda. Os livros de autoajuda devem somar e não subtrair.
E de que forma podem somar?
Eles podem somar em situações onde a escola ou os responsáveis pelo aluno identifiquem que algumas crianças estão com dificuldades. Acredito que esses livros trazem conhecimento que somam com o tradicional e por isso acho que podem somar no planejamento pedagógico da escola.
Como a família e a escola podem ajudar a criança a superar o sofrimento?
Elas devem lidar com a situação com todo o respeito que a criança merece. Não seria correto tentar eliminar todo o sofrimento da criança, embora essa seja uma estratégia que vem acontecendo. Hoje ninguém quer mais sofrer; muitos querem tomar remédio ou fazer cirurgia para parar de sofrer, mas isso não vai acontecer porque o sofrimento faz parte da vida.
Como fazer isso na prática?
Nós temos que fornecer apoio para a criança. Temos que explicar para ela o que está acontecendo, conversar sobre quanto tempo isso vai durar, como isso vai passar e o que se aprende a partir desse sofrimento, já que o sofrimento, em si, é impossível de eliminar. O único jeito disso acontecer é morrendo e muitas pessoas acreditam que essa é a saída e por isso buscam o suicídio. Nós não podemos ensinar isso para a criança; temos que ensinar que o sofrimento existe e que, a partir dele, nós aprendemos outras coisas. Então o respeito à dor e ao sofrimento da criança passa a ser um aprendizado diante do sofrimento. Para mim, essa é a maneira mais adequada da escola e do pais lidarem com o sofrimento delas.
E quando é preciso procurar a psicoterapia?
Isso pode ser feito preventivamente, antes de uma coisa mais grave acontecer. Como, por exemplo, quando os pais percebem que vão se separar ou quando tem alguém com alguma doença grave na família. A busca pela psicoterapia vai depender muito da capacidade dos pais e da escola em serem sensíveis às necessidades da criança. Algumas crianças lidam muito bem com esses acontecimentos em suas vidas e não tem grandes mudanças comportamentais. Nesses casos, onde não tem grandes prejuízos observados na vida da criança, não há necessidade de psicoterapia. Mas existem muitos outros casos em que a família fica tão desestabilizada que não consegue dar atenção às necessidades da criança e é nessa hora que a psicoterapia pode ajudar orientando a família, a escola e dando o apoio necessário à própria criança.
Fonte: Suplemento Escola/ Tribuna do Planalto -Thaís Lobo Estagiária convênio Tribuna/PUC-GO

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Leia para uma criança hoje

25 de Abril de 2012

Escrito por .

Os amados personagens literários de nossa infância se reuniram por uma causa importante: incentivar e dar destaque para a presença da literatura na vida das crianças. A Today Reading is Fundamental (RIF) é a responsável por promover o encontro por meio da campanha Book People Unite, lançada no dia 17:

A ideia da RIF, maior entidade norte-americana sem fins lucrativos destinada à alfabetização de crianças, é dar continuidade ao importante trabalho que vem desenvolvendo. Apenas em 2011, a entidade forneceu 14 milhões de livros a 4 milhões de crianças. Apesar dos esforços, a maioria dos jovens do país continuam sem acesso aos meios básicos para a educação. Hoje, nos Estados Unidos, 16 milhões de crianças vivem na linha de pobreza. O número é o maior em duas décadas, o que tem impacto profundo na educação – segundo a entidade, em bairros de baixa renda, há apenas um livro para cada 300 crianças, por exemplo.

A presidente da RIF, Carol Rasco, defende que, mais que resolver um problema, é preciso dar início a um movimento. “Um livro pode despertar nos jovens a ambição por uma vida melhor, e nós estamos convocando as pessoas da nação a se juntarem a nós na tentativa de transformar os EUA em um país letrado onde todas as crianças podem explorar, sonhar e conquistar”, afirmou em release oficial.

Quem assina a produção da campanha é a Ad Council, uma organização também sem fins lucrativos que convoca os talentos da industria publicitária para atuarem voluntariamente na criação de campanhas que levem ao público questões críticas. “A montagem da campanha, com personagens dos livros que ganham vida, visa motivar os pais a lerem para as crianças”, afirmou Peggy Conlon, presidente da Ad Council em release oficial. Na trilha sonora, estão grandes nomes da música, que se juntaram em nome da causa: a canção foi produzida pelo The Roots, e conta com as vozes de atores e cantores como Jack Black, Chris Martin, John Legend, Jim James, Jason Schwartzman, Nate Ruess, Melanie Fiona, Carrie Brownstein, Regina Spektor e Consequence.

Para saber mais sobre a iniciativa, acesse BookPeopleUnite.org.

Fonte: Pra ler

sexta-feira, 16 de março de 2012

A criança e a maturidade para a leitura, segundo a idade


Foto: Cindiann 

Cada leitor é único. No entanto, nos momentos iniciais da leitura há certos pontos comuns de observação. Esses marcos abaixo não são taxativos, isso vai depender de muitos fatores sociais, comportamentais, culturais, familiares, neurológicos que cada indivíduo vivencia e irá reproduzir, de uma maneira ou de outra, na prática da leitura.
Historicamente, é a partir, dos anos 50 e 60, que  a criança se converte em protagonista dos livros infantis. Ocorre a adaptação psicológica ao papel de leitor – identificação. Os temas de interesse giram em torno de aventuras protagonizadas por um bando, explicada pela busca de enquadramento em um grupo.

6 a 8 anos

  •  Pensamento intuitivo, pré-lógico;
  • Relação com o livro de animismo (animismo, em breves palavras,  é um conceito antropológico que reproduz a relação dos seres com algo já existente. Esse objeto representa algo mítico, de origem religiosa, inexplicável racionalmente);
  • Extensão da experiência da vida;
  • Adequação imagem-texto, de acordo com o progressivo desenvolvimento da criança;
  • Passagem da fase animista para a fase da fantasia;
  • Não se deve sobrecarregar a criança, pois para ela é um momento de grande esforço com o aprendizado da leitura;
  • É bom que haja presença sempre marcante de humor.

 8 a 10 anos

  • Livros ligados à experiência de vida da criança (maior autonomia, ela começa a integrar outros grupos);
  • Linguagem deve ser objetiva, sem falsas retóricas, floreios ocos;
  • Preferência por ação;
  • Ilustrações devem instigar a criança a continuar;
  • Necessidade de determinar um tempo para a criança continuar a ler;
  • Pais podem acompanhar os filhos em visitas à Biblioteca Pública ou à livraria;
  • Manuseio de livros de consulta a partir dessa idade;
  • Temas relacionados à natureza ganham interesse;
  • Momento bom para apresentar outros gêneros como o teatro.

10 a 12 anos

  • Momento de ocorrência de transformações fisiológicas;
  • Aparecimento de pensamento hipotético-dedutivo;
  • Surgimento de crítica e autocrítica;
  • Temas de preferência: aventura, humor, mundo dos animais, mistério;
  • Cria afinidade com autores;
  • Necessidade de maior solidão (mudanças fisiológicas, orgânicas e comportamentais).

A partir dos 13 anos

  • É comum ocorrer um certo abandono;
  • Há um processo de evolução da personalidade;
  • A precipitação dos professores em literatura para essas idades com relação aos clássicos, pode resultar negativamente.
  • Temas giram em torno de: problemática social, confronto entre grupos étnicos ou sociais diferentes, guerras, violência, situações de marginalidade, abandono.
A partir disso, dá para refletir e trabalhar melhor um livro em casa ou na escola.
Faça um teste!
Pesquise mais em 
SOBRINO, Javier García (org.), et. al. A criança o livro: A aventura de ler, Portugal: Porto Editora, 2000.

Fonte: Livros e Afins

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Ler histórias é a melhor forma de incentivar as crianças à leitura

09/10/2008
Gabriela Agustini
Em São Paulo

Ler histórias para crianças ainda não alfabetizadas é a melhor forma de incentivá-las à leitura. E, para estimular o hábito, é preciso que ele esteja inserido na rotina. O conselho é da psicóloga Cisele Ortiz , coordenadora do Instituto Avisa Lá, uma ONG que trabalha com a formação de educadores.

"Desde antes de nascer até os 7 anos, quando já pode ler sozinha, é importante que alguém narre as histórias para a criança permitindo que ela entre em contato com o mundo da literatura", diz.

Segundo a psicóloga, é ouvindo histórias que os pequenos têm uma primeira experiência com a linguagem escrita e sua estrutura. "Quando ficar mais velha, essa criança certamente reconhecerá o valor cultural que um texto tem", diz Cisele.

Ela ressalta ainda a diferença entre ler uma história e contá-la. "Quando lemos, usamos uma linguagem diferente da falada, o que introduz elementos que serão formalizados, mais para frente, na escola."

Outra especialista no assunto, a coordenadora do projeto de formação de leitores do Colégio Pentágono, em São Paulo, Liliane Araújo, concorda com a importância de o incentivo começar cedo, antes mesmo de as crianças serem alfabetizadas.

Para Araújo, o espaço de leitura deve ser também um local de encontro, com música e troca de idéias entre as crianças - "bem diferente de uma biblioteca tradicional, em que o silêncio predomina". "O livro deve ser um companheiro, um amigo das crianças pequenas", diz.

Livro ou brinquedo?
Ao visitar a seção infantil das livrarias, o consumidor vai encontrar todo tipo de livro - alguns com tantos recursos, como aqueles que vêm com fantoches e pop-ups, que mais se parecem com brinquedos.

Um atrativo nessa "categoria" é a possibilidade de interação que ela promove. "É um convite à criatividade e ao estímulo dos sentidos", explica Araújo. "A criança pode inventar a história, criar e pegar os personagens", exemplifica Ortiz.

Se os livros oferecerem suporte aos pais para contar uma história e para brincar com a criança, eles são uma boa pedida. "Alguns têm painéis imantados ou trazem fantoches, marionetes, teatro de sombras - recursos ótimos para enriquecer o cenário da história", conta Ortiz.

Esses atrativos também são apontados por Araújo como importantes para chamar a atenção dos pequenos leitores. "Quando a criança ainda não é alfabetizada os elementos visuais são os únicos que ela entende. Aprendendo a ler imagens, ela terá o caminho aberto para querer aprender a ler palavras no futuro", diz.

No entanto, Cisele Ortiz faz um alerta: "não é porque ensina uma criança a virar uma página, que o livro desperta interesse por leitura", complementa. Tudo vai depender do uso do produto. Um livrinho daqueles de plástico com figuras e sem texto, por exemplo, será apenas um brinquedo se os pais não o utilizarem para contar uma história. O mesmo vale para produtos com recursos como sons e pop-ups.

Incentivo em casa
A melhor forma de aproximar uma criança da leitura é oferecer a ela o exemplo em casa. "Pais leitores tendem a influenciar o comportamento futuro de seus filhos", atenta Cisele.

Ela conta que promover situações de leitura no dia a dia é um ótimo incentivo. "Existem crianças que aprendem a ler na Igreja, ao tentar acompanhar o folheto da missa como os demais familiares", diz.

"Nesse sentido, uma boa idéia é, por exemplo, deixar a criança em fase de alfabetização ajudar a ler a receita de um bolo que está sendo preparado pela mãe", explica Cisele. "Compartilhar o cotidiano ajuda ainda a estabelecer vínculos emocionais".

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Fabulário da Imagem

Os livros ilustrados acompanham o desenvolvimento da criança até a vida adulta, determinando sua relação com a leitura e o aprendizado

Como seria o universo sem imagens? A criança, desde o nascimento, reconhece o que lhe cerca por meio de códigos visuais. Para que passe a dominar a escrita é fundamental ter domínio dos signos imagéticos. Os livros infantojuvenis são os primeiros aliados nessa transição, ao unir ilustração e palavra em um mesmo objeto. O filósofo alemão Walter Benjamin escreveu, em 1924, um artigo sobre o surgimento do gênero, que pode ser lido em Reflexões sobre a Criança, o Brinquedo e a Educação (Editora 34, 2002): “[As crianças] aprendem no colorido. Pois na cor, como em nenhum outro lugar, a contemplação (…) está em casa”. Benjamin é um dos autores de sua geração que se debruçam sobre o universo infantil, elucidando termos como “o brincar”, “a pedagogia”, “o teatro infantil”. Isso porque o conceito de criança nasce apenas no final do século 18, afirmando a necessidade de estabelecer a didática e o ensino para os pequenos.
No Brasil, a partir da década de 1920, Monteiro Lobato (1882-1948) torna-se figura-chave para repensar a produção literária feita para crianças. Em Monteiro Lobato, Livro a Livro (Editora Unesp, 2008), organizado por Marisa Lajolo e João Luís Ceccantini, publicou-se uma carta de Lobato, de 1916, em que ele demonstra a insatisfação pelo que era produzido até então: “Ando com várias ideias. Uma: vestir à nacional as velhas fábulas de Esopo e La Fontaine, tudo em prosa e mexendo nas moralidades. Coisa para criança. (…) Que é que nossas crianças podem ler? Não vejo nada. Fábulas assim seriam um começo da literatura que nos falta. É de tal pobreza e tão besta a nossa literatura infantil, que nada acho para a iniciação de meus filhos”.
Monteiro Lobato publica sua primeira versão infantil em 1920 sob o título Fábulas de Narizinho com uma novidade: as mais de setenta páginas do livro eram acompanhadas por ilustrações de Voltolino. Segundo Ceccantini, antes de Lobato, o livro brasileiro era feio, aos moldes do francês das capas tipográficas e amareladas. Seria o autor – e sua visão de editor –, ao fundar a Monteiro Lobato & Cia., quem investiria em papel de qualidade e capas coloridas e desenhadas. Outros títulos seriam ilustrados por nomes importantes do início do século 20, tal qual Belmonte, chargista da vida política da época que emprestou seu traço às histórias do escritor. A partir de então, no Brasil, o livro infantojuvenil começará a ganhar outro status para, nos anos de 1970, dar o grande salto.

A história de uma cor
Em meados de 1960, Ziraldo era colaborador de vários jornais e revistas como chargista. No Pasquim, junto com Jaguar, Fortuna e Millôr, contribuiu para aplicar o humor e a blague contra a ditadura militar. Mas foi um convite despretensioso do editor português Fernando Ferro, à frente da Editora Expressão e Cultura, em 1969, que faria do cartunista um autor – e modificaria para sempre o papel da ilustração nos livros infantis. “Esse editor era um sujeito inteligente, havia encomendado um livro chamado 10 em Humor para dez humoristas brasileiros. Foi o primeiro álbum de humor coletivo feito no Brasil. Levei meu desenho para ele; aproveitei e propus que fizesse um álbum com meu personagem Jeremias, o Bom. Ele topou e me perguntou se eu não tinha um livro infantil na manga, naqueles moldes europeus. Disse na hora: ‘Claro que tenho!’”, declara Ziraldo.
Evidente que não tinha, como afirma o cartunista. Mas os chargistas europeus de vanguarda, os quais admirava, todos já haviam feito livros para crianças, deixando nos humoristas brasileiros a vontade de seguir os mesmos passos. “André François, Tomi Ungerer... todos tinham seu livro infantil. Fui para casa sem livro nenhum, era sexta-feira e teria de entregar na segunda. Então tive a ideia de fazer um livro para criança sem desenho – mas aí elas não iam gostar –, quando achei melhor colori-lo todo, com uma página de cada cor. Daí pensei em escrever a história de uma cor, sem que ela tivesse forma. O livro estava todo na minha cabeça, foi só paginar. Comprei papel contact, azul, vermelho, branco etc., colei a história e levei na segunda para o editor”, revela Ziraldo. Flicts, cuja personagem é uma cor que tenta descobrir sua própria identidade, seria um sucesso imediato de crítica e público.
Colunistas de grandes jornais resenharam o livro, que ganhou prefácio de Carlos Drummond de Andrade: “O mundo não é uma coleção de objetos naturais, com suas formas respectivas, testemunhadas pela evidência ou pela ciência; o mundo são cores. (...) Tudo é cor. O que existe, existe na cor e pela cor. A cor ama, brinca, exalta, repele, dá sentido e expressão ao sítio ou à aparência onde ela pousa”, sentenciou o poeta.
Naquele momento, havia na revista Recreio importantes escritores que se dedicavam às fábulas infantis – Ruth Rocha e Ana Maria Machado eram nomes dominados pela lembrança de Monteiro Lobato. Já a romancista Rachel de Queiroz, no mesmo ano em que Ziraldo lançou o Flicts, escreveu O Menino Mágico, publicado com ilustrações do italiano Gian Calvi. “Ele foi um ilustrador importante para a literatura brasileira. O Menino Mágico veio um pouco antes do Flicts”, diz Ziraldo ao referir-se às colagens de pano feitas por Calvi.

Filão para todas as idades
A imagem terá, a partir de Flicts, um papel predominante na compreensão da narrativa infantil – anteriormente, apoiada apenas nas palavras. A geração de ilustradores dos anos de 1970 e 1980 levaram a cabo a experimentação e feitura do livro como objeto estético. Ângela Lago, Eva Furnari e Eliardo França são nomes de destaque nesse cenário. “A literatura infantil se abriu para algo que os críticos chamam de Picture Books, qualquer literatura em que, sem imagem, a obra não acontece. A palavra diz uma coisa; a imagem, seu oposto. E a obra acontece exatamente na negação de um e outro”, explica o ilustrador Odilon Moraes, um dos três curadores da exposição Linhas de História (ver boxe Aprender e Brincar), amplo recorte sobre o panorama do livro ilustrado no Brasil, em cartaz entre os dias 12 de julho e 29 de agosto, no Sesc Belenzinho.
Segundo Moraes, o Picture Book nasceu de uma ideia simples e se tornou uma das obras mais complexas da literatura infantojuvenil. “No processo de aprendizagem existem dois iniciantes: a criança na leitura e o adulto se reiniciando nas imagens”, diz o curador. É comum o adolescente abandonar o livro ilustrado quando ingressa na leitura formal dos clássicos. “O problema do livro para adultos é que é inacessível para as crianças, já os bons livros infantis servem para todas as idades.”
A escritora e ilustradora Eva Furnari completou 30 anos de carreira, no ano passado, com mais de 50 livros publicados, dentre os quais A Bruxinha Atrapalhada, que recebeu o prêmio de melhor livro-imagem da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), em 1982. Nascida em Roma, Itália, radicada no Brasil, passa a fazer livretos sem texto na faculdade de arquitetura, ainda na década de 1970, quando nasce sua filha. “A literatura infantil já estava no meu imaginário. Comecei a fazer ilustrações sem texto e desenvolvi jogos de palavras, até que, em 1990, passei a inventar histórias mais complexas e me tornei escritora também”, diz Eva. O convívio com o universo lúdico a fez perceber que o livro ilustrado é uma alternativa para as crianças diante da imagem vinculada à publicidade, tão recorrente nos dias atuais. “Elas têm acesso a uma arte produzida sem o risco dos estereótipos, uma ponte para as artes visuais”, afirma Eva.
Graça Lima, autora de livro-imagens como Sai da Lama Jacaré, também acredita nesse contraponto ao apelo comercial. “A criança cresce sabendo o que é McDonald’s e marcas de brinquedo. A boa ilustração fará o diferencial em relação à massificação da imagem”, diz. “A criança prefere imagens realistas. Em um primeiro momento, ela sente um estranhamento com a forma abstrata. Mas ao crescer, seu repertório se tornará mais amplo caso os pais incentivem a leitura desses livros.”
A responsabilidade das ilustrações na educação infantil é tal que as editoras são cada vez mais cuidadosas quanto à produção dessas obras. Afinal, o Ministério da Educação é o maior comprador de livros infantojuvenis do país, podendo adquirir em torno de 4 milhões por ano pelo Programa Nacional de Bibliotecas Escolares (PNBE). “É muito importante que eles sejam adotados nas escolas, pois terão vida mais longa. Temos um cuidado pedagógico, mas também nos preocupamos muito com que as ilustrações estabeleçam diálogo com as crianças”, afirma Júlia Schwarcz, editora do selo Companhia das Letrinhas. Outro fator de mudança é a autonomia dos ilustradores dentro das editoras. Além de receberem direitos autorais, discutem o projeto gráfico com os escritores, prática antes impensável. “Hoje em dia, os ilustradores têm uma narrativa própria, sugerimos que evitem repetir o mesmo caminho trilhado no texto”, afirma Júlia.
Em 2010, os vencedores do Prêmio Jabuti na categoria infantil – Nelson Cruz com Os Herdeiros do Lobo Comboio de Corda (Grupo SM); Roger Mello com Carvoeirinhos (Cia. das Letrinhas); e Ângela Lago com A Visita dos 10 Monstrinhos (Cia. das Letrinhas) – eram todos escritores e ilustradores de suas próprias obras, fato que afirma a dimensão autoral desse profissional no século 21.

Por uma identidade visual brasileira
A partir dos anos de 1990, uma nova geração de ilustradores retoma um antigo tema, esquecido em meio à profusão dos livros importados: a questão da identidade nacional. Um dos fatos marcantes para esse passo foi a homenagem a ilustradores brasileiros realizada na Feira de Bolonha, Itália, em 1995, que os levou a ter contato com a produção internacional. O autor europeu era muito fiel a suas origens enquanto a produção brasileira evitava esbarrar no nacionalismo tão presente nas obras de Monteiro Lobato dos anos de 1920. “O trabalho deles era infinitamente mais poderoso do que o nosso. Apesar de sermos mais atuantes no mercado, não chegávamos aos pés dos europeus”, revela Graça Lima. “Começamos a nos questionar e chegamos à conclusão de que eles tinham um respeito pela própria cultura muito grande”, completa.
A partir de então a produção de livros ilustrados no Brasil tem uma guinada. “Os artistas fizeram um mergulho ?no folclore brasileiro, passaram a usar uma paleta de cores mais fortes e vibrantes”, informa o ilustrador e curador Odilon Moraes. Para Graça Lima, alguns desses produtores, entre eles Roger Mello, Andrés Sandoval e Fernando Vilela, estão no limiar da vanguarda devido à experimentação da linguagem e por permitirem à criança ?um repertório imagético apurado. “O livro Lampião e Lancelote, do Fernando Vilela, dialoga com as gravuras do Lívio Abramo”, diz Graça.
Vilela, gravurista e ilustrador, também curador da exposição Linhas da História, no Sesc Belenzinho, afirma que o desenvolvimento da ilustração no Brasil e no mundo só se concretizou pela compreensão do livro como objeto artístico, para além da função didática para crianças. “É uma condição muito específica de trabalho em que texto e imagem se transformam numa forma de expressão artística, tanto que é consumido por adultos também”, ressalta Vilela, que ilustra a capa da Revista E deste mês.

Imagem e tecnologia
Com o desenvolvimento da tecnologia e a inserção do livro digital no mercado, autores se deparam com uma nova mudança por vir, pela qual a animação terá um peso ainda maior na narrativa, proporcionando participação ativa entre leitor e obra. “Estamos diante de uma mudança social grande, com certeza isso altera a maneira de a criança olhar o mundo e acaba interferindo na linguagem do livro”, diz Eva Furnari. “O livro requer uma escuta mais atenta, e a tecnologia ainda não preenche algo essencial do livro: o ritmo mais humano do texto.” Para Ziraldo, as circunstâncias mudaram, mas a criança é a mesma. “Elas seguem sofrendo e sorrindo pelas mesmas razões. Não podemos fazer previsões quanto ao fim do livro, mas vou continuar a escrevê-los”, informa o autor, que lançará no mês de julho Meu Primeiro Maluquinho em Quadrinhos, pela Editora Globo. A obra contém apenas imagens, para introduzir a criança (e os adultos) no universo narrativo dos quadrinhos. “O adulto só vai ler com felicidade se leu os livros da infância. Se não leu, ler para ele será sempre um sacrifício”, diz.

BOXE 01 – Colcha de retalhos

Confira algumas linhas de força presentes na produção da ilustração brasileira atual

Livro-Imagem – Não contém palavras e se apoia na narrativa visual para criar significados. “Esse tipo de obra é aberta a qualquer pessoa que se disponha a abandonar a segurança da palavra”, afirma Fernando Vilela, ilustrador e um dos curadores da exposição Linhas da História. Nessa categoria, nomes como Juarez Machado, Nelson Cruz e Roger Mello (ilustração) são destaques.
Humor – A influência do cartoon e das histórias em quadrinho é visível na obra. “O ilustrador que tem como berço o desenho de humor é habilidoso como contador de piadas gráficas e sabe tecer comentários pontuais e irônicos”, afirma Vilela. Eva Furnari, Mariana Massarani (ilustração) e Ivan Zigg são referências para as novas gerações.
Clássicos e Contos de Fadas – Ilustrar clássicos pode ser um desafio, pois esses livros já ocupam o imaginário de crianças e adultos. Trabalhos ilustrativos que renovam a linguagem dessas histórias podem ser conferidos em Chapeuzinho Vermelho e Outros Contos por Imagem, de Rui de Oliveira, e O Rouxinol, Contos de Andersen, de Eliardo França (ilustração).
Experimentais – O trabalho está bem próximo das artes visuais, com inclinação para a busca de materiais novos e soluções que ampliem os sentidos das histórias. “Muitos ilustradores contemporâneos extrapolam os limites da pintura, do desenho, da colagem e das ferramentas digitais”, revela Vilela. Trabalhos como o de Luiz Zerbini, Andrés Sandoval (ilustração) e Daniel Bueno caracterizam-se pela força da experimentação.
Artesanato – Muitos artistas trabalham de forma artesanal para criar ilustrações delicadas e com texturas diferentes. O tecido e o bordado são elementos que aproximam as crianças do universo sensorial do toque, por exemplo. “Em contrapartida ao uso do computador, muitos seguem a tradição do trabalho manual”, diz Vilela. A família Dumont é exemplo representativo dessa tradição. Graça Lima também se aventurou ao compor A Menina Transparente (ilustração).
Cultura Brasileira – Autores vão atrás dos contos e folclores enraizados no interior do Brasil para compor narrativas e ilustrações com influência nas celebrações do candomblé, das lendas amazônicas e histórias de saci. “O tema da cultura brasileira sempre esteve presente na nossa literatura infantojuvenil. As narrações inventadas se apropriam e dialogam com esse universo cultural”, explica Vilela. A imersão nas tradições populares em trabalhos de Roger Mello, Nelson Cruz (ilustração) e Pedro Rafael é exibida na exposição que ocorre no Sesc Belenzinho (veja boxe Aprender e brincar).

BOXE 02 – Aprender e Brincar

Mostra no Sesc Belenzinho apresenta Labirintos ?de histórias e contos de fada em tamanho real

A exposição Linhas de História – Um Panorama do Livro Ilustrado no Brasil, aberta ao público no dia 12 de julho, no Sesc Belenzinho, reúne uma pesquisa inédita em torno da ilustração no Brasil. Com curadoria conjunta de Fernando Vilela, Odilon Moraes e Kátia Canton, a mostra abarca a produção de 40 artistas a partir do final da década de 1960 até 2010. Terá dois núcleos expositivos: Homenagem, sobre cinco livros que se destacaram ao longo do tempo por seu pioneirismo – Flicts, de Ziraldo; A Bruxinha Atrapalhada, de Eva Furnari; O Rei de Quase Tudo, de Eliardo França; Ida e Volta, de Juarez Machado; e Cântico dos Cânticos, de Ângela Lago. As obras funcionam como instalação, reverberando por todo o espaço expositivo com grandes intervenções criadas a partir da temática de cada livro.
No núcleo Panorama, dividido em seis eixos temáticos, será possível mostrar as vertentes da ilustração produzida até então. Nomes como Ângela Lago, Eva Furnari, Marcelo Cipis (imagem ao lado), Roger Mello e Graça Lima dividem-se em categorias como Livro-Imagem, Humor, Experimentais, Cultura Brasileira e Clássicos, e Contos de Fada. “Esse tipo de produção ocupa um posto quase de vanguarda dentro do gênero. No Brasil, não temos uma pesquisa que dê conta da ilustração brasileira. Por isso tentamos apontar quem são os principais autores e quais linhas seguem ao longo de suas carreiras”, afirma Alcimar Frazão, assistente responsável pelas exposições de artes visuais do Sesc Belenzinho. A produção brasileira se caracteriza desde o desenho e a pintura, as técnicas tradicionais, a colagem, a fotografia e os bordados. Será a oportunidade de crianças e adultos vivenciarem o mundo mágico das narrativas infantis e entrarem em contato com o universo plástico das ilustrações.

BOXE 03 – Jogos da imaginação

Edições Sesc São Paulo investem em livros com apelo visual para todas as idades

Os livros experimentais, em que o universo da ilustração ganha força, tanto em histórias para crianças quanto para adultos, conquistaram espaço de destaque no catálogo das Edições Sesc São Paulo. Exemplo disso é o lançamento, em julho, de Quer Jogar? (imagem ao lado), de Adriana Klisys e ilustrações de Carlo Dala Stella. A narrativa se apoia em regras e conceitos da brincadeira por meio do olhar poético de Carlo Dala Stella.

Já para os adultos, mas sem excluir as crianças das páginas ilustradas por importantes autores brasileiros, as Edições Sesc São Paulo, em parceria com a Cosac Naify, lançaram a coleção Ópera Urbana, composta de quatro livros com apelo gráfico para narrar o ritmo acelerado da cidade de São Paulo. Uma homenagem à “selva de pedra” por meio de ilustrações que se identificam muito com o jovem que transita pelas ruas. São eles: Av. Paulista, de Carla Caffé; Surfando na Marquise, de Paulo Bloise e ilustrações de Daniel Kondo; Cidade dos Deitados, de Heloisa Pietro e ilustrações de Elizabeth Tognato; e Montanha Russa, de Fernando Bonassi e ilustrações de Jan Limpens.

Fonte: Revista E