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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Devemos ler ou contar uma história?

Mónica Semedo, Educadora de Infância
04/03/2005

"Alimentar o imaginário da criança é desenvolver a função simbólica com textos, imagens, sons." Jean Paul Sartre

Desde crianças que ouvimos os nossos pais, avós, amigos ou familiares contarem-nos histórias de encantar em noites sem fim...contavam-nos histórias que tinham na memória, ou mesmo inventadas no momento, inspirados numa formiga que por ali passava perto.

Talvez por, na nossa infância, não existirem muitos livros infantis, a mensagem era passada de boca em boca e todos tinham o hábito de contar uma história. Sentávamo-nos num colinho quentinho e brincávamos com os dedos do nosso contador de histórias, enquanto sonhávamos e viajávamos com o que estávamos a ouvir...muitas vezes adormecíamos embalados por aquelas tão belas palavras...

Nos dias que correm, os livros infantis abundam nas nossas casas e o contar histórias foi desaparecendo, certo é que os colinhos quentinhos perduram e para lhes fazer companhia existe sempre um livro do agrado da criança dando-lhe segurança, porque sabe que tem ali um amigo que a faz fantasiar e imaginar mil e uma aventuras em que gostaria de entrar.

Mas se não temos o hábito de ler ou de contar histórias, qual o melhor caminho a seguir? Ambas as situações são muito importantes e válidas para estimular a criança para a leitura. Porque vai proporcionar-lhe momentos agradáveis e de grande cumplicidade com o colinho quentinho do seu contador de histórias e com os livros em geral.

Para o adulto que não está habituado a lidar com histórias, ler uma é mais fácil, fá-lo sentir-se muito mais seguro e capaz de fazer passar a mensagem ao pequenino que a ouve, e das próximas vezes que o fizer, vai ser tão natural que aquele receio inicial vai desaparecer e nunca mais se vai lembrar dele. Alguns autores defendem que contar uma história à criança dá mais liberdade a quem o faz, porque pode modificar o enredo da história consoante a reacção de quem a ouve, sem no entanto, a alterar. Mas se a lermos vamos passar à criança um modelo de leitor, como deve manusear um livro, desenvolvendo o prazer de ler e o sentido do valor pelo livro.

Claro que ambas as situações são importantes e não nos podemos deixar assustar pelo papão de não termos jeito para contar histórias...coragem! 

sábado, 20 de agosto de 2011

Alunos de Cesário Lange saem pelas ruas para contar histórias



Histórias como ferramentas de ensino. É assim que a cultura popular é tratada numa escola municipal de Cesário Lange. Os alunos não só conhecem o folclore regional, como saem pelas ruas da cidade contando causos.

Só mesmo uma boa história consegue deixar as crianças hipnotizadas. São contos, fábulas, crônicas, lendas e até piadas. Textos diversificados que incentivam, principalmente, a pesquisa e a leitura.

Das escolas, as crianças também saem as ruas e contam histórias para todo mundo ouvir. Seja para quem está na janela de casa, na fila dos correios e na Praça de Cesário Lange.

Contar histórias incentiva a escrita, a leitura, proporciona a interação com as pessoas e leva, crianças e adultos, ao mundo da imaginação.

Fonte: Tem Notícias

segunda-feira, 18 de abril de 2011

1001 maneiras de contar uma história

Variar a forma de apresentar um livro é meu trabalho aqui e pode ser o grande estímulo à leitura na sua casa


Como eu disse há umas colunas, vivemos hoje a época das possibilidades. Com tanta correria e opções de tarefas e divertimento para os dias em família, é mais do que hora de aproveitarmos.

Todos os meses eu indico na revista impressa diversos livros infantis. São muitos que leio por mês para escolher uma lista tão curtinha...

Todos os meses também temos em CRESCER um conto inédito de talentosos escritores e ilustradores na seção Quintal, que reúne ideias incríveis para os pais passarem ótimos momentos com os filhos. (o bom de escrever uma coluna assim, bem pessoal, é que o posso usar e abusar dos adjetivos! Rs). As histórias fazem parte de nosso acervo na seção Contos do Quintal no site Livros Pra uma Cuca Bacana.

Há uns meses estreamos uma outra forma de apresentar um bom livro: o nosso vídeo Livro Contado. No primeiro convidamos Henrique Sitchin, fundador da Cia Truks de Teatro de Bonecos, um dos melhores grupos de teatro para crianças do Brasil. Com ele apresentamos Marcelino Pedregulho, um clássico imperdível do escritor e cartunista francês Sempé, original de 1969 e que a Editora Cosac Naify acaba de lançar aqui. Confiram o nosso vídeo e, aguardem: em 2011 teremos muitos, muitos mais!

Tudo que fazemos aqui tem um único objetivo: inspirar. Tento colocar em palavras sentimentos às vezes difíceis de explicar. Como a gente diz exatamente o impacto de um livro em nossas vidas? Pois é. Muitas vezes o leitor nunca dará essa resposta. Mas cabe a nós incentivá-lo a ter experiências, e que essas experiências se transformem no rol de memórias que a criança vai carregar a vida toda. Junto com os personagens e depois os já escolhidos autores preferidos, vale ficar marcado também a lembrança de como aquele livro foi apresentado, lido pela primeira vez. Quem leu? Quem deu risada? Quem se emocionou? Os personagens e enredos são nossas fantasias. Mas quem conta e como conta é ligação de carne, osso, voz e ouvido: e esses laços nunca se rompem.

Cristiane Rogerio é editora de Educação e Cultura da Crescer e adora se perder entre os livros.

Fale com a colunista

Fonte: Revista Crescer

Tem jeito certo para contar uma história?

Os clássicos são sempre alvo de um “ah, mas eu sabia a história desse jeito...”. Mas as versões em livros, filmes e outras mídias nos mostram que talvez não precisemos ser tão radicais


As histórias que ouvimos na infância são uma espécie de nossa marca. O jeito que as ouvimos, ou melhor, o jeito que nos contaram também. Eu sempre me lembro da versão da minha mãe de A Festa do Céu. Ela ia contando que o sapo queria entrar na festa, e o urubu dizia vários “pré-requisitos” para ele poder ir, e o sapo ia respondendo “Obaaaaa” com a bocona de sapo bem aberta. Até que o urubu explica: “mas só entra quem tem boca pequena” e o sapo responde “Ubuuuu”. Eu amava aquilo, com morria de rir da boca da minha mãe, e adorava repetir a dose, claro.

Mas quando a gente fica adulto, passa por um monte de versões de tudo. No meu curso de pós-graduação A Arte de Contar Histórias, que faço no Sieeesp, a turma é cheia de histórias e, claro, de versões. Às vezes, há uma disputa ou outra do tipo ‘ah, eu conheço uma versão assim’ e outro ‘ah, a minha é diferente’... A gente não chega a brigar, mas que dá um aperto no coração, dá. Como assim alguém mexendo na SUA história?

E a gente não morre de rir quando criança faz isso? A Daniela Tófoli mesmo, minha colega aqui na CRESCER, estava contando que Helena, sua filha de 2 anos, fica indignada com o fato de a Cinderela da mãe não ser a mesma Cinderela do pai! Ela já decorou as partes que gosta – e isso a deixa segura, veja o porquê na reportagem fantasia de criança – e exige que sejam contadas do mesmo jeito. Mas isso é pura diversão! Delícia provocar a criança para entender que as histórias podem ser contadas de formas diferentes e que ela também pode mudar tudo se quiser! Isso é mais do que enriquecedor. É como diz o poeta Manoel de Barros: “Tudo que não invento é falso”. Tem melhor coisa?

Cristiane Rogerio é editora de Educação e Cultura da Crescer e adora se perder entre os livros

Hora da história, hora de dormir

E quando a criança associa a hora da história com algum tipo de rotina que ela não está mais a fim de executar?


A gente vive dizendo e contando e lendo pesquisas sobre a importância da rotina para criança. E isso é bem forte quando o assunto é leitura, pois é fundamental que a criança entenda que para se tornar um bom leitor é preciso esforço, vontade e tudo mais. Talvez ela entenda isso mais tarde, mas o papel dos pais acaba sendo o mesmo.

Mas veja a conversa que tive com a Daniela Tófoli novamente sobre a pequena Helena, de 2 anos. Elas tinham o hábito de ler sempre uma história antes de dormir. Mas, como típico de sua idade, a menina começou a notar que ao dormir ela perdia uma infinidade de atividades incríveis como brincar mais, dançar mais, pular mais, ficar com os pais mais, muito mais. E quando ouvia o ‘vamos ler um livro?’ ela já se apavorava e, claro, protestava. Antes de entrar em pânico – Daniela é uma devoradora de livros e se arrepia com a ideia de Helena também não ser, rs – ela investiu em uma tática: começou a sugerir um livro em vários momentos do dia que estava com ela e jogou a associação rotina-livros para longe. Foi ótimo. Helena agora se interessa pela história, seja qual for a hora que ela chegue. Está aberta e curtindo cada vez mais os livros.

Quando o assunto é educar os filhos, o binômio tentativa e erro é fundamental. Como você se interessou por livros pode não ser a fórmula que irá funcionar com o seu filho. Cada um tem seu jeito e suas surpresas (ufa! Ainda bem!) e isso precisa ser respeitado e valorizado. E nunca, nunca desista. Se você curtir com ele, ele vai criar uma ótima relação com as histórias para a vida toda.

Cristiane Rogerio é editora de Educação e Cultura da Crescer e adora se perder entre os livros.

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Fonte: Revista Crescer

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Era uma vez uma boa história

Júnior Milério,12/09/2010

Em entrevista, a contadora de histórias Alessandra Giordano fala sobre os segredos e o poder das narrativas: “A história é a coisa mais barata do mundo e é amor puro e verbalizado”

Foto: Getty Images
Contar histórias fortalece o vínculo entre pais e filhos
e é uma forma eficaz de transmitir ensinamentos

Fadas, bruxas e monstros encantam crianças, adolescentes e até mesmo adultos. E a contadora de histórias Alessandra Giordano vem despertando a atenção de ouvintes há mais de 20 anos. Ela acredita que histórias podem colaborar para um ambiente familiar mais harmonioso e que, juntos, pais e filhos podem trabalhar a criatividade.

Para a autora do livro “Contar Histórias, Um Recurso Arteterapêutico de Transformação e Cura” (Artes Médicas), a história tem o poder de fortalecer e ajudar a criança a querer ser melhor. “E não custa nada, é a coisa mais barata do mundo e é amor, amor puro, amor verbalizado”, define.

Alessandra ainda afirma que, no momento de contar e ouvir um conto, os pais se fortalecem no filho – que, por sua vez, encontra força nos pais. “Nunca nos esquecemos das histórias que nossos pais nos contaram ou ainda contam. E os pais jamais se esquecem do olhar atento de um filho”, diz. “E só assim – olhando no olho, falando, abraçando e contando histórias sobre coisas boas – é que a gente se fortalece”

Um ambiente intimista, personagens e histórias adequadas desenvolvem um elo de afeto e respeito. Para a contadora de histórias, isso “é de uma grandeza que a gente não tem noção do sentido que faz na vida de uma pessoa”.
Foto: Arquivo pessoal
Para Alessandra Giordano, histórias têm o poder de curar

Veja abaixo a conversa que o iG Delas teve com a contadora de histórias Alessandra Giordano

iG: No seu livro Contar Histórias, a senhora esclarece que a origem dos contos orais está nas cantigas de ninar. Qual a importância de se contar histórias para bebês?

Alessandra Giordano: As informações que temos sobre a origem dos contos de tradição oral explicam que, na realidade, eles são as primeiras histórias que povoaram a mente do ser humano, ou seja, eles vêm das cantigas de ninar. Isso mostra a importância de se contar histórias para bebês., pois além do contato físico entre o contador e o ouvinte, a história contada cria um elo de afeto, fundamental para o desenvolvimento da criança.

iG: Quais são as características de um conto oral e o que ele tem de diferente de uma história escrita?

Alessandra: Os contos de tradição oral são os que não têm autores. Nasceram de crenças em comunidades tradicionalmente orais e existem desde antes da palavra escrita. Normalmente tratam do passado, não têm idade ou país de origem. São documentos históricos de uma comunidade, retratando o percurso de evolução de um povo, e colaboram também com as transformações necessárias nas relações humanas. Já os atuais têm autores que considero verdadeiros artistas da palavra.

iG: Com uma carreira como contadora de histórias, como a senhora define sua experiência?

Alessandra: Estou estudando a importância de se contar histórias na atualidade, a necessidade que o homem moderno tem de ouvir contos. Sou a quarta geração de contadora de histórias da minha família, vivo de narrar boas histórias. No meu consultório, utilizo esse recurso para auxiliar no desenvolvimento da criatividade. Já tive ouvintes em asilos e praças. Participei de um projeto que levava contos de fadas para meninos de rua. Para que eles pudessem ter acesso ao sonho, à fantasia, acreditarem que são capazes de construir a própria felicidade. É uma caminhada de muita satisfação. O conto adequado, na hora certa, despertando o interesse no ouvinte, é muito eficaz. Tenho percebido isso atuando no consultório. A melhor forma de ilustrar conhecimentos para as crianças também é contando histórias. É através de metáforas que elas compreendem melhor questões do dia a dia.

iG: Que função têm os contadores de histórias atualmente?

Alessandra: O mundo atual está muito frenético, o computador te coloca em contato com qualquer outro canto do mundo em segundos e isso rouba a quietude das pessoas, deixando tudo acelerado. Hoje a função do contador de histórias é a de resgatar a paz interna. A roda de contação de histórias serve para resgatar valores, respeito e solidariedade. Ainda ajuda na construção da própria comunidade. A necessidade de histórias hoje é mais que urgente, é preciso entender o por quê de se contar histórias, sua importância na sociedade como troca mútua de conhecimentos.

iG: Os pais podem assumir essa função para seus filhos?

Alessandra: Temos que pensar em um princípio básico. O ser humano precisa , antes de mais nada, cuidar de si mesmo. Um pai ou uma mãe que tem sua criança interna bem cuidada vai realizar uma troca com seus filhos. Ultimamente estamos escravos do relógio. Precisamos nos permitir tirar uma tarde para sentar e ler um conto. Pais e mães são sempre nossos heróis, tudo que eles ensinam são de primeira grandeza. É atribuída a Einstein uma frase sobre isso: “Se quiser que seus filhos sejam brilhantes, leia contos de fadas para eles. Se quiser que seus filhos sejam mais brilhantes, leia ainda mais contos de fadas.”

iG: Onde, para quem, por que e qual história contar são alguns pontos esclarecidos no seu livro. Como as pessoas podem contar uma boa história?

Alessandra: Contar histórias é uma arte e, como toda arte, possui segredos e técnicas. Estudando o poder da linguagem, a gente sabe que existem técnicas que podem ser facilitadoras para uma boa narrativa. É preciso convidar o ouvinte para ouvir uma história. É preciso instigar a imaginação das crianças, tentando despertar o interesse dela pela trama da história. O narrador precisa conhecer o público que vai ouvir aquela história para oferecer uma mensagem que faça sentido para o ouvinte. Não é fácil, pois para ouvir uma boa história é preciso concentração e o narrador precisa ter propriedade do que está falando, conhecer as informações que estão nas entrelinhas do conto. A história deve fazer parte do narrador até o momento em que ele não conta mais a história, mas canta. A mensagem flui de uma forma cantada, harmonizada, tocando o coração da sua audiência. É nesse momento que percebemos a sabedoria do contador, ao definir qual a mensagem que ele deseja transmitir para um público específico, naquele momento da narração.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Contar histórias para promover leitura

Lucia Helena L.Santos Silva e Sueli Rocha

Era uma vez um menino que adorava ouvir histórias antes de dormir.

A cada noite, um criado enchia sua imaginação de fadas, bruxas, dragões etc. O pequeno dormia feliz, exausto por vivenciar tantas aventuras, nas quais com certeza era sempre ele o herói, o vencedor. O menino era egoísta e, por mais que os amigos pedissem, não recontava a eles as histórias ouvidas. O tempo passou,o criado envelheceu, o menino cresceu e não quis mais saber de histórias. Eram outros os seus interesses, então. Já rapaz, apaixonou-se e quis casar. Um dia antes do casamento, o velho empregado foi ao quarto do noivo, ajudá-lo nos preparativos. Com surpresa, ouviu ruídos estranhos que vinham de um saco há muito esquecido atrás da porta. Veio-lhe à memória que aquele era o saco onde ficavam guardados os espíritos de todas as histórias que ele contava ao garoto, agora rapaz. Prestou atenção e ouviu que os espíritos das personagens que eram más planejavam uma vingança mortal àquele que, por egoísmo, manteve-os presos por tanto tempo. Os espíritos das personagens boas, por medo, mantinham-se calados. Usando de toda a sua experiência e sabedoria, o velho destruiu cada uma das armadilhas preparadas para o rapaz, matando até uma cobra escondida no quarto do jovem casal. A cobra foi o último recurso usado pelos espíritos maus em sua vingança contra o egoísta que os prendera durante tanto tempo. O criado contou então a todos sobre a vingança dos espíritos das histórias, esquecidos presos na velha sacola. Agradecido por ter sido salvo, o rapaz prontamente acreditou no que ouvira e, arrependido, prometeu que, de ora em diante, contaria muitas histórias. A cada história contada, os espíritos presos eram libertados para, felizes, povoarem a imaginação de outras pessoas.

Essa história (resumo do conto coreano "A sacola de couro", recontado por Zette Bonaventure, no livro "O que conta o conto?", publicado pelas Editoras Paulinas) nos faz refletir sobre quantos contos já não se perderam por falta de alguém que os contasse. Quem ainda se lembra de Pele de Asno, de A Moura Torta e das façanhas de Mata Sete? Esses e tantos outros estão à espera de serem servidos como um banquete a crianças ávidas de aventuras e emoções.

Esse conto nos remete também a uma outra reflexão: mudaram os tempos, mudam os costumes. À hora de dormir, o sono infantil era embalado por alguém de voz carinhosa que contava, contava e recontava mil e uma aventuras, abrindo as portas para o mundo da ficção. É evidente que poucos tinham criados contadores de histórias. Mas sempre havia uma avó, um pai, mãe ou tia a fazer, através da oralidade, o primeiro contato da criança com o mundo da fantasia.

E era essa fantasia que possibilitava à criança, sem sair do lugar, descobrir outros lugares e outros tempos, vivenciar as mais diferentes emoções (o riso, o choro,a raiva, a tranqüilidade), descobrir soluções para os próprios conflitos, viver outros papéis, identificar-se com personagens, enfim abrir os olhos para a vida e ver a vida com outros olhos.

Mudaram os tempos, mudam os costumes. Hoje, poucas famílias conservam o antigo hábito de contar histórias para as crianças à hora de dormir. Para quem ficou a função de provocar a imaginação infantil? Não queremos entrar na polêmica sobre o papel da televisão, nesse aspecto. A nossa preocupação é que a escola, que também deveria suscitar o imaginário infantil, dedica a essa tarefa um tempo insuficiente para obter algum resultado minimamente satisfatório.

Acreditamos que o professor, enquanto verdadeiro agente da ação educativa, deve tomar para si a função de estimular a imaginação dos alunos contando histórias de maneira natural, e sempre, não apenas na restrita "hora do conto". Vários são os momentos propícios para isso: um fato é melhor entendido se acompanhado de sua história: a história das grandes descobertas e invenções, as lendas, a história dos vencidos, a história da matemática, da mitologia greco-romana, por exemplo, podem servir como elementos instigadores da imaginação do aluno, levando-os a questionar, a formular hipóteses, a inventar outras histórias.

Ao contar histórias, o professor estabelece com o aluno um clima de cumplicidade que os remete à época dos antigos contadores que, em volta do fogo, contavam a uma platéia atenta as histórias de seu povo, as origens das coisas, os costumes, os valores etc. Para que não precisemos inventar a roda a cada dia, é necessário que o patrimônio cultural que a humanidade acumulou durante séculos seja conhecido pelas novas gerações. E nada melhor do que contar histórias, para fazer reviver o que existe na memória coletiva. A esse respeito o escritor uruguaio Eduardo Galeano escreveu em A paixão de dizer/2:

"Esse homem, ou mulher, está grávido de muita gente. Gente que sai por seus poros. Assim mostram, em figuras de barro, os índios do Novo México: o narrador, o que conta a memória, coletiva, está todo brotado de pessoinhas" (O livro dos abraços, L&;PM).

É que, ao narrar um conto da memória coletiva, o professor/contador reativa uma cadeia de contadores de histórias que vem do início das civilizações até os nossos dias. É difícil imaginar, por exemplo, por quantas bocas passou o conto "Festa no Céu" (cujos registros em cerâmica e tapeçaria datam do século IV A.C., como relata Maria Clara Cavalcanti de Albuquerque, em Kayuá - o dom da palavra, monografia não editada, 1998) para chegar aos nossos dias, contando uma história tão atual como a das artimanhas de alguém que quer entrar numa festa como "penetra", por não ter sido convidado. A voz do contador de história perpetuou esse e outros contos da tradição oral. Nas sociedades primitivas africanas, ainda não abrangidas pela escrita sistematizada, os contadores de histórias (os "griots"), considerados verdadeiras bibliotecas vivas, são poupados até das guerras "paraque continuem narrando as proezas dos povos africanos" (Barbosa, R. A., Bichos da África 2, editora Melhoramentos). A importância desses contadores de histórias é tal que, segundo Alex Haley, em Negras Raízes (editora do Círculo do Livro), "quando um griot morre é como se toda uma biblioteca tivesse sido arrasada pelo fogo".

Mudaram os tempos, mudam os costumes. A platéia não se reúne mais em volta do fogo, mas numa escola: as histórias saídas da boca do velho contador foram parar dentro dos livros. Os contadores de histórias, no entanto, continuam sendo cada vez mais necessários. Por quê? É preciso lembrar que os livros só são úteis se existissem leitores. A escola, preocupada com a ação de ensinar a ler, relegou a um último plano a formação de leitores, assunto complexo, mas que certamente passa pelo estímulo à leitura pelo simples prazer de ler. Ler pelo gosto de ler, sem cobrança maior que a de deixar a imaginação correr solta para criar outros mundos. Então os contadores de histórias, os professores contadores de histórias são necessários, sim. São eles o elo entre a criança e o livro. Enquanto ouve uma história, o aluno transforma-se em produtor de texto, em co-autor da história que lhe é contada, pois com as pistas que a voz do contador lhe oferece, desenha na cabeça épocas, lugares, personagens. E a voz do contador, atenta à reação da platéia, alteia-se, sussurra, faz pausas, treme, transforma a leitura do conto num mágico momento de cumplicidade. Terminada a história, o ouvinte quer prolongar seu prazer de ouvir. É a hora em que o professor contador deve promover o encontro entre o aluno e o livro onde está a história contada; é a hora de ler o registro escrito e a ilustração, é a hora de confirmar/negar as hipóteses levantadas enquanto a história era ouvida. É também a hora em que o ouvinte/leitor percebe que pode reler os trechos de que mais gostou, pular páginas, ler uma frase aqui, outra ali, enfim, pode escolher o rumo de sua leitura e ir em busca de outras histórias do mesmo autor ou de outras histórias do mesmo gênero, trilhando os caminhos para a sua formação de leitor crítico, constatando, cotejando, transformando, como diz o Prof. Dr. Ezequiel T. Silva, em O ato de ler (editora Cortez: Autores Associados).

O que temos comprovado na prática é que, depois de ouvir uma história bem contada, a reação imediata do aluno é pedir o livro para ler. O professor que se preocupa com a promoção da leitura deve disponibilizar para os alunos livros dos mais variados gêneros e autores, gibis, jornais e revistas, de forma a possibilitar-lhes a ampliação do repertório enquanto leitores.

O ser humano é, por natureza, contador de histórias. Algumas técnicas e vivências podem ajudar o professor a utilizar bem essa característica que lhe é própria. Dessa forma, a atividade de contar histórias pode se transformar num importantíssimo recurso de formação do leitor para toda a vida e não apenas para a escola.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

ONG Roedores de Livros

Manhãs cheias de histórias

Há cinco anos, a ONG Roedores de Livros, do Distrito Federal, desperta o interesse pela leitura em crianças de baixa renda através de contações de histórias, músicas e atividades artísticas

Bruna Menegueço

Os Roedores Celio, Tino, Ana Paula e Edna

Era uma vez um rei que, pasmem... comia histórias!!! Gente que come ouro, criancinhas, camarão, torta de maçã, caviar ou filé mignon é fácil de encontrar. Mas... HISTÓRIAS??? Pois esse rei comia toda e qualquer tipo de livro que à sua frente, do lado ou atrás aparecesse. Ordenava a seu criado Filé que untasse as páginas. De manteiga, mas só do lado de dentro. Nas bordas, capa e contracapa, nunca. Todo esse cuidado para que ele, o rei, não lambuzasse as pontas dos dedos.”

O livro O Rei da Fome (Ed. Ediouro), de Marilda Castanha, está ali bem à frente de uma turma de 40 crianças. Elas estão atentas ouvindo uma outra turma, só que de adultos, lendo pausadamente com a entonação que a narrativa pede. Aos poucos, algumas começam a se levantar. Querem ver os desenhos do livro, sentir as folhas de papel, entrar na história. “Tem de conquistar devagarzinho até chegar o momento em que eles não vivem mais sem os livros”, diz Ana Paula Bernardes, coordenadora do Roedores de Livros, ONG que já carrega no nome o tamanho da paixão pela leitura. Há cinco anos, ela reuniu os amigos Celio Calisto, Edna Freitas e o marido, Tino Freitas, para contagiar as crianças da cidade de Ceilândia, a 26 quilômetros de Brasília, com contações de histórias, músicas e atividades de artes plásticas.

Foi Ana Paula que teve a inquietação. O seu trabalho com formação de professores em literatura infantil, pela Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (onde trabalha até hoje), caminhava muito bem, mas faltava o principal: estar com as crianças. O desejo ganhou reforço quando Ana precisou criar um projeto de incentivo à leitura para uma biblioteca da região, trabalho que coordenou por seis meses. No final do projeto, ela quis continuar a atividade e convidou os três parceiros para montar a ONG. Pesquisaram lugares e conheceram comunidades até escolherem a cidade de Ceilândia e firmar parceria com um centro comunitário da região. O desafio era convencer os pais a levarem os filhos ao local. O boca a boca levou 900 crianças até eles, mas a cada ano um fiel grupo de 40 todo sábado de manhã estão lá, prontas para uma nova história.

Em cada encontro são apresentados três livros. Músico, jornalista e escritor, Tino diverte as crianças com a ajuda do violão, e as massinhas, pinturas e colagens também entram nas atividades semanais. O resultado se torna mais claro a cada semana: “No início, algumas crianças eram briguentas e não conseguiam focar na história mas, aos poucos, foram ficando mais atentas. E o mais importante é saber que o livro passou a fazer parte da vida delas durante a semana também”, conta Ana Paula. Isto é, de fato, a grande mudança, pois as crianças podem levar os livros para casa, de um acervo de mais de 800 obras adquiridas por doação.

Os Roedores (que têm um blog chamado roedoresdelivros.blogspot.com) precisaram trocar de lugar várias vezes e, desde março, estão em um espaço no shopping popular de Ceilândia. O fôlego vem das crianças. “É lindo quando um deles pede para ler um livro e sabemos que nenhuma história termina ali. Afinal, a história dessas crianças está só começando”, conta Ana.

Esta é uma reportagem do Projeto Generosidade. Todas as revistas da Editora Globo participam desta ação por um mundo melhor. Conheça os detalhes pelo site




terça-feira, 3 de agosto de 2010

Contadores de histórias encantam gerações e incentivam a leitura

Ana Clara Brant  Publicação: 22/06/2010

“Certa palavra dorme na sombra de um livro raro. Como desencantá-la? É a senha da vida, a senha do mundo. Vou procurá-la. Vou procurá-la a vida inteira no mundo todo. Se tarda o encontro, se não a encontro, não desanimo, procuro sempre…”Palavra mágica, poema de Carlos Drummond de Andrade, trata do poder e da magia que a palavra, o grande instrumento dos poetas, exerce.

Tino Freitas, do Roedores de Livro:
mercado de contadores está crescendo

Seja na forma escrita, falada, jamais podemos subestimá-la. Um dos ofícios mais antigos de que se têm notícia, os contadores de história(1) sabem como ninguém desse fascínio. E é através dela, da palavra, que eles vêm encantando gerações. “Além de você exercitar o prazer de ouvir, ainda mais nesse mundo tão conturbado em que vivemos, onde quase não há espaço para se escutar, a gente ainda consegue dar ênfase ao valor da palavra. O contador resgata esse ouvir e esse falar. Quando conto uma história, tento potencializar cada pessoa a contar depois a sua história. A gente faz com que o indivíduo se exponha à criação e deixe-se transformar por esse jogo”, ressalta Elisete Teixeira, atriz e uma das precursoras na arte de contar histórias em Brasília.

Contadores de história. - (Clara Rosa/Divulgação)

Se antigamente as histórias eram contadas somente pelos pais e avós na cabeceira da cama ou ao redor de uma fogueira, hoje, o contador se tornou uma profissão e está presente nas escolas, shoppings, praças, hospitais e feiras. A essência de narrar não mudou, mas muitos grupos se valem de outras técnicas como o teatro, os bonecos e a música para dar uma incrementada nas fábulas, contos e lendas.

Contadores de história. - (Clara Rosa/Divulgação)

As meninas do Tagarelas, por exemplo, grupo criado há 15 anos por Miriam Rocha e Simone Carneiro, apresentam as histórias utilizando recursos como fantoches, avental chinês, instrumentos musicais e painéis, e acreditam que eles ajudam a dar mais dinâmica e a estimular a imaginação de quem está ouvindo. “São artifícios que os contadores têm na hora de narrar. Mas a base é a oralidade mesmo. Percebo que há uma carência não só nas crianças, mas nos adultos em estar ouvindo histórias. Além do mais, sentimos a necessidade de resgatar as histórias infantis, que vêm sendo atropeladas por uma onda tecnológica onde as crianças se fecham em um mundo individualista”, acredita Miriam.

Contadores de história do Grupo Tagarelas - (Léo Carvalho/Divulgação)

Já a contadora e escritora Clara Rosa afirma que a meninada do século 21 gosta sim dessa onda high tech, mas não deixa, jamais, de ser criança. “Contar histórias é uma arte, uma magia que encanta qualquer um. Mesmo com a tecnologia, o videogame, o computador, a criança não deixa nunca de se sentir atraída pela contação, porque ela se transporta para um outro mundo, viaja para um universo que é só dela, que ela fantasiou. E o mais interessante é que isso não fica restrito aos pequenos. Gente de todas as idades se deixa seduzir pela contação de histórias”, opina ela, que organiza a cada dois meses um sarau na Biblioteca Demonstrativa de Brasília com vários contadores de histórias da cidade e um convidado de fora. “Nossa intenção agora é realizar um Festival Internacional de Contadores de História em Brasília, algo que nunca teve por aqui”, espera.

Crianças assistem ao grupo de contadores de histórias
 Matrakaberta, no Boulevard Shopping
 (Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Para Tino Freitas, do Roedores de Livro, um dos grupos do ramo mais conhecidos na cidade, quando se conta histórias com paixão, independentemente da forma que for, o ganho pessoal acontece antes da apresentação, quando o contador — que, segundo ele, deve ser antes de tudo um bom leitor — mergulha nos livros, na cultura do mundo, para escolher o que vai contar para o outro. “Aí, acontece a outra mágica, que é dividir com o outro essas histórias, o prazer de conhecê-las, a alegria de contá-las e, quem sabe, incentivando-o a contar a outro também, independente da forma”, destaca.

Tradição oral

Os contadores de histórias têm suas origens na tradição oral, pois o conhecimento era transmitido verbalmente de uma geração para outra; graças à oralidade, as sociedades antigas foram preservadas. Na década de 1970, nos Estados Unidos, muitos narradores tornaram-se profissionais da literatura oral. Um resultado disso foi a criação da National Association for the Perpetuation and Preservation of Storytelling (NAPPS), agora National Storytelling Network (Rede Nacional de Literatura Oral), que auxilia a angariar recursos para narradores e organizadores de festivais.

Resgate de tradições

Um dos principais benefícios proporcionados pela arte de contar histórias é o estímulo à leitura e o resgate de narrativas e personagens dos tempos da carochinha. O músico Marcelo Tibúrcio e a esposa, a pedagoga e professora Adriana de Oliveira Maciel, criaram o grupo Matrakaberta, de Taguatinga, que segue bem a linha tradicional dessa manifestação artística. “Fazemos um trabalho de incentivo à nossa cultura, ao nosso folclore. As crianças conhecem o Mickey, o Tarzan, a Bela Adormecida, mas não sabem quem é o caipora, o saci, a burrinha. Por isso a gente tenta resgatar essa tradição dos nossos avós. O nosso modo de contar é bem próximo do tradicional”, comenta Marcelo.

Crianças assistem ao grupo de contadores de histórias
Matrakaberta, no Boulevard Shopping
 (Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Para Adriana, o contador tem um papel fundamental na formação das crianças, pois, por meio da maneira que narra, vai despertar ou não a curiosidade delas. “Através da contação de histórias, a gente pretende incentivar a imaginação e a expressão criativa, além do gosto pela leitura. O ser humano, por natureza, gosta de imaginar. Está na sua essência, principalmente da criança. A nossa função é estimular esse terceiro olho também”, destaca a contadora do Matrakaberta que se apresenta gratuitamente no projeto Hora Animada, do Boulevard Shopping, todos os sábados à tarde.

Performance

Mesmo com um número razoável de grupos, Brasília ainda engatinha na contação de histórias, se comparada aos grandes centros do país, como Rio e São Paulo. A cidade ainda carece de espaços e, sobretudo, divulgação. Tino Freitas, do Roedores de Livro, revela que sente que o mercado está crescendo por aqui, embora isso esteja muito restrito ao público infantil. “Há algumas pessoas que se destacam pela performance ou por estar há mais tempo em atividade. Mas ainda cabe ousar no repertório e valorizar o cachê. Acredito que, se alguém se aventurar a contar histórias com paixão e talento para adultos, encontrará um público extenso e atento. É uma área ainda pouco enveredada por aqui. Mas fica o recado: o público, mesmo infantil, tem que ser tratado com inteligência e respeito”, defende.

Contadores de história. Juliana e Tino Freitas (Ana Paula Bernardes/Divulgação)

Aldanei Menegaz, do grupo Eu Vou te Contar, está desenvolvendo uma dissetação de mestrado em que traça um panorama dos contadores de história no Distrito Federal e diz que está se surpreendendo com o número de pessoas, principalmente, de professores que querem aprender esse ofício.

Para saber mais







segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Projeto Maracatando - Incentivar a prática da leitura de forma lúdica

Artigo: Projeto Maracatando
Autores: Luciane B. Lima, Marcelo Gabriel da Silva
Resumo: Projeto idealizado pela bibliotecária Luciane B. Lima e o professor de percussão Marcelo Gabriel da Silva com parceria da Oficina de Contação de Histórias e Maracatu, que busca incentivar a prática de leitura através do lúdico e da imaginação usando instrumentos musicais e bonecos. Este projeto ganhou o IX Prêmio Laura Russo sob o tema Empreendedorismo Social em 2010.

Texto Completo: PDF
 
FonteRevista CRB-8 Digital
 

Livros e música: no combate ao racismo


Criatividade premiada

Em março, o Maracatando esteve entre os nove projetos vencedores do IX Prêmio Biblioteconomia Paulista Laura Russo. A premiação, instituída em 1998, é uma iniciativa do Conselho Regional de Biblioteconomia do Estado de São Paulo e tem como objetivo dar reconhecimento a bibliotecários, estudantes e instituições que desenvolvam ações significativas de incentivo à leitura, à pesquisa e à organização de bibliotecas e outros espaços culturais gerenciados por bibliotecários. O tema da última edição era Empreendedorismo Social. "Ganhar este prêmio foi algo mágico, porque consagra o trabalho do bibliotecário como educador social. Para mim, especialmente, foi um prêmio na vida", comemora Luciane. A premiação também serve de incentivo para dar continuidade e ampliar o projeto. Em 2010, o Maracatando deverá ser apresentado a mais 120 novos educandos e, embora ainda não existam recursos para isso, a vontade de seus criadores é de levarem a ideia para outros lugares, se possível para outras instituições de ensino público em regiões carentes da cidade de São Paulo e, quem sabe, também para outros estados brasileiros. Enquanto isso não acontece e paralelo à sua atuação na ONG, Marcelo faz o trabalho de formiguinha improvisando apresentações nas comunidades por onde passa. "Eu chego ao lugar e converso com quem for preciso, ainda que seja alguém do movimento do tráfico, e peço licença para levar o meu trabalho".


 Fonte: Revista Raça

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Contar histórias vira profissão requisitada

Por Amanda de Santa

A atividade exige, além de técnica, bagagem cultural e imaginação

“Era uma vez uma galinha que nasceu de cara pra trás. Jerusa, como era chamada, andava pra frente como se fosse pra trás, ou pra trás como se fosse pra frente. Era muito engraçado.” Este é um trecho de uma das obras de Sebastião José Narciso - mais conhecido como “Tião Balalão” -, sociólogo e escritor londrinense, que trabalha dando vida a histórias tiradas das páginas de seus livros infantis. Ele, que cresceu ouvindo histórias, hoje leva educação, fantasia e encantamento a crianças e adultos. “Trabalho rindo, brincando. Faço porque gosto, porque é assim que eu sei”. A atividade se tornou profissão em 2001, quando Tião foi convidado a participar de uma oficina de narração de histórias durante o Festival Internacional de Londrina (Filo). O escritor, que perdeu a visão em um acidente automobilístico, se espelhou na própria superação para escrever duas coleções de livros infantis – Engenho da Imaginatião I e II – financiadas pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic). “Em todos os livros existem personagens que possuem alguma diferença. São histórias cômicas, de superação”, explica. Para o professor de literatura, doutor em Educação e diretor das bibliotecas de Londrina, Rovilson José da Silva, as histórias são alimento para imaginação, fantasia e espírito. Ele diz que o homem é um ser narrativo por natureza. “Sempre existe algo a contar, seja vivido ou imaginado. Faz parte da busca da nossa essência”, afirma. Segundo Silva, a tendência é que a profissão de contar histórias cresça cada vez mais no Brasil, devido às perspectivas de ampliação das bibliotecas e incentivo a leitura. “Hoje a profissão tem sido muito requisitada, porque é uma ferramenta da educação”, confirma Tião Balalão. O que mais o deixa feliz é o reconhecimento. Se engana quem pensa que o único público dos contadores são as crianças. A atividade de narrar histórias se tornou negócio de gente grande e tem atraído e agradado muitos adultos. “Muitas empresas me convidam para contar aos funcionários histórias de motivação”, revela Tião. O diretor das bibliotecas de Londrina, Rovilson da Silva, diz que o contador profissional prende a atenção de seus ouvintes pela oralidade e habilidade de conduzir a palavra. “Técnica, roupa ou objeto algum suplanta o talento do contador”, garante. Ele afirma que Londrina já tem profissionais realizando este trabalho com eficiência e maturidade.

A bibliotecária e professora do departamento de Biblioteconomia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Sueli Bortolin, ministra cursos de narração de histórias, mas diz que mais do que técnica, o profissional precisa de uma boa bagagem cultural e de imaginação. “Narrar é sentir o texto, gostar e vibrar com ele. Passar calor, emoção, permitir flexibilidade e interação com a plateia. Falar com os olhos e com o corpo”, descreve. Serviço: Tião Balalão – 3341-6106 / 9991-3284. www.engenhodaimaginatiao.com.br

Histórias têm o poder de humanizar Histórias são capazes de despertar diversas sensações nos ouvintes. Emoções e sentimentos variam desde alegria, tristeza, susto e alívio. Para a professora pedagoga, Silvia Bortolin Borges, a história amadurece, transforma e faz o espectador entrar em contato com situações da realidade. “Tem histórias que continuam comovendo as pessoas. O tempo não consegue apagar o brilho”. Ela aponta que, recursos como bonecos e teatro de sombra, ajudam enriquecer a narrativa.

Silvia e a irmã, Sueli Bortolin, bibliotecária e professora da UEL, cresceram ouvindo histórias e levaram adiante a tradição familiar. Sueli vê a literatura como uma forma de humanização. Para ela, conviver com personagens de todo o tipo estimula o próprio auto-conhecimento e a preocupação com o outro. “As pessoas não se sentem sozinhas quando comparadas aos personagens”.

Fantasia

A professora, Jaqueline Pucci, é responsável pela “Hora do Conto” - do projeto “Bibliotecas Escolares: Palavras Andantes” da prefeitura de Londrina – na Escola Municipal Eurides Cunha. Ela afirma que nem crianças nem adultos devem ser privados da fantasia. “Tem histórias que até hoje eu conto e me emociono”, confessa. Jaqueline diz que narra a mesma história para crianças do pré a quarta-série. Após a narração, professora e alunos conversam sobre o tema. “É uma realização muito grande, experiência enriquecedora”.

Mercados de atuação e remuneração

Os valores de remuneração do contador de histórias variam muito de acordo com o tempo de duração da apresentação e também da platéia. A média, segundo o contador Tião Balalão, é de R$ 200 por apresentação de uma hora e meia. Este profissional pode atuar em qualquer espaço coletivo que não tenha sons capazes de intervir na narração: em eventos culturais, escolas, creches, empresas. Tião Balalão diz que pretende atuar também em hospitais, mas de forma filantrópica. “Já cheguei a cumprir um cronograma de 20 narrações por mês.”

Matéria publicada em 07/06/2010

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Biblioteca na escola é obrigatório. E agora?

Não basta um acervo primoroso: leitura se dá por afeto também na escola

Cristiane Rogerio
Quando hoje penso na palavra biblioteca, duas imagens me veem à mente. Uma é da minha infância com os amigos na escola explorando a biblioteca sem muita supervisão. Éramos “livres” para ficar na Chácara do Castelo, no bairro da Vila Mariana. Mas a liberdade tinha um preço: não está nas minhas lembranças alguém que me inspirasse a ler. O que fazíamos acontecia por nós mesmos.

A segunda imagem é a primeira entrevista que fiz aqui com a escritora Ruth Rocha. Ela ficava na biblioteca de um colégio em São Paulo. E me contou que os alunos adoravam pedir indicações para ela. Lógico! Ruth desde que aprendeu a ler é uma apaixonada por livros. Imagine o quanto ela contagiava os alunos?

Hoje eu estou fazendo uma pós-graduação chamada A Arte de Contar Histórias e há muitas bibliotecárias na minha turma. Muitas apaixonadas por histórias e que fazem de tudo para inspirar leituras.

Este é o aspecto principal a ser discutido a partir da publicação no Diário Oficial da União da lei que obriga todas as instituições públicas e privadas de ensino do país a ter uma biblioteca. Na lei há até um número: pelo menos um título por aluno matriculado. Ótimo. Repertório tem a ver com quantidade, sim. Mas não basta. Também citaram que cabe à escola divulgação, preservação e funcionamento das bibliotecas escolares. E divulgação tem a ver com deixar o espaço disponível. E preservação tem a ver com cuidar. Mas não pode ser proibido entrar. Livro mexido, livro ‘velhinho’ é livro lido.

Tem que ter AÇÃO. Precisa ter interação com outras atividades da escola. Tem que fazer parte. O aluno precisa ter a biblioteca da escola como um refúgio, um lugar para sonhar, ser. Para se emocionar, aprender, descobrir. Muitas vezes guia demais atrapalha. Precisa ter estímulo, trabalho focado, claro. Mas precisa de liberdade. Ler é libertar-se. Inclusive na biblioteca. Mesmo que em silêncio.

Para quem quiser ideias, temos sempre o Livros Pra uma Cuca Bacana com resenhas novas todos os meses e, nesta sexta-feira, a novidade: a lista dos 30 Melhores Livros Infantis do Ano! A nossa exclusiva lista sai pelo quinto ano consecutivo (e está maravilhosa!).

Cristiane Rogerio é editora de Educação e Cultura da Crescer e adora se perder entre os livros.


Fonte: Revista Crescer

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A importância de contar histórias para as crianças

Cláudia Marques Cunha Silva

Como recurso psicopedagógico a história abre espaço para a alegria e o prazer de ler, compreender, interpretar a si próprio e à realidade

Por que contar histórias para as crianças?

A história é uma narrativa que se baseia num tipo de discurso calcado no imaginário de uma cultura. As fábulas, os contos, as lendas são organizados de acordo com o repertório de mitos que a sociedade produz. Quando estas narrativas são lidas ou contadas por um adulto para uma criança, abre-se uma oportunidade para que estes mitos, tão importantes para a construção de sua identidade social e cultural, possam ser apresentados a ela.

Qual a diferença entre ler e contar uma história?

São duas coisas muito diferentes, porém ambas muito importantes. Um texto escrito segue as normas da língua escrita, que são completamente diferentes daquelas da linguagem falada. Quando uma criança ouve a leitura de uma história ela introjeta funções sintáticas da língua, além de aumentar seu vocabulário e seu campo semântico. Porém, aquele que lê a história deve dominar a arte de contá-la, estar preparado suficientemente para fazê-lo com apoio no texto, sabendo utilizar o livro como acessório integrado à técnica da voz e do gesto.

Além disso, quem lê para uma criança não lhe transmite apenas o conteúdo da história; promovendo seu encontro com a leitura, possibilita-lhe adquirir um modelo de leitor e desenvolve nela o prazer de ler e o sentido de valor pelo livro.

Há opiniões divergentes neste campo: alguns autores consideram que o contador sem o livro tem mais liberdade de acentuar emoções, modificar o enredo segundo as reações da criança e portanto, melhor comunicação com o público infantil. Teria ainda mais disponibilidade para trabalhar sua voz e seu gesto.

Somos partidárias, neste aspecto de que o importante é como ler e como contar, porque é preciso que se tenha técnica e preparo para despertar o desejo e o prazer das crianças.
Para que contar histórias?

Um dos principais objetivos de se contar histórias é o da recreação. Mas a importância de contar histórias vai muito além. Por meio delas podemos enriquecer as experiências infantis, desenvolvendo diversas formas de linguagem, ampliando o vocabulário, formando o caráter, desenvolvendo a confiança na força do bem, proporcionando a ela viver o imaginário.

Além disso, as histórias estimulam o desenvolvimento de funções cognitivas importantes para o pensamento, tais como a comparação (entre as figuras e o texto lido ou narrado) o pensamento hipotético, o raciocínio lógico, pensamento divergente ou convergente, as relações espaciais e temporais( toda história tem princípio, meio e fim ) Os enredos geralmente são organizados de forma que um conteúdo moral possa ser inferido das ações dos personagens e isso colabora para a construção da ética e da cidadania em nossas crianças.

Como selecionar histórias para ler ou contar?

Segundo Luiza Lameirão, existem dois tipos de histórias: aquelas que servem de alimento para a alma, permitindo a transmissão de valores e de imagens arquetípicas fundamentais para a construção da subjetividade; e aquelas que servem para despertar o raciocínio e o interesse da criança para formas de agir e estar no mundo

- são chamadas histórias matéria - importantes para a estruturação dos aspectos objetivos de nossa personalidade. Estas últimas devem ser selecionadas de acordo com o desenvolvimento cognitivo do ouvinte porque exigem maior compreensão racional e analítica.

Como se aprende a contar histórias?

Em cursos de capacitação pode-se adquirir as competências necessárias para se contar histórias, aprendendo as técnicas básicas de voz, gesto, materiais de apoio, dentre outras.

Podemos destacar algumas orientações básicas para contar histórias:

· Escolha leituras que tenham ligação direta com o sexo, a idade, o ambiente familiar e o nível sócio econômico da clientela.

· Incentive as crianças diariamente, contando pequenas histórias sem mesmo ter o livro nas mãos.

· Use entonação de voz atraente, sem exageros, faça suspense, faça drama, se emocione, expresse sua opinião sobre o tema e dê oportunidade para que a criança também apresente sua opinião.

· Enriquecer a narração com ruídos (onomatopéias) como miau! Au! Au!

· Movimente o corpo (olhos, mãos e braços), mas sem exageros.

· Evite cacoetes como: aí... então... entenderam... não é?

· Crie a “hora da história”. Na escola, um bom horário é após o recreio para acalmar a turma; em casa pode ser à noite, antes de dormir;

· Determine um dia ou horário para cada aluno ler ou contar uma história. Não force mingúem.

· Em casa, estimule a criança a recontar a história que ouviu; compre livros, dê livros de presente em aniversários, natal e outras festividades;

· Sempre que possível sente-se no nível das crianças.

· Explique quando necessário, o significado das palavras novas.

· Preserve a atenção das crianças no local em que a história está sendo contada. (muito barulho, pessoas estranhas interrompendo, etc.).

Quais as implicações psicopedagógicas do ato de contar histórias?

A história, como já foi dito, possibilita a articulação entre objetividade e subjetividade, espaço “ entre “ no qual se situa o trabalho psicopedagógico. É, portanto, um recurso que pode ser usado tanto no diagnóstico como na intervenção psicopedagógica em instituições e na clínica. O conteúdo mítico, as ações praticadas pelos personagens, os valores morais implícitos na narrativa, permitem projeções que facilitam a elaboração de questões emocionais, muitas vezes expressas como sintomas que se apresentam na aprendizagem. A compreensão dos enredos, a análise dos conteúdos, a estrutura lingüística subjacente ao texto, permitem ao profissional investigar questões cognitivas presentes nas dificuldades do processo de aprendizagem.

Como recurso psicopedagógico a história abre espaço para a alegria e o prazer de ler, compreender, interpretar a si próprio e à realidade.

Cláudia Marques Cunha Silva - Mestra em Engenharia de Produção com ênfase em Mídia e Conhecimento pela UFSC; Psicopedagoga, coordenadora do Núcleo Sul Mineiro da ABPp; Docente de vários cursos de Pós-Graduação em Psicopedagogia no sul de Minas, tais como: UNINCOR, UNIVAS, UEG-Campus Divinópolis, UCAM, UVA (Convênio com Aprender-atividades integradas) e FEFC- Formiga.

domingo, 7 de março de 2010

Regina Machado, contadora de histórias

Para a contadora de histórias Regina Machado, as narrativas servem para hidratar a alma. Ela chegou a essa conclusão enquanto narrava o conto “O Espelho”, de Machado de Assis, para uma turma de adolescentes. A capacidade de encantar a plateia com as palavras, acabou por encantá-la. Idealizadora do Boca do Céu, encontro internacional de contadores de histórias que acontece em maio, no Sesc Pompéia, Regina também organiza, ao lado de Leandro Medina, o Saravau: mistura de sarau com saravá, que reúne artistas consagrados e anônimos numa epopéia de música, dança, teatro, gastronomia e, claro, histórias.

Existem várias formas de contar uma história (Parte 1/3)


A importância das histórias no mundo de hoje (Parte 2/3)


Existem histórias comuns aos países (Parte 3/3)


Fonte: Veja

segunda-feira, 1 de março de 2010

Projeto de incentivo à leitura para alunos especiais

Na biblioteca Helena Kolody acontecem atividades muito criativas de incentivo à leitura e de formação de leitores

(foto: Maurilio Cheli/SMCS)


A biblioteca Helena Kolody, da Escola Municipal de Educação Especial Helena Wladimira Antipoff, no Boqueirão, tornou-se um dos espaços preferidos de boa parte dos 333 estudantes da escola. No espaço, inaugurado em agosto do ano passado, acontecem atividades muito criativas de incentivo à leitura e de formação de leitores. Além do empréstimo de livros, gibis, jornais e revistas, a biblioteca é o cenário onde histórias são contadas com a ajuda de livros fantoches, música e de outros objetos lúdicos.

As atividades na biblioteca são desenvolvidas pela agente de leitura Diane Rauber Krackeker, que é professora de literatura da escola com formação em educação especial. O projeto de incentivo à leitura envolve desde os bebês até estudantes de 30 anos atendidos na escola, todos com deficiência, e que estão encontrando na literatura uma fonte prazerosa para o desenvolvimento intelectual.

"A biblioteca e o acervo de boa qualidade nos dão condições de executar projetos e atividades que auxiliam no desenvolvimento destes estudantes com características e necessidades diferenciadas", diz a professora Diane.

Cada turma representa um desafio diferente para a professora Diane que organiza momentos diferenciados, considerando as necessidades de cada novo grupo de estudantes que entra na biblioteca. "A escolha dos livros é muito subjetiva por isso deixo que eles optem pelo que querem ler. A partir daí elaboro uma forma de fazer com que o estudante interaja com a história. Pode ser com cartazes, com a ajuda da música, cartazes ou de fantoches", diz a professora.

Localizada em uma sala estratégicamente construída na entrada da escola, para dar acesso à todos, incluindo as famílias, a biblioteca é uma das 120 unidades da Rede Municipal de Bibliotecas Escolares. Antes de ser inaugurada, a escola contava apenas com um espaço de leitura.

Dedicação - Integrada a rede, a biblioteca aumentou o acervo hoje formado por 2.300 títulos, computador e espaço para a leitura e a pesquisa. Todo o material está catalogado em rede, o que permite melhor organização e sistema de empréstimos para estudantes e para a comunidade. Além do espaço especialmente preparado e da riqueza dos livros que formam o acervo, a dedicação da professora Diane tem feito a diferença para que os estudantes descubram o prazer da leitura.

Ela foi responsável por transformar em fantoches de tecidos coloridos os personagens das histórias mais apreciadas pelos estudantes, como por exemplo, as centopéias da história "As centopéias e seus sapatinhos", escrita por Milton Camargo. "Eu adoro ouvir as histórias contadas com os fantósticos", disse a estudantes de 5 anos, Kethelin Amorin, referindo-se aos fantoches..

O silêncio das crianças para a contação de histórias e o envolvimento durante as rodas de leitura deixam claro a aprovação pelas atividades. "Eu adoro ver os livros e levar para minha casa. A minha mãe lê para mim e meus irmãos", disse Guilherme de Oliveira, de 10 anos.

Para o diretor da escola, Ronaldo Schwatz a criação da biblioteca e a integração em rede deram melhor organização aos trabalhos de literatura já desenvolvidos na escola. Pedagogicamente os ganhos também foram muito satisfatórios. "A dedicação da professora que tem estimulado a leitura está fazendo a diferença para os estudantes", disse Ronaldo que considera que para o estudante especial, a literatura tem o dobro de importância do que para o estudante do ensino regular.

"São estudantes com carência intelectual e social. A pobreza e a exclusão, realidade vivida pela maioria de nossos estudantes, podem ser causas da deficiência", diz Ronaldo. O diretor considera positivo os estudantes levarem para suas casas, livros de qualidade.

"A maioria tem jornais em casa porque é a matéria prima dos pais que trabalham com a reciclagem. Com a revista, gibi ou livro levados da biblioteca eles levam um pouco da escola para dividir com a família", diz Ronaldo.

Antes de 2005, a Rede Municipal de Ensino contava com 45 Faróis do Saber e 23 bibliotecas em escolas. Com a implantação da Rede de Bibliotecas Escolares, em 2005, o número de unidades dedicadas à leitura e pesquisa passou para 120, com previsão de chegar a 160 até 2012. O acervo da Rede é de 700 mil livros. O investimento da Prefeitura na formação de leitores inclui a formação e a permanência de agentes de leituras capacitados em todas as bibliotecas.

Fonte: Bem Paraná

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Leitura para idosos estimula que eles contem suas próprias histórias


Por Valéria Dias - valdias@usp.br

Uma atividade de humanização hospitalar implantada no Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) desde abril deste ano tem estimulado os pacientes com mais de 60 anos internados no Instituto de Ortopedia e Traumatologia (IOT). Trata-se da contação de histórias e do incentivo à leitura, iniciativas que, muitas vezes, acabam por levar os pacientes a relembrarem as suas próprias histórias, sua juventude e vivências.

A idéia é da Equipe da Brinquedoteca do IOT, com apoio do Comitê de Humanização do Instituto, coordenado pela terapeuta ocupacional Thais dos Reis Olher. Ela teve a idéia de implantar o projeto e orientou uma das recreacionistas do Instituto, Alexandra Cavalcanti, para que ela fizesse o curso Biblioteca Viva. Trata-se de um programa desenvolvido desde 1995 pela Fundação Abrinq em parceria com o Citigroup, com apoio do Ministério da Saúde, que tem o objetivo de fazer a “mediação” de histórias para o público infantil. “Mas logo em seguida, o grupo Viva e Deixe Viver, voltado para a infância e adolescência, começou a trabalhar com as crianças do Hospital. Então, para não repetir a mesma atividade, pensamos que poderíamos adaptar os conhecimentos adquiridos no curso Biblioteca Viva para o público da terceira idade”, conta Thaís. Segundo ela, existia uma demanda no sentido de oferecer alguma atividade recreativa aos internos desta faixa etária.

Uma vez por semana, Alexandra visita as enfermarias do IOT e se apresenta aos pacientes com mais de 60 anos, explicando como funciona o trabalho. Então ela pergunta se eles querem ouvir alguma história. Em caso positivo, o paciente escolhe se quer que ela conte ou se prefere ele mesmo ler o livro. “Em alguns casos, deixamos o livro com o paciente, que na semana seguinte faz comentários sobre a história”, afirma Thais. A atividade é voltada especificamente para o público da terceira idade, mas muitas vezes há um paciente mais jovem no quarto. Nesse caso, ele também é convidado a participar.

Segundo Thais, o resultado é muito bom, pois estimula muito o paciente idoso. Muitas vezes ao ouvir as histórias, ele acaba lembrando de acontecimentos que viveu na juventude, ou de hobbies que exerceu ou acaba associando com algo muito próximo e familiar. Então, é comum que eles não apenas ouçam, mas também contem suas próprias histórias de vida. Há ainda aqueles que acabam percebendo que já leram aquele livro. “Muitos deles acabam retomando o hábito da leitura, por vezes abandonado há alguns anos”, aponta.

A terapeuta ocupacional lembra que a terceira idade é a faixa etária mais suscetível a quedas e fraturas, motivos que ocasionam a maioria dos internamentos no IOT. “Então essa atividade ajuda os pacientes a amenizarem a internação, já que eles não conseguem esquecer que estão internados, e a tristeza que muitos sentem por estarem com problemas de saúde. Ao relembrar sua própria história, o paciente idoso, apesar de estar fragilizado, muitas vezes com fraturas, percebe que tem um lado saudável ligado a suas memórias de vida”, afirma Thais.

Livros, revistas e bíblia

Os livros utilizados na atividade vão desde “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry, passando por “Marcelo, Marmelo, Martelo”, de Ruth Rocha, até obras de grandes autores, como Érico Veríssimo. Thais explica que a proposta original é usar livros menores, de 20 a 30 páginas, com muitas ilustrações. Se o paciente gostar, o grupo oferece outra obra com um número maior de páginas para que ele leia até a semana seguinte. Há livros sobre os grandes mestres da pintura (que trazem muitas ilustrações) e sobre personagens de Walt Disney.

“Já tivemos pacientes que perguntaram se tínhamos a Bíblia. Havia um exemplar conosco e deixamos com eles”, conta. O grupo também dispõe de revistas de assuntos diversos, desde carros, semanais, de informação, para o público adolescente e até revistas de fofoca. Todo o material é fruto de doação de pacientes e funcionários. São realizados, segundo Thaís, cerca de 50 atendimentos por mês.

Thais comenta que essa atividade fez com que um paciente contasse toda a sua trajetória de internação dentro do Hospital das Clínicas. “Ele falou sobre todos os setores que já havia passado no HC e os motivos das internações. Por fim, disse que o melhor lugar que havia ficado tinha sido o IOT”, afirma. Segundo ela, uma das idéias do grupo, para o futuro, é passar a anotar essas histórias para publicá-las, seja interna ou externamente. “Mas por enquanto ainda estamos estudando essa possibilidade, firmando mais o projeto, para empreender a iniciativa”, finaliza a terapeuta ocupacional.

Mais informações: (11) 9602-0652 ou email humanizacao.iot@hcnet.usp.br, com Thais dos Reis Olher

Fonte: Agência USP

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Métodos para contar histórias

Principles of Story Telling, Barry McWilliams
Traduzido e publicado com autorização do autor.

Ao escolher um método, comece por analizar a história e qual o seu objetivo. Em geral use:
Narração: quando a história tem um enredo simples e elementos familiares.

Participação ou cantos: quando você tem partes que se repetem frequentemente e/ou frases engraçadas.

Material visual: quando a história for complicada ou contiver elementos desconhecidos.

Histórias caracterizadas: teatro, fantasias ou um único boneco. Quando o envolvimento ou o teatro ajudam a enfatizar a mensagem da história ou para facilitar a expressão de sentimentos e pensamentos interiores.

Dramatização: quando se quer ilustrar uma aplicação da mensagem ou se tem muitos personagens de igual importância.

Outras possibilidades são:

# Ler a história diretamente para as crianças. Ao se preparar leia a história diversas vezes e pelo menos uma vez em voz alta. Ao ler para as crianças seja tão animado como se estivesse contando-a; leia devagar e olhe nos olhos das crianças.

# "Vamos fazer de conta" muito bom para explorar atos e suas consequências.

# Contar uma experiência; algo que aconteceu a você, e de preferência que não te coloque como um "bom" exemplo.

# Discussão / perguntas e repostas (melhor com crianças mais velhas); lembre-se que uma história biblica não é uma palestra.

Métodos Envolventes:

# História participativa. Como quando um mágico usa alguém da platéia.

Em geral nós guardamos 60% do que fazemos, 30% do que apenas vemos e apenas 10% do que apenas escutamos.

# Coros, cantos e histórias com eco. O professor combina com as crianças uma frase ou atitude à qual elas devem responder com uma palavra ou gesto específico. Ou faça com que as crianças criem os efeitos sonoros de acordo com a história sempre que você indicar. É impressionante a quantidade de coisas que eles memorizam assim.

# Pantomima: É especialmente eficaz com grupos pequenos de crianças menores, em que eles "participam" na história ao representar.

# Teatralizando: apos contar rápida e resumidamente a história deixe as crianças se tornarem os personagens.

# Jogo de personificação: cada criança assume um personagem e deve reagir às situações que você apresenta.
Métodos visuais:

# Histórias em sequencia: a medida que a história evolui, use uma série de figuras para ilustrá-la. Livros de colorir são boas fontes de material; Cuidado com: temporização (para que as figuras não sejam apresentadas antes do fato), controle o interesse do grupo e não distraia a atenção deles dos pontos importantes.

# Quadros de Figuras ou palavras: A chave aqui é o elemento surpresa (o que será acrecentado depois?)

# Figuras misteriosas: a medida que a história é contada vá desenhando uma série de linhas e formas sem sentido até que as linhas se formem objetos reconhecidos que dão ênfase a partes da história. (Simplifique o trabalho fazendo os traços a lápis, bem claro, antes. Certifique-se que o quadro e o desenho são grandes o suficiente para ser vistos por todos. Falar e desenhar ao mesmo tempo é mais complicado que parece; conheça bem a história e pratique antes).

# Acrósticos: podem ser usados durante a lição preenchendo com as palavras no correr da história. (ex. escreva JESUS no quadro; a medida que a história continua escreva: José no J de Jesus, Esteve no E de Jesus, etc...

# Flanelógrafo: Muito útil se a sequencia, movimento e relacionamentos são importantes para a história.

Métodos visuais são especialmente importantes se objetos desconhecidos são parte da história. As vezes é melhor apresentar os objetos antes da história para evitar confusão durante a narrativa.

Outros métodos visuais incluem modelagem, dobraduras, quadros de giz, mapas...

Métodos dramáticos

Ao contar uma história, lembre-se que suas expressões faciais e gestos são tão importantes como o tom e o som da sua voz. Aprenda a exagerar emoções, desenvolva diferentes vozes e personalidades, conte histórias em "bumerangue", isto é você dialoga com você mesmo.

# História narrativa. O professor assume a postura de observador / testemunha, até as vezes usando uma fantasia. Ajude as crianças a "estar lá" com você, ver através dos seus olhos.

# Esquetes ou quadros vivos. A história toda ou partes são encenadas.

# Entrevista: onde o professor entrevista um personagem convidado (requer 2 pessoas ou você e 1 boneco)

Bonecos e fantoches.Existem diversos tipos de fantoches. Os mais simples podem ser feitos a partir de uma meia ou saco de papel ou simplesmente recortando silhuetas e colando-as a palitos de picolé.

Cada fantoche deve ter uma personalidade clara (ex. nervoso, tímido, orgulhoso.. ) e também uma voz que não devem mudar durante a história.

Não use fantoches apenas para narrar a história; converse com o boneco ou faça com que atuem.

Tome cuidado ao usar fantoches em um teatro, para que eles não caiam da cena, a medida que seus braços cansem e para que sua voz alcance a platéia. Cuidado com movimentos fora de sincronia, diálogos muito complexos e excesso de objetos e cenários. Mantenha contato visual (olhar) entre os fantoches e entre fantoches e crianças.

Cuidados gerais:

Atente para moralização: Nós estamos tentanto comunicar o amor de Deus para pecadores e não morais ou "faças" e "não faças". Não confunda o evangelho com a sabedoria da idade ou conselhos paternais.

Atente para possiveis erros de interpretação dos objetivos da lição. Cuide para não pegar as histórias literalmente ou carregá-las com outras conotações em detrimento da mensagem.

Fonte: Idéias e Dicas para Juventude Evangélica e Escola Dominical

Como contar histórias?

Como contar histórias?
 Principles of Story Telling, Barry McWilliams
Traduzido e publicado com autorização do autor. 
  • Passe segurança! Não se desculpe ao começar, nem em palavras nem com uma expressão corporal encurvada. 
  •  Conte em suas próprias palavras. Deixe a imaginação funcionar - isto é o que cria mágica e não malabarismos da memória. 
  • Se der branco, continue. Não faça caretas, chingue nem desculpe-se. Continue descrevendo detalhes de cores, locais.. isto estimula a imaginação e ajuda a memória. Ou então faça uma pausa, olhando todos nos olhos, como para levantar suspense (não olhe para o chão). Improvise!  
  •  Mantenha as histórias até 10 minutos de extensão. Ensaie e cronometre.
  • A introdução é crucial. Você vai ganhar ou perder nos 3 primeiros minutos dependendo de como você começa. 
  • Você tem que criar sua audiência no grupo de crianças, cada uma com seus próprios pensamentos e focos de atenção, antes que você possa começar a contar uma história para elas. Deve haver, na introdução, o indício de que coisas excitantes irão acontecer, incitando a curiosidade, unindo as crianças em antecipação. Não dê tudo na introdução. Sempre mantenha um certo nível de mistério, antecipação e surpresa durante toda a história.
  • Nós adultos tendemos a subestimar a capacidade das crianças de imaginar e fantasiar, e assim, muitas vezes fazemos muitos esforços para esplicar ou justificar o cenário, ou explicar tudo com detalhes. Na verdade, o que atrai as crianças é a possibilidade de entender os aspectos implausíveis da história depois; o que é ótimo, você tem a atenção delas e elas ficarão pensando no que você disse.
  • Para contar histórias você precisa de um pouco de habilidade em vendas, sinceridade (não tente fingir alegria, tristeza, etc.. seja verdadeiro!), entusiasmo (não significa ser barulhento ou articificial), animação (em gestos, voz, expressão facial) e mais importante, ser você mesmo.  
  • Nós queremos que a mensagem chege clara e bem definida. Nosso objetivo é comunicar as verdades da Bíblia de uma maneira pessoal e com uma aplicação clara. Seja qual for a maneira que você conte a história, tenha certeza de ser objetivo! Não assuma que as crianças vão entender. Torne a história o mais real possível. Não conte a história de uma maneira cansada ou mal resumida. Pule dentro da narrativa, com a mesma intensidade que os fatos... escolha UM ponto e conte-o como se fosse a notícia mais interessante do mundo.
  • Mantenha simples e direto.
  • Uma vez terminada a história, não fique divagando e corrigindo. Deixe os pensamentos das crianças presos no ponto da história, na mensagem central.
  • Quanto mais você praticar, melhores ficarão as suas técnicas. Teste diferentes métodos, seja criativo. Você sempre aprende com suas experiências. Não seja extremamente tímido ou preocupado "com o que os outros irão dizer se...". Não tenha medo de ser um palhaço ou fazer papel de bobo para Cristo e para as crianças. Humildade, amor e oração são elementos importantes para contar histórias, juntamente com criatividade e inovação. As crianças pegam muito mais do que a história de você; elas percebem o seu entusiasmo pessoal com a mensagem. Elas precisam ver que você foi tocado pela Palavra. Prepare o seu coração enquanto prepara a história.
  • Tenha certeza de colocar algum drama, suspense na história. Deve haver uma situação que dirija ao climax e ao final da história. O conflito pode ser introduzido imediatamente ou aos poucos para aumentar o suspense e a intriga. Tente levar os ouvintes a se preocupar junto com os personagens e se envolver com o que acontece.
  • O professor deve estudar a lição muito bem. Você precisa saber muita coisa para poder ensinar um poquinho.
  • Crianças aprendem com seus sentidos. Elas adoram sentir, cheirar, tocar, escutar e ver. Descreva personagens e locais vividamente, ajudando-os a solidarizar-se com os personagens.
  • Numa audiência mista, tente colocar a história ao nível do mais novo.

Características de uma boa história:
Tema único e bem definido; Enredo bem desenvolvido; Estilo: imagens vívidas, sons e ritmo agradáveis; Caracterização; Coerente com a fonte; Apelo dramático; Apropriado e adequado aos ouvintes.

  
Fonte: Idéias e Dicas para Juventude Evangélica e Escola Dominical