Mostrando postagens com marcador biblioterapia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador biblioterapia. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Hospital Universitário de Maceió (AL) incentiva pacientes a ler

A Biblioteca Virtual, vinculada ao Hospital Universitário Professor Alberto Antunes (HUPAA), em parceria com o Setor Pediátrico do Hospital e os cursos de Biblioteconomia e Psicologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), começou a realizar práticas em Biblioterapia. A ação acontece por meio de histórias e momentos literários com o grupo de contadores “Anjos do HUPAA”.
As atividades literárias auxiliam significativamente para a melhora do paciente, que se encontra fragilizado por estar afastado de sua vida pessoal e passando, muitas vezes, por procedimentos invasivos que provocam medo, angustia e nervosismo. Partindo desse entendimento e visando promover maior humanização na unidade, surgiu a ideia de criar um grupo de contadores de histórias para os pacientes e seus acompanhantes.

A Biblioteca Virtual também disponibiliza, nos setores de maior fluxo de pessoas no hospital, caixas para os usuários e visitantes que circulam no HU deixarem ou levarem livros. A bibliotecária Isabel Calheiros, idealizadora do projeto, afirma que a troca de livros e o gosto pela leitura são incentivados, diminuindo a ansiedade dos que estão esperando por consulta médica.

A Chefe da Unidade de Telessaúde, ao qual o projeto está vinculado, Profa. Dra. Rosaline Mota, salienta o grande valor da proposta, já que a sociedade está cada vez mais tecnológica. “O próximo passo será a construção de um projeto que faça uso de ferramentas como jogos interativos computadorizados e e-books para incentivar ainda mais o gosto pela leitura”, afirmou Rosaline.

Para a psicóloga do HUPAA, Vanessa Ferrye, colaboradora da iniciativa, a chegada do projeto despertou inúmeros efeitos positivos nas crianças e adolescentes internados. Além de amenizar a rotina de cuidados, as ações contribuem para redução do distanciamento das práticas escolares. “As crianças contam os dias para a próxima historinha”, contou Vanessa.

Com livros, músicas, histórias, dinâmicas, dobraduras em papel e interatividade, o grupo Anjos do HUPAA apresenta-se às sextas-feiras no Setor Pediátrico do hospital. Para maiores informações: maria.calheiros@ebserh.gov.br / 55 82 3202-3923

Com informações do HUPAA-Ufal

Fonte:  Blog da Saúde

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Os livros curam

A 'biblioterapia' consiste em conversar com o “paciente”, escutar seus problemas, seus gostos, e recomendar títulos que podem ajudá-lo


‘Menina lendo’ (1850) de Franz Eybl.
    O número caiu em minha cabeça e quase me machuca: o mundo produz um novo livro —um título novo, milhares de exemplares de um título novo— a cada 15 segundos. São mais de dois milhões de títulos por anos; uma tiragem média de 2.000 exemplares vira 4 bilhões de volumes que inundam o planeta todos os anos, árvores caindo em profusão, uma chuva de livros pior que o pior dos dilúvios, um tsunami de livros. Era, com certeza, mais do que o suficiente para me convencer a não escrever nunca mais —e, entretanto.

    Todos caem na armadilha-livro: o livro é uma marca de prestígio. Mesmo sendo tantos, mesmo sendo tão díspares, a categoria livro conserva sua reputação: pensamos livro e pensamos em um objeto respeitável, portador dos saberes que o mundo necessita. As categorias são dissimuladas: pensamos livro e damos a todos o prestígio que alguns poucos merecem. Caímos fácil na tentação de achar que o primeiro Dom Quixote e o último MasterChef têm algo em comum —porque os dois sujam de tinta um bloco de papel unidos pela lombada. E seus fabricantes, não faltava mais nada, aproveitam a confusão: pedem condições especiais, melhoras impositivas, privilégios que o prestígio do objeto livro supostamente justifica. Reivindicam a importância cultural das elucubrações de Mariló Montero e Paulo Coelho, defendem o peso social do Horticultor Autossuficiente e o Manual Prático para Falar com os Mortos.

    Mas existem livros que mudam sua vida. Ou, pelo menos, é isso que dizem os “biblioterapeutas” da School of Life, uma instituição dirigida em Londres pelo filósofo best-seller Alain de Botton. “A vida é muito curta para ler livros ruins”, diz sua apresentação, “o problema é que, com milhares de livros publicados, é difícil saber por onde começar”. Eles querem guiá-lo e, para começar, explicam as vantagens dos livros. Para mim, que nunca soube por que lia ou escrevia, foi uma revelação atrás da outra —ou quase:

    —que ler parece uma perda de tempo, mas na realidade é uma economia enorme, porque apresenta conjuntos de fatos e emoções que você levaria anos, séculos para viver;

    —que ler é entrar em um simulador de vida que o leva a testar sem perigo todo tipo de situações e decidir o que lhe convém mais;

    —que ler produz a magia de mostrar como os demais veem as coisas e então mostra as consequências de suas ações e isso o faz, dizem, ser uma pessoa melhor;

    —que ler o faz sentir menos sozinho porque mostra que outros pensaram as coisas estranhas que você pensa, que souberam colocar em palavras que lhe descrevem ainda melhor do que você mesmo poderia;

    —que ler o prepara para isso que a crueldade do mundo moderno chama “fracassar”, mostrando a falsidade, a banalidade disso que o mundo chama “sucesso”.

    Para isso, dizem, não podemos tratar a leitura como um entretenimento, um passatempo de férias, mas como um instrumento para viver e morrer com mais sentido e sabedoria. Ou seja: uma terapia. A biblioterapia, sua criação, consiste em conversar com o “paciente”, escutar seus problemas, seus gostos, suas experiências de leitura e recomendar-lhe três ou quatro livros que podem ajudá-lo melhor. Cada consulta não custa mais do que 110 euros (383 reais) —uns cinco ou seis livros. Mas ainda não existem estudos sobre sua eficácia; por enquanto sabemos que a biblioterapia já chegou à França —e ameaça cruzar os Pirineus.

    Fonte: El País

    terça-feira, 14 de janeiro de 2014

    Doentes depressivos "aviam" receitas na biblioteca

    No Reino Unido, a prescrição de livros em vez de fármacos para tratar a depressão está a tornar-se cada vez mais comum. Além de "low-cost", o método, já conhecido como "Biblioterapia", não acarreta efeitos secundários
    Texto de Liliana Pinho
    Há uma nova terapia para depressão no Reino Unido e, a melhor parte, é que além de "low-cost" não apresenta efeitos secundários. É chamada de "Biblioterapia" e faz jus ao nome: em vez de fármacos, são prescritos livros. Isso mesmo: livros. É que, de acordo com alguns especialistas, além de fomentar a empatia, a leitura pode ajudar os pacientes a superar as suas fragilidades emocionais.

    O método, chamado de "Books on Prescription", começou a ser utilizado oficialmente em Junho, pelo Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS), e foi agora divulgado por Leah Price, investigadora e professora da Universidade de Harvard, no jornal "The Boston Globe". "Se o psicólogo ou psiquiatra diagnostica o paciente com depressão leve ou moderada, uma das opções é passar-lhe uma receita com um dos livros aconselhados", explica a investigadora.

    E sendo uma prescrição — e não apenas uma recomendação — há que seguir as indicações do médico rigorosamente, depois de "aviar" a receita na biblioteca. Até porque não existem efeitos secundários: "Ao contrário dos fármacos, ler um livro não acarreta efeitos secundários como o ganho de peso, a diminuição do desejo sexual ou as náuseas", sublinha Price.

    100 mil requisições em três meses
    Os livros são "seleccionados com base no conteúdo e no âmbito de programas de leitura desenhados para facilitar a recuperação de pacientes que sofram de doenças mentais ou distúrbios emocionais" e esta "parece ser uma solução vantajosa" — e "low-cost", já que os livros acabam por sair mais baratos do que os fármacos, ou até a custo zero, no caso das requisições.

    "Ler melhora a saúde mental e é difícil pensar na existência de malefícios quando se fala de um programa como este", defende a investigadora. Por isso mesmo, tem cativado cada vez mais adeptos. Ainda que não existam, para já, números oficiais sobre a sua verdadeira eficácia, a investigadora adianta que, só nos primeiros três meses do programa, foram feitas mais de 100 mil requisições dos livros de auto-ajuda recomendados.

    Esta, porém, não é a primeira vez que o Serviço Nacional de Saúde britânico aposta neste tipo de programas, numa forma de reconhecimento da importância dos livros. Uma outra iniciativa, denominada "The Reader Organisation", por exemplo, reúne pessoas desempregadas, reclusos, idosos ou apenas solitários para que, todos juntos, leiam poemas e livros de ficção em voz alta.

    A "Biblioterapia" foi desenvolvia com base numa investigação do psiquiatra Neil Frude, em 2003, que concluía precisamente que os livros tinham potencial para se assumir como substitutos dos anti-depressivos. Ao acompanhar o percurso dos seus pacientes, Frude rapidamente percebeu que estes compensavam a frustração da espera pelos primeiros efeitos dos fármacos — que podia durar anos — com a leitura, como forma de entretenimento.

    Fonte: P3

    sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

    Leitura e Saúde - Conheça os benefícios da biblioterapia no tratamento e cura de doenças

    quarta-feira, 16 de outubro de 2013

    Biblioterapia: Por que hábito de leitura faz bem à saúde

    por Alex Botsaris

    "A constatação que a leitura melhora alguns problemas é clinica. Ou seja, foi percebida nos pacientes, sem que houvesse uma ideia exata de como isso ocorria. O hábito de ler ajuda na atividade cerebral: lentifica as ondas cerebrais induzindo a um estado de mais relaxamento e estimula a memória; além da influência do conteúdo da leitura"
    Biblioterapia - "Não somente o ato de ler é benéfico, mas os conteúdos também são importantes para os resultados esperados. A prática da biblioterapia está em escolher conteúdos, tipos de texto, tamanho e ritmo de leitura, adequados, para o resultado esperado. Por exemplo, a leitura adequada para insônia é mais lenta e repetitiva. Não é adequado propor um texto excitante de um romance para isso. Por outro lado, muitas ficções romanceadas podem ajudar na elaboração de conflitos pessoais, e por isso estão indicadas em diferentes problemas psiquiátricos. Alguns psicóticos, como portadores de esquizofrenia, têm uma excelente adaptação a poesias e outros textos altamente simbólicos" Biblioterapia é um termo criado por médicos norte-americanos durante a Segunda Guerra Mundial. Nessa época psiquiatras que acompanhavam as tropas americanas notaram que os soldados feridos, que tinham acesso à leitura, e liam muito durante sua recuperação no hospital, tinham uma evolução melhor, em diferentes tipos de problemas de saúde, comparados àqueles que ficavam sem nada para fazer.
    Baseados nessa observação, esses psiquiatras conseguiram um incentivo para dar acesso à leitura a todos os pacientes, ao mesmo tempo que começaram a investigar o efeito da leitura em alguns problemas psiquiátricos. Na sua investigação, soldados, que tinham um problema comum nas guerras, chamado estresse pós-traumático, também se beneficiaram da leitura de livros. Isso popularizou esse tratamento entre médicos militares.

    Hoje em dia a VA (Veterans Administration) entidade que cuida da saúde dos militares norte-americanos possui um extenso manual de biblioterapia, com indicação para várias doenças psiquiátricas, além de disponibilizar biblioterapêutas para seus pacientes. No material da VA há indicação de uso da leitura específica para tratar depressão, ansiedade, distúrbio bipolar, transtorno obsessivo compulsivo, esquizofrenia, dependência química, programas de bem-estar, prevenção de várias doenças, distúrbios sexuais, e obviamente, em estresse pós-traumático.

    Não só na experiência do VA, mas também em outros centros de pesquisa e universidades do mundo, o emprego da biblioterapia em psicologia e psiquiatria tem sido crescente. Entretanto, num segmento, o da a psicologia e psiquiatria infantil, essa técnica se revelou especialmente eficiente. Um dos pioneiros nessa área foi o psicólogo austríaco radicado nos Estados Unidos, Bruno Bettelheim, diretor por muitos anos do Instituto Sonia-Shankman para crianças psicóticas em Chicago. Ele descobriu o poder de histórias, mitos e jogos infantis sob o estado psicológico das crianças, e utilizava exclusivamente esses recursos no tratamento de seus pequenos pacientes, com resultados extraordinários. 

    Bettelheim costumava selecionar um grupo de mitos e histórias, conforme o histórico das crianças, que ia contando, até descobrir qual tinha mais impacto. Em geral os pacientes sinalizavam que gostariam de ouvir novamente a história que mais se encaixava em sua problemática – e então revisitando muitas vezes a mesma história e trabalhando seu conteúdo simbólico, Bettelheim conseguia que essas crianças elaborassem seus conflitos. Hoje em dia, quase todos terapeutas de crianças trabalham com essas técnicas em virtude do sucesso relatado por psicólogos e psiquiatras em todo mundo. Bruno Bettelheim nunca usou o termo biblioterapia, mas a sua técnica, sem dúvida está dentro desse conceito.

    Por que ler traz bem-estar mental?

    Os estudos recentes mostram que o tipo de simbolização (e imaginação) que as pessoas fazem quando leem um livro é muito diferente daquela gerada por um filme ou outro método audiovisual. A pessoa constrói as imagens livremente em sua imaginação de acordo com seu universo conceitual. Dessa forma, ela adapta o imaginário da leitura, às suas vivências, e pode elaborá-las de forma mais eficiente, que nas experiências com recursos que possuem imagem, como o cinema. Também a leitura permite que a pessoa releia certas partes do conteúdo diversas vezes, quando há uma motivação, o que não ocorre em outros tipos de mídia. Isso reforça a importância da leitura, e o porquê da sua não substituição total por outras formas de acesso a informação e ao conhecimento.

    Biblioterapia tem sido proposta para o tratamento de vários outros problemas de saúde além das doenças psiquiátricas. Uma das áreas onde há um forte benefício para o emprego da leitura é nos distúrbios do sono. Numa época onde os meios eletrônicos se expandem cada vez mais, e há indícios que essa expansão possa ter relação com o aumento dos casos de insônia e distúrbios do sono, resgatar a importância da leitura para regularizar o ritmo do sono é um avanço.

    Leitura à noite pode ajudar a combater insônia

    Talvez a primeira referência do uso da leitura no tratamento de insônia seja a lenda das mil e uma noites. Nela a princesa Xerazade, estaria condenada a morrer, porque o Rei Persa Xariar mandava decapitar todas esposas na noite seguinte às núpcias temendo uma traição. Ela escapa da morte contando histórias que fazem o rei dormir. Ansiando para saber o final de cada história, e agradecido por ela ter resolvido sua dificuldade de dormir, ele poupa a vida da princesa dia após dia contabilizando mil e uma noites, até que ele desiste da execução. Hoje em dia muitos especialistas em sono têm recomendado aos portadores de insônia para evitar televisão e computador no final do dia, trocando pelas páginas de um bom livro. As evidências são que ler a noite ajuda a reduzir a atividade cerebral, o que auxilia a conciliar o sono.

    Há ainda referências de que a leitura habitual auxilia a minimizar o distúrbio de memória do idoso, conhecido pela sigla ARMI (age related memory impairment). Durante a leitura há um estímulo específico no cérebro que ajuda na formação de sinapses numa estrutura cerebral chamada corpo caloso. Em geral quanto mais conexões através do corpo caloso, mais conexões de memória a pessoa tem, auxiliando esse processo. Outra forma que a leitura ajuda na memória é melhorando a qualidade do sono, já que a memória transitória se transforma em definitiva nesse período.

    Para ter alguns benefícios da leitura, basta começar a ler um bom livro todos os dias. Mas quando se trata de um tratamento com biblioterapia, a estratégia é mais complexa, e exige uma participação fundamental do terapeuta. No tratamento o terapeuta escolhe os livros que o paciente vai ler – que ele conhece o conteúdo – para, em seguida, conversar sobre os conteúdos lidos. O paciente pode receber uma recomendação de reler o texto, em situações específicas. Ele pode também ser estimulado a escrever ou desenhar sobre os conteúdos lidos. As vezes o biblioterapeuta pode ler os conteúdos para o paciente.

    Não somente o ato de ler é benéfico, mas os conteúdos também são importantes para os resultados esperados. A prática da biblioterapia está em escolher conteúdos, tipos de texto, tamanho e ritmo de leitura, adequados, para o resultado esperado. Por exemplo, a leitura adequada para insônia é mais lenta e repetitiva. Não é adequado propor um texto excitante de um romance para isso. Por outro lado, muitas ficções romanceadas podem ajudar na elaboração de conflitos pessoais, e por isso estão indicadas em diferentes problemas psiquiátricos. Alguns psicóticos, como portadores de esquizofrenia, têm uma excelente adaptação a poesias e outros textos altamente simbólicos. 

    No Brasil a biblioterapia ainda é muito incipiente. Alguns pesquisadores têm se interessado, mas a sua pratica é limitada pela falta de terapeutas treinados. Esperamos que em breve seja possível contar com mais essa ajuda para a saúde. Enquanto ela não vem, a solução é começar logo a ler um bom livro.

    Alex Botsaris
    é médico especializado em Medicina Complementar

    Fonte: Vya Estelar

    sexta-feira, 24 de maio de 2013

    Biblioterapia: o poder da leitura e da palavra

    Você já leu um texto que mexeu com suas emoções? Leu algum trecho ou passagem de uma história e seu dia ficou mais leve? Percebeu algo escrito em livro muito parecido com sua história de vida? Possivelmente, sem querer, o que foi lido fez você refletir sobre algum momento presente ou passado. Você pode ter chorado, ou ter ficado feliz, lembrado de momentos mágicos, ou recordado sentimentos de aflição, agora aliviados e superados. Tudo isso porque o texto lido provocou sentimentos e reflexões pessoais. Agora pense: Que romance faria você ficar animado? Que poema te faz lembrar com carinho do seu melhor amigo? Que livro infantil tem uma história tão engraçada que faz você rir muito e ficar feliz? Para escolher este livro, bem como entender melhor estes sentimentos e permitir reflexões de apoio e mudanças de vida, podemos fazer uso da Biblioterapia.

    Ler é importante? Sem dúvida nenhuma, a resposta para esta pergunta é um grande SIM. Lemos para adquirir conhecimento ou pelo simples prazer de ler. Mas hoje vamos falar de um tipo especial de leitura, a biblioterapia.

    O termo Biblioterapia vem do grego biblion – que designa todo material bibliográfico e de leitura; e therapein – que significa tratamento ou restabelecimento da saúde. Neste sentido, podemos dizer que biblioterapia é uma atividade que auxilia no tratamento terapêutico da saúde mental, usando a leitura para este fim. Por meio da interação entre o leitor e o texto, esta atividade pode contribuir para:

    aliviar o estresse,
    • ajudar a lidar com sentimentos de raiva, frustração, solidão, tristeza, medo …,
    • promover a conversa em grupo sobre seus problemas,
    • diminuir a sensação de isolamento entre as pessoas,
    • estimular a criatividade, a imaginação e novos interesses,
    • aumentar a auto-estima,
    • proporcionar momentos de alegria e descontração,
    • incentivar o gosto pela leitura,
    • auxiliar na adaptação hospitalar e na humanização de espaços,
    • diminuir a intensidade da dor pessoal.

    É uma lista grande de benefícios e, por conta disso, coloca o profissional bibliotecário numa posição importante para atuação na biblioterapia. Sendo por excelência um mediador da leitura, que reúne competências e ferramentas para conhecer o público, selecionar o material adequado e organizá-lo, o bibliotecário está inserido na equipe de biblioterapia, também formada por profissionais de outras áreas como, por exemplo, psicólogo, assistente social, terapeuta ocupacional, médico, enfermeira, enfim, todos os profissionais que possuem uma postura humanizada.

    A bibliotecária (e contadora de histórias) Raquel Cosmano, da Biblioteca Pública Manoel Fiorita, em Osasco, nos contou um pouco de sua experiência nessa atividade. Em 2012, em conjunto com a terapeuta ocupacional Cristina Valotta, da Secretaria da Saúde (Programa de Saúde Mental), Cosmano promoveu diversas sessões com famílias interessadas, que se encontravam semanalmente na biblioteca para a terapia com contação de histórias. Para isso, foram formados grupos com crianças (dividido em faixas etárias) e mulheres. Os grupos participavam de atividades e contações de histórias organizadas para discussões focadas nas características de cada grupo. Este ano a atividade foi interrompida, mas esperamos que seja retomada em breve e, para ressaltar sua relevância, fizemos as seguintes perguntas para Cosmano:

    Que observações você poderia fazer sobre o impacto dessa atividade na comunidade?
    “A maioria das crianças nunca tinham entrado em uma biblioteca, e muitos nem imaginavam o quanto é fascinante, criando descobertas através de livros e histórias. As atividades e as histórias, a princípio, pareciam não gerar resultados, mas no decorrer dos encontros semanais víamos que os mesmos tinham entendido o recado ou a história através de suas atitudes. Na minha opinião, poderíamos até implementar tendo atividades para os pais, enquanto aguardavam os filhos. Para isso, a dimensão do trabalho seria muito grande e não temos toda essa estrutura física, humana e nem interesses de outros.”
    Que benefícios você enxerga com a criação de um projeto lei que pode expandir esse serviço?
    “Eu creio que seria formas de contribuir com vidas, sejam eles crianças, mulheres e idosos; homens têm mais resistência a esse tipo de atividades. Trazendo a auto-estima, valores, a importância da vida, que vale a pena estudar, se esforçar mesmo quando muitos ou todos digam que não. Levando o gosto pela cultura seja através de música, teatro, dança ou qualquer atividade que a pessoa se enquadre. Não digo que faremos uma sociedade justa, mas resgataremos muitas vidas da rua, da margem de risco, da ociosidade, da depressão. Através do projeto lei, isso ofereceria espaços físicos, profissionais, verba e credibilidade para realização de um trabalho que pode transformar vidas.”

    Raquel Cosmano trabalha na Biblioteca Pública Manoel Fiorita desde sua inauguração, em set.2002.
    Raquel Cosmano atua em ações comunitárias para contações de histórias e trabalha na Biblioteca Pública Manoel Fiorita desde sua inauguração, em set./2002.

    Dentro desta perspectiva de promoção do bem-estar e maior qualidade de vida do cidadão, ressaltamos que a biblioterapia vem ganhando espaço em pesquisas de universidades e nos hospitais, apoiando o processo de humanização no atendimento; ao mesmo tempo, despertou o interesse da Câmara dos Deputados, onde está tramitando o Projeto de Lei 4186/12, que dispõe sobre a prática da biblioterapia nos hospitais públicos.

    No município de Osasco, este movimento em favor da implantação da biblioterapia conquistou o apoio do vereador Valdir Roque (PT) que, sensibilizado, protocolou recentemente junto a Câmara Municipal um Projeto de Lei que dispõe sobre o uso da biblioterapia nos hospitais e CAPS.

    Para quem quiser ler mais sobre o tema e o poder de transformação pela leitura e a palavra, sugerimos a leitura dos textos (pdf):


    No Brasil a biblioterapia é uma atividade que ainda está se consolidando, por isso é importante o apoio a essa prática leitora. Pesquise na Biblioteca Pública do seu município se existe um projeto de Biblioterapia, caso não haja, incentive a criação. Mas se quiser experimentar os benefícios da leitura, sugerimos que você vá até a Biblioteca Pública mais próxima, escolha um livro e veja o que acontece.

    terça-feira, 16 de abril de 2013

    Leitura terapêutica

    Biblioterapia clínica recomenda livros para aliviar sintomas decorrentes de tratamentos de saúde, como angústia, solidão e insônia


    14/04/2013 Rodolfo Stancki


    A leitura engrandece a alma, escreveu uma vez Voltaire. A frase do pensador iluminista mostra o potencial do livro para agregar conhecimento, abrir portas para a imaginação e servir de refúgio para os problemas diários. Entusiastas de biblioteca defendem que ler tem poderes mágicos e pode ajudar a curar. A realidade não está muito longe disso. Médicos e psicólogos indicam a leitura para aliviar sintomas de diversas patologias. A prática recebe o nome de biblioterapia clínica, definida como a recomendação de livros para aliviar angústias pessoais, estimular emoções, promover o diálogo e ajudar pessoas com insônia. 

    “A biblioterapia mostra um cuidado com o ser humano, que se manifesta ao ler, narrar ou dramatizar histórias”, diz a professora Clarice Caldin, do departamento de Ciências da Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista no tema, ela explica que as narrativas literárias buscam proporcionar a catarse, considerada por alguns autores como uma purificação do corpo e da mente.
    Por meio da leitura, as pessoas podem se identificar com personagens ficcionais, refletindo suas próprias atitudes. “O objetivo da biblioterapia é favorecer a expressão dos pensamentos aflitivos, como uma descarga emocional, uma purgação”, observa.

    Histórias

    A administradora Roseli Bassi percebeu esse potencial terapêutico da leitura e criou a ONG História Viva, que conta com um time de 200 voluntários especializados em ler e contar histórias para pacientes de hospitais. “Nosso trabalho é apaziguar os sentimentos de pessoas que estão lidando com realidades difíceis. Tiramos crianças e adultos de suas doenças ao abrir um mundo de imaginações”, afirma. 

    Julia Dutra, 10 anos, luta contra o câncer desde 2008. Durante alguns dias da semana, em seu quarto no Hospital das Clínicas, em Curitiba, ela recebe a visita de um contador de histórias, que lê para a menina por cerca de uma hora. No período, suas preocupações se tornam disputas entre monstros, desafios de leões e castelos de princesas. A narrativa vira uma distração, que a anima. “É uma parte do dia que adoro”, diz a menina.

    Antes de sair, o voluntário deixa um recado para os pais de Julia. “É recomendado que vocês leiam para ela também, isso ajuda a fortalecer o interesse dela.” Além de distrair e relaxar, a biblioterapia por meio de contadores de histórias incentiva a aproximação com o livro.

    Benefícios

    Na realidade hospitalar, a leitura tira o paciente de sua rotina, de sua espera. Existem pessoas que usam livros, revistas e jornais para enfrentar a cadeira antes de serem atendidos em um consultório. “É importante que cada um saiba o tipo de leitura que o ajuda. Geralmente são as que mais agradam”, aponta Ítala Duarte, psicóloga clínica do Hospital Erasto Gaertner. O efeito terapêutico depende da disposição do paciente diante da leitura.

    Um livro antes de dormir, por exemplo, pode ajudar pessoas com insônia. O médico Attilio Melluso Filho, do Centro de Distúrbios do Sono de Curitiba, diz que quanto menos alarmante e repetitiva for a narrativa, melhor a condução para a latência do sono, período que antecede o adormecer. A leitura engrandece a alma e também faz bem para a saúde.

    Companhia para a solidão
    Aniele Nascimento/Gazeta do Povo

    Na sala de diálise da Santa Casa de Curitiba, Florisbal Costa passa algumas tardes lendo livros e jornais. Em tratamento por conta de um problema de rim há três anos, ele usa a leitura para combater a solidão. “Ler direciona o cérebro das pessoas sozinhas. Faz a gente pensar no que é bom”, diz.

    Com 101 anos, o vendedor aposentado vive na companhia de uma enfermeira, que o ajuda. Há vários anos, pratica a rotina diária de ler jornais e revistas. “Assim me conecto com o mundo.” Como passa mais da metade da semana no hospital, a companhia dos livros também o mantém distraído. 

    A leitura é estimulada para pacientes em diálise. O médico Georgio Sfredo Bertuzzo, da Santa Casa, diz que as narrativas literárias ajudam a conter a ansiedade. Afinal, são várias horas em que os pacientes não fazem nada a não ser esperar. Costa faz a sua parte, além de ler muito, ele troca livros com outros pacientes. 

    Recuperação por meio de livros
    Letícia Akemi/Gazeta do Povo


    Para Victor D’Ambrós, 12 anos, os livros são mais importantes do que os filmes. Prefere histórias de ação, que tenham alguma coisa a ver com os videogames que joga. A prática da leitura é bastante útil no período em que fica no hospital ou em casa, se recuperando de quimioterapias. 

    Victor descobriu que tem sarcoma de Ewing, um tipo de câncer que atinge os ossos, em julho do ano passado. Está reagindo bem ao tratamento, mas precisou se afastar da escola e dos amigos. “A leitura o ajuda a passar o tempo e o deixa animado”, conta a mãe, a professora Kátia D’Ambrós. 

    “Gosto de ler à noite, antes de dormir”, diz o menino. A ficção literária o leva para outros mundos, que envolvem vilões, guerras mundiais e as aventuras de crianças em escolas. Apesar de colocar os livros na frente dos filmes, quando não está no hospital coloca os jogos de videogame no topo da lista de preferências. O que não deixa de ser uma distração terapêutica.

    Fonte: Gazeta do Povo

    segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

    Biblioterapia poderá ser aplicada em hospitais do SUS

    11/01/2013
    Da Agência Câmara

     Crédito: Fotolia
    A terapia por meio da leitura humaniza o ambiente hospitalar e 
    pode amenizar até 80% dos sintomas sentidos pelos pacientes.

    A terapia por meio da leitura humaniza o ambiente hospitalar e pode amenizar até 80% dos sintomas sentidos pelos pacientes.

    A Câmara analisa proposta que estabelece o uso da biblioterapia, ou seja, a terapia por meio da leitura, nos hospitais públicos e naqueles contratados ou conveniados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A medida está prevista no Projeto de Lei 4186/12, do deputado Giovani Cherini (PDT-RS).

    O deputado explicou que esse tipo de terapia é usado desde a Idade Antiga e que pesquisadores já recomendam o uso da leitura em tratamentos médicos desde o início do século 19. “Hoje, vem sendo desenvolvida por equipes interdisciplinares com constante participação dos bibliotecários, psicólogos e médicos, sendo no Brasil as regiões Sul e Nordeste as que concentram os maiores índices de aplicabilidade”, afirmou.

    De acordo com Cherini, esse tipo de técnica humaniza o ambiente hospitalar e ameniza até 80% dos sintomas sentidos pelos pacientes, a depender da doença.

    Autorização

    Pela proposta, os materiais de leitura com função terapêutica só poderão ser prescritos e vendidos após autorização específica do Ministério da Saúde. Os livros autorizados terão um selo com a inscrição: “Recomendado pelo Ministério da Saúde”.

    Os familiares dos pacientes também poderão participar das atividades de biblioterapia, desde que após prescrição médica. O texto também autoriza a venda de obras biblioterápicas em farmácias, drogarias e livrarias.

    Tramitação

    O projeto, que tramita em caráter conclusivo, será analisado pelas comissões de Seguridade Social e Família; e de Constituição e Justiça e de Cidadania.

    sexta-feira, 25 de março de 2011

    Quem lê esquece a dor, o medo e a humilhação, defende livro

    ARIADNE ARAÚJO
    colaboração para a Livraria da Folha


    Após uma desilusão amorosa, a morte de um ente querido, uma demorada doença ou grande crise pessoal, também durante catástrofes naturais, guerras e conflitos. Os livros têm sido companheiros fiéis, ajudando milhares de pessoas a ultrapassarem tempos difíceis. Em "A arte de ler ou como resistir à adversidade" (Editora 34), a pesquisadora francesa Michèle Petit conta como a leitura tem salvado, transformado e reconstruído vidas, seja na Europa, seja em pequenos lugarejos da América Latina.

    No Brasil, na Argentina, na Colômbia e no México, a pesquisadora acompanhou as chamadas "experiências literárias compartilhadas". Organizadas por mediadores culturais - professores, bibliotecários, psicólogos, artistas, escritores, editores, livreiros, trabalhadores sociais -, essas experiências literárias têm como foco justamente populações mais distantes dos livros: "crianças, adolescentes, mulheres ou homens, em geral pouco escolarizados, oriundos de ambientes pobres, marginalizados, cujas culturas são dominadas".

    Lendo em voz alta e discutindo livros juntos, essas pessoas encontram no prazer da leitura as representações e figurações simbólicas que precisam "para sair do caos, seja ele exterior ou interior". Pois, segundo Petit, os recursos culturais de linguagem, narrativos e poéticos, são tão vitais quanto a água. E, para isso, todas as formas de literatura são válidas: os mitos e lendas, os contos, romances, poemas, teatros, diários íntimos, histórias em quadrinhos, ensaios, livros ilustrados.

    Local de acolhida, a leitura proporciona um "esquecimento temporário da dor, do medo e da humilhação". Ela é suporte "para despertar a interioridade, colocar em movimento o pensamento, relançar a atividade de simbolização, de construção de sentido e incita trocas inéditas", diz a pesquisadora. Para realizar essa experiência, os mediadores contam com a curiosidade intelectual de homens e mulheres. Assim, na floresta amazônica, refém da guerrilha na Colômbia, Ingrid Betancourt sonhava com um luxo: um dicionário enciclopédico.

    Quando lemos, damos um salto gigantesco no espaço e no tempo. A voz interior do autor faz reviver uma outra. Segundo Petit, "ler, apropriar-se dos livros é reencontrar o eco longínquo de uma voz amada na infância". Nesse reencontro com a voz materna ou paterna, ou ainda da avó ou avô, as "palavras são bebidas como se fossem leite ou mel". Nesse desvio de tempo, de acordo com relatos de mediadores, alguns adolescentes, ao ouvir as narrativas, "se esticam e se curvam em posição fetal, enquanto outros fecham os olhos".

    No Brasil, a pesquisadora acompanhou a experiência do projeto Cor da Letra, que forma mediadores de leituras para o trabalho em escolas públicas e privadas, hospitais, bibliotecas, centros sociais e culturais, nos bairros urbanos pobres e interior em várias regiões do país. Apesar da dificuldade em transmitir o gosto pela leitura, as pessoas têm sido tocadas pela "voz" dos livros. Nesta e em outras experiências, não se trata de fuga do real, "mas uma pausa, um intervalo necessário para curar as feridas de uma realidade demasiado dolorosa.

    Sinopse:

    "Aquele livro me deu a força necessária para enfrentar a virada decisiva de minha vida, aceitar que eu não era mais o mesmo, suportar sê-lo com meus amigos que não compartilhavam o que eu pensava e que tive que enfrentar para defender minha nova maneira de ver a vida..."

    O depoimento acima, de um jovem morador de um dos bairros mais pobres de Bogotá, na Colômbia, é apenas um entre as dezenas de testemunhos sobre a importância da literatura - tomada aqui num sentido amplo, que inclui histórias em quadrinhos e relatos orais, além dos gêneros tradicionais da poesia, do conto e do romance - na formação do sujeito, e o papel que ela desempenha em contextos de crise.

    Comentando experiências de mediadores de leitura em contextos adversos, especialmente em países da América Latina, entre eles o Brasil, a antropóloga francesa Michèle Petit amplia os temas e aprofunda as análises de seu Os jovens e a leitura, publicado em 2008 pela Editora 34.

    Com um olhar interessado e uma sólida bagagem intelectual, a autora investiga as diferentes maneiras pelas quais a forma narrativa pode atuar como educadora da sensibilidade, ao mesmo tempo em que se afirma como um poderoso instrumento de resistência ao caos interior e à exclusão social.

    sexta-feira, 11 de março de 2011

    A cura pela leitura

    Literatura: Um ramo tanto da biblioteconomia quanto da psicologia, a biblioterapia vem ganhando adeptos no Brasil.

    “La Lecture”, de Picasso: “Sabemos que o poder da boa literatura é profundo e transformador, mas não nos advogamos como médicos. Somos doutores de livros!”, ressalta a britânica Ella Berthoud

    Mariane Morisawa, para o Valor, de São Paulo
    Matéria publicada em 25/02/2011

    Um relacionamento que termina é sempre um motivo de tristeza ou de pausa para repensar a vida. Para superar a fase difícil, que tal um bom livro? “Flashman”, de George MacDonald Fraser, sobre um soldado britânico pouco recomendável, condecorado por heroísmo, pode distraí-lo de sua autopiedade. “Do Amor”, de Stendhal, pode auxiliá-lo a lidar com a melancolia, e “As Consolações da Filosofia”, de Alain de Botton, pode servir mesmo de consolo. Acabou de perder o emprego? Dureza, mas não se desespere! Uma boa pedida é rir com o conto “Bartleby”, de Herman Melville, sobre um empregado que recebe a solicitação para fazer uma coisa e diz preferir não fazer, mas estranhamente continua dia e noite no escritório. Já quem sofre pelo luto pode encontrar suporte em “Uma Comovente Obra de Espantoso Talento”, de Dave Eggers, baseado na história do próprio autor, que perdeu os pais jovem e precisou cuidar do irmão, ou “Metamorfoses”, de Ovídio, que descreve as transformações de todas as coisas, da vida à morte.

    Essas são indicações genéricas de Ella Berthoud, da School of Life de Londres, fundada em 2008. Na prática, as “receitas” são individualizadas. O interessado pode marcar uma consulta pessoalmente, por telefone ou Skype. Depois de responder a um questionário sobre suas preferências literárias e conversar com a especialista, recebe uma lista de livros mais adequados às suas aflições. Usar literatura para ajudar a superar alguma dificuldade ou dor tem nome: biblioterapia. Desde a Antiguidade há relatos de prescrição de livros para enfrentar problemas cotidianos, mas só no século passado a prática ganhou esse nome e os primeiros estudos sobre seus benefícios, principalmente para doentes e presidiários. No Brasil, ela começa a ser difundida, com trabalhos principalmente em hospitais, ainda que não haja grupos fixos até o momento.

    A biblioterapia pode ser um ramo tanto da biblioteconomia quanto da psicologia. A bibliotecária Clarice Fortkamp Caldin, autora de “Biblioterapia: um Cuidado com o Ser”, prefere fazer a distinção. “Biblioterapeuta é o psicanalista que se vale da leitura como uma das terapias, pois desenvolve a biblioterapia clínica com o intuito de cuidar das patologias psíquicas”, diz. “O bibliotecário, a seu turno, desenvolve a biblioterapia de desenvolvimento, quer dizer, cuida do ser na sua totalidade, sem fazer julgamento do que é ou não normal. Costumo chamá-lo de ‘aplicador da biblioterapia’. Não é um título tão charmoso quanto o primeiro, mas me parece mais justo.”

    Clarice começou a se interessar pelo assunto quando percebeu que o bibliotecário estava muito preso às funções técnicas, esquecendo-se do lado humanista da profissão. Em 2001, defendeu dissertação sobre a leitura como função pedagógica, social e terapêutica. Depois, elaborou um curso de 80 horas na Universidade Federal de Santa Catarina. Na sua opinião, a eficácia vem da falta de cobranças. “O aplicador de biblioterapia não prescreve uma norma de conduta nem um remédio a ser tomado em horários determinados. Dela participa quem quiser, quem tiver vontade de escutar uma história”, afirma. “Essa história agirá no ouvinte do jeito que ele achar melhor ou mais conveniente naquele instante de sua vida. Será digerida lentamente, ficará na sua mente ou no seu subconsciente por tempo indeterminado e poderá ser retomada a qualquer momento.” E, como é grátis, não precisa ser interrompida se o dinheiro estiver curto.

    Em sua experiência de quatro meses na ala pediátrica de um hospital em Santa Catarina, na qual se executou a biblioterapia por meio de leitura, contação, dramatização de histórias e brincadeiras, as crianças, segundo ela, esqueceram-se de que estavam em um hospital. Os familiares também se beneficiaram com o alívio do estresse. Num presídio feminino, as sessões de contos e poesias ajudaram as participantes a superar a sensação de impotência e a saudade dos maridos e filhos. Elas saíram do estado de prostração e chegaram até a escrever um jornalzinho interno.

    Normalmente, a biblioterapia se dá em grupo. O aplicador seleciona o texto, faz a leitura, narração ou dramatização de uma história e aposta no envolvimento do público. Cuida, ainda, de permitir a liberdade de interpretação, propiciar o diálogo, a catarse, a identificação, a introspecção. “É bom frisar que para esse mister se presta a literatura, quer dizer, a ficção. Textos informativos ou didáticos não são considerados biblioterapêuticos, porque não produzem a explosão e apaziguamento das emoções [catarse], não permitem a identificação com as personagens [experiência vicária], nem induzem à introspecção [reflexão sobre como nosso comportamento afeta o outro].”

    Os livros infantis são os geralmente utilizados por Lucélia Paiva, doutora em psicologia escolar e do desenvolvimento pela Universidade de São Paulo e autora da tese “A Arte de Falar da Morte: a Literatura Infantil como Recurso para Abordar a Morte com Crianças e Educadores”. Ela conta que descobriu o valor da biblioterapia intuitivamente. “Sentia que era mais fácil falar sobre certos temas com metáforas, de forma mais suave”, diz ela, que desenvolve trabalho voltado para pessoas em situações de crise e emergência, perdas e luto.

    Lucélia começou a usar livros infantis para tratar de assuntos como a morte com seus sobrinhos. Mais tarde, conheceu o termo biblioterapia. Hoje, utiliza o mesmo gênero para adultos e crianças, em sessões em grupo ou individuais. “A Menina e o Pássaro Encantado”, de Rubem Alves, sobre uma garota que aprisiona uma ave numa gaiola por amá-la muito, serve para tratar de relações familiares ou conjugais e de luto. Já “Dona Saudade”, de Claudia Pessoa, ajuda a lidar com o luto e a saudade. “A Aids e Alguns Fantasmas no Diário de Rodrigo”, de Jonas Ribeiro e André Neves, auxilia na superação do estigma da doença.

    As histórias, segundo ela, sempre precisam ter começo, meio e fim. “Não precisa ser final feliz, desde que exista uma solução. É ela que minimiza o sofrimento.” É preciso buscar o envolvimento do ouvinte, seja pela identificação com personagem ou história. “Se fizer eco, se fizer sentido, ele vai começar a ter um envolvimento emocional. A partir dessa catarse, pode identificar-se. E o desfecho daquele conflito do livro pode trazer para ele a possibilidade de desfecho de seus conflitos.” Ela afirma ter tido certeza de que dava certo quando soube que uma mãe enlutada tinha lido “Dona Saudade”, presenteada por uma amiga em comum, e espalhado o livro pelas outras pessoas afetadas pela perda de seu filho. Em outro caso, conseguiu, em sessão de psicoterapia, acessar até um trauma maior, fazendo uma senhora falar sobre o abuso sexual sofrido na infância.

    Já os especialistas no ramo da biblioteconomia, ou aplicadores de biblioterapia, como descreve Clarice Fortkamp Caldin, deixam claro que a biblioterapia não é científica e não exclui os cuidados médicos. “Como arte, ela é criativa. Assim, o sujeito dela se vale para mitigar pequenos problemas pessoais. Cada um do seu jeito, usando a imaginação e de acordo com suas emoções”, diz ela. Para pessoas com problemas psicológicos sérios, pode ser auxiliar, sem ter a capacidade de cura. Mas dá seus resultados para quem embarca na viagem.

    “Sabemos que o poder da boa literatura é profundo e transformador. Temos um feedback positivo de nossos clientes, que frequentemente voltam para mais sessões. Mas nós não nos advogamos como médicos. Somos doutores de livros!”, ressalta Ella Berthoud, da School of Life, que faz apenas atendimento individual. Para ela, funciona porque “você entra na cabeça de outra pessoa e vive outra vida por meio dos personagens do romance”. Essa experiência permite que se entenda melhor seus dilemas, se o livro for bem escolhido. “Você vê um personagem cometendo um erro e pode evitar fazer o mesmo. Outras vezes você vê os personagens superando as dificuldades, e isso dá a você, leitor, a resolução de resolver enfrentar a própria situação.” Fortalecido pela boa literatura ou por uma contação de histórias eficiente, ele tem a chance de estar mais apto a superar as dificuldades e os momentos de desânimo e de tristeza. Como se diz por aí, ler realmente faz bem, para a mente e para a alma.

    sábado, 4 de dezembro de 2010

    Leitura faz bem para o corpo

    Matéria publicada no jornal "O Liberal" em 16 de março de 2010

    A Biblioterapia é uma das ferramentas utilizadas no tratamento dos internos do Hospital Universitário Barros Barreto

    Alexandra Cavalcanti
    Da Redação

    Além de proporcionar bons momentos, a leitura também pode ajudar na superação de momentos difíceis. Esse é o ponto de partida para o trabalho desenvolvido pelo Projeto “Biblioterapia”, no Hospital Universidade João de Barros Barreto (HUJBB), em Belém. A técnica é antiga, mas ainda pouco conhecida no país e estimula tanto pacientes internados quanto seus acompanhantes à leitura de livros, revistas e jornais, ajudando-os a lidar melhor com o ambiente hospitalar.

    O projeto começou em 2003 partindo do princípio de que uma boa leitura pode amenizar as pressões do dia a dia, inclusive de quem está em tratamento médico. “A dinâmica desse trabalho é aliviar as tensões dos pacientes internados e de seus acompanhantes. Tirar um pouco do foco da doença e levar para a leitura, porque a rotina hospitalar pode causar, entre outras coisas, irritação e até depressão”, explica a coordenadora do projeto e bibliotecária Rosiany Silva.

    A primeira parte do projeto consiste em colher informações sobre os assuntos que interessam a esse público alvo. “Visitamos as enfermarias para saber previamente qual tipo de leitura chama atenção dessas pessoas, tanto pacientes quanto acompanhantes”, ressalta a coordenadora. A partir daí, esse material é separado para as ações do projeto.

    Nessas pesquisas, para a sur-presa dos envolvidos, algumas curiosidades foram desco-bertas. Uma delas é que leituras relacionadas à agricultura familiar estão entre as preferidas. “Temos muitos pacientes que vêm do interior do estado e esse tipo de leitura faz parte do universo de onde vivem”, explica. Mas também é grande o número de pessoas que se identifica com outros assuntos, como direito tra-balhista, textos didáticos sobre determinadas doenças, além de literatura brasileira e infantil. “Na pediatria especialmente trabalhamos bastante com os contos de fadas e com gibis”, afirma.

    Para acompanhar a limitação de alguns pacientes, a coordenadora conta que são u-sadas outras dinâmicas, sempre com a colaboração de voluntários. “O Hospital Barros Barreto é de alta complexidade, por isso, atendemos casos bem específicos, como por exemplo, pessoas que sofrem de diabetes e perderam a visão. Nessas situações, o monitor faz a leitura para esse paciente. O mesmo acontece no caso de analfabetos e pessoas com outras dificuldades para a leitura. Utilizamos também CDs e levamos o rádio até o paciente para que ele possa ouvir histórias”, ressalta Rosiany.

    Em Belém, o projeto desenvolvido no Hospital Universitário ganhou ainda um reforço extra. Além da leitura de livros e periódicos, o trabalho utiliza recursos audiovisuais. “Fazemos também sessão de cinema, dinâmicas de grupo e até mesmo sessões de anedotas, que eles gostam bastante”, conta a bibliotecária. O importante, segundo ela, é o uso da linguagem cultural para motivar os pacientes e acompanhantes em ambiente hospitalar.

    A biblioterapia não promete milagres e não tem ainda uma comprovação científica sobre seus benefícios, mas ao longo de sete anos, vem colhendo bons resultados. “Temos depoimentos e relatos de experiências muito positivas. Casos, por exemplo, como de pacientes que não interagem com o médico durante o tratamento, seja por timidez ou outro motivo, mas que passam a ter um outro comportamento depois de participar das ações do projeto”, conta.

    O retorno também aparece de outras formas. “Alguns pacientes ou acompanhantes participantes do projeto pedem para levar o livro para casa, porque gostaram da leitura e querem levá-la para suas comunidades. Isso é muito bom e nos deixa muito satisfeitos com esse trabalho”, afirma a coordenadora.

    Projeto muda a visão do hospital

    Para a biblioterapia, a leitura funciona como “alimento da liberdade”, tal como afirmou Fernando Pessoa através de seu heterônimo Álvaro de Campos. Lendo, a pessoa se distancia dos redemoinhos e dos turbilhões das emoções vividas em determinado momento. No ambiente hospitalar, esse efeito não é diferente. Ao invés de sentimentos de ansiedade, agressividade, angústia, tristeza, medo e outras reações devido à doença ou mesmo ao afastamento de casa, o paciente pode entrar num ambiente de bem estar físico, mental e espiritual.

    “Esse projeto traz como contribuição uma ideia mais positiva do Hospital como espaço não apenas de sofrimento, mas também de lazer, aprendizado e troca de experiências quando em contato com a leitura e com outras pessoas”, conta a coordenadora do Projeto. A bibliotecária Vera Carvalho, uma das primeiras a trabalhar no projeto dentro do hospital explica que há o envolvimento de equipe multiprofissional, composta por bibliotecário, assistente social, psicólogo, terapeuta ocupacional e bolsistas de biblioteconomia e serviço social. O grupo disponibiliza livros, revistas e jornais de acordo com uma temática definida e o paciente escolhe o tipo de leitura com a qual mais se identifica.

    Além dessas leituras, os pacientes também participam de palestras e exibições de filmes sobre educação e saúde, contação de histórias, leitura de mensagens, audição de músicas e textos de autoajuda, peças de teatro, pintura, entre outras atividades, com a finalidade de melhorar o seu estado emocional. “Desde o início, quando ele foi implantado pela Dra Elisa Sá, o projeto sempre foi bem aceito pelos pacientes e seus acompanhantes, porque se tornou uma forma atrativa deles saírem daquela rotina de hospital. Lembro ainda do primeiro filme que exibimos dentro do projeto, foi o „Auto da Compadecida‟. Todos gostaram e riram bastante”, relembra.

    O Projeto trabalha com crianças, pacientes adultos e idosos internados no Hospital Universitário João Barros Barreto, dando preferência aos de longa permanência, os que não recebem visitas ou estão desacompanhados. “Percebemos que, além da melhoria do estado físico, o hospital pode contribuir para a elevação da autoestima e até para mudança de comportamento por meio de diferentes formas de ação, como a leitura”, assegura Rosiany da Silva.

    No ano passado, o projeto ganhou uma sala própria dentro do hospital, onde são guardados todos os materiais usados, desde livros, revistas, material lúdico, entre outros, tudo fruto de doação.
     
    Serviço

    Quem quiser fazer doação de materiais para o projeto pode procurar o setor de Biblioterapia do Hospital Universitário João de Barros Barreto.
     
    Fonte: jornal "O Liberal"

    quinta-feira, 14 de outubro de 2010

    Médicos e psicólogos receitam livros para tratar doenças físicas e emocionais

    Cristina Almeida
    Matéria publicada em 14/08/2008

    Em um evento como a Bienal do Livro, que começa nesta quinta-feira, em São Paulo, muita gente pode se perguntar: existe público para tanto livro? A resposta seria afirmativa se as pessoas parassem para pensar que não somos nós que lemos os livros, mas eles que nos lêem. Se a arte imita a vida, as obras literárias são nosso espelho e, portanto, uma ferramenta para o autocconhecimento. E isso não tem nada a ver com literatura de auto-ajuda.

    Livros têm sido utilizados no tratamento de vários tipos de doenças físicas e emocionais, incluindo dependências, abusos, disfunções e depressão. Embora o termo "biblioterapia" tenha sido cunhado recentemente, suas origens remontam à Antigüidade. Em Tebas, 1200 anos a.C., a inscrição na entrada de uma biblioteca - "O lugar para curar a alma" - sinaliza que os povos antigos já conheciam as propriedades terapêuticas da leitura.

    A biblioterapia foi reconhecida nos EUA em 1939, mas somente em 1950 é que passou a ser utilizada como coadjuvante em terapias de grupo. Naquela época, guiadas por um comitê previamente designado pelas autoridades locais, as bibliotecas públicas organizavam encontros para que as pessoas tivessem a oportunidade de discutir suas dificuldades, devidamente guiados por um facilitador.

    De acordo com os especialistas, a leitura permite que, através dos personagens e suas histórias, encaremos nossos problemas com maior distância, o que aumenta a possibilidade de compreendermos os sentimentos envolvidos em determinada circunstância dolorosa.

    A técnica funciona em três etapas distintas: identificação (momento em que o leitor entra em contato com algum ponto em comum com a sua vida); catarse (ocorrida a identificação, o leitor se libera da tensão emocional); insight (nova perspectiva sobre determinado sentimento que repercute na vida prática, permitindo a mudança necessária).

    OS CLÁSSICOS DA LITERATURA 'TERAPÊUTICA

    Para mulheres envolvidas nas angústias domésticas e acabam atormentadas pelo desejo de evasão:
    "Madame Bovary" (Gustave Flaubert), "Anna Karenina" (Leon Tolstoi), e "Casa de Bonecas" (Henrik Ibsen)

    Para pais possessivos:
    poema "Os filhos", do livro "O profeta" (Gibran Khalil Gibran)

    Para adolescentes aflitos pela incomunicabilidade com os pais:
    "Carta ao Pai" (Franz Kafka)

    Para os deprimidos:
    "Bartleby, o escrivão" (Herman Melville) e "Oblomov" (Ivan Goncharov)

    Para quem está desesperançoso:
    "As aventuras do Sr. Pickwick" (Charles Dickens)

    Para viciados em trabalho que vivem estressados:
    "Meditações" (Marco Aurelio) e "Cartas a Lucílio" (Lucio Sêneca)

    Para os ansiosos e hipocondríacos:
    "O mal obscuro" (Giuseppe Berto, Ed. 34)

    Para mulheres que sabem que devem mudar, mas adiam uma decisão:
    "Mulheres que amam demais" (Robin Norwood, Ed. Arx), "O despertar" (Kate Chopin, Ed. Paz) e "Mulheres que correm com os lobos", (Clarissa Pinkola Estés, Ed. Rocco)

    Para quem não consegue administrar o sofrimento afetivo ligado à solidão e à traição:
    "Fragmentos de um discurso amoroso" (Roland Barthes) e "Eros e Pathos" (Aldo Carotenuto, Ed. Paulus)


    Um livro, três vezes ao dia

    Andrea Bolognesi, psiquiatra italiano especializado em biblioterapia, diz que conheceu a técnica quando ainda era estudante de medicina. Identificando em si mesmo sinais evidentes de hipocondria e neurose, apresentou-se no consultório de um famoso neuropsiquiatra para pedir ajuda. Ao contrário do que esperava, o médico não lhe receitou um remédio, mas escreveu no corpo de seu receituário o título de um livro: "La nevrosi, un doloroso stile di vita" (A neurose, um doloroso estilo de vida, sem tradução para o português). Bolognesi conta que o livro lhe ajudou a entender melhor seus medos e ansiedades.

    Agora é ele quem, sentado do outro lado da mesa, receita livros para seus pacientes, acreditando que, em alguns casos, eles têm um efeito mais profundo que o dos remédios. "É importante ressaltar, porém, que se trata de uma técnica coadjuvante que pode potencializar algum tratamento tradicional em curso, mas jamais substituí-lo", explica o psiquiatra.

    Em geral as questões que permitem o uso da técnica são aquelas de natureza existencial, como os ritos de passagem do tempo (adolescência, menopausa, velhice e morte). E, para Bolognesi, os clássicos são o melhor remédio. "Eles nunca saem da moda porque prestam algum serviço à alma dos homens", elogia.

    Na Itália, a iniciativa de Andrea Bolognesi não é isolada. Várias instituições públicas, como a Clínica Psiquiátrica da Faculdade de Medicina e Cirurgia da Universidade da Catânia, utilizam a técnica para os casos de depressão. Em outra parte do país, no Hospital Santa Maria Nova (Reggio Emilia), uma biblioteca foi especialmente organizada para oferecer aos pacientes e a seus familiares ajuda psicológica.

    Para crianças também

    No Brasil, uma das maiores entusiastas da biblioterapia é a psicóloga Lucélia Paiva, que há vinte anos usa a técnica em seu consultório e em hospitais, além de realizar workshops em todo país para médicos, educadores e psicólogos.

    Para ela, a biblioterapia facilita a interação por meio do livro, mas também pode ser utilizada como auxiliar de outras técnicas lúdicas: "o objetivo é abrir um canal de expressão para que a pessoa seja capaz de lidar melhor com os sentimentos que a afligem".

    Especializada em tratar questões que tenham a ver com a morte (não necessariamente a morte física), a psicóloga prioriza a literatura infantil em seu rol de livros terapêuticos. Ela explica que é na infância que se deve começar a falar sobre certas questões para as quais nem mesmo profissionais da área médica estão completamente preparados para enfrentar: "A nossa cultura é aquela que não fala da morte e, portanto, ninguém sabe realmente como lidar com as perdas em todos os níveis".

    Usando livros infantis para discutir temas existenciais tão profundos, Paiva explica que esse tipo de ferramenta na psicoterapia atua como as outras formas de expressão artística: por meio dela, a pessoa consegue desfazer os nós que dificultam a verbalização. "Através da narração literária, vem a possibilidade de falar sobre o que foi lido e que, no final, é o próprio sentimento da pessoa", explica.

    Indagada se num país como o Brasil, que conta poucos leitores, os pacientes resistem à sugestão de introduzir a literatura numa sessão de terapia, a psicóloga opina: "As pessoas não lêem porque não encontram eco naquilo que lêem".

    LIVROS QUE AJUDAM A EXPLICAR A MORTE PARA AS CRIANÇAS

    Sobre a morte na velhice:
    "O teatro de sombras de Ofélia" (Michael Ende, ed. Ática)

    Sobre a perda de avós:
    "Vovô foi viajar "(Maurício Veneza, ed. Compor)

    Sobre a perda de pais:
    "A montanha encantada dos gansos selvagens" (Rubem Alves, ed. Paulus) e "Não é fácil pequeno esquilo" (Elisa Ramon, ed. Callis)

    Sobre a perda de irmãos:
    "Emmanuela" ( Ieda Pereira de Oliveira, ed. Saraiva)

    Sobre os ciclos de vida:
    "A história de uma folha", (Leo Buscaglia, ed. Record); "Caindo morto" (Babette Cole, ed. Ática)

    Sobre as características e causas de morte, rituais de despedida e diferentes visões sobre o assunto:
    "Quando os dinossauros morrem" (Marc e Laurie Brown, ed. Salamandra - esgotado)

    quarta-feira, 8 de setembro de 2010

    Biblioterapia pode ser mais eficaz que antidepressivo

    Hélio schwartsman
    Articulista da folha

    Livros de autoajuda na área médica vendem horrores por uma razão muito simples: eles funcionam.


    Num trabalho publicado em 2004 no periódico "Psychological Medicine", Peter den Boer e seus colegas da Universidade de Gronigen, na Holanda, compararam vários estudos que avaliaram a eficácia de livros de autoajuda (biblioterapia) em casos clínicos de ansiedade e depressão.

    Concluíram que a biblioterapia é significativamente mais eficaz do que placebos ou inclusão em lista de espera para terapia, e praticamente tão eficaz quanto tratamentos curtos ministrados por um profissional. Ainda mais interessante, ela se mostrou medianamente mais eficaz do que o uso de antidepressivos.

    Esses resultados estão em linha com o que foi apurado em outras metanálises feitas principalmente nos anos 90, e também com as conclusões de uma força-tarefa que a Associação Psicológica Americana (APA) montou em fins dos anos 80.

    Antes, porém, de trocar seu psiquiatra (R$ 400 a sessão) e seu Prozac (R$ 145 a caixa com 28 cápsulas) por um livro (R$ 19,90 o exemplar de 'Como Curar a Depressão', Ed. Sextante), convém fazer algumas ponderações sobre esses achados.

    Parte do efeito positivo da biblioterapia pode ser atribuído a um viés de seleção. Deprimidos que buscam ativamente uma mudança de comportamento -ou seja, aqueles que compram os livros- são melhores candidatos à cura do que os pacientes que sucumbiram à apatia.

    Outro problema é que os estudos de eficácia normalmente avaliam obras de boa qualidade, escritas por profissionais gabaritados. Essa, evidentemente, não é a regra num mercado que lança milhares de títulos por ano.

    E, como os remédios, livros errados envolvem alguns riscos. Num trabalho publicado em 2008 em 'Professional Psychology', Richard Redding e colegas avaliaram 50 obras de alta vendagem nos EUA relativas a transtornos de ansiedade, depressão e trauma.

    Como era de esperar, a qualidade e os problemas variam muito. Há desde aqueles livros que apenas esquecem de avisar que o tratamento pode falhar (50% dos títulos) até os que dão conselhos capazes de provocar efeitos adversos (18%).

    A boa notícia é que, prestando atenção a alguns poucos itens, como se o autor é um profissional de saúde mental e se tem títulos acadêmicos, é possível fugir das piores arapucas. Em princípio, essa regra deve valer também para o Brasil.

    Ressalvas à parte, a literatura médica de autoajuda é um fenômeno que deveria ser olhado com mais carinho por profissionais e autoridades. Ela tende a funcionar ao menos em alguns casos, permite atingir grandes populações, e apresenta a melhor relação custo-benefício.

    Matéria publicada em 31/08/2010

    quinta-feira, 19 de agosto de 2010

    A Sala de Leitura Salim Miguel do HU/UFSC humanizando a hospitalização

    A Sala de Leitura Salim Miguel (SSM) do Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina (HU/UFSC) foi inaugurada no dia 08 de novembro de 2005, com o objetivo de contribuir com o processo de humanização e incentivar o hábito da leitura de pacientes internos, externos, acompanhantes e servidores do HU, além de agregar valor aos serviços oferecidos pela instituição.


    A Sala de Leitura Salim Miguel é um espaço destinado aos pacientes internados ou não, seus acompanhantes e servidores lotados no HU, com o objetivo de contribuir com a humanização hospitalar, incentivar o gosto e o hábito da leitura de pacientes internos, externos, acompanhantes e servidores além de agregar valor aos serviços oferecidos pela instituição.

    A SSM proporciona aos seus usuários, além da leitura atividades culturais e de entretenimentos como teatro, dança, recitais poéticos dentre outros.


    O acervo é formado por obras de vários gêneros, como: literatura brasileira, estrangeira, infantil e auto-ajuda. Além de revistas, gibis e jornais, todos doados pela comunidade.

    O acervo inicial foi doado pelo Projeto Sala de Leitura da White Martins juntamente com o Grupo Editorial Record. Na oportunidade foi doado 1.000 obras, quinhentos títulos de todos os gêneros literários.


    Atualmente o acervo é composto por, aproximadamente, 4.000 obras graças a colaboração da comunidade que não mede esforços para realizar sua doação.

    terça-feira, 10 de agosto de 2010

    Biblioterapia: um cuidado com o ser - Clarice Fortkamp Caldin


    Biblioterapia: um cuidado com o ser
    Clarice Fortkamp Caldin
    ISBN: 9788560434657
    Páginas: 200
    Ano de Publicação: 2010

    Sinopse: Biblioterapia: um cuidado com o ser

    A leitura é um fenômeno corporal, temporal, descentrado, intersubjetivo, transcendental. É um ato de comunicação que ultrapassa o corpo do autor e atinge o corpo do leitor ou do ouvinte. A partir da teoria da linguagem de Merleau-Ponty, especificamente a respeito da fala falante, a autora credita à leitura possibilidades terapêuticas. O envolvimento do leitor com o livro, o preenchimento dos vazios do texto literário, a significação como continuidade e retomada do texto, permitem que se pense na terapia por meio de livros, a biblioterapia.

    Disponível na Editora Porto de Ideias

    segunda-feira, 26 de julho de 2010

    Livros e brincadeiras ajudam na recuperação de crianças

    As Salas de Leitura Primeira Infância instaladas em alguns hospitais atendem centenas de crianças por mês. Parte do projeto Ler é Saber do Instituto Brasil Leitor (IBL), organização voltada para a criação e gestão de projetos de estímulo à leitura e à educação, estas salas oferecem um acervo de 720 itens como livros, brinquedos educativos, mobiliário e aparelhos eletroeletrônicos.

    O espaço lúdico promove a interação entre as crianças através da leitura, oficinas, jogos, teatro e música, e contribui para a humanização do atendimento hospitalar, sendo um fator muito significativo na recuperação do paciente infantil. “Estamos modificando o cotidiano das crianças internadas nestas instituições. As brincadeiras e a leitura promovem não só a continuidade do desenvolvimento infantil, como também a possibilidade de, através dele, a criança hospitalizada se recuperar mais rápida e tranquilamente,” declara Ivani Nacked, diretora e coordenadora das bibliotecas da Primeira Infância.

    Foi em parceria com o IBL e a iniciativa privada que a Santa Casa de Misericórdia de São Joaquim da Barra (SP) inaugurou a Sala de Leitura José Olyntho Fortes Junqueira, em 17 de abril de 2007. “Com a implantação da sala, humanizamos a pediatria. Incentivar a leitura era o que faltava para quebrar o silêncio e colorir o hospital”, declara João Alberto Destro, administrador da Santa Casa.

    Destro destaca ainda que o contato com os livros tem acelerado o processo de recuperação dos pequenos e diminuído o tempo de internação hospitalar. “Queremos essas crianças em casa, com a família, brincando, estudando. Presas no leito, elas sofrem com a ansiedade e estressadas recusam o medicamento. Tudo se torna dificultoso. Aproximando a criança do seu próprio mundo, conseguimos tranquilizá-la. Mais calma e solidária adere ao tratamento e se cura”, conclui.

    Livros ajudam na recuperação

    Outros profissionais da saúde e educadores também acreditam que esse contato com o livro e a leitura melhora o estado emocional dos pequenos pacientes e em muitos casos antecipa a alta médica. “Os livros dão força para a superação”, afirma Claudio Cesar Pimentel, coordenador do setor de educação e cultura do Hospital Pequeno Príncipe de Curitiba, onde está localizada a Sala da Primeira Infância Ruth Rocha, inaugurada em 26 de junho de 2008.

    Atendimento humanizado

    Cada um dos hospitais utiliza o lúdico das salas de leitura no atendimento às crianças hospitalizadas. No Hospital do Câncer de Barretos, interior de São Paulo, não é diferente. O objetivo da Sala de Leitura Oswaldo Ribeiro de Mendonça, inaugurada em outubro de 2009, também é reabilitar os pequenos pacientes por meio de atividades lúdicas e pelo estímulo à leitura. Todas as instalações são adaptadas para atender às necessidades específicas do ambiente hospitalar como o carrinho palhaço, que pode ser levado para todo lugar, e pode ser colocado entre duas camas do hospital, para uma criança interagir com a outra através dele, lendo os livros, aprendendo com os fantoches e com os brinquedos educativos. “Como parte de um atendimento humanizado, permitimos através dessa iniciativa que a criança tenha acesso a uma vivência que não teria em casa: o acesso aos livros e a leitura,” conta a enfermeira Debora Campos, gerente da pediatria do HC de Barretos.

    A brincadeira não é um mero passatempo. Ao contrário, todo ato de brincar e de envolver-se com o brinquedo traz para as crianças elementos simbólicos, que podem ser curativos. “As brincadeiras, artes plásticas, músicas e jogos trazem alegria a elas e também resgatam a condição de ser criança. Mesmo acamada o tempo inteiro, brincando elas se afastam da doença, sociabilizam-se com outras crianças e saem do isolamento que a internação provoca, ” conclui Talita de Carvalho, psicóloga da pediatria do HC de Barretos.

    Matéria publicada em 16/03/2010

    Fonte: Hospitalar